6.4.26

"Homebound" - Neeraj Ghaywan (Índia, 2025)

Sinopse:
Dois amigos de infância - Chandan (Vishal Jethwa) e Shoaib (Ishaan Khatter) - buscam um cargo na polícia que lhes promete a dignidade que lhes foi negada por muito tempo. No entanto, à medida que se aproximam do sonho, o desespero crescente ameaça o laço que os mantém unidos.
Comentário: Neeraj Ghaywan (1980) é um diretor e roteirista de cinema indiano que trabalha em filmes de Bollywood. A palavra Bollywood vem da junção das palavras Bombaim (antigo nome de Mumbai) e Hollywood e se refere à indústria cinematográfica indiana não como um todo, mas à indústria que produz filmes em língua hindi. Ghaywan construiu um trabalho no cinema e em séries para streaming, frequentemente centrando suas narrativas em questões de casta, classe, gênero e identidade. Dirigiu curtas-metragens como “Noise” (2011), “The Epiphany” (2013) e “Juice” (2017) e o longa “Crematório” (2015), vencedor do prêmio da crítica na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes. “Homebound” é seu segundo longa e o primeiro filme que vejo dele.
Isadora Wandermurem da Time nos conta que o filme "é inspirado em um ensaio de 2020 do The New York Times escrito pelo jornalista e editor colaborador da Time, Basharat Peer, que capturou um momento marcante durante o lockdown da COVID-19 na Índia. O artigo narra a história de dois amigos de infância, Mohammad Saiyub e Amrit Kumar, cuja jornada de volta para a vila de Devari se tornou viral depois que uma fotografia capturou um amigo segurando o outro, febril e desidratado, à beira de uma estrada.
Estrelado por Ishaan Khatter, Vishal Jethwa e Janhvi Kapoor, 'Homebound' acompanha Shoaib (Ishaan Khatter) e Chandan (Vishal Jethwa) em sua busca por um emprego na polícia que promete dignidade, apenas para se depararem com a brutal realidade sociopolítica da Índia durante o lockdown de 2020. Shoaib, um muçulmano, é inspirado em Mohammad Saiyub, enquanto Chandan, um dalit, é baseado em Amrit Kumar. Em um país com crescente islamofobia e onde a discriminação de castas é oficialmente proibida, mas o estigma persiste, a amizade entre os dois destaca a interseção de divisões sociais, lealdade e resiliência".
Na história real "Mohammad Saiyub, um muçulmano de 22 anos, e Amrit Kumar, um dalit de 24 anos, cresceram juntos na pequena vila de Devari, em Basti, Uttar Pradesh, enfrentando divisões sociais e religiosas profundamente enraizadas. Apesar dessas barreiras sociais, os dois formaram uma forte amizade desde a infância.
Quando jovens adultos, mudaram-se para Surat, na costa oeste da Índia, para trabalhar em fábricas locais, dividindo um quarto alugado enquanto mantinham empregos separados. O objetivo era juntar dinheiro para sustentar suas famílias em Devari, na Índia. Mas, com a chegada da COVID-19 e o lockdown nacional imposto pelo governo em 2020, as fábricas fecharam e os empregos desapareceram, deixando os amigos com economias cada vez menores e sem perspectivas claras de como voltar para casa.
Tentando voltar para casa, Saiyub e Kumar inicialmente tentaram conseguir lugares em trens especiais administrados pelo governo para trabalhadores migrantes, mas depois de semanas sem sucesso, recorreram a um caminhão que transportava trabalhadores para o norte, em direção a Uttar Pradesh. Eles combinaram de pagar ao motorista 4.000 rúpias indianas cada um - aproximadamente US$ 53 na época e cerca de US$ 45 hoje.
A dupla caminhou cerca de 24 quilômetros ao lado de outros 60 trabalhadores para chegar a um local isolado na rodovia, onde o caminhão os aguardava. Uma vez a bordo, eles suportaram a longa e desconfortável viagem em um espaço apertado, semelhante a uma sacada, acima da cabine do motorista.
No dia seguinte, Kumar apresentou febre alta e começou a tremer. Os outros passageiros, temendo uma infecção por COVID-19, insistiram para que ele saísse do caminhão. Saiyub se recusou a abandonar o amigo e o ajudou a descer sob o calor do meio-dia. Eles esperaram em uma pequena clareira à beira da estrada, onde um político local chegou para fornecer comida e água. Saiyub permaneceu ao lado de Kumar, tentando refrescá-lo e mantê-lo consciente enquanto seu estado piorava.
Uma ambulância os transportou para um hospital local em Kolaras. Naquele momento, eles ainda estavam a mais de 500 quilômetros de sua aldeia em Devari. Os médicos suspeitaram inicialmente de insolação e hipoglicemia e iniciaram a terapia de reidratação oral para estabilizá-lo. Como o estado de Kumar piorou, ele foi transferido para um hospital melhor equipado em Shivpuri, onde foi internado na unidade de terapia intensiva com desidratação grave. Saiyub foi colocado em uma ala de quarentena enquanto aguardava o resultado do teste de COVID-19, permanecendo ansiosamente ciente da condição crítica de seu amigo e preocupado com o impacto na família de Kumar.
Em 15 de maio de 2020, uma fotografia - tirada antes da chegada da ambulância - capturou um momento comovente em uma rodovia no centro da Índia: Mohammad Saiyub embalando seu amigo Amrit Kumar no colo, febril, desidratado e quase inconsciente. Ao lado deles, uma garrafa de água pela metade e uma sacola vermelha, enquanto o sol castigava a clareira.
A imagem se espalhou rapidamente pelas redes sociais indianas, tornando-se um poderoso símbolo de amizade inabalável, vulnerabilidade humana e o impacto invisível do lockdown da COVID-19 sobre os trabalhadores migrantes. Ela imortalizou não apenas um momento trágico, mas a luta mais ampla de inúmeros trabalhadores que enfrentam jornadas exaustivas para voltar para casa em meio à pandemia.
Em 16 de maio de 2020, uma enfermeira confirmou o pior medo de Saiyub: Amrit havia falecido devido à desidratação severa. Ambos os amigos testaram negativo para COVID-19, demonstrando que as circunstâncias fatais se deviam às duras condições da viagem, e não ao vírus. Saiyub então enfrentou o desafio de trazer o corpo de Amrit para casa em meio às rígidas regras de confinamento. Inicialmente, as autoridades governamentais impediram o pai de Amrit de viajar, e Saiyub teve que lidar com a burocracia, rezando por um resultado negativo para COVID para que pudesse levar seu amigo de volta para Devari em segurança.
Após receber a confirmação de que ambos os testes deram negativo, Saiyub transportou o corpo de Amrit para a aldeia. Ele foi enterrado no cemitério Dalit local, sob um simples monte de terra.
A morte de Amrit deixou um impacto duradouro em sua família, que dependia de sua renda e apoio. Suas modestas contribuições, incluindo uma pequena casa de tijolos, ressaltaram seu papel na sustentação de suas vidas. Saiyub retornou a Devari com seus pais, enfrentando incertezas econômicas enquanto lamentava a perda de seu amigo de longa data. O ensaio de Peer enquadrou a história deles no contexto mais amplo das lutas dos trabalhadores migrantes da Índia, destacando as vulnerabilidades de casta, classe e sociais reveladas durante a pandemia".
Apesar de "Homebound" se inspirar no ensaio publicado pelo jornalista caxemiri Basharat Peer, os eventos descritos no artigo formaram apenas o clímax do filme, já que o diretor, com a orientação do produtor executivo Martin Scorsese, encontrou na história real de Mohammad Saiyub e Amrit Kumar apenas a essência para desenvolver uma história completamente original.
O que disse a crítica 1: Isaac Jackson do site The Indiependent avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Não é difícil perceber que Ghaywan se inspirou em eventos reais, visto que a narrativa é tão solta e sinuosa quanto admiravelmente verossímil. Há alguns momentos em que as mais de duas horas de duração se arrastam, então é uma sorte que Ghaywan tenha um trunfo dramático na manga para usar nos momentos finais do filme. Precisão biográfica à parte, é um feito narrativo que, em mãos menos talentosas, poderia soar histriônico, mas aqui consegue tocar uma fibra emocional genuína: graças principalmente a Khatter [que interpreta Shoaib], um ator promissor com o talento de um veterano consagrado".
O que disse a crítica 2: Renuka Vyavahare do site Times of India avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "As atuações são excepcionais. Ishaan Khatter entrega uma performance que define sua carreira - precisa, magnética e madura. Com uma presença marcante em cena e uma sabedoria que vai além da sua idade, ele consolida seu lugar entre os melhores atores de sua geração. Vishal Jethwa é igualmente cativante - cru, honesto e uma verdadeira revelação. É revigorante vê-lo incorporar Chandan com tanta contenção e profundidade. Shalini Vatsa, como a mãe de Chandan, deixa uma impressão duradoura com sua graça discreta. Janhvi Kapoor é sincera em sua breve aparição. 'Homebound' levanta muitas questões. Como chegamos a este ponto? O que nos tornou tão desprovidos de empatia e compaixão? Uma observação comovente de um mundo que se torna cada vez mais frio, este é um filme de altíssima qualidade".
O que eu achei: Vi “Homebound” (2025) movida pela curiosidade dele ter sido pré-selecionado como representante da Índia ao Oscar de Filme Internacional, mas a expectativa de encontrar um drama potente acabou dando lugar a uma experiência bem inferior. Inspirado em um ensaio do jornalista Basharat Peer e numa fotografia que viralizou durante o lockdown da Covid-19, o filme parte de um episódio real ocorrido na Índia: a história de dois amigos de infância que tentavam conseguir um cargo na polícia que lhes promete a dignidade negada por muito tempo por conta de sua casta, mas que acabam tendo seus planos frustrados pela chegada da pandemia. Os acontecimentos retratados no artigo aparecem apenas como clímax, enquanto o restante da narrativa segue por caminhos ficcionais que pouco acrescentam em originalidade. A fotografia é belíssima. Ela captura com sensibilidade tanto a vastidão das paisagens quanto a vulnerabilidade dos personagens. Entretanto esses momentos visualmente impactantes sugerem um filme mais profundo do que ele de fato é, já que essa potência estética não encontra equivalente no roteiro. O problema central está no tom excessivamente melodramático. “Homebound” recorre a soluções fáceis, carregando nas emoções de forma previsível, o que enfraquece o impacto da história real que o inspirou. Em vez de explorar as nuances humanas de uma crise tão complexa, o filme opta por uma abordagem simplificada, novelesca, quase didática. O resultado é um longa correto, acessível, mas sem o peso ou a densidade que se espera de um representante ao Oscar. Está mais para um forte candidato a passar na Sessão da Tarde, daqueles com uma trilha sonora apelativa. Numa escala de 1 a 5, daria 2 estrelas no máximo.

