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16.2.26

“Bird” - Clint Eastwood (EUA, 1988)

Sinopse:
Cinebiografia do saxofonista de jazz Charlie "Bird" Parker (Forest Whitaker), que morreu aos 34 anos de overdose de heroína. O filme mostra o relacionamento difícil de Parker com sua esposa, Chan Parker (Diane Venora), assim como cenas do saxofonista improvisando no palco iluminado com neon e fumaça de cigarro em clubes antigos de jazz.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano de quem já assisti 22 filmes, dentre eles a obra-prima “Os Imperdoáveis” (1992) e os ótimos “O Estranho Sem Nome” (1973), “As Pontes de Madison” (1995), “Sobre Meninos e Lobos” (2003), “Menina de Ouro” (2004), “Cartas de Iwo Jima” (2006) e “A Conquista da Honra” (2006).
“Bird” (1988) conta a história do saxofonista americano de jazz Charlie Parker (1929-2012). O título do filme é o apelido dele. Começou sendo Yardbird e, mais tarde, esse apelido foi encurtado para Bird, que significa pássaro em português.
Marcelo Orozco do site Giz_br nos conta que “Charlie nasceu em Kansas City, uma cidade grande com uma expressiva cena de jazz nos anos 1920 e 1930. Após dominar os rudimentos do saxofone alto, mais agudo que o tenor, o rapaz meteu as caras para tocar em alguma banda ou orquestra. Com 16 anos, já viajava para tocar profissionalmente e ficou baseado em Ozark, no estado do Missouri. Em 1939, mudou-se para Nova York para uma grande aposta em sua carreira. Logo tornou-se músico fixo da banda de Jay McShann, na qual ficaria até 1942. As grandes descobertas viriam na metrópole.
Numa jam session (sessão de improviso de músicos em suas horas vagas), Charlie descobriu que podia desconstruir toda a estrutura de notas da música ‘Cherokee’ – tocava algumas notas ou sequências, deixava outras de fora, acelerava a velocidade com que tocava um jorro de notas e obtinha um resultado que era praticamente outra música. Este era praticamente o método do bebop. Desconstruir para criar algo novo e diferente. Se pensarmos bem, isso segue sendo feito até hoje, só que agora digitalmente através de samplers.
Mas, além de criar em cima de standards, Parker e a turma do bebop também compunham do zero. E, quando falamos em turma, ela inclui o primeiro e maior parceiro de Parker: o trompetista Dizzy Gillespie, igualmente genial e com um visual ímpar, com boina, cavanhaque e bochechas que se inflavam como baiacus quando tocava.
Parker e Gillespie se conheceram numa esquina de Nova York. E descobriram que eram almas gêmeas musicais na criatividade e na ambição de fazer algo importante. Com outros monstros jovens como os pianistas Thelonious Monk e Bud Powell, e o baterista Max Roach, formou-se um núcleo duro de um novo jeito de tocar jazz. Não havia uma banda fixa na maior parte do tempo, mas o estilo ganhou um nome que agregava a todos: bebop.
Por causa de uma greve do sindicato dos músicos em relação às gravadoras entre 1942 e 1944, o bebop só chegou ao vinil com certo atraso. Como líder, Charlie Parker só gravou e lançou seus primeiros discos em 1945.
Dizzy partiu para formar seu próprio grupo em seguida e seu substituto na banda do líder Parker foi um rapazinho de 19 anos chamado Miles Davis. É impressionante a quantidade de gênios que orbitou em torno de Parker. (...)
Criou-se um culto a Parker que chegou a extremos de obsessão. Havia fãs dedicados que levavam gravadores rústicos aos shows para gravar apenas o saxofone de Parker. Isso gerou uma circulação de fitas e discos clandestinos (ou seja, piratas) que não tinha comparação na época.
(...) A célebre velocidade de Parker no saxofone não era pura técnica exibicionista sem alma. Ele era perfeitamente capaz de tocar lentamente e com sentimento, especialmente nas covers de baladas românticas. Charlie também não tinha medo de experimentar. Apreciador de música clássica, persistiu com gravadoras até finalmente conseguir gravar um álbum inteiro com orquestra de cordas, o célebre ‘Charlie Parker With Strings’, gravado em novembro de 1949 e puxado pelo clássico ‘Summertime’.
O problema é que a genialidade musical era afetada pelo comportamento errático de Charlie por seu vício pesado em heroína. Numa temporada na Califórnia, botou fogo nos lençóis de seu quarto de hotel e, pelado e chapado, saiu em disparada pelos corredores. Foi detido e internado de julho de 1946 a janeiro de 1947 no hospital psiquiátrico de Camarillo – que inspiraria sua brilhante composição ‘Relaxin’ at Camarillo’, gravada logo após sua saída da internação.
Outros incidentes causados pela droga podem ter sido menos espetaculares ou históricos. Mas não menos danosos à carreira e à saúde de Bird. Por isso seu corpo estava num estado lastimável ao morrer”.
O filme foi uma grande homenagem que Clint Eastwood fez a esse saxofonista mas, segundo Orozco, “dividiu opiniões quando chegou aos cinemas e ainda tem defensores e antipatizantes” pois “estudiosos do jazz questionam um monte de detalhes e incongruências de ‘Bird’. Uma das principais é a cena em que Parker fica revoltado ao ver um velho amigo saxofonista tocando rhythm’n’blues dançante – ou uma versão pioneira de rock’n’roll – num show. O amigo toca poucas notas ruidosas com intensidade puramente rítmica e apela para a tosca ‘buzinada’ (‘Honk!’) para excitar a plateia. Na saída do palco, Parker manifesta sem cerimônia sua contrariedade em relação ao que acabou de ver. Essa cena foi questionada. Charlie era um apaixonado por música, independentemente de estilos, e poderia até ter arriscado alguns experimentos com o rhythm’n’blues ou o rock’n’roll, que estouraria e tomaria conta do mundo uns poucos meses depois de sua morte”.
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Clint Eastwood já dirigira treze filmes antes de ‘Bird’ (1988), quase todos com qualidade acima da média. Mas, foi com a cinebiografia de Charlie ‘Bird’ Parker que Eastwood conquistou respeito como diretor de filmes de prestígio. Para os franceses, representou um presente, o argumento que precisavam para comprovar seu cinema autoral”.
O que disse a crítica 2: Matthew Vilela do site Mais Goiás colocou “Bird” na lista dos 10 melhores filmes feitos por Eastwood. Ele disse: “Eu amo jazz e Charles ‘Bird’ Parker foi um dos grandes artistas norte-americanos do gênero. Esta cinebiografia dirigida por Clint Eastwood e estrelada por Forest Whitaker segue a cartilha básica de cinebiografias no cinema, mas as atuações são tão boas, e a direção de Eastwood valoriza tanto elas, que o resultado é puro prazer”.
O que eu achei: Em "Bird" (1988), Clint Eastwood realiza um verdadeiro trabalho de amor. Escritor, produtor e diretor, o astro durão revela aqui sua face mais sensível: a de um apaixonado por jazz, pianista nas horas vagas e admirador confesso do gênero (anos antes já havia homenageado Thelonious Monk em documentário). O resultado é uma obra-prima que transcende o formato de cinebiografia. O filme mergulha na vida de Charlie Parker, o lendário 'Bird', figura central do bebop, revolucionário na técnica e na linguagem musical. Eastwood conduz a narrativa com delicadeza e precisão, capturando a atmosfera esfumaçada dos clubes, a vibração quase mística das jam sessions e a intensidade criativa que pulsava naquela geração. A trilha sonora autêntica não é mero acompanhamento: é alma, respiração e matéria viva. A estrutura narrativa impressiona. A montagem fragmenta a cronologia de forma tão fluida que o espectador é conduzido por memórias e estados de espírito sem perceber rupturas. Mais do que contar fatos, o filme traduz sensações. O efeito das drogas, o caos emocional, os altos e baixos de uma trajetória marcada por genialidade e autodestruição, tudo é sentido na pele. Não sei até que ponto a biografia é rigorosamente fiel aos fatos, há quem aponte uma ou outra inconsistência, mas isso se torna secundário diante da verdade emocional alcançada. Ao final compreendemos o espírito de Parker: sua dor, sua urgência criativa, sua grandeza. Vale destacar a atuação monumental de Forest Whitaker. Ele não interpreta Parker; ele o incorpora. Sua presença em cena é hipnótica, humanizando o mito sem jamais diminuir sua dimensão histórica. “Bird” é cinema no mais alto nível: sensorial e profundamente comovente. Uma celebração da arte e de um gênio que mudou a música para sempre. Obra-prima.

