
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), o ótimo "Blue Moon: Música e Solidão" (2025), os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017) e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou conferir "Nouvelle Vague" (2025).
Katia Kreutz do site AIC – Academia Internacional de Cinema nos explica o que é a Nouvelle Vague, ela publicou: "Reunindo alguns dos grandes representantes do cinema moderno europeu, a Nouvelle Vague francesa foi um dos movimentos mais relevantes da história do cinema. Os diretores daquele período buscavam usar a técnica como uma forma de estilo. Para eles, um cineasta era, antes de mais nada, um autor. O filme deveria desafiar as convenções e desconstruir as bases do cinema, ou seja, a lógica narrativa tradicional e a continuidade do espaço e tempo. É como se o cineasta fosse um ensaísta que 'escrevesse com a luz', usando a câmera como sua caneta – um conceito que foi chamado de 'caméra-stylo'.
O termo Nouvelle Vague (que, em tradução literal, significa 'nova onda'), foi usado inicialmente entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960, na França, por um grupo de críticos cinematográficos da popular revista 'Cahiers du Cinéma'. As bases teóricas mais importantes para os integrantes desse grupo vieram dos escritos de Alexandre Astruc e, sobretudo, de André Bazin, cujas ideias ajudaram a moldar toda uma geração de estudiosos, críticos e cineastas.
O conceito da caméra-stylo via o cinema como uma forma de linguagem audiovisual, fundamentalmente escrita pelo diretor do filme. A Cahiers du Cinéma, fundada por Bazin em 1951, tornou-se o 'quartel general' de um grupo de jovens cinéfilos, amantes da sétima arte: François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Eric Rohmer – que, posteriormente, se tornariam os mais conhecidos diretores da Nouvelle Vague.
Um dos principais argumentos de Bazin consistia na rejeição da estética da montagem, tanto os cortes radicais propostos pelo cineasta russo Sergei Eisenstein quanto o estilo 'invisível' de edição dos filmes hollywoodianos. Ele defendia longos planos e uso da profundidade de campo, no que chamava de mise-en-scène (algo como 'representação da cena'). Os elementos que compunham a estrutura fílmica, de acordo com esse pensamento, eram todos aqueles que precediam a montagem propriamente dita, incluindo posicionamento e movimento de câmera, iluminação e distribuição da ação nos planos.
Os críticos da Cahiers não abraçaram apenas as ideias de Bazin, como também tomaram emprestado de Astruc o conceito de autoria. A chamada politique des auteurs ('política dos autores') sustentava que o filme deveria ser uma forma de expressão artística pessoal e que as melhores obras cinematográficas eram aquelas nas quais estava visível a assinatura de seus autores.
O movimento rejeitava ainda a 'tradition de qualité' – filmes adaptados de obras clássicas da literatura, que dominavam as salas de cinema francesas na época. O ímpeto por novidade que movia os jovens autores ficou evidente em uma espécie de manifesto escrito em 1953 por François Truffaut, 'Une certaine tendance du cinéma français' (Uma certa tendência do cinema francês). No texto, o cineasta denunciava as adaptações literárias para o cinema como uma forma segura de garantir bilheterias, resultando em trabalhos sem imaginação, o que ele chamou de 'cinéma de papa' (cinema de papai).
Os autores dispostos a criar uma 'nova onda' do cinema francês tinham uma coisa em comum: o desejo de gravar em locações reais, abordando temas de cunho social. Muitos dos cineastas do movimento estavam ativamente engajados nas revoltas políticas que aconteciam na França, na década de 1960. Até mesmo suas experimentações radicais com a edição, o estilo visual e a narrativa faziam parte de uma necessidade de quebrar os paradigmas conservadores daquele tempo".