3.4.26

"Retrato de Um Certo Oriente" - Marcelo Gomes (Brasil/Itália/Líbano, 2024)

Sinopse:
Emilie (Wafa'a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour), irmãos católicos, fogem de uma guerra no Líbano para o Brasil. Durante a viagem, Emilie se apaixona por um comerciante muçulmano, Omar (Charbel Kamel). Emir sofre de um ciúme incontrolável e usará suas diferenças religiosas para separá-los.
Comentário: Marcelo Gomes (1963) é um cineasta e roteirista brasileiro. São dele os filmes "O Homem das Multidões" (2014), codirigido por Cao Guimarães, "Joaquim" (2017) e "Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar" (2019), todos selecionados para o Festival de Cinema de Berlim. Assisti dele os bons "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), premiado em Cannes; "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009), codirigido por Karim Aïnouz; e "Paloma" (2022). Desta vez vou conferir "Retrato de um Certo Oriente".
Neusa Barbosa do site Cineweb publicou: "Mais do que uma adaptação, é uma inspiração que colhe o diretor Marcelo Gomes a partir do livro de Milton Hatoum, 'Relato de um Certo Oriente'. No filme, em que muda o nome para 'Retrato de um Certo Oriente', ele transforma essa história turbulenta de imigrantes libaneses em Manaus numa espécie de metonímia do texto de Hatoum, colhendo dele apenas alguns personagens e ampliando de maneira singular a participação da Amazônia e não só como cenário.
Afeito a filmes sobre personagens em movimento e choques culturais, como sua estreia, 'Cinema, Aspirinas e Urubus' (2005), em que retratava o convívio de um alemão (Peter Ketnath) e um nordestino (João Miguel) pelas estradas do Brasil, Gomes expande a história pregressa dos irmãos Emilie (Wafa’a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour), igualmente centrais no livro.
No roteiro, assinado por Gomes e Maria Camargo, visita-se o passado dos irmãos, no Líbano de turbulento de 1949, numa tempestuosa cena em que o irmão vem arrancar sua irmã do convento em que se refugiara depois da morte dos pais - uma sequência que conta com a participação carismática da atriz brasileira Tuna Dwek, como a madre superiora. Vendendo a casa dos pais, Emir quer começar vida nova no Brasil com Emilie - a quem o une um amor ciumento, sentimento que será decisivo no rumo dessa história de personagens 'apaixonados e apaixonantes', como define o diretor.
A bordo de um navio a caminho do Brasil, Emir esconde-se na cabine de Emilie como clandestino, para economizar o preço de uma passagem. Em suas explorações pelo navio, Emilie acaba conhecendo Omar (Charbel Kamel), um comerciante libanês já habituado na rota entre o Líbano e o Brasil. Nasce uma paixão entre o muçulmano Omar e a cristã Emilie. Mas a religião é apenas um pretexto para a oposição doentia de Emir, que tem pela irmã uma possessividade quase de paixão incestuosa. Destes repentes extremos do temperamento de Emir, em que se nota um esboço de atração homossexual por um fotógrafo (Eros Galbiati), está contido o potencial de tragédia que, neste aspecto, não se desvia tanto do livro.
Mas, para fugir dos fluxos de consciência que povoam o texto do livro, Gomes constrói um arcabouço de belas imagens em preto-e-branco (fotografia de Pierre de Kerchove), que traduz o conteúdo destes múltiplos olhares, dos libaneses entre si e deles para as populações indígenas locais que eles começam a conhecer já no barco. A parada numa aldeia indígena, aliás, causada por um acidente com Emir, é a oportunidade criada no filme para apresentar melhor as culturas locais e também introduzir um tema muito atual, a luta pela defesa da terra das populações originárias. E é também neste novo ambiente que o amor entre Emilie e Omar poderá enraizar-se, incorporando um elemento de tolerância entre culturas e religiões que, de algum modo, é também fundador de uma certa utopia sonhada pelo Brasil, apesar de todos os preconceitos.
Ao optar por permanecer apenas na juventude de seus personagens, não indo adiante no tempo como o livro, Gomes também limita seu escopo dramático a essa ideia de início de uma vida nova, que é pontuada de paixões mas também de perda e dor. E é nestes temas que o filme encontra uma universalidade, sem trair a especificidade desses encontros tão inusitados, como o dos libaneses e dos indígenas no solo brasileiro".
O que disse a crítica 1: Victor Russo do site Filmes & Filmes avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Gomes parece não ter uma grande pretensão em falar exatamente sobre as Guerras ou sobre a religião, mas de recordar e eternizar o resultado delas, assim como exaltar esses aventureiros que se permitiram encontrar o amor no desconhecido preto e branco de um país que nem sabiam onde ficava. E, ainda que a trama envolvendo o irmão seja bastante novelesca, o cineasta consegue extrair muita beleza entre as relações que Emilie faz pelo caminho, os aprendizados, como a nova língua ou montar uma rede para dormir, que não soam pesarosos, e, sim, parte dessa jornada autoimposta que aos poucos ganha um contorno de sonho e até otimismo".
O que disse a crítica 2: Caio Coletti do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "'Retrato de um Certo Oriente' não é o primeiro e não será o último drama de imigração que articula a tragédia e o triunfo de construir uma vida em um novo lugar (e, necessariamente, destruir a vida que se vivia no antigo). Mas é um sentimento sempre pungente de se ver na tela, e o filme de Marcelo Gomes encontra em suas escolhas estéticas os meios para expressá-lo de uma forma que se apresenta genuína. É mais do que o bastante para valer sua 1h30 de projeção".
O que eu achei: Assistir a “Retrato de Um Certo Oriente” (2024) me fez perceber o quanto eu gosto do trabalho do Marcelo Gomes. Assisti dele anteriormente "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009), codirigido por Karim Aïnouz; e "Paloma" (2022) e este é mais um achado. Inspirado no livro "Relato de um Certo Oriente" de Milton Hatoum (um escritor nascido em Manaus, filho de imigrantes libaneses), o filme explora a saga de imigrantes libaneses no Brasil e os desafios enfrentados na floresta amazônica. A história começa no Líbano de 1949, onde os irmãos católicos Emilie (Wafa'a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour) decidem deixar sua terra natal, ameaçada pela guerra, em busca de uma vida melhor. Bastou uma breve busca na internet pra descobrir que, de fato, o Líbano esteve envolvido na Guerra Árabe-Israelense de 1948, que se estendeu até o início de 1949. Então tudo indica que foi esse conflito que motivou Emir a vender a casa de seus pais e decidir vir tentar a vida no Brasil com sua irmã. Durante a travessia de navio – que parte de Beirute em direção a Belém do Pará - Emilie conhece e se apaixona por Omar (Charbel Kamel), um comerciante muçulmano nascido em Trípoli na Líbia, já habituado a fazer essa rota por conta do comércio e dos tios que residem em Manaus. Contudo, Emir, tomado por ciúmes e influenciado pelas diferenças religiosas, tenta separá-los. Em entrevista, Marcelo Gomes nos conta que todos os filmes dele envolvem uma viagem, neste caso o deslocamento de um país semiárido para ‘o mundo das águas e da floresta' no coração do Amazonas. O romance de Milton Hatoum o interessou especialmente pela questão da alteridade – a natureza ou condição do que é outro, do que é distinto – que é um dos temas preferenciais seus, já que ele acredita que a única maneira de desconstruir preconceitos é ver o mundo através dos olhos alheios. Essa alteridade está não só na relação entre os dois irmãos católicos e o comerciante muçulmano, como também na relação deles com os indígenas da Amazônia e seus rituais religiosos. Aliás, no elenco, os dois atores que interpretam os irmãos são realmente libaneses, enquanto Omar é francês e Anastácia - dentre outros atores - é indígena. A trama é desenvolvida de forma lenta, mais contemplativa do que apressada, tendo o design sonoro e a belíssima fotografia em P&B – assinada pelo brasileiro Pierre de Kerchove, na qual o ‘relato’ vira um ‘retrato’ - como dois pontos altos do longa. É mais um daqueles filmes brasileiros pra gente se orgulhar. Super recomendo.

2.4.26

"Ozark" - Bill Dubuque & Mark Williams (EUA, 2017-2022)