14.7.25

“Rota Suicida” – Clint Eastwood (EUA, 1977)

Sinopse:
Um policial durão (Clint Eastwood), porém comum, recebe a missão de ser o guarda-costas de uma prostituta (Sondra Locke) que está sob custódia. Ele tem que escoltá-la de Las Vegas até Phoenix, para que ela possa depor como testemunha no julgamento de uma quadrilha. O que era para ser uma simples tarefa se transforma num pesadelo, porque muitos querem impedir que os dois cheguem até Phoenix, inclusive quem o policial achava ser uma pessoa de confiança.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano de quem já assisti 21 filmes, dentre eles a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992) e os ótimos “O Estranho Sem Nome” (1973), "As Pontes de Madison" (1995), "Sobre Meninos e Lobos" (2003), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006), "Cartas de Iwo Jima" (2006) e “Jurado Nº 2” (2024). Desta vez vou conferir "Rota Suicida" (1977).
Segundo a redação do site Entretelas, “Quando lançou 'Rota Suicida' em 1977, Clint Eastwood desfrutava o título de um dos atores mais populares de filmes de ação hollywoodianos. O longa, também estrelado por ele ao lado de Sondra Locke, representou uma mudança significativa em sua imagem, e marcou o início de sua transformação contínua como artista, então em franco processo de amadurecimento.
'Rota Suicida' acompanha Ben Shockley (Eastwood), um policial rígido, porém medíocre e alcoólatra, que precisa escoltar Gus Mally (Locke), uma prostituta, no trajeto entre Las Vegas e Phoenix, para que ela possa testemunhar em um julgamento. Ao longo da rota, os dois são perseguidos e correm riscos, e acabam precisando provar a própria inocência para as autoridades.
Embora a sua trajetória como figura central em longas de ação fosse extremamente popular, Eastwood não era exatamente bem quisto pela crítica especializada como ator. Em seus projetos, Clint costumava interpretar personagens que eram vistos como figuras narrativamente pobres, simplistas e tomadas de clichês. Paralelamente, como cineasta, sua tática era apostar em personagens sensíveis, que eram o total oposto do ‘policial truculento e rígido, em uma estratégia para ir de encontro à visão inicial que se tinha sobre ele.
Com 'Rota Suicida', Clint decidiu abordar de outra forma a percepção pública e da mídia de sua trajetória artística, a fim de revolucionar a fórmula em que ele se encaixava e, consequentemente, como era visto. Em uma missão para se desvencilhar dos clichês que eram apontados em sua atuação, seu Ben Shockley de 'Rota Suicida' é o total oposto de Harry Callahan, cuja principal característica era ser um policial correto e obstinado.
Segundo recorda o ScreenRant, o longa funciona mais como uma paródia dos blockbusters de ação que fizeram a fama do cineasta. Além de Shockley e Gus conseguirem escapar de sequências praticamente irreais, há um tom humorado na forma como os personagens e o próprio filme lidam com tudo isso. Além disso, Shockley está longe de ser o figurão bruto que Eastwood estava acostumado a interpretar, e este é um dos raros filmes em que o personagem de Clint não mata ninguém.
Considerado um dos filmes mais abertamente comerciais de Clint Eastwood, 'Rota Suicida' não está exatamente entre os favoritos da carreira do cineasta mas, para muitos analistas, tem todas as características que o tornam um clássico entre a sua cinebiografia”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “A completa conexão entre os personagens se dá de modo esperado e interessante no desfecho do filme, com algum exagero e estupidez em torno deles, mas que para o efeito pretendido - e diante do que se tinha mostrado do Comissário Blakelock (William Prince) até então –, esperado. Um final romântico para uma ação construída na base do morde-e-assopra e de tensão à toda prova”.
O que disse a crítica 2: Roger Ebert avaliou com o equivalente a 3,75, ou seja, muito bom. Escreveu: “Eastwood dirigiu a si mesmo novamente desta vez, e ele é um bom artesão de ação (...). Ele também é bom em desenvolver relacionamentos; apesar da enxurrada de violência do filme, há um ritmo agradável enquanto seu policial e prostituta se esforçam em suas provações e começam a gostar e respeitar um ao outro. Como na maioria dos filmes de Eastwood, aliás, o papel da mulher é bom: Eastwood tem uma imagem tão machista que talvez as pessoas não tenham notado que suas companheiras femininas (...) têm mentes próprias e nunca pretendem ser meramente decorativas”.
O que eu achei: Quando Clint Eastwood dirigiu a si mesmo neste filme de 1977, a ideia dele era se livrar, de alguma forma, do estigma de seu personagem Dirty Harry, compondo aqui um perfil diferente do truculento policial, mostrando uma faceta mais frágil e sensível de ser. Na trama, ele encarna um policial alcoólatra e meio desajustado, a quem é designada a missão de escoltar uma prisioneira de Las Vegas até Phoenix, para que essa mulher preste testemunho em um julgamento. O resultado não chega nem aos pés de suas obras posteriores, mostra uma direção que carece de amadurecimento, apesar de já ser seu sexto filme como diretor. Trata-se basicamente de um thriller de perseguição, com os dois tentando chegar à Phoenix de carro, a pé, de moto, de avião e de ônibus enfrentando tiros de todos os lados, naquela obstinação de cumprir o dever salpicada por um pouco de romance. Por sorte, a personagem feminina não é uma sonsa, mas sim uma prostituta inteligente e raivosa. O final é a pior parte pois encerra essa jornada da forma mais inverossímil possível. Mediano no máximo.

25.5.25

“Jurado Nº 2” - Clint Eastwood (EUA, 2024)

Sinopse:
Justin Kemp (Nicholas Hoult) é um pai de família que serve como jurado em um importante julgamento de assassinato. Ele se depara com um dilema moral significativo que pode influenciar o veredito do júri, potencialmente condenando ou absolvendo o réu acusado de homicídio.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992); os ótimos “O Estranho Sem Nome” (1973), "As Pontes de Madison" (1995), "Sobre Meninos e Lobos" (2003), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009), "J. Edgar" (2011) e "O Caso Richard Jewell" (2020) “Cry Macho: O Caminho Para Redenção” (2021) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015), "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016), "15h17 - Trem para Paris" (2018), "A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018) e "Cowboys do Espaço" (2000). Desta vez vou conferir “Jurado Nº 2” (2024).
Luiz Joaquim do site Cinema Escrito nos conta que “Clint Eastwood, 94 anos, volta às luzes do mundo, e o ilumina mais uma vez, nos intrigando com o seu mais recente trabalho (será o último?): ‘Jurado #2’, (...) [um filme com] o habitual contraste entre o certo e o errado, entre o justo e o injusto que tanto marca sua filmografia, e não apenas como diretor. E o melhor, sem arroubos ou gorduras. Entregando ao espectador médio de maneira fácil um conflito profundo para ele próprio decidir que lado tomar a partir de dados simples, quase corriqueiros. Daqueles dignos de representar qualquer cidadão comum.
Para entender, basta saber pouco do enredo. Temos o jovem e feliz Justin (Nicholas Hoult) com a sua esposa Allison (Zoey Deutch) prestes a dar à luz a primeira filha do casal. Enquanto isso, Justin, a contragosto, foi escolhido para compor um júri de 12 integrantes civis – entre eles o ex-policial Harold (J. K. Simmons) – para um julgamento de assassinato. O acusado James (Gabriel Basso) vai a julgamento pela suspeita de ter assassinado sua namorada jogando-a de uma ponte. Há inclusive uma testemunha ocular que confirma ter visto James empurrando-a. Tudo aponta para um óbvio veredito: culpado! Mas acontece que, durante o julgamento, Justin se dá conta que James é inocente por uma informação que apenas Justin possui. O ponto é: após consultar seu pastor e também advogado, Larry (Kiefer Sutherland), Justin compreende que compartilhar com o júri essa informação para inocentar James comprometeria toda a sua vida e a de sua esposa e filha.
Está dado o dilema, e ele não é pequeno. Nunca foi para Eastwood. Tanto que em ‘Jurado #2’, os aspectos legais e formais do julgamento, com o advogado de defesa Eric (Chris Messina) e com a promotora Faith (Toni Collette), desfiando suas provas e argumentos, não toma metade do filme. O interesse de Eastwood aqui, nesse belo roteiro original de Jonathan A. Abrams, está nas discussões dos 12 integrantes do júri. Está no exercício rebolativo de Justin em convencer quase a totalidade de seus colegas no júri, convictos na culpa de James, que o acusado é inocente. Mas isso sem revelar a sua informação privilegiada.
Com fotografia de Yves Bélanger, é muito bom perceber não apenas um padrão temático de Eastwood no seu ‘Jurado #2’ mas também estético. Desde um simples plano contra-plongée de dentro do carro da advogada de acusação (típico em seus filmes policiais), até o velho e bom plano do protagonista Justin chorando desamparado dentro de seu carro sob a chuva, com o enquadramento por fora do carro, mostrando filetes d’água da chuva escorrendo pelo para-brisa e ampliando poeticamente a sua angústia. Em ‘Menina de Ouro’, só para citar um de seus filmes com o recurso, a mesma situação ocorre com Maggie (Hilary Swank).
Colocar ‘Jurado #2’ diante de uma boa parte da gigante filmografia de Eastwood é também confrontar uma de suas maiores marcas. O cuidado com a lei, mas a necessidade de quebrá-la para estabelecer a justiça aos olhos do protagonista. O crítico Fernando Ganzo lembrou bem na Cahiers du Cinèma (...) que o link recente e imediato para ‘Jurado #2’ é ‘O Caso Richard Jewell’ (2018), uma vez que ‘não existe uma só forma de estabelecer justiça, seja pelo que nos é dado no aparente ou não, seja condenando monstros ou santificando heróis’. Por essa diretriz, Eastwood nos põe no novo filme de fronte a um contexto em que não podemos acusar ninguém - afinal, todos são vítimas: Justin, James e a sua falecida namorada -, mas temos, espectadores, que concordar que há uma responsabilidade moral que precisa ser contemplada. E isto tem um preço alto.
Interessante que, ao final, ‘Jurado #2’, nos dá um tapa na cara. Nos dois lados da cara. Tanto na nossa face que nos faz torcer pelo bom rapaz protagonista, Justin – ‘pai da ideal família americana’ - quanto na nossa face que sempre caminhou pelas trilhas da justiça a la Eastwood ‘Make my Day!’. Temos, enfim, a desconstrução do seu herói clássico - aquele que buscava por todos os meios a salvação. Isto porque é a lei que irá se impor aqui, ao fim e ao cabo. Num final aberto, mas com o rosto duro da promotora chamada Faith (Fé, em português) dando a eloquência das consequências de se encarar a verdade: a única e autêntica ferramenta da justiça”.
O que disse a crítica 1: Ty Burr do site Washington Post avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “Eastwood nunca foi um cineasta de estilo, e esse filme em particular tem a enfadonha e proficiente clareza de um filme feito para TV. Ainda assim, ‘Jurado No. 2’ contém a experiente sabedoria de um artista indo de uma contemplação sobre como a sociedade falha com quem chama de heróis para uma reflexão sobre as maneiras que um homem pode simplesmente falhar consigo mesmo”.
O que disse a crítica 2: Sérgio Alpendre da Folha SP avaliou com 5 estrelas, obra-prima. Escreveu: “Como um mestre, em ‘Jurado Nº 2’ Eastwood encaminha o drama para um desfecho surpreendente, dos mais brilhantes de sua brilhante carreira. Sem saídas fáceis, nem apaziguamento do espectador”.
O que eu achei: Sempre que é lançado um filme do Clint Eastwood eu gosto de ver pois, apesar do machismo e de um tanto de nacionalismo nas suas produções, o cara é um cineasta – e também um ator - a se respeitar, que sabe como contar uma história. Um bom representante do clássico cinema americano. Este “Jurado Nº 2” foi rodado recentemente, com o cineasta com 94 anos de idade. Então você se pergunta: será que ele ainda dá conta de uma empreitada como essa? Com uma distribuição bem comprometida, estreando apenas em 50 salas nos EUA e em poucas salas na Europa, o filme foi diretamente para o streaming. Essa decisão da Warner foi interpretada como um boicote devido às opiniões políticas de Eastwood, que não são bem vistas pelos executivos do estúdio. Uma pena pois se como profissional ele já mereceria um pouco mais de respeito, o filme em si também mereceria como produto, pois é um filme e tanto. Se você vê o trailer você pensa que já sabe tudo sobre a trama, mas que nada, o buraco é mais embaixo e a moralidade dos homens - em especial de dois personagens - vai sendo colocada em cheque, enveredando na investigação de papéis sociais, bases ideológicas, verdades e mentiras. Sem diminuir a capacidade do espectador, o desfecho surpreende, colocando esses dois personagens cara a cara: afinal a quem interessa a justiça? O longa parece inspirado por “12 Homens e uma Sentença” (1957) de Sidney Lumet; Nicholas Holt está gigante no papel do jurado de número 2, o personagem principal; e a direção de Clint Eastwood continua sim em plena forma. Filmaço!