Um dos filmes que fazem parte desse movimento é o longa "Acossado" (1960) de Jean-Luc Godard que conta a história de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) que, após roubar um carro em Marselha, foge para Paris. No caminho ele mata um policial que tentou prendê-lo por excesso de velocidade e, em Paris, persuade a relutante Patricia Franchisi (Jean Seberg), uma estudante americana com quem se envolveu, a escondê-lo até receber o dinheiro que lhe devem.
José Geraldo Couto do site IMS nos conta que "o filme de Richard Linklater retrata os bastidores da produção de 'O Acossado' (1960) (...). Vemos ali, em ação, a personalidade efervescente e imprevisível de Godard (Guillaume Marbeck), às voltas com um produtor duro na queda (Georges de Beauregard, encarnado por Bruno Dreyfürst), uma equipe atarantada e duas estrelas de personalidades díspares (Jean Seberg/Zoey Deutch e Jean-Paul Belmondo/Aubry Dullin). A missão nada modesta da trupe: subverter o cinema convencional e criar uma nova forma (ou novas formas) de expressar o real por meio de som e imagem.
(...) É forçoso dizer que se trata de um filme irresistível para os cinéfilos (entre os quais me incluo), talvez por conta de certo desejo fetichista de estar ali, no epicentro de uma revolução estética, política e moral. E nos deixamos levar prazerosamente por essa onda, que o próprio Godard maduro ironizaria invertendo a frase. 'Une vague nouvelle', disse ele, transformando o adjetivo em substantivo e vice-versa: uma vaga novidade.
Assim, o filme nos leva não apenas aos sets de filmagem, mas também à redação dos 'Cahiers du Cinéma', às conversas com ídolos como Rossellini e Bresson, aos cafés e ruas do Quartier Latin, numa reconstituição cuidadosa expressa num preto e branco que mimetiza a imagem do filme original, cujo frescor, aliás, segue incólume.
Para que não se quebre o encanto, praticamente todos os diálogos são frases de efeito ditas de fato em alguma ocasião, ou expressam de modo didático as transgressões buscadas por Godard. E aqui há um paradoxo: fala-se, por exemplo, do faux-raccord e dos cortes no interior do plano, mas o filme de Linklater não os pratica em nenhum momento, resignando-se a uma decupagem essencialmente convencional, 'invisível'. É um filme clássico celebrando um filme moderno.
(...) Um complemento ou contraponto mais que interessante seria o documentário 'Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague' (2010), de Emmanuel Laurent e Antoine de Baecque, disponível em DVD da Imovision. Ali se investiga mais a fundo essa espinhosa amizade/inimizade criativa que sacudiu a história do cinema".
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 2 estrelas, ou seja, algo entre fraco e regular. Disse: "A produção parece ter sido concebida primariamente para proporcionar a Linklater o prazer pessoal de 'refilmar' 'Acossado' - ou pelo menos o de documentar ficcionalmente sua produção, o que lhe permite reencenar não apenas passagens do original, mas reconstruir ambientes inteiros, como ao recriar em estúdio o apartamento de Patrícia, que originalmente era uma locação (um quarto de hotel). Além disso, o cineasta norte-americano se mostra tão determinado a perpetuar a aura mítica de Godard que, ao abordar a montagem do filme de 1960 (que, sim, foi inovadora no uso dos cortes secos para criar elipses abruptas dentro de planos contínuos), traz o francês articulando esta abordagem formal como se tivesse sido um conceito teoricamente premeditado em vez de um acidente feliz originado da necessidade prática de reduzir significativamente a duração do filme para viabilizar sua distribuição comercial. (...) Podendo se dar ao luxo também de ignorar a falta de caráter de Godard, já que suas ações vis contra Truffaut e Varda ainda estavam no futuro, Linklater acaba por idealizar um homem que simplesmente não existia, ignorando as lições de seu outro longa de 2025, 'Blue Moon', que se enriquecia justamente graças à complexidade moral de seu protagonista".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "De Linklater pode-se dizer o que for (eu, em particular, nunca me entusiasmei demais com seus filmes), mas sempre esteve combatendo à sua maneira esse modo de ser da indústria. Por exemplo, quando filmou por dez anos a evolução de seu filho [referindo-se ao longa 'Boyhood - Da Infância à Juventude' (2014)]. Não é o único caso: o seriado inglês 'Adolescência' mostrou há pouco que é possível usar a tecnologia moderna para transmitir ao público sensações originais, uma aventura, de certa forma. O que 'Nouvelle Vague' sugere não é olhar para a nouvelle vague com uma lágrima nos olhos por conta de um passado tão rico, mas reencontrar um espírito capaz de novamente engajar o cinema na aventura da arte. Arte amadora, isto é, feita por amor. Não é tarefa fácil, mas também não é impossível".