Sinopse:
A trama acompanhava a família Byrde, formada pelo contador Marty Byrde (Jason Bateman), sua mulher Wendy Byrde (Laura Linney) e seus dois filhos Charlotte (Sofia Hublitz) e Jonah (Skylar Gaertner), que se mudam para a região remota de Ozark, no Missouri, interior dos Estados Unidos, após Marty se endividar com um cartel do narcotráfico mexicano. Lá, eles constroem seu próprio império criminal com ajuda da criminosa Ruth Langmore (Julia Garner).
Comentário: Trata-se de um seriado composto por 4 temporadas, totalizando 44 episódios, que segue a vida de Marty Byrde, um consultor financeiro, que, por circunstâncias extremas, inicia operações de lavagem de dinheiro para um cartel mexicano. Junto com sua família, Marty se muda para a região dos Lagos Ozark, onde desenvolve planos intrincados para lavar grandes quantias.
A série não só foca nas atividades criminais de Marty, mas também explora as dinâmicas familiares e os conflitos pessoais. Wendy Byrde, esposa de Marty, desempenha um papel crucial na história, evoluindo de uma dona de casa para uma figura central nos negócios ilícitos. Além disso, "Ozark" apresenta uma gama de personagens secundários, cada um com suas próprias histórias e motivações, que enriquecem a trama principal. Esses personagens incluem agentes da lei, criminosos locais e membros do cartel.
O site sobre mercado financeiro Melver nos conta que "A série se destaca por sua representação autêntica da lavagem de dinheiro e suas implicações morais e legais. Os criadores de 'Ozark' habilmente entrelaçam ação, suspense e drama, criando uma narrativa que prende a atenção do espectador. Ao longo das temporadas, 'Ozark' mergulha em temas como lealdade, poder e sobrevivência, proporcionando uma visão multifacetada do submundo do crime financeiro. Com roteiro bem elaborado e performances excepcionais, 'Ozark' não é apenas entretenimento; é uma janela para um mundo muitas vezes oculto e perigoso.
A lavagem de dinheiro é um processo complexo usado para disfarçar a origem ilegal de fundos. Esse processo transforma dinheiro obtido de maneira ilícita em ativos aparentemente legítimos. O objetivo principal é ocultar a ligação entre o dinheiro e sua fonte criminosa. Assim, os criminosos conseguem usar os fundos sem levantar suspeitas.
Existem três etapas principais na lavagem de dinheiro. A primeira é a colocação, onde o dinheiro ilícito entra no sistema financeiro. Em seguida, vem a ocultação, que envolve uma série de transações para confundir a origem dos fundos. Por fim, temos a integração, onde o dinheiro já ‘limpo’ é reintroduzido na economia. Nessa fase, ele aparece como um rendimento legítimo.
Os métodos de lavagem de dinheiro são diversos e podem incluir negócios legítimos, como restaurantes e casas noturnas, ou investimentos em ativos como imóveis. Além disso, a lavagem de dinheiro frequentemente utiliza tecnologias avançadas e operações bancárias internacionais. O avanço da tecnologia digital, especialmente com as criptomoedas, introduziu novos métodos de lavagem de dinheiro.
Combater a lavagem de dinheiro é crucial, pois ela financia atividades como o tráfico de drogas e o terrorismo. Governos e organizações internacionais, como o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), trabalham para desenvolver políticas para combater essa prática. Leis rigorosas e cooperação internacional são essenciais para identificar e prevenir a lavagem de dinheiro. Entender esse processo é fundamental para reconhecer e combater o crime financeiro em um contexto global.
Na série 'Ozark', a lavagem de dinheiro é um tema central, abordado com detalhes e nuances. Marty Byrde, o protagonista, emprega métodos sofisticados para lavar dinheiro para um cartel de drogas mexicano. Ele utiliza negócios locais, como um barco-cassino e uma imobiliária, para misturar fundos ilícitos com receitas legítimas. Essa estratégia exemplifica a etapa de colocação no processo de lavagem de dinheiro. Além disso, Marty realiza transações complexas para distorcer a trilha financeira. Isso inclui investimentos em negócios que geram grande volume de dinheiro vivo, facilitando a mistura de fundos ilícitos. Essas ações representam a etapa de ocultação. A série mostra como essas transações são meticulosamente planejadas para evitar suspeitas.
Finalmente, na fase de integração, vemos o dinheiro sendo reinvestido como se fosse legítimo. Marty cria uma aparência de normalidade, usando o dinheiro em transações legais, como a compra de propriedades. Este aspecto da série ilustra o quão desafiador pode ser para as autoridades detectar e rastrear a lavagem de dinheiro.
A série 'Ozark' apresenta estratégias de lavagem de dinheiro que, embora convincentes, são muito diferentes em vários aspectos da realidade. Na ficção, Marty Byrde utiliza negócios locais para camuflar o dinheiro sujo, uma prática comum, mas executada com uma precisão quase inalcançável na vida real. No mundo real, a lavagem de dinheiro envolve uma rede muito mais ampla e complexa de operações e transações internacionais.
Além disso, as técnicas mostradas em 'Ozark', como o uso de cassinos e investimentos em imóveis, são métodos conhecidos, mas simplificados na série. Na vida real, os processos são muito mais intricados e menos previsíveis. Os lavadores de dinheiro reais frequentemente mudam suas estratégias para evitar a detecção, algo que a série não aborda profundamente.
No entanto, 'Ozark' acerta ao retratar as consequências legais e pessoais da lavagem de dinheiro. As tensões e perigos enfrentados por Marty e sua família refletem as ameaças reais vivenciadas por aqueles envolvidos em tais atividades ilícitas. A série também acerta ao mostrar a constante necessidade de inovação nas técnicas de lavagem, uma realidade no mundo do crime financeiro.
A principal diferença entre a série e a realidade reside na dramatização. Enquanto 'Ozark' foca em um indivíduo, a lavagem de dinheiro real é um problema global, envolvendo redes vastas e muitas vezes entidades corporativas. Portanto, embora 'Ozark' ofereça uma visão intrigante, ela representa apenas uma fração da complexidade e escala da lavagem de dinheiro no mundo real".
A série ganhou diversos prêmios, incluindo o Globo de Ouro 2021 na categoria Melhor Série – Drama.
O que eu achei: O seriado lembra muito uma outra série que eu vi chamada "Breaking Bad" (2008-2013) já que se trata de um consultor financeiro chamado Martin Byrde, que leva sua família do subúrbio de Chicago para uma comunidade no Missouri chamada Ozark com a finalidade de lavar dinheiro para um cartel de drogas. Li que a inspiração para a criação desse seriado veio justamente de "Breaking Bad", como a própria Netflix confirmou. Em ambos temos o retrato de um homem de meia-idade comum, pai de família, que entra para o mundo do crime e que precisa aprender a lidar com esse ambiente de tráfico de drogas e de lavagem de dinheiro. A primeira temporada é um pouco irregular. Ela serve basicamente pra conhecermos os personagens e entendermos como esse contador se envolveu com o chefão de um cartel mexicano chamado Omar Navarro. Vamos ver a mudança da família dele de Chicago para Ozark, vamos nos familiarizar com sua esposa, seus filhos, com os moradores da cidade e com uma série de personagens que vão surgindo ao longo dos episódios envolvidos com essa tarefa de transformar dinheiro ganho de forma ilícita em dinheiro limpo. Vamos conhecer também os agentes do FBI empenhados em chegar no dono do cartel. Ao longo da primeira temporada eu até pensei em desistir, mas ainda bem que eu segui em frente, pois as demais temporadas são melhores, bem mais envolventes e impactantes. Já somos íntimos dos personagens principais e as atividades ilícitas da família encontram saídas que soam um pouco mais verossímeis do que na primeira temporada. O ritmo também melhora bastante. O resultado final é muito bom. Diferentemente de "Breaking Bad", aqui há um grande destaque para as personagens femininas, dentre elas Wendy Byrde (Laura Linney) a esposa de Marty; Ruth Langmore (Julia Garner), uma jovem esperta e durona que se torna sócia e amiga de Marty; Helen Pierce (Janet McTeer), advogada e parceira de negócios do cartel de drogas; Darlene Snell (Lisa Emery), uma traficante de heroína local, imprevisível e violenta e Camila Elizonndro (Verónica Falcón), a irmã do chefe do cartel que surge na última temporada. Ainda considero o seriado "Breaking Bad" superior, mas quem gosta dessas tramas envolvendo famílias comuns e tráfico de drogas, vai gostar deste também. Ótimo pra distrair a cabeça.

30.3.26

"Living the Land" - Huo Meng (China, 2025)

Sinopse:
Na China rural de 1991, quando os aldeões migram para as cidades em busca de melhores oportunidades, Chuang (Wang Shang), de 10 anos, permanece em sua cidade natal. Ele vive em uma época de grandes mudanças socioeconômicas que afetam principalmente os camponeses de sua região, incluindo a própria família.
Comentário: Huo Meng (1984) é um cineasta chinês. Ele começou estudando direito na Communication University of China, antes de prosseguir com um mestrado em cinema na mesma instituição. Seu curta-metragem "Hongguang’s Holidays" (2008) venceu o prémio de Melhor Curta de Estudante no Festival de Cinema da Universidade de Pequim, e seu primeiro longa, "Crossing the Border – Zhaoguan" (2018), arrecadou vários prémios internacionais, sendo exibido na Berlinale de 2020. "Living The Land" (2025) é seu segundo longa e o primeiro filme que vejo dele.
Carmen Augusta do site Splish Splash publicou: "Vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, 'Living The Land' (...) é um retrato sensível e implacável da China rural no início dos anos 1990, quando tradição e modernidade passam a ocupar o mesmo espaço - nem sempre de forma pacífica.
Ambientado em 1991, o filme acompanha Chuang, um menino de 10 anos que permanece na aldeia natal enquanto boa parte da população migra para as cidades em busca de trabalho e sobrevivência. Terceiro filho de uma família camponesa, ele observa um mundo antigo desmoronar lentamente, substituído por máquinas, novas políticas econômicas e uma lógica de progresso que não pede licença às emoções nem à memória coletiva.
Durante mais de três mil anos, a China estruturou-se como uma sociedade essencialmente agrícola. Até a década de 1980, o campo era responsável por sustentar a maior parte da riqueza social do país. Com as reformas econômicas e o avanço tecnológico, esse equilíbrio foi abruptamente rompido. O trabalho manual começou a ser substituído por máquinas industriais, enquanto recursos como o petróleo passaram a ocupar o lugar simbólico e prático da terra, base da vida rural.
Segundo Huo Meng, 'Living The Land' nasce da necessidade de compreender o impacto profundo desse momento histórico sobre as tradições, os afetos e as relações humanas. As mudanças, como ele próprio define, agiram como um vento imparável, varrendo hábitos, crenças e modos de vida construídos ao longo de séculos. O filme, embora enraizado no passado, dialoga diretamente com a mentalidade da China contemporânea e com dilemas universais ligados ao progresso.
O diretor também destaca o embate entre políticas sociais coletivistas e tradições milenares, forçando comunidades inteiras a se adaptarem de formas muitas vezes dolorosas. Nesse processo, o filme lança um olhar atento sobre as mulheres, que enfrentam pressões sociais e físicas intensas, deixando marcas profundas e, em muitos casos, irreversíveis. Não há romantização: há observação, escuta e respeito.
Com 129 minutos de duração, 'Living The Land' conquistou reconhecimento imediato da crítica internacional. O longa mantém 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e foi elogiado por veículos como The Hollywood Reporter, que destacou sua precisão estética e sensibilidade narrativa. A Screen Daily definiu o filme como imersivo e ambicioso, enquanto o IndieWire o descreveu como extremamente bonito e envolvente - adjetivos que não surgem por acaso.
Mais do que um drama histórico, 'Living The Land' é uma experiência contemplativa sobre perda, adaptação e resistência silenciosa. Um filme que observa sem pressa, confia na força das imagens e permite que o espectador caminhe junto com seus personagens por um território em extinção simbólica".
O que disse a crítica 1: Jorge Pereira Rosa do site C7nema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "'Living the Land' põe na equação várias gerações desafiadas pela mudança dos modos de vida e do 'ser', contribuindo a fotografia e a realização de Heng para unir o espectador junto à 'terra', 'a quem a trabalha', e de quem sofre e lucra com ela. Conversas sobre o preço inflacionado da comida nas grandes cidades mostram que o nível de vida nesta pequena localidade cria uma desarmonia econômica tão gritante que 'ficar' é aceitar a morte e um caudal de disparidades como destino final, enquanto temáticas como o planejamento familiar, os fuzilamentos do passado, e o coletivismo invadem toda a história da família que é o reflexo de muitas outras do mesmo território. No final, apesar da sensação de dèjá vu temático, sobressai a forma como Heng tenta criar um épico sobre várias gerações do mesmo clã, falando nisso da própria China, ainda hoje a lutar (...) por uma identidade em algum lugar entre a sua história e o capitalismo que a veio conquistar".
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Ele elogia a fotografia dizendo que ela "remete à sensação de contemplar inúmeros quadros renascentistas, concebidos precisamente para o passeio dos sentidos, a admiração de tantas ações em paralelo, visando construir um ideal de coletividade. Por isso, pode-se falar em um protagonismo coletivo do vilarejo - o número de pessoas citadas nos créditos finais é impressionante". E conclui: "É evidente que o filme se posiciona ao lado destes indivíduos, com carinho e admiração, o que não implica em idealizar sua luta inglória para ganhar alguns centavos, nem em torná-los ícones de um modo de vida tradicional. 'Living the Land' formula perguntas pertinentes para o espectador tirar as conclusões que julgar apropriadas a partir de um painel tão abrangente".
O que eu achei: Trata-se de um longa que se passa no ano de 1991 na China, mostrando a sobrevivência de uma aldeia rural tradicional enquanto o país passa por profundas mudanças socioeconômicas em um cenário de modernização. À medida que o advento da tecnologia remodela seu estilo de vida, os ciclos de nascimentos, mortes, casamentos e funerais revelam o peso duradouro da tradição e as pressões para equilibrar as responsabilidades familiares nesse mundo em transformação. A trama se foca em um menino chamado Chuang, de 10 anos. Seu pai, mãe e irmãos mais velhos já foram para a cidade em busca de trabalho e ele ficou aos cuidados dos outros familiares. O filme é lindo e bastante contemplativo. Na maior parte do tempo a câmera fica mais à distância retratando a comunidade em atividade e a beleza do campo e, pontualmente, se aproxima dos personagens para mostrar questões individuais. O final nos conta que o próprio diretor - Huo Meng – vivia em uma dessas aldeias. Numa breve pesquisa li que ele nasceu em Zhoukou, distrito de Taikang, em 1984, na então pobre província de Henan, no Sudeste da China. O filme tem então uma inspiração autobiográfica. Em entrevista ele declarou que “queria retratar como - quando políticas sociais coletivistas colidiram com tradições moldadas ao longo de milênios - as pessoas foram forçadas a se adaptar de maneiras que desafiaram seu próprio modo de vida". Ele sentiu que era importante retratar as imensas pressões que as mulheres enfrentaram, tanto social quanto fisicamente, que deixaram danos duradouros e irreversíveis. O longa recebeu o Urso de Prata no festival de cinema de Berlim em Melhor Direção. É um filme sobre os que vão, mas principalmente sobre os que ficam. Atenção à fotografia assinada por Guo Daming. Ela evidencia de forma bem poética como o vilarejo, aos poucos, foi se tornando um pedaço do passado. Excelente.

