10.5.26

“Linguagem Universal” - Matthew Rankin (Canadá, 2024)

Sinopse:
Em uma interzona misteriosa e surreal entre Teerã e Winnipeg, as vidas de vários personagens se entrelaçam. As estudantes Negin (Rojina Esmaeili) e Nazgol (Saba Vahedyousefi) encontram um dinheiro congelado no gelo do inverno e tentam reivindicá-lo. Massoud (Pirouz Nemati) conduz um grupo de turistas confusos pelos monumentos e locais históricos de Winnipeg. Matthew (Matthew Rankin) abandona seu emprego sem sentido num escritório do governo de Quebec e inicia uma jornada enigmática para visitar a mãe.
Comentário: Matthew Rankin (1980) é um cineasta canadense. Ele estudou história na universidade e viajou ao Irã com a esperança de estudar cinema, mas o plano não deu certo. Mesmo assim ele dirigiu cerca de 40 filmes de diferentes gêneros, exibidos em Sundance, SXSW, Annecy, TIFF, Berlim, Semana da Crítica de Cannes e no Criterion Channel. Seu longa-metragem de estreia, “The 20th Century” (2019), ganhou o Prêmio FIPRESCI e foi eleito o Melhor Filme Canadense no Festival de Berlim. “Linguagem Universal” (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
Jorge Pereira Rosa do site C7nema publicou: “Homenagem profunda à cultura e cinema iraniano, ‘Linguagem Universal’ é uma comédia conceitual de toada surrealista que nos faz mentalmente viajar entre o Irã e o Canadá, acompanhando várias histórias que se entrelaçam.
Com filmes como ‘O Balão Branco’ de Jafar Panahi como inspiração, em ‘Linguagem Universal’ encontramos crianças numa missão que são arrastadas para os caprichos do mundo dos adultos. E neles temos um guia turístico que orienta turistas confusos em Winnipeg; e um homem que se despede do seu emprego e vai visitar a mãe”.
O C7nema conversou em Cannes com o realizador Matthew Rankin, que explicou um pouco mais das suas ideias para aquele que se transformou o primeiro vencedor do Prêmio do Público da Quinzena de Cineastas do Festival de Cannes.
Ele declarou ter um amigo, que é iraniano e vive no Canadá, que lhe apresentou os filmes do Abbas Kiarostami. Isso o levou a um grupo enorme de outros cineastas que ele começou a amar intensamente, como Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi. Segundo ele, o cinema iraniano é muito vasto, o movimento que mais lhe atrai é o meta-realismo, em que muitas vezes somos apresentados a crianças a quem são apresentados dilemas de adultos. Existe muita ternura e otimismo nesses filmes, além de magia e poesia na sua inocência. Por alguma razão esses filmes tiveram um enorme poder na sua vida e isso o levou a querer ir para o Irã estudar cinema. Ele foi ao Irã, o projeto de estudar não deu certo, mas ele conheceu muita gente com as quais ele se conectou. Paralelamente a isto, a razão que o levou derradeiramente a querer fazer este filme e usar a linguagem cinematográfica do meta-realismo e filmar tudo em persa, emergiu do material que ele foi juntando.
Sua avó contou-lhe uma história, durante a Grande Depressão, no Canadá, em que as pessoas viviam na extrema pobreza. Um dia, no Inverno, ela e o irmão encontraram uma nota de 2 dólares congelada num passeio em Winnipeg e entraram numa aventura para a conseguir resgatar. Esta história acaba por ser a que encontramos no filme. Era uma história que tinha mistério, aventura e lhe fazia lembrar dos filmes iranianos, em particular ‘O Balão Branco’, de Jafar Panahi. Ele usou a câmera como o cinema iraniano faz, num jogo entre espaço, tempo e geografia. Fazer o filme em persa tornou-se óbvio e, como ele tem muitos amigos iranianos, aproveitou para fazer uma espécie de filme comunitário.
Rankin declarou que ele fez o storyboard de cada cena, com muita captura com a câmera parada, utilizando-se de zooms. Boa parte do filme e dos planos foi escolhido a partir das locações, onde ele estudou os ângulos e viu os espaços para pensar na mise-en-scène, deixando um certo espaço para a espontaneidade. Muita coisa aconteceu enquanto filmavam. Isso foi aproveitado. Mas o desenho visual estava bem definido desde o início.
Rankin não se considera um dramaturgo. Ele gosta de contar histórias, mas estas têm que ter abstrações e tem que ser muito visuais. O que o atrai é a emoção cinematográfica e os artifícios do cinema. Colocar duas imagens em contraste, numa experiência temporal, deixando isso criar significado é algo que ele gosta pois é com isso que surgem poesia e abstração.
Outra coisa que ele declarou é que neste filme ele olhou muito para a arquitetura, procurando estruturas aborrecidas como o brutalismo, tentando encontrar nessas estruturas chatas, o divino e a poesia do banal.
Com relação ao roteiro ele seguiu aberto até o fim das filmagens. A cena final em que se canta para os perus não estava no roteiro. Ela simplesmente foi capturada e encaixada no filme. Hoje ele nem consegue imaginar o filme sem essa cena. O que o levou a inclui-la no longa foi o fato do Benjamin Franklin ter lutado para que os perus fossem o símbolo nacional dos EUA. Acabou por ficar a águia-de-cabeça-branca, mas ele era contra isso. Ele achava que a águia tinha pouca moral, pois roubava os outros pássaros. Já os perus são um pouco ridículos, o que os torna de certa maneira doces. E andam em grupo, o que traz até nós o sentido de comunidade”.
O que disse a crítica 1: David Ehrlich da Indie Wire avaliou com B+. Disse: “O que Rankin tenta alcançar aqui é tão fascinante e consistente ao longo do filme que os vários momentos à parte adquirem seu próprio peso emocional. Meu favorito de todos: a maleta esquecida, deixada fechada em um banco desde 1978, e desde então consagrada como Patrimônio Mundial da UNESCO por ser ‘um monumento à absoluta solidariedade inter-humana, mesmo em sua forma mais banal’, já que ninguém jamais olhou dentro e revelou seu conteúdo”.
O que disse a crítica 2: Claudio Alves do Magazine HD avaliou com o equivalente a 4,75 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “Numa fantasia multicultural e transnacional, Matthew Rankin propõe o cinema como linguagem universal capaz de unir mundos díspares e tornar as maiores especificidades em experiências que todos conseguem entender, a nível cerebral e também no âmago do seu ser. ‘Linguagem Universal’ pode parecer um exercício de hiper formalismo, mas as suas qualidades vão além do primor audiovisual dos mecanismos em cena. Trata-se de um milagre cinematográfico do mais alto gabarito. O melhor do filme são os ritmos cômicos, os pequenos traços absurdistas, a estranha beleza desta Winnipeg onde se fala persa e o Tim Hortons servindo chá doce do Irã. Ah, e tem os perus também!”.
O que eu achei: Coloque no liquidificador a fotografia bem cuidada em tons pastéis e o absurdo explorado nos filmes do sueco Roy Andersson, misture com as tramas iranianas envolvendo crianças como nos filmes do Abbas Kiarostami, nos quais é mais importante o trajeto (a jornada) do que a finalização (a chegada), bata bem: aí está o estilo Matthew Rankin de ser. O filme se passa numa Winnipeg (Canadá) onde se fala francês, mas cuja língua oficial é persa. Com uma estética que deleita ele conta histórias díspares e aparentemente sem pontos de contato: duas meninas que tentam retirar um dinheiro que ficou congelado no chão para ajudar um colega da escola que teve seus óculos roubados por um peru; um grupo de turistas que participa de uma visita guiada suis generis; um professor que já perdeu a paciência com seus alunos; um homem que deixou seu emprego e viaja para reencontrar a mãe. Tudo é confuso no cotidiano deste lugar, como se a desorientação predominasse e ditasse os sentimentos dos nativos. Trazendo essa narrativa desconexa para o espectador, a obra satiriza a cultura enraizada do local colocando-a em choque de maneira inteligente para, gradualmente, convergir em um ponto de interseção entre as histórias retratadas. O próprio diretor faz o papel de Matthew – o tal homem que perdeu seu emprego e está à procura de sua mãe. Ele descreve o longa como uma ‘alucinação autobiográfica’ de um canadense branco de 43 anos que se apaixonou pelo cinema iraniano e quis, desta forma, abordar temas como pertencimento (família, cidade, país), desilusão e esperança de tornar as fronteiras (dos homens e dos estados) mais tênues. O resultado é um filme original, singular, estranho, peculiar e ao mesmo tempo engraçado, não sabemos se estamos no Canadá ou no Irã, é diferente de tudo o que já vi. É simultaneamente uma carta de amor cinematográfica, uma crise de identidade e uma piada melancólica contada com uma sinceridade tão direta que acaba por revelar algo surpreendentemente profundo. Indicado para apreciadores da mistura entre o bizarro e o poético, para pessoas dispostas a ver um cinema bem distante do comercial convencional.

4.5.26

"O Caso dos Irmãos Naves" – Luiz Sérgio Person (Brasil, 1967)