O que eu achei: Quem gosta de cinema, com certeza gostará de "Nouvelle Vague" (2025), uma produção franco-americana com direção de Richard Linklater. Este, todo filmado em P&B em escala 3:4, nos conta a história do movimento cinematográfico Nouvelle Vague, que surgiu na França no final da década de 1950, impulsionado por jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma que decidiram virar diretores para romper com o cinema industrial tradicional. Essa revista começou a ser publicada em 1951 e ainda existe. Quem a fundou foi o lendário teórico André Bazin junto com três sócios. Na redação figuravam nomes como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Éric Rohmer, que cansaram de apenas escrever sobre como o cinema deveria ser feito e decidiram provar na prática as suas próprias teorias. Essa transição de críticos para diretores foi um dos fenômenos mais fascinantes da história da arte e aconteceu de forma muito natural e estratégica. Eles odiavam o ‘Cinéma de Papa’ (cinema dos pais), que eram produções francesas caras, cheias de diálogos literários e feitas dentro de estúdios fechados. Para eles, se um diretor de verdade era o dono da obra, eles precisavam assumir o controle total das câmeras. Como eram jovens e não tinham o apoio dos grandes estúdios, eles transformaram a falta de recursos em estilo e inovação utilizando câmeras leves nas ruas, luz do dia, equipes pequenas com poucos técnicos e atores amadores ou iniciantes e, em geral, fazendo capturas de imagem sem áudio que eram dubladas posteriormente, isso porque os equipamentos de som de rua eram caríssimos. O primeiro deles que se aventurou foi Claude Chabrol, que usou uma herança de família para financiar “Nas Garras do Vício” (1958). Na sequência veio François Truffaut que pegou dinheiro emprestado do sogro e fez “Os Incompreendidos” (1959), um sucesso estrondoso de bilheteria e crítica que trouxe o prestígio que o grupo precisava. Daí veio o Jean-Luc Godard que usou as sobras de rolos de filme de Truffaut e o apoio dos amigos para rodar “Acossado” (1960), quebrando todas as regras de montagem do cinema tradicional. O filme se debruça basicamente sobre os bastidores da produção de “Acossado” mostrando o jovem Godard improvisando os diálogos no próprio dia da gravação, usando carrinhos de supermercado ou cadeiras de rodas para fazer os travellings com a câmera ou tentando esconder o câmera man dentro de caixas para não chamar a atenção nas ruas e preservar a naturalidade das cenas. Vale a pena assistir “Acossado” antes de ver “Nouvelle Vague” pois vai ficar mais interessante ver Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg decorando as falas minutos antes das filmagens, bem como observar Jean Seberg desesperada, detestando a falta de organização e o estilo improvisado de Godard. Ela chegou a ligar para o marido dizendo que o filme seria um desastre completo e que a carreira dela estaria arruinada. Hoje sabemos que o resultado foi o contrário disso. Além do filme ser uma delícia de ver, vale prestar atenção na semelhança entre os atores escalados e os verdadeiros personagens da época. Com exceção da atriz norte-americana Zoey Deutch, que interpreta Jean Seberg, quase todo o elenco principal é composto por atores franceses jovens e praticamente desconhecidos do grande público. Super recomendo.