29.3.26

"O Pavão" - Bernhard Wenger (Áustria/Alemanha, 2024)

Sinopse:
Matthias (Albrecht Schuch) é um mestre em sua profissão. Você precisa de um namorado culto para impressionar seus amigos? Um filho perfeito para influenciar a opinião que seus parceiros de negócios têm de você? Ou talvez apenas um parceiro de treino para ensaiar uma discussão? Seja o que for, basta contratar Matthias. Embora seja excelente em fingir ser outras pessoas diariamente, o verdadeiro desafio é ser ele mesmo.
Comentário: Bernhard Wenger (1992) é um cineasta e escritor austríaco. Ele produziu cinco curtas, incluindo "Com Licença, Estou Procurando a Sala de Pingue-Pongue e Minha Namorada" (2018) premiado no Austrian Film Awards. "O Pavão" (2024) é seu primeiro longa e o primeiro filme que vejo dele.
Guy Lodge da Variety publicou: "Atencioso, culto, educado, paciente, bom ouvinte, agradável aos olhos: Matthias é o tipo de homem com quem quase qualquer pessoa gostaria de ter como companhia. Por sua vez, ele se alegra em fazer companhia a quase qualquer pessoa: um solteiro de meia-idade em busca de um acompanhante para um concerto de música clássica, uma senhora idosa casada que não consegue conversar com o marido, um homem da sua idade que precisa de um namorado de mentira para conseguir alugar um apartamento.
Só porque ele é pago para fazer companhia em todas essas situações não significa que ele as trate com menos cuidado do que trataria qualquer um de seus próprios relacionamentos não remunerados - o que pode ser um problema, ele percebe, quando sua namorada o abandona, dizendo exasperada que ele 'não parece mais real'. Essa observação concisa leva Matthias a uma espiral descendente, uma crise de identidade, que dá à (...) comédia de humor negro de Bernhard Wenger , “O Pavão ”, seu arco imprevisível.
(...) Este destaque da Semana da Crítica de Veneza já acumulou vendas robustas nos principais territórios graças à sua sátira brilhante e facilmente traduzível e à atuação eletrizante de Albrecht Schuch - o astro alemão que causou impacto internacional com sua performance indicada ao BAFTA em 'Nada de Novo no Front'.
Com sua premissa aparentemente absurda, na verdade inspirada por um boom real de agências de 'amigos para alugar' no Japão, esta reflexão sobre a microgestão do estilo de vida do Instagram e a fragilidade das conexões humanas em uma era de sobrecarga de redes sociais é suficientemente inteligente e original para resistir às inevitáveis ​​comparações com a obra de Yorgos Lanthimos e, particularmente, com Ruben Östlund. 'Peacock' é um pouco mais ameno do que ambos, com a busca melancólica de Matthias pela personalidade que perdeu em algum momento, tornando-o um anti-herói decididamente cativante.
Ainda há um toque de frieza formalista austríaca em sua perspectiva inquisitiva e distante, e na mise-en-scène impecavelmente composta: a fotografia de Albin Wildner é nítida, brilhante e estática, uma tela contida para piadas visuais impactantes.
O vídeo começa com uma nota intrigantemente enigmática, com uma composição sinistra de um carrinho de golfe em chamas num gramado impecável, que é finalmente apagado por um homem e uma mulher que entram agilmente em cena com extintores, antes de se congratularem pelo seu heroísmo. O homem é Matthias: sem qualquer contexto para esta cena, somos levados a presumir que combater incêndios num campo de golfe é simplesmente mais um dia de trabalho para um homem que se orgulha da sua compostura e disponibilidade em todas as situações.
Sempre elegantemente vestido e arrumado, com o bigode bem aparado e o topete loiro impecável, ele é simultaneamente o CEO e o rosto muito atraente da My Companion, uma empresa vienense de aluguel de amigos que disfarça qualquer potencial tristeza ou vulgaridade na empresa com uma linguagem terapêutica amigável e uma estética jovem e vibrante.
Os negócios vão muito bem, a julgar pela casa modernista impecável e elegantemente decorada que ele divide com Sophia (Julia Franz Richter). No entanto, entre seus muitos e variados compromissos de trabalho e a lição de casa que faz para cada um deles (revisar seus conhecimentos de aviação para se passar pelo pai piloto de uma criança em um evento de orientação profissional na escola, preparar um discurso para a luxuosa festa de 60 anos de seu pai fictício), sobra cada vez menos tempo para Matthias ser Matthias.
Quando Sophia o abandona, ele percebe que não tem mais nenhuma conexão consigo mesmo, e tudo o que tenta para reencontrar seu equilíbrio - de retiros de ioga caros a uma paquera casual com uma conhecida (Theresa Frostad Eggesbø) (...) só o faz se sentir ainda mais deslocado em relação aos ritos sociais modernos.
Até mesmo sua casa parece uma casa de exposição que não é realmente sua, com seus incompreensíveis problemas de encanamento, decoração alienantemente perfeita (todo o crédito para o design de produção espirituoso de Katharina Haring) e um filhote de Pomerânia que corre descontroladamente, parecendo um brinquedo, que ele também aluga de uma agência. (...) Será preciso uma mudança drástica em sua rotina para que ele se reencontre, e um egoísmo que certamente não será bom para os negócios".
O que disse a crítica 1: Rogério Machado do site Papo de Cinemateca avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Ainda que com sequências impagáveis e um plot provocador, 'O Pavão' se perde em trocar a ironia e (...) o debate sobre um mundo que vive de aparências pela melancolia do protagonista após uma desilusão amorosa. Ainda que reserve bons momentos aqui e ali, e ostente um desfecho até interessante - que na minha opinião carrega a tônica do que a trama poderia ter sido - o longa (...) pode se tornar base para boas discussões sobre expectativa x realidade, sobretudo num mundo que, a cada geração, parece desconhecer o verdadeiro valor da palavra identidade".
O que disse a crítica 2: Marc van de Klashorst do site ICS Film avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: " Um filme como este não funciona sem um ator que compreenda a tarefa, e Albrecht Schuch (...) assume o papel de Matthias como um camaleão, ou talvez como o pavão do título. Entre o comportamento comedido e amigável do ansioso Matthias no 'trabalho' e a mistura de expressões de constrangimento, confusão e a iminência das lágrimas quando precisa ser ele mesmo, Schuch cria um personagem ricamente texturizado que, à primeira vista, é propositalmente um espaço em branco. Seu timing cômico é exemplar, sem dúvida auxiliado pela edição impecável de Wenger (...). Sua atuação eleva um filme que já é rico em ideias; um filme que, sem dúvida, será comparado aos contemporâneos mais aclamados de Wenger já mencionados, mas que se sustenta por si só graças ao roteiro afiado, à direção precisa e a um ator que entrega uma das melhores performances cômicas do ano".
O que eu achei: Em “O Pavão” (2024) a premissa aparentemente excêntrica - um homem que trabalha numa agência do tipo 'rent a friend', onde clientes pagam para alugar vínculos afetivos - revela-se um terreno fértil para uma reflexão surpreendentemente atual sobre identidade e alienação. Matthias, vivido por Albrecht Schuch, é um profissional exemplar da empresa My Companion, especializado em interpretar papéis: ora filho dedicado, ora parceiro ideal, ora amigo confiável. Mas, à medida que se adapta às expectativas alheias, vai se afastando de qualquer noção de si mesmo. A inspiração do roteiro, nascida de uma experiência real do diretor no Japão onde essas agências de fato existem, dá ao filme uma base inquietante. Wenger relata ter conhecido um funcionário que, de tanto viver vidas emprestadas, já não conseguia acessar suas próprias emoções, uma ideia que estrutura toda a trajetória de Matthias. O filme transforma esse ponto de partida em uma sátira sobre uma sociedade obcecada por aparências, onde o 'eu' se dilui em performances constantes. Embora seja classificado como comédia, “O Pavão” está longe de apostar no riso fácil. Trata-se de um humor contido, quase desconfortável, alinhado à tradição austríaca de um cinema mais austero e melancólico. Há momentos genuinamente engraçados, mas eles surgem sempre tingidos de estranhamento. Nesse equilíbrio delicado, Schuch sustenta o filme com uma atuação precisa: seu Matthias é ao mesmo tempo apático e tragicômico, alguém cuja neutralidade revela um desespero emocional reprimido. Pequenos gestos e olhares bastam para expor o vazio que se acumula por trás de tantas identidades assumidas. Sabemos que a vida cotidiana exige o desempenho de múltiplos papéis, Wenger acerta ao não demonizar completamente essa adaptação social, mas aponta o risco de nos perdermos nela. Quando ser tudo para todos se torna regra, resta a pergunta: o que sobra de autêntico? O filme foi escolhido como representante austríaco ao Oscar de Melhor Filme Internacional, um reconhecimento coerente para uma obra que, com sutileza e inteligência, transforma um conceito curioso em um retrato inquietante do nosso tempo. Atenção ao título original do filme - "Pfau, Bin Ich Echt?" - que, na tradução literal, seria algo como "Pavão, Eu Sou Real?", mas cuja expressão idiomática significa "Nossa, Sou Mesmo Eu?". O animal aparece em alguns momentos do filme e é conhecido por exibir sua cauda exuberante para impressionar os outros. Boa pedida.