Sinopse:
Na ditadura Vargas, dois irmãos mineiros - Joaquim Naves Rosa (Raul Cortez) e Sebastião José Naves (Juca de Oliveira) - são julgados, severamente torturados e condenados por um crime que não cometeram.
Comentário: Luiz Sérgio Person (1936 –1976) é um diretor de cinema e teatro, roteirista, produtor e ator brasileiro, que morreu prematuramente num acidente de carro. Sua obra possui diversas facetas, destacando-se a abordagem sociológica e a artística. Ele é pai da jornalista Marina Person. Na sua filmografia constam filmes como “Panca de Valente” (1968), “Cassy Jones, o Magnífico Sedutor” (1972) e o documentário “Vicente do Rego Monteiro” (1974). Assisti dele o bom “São Paulo, Sociedade Anônima” (1965). Desta vez vou conferir “O Caso dos Irmãos Naves” (1967).
Gabriel Bravo de Lima do Cineset nos conta que "Lançado em 1967, 'O Caso dos Irmãos Naves' traz a história de real de Joaquim Naves Rosa (Raul Cortez) e Sebastião José Naves (Juca de Oliveira), acusados de latrocínio, na cidade de Araguari, Minas Gerais. A vítima seria Benedito Pereira, primo dos irmãos, que sumiu na madrugada do dia 29 de novembro de 1937. Em dezembro do mesmo ano, o governo à época – o Estado Novo de Getúlio Vargas – determina a troca do delegado do civil de Araguari pelo militar, tenente da Força Pública Francisco Vieira dos Santos (Anselmo Duarte). É quando começa o martírio dos irmãos Naves, submetidos a meses de tortura para que confessem a autoria do crime.
A obra dirigida por Luís Sérgio Person baseia-se no livro escrito pelo advogado de defesa dos irmãos Naves, João Alamy Filho, interpretado por John Herbert. Durante o filme, alternamos entre as sessões de tortura sofrida pelos irmãos e os meandros judiciários de seu caso, a maior parte do tempo focando nas ações de Alamy para inocentá-los. Para ter êxito nessa estratégia, o filme se utiliza de uma montagem precisa de Glauco Mirko Laurelli.
A primeira menção a tortura sofrida pelos irmãos é construída de forma impactante, mas não apelativa. Não vemos o início da ação ou a preparação para a violência. O delegado militar interroga uma testemunha (a primeira do caso) que claramente foi obrigada a mudar sua versão para incriminar os Naves. Ele é induzido a desmentir uma história apresentada pela mãe dos irmãos. Subitamente, temos um corte para imagens da mulher em desespero. Depois, o delegado induz uma acusação a Joaquim Naves e somos apresentados ao homem sendo torturado. A mesma sequência ocorre para o outro irmão.
Essas primeiras cenas de violência são apresentadas sem som, em uma fotografia escura. Pode-se até demorar um pouco para entender a relação entre as imagens, se aquilo acontece naquele momento ou ainda acontecerá, ou se apenas passa na cabeça do homem interrogado, como um atestado de culpa por sucumbir à pressão da autoridade ali presente. De certa forma, as três coisas. Momentos antes do interrogatório, temos uma comemoração de ano novo. 'O Caso dos Irmãos Naves' nos indica que a partir dali a vida dos irmãos mudaria para sempre.
Algo a ser destacado dentro do filme é que os irmãos possuem pouquíssimas falas, e quase nenhuma interação entre si ou qualquer outro personagem além de seus algozes. O advogado de defesa e os desvios da Justiça brasileira à época (ainda bem atuais é bom frisar) ganham um enfoque para o desenvolvimento do enredo da obra, maior do que os próprios irmãos. Person coloca os protagonistas na mesma condição que a sociedade os relegaram, corpos à mercê de uma situação onde são peças centrais, mas não possuem nenhuma força, obrigados a sucumbir à violência.
A partir disso, a figura do delegado, em ótima atuação de Anselmo Duarte (diretor de 'O Pagador de Promessas', Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962) é de vital importância para o assombro do poder estatal perante aqueles homens humildes. A cada aparição do militar em cena sentimos a apreensão pelo futuro dos irmãos, e mais além, somos lembrados das inúmeras injustiças pelas quais este país foi construído".
O filme faz parte da lista dos “100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos” (2015), segundo a Abraccine.
O que disse a crítica 1: Gabriel Bravo de Lima do Cineset avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "O único ponto a lamentar na obra de Person é seu final apressado. Não que fosse necessário um arco melodramático para representar a superação das violências sofridas pelos Naves, seria até leviano, após o sofrimento dos mesmos. Mas como o filme foi feito anos depois dos fatos e com um conhecimento bem maior sobre a situação, o final denunciador ao qual 'O Caso dos Irmãos Naves' se propõe perde um pouco de força pelo pouco tempo que dura".
O que disse a crítica 2: Michel Gutwilen do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Não é à toa que que o terceiro ato dedica tanto tempo ao julgamento dos Naves no tribunal, com direito a grandes monólogos teatrais, trazendo a falsa sensação de vitória, apenas para, nos minutos finais, dar um contragolpe e revelar que tudo aquilo foi uma inutilidade diante das manipulações do Sistema, que deu seu jeito de prender novamente aqueles dois irmãos. Mais uma vez, Person faz um bom uso da 'objetividade' jornalística para retratar uma impotência do ser: é a narração objetiva que anuncia o destino dos irmãos e as diversas manchetes de jornais surgem em abundância para confirmá-las. Não há personagem falando ou encenação, apenas a voz onipresente, que representa o Sistema, condenando os Naves".
O que eu achei: Imagine a seguinte situação: estamos em 1937, dois irmãos são sócios de um primo no ramo de lavoura e comercialização de cereais na região de Araguari, Minas Gerais. O negócio envolvia a compra, a revenda e o transporte da colheita. Ocorre que o primo fez uma compra grande de arroz na baixa estação com a finalidade de revendê-la a um preço mais alto assim que o valor subisse. Como isso não aconteceu ele foi obrigado a revender por menos do que pagou, se endividou, pegou o dinheiro e sumiu no mundo. Preocupados com o desaparecimento do primo, os irmãos foram até a delegacia abrir um BO afim de investigarem o que houve. O resultado foi a condenação dos próprios irmãos Joaquim Naves Rosa e Sebastião José Naves pelo crime de latrocínio (roubo seguido de morte) contra Benedito Pereira Caetano, um caso famoso por representar um dos maiores erros da história da justiça brasileira. Luiz Sérgio Person, que havia cursado a faculdade de Direito quase até o final, se interessou por fazer a adaptação do livro escrito pelo advogado da dupla, João Alamy Filho. O livro descreve as torturas a que os irmãos foram submetidos para confessar o crime. Dentre elas estão os espancamentos severos e prolongados com palmatórias, chicotes e agressões diretas; a privação de alimentação e água, muitas vezes em celas insalubres e úmidas; a exposição e a humilhação como serem mantidos nus em celas de porão e submetidos a vexames públicos; a ingestão de substâncias tóxicas, como purgantes em excesso (óleo de rícino) e até mesmo urina ou fezes; além das torturas infringidas aos familiares como a prisão da mãe dos irmãos, Dona Ana Rosa Naves, que foi torturada na frente dos filhos para que eles confessassem. Relatos indicam que o tenente responsável pelo caso - Francisco Vieira dos Santos, também conhecido como Chico Vieira - chegou ao extremo de agredir e violentar sexualmente a mãe diante dos irmãos para quebrar sua resistência e assim obter um falso depoimento. Vale salientar que o desaparecimento de Benedito ocorreu em novembro de 1937, exatamente o mesmo mês em que Getúlio Vargas deu o golpe do Estado Novo, fechando o Congresso e concentrando poderes. Durante esse período, as forças policiais - como a liderada por Chico Vieira em Araguari - ganharam poderes quase ilimitados e o uso da tortura tornou-se um método comum para obter confissões rápidas, independentemente de provas físicas. O regime de Vargas enfraqueceu a independência do Judiciário. Com isso, embora eles tenham sido absolvidos duas vezes pelo Tribunal do Júri em Araguari, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais reformulou as decisões, condenando-os a 25 anos e 6 meses de prisão. O bom comportamento até levou a pena a ser reduzida para 16 anos e 6 meses, mas eles nunca foram inocentados. Em 1952, anos após os irmãos cumprirem parte da pena em liberdade condicional e um deles (Joaquim) já ter falecido, Benedito reapareceu vivo na fazenda de seu pai, provando que nenhum crime havia ocorrido. O caso é amplamente estudado no Direito brasileiro como um exemplo extremo de erro judiciário. Lançado em 1967, o filme é um soco no estômago. Person foi muito perspicaz ao se aproveitar de uma brecha temporal antes do endurecimento total da censura no Brasil, para lançar, em plena Ditadura Militar de 64, um longa que criticava o autoritarismo e a tortura de uma ditadura anterior, embora o filme fosse um comentário direto sobre as violações de direitos humanos que ocorriam em 1967. É filme pra ver e rever, especialmente antes das eleições deste ano, para que possamos refletir sobre os riscos que o enfraquecimento das instituições e das garantias individuais impõe aos cidadãos. Sabemos que práticas de tortura e abusos podem ressurgir em regimes autoritários. Será que, de fato, queremos a volta de tempos tão sombrios? Assista ao longa aproveitando para refletir antes de dar seu voto.

3.5.26

“Eddington” - Ari Aster (EUA/Reino Unido/Finlândia, 2025)