16.9.24

“O Estranho Sem Nome” - Clint Eastwood (EUA, 1973)

Sinopse:
 Um homem estranho e misterioso (Clint Eastwood) chega ao pequeno povoado de Lago. Ao descobrir que três foras da lei estão a caminho da região para aterrorizá-la, o xerife (Walter Barnes) o contrata para unir seus habitantes e preparar uma recepção não muito calorosa para eles.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992); os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Sobre Meninos e Lobos" (2003), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009), "J. Edgar" (2011) e "O Caso Richard Jewell" (2020) “Cry Macho: O Caminho Para Redenção” (2021) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015), "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016), "15h17 - Trem para Paris" (2018), "A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018) e "Cowboys do Espaço" (2000). Desta vez vou conferir “O Estranho Sem Nome” (1973).
Ruy Gardnier do site Contracampo nos conta que “’O Estranho Sem Nome’ é o segundo filme de Clint Eastwood, e o primeiro em que o diretor se dedica a um gênero que vai revisitar mais algumas vezes, sempre com resultados surpreendentes: o western. 
Ora, conhecemos o percurso do autor: trabalhou como ator coadjuvante em uma série de filmes B (dentre os quais dois de Jack Arnold), depois uma temporada na Itália na qual sua figura ficou para sempre marcada através dos tipos que fez para Sergio Leone e, na volta para a América do Norte, papéis em alguns faroestes e notadamente nos filmes de Don Siegel, em que compunha um herói violento que aos poucos foi se transformando em ‘Dirty Harry’, seu papel mais famoso. Se em todas as suas atuações anteriores ele devia ouvir o diretor para saber como comportar-se para construir seu personagem, desta vez trata-se de ele mesmo conduzir seu filme, conduzir a equipe e os atores para aquilo que ele deseja fazer com o western.
(...) Logo nos primeiros instantes começado o filme, nota-se a sequência mais leoniana [referente ao Sérgio Leone] já filmada nos EUA, toda em primeiros planos do tal ‘estranho sem nome’ chegando na cidade e, em campo/contracampo, dos olhos estupefatos dos habitantes do pequeno vilarejo de Lago em que o cavaleiro acaba de chegar com seu cavalo. Se nas atmosferas iniciais Eastwood presta tributo ao primeiro diretor com quem aprendeu cinema, a homenagem ao segundo não tardará por vir. Aos poucos perceberemos que esse personagem que toma a justiça em suas próprias mãos, que antevê os pensamentos dos outros e age antes dele é também uma singela homenagem a Don Siegel, com quem já havia feito, entre outros, ‘Meu Nome É Coogan’ e o primeiro ‘Dirty Harry’. (...)
Mas se há muito de homenagem nesse primeiro faroeste dirigido por Eastwood, há também muito do nascimento das questões que vão assombrar a maioria dos filmes que ele irá dirigir do começo dos anos 70 até hoje: a justiça, a responsabilidade, a tomada de decisões, as ambiguidades e sutilezas da justiça dos homens (...)”.
O título original “High Plains Drifter” significa “Vagabundo das Altas Planícies”.
O que disse a crítica 1: Rodrigo Cunha do site Cine Players avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: a película tem “boas cenas, uma trilha sonora impecável e pelo menos duas ou três passagens inesquecíveis em um filme que abusa física e psicologicamente de todos que protagonizam aquela história - além do público, claro, que vê passivo essa reconstrução do arco ser redefinida sem muito poder fazer além de se chocar. É um filme que muito mais denuncia a corrupção do ser humano do que está interessado em dar respostas, respeitando a inteligência do público”.
O que disse a crítica 2: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “um dos grandes faroestes que Clint Eastwood dirigiu. Talvez aquele que mais mostra a influência de Sergio Leone, adquirida nos três filmes que realizaram juntos, conhecida por alguns como ‘Trilogia do Homem sem Nome’. Traz muita brutalidade e violência, como víamos nos spaghetti westerns em geral. Além disso, o filme absorve também o pessimismo da época, aproximando o diretor Eastwood dos cineastas da Nova Hollywood”.
O que eu achei: Sabendo que este é apenas o segundo filme dirigido pelo Clint Eastwood, apertei o play sem esperar grande coisa, mas fui surpreendida por um excelente filme. O fato dele já ter uma bagagem como ator - primeiramente como coadjuvante em filmes B, depois como ator principal na Itália para o mestre Sergio Leone e, em seguida, como ator principal na América do Norte -, com certeza o ajudou a executar a nova tarefa com algum know-how. A dupla função ator-diretor que ele assume – e que viria a se repetir inúmeras vezes ao longo de sua extensa carreira - é exercida com tamanha maestria que você não vai querer piscar os olhos para não perder a trama bem arranjada sobre esse outsider valentão que chega no vilarejo e é contratado pelo xerife para organizar uma recepção nada amistosa para três assassinos que terminaram de cumprir suas penas na prisão e muito provavelmente aparecerão na cidade para se vingar. Enquanto você espera uma coisa, a trama se rearranja e você é surpreendido por uma grande reviravolta que te tira completamente da zona de conforto. Então se você está a procura de um bom western para ver, se jogue sem medo. O único ponto negativo é a forma como essa figura machista trata as poucas mulheres que habitam a vila. Interessante observar como nos anos 70 isso simplesmente não nos incomodava e hoje as cenas saltam aos nossos olhos, o que me parece um bom sinal dos novos tempos. Tirando isso, é uma excelente pedida.