28.3.26

“Frida” - Carla Gutierrez (EUA, 2024)

Sinopse:
Uma jornada crua e mágica pela vida da icônica artista mexicana Frida Kahlo, contada por meio de suas próprias palavras em diários, cartas e entrevistas, trazida à vida com uma animação lírica inspirada em sua inesquecível obra.
Comentário: Maria do Rosário Caetano do site Revista de Cinema publicou: "Mais um filme sobre Frida Kahlo? E o público não se cansa? Ainda há algo de novo a dizer sobre a pintora que foi companheira do muralista Diego Rivera e amante de Trotski?
Carla Gutiérrez, montadora e documentarista norte-americana, nascida e criada no Peru, acredita que sim. Há ainda muito a se mostrar (e dizer) sobre a pintora mexicana, que viveu à sombra de Rivera, mas foi, em tempos de reafirmação da mulher, redescoberta e transformada em ícone planetário. Por isso, Carla realizou 'Frida', um fascinante documentário de sintéticos 88 minutos, enriquecido pelo uso criativo do cinema de animação. (...)
A realizadora não está interessada em narrativa biográfica, nem em busca de fontes e documentos inéditos (...) mas sim em traçar um retrato íntimo da pintora mexicana, desenhado pela própria artista. E a partir de fonte subjetiva – os Diários (ilustrados) de Frida, que os escreveu até sua morte, em 1954, aos 47 anos. E também de cartas e entrevistas da artista.
Uma latino-americana, afinal Carla nasceu no Peru, busca, com sororidade, as emoções, sensações, desejos, sonhos e frustrações da pintora, que expôs suas entranhas na criação de seus quadros e na escrita de seus famosos diários. Não custa lembrar, Frida era muito espirituosa e irônica. Já no começo de sua narrativa existencial, ela lembra que a mãe era fanática religiosa, a ponto de encomendar missas na própria casa da família. O pai, fotógrafo de origem alemã, era ateu. Sob essas duas influências, ela, ainda pré-adolescente, se perguntava: 'será que a Virgem Maria é mesmo virgem?' Na adolescência, Frida passou a desfrutar de dinâmica convivência com o grupo Los Cachuchas, disposto a colocar o México arcaico de pernas pro ar.
Em sintonia com nosso tempo histórico, Carla dá ênfase, em seu documentário, aos sentimentos, à postura feminista de Frida e aos traumatizantes abortos espontâneos que ela sofreu (um deles nos EUA). A cineasta (...) dá destaque à bissexualidade da pintora. E o faz evocando voz masculina, a de Diego Rivera, com quem Frida se casou por duas vezes. Em carta a uma amiga, Rivera pergunta se ela sabia que Frida era homossexual. Não se sabe o que a interlocutora respondeu. Mas o documentário de Carla Gutiérrez faz coro a muitas outras narrativas (incluindo os filmes ficcionais 'Frida, Natureza Viva', de Paul Leduc, e 'Frida', de Julie Taymor). Como Frida amou Rivera com todas as suas forças (palavras dela: 'te quiero mas que mi propia pele') e viveu experiências amorosas com muitos parceiros do sexo masculino, a ênfase em sua vida erótica acaba tomando o rumo hegemônico da heterossexualidade.
Para tornar a questão ainda mais complexa, muitas vozes se somam na farta obra editorial sobre Frida Kahlo para garantir que Rivera, um garanhão desmedido, era, contraditoriamente, ciumento. Preferia que a esposa se relacionasse com mulheres, mantendo-se distante dos homens.
O escritor francês J.M.G. Le Clézio, autor do livro 'Diego e Frida' (Scritta, 1993), integra o time dos que não acreditam na homoafetividade de Frida. Na página 108 dessa obra apaixonada pelo casal mais famoso da pintura mexicana, ele escreve: 'Enquanto Diego vive sua vida sensual, devorando todos e todas que dele se aproximam e continua, incansavelmente, a cobrir as paredes com signos e símbolos de uma história que o arrebata, Frida sabe que, longe de seu sol, pode apenas esfriar e descer ao inferno do nada. Procura sobreviver, refugia-se com Anita Brenner, faz um mad cap flight em avião particular até Nova York, ensaia flertar com outros homens, permite que lhe atribuam uma lenda de experiência lésbica'.
Para Le Clézio, que ganharia o Prêmio Nobel de Literatura em 2008, até os amantes masculinos de Frida (Nickolas Murray, o soviético Trotski e o escultor nipo-americano Isamu Noguchi) foram 'usados para despertar ciúmes em Diego'.
O romancista, que é também professor universitário e estudioso da história cultural do México, país ao qual dedicou diversas obras, defende em 'Diego e Frida' que o amor dela, a frágil 'paloma', foi integralmente canalizado para o corpulento 'elefante' (ou 'sapo', como ela chamava Diego em momentos lúdicos). Frida enfrentou graves problemas de saúde desde que, num acidente, uma barra de ferro rasgou suas entranhas. Ela passou um ano hospitalizada. Sua vida foi uma soma de dores martirizantes. Dores que ela recriou na obra mais confessional e corporal da arte pictórica mexicana.
Diego e Frida se comprometeram a ter vidas livres. Eram comunistas militantes e acreditavam no 'homem novo'. Foram os anfitriões do líder do Exército Vermelho bolchevique, Leon Trotski, em seu exílio mexicano. Apesar de terem nascido numa sociedade patriarcal, ambos desejavam experimentar novas formas de vida. Foi o que fizeram. A prática do amor livre estava, portanto, dentro do projeto existencial dos dois, por mais machista que Diego fosse.
Para o documentário de Carla Guttiérrez (...), Frida teve, sim, experiências homoafetivas. Mas esse não é o ponto central do filme. O que se busca é a subjetividade e a originalíssima obra da artista.
A cineasta escalou voz feminina quente e apaixonada – a da atriz Fernanda Echevarría del Rivero – para expressar, em espanhol, trechos dos 'Diários' de Frida. E, vez ou outra, Carla introduz as vozes de Rivera (Jorge Richards), Alejandro Gómez Arias, o primeiro amor da adolescente Frida (Manuel Cruz Vivas), Lucienne Bloch (Lindsay Conklin), Jean van Heijenoort (Pablo Alarson), André Breton (Tyler Beerley), entre outros. Mas sem tirar o protagonismo absoluto de pintora.
O que encanta em 'Frida' (...) é a beleza das imagens. Já na abertura, o documentário nos seduz com intervenção sobre a obra mais famosa da artista – 'A Coluna Quebrada', de 1944. Recursos do cinema de animação fazem ruir a coluna grega que substitui a coluna vertebral de Frida Kahlo.
O mesmo procedimento – dar movimentos às obras da artista – se repetirá ao longo do filme. E muitas fotos em preto-e-branco terão elementos colorizados. Tais intervenções, fruto das mais avançadas técnicas do cinema contemporâneo, trazem a assinatura de Ernie Schaeffer".
O que disse a crítica 1: Alvaro Tallarico do site Vivente Andante gostou. Disse: "Carla Gutiérrez conseguiu criar um documentário valoroso, que não apenas apresenta uma nova perspectiva sobre a vida de Frida Kahlo, mas também oferece uma imersão poética e emocional no universo da artista. Nessa mistura surrealista de imagens deslumbrantes, animação inovadora e uma trilha sonora eficiente, 'Frida' se destaca como um dos retratos mais sensíveis e completos da pintora mexicana. É uma obra que, sem dúvida, vai além do tradicional e encanta por sua capacidade de trazer à tona as camadas mais profundas da vida de uma das maiores artistas do século XX".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Criativo, colorido e (...) narrado predominantemente pelas palavras da própria Frida Kahlo, registradas em seu diário ilustrado, este envolvente documentário sobre a artista mexicana é uma homenagem cativante e belíssima ao seu espírito e originalidade. A combinação habilidosa de imagens de arquivo e a animação encantadora e orgânica marca a estreia na direção de Carla Gutiérrez, que trabalhou como editora em diversos documentários sobre mulheres pioneiras, incluindo 'RBG', sobre Ruth Bader Ginsburg, e 'Julia', que explorou o legado da chef de televisão Julia Child".
O que eu achei: Quem nunca ouviu falar na pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954) não sabe o que está perdendo. Ela ficou conhecida pelos seus muitos retratos, especialmente autorretratos, e obras inspiradas na natureza e artefatos do México. Inspirada pela cultura popular do país, empregou um estilo de arte popular naif para explorar questões de identidade, pós-colonialismo, gênero, classe e raça na sociedade mexicana. Suas pinturas tinham frequentemente fortes elementos autobiográficos realistas misturados com fantasia. Para além de pertencer ao movimento Mexicayotl pós-revolucionário, que procurava definir uma identidade mexicana, Kahlo é descrita como uma surrealista ou realista mágica. Embora tenha sido incapacitada pela poliomielite quando criança, Kahlo foi uma estudante promissora, rumo à escola de medicina, até sofrer um acidente de ônibus aos dezoito anos, o que lhe causou problemas médicos para toda a vida. Essa experiência com a dor crônica influenciou basicamente todos os seus trabalhos. Eu já havia assistido uma versão de sua história no bom filme “Frida” (2002) com direção de Julie Taymor. Foi nesse filme que eu soube mais detalhes sobre sua adesão ao Partido Comunista Mexicano, seu relacionamento conturbado com o artista mexicano Diego Rivera, seu caso com Leon Trotski e em como se deu sua ascensão como artista. Neste “Frida” (2024) de Carla Gutierrez tudo isso será abordado novamente só que desta vez em tom de documentário através das cartas, entrevistas e principalmente dos diários ilustrados de Frida, que os escreveu até sua morte aos 47 anos. É como se a história fosse recontada pela sua própria boca, o que dá um sabor especial à sua biografia e às animações desenvolvidas a partir de suas pinturas. A abordagem é cronológica, começa na sua infância em Coyoacán, na Cidade do México; passa pela sua adolescência, o acidente e sua vida adulta, finalizando como um competente filme sobre sua vida. Vale ver.

23.3.26

"Ondas do Destino" - Lars von Trier (Dinamarca/Suécia/França/Países Baixos/Noruega/Islândia/Reino Unido/Finlândia/Itália/Bélgica/Alemanha/Suíça/EUA, 1996)