Sinopse:
Maio de 2020, pandemia de Covid-19. Uma desavença entre o xerife (Joaquin Phoenix) e o prefeito (Pedro Pascal) de uma pequena cidade do Novo México chamada Eddington rapidamente transforma o local em caos. Vizinhos são colocados uns contra os outros, deixando para trás a tranquilidade que aparentemente predominava na cidade.
Comentário: Ari Aster (1986) é um cineasta e roteirista norte-americano. Com origem judia, ele é filho de mãe poetisa e pai musicista. Assisti dele o ótimo “Hereditário” (2018), o bom “Beau Tem Medo” (2022) e o mediano "Midsommar - O Mal Não Espera a Noite" (2019). Desta vez vou conferir “Eddington” (2025).
Paulo Camargo do site Escotilha publicou: “Há algo de profundamente inquietante - e familiar - em ‘Eddington’, novo longa de Ari Aster. Ambientado no Novo México, durante o início da pandemia de 2020, o filme parece respirar o mesmo ar rarefeito de um país em decomposição moral. O deserto, aqui, é mais do que cenário: é metáfora para o vazio ideológico e afetivo que assola uma América intoxicada por medo, desinformação e solidão digital.
O protagonista, Joe Cross (Joaquin Phoenix), é o xerife de uma cidade perdida entre o passado mítico dos westerns e o colapso do presente. Candidato a prefeito, ele trava uma batalha pessoal contra Ted Garcia (Pedro Pascal), o atual ocupante do cargo - um duelo que ecoa velhas rivalidades e feridas familiares. Aster transforma essa disputa política em uma parábola sobre a falência da razão num tempo em que toda crença se contamina por teoria conspiratória.
Joe, asmático, se revolta contra a obrigatoriedade das máscaras. ‘Há algo errado em esconder o rosto’, parece dizer, sem perceber o quanto já vive mascarado por dentro. Sua mulher, Louise (Emma Stone), vive reclusa, pintando bonecas de olhar vazio - pequenas alegorias do isolamento e da infantilização coletiva. E a sogra, Dawn (Deirdre O’Connell), é uma espécie de profeta delirante, convencida de que o naufrágio do Titanic foi um atentado planejado e que o vírus é mais uma engrenagem desse complô cósmico.
Aster filma essas figuras com uma ironia gélida, sem jamais transformá-las em caricatura. O riso que provoca é nervoso, porque ‘Eddington’ fala de nós - de um tempo em que o desespero por sentido se converteu em doença. ‘Não há COVID em Eddington’, proclama o xerife, com uma fé ingênua e perigosa. Sua frase soa como o mantra de uma nação que prefere negar a realidade a encarar o abismo.
A pandemia, contudo, é apenas o sintoma. O verdadeiro vírus é outro: a infecção das mentes pelas redes sociais. Aster compõe um retrato febril de uma sociedade em transe, onde telas substituem o contato humano e cada cidadão transforma sua própria vida em um reality show grotesco. Os diálogos se atropelam, saturados de jargões - deep state, antifa, ‘predador sexual’ - num fluxo incessante de paranoia e ruído. Quando Joe e sua sogra discutem, parecem dois zumbis dopados pelo excesso de informação, incapazes de se ouvir.
Ari Aster constrói em ‘Eddington’ uma espécie de síntese e desvio de sua própria filmografia. Se em ‘Hereditário’ o horror nascia do trauma familiar e, em ‘Midsommar: O Mal Não Espera a Noite’, da euforia coletiva mascarada de ritual, aqui o cineasta desloca o mal para o campo social, expondo a histeria política e digital que contaminou o cotidiano. Já em ‘Beau Tem Medo’, Aster havia testado os limites do absurdo psicológico; em ‘Eddington’, ele amplia esse delírio para toda uma comunidade - uma América entorpecida pela solidão e pela crença de que tudo é conspiração. O que antes era íntimo e simbólico, torna-se agora epidêmico e grotescamente público. Com seu humor negro e mise-en-scène meticulosa, Aster reafirma seu lugar como o grande cronista do desconforto contemporâneo - um autor que filma o medo não como exceção, mas como linguagem de um tempo que perdeu a razão.
Como em ‘Beau Tem Medo’, o humor negro de Aster nasce do desespero. Mas se aquele filme mergulhava no inferno interior de um homem, ‘Eddington’ amplia o foco: é um retrato coral, uma terapia coletiva conduzida por um cineasta que, ao ridicularizar seus personagens, confessa partilhar de seus medos. Joaquin Phoenix, mais uma vez, encarna a falência do herói americano - um homem que quer proteger a cidade, mas não consegue proteger a si mesmo.
Aster nunca entrega respostas. Sua aposta é a ambiguidade. As fake news e as conspirações que movem a trama nunca se resolvem, e o espectador, ao tentar organizar o caos, descobre-se tão perdido quanto os personagens. Assistir a ‘Eddington’ é participar de uma experiência de contágio moral: a cada teoria absurda, uma ponta de dúvida nos contamina. (...)
No desfecho, a cidade arde em um delírio purificador. Não há redenção, apenas a consciência tardia de que todos, de algum modo, contribuímos para o incêndio. ‘Eddington’ é o retrato de um país à deriva, que substituiu a fé pela histeria e a empatia pela vaidade. Um faroeste de telas e espelhos, em que os cowboys não empunham revólveres, mas celulares”.
O que disse a crítica 1: Sérgio Alpendre da Folha SP avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “’Eddington’ se sustenta minimamente enquanto constitui o clima que nos previne da frequente possibilidade de violência. Infelizmente, quando as coisas começam a acontecer, o filme começa a decair, chegando a parecer um mau panfleto em algumas cenas. Ari Aster, mais uma vez, não tem noção de como dar sequência à trama após a apresentação dos personagens e o estabelecimento da situação de tensão. E nos 15 minutos finais, vai ladeira abaixo”.
O que disse a crítica 2: Danilo Areosa do Cineset avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “Ao final da sessão de ‘Eddington’ no Teatro Debussy, em Cannes, aplausos e vaias ecoaram na mesma proporção. Isso ajuda a explicar os sentimentos mistos provocados pelo novo trabalho do diretor Ari Aster. Eu mesmo, que só gosto da sua estreia, ‘Hereditário’, saí da sessão com um elefante atrás da orelha, sem saber se gostei ou não, preferindo seguir o estilo Glória Pires de não querer opinar naquele momento. Depois de digerir melhor as emoções, posso dizer que ‘Eddington’ é um filme que instiga emoções díspares, daquelas que você ama ou odeia, meio que não existindo um meio-termo para isso. Pessoalmente, saí da sessão com um sentimento de ter me divertido (até mais do que esperava) com a proposta de sátira social, de traços de paranoia pura vendida pelo cineasta. (...) Mesmo irregular, é uma declaração divertida das ansiedades do cotidiano que vêm à tona de maneiras nada bonitas e que revelam a ferida de uma sociedade em decomposição. Ame ou odeie, ‘Eddington’ é uma marretada exagerada e perturbadora na essência da sua anarquia”.
O que eu achei: Da filmografia de Ari Aster, primeiro vi o ótimo terror “Hereditário” (2018), depois o bom drama psicológico “Beau Tem Medo” (2022) e, por fim, o mediano “Midsommar" (2019), um longa onde praticamente nada funciona bem e que termina com um final ineficaz. Não sei dizer se o faroeste “Eddington” (2025) é tão ruim ou pior que “Midsommar”, mas arrisco dizer que consegue ser pior. O filme até começa bem, nos apresentando os personagens que vivem no Novo México, nessa cidade chamada Eddington. É lá que o xerife Joe Cross (Joaquin Phoenix) - que faz campanha para ser prefeito - trava uma batalha pessoal contra o atual prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal), que ele acusa ter estuprado sua esposa Louise (Emma Stone) quando ela tinha 16 anos. O contexto dessa rivalidade é maio de 2020, auge da pandemia de covid, com Joe não querendo usar máscaras, defendendo sua liberdade de fazer o que quiser, enquanto Ted tenta preservar a cidade de uma contaminação coletiva. Em paralelo, jovens estudantes protestam nas ruas pelo assassinato de George Floyd; Louise e sua mãe ficam isoladas em casa consumindo fake news e seguindo um famoso guru que propaga teorias da conspiração e a cidade está finalizando a instalação de um datacenter que é alvo de investigações. Apesar das 2h25m de duração, é muito assunto para pouco aprofundamento. O ritmo frenético exige atenção redobrada para tentar montar esse grande quebra-cabeças que vai-se apresentando. O filme roda, roda, muita coisa acontece num clima crescente de paranoia, mas finaliza incoerente, cheio de pontas soltas, reforçando a fama de Ari Aster de ser um diretor que sabe como começar seus filmes, mas não sabe como terminar. Joachin Phoenix segura o filme nas costas, enquanto Pedro Pascal e a sempre ótima Emma Stone estão subaproveitados em papéis pequenos demais para seus talentos. O longa finaliza então como uma experiência confusa, num filme que explora seus temas óbvios de maneira superficial, enterrando sua única trama interessante sob múltiplas subtramas supérfluas. Terminei de ver com a sensação de que está mais que na hora de parar de perder meu tempo vendo filmes do Ari Aster.

2.5.26

“O Último Azul” - Gabriel Mascaro (Brasil/México/Países Baixos/Chile, 2025)

Sinopse:
Para maximizar a produtividade econômica, o governo ordena que os idosos se mudem para colônias habitacionais distantes. Tereza (Denise Weinberg), 77, se recusa - em vez disso, embarca em uma jornada pela Amazônia que mudará seu destino para sempre.
Comentário: Gabriel Mascaro (1983) é um cineasta e artista visual brasileiro. Iniciou sua carreira fazendo documentários. Dirigiu “KFZ-1348” (2008, codirigido por Marcelo Pedroso), “Um Lugar ao Sol” (2009) e “Doméstica” (2013). No mesmo ano lançou o curta “A Onda Traz, O Vento Leva”. No ano seguinte lançou seu primeiro filme de ficção, “Ventos de Agosto” (2014) e se tornou mais conhecido após o lançamento de “Boi Neon” (2015). Também realizou uma instalação chamada “Não é Sobre Sapatos” e uma série fotográfica com o título “Desamar”. “O Último Azul” (2025) é o primeiro filme que vejo dele. 
Laura Machado da Revista Continente publicou: “O ser humano divide as fases da vida quase como divide o tempo: passado, presente, futuro; infância, adolescência, idade adulta, velhice. Em cada uma dessas etapas, transformações ocorrem ao corpo e à mente dos indivíduos. Muito se fala sobre as descobertas das crianças, das inseguranças dos jovens e das responsabilidades dos adultos, sobre as experiências dos idosos, porém, foram ignoradas por muito tempo. Do que é feita a velhice, afinal? Em ‘O Último Azul’, longa-metragem do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro, a velhice é feita de vida.
‘O Último Azul’ teve sua estreia mundial durante o 75º Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde foi consagrado com o Urso de Prata, além de também voltar para casa com o Prêmio do Júri Ecumênico e o Prêmio do Júri de Leitores do Berliner Morgenpost. No Brasil, o filme teve sua primeira exibição oficial na abertura do Festival de Cinema de Gramado 2025 e, por fim, chegou às salas de cinema (...).
Com a atriz Denise Weinberg no papel da protagonista, o filme nasceu ‘da vontade de contar uma história sobre o direito de uma idosa sonhar’, como explicou Gabriel Mascaro em entrevista exclusiva à Revista Continente. Assim, acolhendo o tema da velhice desde seu primórdio, a narrativa do longa se passa em um Brasil fantástico onde os idosos devem abandonar suas vidas e se encaminharem para a Colônia, local estabelecido pelo Governo para ser casa dos mais velhos até o fim de suas vidas. Diferentemente de muitos ao seu redor, que enxergam a mudança obrigatória como uma espécie de recompensa pelos anos dedicados ao país, Tereza não se entusiasma com a perspectiva de mudança. Uma semana antes de ser levada à Colônia, ela decide que não é mais hora de adiar os desejos e parte em uma jornada para realizar um sonho antigo.
Pelo cenário idílico dos rios que cortam a Amazônia, Tereza encontra o barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro) e a missionária Roberta (Miriam Socarrás), personagens que se somam à beleza das imagens e levam a trama para frente.
Os caminhos d’água presentes na obra, inclusive, são por si só personagens responsáveis pelo desenvolvimento da protagonista. Se, no começo da obra, Tereza parece uma estranha em busca de seu lugar, com o passar do tempo, ela parece cada vez mais certa de si mesma e pertencente ao ambiente de dentro do barco, encarando as paisagens que a rodeiam de forma singular.
‘O Último Azul’ ‘apresenta uma Amazônia ao mesmo tempo mágica e industrial, quase surreal e profundamente política. A história especula sobre um sistema político marcado por um populismo tropical e um fascismo desenvolvimentista, colocando a Amazônia não como um santuário intocado, mas como o epicentro das contradições do planeta’, explica Mascaro.
Para além da simbiose entre ser humano e o meio natural, o filme trata do envelhecer com grande expertise. Se no cinema ainda é raro produções com protagonistas idosos, é ainda mais incomum que os mais velhos estejam em papel de destaque em longas que se comunicam através da ficção científica, distopia e fantasia.
Corpos idosos foram excluídos da conversa artística por muito tempo e mesmo que atualmente essa repressão venha sendo questionada, histórias onde a terceira idade se destaca e representa algo além do que pessoas incapazes ou quase etéreas ainda são raras. Justamente por surgir como um manifesto à possibilidade de idosos seguirem sonhando, a trama de ‘O Último Azul’ é um acalento.
Tereza tem 77 anos na história e não se rende às ordens do Estado. Ela não é alguém de extrema fragilidade, incapaz de viver em sua própria casa, trabalhar e cuidar de si mesma. Ela é um exemplo de mulher que viveu os seus anos dedicada a cuidar da filha de forma autônoma, trabalhando em vários empregos para pagar as contas. Ao chegar à velhice, é a primeira vez que está livre para aproveitar o tempo como bem entender e, durante o filme, Tereza se acostuma cada vez mais com sua emancipação. ‘O Último Azul’ é uma proclamação à liberdade de envelhecer e seguir sonhando”.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “A grandeza do longa-metragem reside nesta capacidade de olhar para o cotidiano com o encantamento de quem testemunha uma grandiosa jornada, e de converter a aventura em si numa espécie de pacificação dos sentidos. Denise Weinberg, magnífica no papel principal, evita os exageros e dispensa a tentação de sublinhar frases ou olhares. Compõe esta paisagem com uma entrega de difícil simplicidade, como poucas vezes se enxerga no cinema. Heroína involuntária de um périplo pelas águas, Tereza foge à condição trágica que a esperaria ao término de qualquer jornada exemplar. Ela insiste em constituir uma exceção”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Sem jamais esquecer sua veia política (presente mais em subtexto do que escancaradamente como em ‘Divino Amor’), Mascaro aponta, por exemplo, a hipocrisia de uma ideologia conservadora que, ao mesmo tempo em que prega a importância da família, não hesita em desmantelá-la ao enviar os idosos para longe – um reflexo de tantos líderes políticos e religiosos que, sempre apontando o dedo na direção de progressistas com a acusação de que estão ‘destruindo valores familiares’, estão constantemente nas capas dos grandes portais envolvidos em denúncias de abuso sexual e atos de violência”.
O que eu achei: Em “O Último Azul” (2025), Gabriel Mascaro constrói um filme sensível e poético, que se destaca pela forma como transforma a trajetória íntima de uma mulher de 77 anos numa reflexão universal sobre liberdade, tempo e desejo. É um filme que encontra beleza nos pequenos gestos e nas histórias de idosos que muitas vezes passam despercebidas. O título carrega uma metáfora central: o 'último azul' remete ao caracol da baba azul, um animal mágico inventado para a narrativa, que deixa um rastro capaz de permitir a quem o utiliza enxergar o futuro. Essa ideia dialoga diretamente com a protagonista e sua busca por uma última chance de viver plenamente, como se, apesar da idade, ainda houvesse tempo para experimentar, desejar e recomeçar. A imagem do azul se torna, assim, símbolo de esperança e de urgência. Mascaro conduz a trama com delicadeza, evitando excessos e permitindo que os momentos se revelem de forma orgânica. Há um cuidado evidente com o tempo da narrativa, que respeita o ritmo dos personagens e valoriza silêncios, olhares e pequenas ações, sugerindo camadas afetivas importantes, especialmente na relação entre duas idosas. Existe ali uma tensão delicada, um afeto que beira o amor, mas que permanece no campo do não dito. Fica a sensação de que faltou um gesto mais explícito - aquele beijo sugerido, mas nunca concretizado - que poderia ter dado ainda mais força emocional ao desfecho. Ainda assim, “O Último Azul” é um trabalho muito bonito e envolvente. Ao misturar elementos de realidade e fabulação, Mascaro cria um espaço onde memória, desejo e imaginação convivem, resultando em um filme que fala sobre envelhecer sem abrir mão da possibilidade de sonhar. Em tempo, por curiosidade fiz uma pesquisa rápida tentando descobrir se haveria parentesco entre o cineasta pernambucano Gabriel Mascaro - que também é fotógrafo e artista visual - e o fotógrafo paulista Cristiano Mascaro, mas tudo indica que não, parece ser apenas uma coincidência de sobrenomes mesmo.