11.6.23

“Cry Macho: O Caminho Para Redenção” – Clint Eastwood (EUA, 2021)

Sinopse:
O ex-astro de rodeio e criador de cavalos fracassado Mike Milo (Clint Eastwood) aceita uma proposta de trabalho de um ex-chefe (Dwight Yoakam) para trazer seu jovem filho Rafa (Eduardo Minett) de volta do México para casa. A dupla improvável enfrenta uma jornada desafiadora, durante a qual o cavaleiro cansado do mundo pode encontrar seu próprio senso de redenção ensinando ao menino o que significa ser um bom homem.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992); os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Sobre Meninos e Lobos" (2003), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009), "J. Edgar" (2011) e "O Caso Richard Jewell" (2020) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015), "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016), "15h17 - Trem para Paris" (2018), "A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018) e "Cowboys do Espaço" (2000). Desta vez vou conferir “Cry Macho: O Caminho Para Redenção” (2021).
Em 2018 Clint Eastwood, à época com 88 anos, anunciou que iria continuar a dirigir filmes, mas que iria se aposentar da telona como ator, então foi uma surpresa ele desistir da ideia e voltar a estrelar e comandar um novo filme. Mesmo com a pandemia e com a idade avançada - em 2020, quando o filme foi rodado, ele estava com 90 anos de idade - ele mostrou que continua com muita vontade de trabalhar com o que gosta. 
No filme, ambientado entre o final dos anos 1970 e 1980, Eastwood interpreta Mike Milo, um ex-cowboy de rodeios que tentou se reinventar como criador de cavalos, sem sucesso. Um dia, Mike recebe o pedido de seu ex-patrão, Howard Polk (Dwight Yoakam), para ir até o México resgatar seu filho Rafael "Rafo" (Eduardo Minett) e trazê-lo para o Texas. A princípio relutante, o veterano vaqueiro acaba aceitando a missão. 
O roteiro foi escrito por N. Richard Nash, baseado em livro de 1975 de sua autoria. O título faz referência ao nome do galo de briga que Rafael cria: Macho, o maior ou talvez o único amor de sua vida. 
O que disse a crítica 1: A crítica especializada, em geral, gostou do resultado. Das cinco resenhas que eu li, quatro delas davam nota 4 (excelente) ao filme. Célio Silva do site G1 gostou. Escreveu: “Consagrado como um bom realizador, Eastwood não tem pudores de usar elementos de ‘Os Imperdoáveis’, ‘Gran Torino’ e ‘Um Mundo Perfeito’ para contar a sua história e torná-la a mais cativante possível, mesmo que não apresente grandes surpresas. Mesmo assim, funciona de forma satisfatória, leve e bem humorada, com seu intuito de desconstruir a imagem de homem durão, celebrada em toda a carreira do ator e diretor”. Silva salienta que a trama não oferece grandes surpresas, as situações são em geral simples, resolvidas de forma corriqueira, porém os personagens são agradáveis e boas situações de humor conseguem cativar o público e tornar a falta de peso dramático um problema a ser relevado". 
O que disse a crítica 2: Marcelo Hessel do site Omelete achou o resultado ótimo. Ele disse: “O que ‘Cry Macho’ tem de melhor é justamente essa cadência lenta de nonagenário, um ritmo que faz as coisas assentarem e ganharem peso dramático: uma atenção aos pequenos gestos e não aos arroubos. (...) No fundo, o que estamos vendo é um falso filme de escapada, já que tudo nele se faz sem pressa”. 
O que disse a crítica 3: Felipe Galeno do Cinematório também adorou. Escreveu: “Enquanto rejeita, em certa medida, os ideais de masculinidade bruta que sua própria feição já carregou por décadas na tela grande (‘esse papo de macho é superestimado’, afirma o protagonista), Clint Eastwood encontra na ideia da vida comum e na generosidade para com o próximo uma ideologia substituta. E, por mais que ele ainda planeje continuar trabalhando, ‘Cry Macho: O Caminho para Redenção’ oferece a sua persona cinematográfica uma rota que pode servir de um bom desfecho, um que dispõe de suficiente compaixão e tranquilidade para lhe servir de descanso”. 
O que disse a crítica 4: Marcelo Müller do site Papo de Cinema também foi elogioso. Ele acha que “Clint Eastwood é um verdadeiro monumento de Hollywood, uma lenda vida que segue fiel a seus princípios. Perto do centenário, ainda nos oferece um filme bonito que reafirma o seu apreço pela lealdade e por uma vida simples, na qual é essencial negociar com os fantasmas do passado, bem como se comunicar claramente com as pessoas do presente”. 
O que disse a crítica 5: Roberto Chaves do Vigília Nerd disse: “’Cry Macho’ tem um ritmo cadenciado, sem pressa… um clichêzinho aqui e alí, mas nada que comprometa o resultado final. Confesso que teve um momento que pensei que o filme iria dar uma derrapada, mas felizmente, se manteve correto. A parte técnica não tem muito destaque, a fotografia é bem simples e a direção é segura. O importante é a mensagem final”.
O que eu achei: Trata-se de um road movie cheio de reflexões. Assim como em outros filmes do próprio Eastwood, vemos um veterano levado a conviver com um calouro. É filme de troca geracional: o velho e o novo, o mestre e o aprendiz. As cenas de ação têm pouco impacto. É um daqueles filmes candidato a passar na Sessão da Tarde, cujo resultado fica ali entre o mediano e o bom, mas que arranca da crítica elogios por conta da presença do próprio Eastwood: um mito que nos ajudou a criar o arquétipo do homem americano macho e valente, a quem podemos ter nossas críticas sociais, mas que ao longo dos anos se revelou um ator e diretor de primeira grandeza e que agora vem se redimir, afinal, os tempos são outros. Então, apesar da falta de dramaticidade, tensão e profundidade da película, o filme traz aquilo que nos toca o coração: sua figura imponente na tela que sente o passar do tempo e que coloca em xeque essa persona machista construída ao longo de toda sua carreira. Com isso, embora o filme não represente um dos melhores e mais marcantes momentos de sua biografia, ele tem sua importância no histórico do ator e diretor. Atenção à beleza da fotografia, em especial à cena do deslocamento do protagonista na estrada ao ser acompanhado pelos cavalos selvagens que correm como se estivessem saudando um antigo companheiro. Atenção também à atuação da excelente Natalia Traven, que interpreta Marta, a dona do bar que vai ter um affair pelo protagonista, um dos pontos altos da película.

25.6.22

"Cowboys do Espaço" - Clint Eastwood (EUA/Austrália, 2000)

Sinopse:
 Um piloto da Força Aérea Americana aposentado (Clint Eastwood), que chegou a trabalhar na NASA durante certo período de sua carreira, é chamado às pressas para consertar no espaço um antigo satélite que está com problemas em seu funcionamento. Ele é a única pessoa com a experiência necessária para realizar esta missão, mas para aceitá-la impõe apenas uma condição, que possa levar consigo três amigos como parte da tripulação: Hawk Hawkins (Tommy Lee Jones), Jerry O'Neill (Donald Sutherland) e Tank Sullivan (James Garner).
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992); os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Sobre Meninos e Lobos" (2003), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009), "J. Edgar" (2011) e "O Caso Richard Jewell" (2020) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015), "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016), "15h17 - Trem para Paris" (2018) e "A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018). Desta vez vou conferir "Cowboys do Espaço" (2000).
Imagine Clint Eastwood, conhecido por atuar como cowboy em diversos filmes ao longo de sua carreira, atuando como astronauta aos 70 anos de idade. Imaginou? Junte um Donald Sutherland, na pele de um tiozão garanhão divertido, e um Tommy Lee Jones mais um James Garner, todos já na terceira idade, aposentados, indo para o espaço participar de uma missão arriscada. 
O que disse a crítica: Segundo Luiz Carlos Merten do site Terra Cinema, "O filme (...) foi recebido a pedradas. Tem mesmo uma subtrama anticomunista que parece despropositada. Mas o começo e o fim são deslumbrantes. Só isso já valeria [ver]. (...) Eastwood mistura humor e drama no que não deixa de ser um diálogo com 'Os Eleitos', de Philip Kaufman. Você se lembra, com certeza, daquele filme, um dos mais belos do cinema americano dos anos 80, adaptado do livro de Tom Wolfe. 'Os Eleitos' reconstituía, com raro vigor, a história da epopeia espacial americana. Eastwood subverte a epopeia, ora pelo riso, ora pela emoção. (...) A melhor parte (…) descreve o processo de preparação dos quatro velhinhos para seu voo espacial. O cinema contou muitas histórias sobre a formação de rapazes inexperientes, recrutas na caserna. O próprio Eastwood fez isso em 'O Destemido Senhor da Guerra'. Desta vez são os velhos que precisam aprender, às vezes desaprender, para adequar-se". 
O que eu achei: Em "Cowboys do Espaço (2000)" Clint Eastwood assume um tom leve e assumidamente nostálgico, apostando mais no carisma de seus personagens do que em qualquer ambição temática ou formal. A premissa - veteranos da corrida espacial convocados para uma missão tardia - serve sobretudo como pretexto para reunir um elenco de atores maduros em situações de humor, autoironia e camaradagem. O resultado é um filme que não se leva muito a sério e tampouco exige isso do espectador. Narrativamente, tudo é bastante simples e previsível. O roteiro evita conflitos mais complexos e prefere soluções fáceis, apostando em piadas, rivalidades amistosas e na graça que surge do contraste entre idade avançada e aventura espacial. Nesse sentido, o filme se encaixa perfeitamente na definição: é um filme despretensioso, raso mas divertido, que serve para reunir a família e dar umas gargalhadas. A ciência é tratada de forma superficial, e o drama praticamente inexiste, o que limita qualquer impacto mais duradouro. Como cinema, "Cowboys do Espaço" acaba sendo mediano: não compromete, mas também não se destaca dentro da filmografia de Eastwood. Funciona melhor como entretenimento leve do que como obra memorável. É simpático, tem bons momentos e um charme próprio, mas se esgota rápido, deixando a sensação de um projeto feito mais por prazer e nostalgia do que por real necessidade artística.

