
Comentário: François Truffaut (1932-1984) foi um cineasta francês, um dos fundadores do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague que marcou uma ruptura com os padrões tradicionais do cinema industrial e introduziu inovações narrativas, estéticas e conceituais. Assisti dele os ótimos "Os Incompreendidos" (1959), "Fahrenheit 451" (1966) e "A História de Adele H." (1975), os bons “Um Só Pecado” (1964) e "A Noiva Estava de Preto" (1968), além de “Jules e Jim - Uma Mulher para Dois” (1962). Desta vez vou conferir “Antoine e Colette” (1962).
Daniel Barnes do site Dare Daniel publicou: “’Antoine e Colette’ fazia parte originalmente de um filme coletivo de 1962 chamado ‘Amor aos 20’, uma verdadeira miscelânea de ‘primeiros amores’ que também incluía segmentos dirigidos por Andrzej Wajda, Marcel Ophuls, Renzo Rossellini e Shintaro Ishihara. Infelizmente, o filme completo não parece estar disponível em lugar nenhum, embora o primeiro segmento de Truffaut tenha resistido ao tempo.
O curta-metragem de 32 minutos é uma sequência legítima de ‘Os Incompreendidos’, que acompanha o personagem Antoine Doinel (interpretado com uma impressionante frieza por Jean-Pierre Léaud) vários anos após o congelamento da imagem no filme anterior. Ele agora tem 17 anos e, como o narrador nos informa, está vivendo seu sonho de uma ‘vida solitária e independente’. Antoine trabalha num emprego humilde numa gravadora, fuma bitucas de cigarro num apartamento apertado com vista para Paris e alimenta seu amor pela música clássica frequentando concertos para jovens.
Uma das características que definem o ‘primeiro amor’ é que ele frequentemente não é correspondido. Antoine começa a reparar numa bela moça chamada Colette nos concertos e passa a cortejá-la com o ardor de um cachorrinho apaixonado. Contudo, mesmo depois de lhe escrever uma carta de amor, ela só o ‘trata como amigo’, e todas as suas tentativas de marcar um encontro são recebidas com respostas blasé como ‘talvez’, ‘quem sabe’ e ‘não posso prometer’.
Embora seja uma análise mais aprofundada do mesmo personagem, Antoine e Colette tem um tom muito mais leve do que ‘Os Incompreendidos’, e o filme leva seu protagonista por um caminho oposto. Enquanto o longa de 1959 era todo sobre a fuga patológica de Antoine da vida doméstica, em ‘Antoine e Colette’ ele a persegue obstinadamente e obsessivamente.
As tentativas de Léaud de invadir o afeto de Colette – e, por extensão, o calor acolhedor de sua família – são verdadeiramente obsessivas, chegando ao ponto de ele se mudar para o apartamento do outro lado da rua. A magia de Truffaut reside no fato de que, tanto aqui quanto em ‘Os Incompreendidos’, reconhecemos os impulsos frequentemente depravados e egoístas por trás das ações de Antoine (...)”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O filme tem cortes secos e brincadeiras estéticas que nos lembram um pouco ‘Atirem no Pianista’, mas sua estrutura tem um caráter próprio, intimista e sentimental – Truffaut sempre foi ótimo em criar atmosfera dramática, seja através do roteiro, seja através da direção – um modelo que podemos observar em todos os filmes seguintes das Aventuras de Antoine Doinel (‘Beijos Proibidos’, ‘Domicílio Conjugal’ e ‘O Amor em Fuga’). A história de Antoine e Colette é simples e despretensiosa, talvez despretensiosa demais, especialmente na caracterização dos personagens secundários, mas o filme prende o espectador e traz um fator emocional que nos toca e nos faz lembrar de nossas próprias corridas, telefonemas, perseguições e lágrimas dos nossos amores aos vinte anos”.
O que disse a crítica 2: Jake Cole do site Slant Magazine avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “No curta-metragem de 1962, ‘Antoine e Colette’ o jovem [ator Jean-Pierre Léaud] faz suas primeiras investidas cortesãs em direção a uma garota, Colette, interpretada por Marie-France Pisier, mas se esforça tanto para dizer a coisa certa o tempo todo que acaba parecendo excessivamente ensaiado e atrevido. Frequentemente interrompendo Colette enquanto finge respeito cavalheiresco, Antoine aos poucos vai minando o interesse da garota por ele. A troca de farpas entre os sexos faz com que seja fácil confundir ‘Antoine e Colette’ com um filme de Éric Rohmer, mas a influência de Truffaut é claramente sentida na ternura da perspectiva do curta sobre o amor jovem, bem como no estilo de câmera livre e descontraído”.