Sinopse:
No norte da Escócia uma jovem mulher chamada Bess (Emily Watson) se apaixona e se casa com Jan (Stellan Skarsgard), um dinamarquês que trabalha em uma plataforma de petróleo. Quando ele retorna ao seu serviço sofre um acidente, quebrando seu pescoço, o que provavelmente o deixará incapacitado para o resto da vida. Nesta situação Jan pressiona a mulher a procurar amantes e lhe contar detalhes de suas relações.
Comentário: Lars von Trier (1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios. Conhecido por ser provocador nas entrevistas, os comentários antissemitas de von Trier durante uma coletiva de imprensa em Cannes causaram uma controvérsia significativa na mídia, levando o festival a declará-lo como "persona non grata" e bani-lo do festival por um ano. Na sequência, o diretor divulgou uma desculpa formal informando que não era simpatizante do nazismo. Assisti dele as obras-primas "Melancolia" (2011) e "Dogville" (2003), os ótimos "Europa" (1991), "Manderlay" (2005), "Anticristo" (2009) e "Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2" (2013) e o bom "A Casa que Jack Construiu" (2018). Além do seriado "O Reino" (1994-2021). Desta vez vou conferir "Ondas do Destino" (1996).
Roger Ebert nos conta em seu site que "O filme se passa na década de 1970, em uma remota vila no norte da Escócia. Bess (Emily Watson), uma garota de rosto doce e confiante, 'não está muito bem da cabeça', e sua comunidade unida não está satisfeita com sua decisão de se casar com Jan (Stellan Skarsgard), que trabalha em uma das grandes plataformas de petróleo no Mar do Norte".
Bess é virgem e pertence a uma seita rigorosa. Assim que se casam, Jan sofre um acidente na plataforma e fica paralisado do pescoço para baixo. O médico local diz a Bess que ele pode nunca mais andar.
Um dia, Jan pede a Bess para encontrar um homem e fazer amor com ele. Ele diz: "Faça-o por minha causa. E então me conte sobre isso". Bess não gosta dessa ideia, mas faz o que Jan pede. Nunca fica claro porque Jan, um bom homem, fez esse pedido à mulher que ama. Mas essa não é a questão do filme. A questão é que Bess, com sua fé feroz, acredita que, de alguma forma, seu sacrifício pode redimir o marido e até curá-lo. À medida que a condição dele piora, seu comportamento se torna mais desesperador.
"O filme contém muitas revelações surpreendentes, incluindo uma cósmica no final, que deixo você descobrir por si mesmo. Ele tem o tipo de poder bruto, o tipo de consideração desprotegida pela força do bem e do mal no mundo, da qual queremos nos esquivar. Às vezes, é mais fácil nos envolvermos em sentimentalismos e platitudes piedosas e esquecer que Deus criou a natureza 'com unhas e dentes'. Bess não tem nossa capacidade de racionalizar e fugir, e se oferece destemidamente a Deus como o entende.
Esta performance de Emily Watson me lembra o que Truffaut disse sobre James Dean, que como ator ele era mais como um animal do que um homem, procedendo de acordo com o instinto em vez de pensamento e cálculo. Não é uma performance sombria e é frequentemente tocada por humor e deleite, o que a torna ainda mais tocante, como quando Bess fala em voz alta em conversas bidirecionais com Deus, falando ambas as vozes – tornando Deus um adulto severo e ela uma criança confiante. Sua igreja a bane, e meninos pequenos na aldeia jogam pedras nela, mas ela diz: 'Deus dá a todos algo para serem bons. Eu sempre fui estúpida, mas sou boa nisso'.
'Ondas do Destino' foi escrito e dirigido por Lars von Trier, da Dinamarca, que nos faz pensar que tipos de óperas Nietzsche poderia ter escrito. Ele encontra a linha reta e pura através do coração de uma história, e não está preocupado com o que não pode ser conhecido: este filme não explica o pedido cruel de Jan à sua esposa, porque Bess não o questiona. O filme mostra pessoas que se importam com ela, como a cunhada e o médico local, e outras que não se importam: contadores religiosos como os anciãos barbudos da igreja. Eles não entendem nada sobre o cristianismo, exceto por regras inflexíveis que memorizaram (...). Eles falam com Deus como se esperassem que ele os ouvisse e aprendesse. No final do filme, eles recebem a resposta em um grande e selvagem grito irônico.
Poucos filmes como este são feitos, porque poucos cineastas são tão ousados, raivosos e desafiadores. Como muitos filmes verdadeiramente espirituais, este ofenderá os fariseus. Aqui temos uma história que nos obriga a tomar partido, a questionar o que realmente é certo e errado em um universo que parece cruel e indiferente. Será que a crença religiosa é apenas um consolo para o nosso destino inescapável na sepultura? Ou a fé pode nos dar o poder de triunfar sobre a morte e o mal? Bess sabe".
O que disse a crítica 1: Dimas Tadeu do site Papo de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Na medida em que a sina dos personagens vai se esboçando e as tais 'Ondas do Destino' quebram na praia, fica um nó na garganta, um choro engolido, que muita gente não saberá dizer se é de alegria ou de tristeza. É um dos primeiros sinais de um von Trier tão descrente na humanidade que, anos depois, veria em sua extinção o único alívio para uma existência atormentada. Sorte do público (e dele) que o diretor saiba canalizar esta apatia por vias estéticas. No caso de 'Ondas do Destino', por exemplo, fez surgir uma obra essencial sobre o amor, a bondade, a humanidade e sua leveza insustentável".
O que disse a crítica 2: Alcino Leite Neto da Folha SP gostou demais. Escreveu: "Liberdade. Provocação. Desassossego. Precisão. Ousadia. Urgência. Vigor. Paixão. Em um mote: cinema. (...) O extraordinário filme do diretor dinamarquês Lars von Trier é um redemoinho de olhares e gestos, de palavras e sensações, um tumulto de acontecimentos e 'desacontecimentos'. Um redemoinho calculado, se se pode dizer, em que a autonomia da interpretação (quase um improviso), a disponibilidade da câmera (sempre na mão) e a irrupção dos sentimentos criam um complexo sistema de colisões, entrelaçamentos, conflitos - um panorama inteiro do belicoso ato de filmar".
O que eu achei: "Ondas do Destino" (1996) é um drama intenso que mergulha na relação entre fé, amor e sacrifício. Ambientado em uma comunidade religiosa na Escócia, o filme apresenta Bess, uma jovem profundamente devota, inserida em um ambiente rígido e fortemente influenciado pelo cristianismo. Sua personalidade levanta dúvidas: não sabemos se há ali algum tipo de fragilidade mental - já que a família a internou anteriormente - ou se estamos diante de alguém apenas ingênuo, bom, puro e absolutamente entregue à fé. Nesse sentido, Bess me lembrou o protagonista de "Lazzaro Felice" (2018) de Alice Rohrwacher, pela forma como sua bondade parece deslocada do mundo ao redor. A trama se desenvolve quando Bess se casa com um 'forasteiro', algo mal visto pela comunidade. Ele trabalha em uma plataforma de petróleo e, após um grave acidente, tetraplégico e desenganado pelos médicos, passa a incentivá-la a se relacionar com outros homens e relatar tudo a ele. Movida por uma fé absoluta e pela crença de que seu sacrifício pode curá-lo, Bess se entrega a uma trajetória de degradação progressiva, que o filme acompanha sem suavizações. Von Trier constrói Bess como uma figura de mártir, alguém que vive sua devoção de forma extrema, dialogando diretamente com Deus e acreditando receber respostas. Essa dimensão espiritual entra em constante tensão com o mundo físico, cada vez mais brutal e degradante. A obra integra a chamada Trilogia do Coração de Ouro e já antecipa elementos que seriam associados ao Dogma 95: câmera na mão, luz natural e uma estética crua, quase documental. Esse estilo aproxima o espectador da experiência da protagonista, tornando sua jornada ainda mais desconfortável. Mesmo com momentos de dureza extrema, "Ondas do Destino" se sustenta como um filme forte e singular, que provoca reflexão sobre os limites entre fé, amor e autodestruição. Atenção às lindas vinhetas que separam os 'capítulos' do filme - as imagens tem uma pegada artificial e a trilha sonora de cada uma delas é super bem escolhida. Atenção também aos atores Emily Watson (Bess) em inicio de carreira e Stellan Skarsgard (Jan) com 44 anos, trinta anos antes de atuar em "Valor Sentimental" (2025).

22.3.26

"A Voz de Hind Rajab" - Kaouther Ben Hania (Tunísia/França/Território Palestino Ocupado/Reino Unido/Arábia Saudita/EUA/Itália/Chipre, 2025)

Sinopse:
 
Voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino (Saja Kilana, Motaz Malhees, Amer Hlehel, Clara Khoury) permanecem ao telefone com uma menina de cinco anos (Hind Rajab) que fica presa em um carro na Gaza devastada pela guerra.
Comentário: Kaouther Ben Hania (1977) é uma cineasta e roteirista tunisiana. São dela os filmes "O Agressor de Túnis" (2014), "A Bela e os Cães" (2017) e o documentário "As 4 Filhas de Olfa" (2023) dentre outros. Assisti dela o excelente "O Homem Que Vendeu Sua Pele" (2020). Desta vez vou conferir "A Voz de Hind Rajab" (2025).
Gabriel Gameiro do site Geek Pop News publicou: "Poucos filmes recentes aproximam tanto cinema e realidade quanto 'A Voz de Hind Rajab'. O longa dirigido por Kaouther Ben Hania parte de uma história real ocorrida em janeiro de 2024, durante a guerra em Gaza. A narrativa acompanha a última ligação de Hind Rajab, menina palestina (...) que pediu ajuda por telefone enquanto estava presa em um carro sob fogo cruzado. A gravação real da criança se tornou o elemento central do filme.
Ao mesmo tempo, a história por trás da produção revela um paralelo inesperado. Enquanto o longa era produzido, a família de Hind ainda vivia em Gaza e enfrentava dificuldades para deixar o território. Com o avanço da guerra, integrantes da equipe do filme acabaram envolvidos na operação que permitiu a fuga dos parentes da menina. Assim, a obra indicada ao Oscar não apenas retrata uma tragédia. Ela também se conecta diretamente com os acontecimentos reais que marcaram a vida da família da criança.
Enquanto a história de Hind era transformada em filme, em 2025, sua família ainda enfrentava a realidade da guerra em Gaza. A mãe da menina, Wissam Hamada, vivia com parentes em meio à escassez de alimentos e às dificuldades de comunicação. Em determinado momento, ela chegou a pedir ajuda à equipe do filme para conseguir comida.
Foi nesse contexto que o produtor executivo Amed Khan passou a acompanhar de perto a situação da família. Khan é ativista humanitário e atua em operações de ajuda em zonas de conflito. Inicialmente, sua equipe conseguiu enviar alimentos para a família dentro de Gaza. No entanto, com o agravamento da guerra, a prioridade passou a ser retirar todos do território.  A partir daí, começou uma operação complexa envolvendo contatos diplomáticos, negociações internacionais e autorizações militares.
O plano para retirar a família de Gaza enfrentou diversos desafios, assim como a operação para salvar Hind Rajab. A evacuação dependia de aprovações de diferentes autoridades e de uma logística delicada. Em determinado momento, parentes de Hind precisaram deixar a casa às pressas após relatos de bombardeios na região. Eles se deslocaram até a cidade de Deir al Balah enquanto aguardavam novas instruções.
Mesmo depois de obter autorização para sair do território, a operação continuou complicada. Voos comerciais não eram considerados seguros para esse tipo de evacuação. Assim, foi necessário organizar um avião particular com autorização especial. Após tentativas frustradas, a terceira operação finalmente conseguiu aprovação.
Em setembro de 2025, a família embarcou e conseguiu deixar a região. O destino foi Grécia, onde receberam asilo com apoio de organizações humanitárias.
A indicação de 'A Voz de Hind Rajab' ao Oscar ampliou a visibilidade da história. No entanto, parte das pessoas ligadas ao filme não pôde comparecer à cerimônia. O ator Motaz Malhees anunciou que não poderá viajar aos Estados Unidos. Ele afirma que a restrição ocorre devido à proibição de entrada para portadores de passaporte palestino imposta pelo presidente Donald Trump. A medida também impede a presença da mãe de Hind na premiação.
Nas redes sociais, Malhees afirmou que lamenta a ausência, mas destacou que a história da menina continua sendo ouvida. Segundo ele, 'é possível bloquear um passaporte, mas não uma voz'.
Em 'A Voz de Hind Rajab', a diretora opta por uma abordagem incomum. Em vez de reconstruir visualmente o ataque que matou a menina, o filme coloca no centro da narrativa a gravação original de sua ligação para os serviços de emergência. A voz de Hind aparece frágil e assustada. Durante a chamada, ela pede socorro e pergunta quando a ajuda chegará.
Enquanto isso, a narrativa acompanha o trabalho do centro de atendimento da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino. Operadores tentam localizar a criança e coordenar o envio de ambulâncias. No entanto, a situação se torna cada vez mais complexa. Autorizações militares, protocolos de segurança e a própria dinâmica do conflito dificultam o resgate. Dessa forma, o filme constrói uma tensão constante. O público acompanha uma corrida contra o tempo cujo desfecho já é conhecido.
Para sustentar essa narrativa, o filme apresenta personagens inspirados nos profissionais que participaram do atendimento. A atriz Saja Kilana interpreta Rana, operadora que conversa com a menina ao telefone. Sua atuação transmite calma e empatia, mesmo diante da gravidade da situação. Já Motaz Malhees interpreta Omar, operador que expressa indignação com a lentidão do processo de resgate. O personagem questiona protocolos e insiste em tentar salvar a criança.
Outro papel importante é o de Mahdi, interpretado por Amer Hlehel. Como chefe do centro, ele precisa equilibrar a urgência da situação com a segurança das equipes de socorro. Ao mesmo tempo, a personagem Nasreen, vivida por Clara Khoury, atua como mediadora e tenta manter o funcionamento do atendimento em meio ao caos. Assim, o filme revela o esforço de profissionais que tentam salvar vidas dentro de um cenário marcado por limitações e riscos constantes.
'A Voz de Hind Rajab' se tornou um dos filmes mais discutidos da temporada. Isso ocorre não apenas por sua linguagem cinematográfica, mas também pela conexão direta com acontecimentos reais. Ao contar a história da última ligação de Hind, o longa registra um episódio marcante da guerra em Gaza.
Ao mesmo tempo, a própria produção acabou participando de um capítulo posterior dessa história: a fuga da família da menina para fora do território. Assim, o filme estabelece um paralelo raro entre arte e realidade. A narrativa exibida na tela reflete acontecimentos que continuaram a se desenrolar longe das câmeras, e que ainda ecoam no debate internacional sobre o conflito".
O filme ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e concorreu ao Oscar na categoria Melhor Filme Internacional.
O que disse a crítica 1: Marcos Faria do Cine Set avaliou com 2,5 estrelas, algo entre ruim e regular. Disse: "O que fazemos com nossos mortos? Guardamos seu direito à privacidade respeitosamente? Ou projetamos seus suspiros finais em Dolby 5.1 numa sala de cinema? Qualquer pessoa em sã consciência escolheria a primeira opção; mas e se, ao escancararmos essa que talvez seja a mais íntima e particular das experiências, pudéssemos denunciar um regime genocida? A profanação estaria perdoada? (...) No fundo, trata-se de uma espécie de reconstituição com toda a cara de um episódio de 'Linha Direta' - o que pode trazer alguns questionamentos à tona: onde termina a denúncia corajosa das atrocidades e onde começa a exploração do sofrimento alheio? (...) Depois de um tempo, começa a parecer que a diretora tunisiana Kaouther Ben Hania quer mesmo esfregar nossa cara no sofrimento da menina para emprestar urgência ao seu filme, de forma bastante oportunista".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'A Voz de Hind Rajab' é um filme imprescindível não por sua imensa força dramática (e é uma obra formidável), mas por ser um tributo a Hind e às mais de 20 mil crianças mortas por Israel - além das outras 1.102 que passaram por amputações, dos 420 bebês natimortos e das quase 60 mil que se tornaram órfãs desde outubro de 2023 (e não devemos nos esquecer das mais de 900 mil que estão sendo privadas de educação, já que o cotidiano de fuga, fome e luto dificilmente viabiliza os estudos). Caso a humanidade tenha futuro - e neste momento não creio que tenha -, seremos todos julgados severamente por termos permitido que um genocídio transmitido em cores e em tempo real tenha se tornado parte de nosso cotidiano".
O que eu achei: Na tarde de 29 de janeiro de 2024, operadores de chamadas da organização humanitária Sociedade do Crescente Vermelho Palestino foram conectados a alguém em necessidade urgente de ajuda. Quem ligou foi Sarah, prima de 15 anos da pequena Hind Rajab Hamada. A prima morre já nos primeiros minutos de ligação e a pequena Hind, com apenas 5 anos de idade, assume a chamada. É por uma linha cheia de estalos nos fones de ouvido que a pequena, desesperada e confusa voz de uma criança implora para que alguém vá buscá-la. Ela e seis membros de sua família - tio, tia e quatro primos - estavam dirigindo por Gaza, por conta da ordem de evacuação do bairro Tel Al-Hawa por parte do exército israelense, quando seu carro foi atingido por tiros. Todos no carro já estavam mortos, menos ela. O filme é um soco no estômago. Ele mescla as falas reais da menina com o atendimento encenado por atores. Há pequenos trechos que mostram os reais atendentes falando com ela. A operação de socorro é desesperadora. O Crescente Vermelho Palestino já está basicamente sem equipes para fazer atendimentos. Um painel com as fotos das equipes mortas em atividade ilustram as paredes da sala da organização. Fazer esse resgate é colocar em risco os poucos membros em campo que ainda estão vivos. É preciso instruções de como chegar ao local com segurança bem como obter autorização, algo que chega a demorar horas. Ao final, como já foi amplamente noticiado, nada dá certo. Foi necessário esperar 12 dias até a retirada do exército israelense para descobrirem o fim trágico de todos: equipe e menina. 355 balas atingiram o carro da família Hamada. 355 balas contra um carro com 2 adultos civis e 5 crianças dentro. Devastador, dilacerante, impactante, pesado, necessário são adjetivos que se aplicam a esse longa. Você desliga com a certeza de que falhamos miseravelmente como humanidade.

17.3.26

"Um Domingo Maravilhoso" - Akira Kurosawa (Japão, 1947)

Sinopse:
Após a Segunda Guerra Mundial, o casal de namorados Yuzo (Isao Numasaki) e Masako (Chieko Nakakita) passa um domingo juntos tentando deixá-lo inesquecível. Mesmo com problemas econômicos e preocupações com a era nuclear, o amor deles lhes dá a possibilidade de se iludirem com um futuro melhor.
Comentário: Akira Kurosawa (1910-1998) foi produtor, montador, escritor e pintor japonês mas se destacou como cineasta e roteirista, um dos mais importantes do Japão e seus filmes influenciam até hoje uma grande geração de diretores. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu em torno de 30 filmes. É amplamente considerado um dos cineastas mais importantes da história do cinema, o que lhe rendeu um Oscar em 1989 pelo conjunto de sua obra. Assisti dele as obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985), o ótimo "Céu e Inferno" (1963), os bons “Os Sete Samurais” (1954) e "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), o mediano “Viver” (1952) e os curiosos "Sonhos" (1990) e "Madadayo" (1993). Desta vez vou conferir "Um Domingo Maravilhoso" (1947).
Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta que "Depois de sua visão política sobre o Japão pré, durante e pós Segunda Guerra ('Não Lamento Minha Juventude', 1946), Akira Kurosawa faria uma obra de caráter social e muito próximo ao ideal neorrealista de exposição de conflitos e problemas sociais, com a diferença do uso de atores profissionais e das filmagens em estúdio. A despeito dessas características, 'Um Domingo Maravilhoso' (1947) é uma obra pungente sobre a vida no Japão após a grande guerra, um retrato social e particular de como a sobrevivência em tempos difíceis pode ser diferente para cada grupo de pessoas, especialmente em um país em reconstrução, onde a fiscalização e o olhar para as massas são mínimos ou inexistentes.
Com roteiro de Kurosawa e Keinosuke Uekusa, 'Um Domingo Maravilhoso' acompanha um dia na vida do casal Yuzo e Masako, que mesmo com pouco dinheiro, tentam fazer de seu domingo juntos um dia inesquecível. A motivação sonhadora de Masako e o ceticismo e amargura de Yuzo se chocam já nas primeiras sequências do filme. Ele, um ex-soldado com um emprego de pequena remuneração; ela, uma garota apaixonada que tenta levar adiante o sonho de construir uma vida ao lado do namorado que tinha antes da Guerra e que agora parece ter se esquecido ou perdido a capacidade de sonhar.
Em meio à pobreza, o sonho se eleva como uma possibilidade, uma promessa de dias melhores mesmo que tudo pareça dizer o contrário. É olhando através dessa janela onírica que Masako mantém viva a esperança de construir um Café e uma vida ao lado de Yuzo. Sua representação como proprietária de uma grande casa chega a ser triste e dolorosa, mesmo que percebamos a alegria dela em se imaginar vivendo aquela realidade. Em contraste, Yuzo observa os sapatos gastos e furados da namorada e se recusa e entrar no jogo de representação, mergulhado completamente em pensamentos sobre o futuro pouco animador. Essa oposição entre pessimismo e otimismo será uma constante em todo o filme e passa de um protagonista para outro, alternando a intensidade e os motivos correlatos conforme o filme avança.
O experiente Asakazu Nakai, que voltaria a trabalhar com Kurosawa outras vezes ('Viver', 'Trono Manchado de Sangue', 'Os Sete Samurais' e 'Ran', só para citar algumas) apresenta um belo trabalho de fotografia, com iluminação delicada e tomadas inesquecíveis, como toda a poderosa sequência final, onde Yuzo rege a Sinfonia Inacabada de Franz Schubert em um anfiteatro vazio. A escolha da sinfonia é tão metaforicamente perfeita quanto a representação mimética do ator Isao Numasaki, que apresenta uma ponderada e tocante mudança psicológica do início para o final da obra. Já a atriz Chieko Nakakita, que trabalhara com Kurosawa em 'A Mais Bela' (1944) e 'Não Lamento Minha Juventude' (1946), representa uma Masako dócil, frágil, sonhadora, mas ao mesmo tempo forte e determinada, um contraponto perfeito para a personalidade de Yuzo. Algumas mudanças bruscas de humor quebram um pouco o ritmo de boa representação da atriz, mas nada que diminua assustadoramente a qualidade de seu trabalho".
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "Como costumeiro em sua filmografia, Kurosawa utiliza os fenômenos da natureza para indicar o tom do filme. Por exemplo, a chuva marca os momentos mais tristes de 'Um Domingo Maravilhoso'. Quando o sol reaparece, o rapaz Yuzo se anima para sair à rua, depois da forte briga com Masako. E, finalmente, o vendaval atrapalha a fantasia do rapaz na condução da orquestra. 'Um Domingo Maravilhoso' é outro grande exemplar de drama contemporâneo de Akira Kurosawa. Realista e existencial, retrata com sensibilidade a dureza do pós-guerra no Japão".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Como a 'Sinfonia Inacabada' [música de Franz Schubert que toca durante o filme], a história de 'Um Domingo Maravilhoso' não termina. Por ser apenas a visão de um único dia na vida de Yuzo e Masako, temos a projeção de diversas possibilidades para o futuro, e embora possamos juntar elementos do próprio filme para acreditarmos em algo pleno de realizações, não podemos afirmar com certeza, porque o próprio filme também nos mostra como coisas aparentemente certas podem se tornar impossíveis de se concretizar. Todavia, a mensagem de esperança em meio ao sofrimento e o poder do sonho como fuga de uma realidade dolorosa são elementos que não se dissipam facilmente da mente do espectador e, com certeza, marcam a construção desse drama social poderoso do mestre Kurosawa".
O que eu achei: Um dos cineastas mais famosos do oriente, espécie de embaixador do cinema japonês, Akira Kurosawa iniciou sua carreira nos anos 1940. Alguns estudiosos subdividem seu cinema em fases, começando com trabalhos humanistas do pós-guerra (1943–1946), seguido de um período de transição para a modernidade (1947-1950), iniciado justamente pelo filme "Um Domingo Maravilhoso" (1947), que se passa logo após o término da Segunda Guerra Mundial. O longa mostra um casal de namorados - Yuzo (Isao Numasaki) e Masako (Chieko Nakakita) – que passa um domingo com 35 ienes no bolso, tentando deixá-lo inesquecível, tarefa essa que não será fácil frente aos problemas econômicos e preocupações com a era nuclear e com a falta de perspectivas. Eles até tentam se divertir, mas nada dá certo. O que resta pra eles então é tentarem se iludir e sonhar com um futuro melhor. Apesar da premissa interessante, ele está longe dos melhores de sua carreira. Aliás todos os filmes dessas duas primeiras fases ainda carecem de aprimoramentos que só começaram a aparecer de 1950 em diante, em obras como "Rashomon" (1950), "Os 7 Samurais" (1954) e "Trono Manchado de Sangue" (1957); atingindo seu auge nos anos 1960 que começa com o bom "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), seguindo para o ótimo "Céu e Inferno" (1963) e desembocando nas obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985). É notório como o passar dos anos foi deixando Kurosawa mais afiado. "Um Domingo Maravilhoso" é o sétimo filme do diretor. Está mais para um daqueles trabalhos de um cineasta em lapidação. O filme se passa em um único dia, os cenários são teatrais com filmagens notadamente capturadas em estúdio, mostrando a cidade de Tóquio devastada pela guerra ou um quarto de pensão decadente que Yuzo divide com um colega. Atenção à música que Yuzo rege num anfiteatro vazio. Trata-se da maravilhosa "Sinfonia Inacabada" de Franz Schubert, um dos pontos altos do filme.