Katia Kreutz do site AIC – Academia Internacional de Cinema nos explica o que é a Nouvelle Vague, ela publicou: "Reunindo alguns dos grandes representantes do cinema moderno europeu, a Nouvelle Vague francesa foi um dos movimentos mais relevantes da história do cinema. Os diretores daquele período buscavam usar a técnica como uma forma de estilo. Para eles, um cineasta era, antes de mais nada, um autor. O filme deveria desafiar as convenções e desconstruir as bases do cinema, ou seja, a lógica narrativa tradicional e a continuidade do espaço e tempo. É como se o cineasta fosse um ensaísta que 'escrevesse com a luz', usando a câmera como sua caneta – um conceito que foi chamado de 'caméra-stylo'.
O termo Nouvelle Vague (que, em tradução literal, significa 'nova onda'), foi usado inicialmente entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960, na França, por um grupo de críticos cinematográficos da popular revista 'Cahiers du Cinéma'. As bases teóricas mais importantes para os integrantes desse grupo vieram dos escritos de Alexandre Astruc e, sobretudo, de André Bazin, cujas ideias ajudaram a moldar toda uma geração de estudiosos, críticos e cineastas.
O conceito da caméra-stylo via o cinema como uma forma de linguagem audiovisual, fundamentalmente escrita pelo diretor do filme. A Cahiers du Cinéma, fundada por Bazin em 1951, tornou-se o 'quartel general' de um grupo de jovens cinéfilos, amantes da sétima arte: François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Eric Rohmer – que, posteriormente, se tornariam os mais conhecidos diretores da Nouvelle Vague.
Um dos principais argumentos de Bazin consistia na rejeição da estética da montagem, tanto os cortes radicais propostos pelo cineasta russo Sergei Eisenstein quanto o estilo 'invisível' de edição dos filmes hollywoodianos. Ele defendia longos planos e uso da profundidade de campo, no que chamava de mise-en-scène (algo como 'representação da cena'). Os elementos que compunham a estrutura fílmica, de acordo com esse pensamento, eram todos aqueles que precediam a montagem propriamente dita, incluindo posicionamento e movimento de câmera, iluminação e distribuição da ação nos planos.
Os críticos da Cahiers não abraçaram apenas as ideias de Bazin, como também tomaram emprestado de Astruc o conceito de autoria. A chamada politique des auteurs ('política dos autores') sustentava que o filme deveria ser uma forma de expressão artística pessoal e que as melhores obras cinematográficas eram aquelas nas quais estava visível a assinatura de seus autores.
O movimento rejeitava ainda a 'tradition de qualité' – filmes adaptados de obras clássicas da literatura, que dominavam as salas de cinema francesas na época. O ímpeto por novidade que movia os jovens autores ficou evidente em uma espécie de manifesto escrito em 1953 por François Truffaut, 'Une certaine tendance du cinéma français' (Uma certa tendência do cinema francês). No texto, o cineasta denunciava as adaptações literárias para o cinema como uma forma segura de garantir bilheterias, resultando em trabalhos sem imaginação, o que ele chamou de 'cinéma de papa' (cinema de papai).
Os autores dispostos a criar uma 'nova onda' do cinema francês tinham uma coisa em comum: o desejo de gravar em locações reais, abordando temas de cunho social. Muitos dos cineastas do movimento estavam ativamente engajados nas revoltas políticas que aconteciam na França, na década de 1960. Até mesmo suas experimentações radicais com a edição, o estilo visual e a narrativa faziam parte de uma necessidade de quebrar os paradigmas conservadores daquele tempo".
Um dos filmes que fazem parte desse movimento é o longa "Acossado" (1960) de Jean-Luc Godard que conta a história de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) que, após roubar um carro em Marselha, foge para Paris. No caminho ele mata um policial que tentou prendê-lo por excesso de velocidade e, em Paris, persuade a relutante Patricia Franchisi (Jean Seberg), uma estudante americana com quem se envolveu, a escondê-lo até receber o dinheiro que lhe devem.