O que eu achei: Jean-Pierre Léaud é um ator francês mais conhecido por ser uma figura importante da Nouvelle Vague francesa e por sua interpretação do personagem Antoine Doinel em uma série de filmes de François Truffaut, começando com “Os Incompreendidos” (1959). Neste primeiro longa, Antoine é ainda um pré-adolescente. Nascido em 1944, no ano que esse primeiro filme foi rodado o ator estava com aproximadamente 14 a 15 anos. Mostrava o menino vivendo em Paris e cercado por adultos sem consideração, incluindo seus pais que não prestavam atenção nele. Seu melhor amigo era o Rene (Patrick Auffay), com quem ele passava horas bolando planos arriscados para melhorar de vida. Eles matam aula, mentem e roubam uma máquina de escrever para conseguir dinheiro, mas o roubo fracassado leva Antoine ao reformatório, de onde ele foge na icônica cena final em direção ao mar. “Antoine e Colette” (1962) é uma continuação direta de “Os Incompreendidos”. Neste segundo filme – um curta de 32 minutos - o ator está com a idade de 17 para 18 anos. Antoine continua morando em Paris e trabalha na fábrica de discos Philips. Ele vai a um concerto de música clássica e se apaixona à primeira vista por Colette (Marie-France Pisier) de quem se aproxima tentando conquistar, não só a moça, mas também seus pais, que o adoram. Como ele mora sozinho num quarto de hotel, fica fácil ele se mudar para um outro local bem em frente ao prédio da família dela. Mas suas investidas são em vão, já que ela o vê apenas como um amigo. O filme faz parte de uma antologia de curtas chamado “O Amor aos 20 Anos” (1962), retratando o habitual amor não correspondido que praticamente todos nós vivemos nessa faixa de idade. Vale observar que nesse curta seu antigo amigo Rene também está presente. É ele que acompanha Antoine nesses concertos de música. O ator que interpreta Rene no primeiro filme - Patrick Auffay – é o mesmo ator do segundo. O curta é bem gostoso de assistir. Em comparação com “Os Incompreendidos” é super mais leve, com a trama saindo do desespero da sobrevivência e entrando nas dores universais do primeiro amor. É um drama muito mais cotidiano e identificável. Após esse filme, Truffaut ainda rodou mais três longas com o mesmo personagem: “Beijos Proibidos” (1968), “Domicílio Conjugal” (1970) e “O Amor em Fuga” (1979). Nos filmes seguintes das chamadas “Aventuras de Antoine Doinel” conta-se que a infância e adolescência ficam para trás. Com o ator com cerca de 23 para 24 anos, o foco de “Beijos Proibidos” estará na vida adulta, nos romances e na carreira de Antoine. Com certeza vou querer ver!
Daniel Barnes do site Dare Daniel publicou: “’Antoine e Colette’ fazia parte originalmente de um filme coletivo de 1962 chamado ‘Amor aos 20’, uma verdadeira miscelânea de ‘primeiros amores’ que também incluía segmentos dirigidos por Andrzej Wajda, Marcel Ophuls, Renzo Rossellini e Shintaro Ishihara. Infelizmente, o filme completo não parece estar disponível em lugar nenhum, embora o primeiro segmento de Truffaut tenha resistido ao tempo.
O curta-metragem de 32 minutos é uma sequência legítima de ‘Os Incompreendidos’, que acompanha o personagem Antoine Doinel (interpretado com uma impressionante frieza por Jean-Pierre Léaud) vários anos após o congelamento da imagem no filme anterior. Ele agora tem 17 anos e, como o narrador nos informa, está vivendo seu sonho de uma ‘vida solitária e independente’. Antoine trabalha num emprego humilde numa gravadora, fuma bitucas de cigarro num apartamento apertado com vista para Paris e alimenta seu amor pela música clássica frequentando concertos para jovens.
Uma das características que definem o ‘primeiro amor’ é que ele frequentemente não é correspondido. Antoine começa a reparar numa bela moça chamada Colette nos concertos e passa a cortejá-la com o ardor de um cachorrinho apaixonado. Contudo, mesmo depois de lhe escrever uma carta de amor, ela só o ‘trata como amigo’, e todas as suas tentativas de marcar um encontro são recebidas com respostas blasé como ‘talvez’, ‘quem sabe’ e ‘não posso prometer’.
Embora seja uma análise mais aprofundada do mesmo personagem, Antoine e Colette tem um tom muito mais leve do que ‘Os Incompreendidos’, e o filme leva seu protagonista por um caminho oposto. Enquanto o longa de 1959 era todo sobre a fuga patológica de Antoine da vida doméstica, em ‘Antoine e Colette’ ele a persegue obstinadamente e obsessivamente.