1.5.26

“Alma do Deserto” - Mónica Taboada Tapia (Colômbia/Brasil, 2024)

Sinopse:
Georgina Epiayú é uma mulher trans da etnia Wayúu que luta para obter o direito básico de ter sua identidade reconhecida. Após perder seus documentos em um incêndio criminoso provocado pelos próprios vizinhos que não aceitavam sua presença, Georgina embarca em uma jornada para recuperá-los e poder exercer direitos civis fundamentais, como o direito ao voto.
Comentário: Mónica Taboada Tapia (ano de nascimento desconhecido) é uma cineasta colombiana formada em Antropologia e Cinema & TV. Dirigiu os curtas-metragens “Fidel” (2012), “Two-Spirit” (2021) e “Red Flag” (2023), premiados em festivais como IDFA e Outfest. Produziu o curta “Causas Elevadas” (2021) e foi showrunner da série “The Pleasure of Escaping the World” (2021). Fundadora da Guerrero Films, está trabalhando em “The Cedar”, “From the Hood” e “Queen of the People”.
O site Revista de Cinema publicou: “Com muita sensibilidade, o documentário mergulha na jornada de Georgina, uma mulher trans da etnia Wayúu, que luta para ter sua identidade de gênero reconhecida e respeitada, em uma sociedade marcada pela opressão, invisibilidade e discriminação. (...)
A obra foi exibida na Giornate Degli Autori (Venice Days), uma das mostras competitivas do 81º Festival de Veneza, em 2024, e saiu como vencedora do prêmio Queer Lion. O longa também ganhou, em dezembro de 2024, dois importantes prêmios no 45º Festival de Havana: o Prêmio Especial do Júri da Competição de Documentários e o Prêmio Arrecife, que é dado ao melhor filme com temática Queer.
O filme traz uma investigação profunda sobre as complexas intersecções entre identidade, etnia e os desafios de existir em uma cultura que frequentemente marginaliza pessoas trans, especialmente as pertencentes a comunidades indígenas.
Com um olhar atento e humano, a diretora Mónica Taboada-Tapia oferece um retrato intimista de Georgina, uma mulher trans que enfrenta os desafios de sua cultura indígena Wayúu e a luta pelos direitos humanos em um contexto de pobreza e violência nas vastas e isoladas terras da região de La Guajira, no norte da Colômbia.
O filme acompanha sua trajetória, desde o enfrentamento da discriminação dentro da sua própria comunidade até a luta pelo reconhecimento legal de sua identidade e o direito ao voto nas eleições colombianas.
O documentário traz à tona questões universais e urgentes, como o direito ao reconhecimento, o acesso à saúde e à educação e, principalmente, a luta por ser quem se é, sem ter medo disso.
Ao olhar para a realidade de Georgina, ‘Alma do Deserto’ também expõe a transfobia que permeia as estruturas de poder, ressaltando a necessidade e importância de se respeitar as identidades de gênero”.
O que disse a crítica 1: Vinicius Costa do Coletivo Crítico avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “Taboada-Tapia é certeira na construção desta aura na personagem, fazendo grandes planos que destacam sua solidão e seu martírio sob o sol escaldante em longas caminhadas da aldeia até a cidade. Mas, quando se trata da motivação para tais sentimentos, ‘Alma do Deserto’ não consegue trazer intensidade para a narrativa, ou, pelo menos, demora-se a fazê-lo. Essas informações estão dispersas no meio do filme, o que acaba o tornando confuso. Sabemos que Georgina trava uma luta solitária, mas ainda não entendemos plenamente qual é. (...) ‘Alma do Deserto’ tem boas intenções e uma grande problemática a trabalhar, porém acabam se dissolvendo nesse engessamento e falta de clareza e profundidade”.
O que disse a crítica 2: Gabrielle Costa Dias do Geek Guia avaliou com 4 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “O início do filme pode parecer um tanto desorientador, com cenas caóticas e diálogos que se sobrepõem, criando uma sensação de confusão proposital. No entanto, à medida que a narrativa se desenvolve, a história ganha clareza e profundidade, fluindo de maneira mais orgânica. Aos poucos, os conflitos e motivações da protagonista vão sendo revelados, mesmo que a estética visual simples e crua não ofereça muitos recursos para complementar a narrativa. Essa simplicidade técnica, porém, acaba reforçando a autenticidade e a urgência da história, mostrando que, às vezes, menos pode ser mais”.
O que eu achei: Em “Alma do Deserto” (2024), Mónica Taboada Tapia propõe um documentário sensível sobre identidade, pertencimento e reconhecimento. Acompanhamos Georgina Epiayú, uma mulher trans da etnia Wayúu, que reside em uma casa isolada na região desértica de La Guajira, no norte da Colômbia. Ela tenta há anos obter documentos oficiais que validem quem ela é - um direito básico que, no contexto retratado, se torna um processo longo e complexo. O filme é, sem dúvida, bem-intencionado. Há um cuidado evidente na forma como a diretora se aproxima de sua personagem, respeitando seus silêncios, seus tempos e sua subjetividade. A abordagem é delicada, quase contemplativa, e busca mais a construção de uma atmosfera do que uma exposição direta dos fatos. No entanto, é justamente aí que o documentário perde força. Em termos de informações concretas sobre o processo de obtenção de documentos, que deveria ser o eixo central da narrativa, o filme falha. Em vez de aprofundar os aspectos burocráticos, legais e sociais dessa luta, a obra se dispersa em divagações que, embora poéticas, acabam esvaziando o impacto do tema. A sensação é de que falta direcionamento. O espectador acompanha fragmentos da vida de Georgina, mas sem uma progressão clara ou um desenvolvimento mais consistente do conflito principal. Isso dificulta o entendimento da dimensão real do problema, reduzindo a potência da história. “Alma do Deserto” tem méritos em sua sensibilidade e no respeito com que retrata sua protagonista, mas como documentário informativo deixa a desejar. Ao priorizar o tom contemplativo em detrimento da clareza narrativa, o filme se torna um registro bonito, porém fraco em conteúdo e pouco eficaz em transmitir a complexidade da luta que indígenas trans enfrentam ao longo da vida.

27.4.26

"Los Angeles, Cidade Proibida" – Curtis Hanson (EUA, 1997)

Sinopse:
 
Ao investigar um caso de múltiplos homicídios ocorridos no Café Nite Owl, os detetives Ed Exley (Guy Pearce) e Bud White (Russell Crowe) acabam desvendando um lucrativo esquema de prostituição de luxo, envolvendo figurões de Hollywood e o departamento de polícia de Los Angeles.
Comentário: Trata-se do filme número 83 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Um detetive de moral duvidosa (Kevin Spacey), sempre disposto a vender informações a quem pagar mais. Outro, de atributos físicos avantajados (Russell Crowe), está habituado a conseguir informações por meio da violência. Um terceiro policial (Guy Pearce) é o oposto: honesto e idealista. Há ainda uma loira estonteante, fatal e misteriosa (Kim Basinger). Quatro pontas que sustentam uma trama repleta de reviravoltas e detalhes obscuros elucidados apenas no final, embalada por trilha sonora do cancioneiro norte-americano. Parece até um daqueles noir do cinema clássico americano estrelados por Humphrey Bogart, mas 'Los Angeles, Cidade Proibida' é de 1997. Dirigido por Curtis Hanson e inspirado em romance homônimo de James Ellroy, autor também de 'Dália Negra' (base para o longa de Brian De Palma) e papa da literatura policial contemporânea, o filme chamou a atenção por seu gostinho de naftalina e por lembrar aos cinéfilos que Hollywood já foi espaço para tramas inteligentes e imprevisíveis, diálogos espirituosos e grandes atuações, mais do que efeitos especiais mirabolantes. Destaque para o roteiro, para a reconstrução dos cenários e da atmosfera da década de 1950 e para o choque provocado pelos temperamentos distintos dos três policiais, cada um com a sua maneira de resolver os problemas. 'Los Angeles, Cidade Proibida' foi indicado a nove Oscar em 1998. Ganhou apenas os de Roteiro Adaptado e de Atriz Coadjuvante (para Basinger, que levou o Globo de Ouro na mesma categoria). Havia, naquele ano, um fenômeno chamado 'Titanic'".
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de ver todos os 100 filmes listados como essenciais pela Revista Bravo! em 2007, desta vez assisti "Los Angeles, Cidade Proibida" (1997). O longa resgata o espírito dos grandes clássicos hollywoodianos e o atualiza com a energia e o ritmo do cinema dos anos 1990. Ambientada na Los Angeles dos anos 1950, a trama mergulha no submundo do crime organizado, onde mafiosos e seus capangas controlam a distribuição de heroína e outras drogas ilícitas, enquanto a alta sociedade consome esse luxo proibido em festas regadas a dinheiro, poder e prostituição. É um universo onde tudo se mistura: política, polícia, mídia e crime. O grande trunfo do filme está justamente na construção de seus personagens. Entre os policiais, há de tudo: o idealista que tenta seguir as regras, o ambicioso que vende informações para ganhar notoriedade, o truculento que resolve tudo na base da violência e até figuras da alta cúpula, aparentemente irrepreensíveis, mas profundamente corrompidas, trabalhando lado a lado com o crime. Essa variedade cria um mosaico moral complexo e extremamente interessante. Ao terminar não pude deixar de ver no longa uma mistura de dois temas muito atuais: o Rio de Janeiro com o domínio do tráfico de drogas envolvendo políticos e polícia e o caso Jeffrey Epstein. Então apesar do filme ser antigo, ele é bastante elucidativo para saber como as coisas funcionam. O elenco contribui decisivamente para o impacto do filme, com destaques para Russell Crowe, Guy Pearce e Kevin Spacey, que dão vida a personagens distintos, mas igualmente marcantes. Kim Basinger também está ótima na pele de uma prostituta de luxo. O resultado é um filme envolvente, daqueles gostosos de assistir, que combina investigação policial, drama e crítica social com enorme habilidade. O diretor Curtis Hanson conduz a narrativa com precisão, equilibrando as múltiplas histórias sem perder o ritmo. A atmosfera noir, a reconstituição de época e o roteiro bem amarrado tornam a experiência ainda mais rica. No fim, “Los Angeles, Cidade Proibida” é um ótimo filme justamente por conseguir unir entretenimento e complexidade com temas bem atuais. Exige atenção absoluta para acompanhar a trama cheia de reviravoltas e personagens ambíguos, mas vale pelo resultado que mostra com competência uma sociedade onde aparência e corrupção caminham lado a lado.