José Geraldo Couto do site IMS nos conta que "o filme de Richard Linklater retrata os bastidores da produção de 'O Acossado' (1960) (...). Vemos ali, em ação, a personalidade efervescente e imprevisível de Godard (Guillaume Marbeck), às voltas com um produtor duro na queda (Georges de Beauregard, encarnado por Bruno Dreyfürst), uma equipe atarantada e duas estrelas de personalidades díspares (Jean Seberg/Zoey Deutch e Jean-Paul Belmondo/Aubry Dullin). A missão nada modesta da trupe: subverter o cinema convencional e criar uma nova forma (ou novas formas) de expressar o real por meio de som e imagem.
(...) É forçoso dizer que se trata de um filme irresistível para os cinéfilos (entre os quais me incluo), talvez por conta de certo desejo fetichista de estar ali, no epicentro de uma revolução estética, política e moral. E nos deixamos levar prazerosamente por essa onda, que o próprio Godard maduro ironizaria invertendo a frase. 'Une vague nouvelle', disse ele, transformando o adjetivo em substantivo e vice-versa: uma vaga novidade.
Assim, o filme nos leva não apenas aos sets de filmagem, mas também à redação dos 'Cahiers du Cinéma', às conversas com ídolos como Rossellini e Bresson, aos cafés e ruas do Quartier Latin, numa reconstituição cuidadosa expressa num preto e branco que mimetiza a imagem do filme original, cujo frescor, aliás, segue incólume.
Para que não se quebre o encanto, praticamente todos os diálogos são frases de efeito ditas de fato em alguma ocasião, ou expressam de modo didático as transgressões buscadas por Godard. E aqui há um paradoxo: fala-se, por exemplo, do faux-raccord e dos cortes no interior do plano, mas o filme de Linklater não os pratica em nenhum momento, resignando-se a uma decupagem essencialmente convencional, 'invisível'. É um filme clássico celebrando um filme moderno.
(...) Um complemento ou contraponto mais que interessante seria o documentário 'Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague' (2010), de Emmanuel Laurent e Antoine de Baecque, disponível em DVD da Imovision. Ali se investiga mais a fundo essa espinhosa amizade/inimizade criativa que sacudiu a história do cinema".
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 2 estrelas, ou seja, algo entre fraco e regular. Disse: "A produção parece ter sido concebida primariamente para proporcionar a Linklater o prazer pessoal de 'refilmar' 'Acossado' - ou pelo menos o de documentar ficcionalmente sua produção, o que lhe permite reencenar não apenas passagens do original, mas reconstruir ambientes inteiros, como ao recriar em estúdio o apartamento de Patrícia, que originalmente era uma locação (um quarto de hotel). Além disso, o cineasta norte-americano se mostra tão determinado a perpetuar a aura mítica de Godard que, ao abordar a montagem do filme de 1960 (que, sim, foi inovadora no uso dos cortes secos para criar elipses abruptas dentro de planos contínuos), traz o francês articulando esta abordagem formal como se tivesse sido um conceito teoricamente premeditado em vez de um acidente feliz originado da necessidade prática de reduzir significativamente a duração do filme para viabilizar sua distribuição comercial. (...) Podendo se dar ao luxo também de ignorar a falta de caráter de Godard, já que suas ações vis contra Truffaut e Varda ainda estavam no futuro, Linklater acaba por idealizar um homem que simplesmente não existia, ignorando as lições de seu outro longa de 2025, 'Blue Moon', que se enriquecia justamente graças à complexidade moral de seu protagonista".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "De Linklater pode-se dizer o que for (eu, em particular, nunca me entusiasmei demais com seus filmes), mas sempre esteve combatendo à sua maneira esse modo de ser da indústria. Por exemplo, quando filmou por dez anos a evolução de seu filho [referindo-se ao longa 'Boyhood - Da Infância à Juventude' (2014)]. Não é o único caso: o seriado inglês 'Adolescência' mostrou há pouco que é possível usar a tecnologia moderna para transmitir ao público sensações originais, uma aventura, de certa forma. O que 'Nouvelle Vague' sugere não é olhar para a nouvelle vague com uma lágrima nos olhos por conta de um passado tão rico, mas reencontrar um espírito capaz de novamente engajar o cinema na aventura da arte. Arte amadora, isto é, feita por amor. Não é tarefa fácil, mas também não é impossível".