28.11.20

"Sobre Meninos e Lobos" - Clint Eastwood (EUA/Austrália, 2003)

Sinopse:
 
Após a filha de Jimmy Marcus (Sean Penn) ser encontrada morta, Sean Devine (Kevin Bacon), seu amigo de infância, é encarregado de investigar o caso. As investigações de Sean o fazem reencontrar um mundo de violência e dor que ele acreditava ter deixado para trás, além de colocá-lo em rota de colisão com o próprio Jimmy, que deseja resolver o crime de forma brutal. Há ainda Dave Boyle (Tim Robbins), que guarda um segredo que nem mesmo sua esposa conhece. A caçada ao assassino faz com que o trio tenha que reencontrar fatos marcantes do passado, os quais eles preferiam que ficassem esquecidos para sempre.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992); os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009), "J. Edgar" (2011) e "O Caso Richard Jewell" - Clint Eastwood (EUA, 2020) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015), "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016), "15h17 - Trem para Paris" (2018) e "A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018). Desta vez vou conferir "Sobre Meninos e Lobos" (2003).
Trata-se de um drama policial centrado nas consequências de um trauma de infância e em como ele reverbera ao longo de décadas na vida de três homens.
A história acompanha três amigos de infância - Jimmy Markum, Sean Devine e Dave Boyle - que cresceram juntos em um bairro operário de Boston. Ainda crianças, eles vivenciam um episódio traumático que marca profundamente um deles. Anos depois, já adultos, os três se reencontram quando a filha adolescente de Jimmy é assassinada. Sean agora é policial e participa da investigação, enquanto Dave, fragilizado emocionalmente, torna-se uma figura suspeita. O filme articula crime, memória, culpa e destino, mostrando como o passado interfere diretamente nas escolhas do presente.
O filme é uma adaptação do romance homônimo "Mystic River" de 2001, escrito por Dennis Lehane, autor conhecido por histórias ambientadas em bairros populares de Boston, frequentemente marcadas por violência, dilemas morais e personagens psicologicamente complexos. O roteiro do filme foi escrito por Brian Helgeland, que transpôs a estrutura literária para o cinema mantendo o foco nas relações humanas e no impacto do trauma.
Os personagens e a história são ficcionais. Embora o romance e o filme se apoiem em situações realistas - crimes urbanos, investigações policiais e dinâmicas sociais reconhecíveis -, não se baseiam em um caso real específico. Dennis Lehane costuma trabalhar com um forte senso de verossimilhança social, o que dá à narrativa um aspecto quase documental, mas trata-se de uma obra de ficção.
No elenco principal estão Sean Penn, Kevin Bacon e Tim Robbins.
Embora a história se passe em Boston, o filme foi rodado principalmente em locações na Califórnia. "Sobre Meninos e Lobos" teve grande repercussão em premiações e ajudou a consolidar a fase de Eastwood como diretor de dramas adultos, focados em personagens e conflitos morais.
O que eu achei: Em "Sobre Meninos e Lobos" (2003), Clint Eastwood atinge um grau raro de precisão narrativa e densidade dramática. É daqueles filmes que prendem do começo ao fim, não por truques de suspense fáceis, mas pela maneira como o enredo se constrói lentamente, acumulando tensão emocional e moral. A história avança como uma ferida que nunca cicatrizou, revelando aos poucos como um trauma de infância pode moldar destinos inteiros. O impacto vem justamente dessa construção paciente, que conduz o espectador a um desfecho tão surpreendente quanto inevitável. O elenco é um dos grandes trunfos do filme. Reunindo atores consagrados e em plena forma, Eastwood extrai interpretações intensas, contidas e profundamente humanas. Não há exageros: cada gesto, cada silêncio carrega peso dramático. Os personagens não são arquétipos, mas figuras marcadas por culpa, ressentimento e lealdades ambíguas, o que torna o conflito ainda mais perturbador. A atuação coletiva dá ao filme uma força rara, em que nenhum papel parece acessório. O que faz de "Sobre Meninos e Lobos" um filme excelente, e digno de ser visto e revisto, é sua recusa a oferecer conforto moral. Eastwood não aponta culpados fáceis nem distribui redenções; ele observa, com rigor e empatia, como a tragédia se instala na vida comum. É um cinema adulto, sombrio e profundamente envolvente, daqueles clássicos modernos que ganham novas camadas a cada revisita.

28.6.20

"O Caso Richard Jewell" - Clint Eastwood (EUA, 2020)

Sinopse: A história real de Richard Jewell (Paul Walter Hauser), segurança que se tornou um dos principais suspeitos de bombardear as Olimpíadas de Atlanta, no ano de 1996. Na realidade, ele foi o responsável por ajudar inocentes a fugirem do local e avisar da existência de um dos explosivos.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992); os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015), "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016), "15h17 - Trem para Paris" (2018) e "A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018). Desta vez vou conferir "O Caso Richard Jewell" - Clint Eastwood (EUA, 2020).
O filme se baseia numa história real ocorrida em 1996, sobre o segurança que se tornou um herói depois de identificar uma bomba em uma mochila abandonada no Centennial Olympic Park, durante as Olimpíadas de Atlanta. 
É evidente que nesta década o diretor Clint Eastwood se empenhou em fazer filmes sobre o "homem comum que se tornou um herói norte-americano". Vimos isso em "Sniper Americano" (2014), "Sully" (2016) e "15:17 – Trem Para Paris" (2018).  
Segundo Michel Gutwilen do Plano Crítico, "novamente - e sem jamais soar repetitivo - 'O Caso Richard Jewell' é sobre mais uma dessas figuras injustiçadas e perseguidas pelo sistema que, para Clint, não merecem cair no esquecimento. Mais do que isso, o próprio ato de escolher ficcionalizar suas histórias através do cinema é como uma medalha de honra do diretor para esses homens" pois, como diz o crítico, com todo o sistema de governo e de mídia corrompidos "quem quer ser o herói de um sistema falido? Talvez apenas os lunáticos que possuem uma convicção inabalável nele".
O que eu achei: Clint Eastwood retorna a um tema que lhe é caro: o indivíduo comum esmagado por instituições maiores do que ele. Baseado em fatos reais, o filme reconstrói o episódio dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, quando um segurança que inicialmente foi celebrado como herói passa a ser tratado como principal suspeito de um atentado a bomba. Eastwood conduz a narrativa de forma clássica e clara, privilegiando o ponto de vista de Jewell e enfatizando a rapidez com que a opinião pública pode se voltar contra alguém. O filme funciona bem ao expor o papel da mídia e das autoridades na construção precipitada de culpados, mostrando como vazamentos, suposições e interesses institucionais podem destruir reputações. Sem recorrer a grandes arroubos estilísticos, a direção aposta na sobriedade e no rigor narrativo, o que dá força ao drama. O retrato de Richard Jewell é empático, mas não idealizado: ele surge como um homem simples, ingênuo em certos momentos, profundamente confiante nas instituições que acabarão por traí-lo. Embora não esteja entre os trabalhos mais ambiciosos ou complexos de Eastwood, "O Caso Richard Jewell" (2020) é um bom filme, sólido e envolvente, que cumpre bem seu propósito. Ele provoca reflexão sobre justiça, poder e responsabilidade sem necessidade de exageros dramáticos, reafirmando a habilidade do diretor em contar histórias reais com eficiência e humanidade. É um cinema discreto, mas eficaz, que se sustenta pela clareza do olhar e pela força do caso que retrata.

15.6.20

"A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018)

Sinopse: Earl Stone (Clint Eastwood) é um homem de quase 90 anos com problemas econômicos que aceita trabalhar no transporte de drogas para um cartel mexicano em Illinois. Com o dinheiro fácil que consegue, ele tenta ajudar seus parentes e amigos, mas um agente da Narcóticos (Bradley Cooper) o acompanha.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992); os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015), "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016) e "15h17 - Trem para Paris" (2018). Desta vez vou conferir "A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018).
O personagem Earl Stone tem base em uma pessoa real. Ele é inspirado livremente em Leo Sharp, um veterano da Segunda Guerra Mundial que se tornou traficante de drogas já em idade avançada.
Ele era um horticultor renomado, especialista em orquídeas, mas atuou como “mula” do cartel de Sinaloa, uma das maiores e mais poderosas organizações criminosas do México que atuava principalmente no tráfico internacional de drogas.
Esse local - Sinaloa - é um estado do noroeste do México, na costa do oceano Pacífico, fazendo fronteira com Sonora, Chihuahua, Durango e Nayarit. Sua capital é Culiacán, cidade frequentemente associada ao cartel por ter sido um de seus principais centros de operação.
O Cartel de Sinaloa surgiu a partir de redes de contrabando dos anos 1980 e se consolidou como uma organização altamente estruturada, responsável por rotas de distribuição de drogas como cocaína, heroína, maconha, metanfetamina e fentanil, sobretudo para os Estados Unidos e outros mercados internacionais. Ao longo dos anos, ficou conhecido por sua capacidade logística, corrupção institucional e disputas violentas com cartéis rivais.
O roteiro do filme se baseia em um artigo jornalístico publicado na New York Times Magazine em 2014, intitulado “The Sinaloa Cartel’s 90-Year-Old Drug Mule” (A Mula de Drogas de 90 Anos do Cartel de Sinaloa), que relata a história de Sharp, preso aos 89 anos.
Vale destacar que o filme toma várias liberdades dramáticas: simplifica relações familiares, reorganiza eventos e constrói um arco emocional típico do cinema de Eastwood, mais interessado em temas como envelhecimento, culpa e redenção do que em uma reconstituição fiel do caso. Portanto, Earl Stone não existiu, mas Leo Sharp, sim.
O que eu achei: O longa parte de uma história real curiosa e potente: a de Leo Sharp, cidadão americano condecorado por seus feitos como paisagista, horticultor e veterano da Segunda Guerra Mundial, que aos 89 anos foi preso transportando o equivalente a três milhões de dólares em cocaína no porta-malas de uma velha picape, no Michigan. O material de origem é, por si só, intrigante, mas o filme opta por uma abordagem previsível, transformando o caso em mais uma variação do drama individual centrado na figura de um homem idoso às voltas com suas escolhas tardias. Como direção, nada surpreende - nem para o bem, nem para o mal. Eastwood, então com 88 anos, conduz o filme de maneira clássica, segura e funcional, sem qualquer intenção de inovação formal ou narrativa. Tudo é contado de forma direta, quase protocolar, reforçando a sensação de um cinema feito “à moda antiga”, que confia mais na clareza do relato do que na complexidade dos conflitos. Isso faz com que "A Mula" (2018) seja correto do ponto de vista técnico, mas dramaticamente limitado, incapaz de ir além do anedótico. O que realmente pesa contra o filme é um traço recorrente na filmografia tardia de Eastwood: a insistência em amenizar moralmente protagonistas de conduta questionável, geralmente interpretados por ele próprio. Earl Stone é apresentado como um sujeito falho, ausente e egoísta, mas o roteiro se esforça continuamente para nos convencer de que, no fundo, ele é “gente boa”, alguém que merece compreensão e indulgência. Hoje, essa operação dramática soa problemática e pouco convincente. O resultado é um filme bem mediano, que não chega a comprometer, mas tampouco provoca reflexão real. Um projeto confortável, ancorado mais na mitologia do autor do que na complexidade ética da história que escolhe contar.