26.4.26

"A Única Saída" - Park Chan-wook (Coreia do Sul/França, 2025)

Sinopse:
 
Um homem de meia-idade chamado Man-Su (Lee Byung-hun) perde seu emprego depois de 25 anos no cargo. Man-Su era um funcionário premiado e exemplar, um veterano na indústria do papel e na companhia Solar Paper, vendida para uma empresa americana. Antes bem pago e vivendo a vida dos sonhos ao lado da esposa Mi-ri (Son Ye-jin), da filha Ri-one (So Yul Choi) e do enteado Si-one (Woo Seung Kim) numa luxuosa casa, agora Man-Su se vê envolvido numa busca feroz e desesperada por uma nova colocação.
Comentário: Park Chan-wook (1963) é um cineasta sul-coreano considerado um dos nomes mais importantes de cineastas sul-coreanos da sua geração. Assisti dele o ótimo "Três... Extremos" (2004) que era composto por três histórias de terror dirigidas por três diretores diferentes. Vi também o ótimo “Oldboy” (2003) e o mediano “Decisão de Partir” (2022).
Raquel Carneiro da Revista Veja publicou: "Man-Su (Lee Byung-hun) é um homem realizado que vive na casa dos sonhos com a mulher que ama, tem dois filhos adoráveis e dois cachorros brincalhões. Ele faz questão de dizer isso à família durante um churrasco no quintal, ao grelhar as enguias que ganhou da empresa de produção de papel onde trabalha há 25 anos. Mal sabe o coitado que o presente de grego é um prenúncio para tempos de escassez: pouco depois, Man-su é demitido com diversos colegas em um corte em massa, quando a companhia da Coreia do Sul é adquirida por uma multinacional americana. A nova administração está disposta a tudo para reduzir custos - e, para obter isso, vai substituir boa parte da mão de obra humana por aparatos movidos pela inteligência artificial.
Assim começa o calvário do protagonista de 'A Única Saída' (Eojjeolsuga Eobsda, Coreia do Sul, 2025), novo filme do diretor Park Chan-wook (...). Aos 62 anos, o cineasta que impactou o mundo com o aclamado drama de vingança 'Oldboy' (2003) volta a mirar um drama social que expõe o que há de pior nas pessoas - e faz isso com um impressionante controle narrativo, imagens soberbas e humor macabro.
Conforme o desemprego persiste, Man-su se desespera ao ver seu estilo de vida de classe média alta se esvair. Embora tenha a opção de se reinventar em outra atividade, ele só enxerga a única saída do título do filme: agora Man-su está disposto a eliminar, literalmente, os concorrentes com quem disputa os pouquíssimos cargos disponíveis em outras empresas que fazem parte do obsoleto setor de papel.
Baseado no livro 'O Corte', do autor americano Donald Westlake, publicado em 1997 e ambientado na Coreia do Sul, o filme traduz um mal-estar subjacente à vida social do país asiático, apesar da pujança de seu capitalismo: o desalento que atinge certa parcela da população com formação de alto nível, condenada ao desemprego ou a ocupações menores em razão da concorrência pelas boas vagas".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Ele disse tratar-se: "de uma produção sólida, certamente inventiva nas imagens, e sem medo dos excessos ou delírios. É possível que as críticas ao filme (...) decorram das altas expectativas que o autor cria para si, após trabalhos muito melhores, como 'Oldboy' (2003), 'Lady Vingança' (2005), 'Sede de Sangue' (2009) e 'Segredos de Sangue' (2013). Caso viesse de um cineasta iniciante, esta proposta pudesse ser aclamada pelo potencial revelado. Aqui, aponta para um diretor em busca de novos registros, porém hesitando quanto ao alvo de sua paródia. Chan-wook não se coloca ao lado dos trabalhadores contra os patrões, ou ao lado dos fracos contra o sistema: ele ridiculariza a todos da mesma maneira, algo que talvez se mostre menos humanista do que politizado, e fácil até demais como chacota. Depois de seu longa-metragem anterior, o igualmente mediano 'Decisão de Partir', o cineasta ingressa numa fase distinta de sua carreira. Este parece ser um instante de transição - ainda não se sabe se para algo melhor, pior, ou somente diferente".
O que disse a crítica 2: Alexandre Almeida do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'A Única Saída' é um dos grandes filmes de 2025 e mais um exemplo da importância de Park Chan-wook para o cinema mundial. Se há uma universalidade na história de Donald E. Westlake, passada nos EUA (livro), na França (Costa-Gravas) e agora na Coreia do Sul, a condução do diretor torna tudo mais cômico, urgente e humano. A vida de Man-soo está passando diante de seus olhos, sua família se deteriorando a cada minuto e Park Chan-wook foge de qualquer tipo de conforto para contar essa trama que, assim como o capitalismo, não tem tempo a perder. Mesmo que seja nos fazendo rir do desespero".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro "The Ax” (O Corte, 1997) do autor americano Donald Westlake. Este livro já havia sido adaptado para o cinema anteriormente por Costa Gavras no longa homônimo "O Corte" (2005). Como Costa Gavras detinha os direitos do livro foi necessário que Chan-wook o procurasse. Ele apoiou ativamente a nova adaptação, sendo esse novo filme produzido pela produtora de Gavras. Nos créditos é possível observar uma dedicatória ao diretor pelo apoio concedido. Se formos comparar as duas adaptações, é possível observar que elas oferecem visões distintas sobre a mesma premissa: um homem desempregado que decide eliminar seus concorrentes para recuperar o emprego e consequentemente seu lugar na sociedade. A abordagem de Costa Gavras é considerada mais fiel à estrutura do livro. Ela possui um tom de comédia sombria misturada com suspense noir, focando na sátira social. Já a adaptação de Park Chan-wook é mais engraçada, mergulhando no terror psicológico e no drama familiar, refletindo a crueldade do mercado de trabalho modernoO resultado é tipo uma chanchada coreana que aposta no improvável e no exagero, com cenas repletas de comicidade física que o ator Lee Byung-hun super dá conta com seu gestual atrapalhado, patético, incapaz de realizar com desenvoltura as tarefas mais simples a que se propõe. Além do excelente elenco, chama a atenção a fotografia com tomadas surpreendentes. A edição e o design sonoro também não ficam atrás. Uma boa pedida para quem procura um longa fora dos padrões ocidentais.

22.4.26

“Suçuarana” - Clarissa Campolina & Sérgio Borges (Brasil, 2024)

Sinopse:
Dora (Sinara Teles) atravessa uma paisagem devastada pela mineração em busca de uma terra perdida sonhada por ela e por sua mãe. Guiada por um misterioso cachorro, ela encontra refúgio em uma vila de trabalhadores de uma fábrica abandonada. Eles vivem em coletividade e lembram o lar que ela tanto procura.
Comentário: Clarissa Campolina (1979) e Sérgio Borges (1975) são dois cineastas brasileiros, fundadores do coletivo audiovisual mineiro Teia, que surgiu no início dos anos 2000. “Suçuarana” (2024) é o primeiro filme que vejo deles.
O longa é livremente inspirado no livro publicado em 1903 “The Beast in the Jungle “ (A Fera na Selva), de Henry James.
Victor Kutz da Revista Cult publicou: “’Suçuarana’ é o nome que se dá no Brasil à onça parda, ou puma, um tipo de felino predador presente por toda a América, que mantém o hábito de caçar sozinho ao entardecer. No entanto, ‘Suçuarana’ é também o nome da história de Dora no longa-metragem de Clarissa Campolina e Sérgio Borges (...).
Na trama, acompanhamos o deslocamento de Dora, uma personagem que percorre veredas em busca da mítica Serra da Suçuarana, local em que sua mãe teria morado tempos atrás. Desenraizada, ela recusa papéis impostos e conta com a ajuda e a gentileza de estranhos para sobreviver em uma paisagem marcada pela devastação da mineração.
Em entrevista à Cult, Campolina diz acreditar na capacidade dessa estrutura narrativa de exercitar a alteridade em tempos em que ‘o mundo anda tão rápido, mas somos colocados sempre no mesmo lugar’. Em ‘Suçuarana’, o desejo de mudança é correspondido por um deslocamento geográfico no qual Dora ‘encontra a possibilidade de sair de um lugar que já não é mais físico’, reflete. Já Borges lembra que a ideia de deslocamento estava presente desde o início do projeto, como uma forma de ‘utopia do movimento’ perseguida pelo filme, ao que Campolina completa: ‘se perdermos essa utopia, creio que será difícil viver’”.
O filme é dividido em duas partes. Na primeira, ‘as pessoas se acotovelam para sobreviver’, descreve a diretora, ‘mas ainda há gestos que, no fundo, anunciam que uma outra vida é possível’. Isso prepara para a segunda parte, quando Dora finalmente encontra uma comunidade. A essa divisão narrativa, soma-se também uma divisão estética: a primeira parte do filme é gravada utilizando tecnologias de vídeo digital; a segunda é gravada inteiramente em película, o que, segundo Borges, corresponde ao desejo de incorporar ao filme elementos do realismo fantástico, tanto na trama como na textura da imagem, o que implicou em desafios técnicos para a filmagem: ‘no primeiro momento em que Clarissa propôs a ideia de filmar em 16mm, fiquei um pouco receoso, pois torna o projeto mais caro e reduz a quantidade de takes para cada cena. Tínhamos que fazer tudo quase que ‘em um tiro único’, o que exige mais concentração. Acho que isso aumenta a chance da magia do cinema acontecer’.
Campolina conta ainda que a direção do filme, assinada em conjunto, partiu de um questionamento perene ao chamado ‘cinema de autor’, sistema já problematizado por cineastas como Jean Luc-Godard e Chris Marker, que, na França dos anos 1960, passaram a produzir filmes assinados por coletivos de autores, como o Groupe Dziga Vertov e o collectif SLON – ISKRA, respectivamente. Essa perspectiva parte da percepção de que o cinema é fruto de proposições, vontades e interlocuções que não podem surgir individualmente.
A vontade de propor experimentações formais e estéticas, no entanto, produziu, para Campolina e Borges, a necessidade de buscar financiamento para o filme, que contou com o apoio da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual. A diretora reafirma a necessidade de políticas públicas para o setor que apoiem a produção de obras variadas e lembra que ‘desde o primeiro governo Lula isso foi sendo estabelecido. Depois tivemos um retrocesso enorme com os governos de Temer e Bolsonaro. Após termos ganhado o edital, nós ficamos três ou quatro anos com o dinheiro retido para fazer o filme. Não conseguimos produzir diante dessa insegurança tão grande que foi imposta ao cinema, e principalmente ao cinema experimental, no qual acreditamos. Existe uma diferença entre um cinema feito para ganhar dinheiro e outro feito como uma pesquisa de linguagem. Acho que todos devem existir’”.
“Suçuarana” foi premiado no Festival de Brasília de 2024 em cinco categorias: Melhor Atriz para Sinara Telles, Melhor Ator Coadjuvante para Carlos Francisco, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som e Melhor Montagem.
O que disse a crítica 1: Raissa Ferreira do site Filmes & Filmes avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “O olhar de Dora guia o longa, tornando suas observações de tudo que a cerca uma sequência de cenas que valorizam o instante. As gentilezas humanas encontradas são lembretes de uma sociedade perdida, mas reconstruída nas margens pelas atitudes que se somam. São esses fatores, tanto de afeto quanto de humanidade, que mais interessam a Campolina e Borges, construindo imagens que traduzem tanto uma realidade mais crua, quanto ideais fantásticos de uma jornada existencial”.
O que disse a crítica 2: Francisco Carbone do site Cenas de Cinema avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Porque caminham em paralelo com muitas ausências de um afeto que nem se imaginava precisar, cada um dos personagens de ‘Suçuarana’ experimenta uma versão própria da solitude, e de como a adaptação a essa chave varia entre cada ser. Isso não impede a montagem de Luiz Pretti de criar ritmo intenso a essas passagens sem medo de encarar esses fantasmas, de um futuro desconectado a outros seres, de uma ausência de expectativa na colocação social de cada um. Não soam distantes seus temas, e a maneira cada vez mais esgotada com que assistimos cada personagem acaba unindo-os ainda mais, rumo ao desconhecido sentimento de não pertencer a lugar nenhum”.
O que eu achei: Inspirado no livro “The Beast in the Jungle” (A Fera na Selva, 1903), de Henry James, o longa conta a história de Dora (Sinara Teles) uma pobre trabalhadora que sai vagando pela estrada em busca do ‘Vale de Suçuarana’, um local mítico e possivelmente imaginário, cujo nome aparece no verso de uma fotografia de sua mãe. Gravado nas imediações de Belo Horizonte e de Ouro Preto, em Minas Gerais, nessas andanças ela percorre paisagens devastadas pela mineração, chegando a uma vila de trabalhadores de uma fábrica abandonada onde encontra refúgio. O filme tem dois momentos: o primeiro deles, que retrata Dora inquieta pela vontade de sair em busca desse lugar, é filmado com equipamento digital, enquanto o segundo, mais contemplativo, é capturado em película 16 mm. O filme – cujo foco é mais a travessia do que a chegada - resulta num retrato melancólico do Brasil, de pessoas que caminham em busca do inatingível. Atenção à presença do ator mineiro Carlos Francisco no papel de Ernesto. Sua presença carismática – já observada anteriormente em “Marte Um” – fez toda diferença no clima de aconchego buscado pela protagonista. Um filme calmo, caracterizado pela simplicidade e pela contenção, tanto na narrativa quanto na estética, evitando exageros dramáticos, reviravoltas ou clímax. Boa pedida para quem procura algo calmo.