O que eu achei: Quem gosta de cinema, com certeza gostará de "Nouvelle Vague" (2025), uma produção franco-americana com direção de Richard Linklater. Este, todo filmado em P&B em escala 3:4, nos conta a história do movimento cinematográfico Nouvelle Vague, que surgiu na França no final da década de 1950, impulsionado por jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma que decidiram virar diretores para romper com o cinema industrial tradicional. Essa revista começou a ser publicada em 1951 e ainda existe. Quem a fundou foi o lendário teórico André Bazin junto com três sócios. Na redação figuravam nomes como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Éric Rohmer, que cansaram de apenas escrever sobre como o cinema deveria ser feito e decidiram provar na prática as suas próprias teorias. Essa transição de críticos para diretores foi um dos fenômenos mais fascinantes da história da arte e aconteceu de forma muito natural e estratégica. Eles odiavam o ‘Cinéma de Papa’ (cinema dos pais), que eram produções francesas caras, cheias de diálogos literários e feitas dentro de estúdios fechados. Para eles, se um diretor de verdade era o dono da obra, eles precisavam assumir o controle total das câmeras. Como eram jovens e não tinham o apoio dos grandes estúdios, eles transformaram a falta de recursos em estilo e inovação utilizando câmeras leves nas ruas, luz do dia, equipes pequenas com poucos técnicos e atores amadores ou iniciantes e, em geral, fazendo capturas de imagem sem áudio que eram dubladas posteriormente, isso porque os equipamentos de som de rua eram caríssimos. O primeiro deles que se aventurou foi Claude Chabrol, que usou uma herança de família para financiar “Nas Garras do Vício” (1958). Na sequência veio François Truffaut que pegou dinheiro emprestado do sogro e fez “Os Incompreendidos” (1959), um sucesso estrondoso de bilheteria e crítica que trouxe o prestígio que o grupo precisava. Daí veio o Jean-Luc Godard que usou as sobras de rolos de filme de Truffaut e o apoio dos amigos para rodar “Acossado” (1960), quebrando todas as regras de montagem do cinema tradicional. O filme se debruça basicamente sobre os bastidores da produção de “Acossado” mostrando o jovem Godard improvisando os diálogos no próprio dia da gravação, usando carrinhos de supermercado ou cadeiras de rodas para fazer os travellings com a câmera ou tentando esconder o câmera man dentro de caixas para não chamar a atenção nas ruas e preservar a naturalidade das cenas. Vale a pena assistir “Acossado” antes de ver “Nouvelle Vague” pois vai ficar mais interessante ver Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg decorando as falas minutos antes das filmagens, bem como observar Jean Seberg desesperada, detestando a falta de organização e o estilo improvisado de Godard. Ela chegou a ligar para o marido dizendo que o filme seria um desastre completo e que a carreira dela estaria arruinada. Hoje sabemos que o resultado foi o contrário disso. Além do filme ser uma delícia de ver, vale prestar atenção na semelhança entre os atores escalados e os verdadeiros personagens da época. Com exceção da atriz norte-americana Zoey Deutch, que interpreta Jean Seberg, quase todo o elenco principal é composto por atores franceses jovens e praticamente desconhecidos do grande público. Super recomendo.