15.4.20

"Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992)

Sinopse: Bill Munny (Clint Eastwood), um pistoleiro aposentado, volta à ativa quando lhe oferecem 1000 dólares para matar os homens que cortaram o rosto de uma prostituta. Neste serviço dois outros pistoleiros o acompanham e eles precisam se confrontar com um inglês (Richard Harris) que também deseja a recompensa e um xerife (Gene Hackman), que não permite tumulto em sua cidade.
Comentário: Trata-se do filme número 70 da lista do 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "'Os Imperdoáveis' é um western sobre o fim dos westerns. Talvez na última obra-prima do gênero eternizado por John Ford, Howard Hawks e Sergio Leone, Clint Eastwood maquinou, ao mesmo tempo, uma homenagem aos seus mestres (há dedicatórias a Leone e a Don Siegel), um crepúsculo do estilo e uma revisão dos aspectos morais do bom e velho bangue-bangue, da figura do cowboy e do seu universo. Eastwood revisita também a própria carreira, que começou a se destacar na trilogia spaghetti de Leone e se solidificou com a série 'Dirty Harry'. Nela, ele geralmente vive um homem solitário, amargo, bêbado e violento a ponto de não perdoar ninguém. William Munny (interpretado pelo próprio Clint) teve um passado assim. Até que conheceu sua futura esposa, teve filhos e se tornou um humilde criador de porcos. Agora viúvo, ele dedica-se a cuidar das crianças e a administrar sem muito sucesso seu sítio. Para conseguir algum dinheiro, aproveita-se da fama do passado e aceita cumprir uma última missão como pistoleiro: matar os homens que retalharam sem piedade o rosto de uma prostituta da cidade de Big Whisky. Viaja para lá acompanhado do velho parceiro Ned Logan (Morgan Freeman) e do aspirante a cowboy Schofield Kid (Jaimz Woolveltt). Porém, espera por eles o pouco hospitaleiro xerife Little Bill (Gene Hackman). E o antigo matador terá também de enfrentar seus fantasmas pessoais. O filme questiona as características dos antigos westerns, sobretudo o uso da violência. Munny sente culpa pelas crueldades cometidas no passado e vergonha por ter traído a memória da esposa e aceitado voltar a matar (mesmo que seja para sustentar os filhos). Lançado em uma época em que o faroeste já estava fora de moda, 'Os Imperdoáveis' ganhou as duas principais estatuetas do Oscar de 1993, Filme e Direção, além de outras duas (Ator Coadjuvante, para Hackman, e Edição). Livre da figura do macho, Clint Eastwood pôde começar sua fase madura como diretor, que possui títulos excelentes como 'As Pontes de Madison' (1995), 'Sobre Meninos e Lobos' e 'Menina de Ouro' (2004), entre outros".
O que eu achei: Está aqui um filme que não é apenas um grande faroeste, mas uma revisão profunda e definitiva do próprio gênero e também da persona do diretor construída ao longo de décadas. Com roteiro de David Webb Peoples (de "Blade Runner") e fotografia impecável de Jack N. Green, o filme se impõe como uma obra de maturidade rara, à altura dos quatro Oscars que conquistou, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. Aqui, o velho Oeste não é um território de glória, mas de desgaste físico, culpa e memória. Eastwood desmonta a mitologia clássica do western ao evitar qualquer divisão confortável entre mocinhos e bandidos: todos os personagens carregam contradições morais, histórias mal contadas e violências que se acumulam como cicatrizes. A figura do pistoleiro lendário surge em franca decadência, confrontada não apenas pelo tempo, mas pelas consequências reais de seus atos. A violência, quando explode, não é celebrada. Ela pesa, constrange e cobra seu preço. O que faz de "Os Imperdoáveis" (1992) uma obra-prima é justamente essa recusa ao heroísmo fácil e ao romantismo do passado. O filme olha para a história do gênero com lucidez e melancolia, entendendo que toda lenda nasce de distorções e silêncios convenientes. Ao final, Eastwood entrega um clássico incontornável, daqueles que não apenas entram para a história do cinema, mas a reescrevem. Um western crepuscular que encerra um ciclo e, ao mesmo tempo, eleva o gênero a um novo patamar artístico.

8.10.18

"15h17 - Trem para Paris" - Clint Eastwood (EUA, 2018)

Sinopse: Quando um terrorista invade o trem n° 9364 da Thalys a caminho de Paris, três amigos norte-americanos - Anthony Sadler (ele mesmo), Alex Skarlatos (ele mesmo) e o piloto da Força Aérea Spencer Stone (ele mesmo) - se esforçam para imobilizar o extremista Ayoub El Khazzani é interpretado (Ray Corasani), armado com um fuzil AK-47, e evitar uma enorme tragédia.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015) e "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016). Desta vez vou conferir "15h17 - Trem para Paris" (2018).
Segundo Francisco Russo do site Adoro Cinema, "É curioso notar como, em seus três últimos filmes como diretor, Clint Eastwood enveredou de vez para a temática do herói". Ele fez isso em "Sniper Americano" (2015) e em "Sully" (2016).
"Em '15h17 - Trem para Paris', a luta de um homem contra o sistema está de volta, mas sob outro aspecto. Desta vez, Clint não está propriamente interessado em apontar o dedo para agências ou governos, mas sim para a crença geral com base na ciência. Ao adaptar mais uma história verídica, o diretor se apropria dos fatos para se posicionar contra a predeterminação com base em estatísticas e conceitos, de forma a minimizar - ou até menosprezar - pessoas.
É o velho Clint acreditando no potencial humano acima de tudo, capaz de superar adversidades e limitações em momentos cruciais da vida - como ele mesmo tanto fez, nos personagens que interpretou".
O que eu achei: Em "15h17 – Trem para Paris" (2018), Clint Eastwood toma uma decisão radical ao escalar os próprios protagonistas reais para interpretarem a si mesmos, apostando em um realismo quase documental. A intenção é nobre e, em teoria, coerente com o desejo de evitar espetacularização do heroísmo. No entanto, o resultado evidencia um grave descompasso entre proposta e execução: a ausência de domínio dramático dos não-atores compromete a encenação, tornando muitas cenas artificiais, rígidas e desprovidas de tensão narrativa. A estrutura do filme agrava esse problema. Grande parte da duração é ocupada por episódios banais da juventude e das viagens dos personagens, registrados de forma dispersa e pouco significativa, como se o filme hesitasse em encontrar seu próprio foco. Quando o ataque finalmente acontece - evento que justifica a existência do filme -, ele surge quase abruptamente, sem o impacto dramático que se espera, não por recusa consciente ao suspense, mas por uma preparação narrativa ineficaz. O gesto heroico, real e inegavelmente corajoso, acaba diluído por uma construção dramática que não sabe como chegar até ele. Como disse Francisco Russo na sua análise no site Adoro Cinema, é admirável ver um diretor de 87 anos ainda disposto a se arriscar, tanto estética quanto narrativamente, rompendo convenções e testando limites do cinema tradicional. O problema é que, em "15h17 – Trem para Paris", essas escolhas simplesmente não funcionam bem. O experimento resulta em um filme estranho, mal ritmado e emocionalmente inerte, no qual a ousadia formal não se traduz em potência cinematográfica. Eastwood parece confiar demais no peso do fato real, esquecendo que, no cinema, mesmo a verdade precisa ser dramaticamente construída para existir na tela".