16.3.26

"Blue Moon: Música e Solidão" - Richard Linklater (EUA/Irlanda, 2025)

Sinopse:
Na noite de 31 de março de 1943, o lendário letrista Lorenz Hart (Ethan Hawke) enfrenta sua autoconfiança abalada no bar Sardi's, enquanto seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) comemora a noite de estreia de seu inovador musical "Oklahoma!".
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017) e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou conferir "Blue Moon: Música e Solidão" (2025).
Rodrigo Fonseca publicou no Correio da Manhã: "'Blue Moon' foi rodado em 15 dias, em estúdio, em Dublin, na Irlanda, por uma bagatela, e compensou o orçamento que consumiu para sair do papel com uma sucessão de vitórias, a começar pela indicação ao Urso de Ouro de 2025. Andrew Scott foi premiado na Berlinale (...) com o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante, por seu desempenho no painel histórico da Broadway. Recebeu mais 13 láureas e 68 indicações a troféus de peso, com destaque para o Oscar, [onde] concorre nas categorias de Melhor Ator (para Hawke) e Melhor Roteiro Original (Robert Kaplow). A nomeação em Hollywood deveria lhe abrir salas no Brasil, mas não foi capaz: o streaming foi seu destino. (...)
[No Longa] Linklater e Ethan revisitam a saga do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi's, durante a festa de abertura do novo espetáculo (o fenômeno "Oklahoma!") de seu ex-parceiro Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott. Na noite de 31 de março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos os seus demônios.
Em recente entrevista ao Correio da Manhã, Hawke explicou que 'o álcool, no caso de Lorenz, é apenas o sintoma de um problema profundo ligado ao senso de não pertencimento e a bebida só faz ampliar a sua solidão'. Linklater costuma falar dela com frequência. E o faz por meio do verbo, em narrativas palavrosas. Contam-se nos dedos as vozes autorais da realização capazes de pavimentar integralmente a sua narrativa na palavra, a extrair delas um grau (transcendente) de cinemática, como Linklater consegue. No documentário, ressaltava-se Eduardo Coutinho (1933-2014) por essa façanha (a expandir os limites do plano talking head) e, hoje, na ficção, encontra-se essa destreza na obra de comida e bebida perfumados a cigarros do sul-coreano Hong Sang-Soo (de 'A Mulher Que Fugiu').
Dínamo do modo de produção indie nos EUA, Linklater deu lá suas escapadelas mais cinemáticas, ou seja, fez filmes nos quais o movimento é mais abundante do que o falatório, vide 'Escola do Rock' (2004) ou o recente (e delicioso) 'Hit Man' (aqui chamado 'Assassino Por Acaso', de 2023).
No entanto, retorna ao esquema dos filmes concentrados em parlatórios (sempre num viés de tom confessional e existencialista) com recorrência. Construiu nessa vereda uma espécie de carta de intenções de uma estética investigativa dos desacertos e desatinos do querer e do viver, que se estendeu à animação com 'Waking Life' (2001), um poema em forma de rotoscopia. A forma como explora as fraturas expostas pela fala alcança um novo estágio (e um amadurecimento notável) em 'Blue Moon'. Leva Hawke aos píncaros da excelência consigo.
Passados 17 anos de 'Eu e Orson Welles' (2009), o diretor retorna ao universo do teatro, num namorico com as figuras exponenciais dessa expressão artística milenar, no intuito de entender a ciranda de vaidades e de decepções que circunda o glamour da Broadway. Assume, para isso, a data de estreia do espetáculo 'Oklahoma!', e parte das franjas desse abrir de cortinas para explorar as inquietações de Lorenz Hart. São dele baladas memoráveis como 'The Lady Is a Tramp'; 'Manhattan'; 'My Funny Valentine' e 'Bewitched, Bothered and Bewildered'.
Apesar de retratá-lo na sua fase crepuscular, Linklater jamais se afoga na amargura, embora ela esteja lá, no ciúme e no inconformismo que Lorenz (chamado por amigos e amantes de Larry) sente do projeto teatral da dupla Rodgers e Hammerstein, que reestrutura o entretenimento americano. Parece não haver lugar para ele no que se funda na primeira metade da década de 1940, numa indústria embalada pelas suas canções de amor. Por isso, ele bebe. A certa medida, ao fitar um drink, diz: 'Como pode tanto prazer caber em algo tão pequeno'. A mesma dinâmica se aplicaria por nós, cinéfilos, a uma joiazinha como 'Blue Moon', que merece uma chance em tela grande".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "É possível que 'Blue Moon' soe, de fato, um tanto maçante no segundo terço, quando algum momento de solidão ou recolhimento de Hart seria benéfico, para equilibrar a metralhadora verbal do personagem. Fãs do compositor talvez não apreciem este olhar voltado à decadência, com pouca ênfase no trabalho do artista durante décadas. Focar-se no protagonista no instante exato em que decai, pessoal e artisticamente, talvez soe delicado para alguém de tamanho reconhecimento no meio, até então. Mesmo assim, Linklater evita o caráter laudatório e excessivamente linear dos biopics, propondo fragmentos de uma personalidade complexa, que nunca tenta explicar, nem resumir. O diretor respeita as contradições de Hart - e aí, possivelmente, reside o seu principal trunfo".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "Em 'Blue Moon', não temos apenas as fragilidades de Lorenz Hart reveladas. O filme destaca, é verdade, o seu ponto de vista para as coisas, mas é possível perceber o quanto os outros profissionais em torno dele possuem inseguranças, dúvidas, ansiedade e uma melancolia que muito tem a ver com o momento que vivem (a Segunda Guerra Mundial) e que, talvez por fuga ou por mentirem para si mesmos, tentam deixar de lado e destacar apenas o 'aqui e agora', a beleza de uma letra, de um acorde, de um artigo, de uma fotografia, de um enredo… tudo misturado às mais diversas emoções humanas. Nós saímos de 'Blue Moon' com uma sensação esquisita de 'completude incompleta'. Por um lado, temos a saciedade de bons diálogos de um olhar até mesmo invasivo para Lorenz Hart. Por outro, a fome de mais elementos para além de seu núcleo, de seu olhar viciado e lamentador. Não diria, porém, que é uma armadilha inevitável do filme. É somente parte de nossa curiosidade, nascida da altíssima qualidade com que o diretor projetou a sombra de um artista que tanta beleza trouxe para o mundo, mas que não conseguiu utilizá-la para iluminar o seu próprio caminho".
O que eu achei: Que retrato delicado este sobre compositor americano Lorenz Hart (1895-1943). Foi fazendo par com Richard Rodgers (responsável pelas melodias) por mais de 20 anos, que ele escreveu a letra de 26 musicais da Broadway, incluindo sucessos como “Blue Moon”, “The Lady Is a Tramp”, “Manhattan”, “Bewitched, Bothered and Bewildered” e “My Funny Valentine”. Hart nasceu no Harlem, na cidade de Nova Iorque, e é o mais velho de dois filhos. Seus pais eram imigrantes judeus de origem alemã. Do lado materno, Hart era sobrinho-neto do poeta alemão Heinrich Heine. Seu irmão, Teddy Hart, também se dedicou ao teatro e se tornou um astro da comédia musical. Ele chegou a estudar jornalismo, trabalhou para os irmãos Shubert traduzindo canções de peças alemãs para o inglês, quando em 1919, um amigo o apresentou a Richard Rodgers e os dois se juntaram para compor músicas para uma série de produções teatrais. Eles ganharam muito dinheiro. Em 1938 Lorenz Hart começa a sofrer com o alcoolismo. Mesmo assim, eles continuaram trabalhando juntos até meados de 1942. Em julho de 1942, o New York Times noticiou que Richard Rodgers, Lorenz Hart e Oscar Hammerstein II começariam a trabalhar em uma versão musical de um peça folclórica. Rodgers havia trazido o letrista Oscar Hammerstein II para o projeto devido à piora do estado mental de Hart, que admitiu que tinha dificuldade em escrever um musical para um ambiente rural como Oklahoma e abandonou o projeto. Ocorre que o musical "Oklahoma!" foi um enorme sucesso. O filme vai mostrar justamente uma versão imaginada da noite de 31 de março de 1943, na qual o lendário letrista (interpretado magistralmente por Ethan Hawke, indicado ao Oscar por sua atuação) se encontra dentro do bar Sardi's, esperando a chegada de seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) juntamente com seu novo parceiro Hammerstein (Simon Delaney) para comemorar a noite de estreia do inovador "Oklahoma!". Com um roteiro original inspirado nas cartas que o letrista escreveu para sua musa Elizabeth Weiland, o filme tem uma pegada teatral com poucas mudanças de cenários, poucos personagens e muitos monólogos. A câmera de Linklater trabalha com enquadramentos que transformam o ator Ethan Hawk, que na vida real tem 1,80m de altura, em um homem franzino e decadente com pouco mais de 1,50m. É nesse fatídico dia que Lorenz Hart vai constatar que sua saída da dupla foi a chave do sucesso para a carreira do parceiro decolar, num misto de autocomiseração, inveja, ciúme e desdém. Conta-se que eles ainda trabalharam juntos mais uma vez nesse ano, quando Rogers o chama para compor seis letras de músicas, mas no dia da estreia desse musical, Hart cai bêbado na rua e desaparece, tendo sido encontrado doente dois dias depois e levado ao Doctors Hospital onde morreu em poucos dias. Um filme triste, mas extremamente bem feito que resulta num brilhante estudo de personagem. Tive que procurar imagens do ator Ethan Hawke para me lembrar quem era, tamanha a transformação. O ator não ganhou o Oscar, mas era outro concorrente que se ganhasse, não teria sido uma injustiça. Excelente pedida.