20.4.26

"O Mensageiro" - Karen Shakhnazarov (URSS, 1986)

Sinopse:
Vivendo durante a era Gorbachev numa sociedade à deriva, um rapaz sem noção da realidade (Fyodor Dunayevsky) consegue emprego de entregador. Através de uma das entregas, ele conhece o professor Kuznetsov (Oleg Basilashvili) e sua filha Katya (Anastasiya Nemolyaeva). Para irritar o professor, ele afirma ter engravidado Katya. Para sua surpresa, ela confirma a sua história.
Comentário: Karen Shakhnazarov (1952) é um cineasta, produtor e roteirista soviético. Ele se tornou diretor geral da Mosfilm em 1998. Ele é conhecido pelo seu trabalho em "Enfermaria Nº 6" (2009), "Cidade Zero" (1988) e "Tigre Branco" (2012). Assisti dele o excelente “Anna Karenina: A História de Vronsky” (2017). Desta vez vou conferir "O Mensageiro" (1986).
Guillermo Sánchez Ferrer do site Cinema Gavia publicou: "'O Mensageiro' (1986) é um filme do aclamado diretor Karen Shakhnazarov, que retratou como nenhum outro a atitude da juventude em relação às reformas soviéticas que ocorreram durante o período da Perestroika. O filme foi um enorme sucesso de bilheteria (tornando-se o sexto filme de maior bilheteria na URSS naquele ano) e um sucesso de crítica. (...)
O ator principal de 'O Mensageiro', Fyodor Dunayevsky, compartilha parte da história por trás do enredo do filme. Assim como o personagem que interpreta, seus pais se divorciaram quando ele tinha apenas quatorze anos. Ele então trabalhou em um jardim de infância, onde se envolveu em diversas brigas, chegando a enfrentar acusações no tribunal juvenil. Sua entrada no cinema foi puramente por acaso. Sua ex-colega de classe, Anastasiya Nemolyayeva , que originalmente interpretaria a protagonista feminina, Katya, enviou várias fotos de seus colegas para o estúdio para o papel de Ivan. Dunayevsky foi convidado para uma audição e, após ser aprovado, conseguiu o papel principal.
'O Mensageiro' é um retrato que apresenta uma luta geracional. De um lado, está a geração representada pelo personagem principal, Ivan. São os jovens da Perestroika. São os jovens que já não acreditam no socialismo, mas sim no que veem na televisão, agora aberta ao Ocidente (numa cena, os vemos assistindo a filmes de artes marciais). 'O Mensageiro', enquanto obra documental de todo este período, é verdadeiramente excecional.
O diretor nos apresenta todas essas novas influências: música rock (desde a música que está tocando até os pôsteres de bandas que Ivan tem em seu quarto), danças (quase como uma sequência icônica, vemos vários jovens dançando a dança do robô, tão emblemática dos anos oitenta), festas (uma boate aparece diretamente no filme), o próprio idioma... Como eu disse, como um simples documentário, é uma verdadeira maravilha para todos os amantes da cultura eslava e de sua história.
Por outro lado, essa geração entra em conflito com a geração soviética, simbolizada pelo pai de Katya, magistralmente interpretado por Oleg Basilashvili. Esses são os pais que viveram a Segunda Guerra Mundial ou o período pós-guerra. Eles acreditavam que o socialismo triunfaria no mundo todo. Eles sempre tiveram (...) uma vida planejada e, portanto, entram em conflito direto com essa nova geração.
A geração que o pai de Katya representa era a de sonhadores. Eles deram suas vidas pelo socialismo, acreditando que o mundo seria um lugar melhor. O sonho deles era que seus filhos tivessem a vida que lhes fora negada. Eram idealistas. No entanto, a nova geração trazida pela Perestroika não transmitiu esses sonhos às gerações mais jovens. Ou melhor, trouxe sonhos completamente diferentes. Como o filme mostra, os jovens olhavam para os Estados Unidos e para o que viam em Hollywood. Não havia nada além de querer um carro e ser bonito. Apenas superficialidade pela superficialidade. Ou pelo menos essa é a visão do cineasta, e a história acabou por lhe dar razão.
Em 'O Mensageiro', essa mesma ideia é vista repetidamente, refletida no próprio diálogo. 'Qual é o seu sonho? O que você pretende fazer no futuro?', perguntam ao nosso protagonista. E, no entanto, ele não sabe como responder, porque, na realidade, nem ele mesmo sabe. Essa era do colapso dos antigos sonhos é justamente o tema principal do filme.
Filmes como 'O Mensageiro' (1986) são raros, em grande parte devido ao seu humor peculiar. Filmes soviéticos com dramas semelhantes ou mesmo histórias parecidas são abundantes, mas geralmente adotam um tom pessimista ou dramático. Aqui, no entanto, um humor original é empregado e, embora o filme possa, em última análise, transmitir uma mensagem de desespero, ela é sempre atenuada por um humor que invariavelmente se origina do nosso protagonista. De fato, o personagem principal usa esse humor absurdo e corrosivo como uma espécie de escudo contra suas próprias inseguranças e medos.
Com a Perestroika, a URSS também se abriu para a música ocidental, que permeou todos os aspectos da vida cotidiana. Em 'O Mensageiro', o papel da música é essencial para que possamos perceber as grandes diferenças que surgiram entre as duas gerações. Por um lado, temos a música que era popular na época, a música eletrônica, que o filme utiliza não apenas quando os jovens protagonistas estão presentes, mas também nos interlúdios entre as cenas.
Muitos dos temas principais eram, na verdade, versões criadas especificamente para o filme, baseadas em canções populares da época. Por outro lado, temos música tradicional, que aparece apenas em uma cena: aquela em que o pai pede a Katya que cante uma canção tradicional ('Solobey, o Rouxinol', uma canção clássica composta por Alexander Aliyaviev em 1851), mas ela se recusa. Nenhuma explicação adicional sobre o significado dessa sequência é necessária, pois ela se explica por si só. Além disso, 'O Mensageiro' inclui canções de rock que começavam a surgir naquela época. Entre outros grupos, Akbarium e Zemlyane estão presentes".
Em termos de prêmios, "O Mensageiro" ganhou o Prêmio do Júri Infantil e o Prêmio do Comitê Central da Liga da Juventude Comunista da Geórgia "por uma solução fascinante e espirituosa para o tema complexo da formação da personalidade de um jovem" no 20º Festival de Cinema de Toda a União em Tbilisi. Ele também ganhou o Prêmio Especial do Júri na competição de longas-metragens no 15º Festival Internacional de Cinema de Moscou e foi indicado ao Prêmio Nika de Melhor Trilha Sonora (compositor Eduard Artemyev).
O que disse a crítica 1: Felipe B. Brida do site DVD Magazine gostou. Disse "'O Mensageiro' é, talvez, o melhor dos trabalhos desse diretor, pontual, e de certa forma, atual, pois trata de uma geração de jovens desiludidos no novo mundo em transformação. (...) No trânsito dessas relações, o diretor discute o fim da Era Gorbachev, mostrando uma sociedade à deriva, sem perspectivas, que presenciava o Socialismo ruir, em meio a uma crise política, social e econômica (o filme é de 1986, estamos falando de anos antes da queda do muro de Berlim e da dissociação da URSS). Há um grau de melancolia no trato da história, reforçado pela bonita fotografia escura e de ambientes internos (casas, escritório), do mestre russo Nikolay Nemolyaev, além de uma trilha sonora eletrônica bem modernosa, assinada por Eduard Artemyev (compositor de trilhas de Andrei Tarkovsky, como 'Solaris' e 'Stalker')".
O que disse a crítica 2: Guillermo Sánchez Ferrer do site Cinema Gavia deu 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Uma obra atemporal que deveria ser vista obrigatoriamente por todos os amantes do cinema não convencional. Mesmo como um artefato arqueológico de uma era passada, possui um valor inegável".
O que eu achei: Trata-se de um filme soviético de comédia baseado em um roteiro de Alexander Borodyansky e no conto homônimo do próprio diretor Shakhnazarov. Apesar do filme ser de 1986, a trama gira em torno dos problemas da juventude da era Perestroika. Embora Mikhail Gorbachev tenha assumido o poder na União Soviética em março de 1985 e iniciado as discussões sobre reformas, foi a partir de 1986 que as medidas concretas de reestruturação econômica (Perestroika) e abertura política/transparência (Glasnost) começaram a ser implementadas. Portanto, 1986 é considerado um ano fundamental no início da aplicação prática dessas políticas que duraram até 1991. A trama começa mostrando o divórcio dos Miroshnikov. Seu filho, Ivan, um jovem de 17 anos recém-formado no ensino médio, mora com a mãe. Desinteressado dos estudos ele é reprovado no vestibular, mas consegue um emprego de office-boy em uma editora. No primeiro dia de trabalho ele é enviado para entregar um manuscrito ao Professor Kuznetsov. É na casa do professor que Ivan conhece a filha dele, Katya, e os dois logo travam uma amizade. Porém o rapaz é extremamente ‘sem noção’, algo que irrita o professor ao mesmo tempo que encanta sua filha. Para representar essa abertura ocorrida na época, são mostradas muitas cenas com a juventude soviética consumindo filmes americanos, perfumes franceses, ouvindo bandas não tradicionais e dançando breakdance, que ganhou popularidade no país. Entretanto, apesar de servir como um retrato de época, o filme não é tão agradável de assistir. A proposta de comédia simplesmente não funciona: o humor é irregular, muitas vezes baseado em situações constrangedoras ou no comportamento errático do protagonista, talvez mais compreensível para o público local. Ivan rapidamente passa a soar apenas como irritante, o que compromete o envolvimento com a narrativa. A condução do roteiro também contribui para essa sensação de frustração. Há momentos que parecem prometer um olhar mais crítico ou sensível sobre aquela juventude em transição, mas essas ideias não se desenvolvem plenamente, ficando dispersas. Mesmo o pano de fundo histórico - que poderia enriquecer a experiência - acaba funcionando mais como uma curiosidade do que como um elemento realmente integrado ao longa. Finaliza como um filme que deixa a desejar, uma comédia que não faz rir nem chorar, um retrato geracional que não emociona, resultando em uma experiência bastante morna.