25.4.17

"Sully - O Herói do Rio Hudson" - Clint Eastwood (EUA, 2016)

Sinopse: 15 de janeiro de 2009. Logo após decolar do aeroporto de LaGuardia, em Nova York, uma revoada de pássaros atinge as turbinas do avião pilotado por Chesley "Sully" Sullenberger (Tom Hanks). Com o avião seriamente danificado, Sully não vê outra alternativa senão fazer um pouso forçado em pleno rio Hudson. A iniciativa é bem sucedida, com todos os 150 passageiros a bordo sendo salvos. Tal situação logo transforma Sully em um grande herói nacional, o que não o isenta de enfrentar um rigoroso julgamento interno coordenado pela agência de regulação aérea nos Estados Unidos.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014) e "Sniper Americano" (2015). Desta vez vou conferir "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016).
Trata-se de um filme baseado em fatos reais que dramatiza um dos episódios mais conhecidos da aviação civil recente nos Estados Unidos. O filme reconstrói os acontecimentos de 15 de janeiro de 2009, quando o voo 1549 da US Airways, logo após decolar do aeroporto LaGuardia, em Nova York, colidiu com um bando de gansos, perdendo os dois motores. Diante da impossibilidade de retornar a um aeroporto, o comandante Chesley “Sully” Sullenberger tomou a decisão de realizar um pouso de emergência no rio Hudson, salvando os 155 passageiros e tripulantes a bordo.
Além do episódio do pouso, o filme dedica boa parte de sua narrativa às investigações posteriores, conduzidas por órgãos de segurança aérea, que questionaram se a decisão de Sully teria sido realmente a melhor opção. A história alterna a reconstituição do acidente com depoimentos, simulações e lembranças do comandante, mostrando a pressão psicológica enfrentada após o evento.
Esse comandante Chesley Burnett Sullenberger III realmente existiu. Ele foi piloto da Força Aérea dos Estados Unidos, tinha décadas de experiência como aviador comercial e instrutor de segurança aérea quando o incidente ocorreu. Após o episódio, tornou-se uma figura pública internacionalmente conhecida, associada ao chamado “Milagre do Hudson”.
No filme, Sully é interpretado por Tom Hanks, enquanto o copiloto Jeff Skiles é vivido por Aaron Eckhart.
O roteiro é baseado no livro "Highest Duty: My Search for What Really Matters" (Dever Supremo: Minha Busca pelo Que Realmente Importa) de 2009, escrito pelo próprio Chesley Sullenberger em parceria com Jeffrey Zaslow. A obra mistura relato autobiográfico com reflexões sobre responsabilidade, tomada de decisão e ética profissional, elementos que também estruturam o filme.
O filme enfatiza os processos técnicos, a importância do treinamento, o trabalho em equipe e a fragilidade humana diante de situações extremas. Mais do que um filme-catástrofe, trata-se de um drama centrado na responsabilidade profissional e nas consequências psicológicas de decisões tomadas em segundos.
O que eu achei: Em "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016), Clint Eastwood retoma um de seus temas mais recorrentes: o macho americano, figura estoica e competente, elevado à condição de herói a partir do domínio técnico e da responsabilidade individual. Baseado em fatos reais, o filme dramatiza o pouso forçado de um avião no rio Hudson como prova máxima da habilidade humana diante da máquina, reforçando a ideia de que experiência, intuição e sangue-frio são virtudes quase naturais desse arquétipo eastwoodiano. O interesse está menos no espetáculo do acidente e mais na reafirmação desse tipo de heroísmo silencioso. Do ponto de vista cinematográfico, o filme não chega a ser ruim - algo raro na filmografia do diretor -, mas tampouco empolga. Com pouco a acrescentar à história já conhecida, Sully recorre à repetição do mesmo evento sob diferentes ângulos e simulações, reencenando o pouso forçado três vezes ao longo de seus 96 minutos, o que denuncia certa escassez de material dramático. A estratégia parece menos uma escolha estética do que uma solução para preencher a narrativa do filme mais curto da carreira de Eastwood. O resultado é um filme correto, mas mediano, que funciona melhor como ilustração de um episódio exemplar do que como obra realmente envolvente. Falta-lhe tensão sustentada e complexidade dramática para ir além do retrato respeitoso de um herói profissional.

20.9.15

"Sniper Americano" - Clint Eastwood (EUA, 2015)

Sinopse: Cinebiografia de Chris Kyle (Bradley Cooper), atirador de elite das forças especiais da marinha americana. Durante cerca de dez anos ele matou mais de 150 pessoas, tendo recebido diversas condecorações por sua atuação na Guerra do Iraque.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e os não tão bons "Além da Vida" (2010) e "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014). Desta vez vou conferir "Sniper Americano" (2015).
Adaptado do livro "American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Militar History", o filme conta a história real de Chris Kyle (Bradley Cooper), atirador de elite das forças especiais da marinha americana. 
Segundo Marcelo Janot do site Críticos, "no Iraque de 'Sniper Americano' não há espaço para iraquianos inocentes. Civis ou militares, todos eles são maus como o diabo, como a cartilha maniqueísta de Hollywood nos ensinou em seus piores filmes".
Segundo Neusa Barbosa do Cineweb, "Clint Eastwood exerce suas melhores virtudes – e, para seus críticos, alguns de seus piores defeitos. Nada que diga respeito à técnica, porém. Até detratores do filme (...) reconhecem que, em fotografia, montagem, som e tudo o mais, o filme é impecável. A divergência está na política". 
O que eu achei: Em "Sniper Americano" (2015), Clint Eastwood entrega um filme tecnicamente competente, com direção segura, montagem eficiente e cenas de ação bem conduzidas. Do ponto de vista estritamente cinematográfico, há profissionalismo e clareza narrativa. O problema surge menos na forma e muito mais no discurso que o filme escolhe sustentar e, sobretudo, naquilo que ele evita problematizar. Ao acompanhar a trajetória de Chris Kyle quase exclusivamente pelo prisma do heroísmo individual, o filme se afasta de qualquer leitura crítica mais ampla sobre a Guerra do Iraque. Politicamente falando, "Sniper Americano" é raso e desconfortável. O conflito é apresentado de maneira maniqueísta, reduzido a uma oposição simplificada entre “nós” e “eles”, na qual o inimigo raramente ultrapassa a condição de ameaça abstrata. O filme pouco questiona as motivações da guerra, seus efeitos geopolíticos ou o custo humano do conflito para além do soldado americano. Mesmo o trauma psicológico do protagonista, que poderia abrir espaço para uma reflexão mais ambígua, acaba sendo tratado como um preço inevitável, quase naturalizado, de uma missão maior que nunca é colocada em xeque. O resultado é um filme que, consciente ou não, reproduz um discurso político conservador, alinhado à legitimação da guerra e à exaltação do mito do herói militar. Ao optar por esse enquadramento, Eastwood abandona a complexidade moral que marcou seus melhores trabalhos e entrega uma obra que pode até funcionar como espetáculo técnico, mas falha gravemente como reflexão histórica e política. "Sniper Americano" não é ruim por incapacidade cinematográfica, é ruim porque escolhe não pensar criticamente o mundo que representa.

12.5.15

"Jersey Boys: Em Busca da Música" - Clint Eastwood (EUA, 2014)

Sinopse: Na década de 1950, o ítalo-americano Tommy DeVito (Vincent Piazza) divide seu tempo entre cometer pequenos furtos e comandar uma banda. Ele é amigo do jovem e talentoso Frankie Valli (John Lloyd Young) que, não demora, é convidado para se juntar ao grupo musical. Com a entrada do compositor Bob Gaudio (Erich Bergen) no entanto, eles - ao lado de Nick Massi (Michael Lomenda) - formam uma das mais bem-sucedidas bandas dos anos 1960, o 'The Four Seasons', responsável por hits como "Sherry", "Big girls don't cry", "Walk like a man" e "Can't take my eyes off you".
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e o não tão bom "Além da Vida" (2010). Desta vez vou conferir "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014).
Baseado no musical da Broadway, o longa de Clint Eastwood mostra a ascensão e queda do quarteto, de muito talento, mas envolto em uma nuvem de brigas internas e relações escusas com a máfia. 
Segundo Tim Grierson do Screen International, "infelizmente, o retrato inteligente e tranquilo de Eastwood sobre o popular musical 'The Four Seasons' é prejudicado pela estrutura familiar das 'biografias de ascensão e queda', que anula os outros elementos potencialmente mais interessantes da trama".
O que eu achei: Em "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), Clint Eastwood adota uma abordagem surpreendentemente convencional para contar a história do grupo 'The Four Seasons'. Baseado no musical homônimo da Broadway, o filme segue uma estrutura biográfica bastante conhecida, avançando cronologicamente pela ascensão, conflitos internos e queda do grupo, sem grandes riscos formais ou narrativos. O resultado é correto e funcional, mas raramente inspirado, como se Eastwood estivesse mais preocupado em respeitar o material de origem do que em reinventá-lo para o cinema. A encenação preserva muitos elementos teatrais, inclusive a quebra da quarta parede, recurso que funciona de maneira irregular na tela grande. As performances musicais são bem executadas e agradam, sobretudo para quem já conhece o repertório, mas o filme tende a ilustrar a história em vez de aprofundá-la. Os conflitos pessoais - dívidas, traições, disputas de ego - são apresentados de forma direta, quase esquemática, o que limita o impacto dramático e torna a trajetória dos personagens previsível. Como cinema, "Jersey Boys" não chega a comprometer, mas também não deixa marca duradoura. Falta-lhe o vigor emocional ou o olhar autoral mais afiado que Eastwood demonstrou em outros projetos. Funciona como um registro competente da história da banda, agradável de acompanhar, porém excessivamente seguro. Um filme que passa sem maiores sobressaltos, sustentado mais pela música do que pela força cinematográfica.