As tentativas de Léaud de invadir o afeto de Colette – e, por extensão, o calor acolhedor de sua família – são verdadeiramente obsessivas, chegando ao ponto de ele se mudar para o apartamento do outro lado da rua. A magia de Truffaut reside no fato de que, tanto aqui quanto em ‘Os Incompreendidos’, reconhecemos os impulsos frequentemente depravados e egoístas por trás das ações de Antoine (...)”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O filme tem cortes secos e brincadeiras estéticas que nos lembram um pouco ‘Atirem no Pianista’, mas sua estrutura tem um caráter próprio, intimista e sentimental – Truffaut sempre foi ótimo em criar atmosfera dramática, seja através do roteiro, seja através da direção – um modelo que podemos observar em todos os filmes seguintes das Aventuras de Antoine Doinel (‘Beijos Proibidos’, ‘Domicílio Conjugal’ e ‘O Amor em Fuga’). A história de Antoine e Colette é simples e despretensiosa, talvez despretensiosa demais, especialmente na caracterização dos personagens secundários, mas o filme prende o espectador e traz um fator emocional que nos toca e nos faz lembrar de nossas próprias corridas, telefonemas, perseguições e lágrimas dos nossos amores aos vinte anos”.
O que disse a crítica 2: Jake Cole do site Slant Magazine avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “No curta-metragem de 1962, ‘Antoine e Colette’ o jovem [ator Jean-Pierre Léaud] faz suas primeiras investidas cortesãs em direção a uma garota, Colette, interpretada por Marie-France Pisier, mas se esforça tanto para dizer a coisa certa o tempo todo que acaba parecendo excessivamente ensaiado e atrevido. Frequentemente interrompendo Colette enquanto finge respeito cavalheiresco, Antoine aos poucos vai minando o interesse da garota por ele. A troca de farpas entre os sexos faz com que seja fácil confundir ‘Antoine e Colette’ com um filme de Éric Rohmer, mas a influência de Truffaut é claramente sentida na ternura da perspectiva do curta sobre o amor jovem, bem como no estilo de câmera livre e descontraído”.
O que eu achei: Jean-Pierre Léaud é um ator francês mais conhecido por ser uma figura importante da Nouvelle Vague francesa e por sua interpretação do personagem Antoine Doinel em uma série de filmes de François Truffaut, começando com “Os Incompreendidos” (1959). Neste primeiro longa, Antoine é ainda um pré-adolescente. Nascido em 1944, no ano que esse primeiro filme foi rodado o ator estava com aproximadamente 14 a 15 anos. Mostrava o menino vivendo em Paris e cercado por adultos sem consideração, incluindo seus pais que não prestavam atenção nele. Seu melhor amigo era o Rene (Patrick Auffay), com quem ele passava horas bolando planos arriscados para melhorar de vida. Eles matam aula, mentem e roubam uma máquina de escrever para conseguir dinheiro, mas o roubo fracassado leva Antoine ao reformatório, de onde ele foge na icônica cena final em direção ao mar. “Antoine e Colette” (1962) é uma continuação direta de “Os Incompreendidos”. Neste segundo filme – um curta de 32 minutos - o ator está com a idade de 17 para 18 anos. Antoine continua morando em Paris e trabalha na fábrica de discos Philips. Ele vai a um concerto de música clássica e se apaixona à primeira vista por Colette (Marie-France Pisier) de quem se aproxima tentando conquistar, não só a moça, mas também seus pais, que o adoram. Como ele mora sozinho num quarto de hotel, fica fácil ele se mudar para um outro local bem em frente ao prédio da família dela. Mas suas investidas são em vão, já que ela o vê apenas como um amigo. O filme faz parte de uma antologia de curtas chamado “O Amor aos 20 Anos” (1962), retratando o habitual amor não correspondido que praticamente todos nós vivemos nessa faixa de idade. Vale observar que nesse curta seu antigo amigo Rene também está presente. É ele que acompanha Antoine nesses concertos de música. O ator que interpreta Rene no primeiro filme - Patrick Auffay – é o mesmo ator do segundo. O curta é bem gostoso de assistir. Em comparação com “Os Incompreendidos” é super mais leve, com a trama saindo do desespero da sobrevivência e entrando nas dores universais do primeiro amor. É um drama muito mais cotidiano e identificável. Após esse filme, Truffaut ainda rodou mais três longas com o mesmo personagem: “Beijos Proibidos” (1968), “Domicílio Conjugal” (1970) e “O Amor em Fuga” (1979). Nos filmes seguintes das chamadas “Aventuras de Antoine Doinel” conta-se que a infância e adolescência ficam para trás. Com o ator com cerca de 23 para 24 anos, o foco de “Beijos Proibidos” estará na vida adulta, nos romances e na carreira de Antoine. Com certeza vou querer ver!