19.4.26

"Black Dog" – Guan Hu (China, 2024)

Sinopse:
Depois de dez anos na prisão, Lang (Eddie Peng) regressa à sua cidade natal no noroeste da China, agora quase abandonada, prestes a dar lugar a um complexo de fábricas. No esforço de limpar a cidade antes dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008, Lang apenas consegue encontrar trabalho na caça aos cães vadios. Um perigoso cão, com uma alta recompensa de captura, morde Lang. Os dois ficam isolados para evitar a propagação do vírus da raiva enquanto se desenvolve uma forte amizade entre eles.
Comentário: Guan Hu (1968) é um cineasta chinês. Filho de uma atriz de teatro e de um ator de cinema. Seu primeiro longa-metragem é “Tou Fa Luan Le” (Dirt, 1994), considerado um dos principais filmes da sexta geração do cinema chinês. Esta geração surgiu nos anos 90 e as suas obras são caracterizadas pela atenção à vida contemporânea e o foco nas comunidades marginalizadas numa China de profundas transformações econômicas e sociais. Os filmes seguintes de Hu são majoritariamente filmes comerciais sobre a história militar chinesa como “Mr. Six” (2015), “The Eight Hundred” (2020) e “The Sacrifice” (2020). “Black Dog” (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
Cici Peng do Financial Times publicou: “Um ex-recluso estabelece uma relação com um cão agressivo no estranho e surreal noir ‘Black Dog’, muito elogiado em Cannes. Guan Hu não é um homem de muitas palavras. ‘Black Dog’, que realizou e venceu o prémio Un Certain Regard em Cannes este ano [2024], é igual. O centro emocional do filme manifesta-se nas interações silenciosas entre um homem e o seu cão e a força destruidora da paisagem do Deserto de Gobi, onde os caninos dominam. ‘O filme é construído a partir do silêncio’, diz Guan, ‘da possibilidade de um canal misterioso de comunicação não linguística entre humanos e cães’.
Entre as dunas ondulantes de areia de carvão, o tempo parece ter parado. Planos gerais capturam humanos e animais a se deslocarem pelo deserto, quais insetos. Deambulam sem rumo por uma cidade-fantasma que parece uma ruína de um outro tempo. Cães aparecem por todo lado, desde o topo das dunas às ruas vazias da cidade, às fissuras de edifícios abandonados. Ao colocar humanos e animais na mesma escala, ‘Black Dog’ examina a ‘animalidade dentro dos humanos’, diz Guan.
‘Desde o começo, decidimos seguir um princípio de ‘não interferência’, um modo observacional. Não queríamos interferir na vida como ela é. A nossa perspectiva é que o fado humano é pequeno e insignificante perante a imensidão da natureza e do Deserto de Gobi’.
Guan vem da ‘Sexta Geração’ de cineastas chineses, ao lado de Jia Zhang-Ke e Wang Xiaoshuai, favoritos dos festivais internacionais. Tendo surgido no início da década de 90, o grupo é caracterizado pelo seu estilo realista distinto e o seu foco nas pessoas nas margens da sociedade chinesa em rápida mutação.
Ao contrário dos seus contemporâneos, Guan é mais difícil de definir: antes de realizar este filme de autor, fez sobretudo cinema comercial que examinava a história militar da China com um tom mais patriótico, incluindo o bem-sucedido drama de guerra ‘The Eight Hundred’ (2020), o filme com maior receita de bilheteira no país nesse ano. Contudo, no início da sua carreira, fez mais filmes independentes, como o seu primeiro longa-metragem ‘Dirt’ (1994), sobre o mundo do rock em Pequim. ‘Agora, com ‘Black Dog’, espero voltar a ouvir o meu ‘eu interior’, voltar àquele espírito que definiu o início da minha carreira’, diz o realizador. ‘Portanto, este filme é muito íntimo nesse sentido’.
Ao crescer com uma mãe atriz de teatro e com um pai ator de cinema, Guan observava tudo; foi um filho dos estúdios de Pequim - ‘Tudo desde cinema de autor europeu aos sucessos nacionais… Sou particularmente influenciado por Stanley Kubrick e Alan Parker. São completamente originais e não pertencem a qualquer gênero’.
De forma semelhante, ‘Black Dog’ escapa à categorização fácil. Estruturado como um híbrido entre noir e western, o filme mostra o solitário e taciturno Lang (Eddie Peng) no seu regresso a casa para confrontar os fantasmas do seu passado. É 2008; Lang cumpriu pena por homicídio involuntário. Lang não é recebido com carinho – é procurado por ‘Butcher’ Hu (Hu Xiaoguang), cujo sobrinho morreu, e o seu pai vive no jardim zoológico degradado.
Em vez de enfrentar uma multidão armada segundo o clássico estilo noir, o inimigo de Lang é um vendedor de veneno de cobra; em vez de uma clássica femme fatale, a relação-chave de Lang é com um galgo [um cão com o corpo esguio, peito profundo e pernas longas, criados originalmente para caça e corridas] agressivo, Xiao Xin. ‘Queríamos escolher um cão estranho - um que não fosse fácil de domar’, diz Guan.
De igual modo, ao escolher Peng para o papel, ‘ele não parecia os personagens suaves e belos que tinha interpretado antes e, por isso, eu estava interessado em mostrar aquela dureza ‘lobal’ dentro dele. O personagem de Lang é sobretudo silencioso, o que é crucial. Quando saem da prisão, muitos ex-reclusos não gostam de falar – é como uma rejeição da sociedade a que regressam’.
No entanto, isto não é um filme sobre a amizade entre homem e cão: ‘Black Dog’ recusa-se a adular a domesticação do animal. ‘Quando Lang encontra o cão, não é um animal de estimação, é um personagem’, diz Guan. ‘Estas pessoas e estes cães estão na margem, solitários, desolados e incapazes de acompanhar a evolução dos tempos. E estas pessoas? Penso que os filmes têm a responsabilidade de se focar nelas’.
De forma a estabelecer a relação entre Peng e Xiao Xin, os dois passaram dois meses no set ensaiando cada cena. ‘Xiao Xin e Eddie eram inseparáveis, até dormiam juntos’, diz Guan. ‘Eventualmente, o Eddie adotou o Xin’.
O filme de Guan, filmado na cidade de Yumen, estrutura-se à volta de uma sensação de ausência – uma sinfonia ‘anti-urbana’, de certa forma. Planos são frequentemente enquadrados dentro de edifícios destruídos ou no exterior das jaulas vazias do jardim zoológico local, que, diz Guan, ‘encontramos assim, de fato. Muitos edifícios foram completamente abandonados. Estas cidades no Noroeste já foram muito prósperas, mas começaram a decair quando os seus recursos foram gastos. É possível ver estas instalações bem construídas como hospitais e restaurantes – mas não há pessoas no seu interior. Os edifícios contam uma história da sociedade chinesa contemporânea’.
A câmara passa frequentemente por um mural dedicado aos próximos Jogos Olímpicos, já a desvanecer-se. ‘Quis situar o filme em 2008 porque é um dos anos mais importantes para a China. É o ano do nosso maior orgulho, mas também do maior sofrimento. Há pessoas cujas vidas foram esquecidas que nunca veremos’.
Apesar do tema, o filme evita um realismo austero; o realizador opta, em vez disso, por aquilo que descreve como um ‘naturalismo surreal’. ‘Para fazer este filme, precisávamos de um sistema metafórico’, diz o realizador. ‘Debaixo desta história, tem de haver elementos de fantasia e transcendência’.
Tal como os cães, o filme é povoado por dezenas de cobras, um tigre no jardim zoológico e um lobo avistado no horizonte, o que ‘joga com o mútuo isolamento e alienação do mundo’.
Enquanto falamos, Liang Jing, a esposa de Guan e produtora, aparece na chamada: ‘Há sempre animais nos filmes de Guan Hu. Houve uma vaca, um peixe-balão e um cavalo. Cães são relativamente mais fáceis de dirigir’.
O realizador não tem dificuldades com a falta de controle quando filma animais? Guan encolhe os ombros. ‘Se não conseguimos o plano, continuamos tentando. O primeiro encontro entre Lang e Xiao Xin tinha de acontecer num plano-sequência. Filmamos este plano durante 20 dias. Ainda assim, foi uma rodagem particularmente prazerosa. Parecia que os deuses estavam nos ajudando. Houve até uma tempestade de areia que virou um carro. Mas continuamos a filmar’.
Apesar da fragilidade do homem e do cão ao longo do filme, é uma demonstração da habilidade de Guan que mesmo esta pequenez pode conter um poder imenso. No plano final, a câmara demora-se num close-up do rosto de Peng; a sua presença ‘é sobre esta duplicidade – tanto da sua insignificância no deserto’, diz Guan, ‘mas também sobre como ele é o nosso universo fílmico total’”.
O que disse a crítica 1: Phil Hoad do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Talvez, em um nível pessoal, o novo e irascível amigo de Lang represente algum traço selvagem interior que ele precisa reprimir, enquanto os cães soltos representam os despossuídos do avanço econômico da China. Este último aspecto é capturado em composições épicas e sombrias de cães percorrendo praças, e os habitantes desolados filmados in situ contra seu cenário decadente, evitando-se, em grande parte, closes até que sejam absolutamente necessários. Esse rigor se dissipa um pouco em uma trama sobre um circo itinerante, bem como em um romance especulativo, que soa um tanto como um filme independente básico. Mas a esplêndida desolação da visão da China torna os momentos reconfortantes do filme ainda mais vitais”.
O que disse a crítica 2: Matilde Garrido do site Fio Condutor avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Há filmes que não procuram deslumbrar pela grandiosidade, mas antes pela contenção obstinada. ‘Black Dog’ de Guan Hu, é um desses gestos raros: uma narrativa seca, quase brutal, na qual a redenção não se grita, antes se adivinha nos silêncios e nos gestos suspensos. Regressando a uma escala intimista, depois de incursões em épicos históricos, Hu descobre no deserto uma metáfora árida para uma China em mutação e, na ligação entre um homem e um cão, uma inesperada afirmação de humanidade. (...) ‘Black Dog’ é um filme de fronteiras - entre géneros, entre tempos, entre vidas esvaziadas - que se impõe não por excesso, mas por um rigor emocional raro no cinema contemporâneo”.
O que eu achei: "Black Dog" (2024) é um filme que poderia facilmente cair naquele clichê já esperado de ‘filmes de cachorro’, mas o longa se salva dessa cilada. Ambientado no Deserto de Gobi, noroeste da China, no ano de 2008, às vésperas das Olimpíadas de Pequim, ele mostra o país em transformação retratando uma cidade que está sendo demolida para dar lugar à instalação de um complexo de fábricas. Os moradores aos poucos estão abandonando o local, enquanto cachorros são deixados para trás e se juntam aos de rua formando uma matilha talvez maior que o atual número de habitantes. O filme começa com o personagem Lang (interpretado por Eddie Peng) regressando à essa cidade após passar 10 anos preso por homicídio culposo. Seu pai, alcoólatra, resolveu ir morar dentro do zoológico da cidade, igualmente abandonado, assumindo a tarefa de alimentar os animais encarcerados. No esforço de limpar a cidade antes dos Jogos Olímpicos começarem, Lang apenas consegue encontrar trabalho na caça aos cães vadios e será nessa empreitada que ele irá conhecer um cão preto com raiva, da raça galgo, com quem estabelecerá uma forte relação de amizade. A fotografia do deserto e da cidade em demolição é um verdadeiro deslumbre. Lembra Polaroides com seus tons pálidos azul-esverdeados. O responsável - Gao Weizhe – contou em entrevistas que para obter esse efeito ele usou lentes anamórficas Cooke 2x/i S35, todas de distância focal única. A beleza natural do local obviamente contribuiu muito, mas Weizhe declara ter feito a captura das imagens influenciado pela estética de fotógrafos americanos como Robert Adams e Stephen Shore, representantes da "Nova Topografia", que valoriza a sensação de calma e neutralidade, ao mesmo tempo em que esconde uma imensa energia sob a superfície. Outro elemento surpreendente no longa é a trilha sonora composta por músicas do Pink Floyd - isso mesmo, Pink Floyd num filme chinês. Quem é fã da banda vai se deliciar ao ouvir clássicos como "Hey You" além de uma versão instrumental de "Mother", ambas do álbum The Wall. Ao mesmo tempo grandioso e íntimo, o filme finaliza como uma história potente sobre reintegração, solidão e resiliência humana, enquanto faz uma crítica sociopolítica ousada e uma exploração íntima das lutas pessoais na China dos anos 2000. Excelente.