4.3.12

"As Pontes de Madison" – Clint Eastwood (EUA, 1995)

Sinopse: No verão de 1965, enquanto o marido Richard (Jim Haynie) e os filhos Michael (Christopher Kroon) e Carolyn (Annie Corley) estão viajando, Francesca Johnson (Meryl Streep), uma fazendeira de Iowa, recebe a inesperada visita do fotojornalista Robert Kincaid (Clint Eastwood), da National Geographic. Ele pede informações sobre as pontes de Madison, as quais deverá fotografar profissionalmente. Francesca fornece as informações, mas acaba se envolvendo com Kincaid.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006), os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e o não tão bom "Além da Vida" (2010). Desta vez vou conferir "As Pontes de Madison" (1995).
Segundo Conrado Heoli do Cineplayers, "muitos anos após viver Dirty Harry e protagonizar os faroestes antológicos de Sergio Leone, Clint Eastwood viria a dirigir um filme para comover 10 entre 10 corações apaixonados. 'As Pontes de Madison' é uma obra que mescla um belo romance e um drama bem estruturado, mesmo inserindo em sua narrativa alguns recursos um tanto óbvios para o gênero".
No longa, o fotógrafo Robert Kincaid não é inspirado diretamente em nenhum fotógrafo real específico. O personagem foi criado pelo escritor Robert James Waller no romance "The Bridges of Madison County" (1992), que serviu de base para o filme, e funciona mais como um arquétipo do fotojornalista viajante do que como um retrato biográfico.
Kincaid foi concebido como uma figura solitária, errante e contemplativa, alguém que percorre o interior dos Estados Unidos fotografando paisagens e culturas para a National Geographic, incorporando o imaginário associado à revista nas décadas de 1960 e 1970: liberdade, curiosidade pelo mundo e distanciamento da vida doméstica.
O que eu achei: Em "As Pontes de Madison" (1995), Clint Eastwood realiza um de seus filmes mais delicados e emocionalmente precisos, tratando o romance não como explosão passional, mas como experiência íntima, silenciosa e irreversível. A narrativa se constrói a partir de pequenos gestos, olhares e pausas, deixando claro que o verdadeiro conflito não está no amor em si, mas nas escolhas que o cercam. O filme entende que certas histórias não precisam de grandes reviravoltas para serem devastadoras; basta o peso do tempo, da responsabilidade e do que não pode ser vivido. O tema da fotografia atravessa o filme com rara sensibilidade, não apenas como profissão do protagonista, mas como metáfora do próprio ato de observar, enquadrar e preservar instantes. Para quem trabalhou por muitos anos fotografando e lecionando fotografia como eu, esse aspecto ganha ainda mais força: o olhar paciente, a atenção ao detalhe, a relação entre tempo, luz e espera dialogam diretamente com a experiência fotográfica. Robert Kincaid não é apenas um fotógrafo em cena; ele encarna uma maneira de estar no mundo, guiada pela contemplação e pela escuta. O que torna "As Pontes de Madison" tão marcante é justamente sua recusa ao melodrama fácil. Eastwood confia no silêncio, na maturidade emocional dos personagens e na dor contida de uma história que poderia ter sido, mas não foi. O resultado é um filme profundamente humano, que fala de amor, renúncia e memória com uma honestidade rara. Excelente.

22.2.12

"Além da Vida" - Clint Eastwood (EUA, 2010)

Sinopse: O filme gira em torno de três pessoas que são afetadas pela morte de maneiras diferentes. George (Matt Damon) é um operário norte-americano que tem uma conexão especial com o além. Em outro ponto do planeta, a jornalista francesa Marie (Cécile De France) acaba de passar por uma experiência de quase-morte que muda sua visão diante da vida. E, quando o garoto londrino Marcus (interpretado pelos irmãos gêmeos Frankie e George McLaren) perde uma pessoa muito próxima, começa uma procura desesperada por respostas. Enquanto cada um segue o caminho em busca da verdade, suas vidas se cruzam e são transformadas para sempre pelo que eles acreditam que possa existir: a vida após a morte.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006) e os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011). Desta vez vou conferir "Além da Vida" (2010).
"Além da Vida" é um drama com toques de fantasia e reflexão que entrelaça três histórias paralelas que exploram como diferentes pessoas são marcadas pela experiência da morte e do que, possivelmente, existe “além” da vida. 
O filme acompanha três protagonistas distintos, cujas vidas são afetadas de maneiras profundas pelo tema da morte:
- George Lonegan (interpretado por Matt Damon), um trabalhador americano em São Francisco que, no passado, atuou profissionalmente como médium, comunicando-se com mortos. Hoje em dia ele tenta se afastar dessa habilidade que o marcou profundamente;
- Marie Lelay (interpretada por Cécile de France), uma jornalista francesa que sobrevive a uma experiência de quase morte durante o devastador tsunami do Oceano Índico em 2004. Ao retornar à vida, ela carrega uma experiência intensa que muda tanto sua visão de mundo quanto sua carreira;
- Marcus (interpretado por Frankie e George McLaren), um garoto em Londres lidando com a perda do irmão gêmeo, tentando encontrar respostas e paz interior após a tragédia.
Essas trajetórias aparentemente desconectadas se entrelaçam aos poucos, à medida que cada personagem busca significado diante da morte, da perda e da possibilidade de algo além da vida conhecida. 
O roteiro foi escrito por Peter Morgan e tem, como temas centrais, questões ligadas a perda e luto, experiências de quase morte, busca por sentido, possibilidade (ou dúvida) de vida após a morte.
O filme aborda essas ideias de maneira contemplativa, sem oferecer respostas definitivas, deixando espaço para que o espectador reflita sobre suas próprias crenças.
O que eu achei: Em "Além da Vida" (2010), Clint Eastwood parece optar por um caminho excessivamente confortável, apostando em uma abordagem sentimental que enfraquece qualquer ambição mais profunda do tema que propõe. A ideia de articular diferentes histórias atravessadas pela morte e pela possibilidade do “além” até sugere um drama existencial, mas o desenvolvimento logo escorrega para soluções calorosas e imageticamente piegas, nas quais a emoção é constantemente sublinhada, nunca conquistada. O filme insiste em imagens e situações que buscam comover de forma imediata, reduzindo a complexidade do assunto a um encadeamento de cenas ilustrativas e previsíveis. O romance central, em especial, soa como um dos mais fáceis e simplificados já trabalhados pelo diretor, carecendo da ambiguidade e do rigor moral que marcam seus melhores trabalhos. Em vez de provocar reflexão ou desconforto, "Além da Vida" prefere confortar o espectador com respostas suaves e encontros calculadamente edificantes. O resultado é um filme que, ao tratar de um tema tão vasto quanto a morte e o sentido da existência, acaba parecendo superficial, acomodado e excessivamente preocupado em ser reconfortante, justamente o oposto do impacto que poderia alcançar. Clint é mais, muito mais que este filme.

19.2.12

"J. Edgar" - Clint Eastwood (EUA, 2011)

Sinopse: Cinebiografia do ex-diretor do FBI, J. Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio), que mostra tanto sua escandalosa carreira, marcada por uma administração dura do FBI e casos de chantagem, quanto seu duradouro romance com Clyde Tolson (Armie Hammer).
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006) e os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008) e "Invictus" (2009). Desta vez vou conferir "J. Edgar" (2011).
Segundo Roberto Guerra do Cineclick, "a cena já foi repetida à exaustão no cinema. Policiais de alguma localidade dos Estados Unidos são surpreendidos pela chegada dos agentes do FBI, que ameaçam assumir (ou assumem de fato) as rédeas da investigação diante da ineficiência dos agentes locais. 
O que pouca gente sabe é que a hoje todo-poderosa Polícia Federal norte-americana precisou de quarenta e oito anos, oito presidentes, inimigos de todos os tipos e a mão forte de um homem para torna-se uma das mais poderosas forças policiais do mundo. É a trajetória desse controverso personagem da história americana que o cineasta Clint Eastwood leva as telas em 'J. Edgar', cinebiografia de J. Edgar Hoover, lendário diretor que transformou o Bureau of Investigation - uma instituição deficiente, sem poder e com pouco mais de 600 agentes - em uma potente organização federal de mais de 16.000 funcionários e precursora de métodos de investigação criminal inovadores.
'J. Edgar' é um filme informativo, quase didático, sobre o crescimento do FBI sob a liderança de Hoover".
O que eu achei: Em “J. Edgar” (2011), Clint Eastwood se dedica a um retrato ambíguo e contido de uma das figuras mais poderosas e controversas da história recente dos Estados Unidos. O filme acompanha a ascensão de J. Edgar Hoover à frente do FBI, enfatizando menos a cronologia factual e mais a construção psicológica de um homem obcecado por controle, imagem pública e legado. Eastwood adota uma narrativa fragmentada, alternando tempos e registros, o que reforça a sensação de memória seletiva e autojustificadora do protagonista. O resultado é bom, sustentado principalmente pela atuação de Leonardo DiCaprio, que constrói um Hoover rígido, inseguro e emocionalmente reprimido. Ainda assim, o filme parece excessivamente cauteloso em certos momentos, evitando confrontos mais incisivos com o lado político e ético de seu personagem central. A encenação é elegante, mas um tanto fria, e o distanciamento emocional acaba limitando o impacto dramático. “J. Edgar” interessa mais como estudo de caráter do que como investigação histórica profunda. Se mantém relevante pela seriedade do olhar e pela recusa em transformar seu protagonista em herói ou vilão simples. Um filme consistente, correto e reflexivo, que funciona bem, ainda que, a meu ver, sem a força memorável de seus melhores títulos.