18.4.26

"O Imaginário" - Yoshiyuki Momose (Japão, 2023)

Sinopse:
 
Rudger, um menino imaginário nascido da cabeça da pequena Amanda, embarca em uma aventura quando descobre o mundo dos amigos imaginários que foram esquecidos pelos humanos.
Comentário: Trata-se de um anime adaptado do livro "The Imaginary" (O Imaginário), escrito pelo autor britânico A. F. Harrold. O roteiro adaptado foi escrito por Yoshiaki Nishimura. Os desenhos foram feitos a mão.
Rafael Motamayor do site Slash Film publicou: "Animação e terror formam uma combinação peculiar e complexa. Embora o Ocidente já tenha visto filmes de animação infantil descambarem para o terror puro diversas vezes, com animes a situação é ainda mais complicada, onde, na maioria das vezes, o terror se resume a uma quantidade enorme de sangue ou horror corporal. Mesmo assim, quando a atmosfera de terror não funciona em um filme de animação, é provável que ele ainda apresente um monstro ou vilão aterrorizante. Isso se confirma desde os primórdios da animação nos Estados Unidos, quando 'Branca de Neve' assombrou inúmeras crianças com a Rainha Má.
Essa tradição praticamente desapareceu, já que desenhos animados inspirados no terror estão se tornando cada vez mais raros a cada ano. Isso só torna os filmes que ainda resgatam o poder do terror em um contexto voltado para o público infantil ainda mais impactantes. É o caso de 'O Imaginário', o novo filme do Studio Ponoc, que nossa própria BJ Colangelo descreveu em sua crítica como 'uma façanha de animação de tirar o fôlego, com uma história poderosa que o torna um clássico geracional em potencial'.
No filme, um amigo imaginário chamado Rudger é perseguido por um monstro, que se parece com um velho sinistro de camisa havaiana chamado Sr. Bunting. Porém, por baixo dessa aparência, ele é um dos monstros mais assustadores da história recente do cinema para todas as idades. Como o roteirista e produtor Yoshiaki Nishimura contou ao Slash Film no Festival de Cinema de Animação de Annecy, havia planos para muito mais do Sr. Bunting do que vemos no filme. 'Existe uma saga sobre a história de fundo', disse Nishimura por meio de um tradutor. 'Infelizmente, não temos tempo suficiente para entrar em detalhes [no filme], levaria muito tempo'.
No mundo de 'O Imaginário', o Sr. Bunting é uma espécie de bicho-papão para amigos imaginários, um mito sobre um monstro que literalmente devora amigos imaginários porque não tem mais imaginação própria. Ele é uma espécie de cruzamento entre a garça titular de 'O Menino e a Garça', de Miyazaki, e Pennywise, o Palhaço, de 'It', de Stephen King, o que significa que, quando se aproxima, revela uma segunda forma muito mais assustadora e ameaçadora. Quando o Sr. Bunting ataca e tenta matar Rudger, ele abre a boca mais do que qualquer ser vivo deveria ser capaz, sua garganta se expandindo ao infinito enquanto os gritos dos amigos imaginários podem ser ouvidos em seu interior.
Embora ele funcione perfeitamente como um vilão com uma história de fundo bastante vaga, é fascinante ver o quanto Nishimura se dedicou à história de Bunting independentemente do romance original de A.F. Harrold e ilustrado por Emily Gravett, especialmente porque essa parte acabou não sendo vista. 'Ele é alguém que viveu por muito tempo, cerca de 300 anos, e acho que ele representa aqueles que sofreram grandes perdas ao longo do tempo', disse o escritor.
Segundo Nishimura, Bunting foi 'roubado de algo que realmente era valorizado pelos pais', e isso explica em parte quem ele se tornou no filme. Ele representa o pior cenário possível para uma criança com imaginação fértil e simboliza o que aconteceria se Amanda nunca perdesse Rudger, se ela se apegasse ao amigo imaginário dele e não o deixasse ir. De fato, no filme, descobrimos que Bunting quer continuar vendo seu amigo imaginário e, para isso, consome outros amigos imaginários, assim como Pennywise faz com crianças.
Se o Sr. Bunting já não fosse assustador o suficiente, ele está sempre acompanhado de sua amiga imaginária, uma garota que 'cheira a podridão e é fria como um picolé', que por acaso se parece muito com Sadako de 'Ringu'. O design da personagem é baseado na ilustração original do livro, que Nishimura admite 'se parecia muito com personagens de terror japoneses como Sadako', com o diretor Yoshiyuki Momose inicialmente desenhando a garota com 'um ar mais severo, um olhar realmente frio e assustador'. De fato, se Bunting é o Lorde das Trevas que ataca no último segundo, então sua amiga imaginária é uma Nazgûl que persegue suas presas e as prepara para serem devoradas. Para piorar a situação, ela pode mudar de forma e se transformar em monstros gigantes e criaturas voadoras aterrorizantes.
Ao falar sobre a adição de elementos de terror em 'O Imaginário', Nishimura disse que 'também é necessário entender que este é o mundo real e eu não queria mimar as crianças para protegê-las, para que vivessem numa bolha sem realmente encarar o medo'. Essa é a chave de 'O Imaginário', um filme que trata do poder da imaginação e do encantamento, mas que não se furta a mostrar que, muitas vezes, a imaginação é um mecanismo de defesa para escapar dos horrores da realidade. E, na verdade, quando o Sr. Bunting e sua capanga Sadako fazem parte da sua realidade, faça tudo o que puder para fugir para bem longe".
O que disse a crítica 1: Siddhant Adlakha do site The Daily Beast não gostou. Disse: "Justo quando se aproxima de momentos comoventes, o filme se desvia para muitas direções confusas e repletas de tramas, o que impede que ele alcance um desfecho emocional satisfatório".
O que disse a crítica 2: Tom Spoors do site Loud and Clear avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "'O Imaginário' é um título muito apropriado, já que a quantidade de ideias imaginativas exibidas a cada segundo é impressionante. Embora haja momentos que inevitavelmente parecem uma pálida imitação de algumas das melhores obras do estúdio Ghibli, há material original e empolgante o suficiente para que eu ainda recomende 'O Imaginário' de todo o coração para qualquer pessoa que queira se emocionar. Ele evoca as melhores partes de brincar com o amigo imaginário da infância, ao mesmo tempo que consegue rechear sua narrativa com lições profundas e reflexões maduras".
O que eu achei: Em “O Imaginário” (2023), Yoshiyuki Momose - fundador do Studio Ponoc - demonstra com clareza a herança artística que carrega após anos trabalhando no Studio Ghibli e colaborando diretamente com Hayao Miyazaki, revelando uma forte ligação com essa tradição estética e narrativa. Isso se percebe tanto no cuidado visual quanto na forma como o fantástico se entrelaça ao cotidiano. Baseado no livro “The Imaginary”, de A. F. Harrold, o filme parte de uma ideia instigante: investigar o destino dos amigos imaginários quando eles deixam de ser necessários e as crianças os abandonam. A partir daí, o longa se desenrola numa narrativa rica, que transita entre aventura e reflexão, explorando temas como solidão, perda, luto e o papel da imaginação na infância. Visualmente é um espetáculo. Os desenhos feitos à mão são lindíssimos, com atenção minuciosa aos detalhes e uma fluidez que reforça o caráter onírico da história. Há claras similaridades com obras como o alucinante “A Viagem de Chihiro”, especialmente na integração entre o mundo real e o imaginário, no olhar sensível sobre a infância e no ritmo contemplativo que valoriza pequenos gestos e silêncios. Por outro lado, o roteiro complexo e a duração de cerca de 1h45 podem dificultar o engajamento de crianças pequenas, que talvez não acompanhem plenamente a proposta. Mesmo para pré-adolescentes, há uma exigência de atenção absoluta, pois a condução narrativa por vezes soa um pouco confusa, com passagens que poderiam ser mais claras. Outro ponto que vale destacar é a coragem que o longa tem em explorar temas sombrios. Desde uma cobra estrangulando uma menina até o desaparecimento de um importante personagem secundário, o filme utiliza imagens relativamente fortes para uma animação voltada para a família, retratando a crueldade do mundo e o quão sombrio nosso imaginário pode se tornar. Ainda assim, vale assistir pois ele se sustenta pela força de sua ideia central e pela beleza de sua execução.