27.4.26

"Los Angeles, Cidade Proibida" – Curtis Hanson (1997)

Sinopse:
 
Ao investigar um caso de múltiplos homicídios ocorridos no Café Nite Owl, os detetives Ed Exley (Guy Pearce) e Bud White (Russell Crowe) acabam desvendando um lucrativo esquema de prostituição de luxo, envolvendo figurões de Hollywood e o departamento de polícia de Los Angeles.
Comentário: Trata-se do filme número 83 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Um detetive de moral duvidosa (Kevin Spacey), sempre disposto a vender informações a quem pagar mais. Outro, de atributos físicos avantajados (Russell Crowe), está habituado a conseguir informações por meio da violência. Um terceiro policial (Guy Pearce) é o oposto: honesto e idealista. Há ainda uma loira estonteante, fatal e misteriosa (Kim Basinger). Quatro pontas que sustentam uma trama repleta de reviravoltas e detalhes obscuros elucidados apenas no final, embalada por trilha sonora do cancioneiro norte-americano. Parece até um daqueles noir do cinema clássico americano estrelados por Humphrey Bogart, mas 'Los Angeles, Cidade Proibida' é de 1997. Dirigido por Curtis Hanson e inspirado em romance homônimo de James Ellroy, autor também de 'Dália Negra' (base para o longa de Brian De Palma) e papa da literatura policial contemporânea, o filme chamou a atenção por seu gostinho de naftalina e por lembrar aos cinéfilos que Hollywood já foi espaço para tramas inteligentes e imprevisíveis, diálogos espirituosos e grandes atuações, mais do que efeitos especiais mirabolantes. Destaque para o roteiro, para a reconstrução dos cenários e da atmosfera da década de 1950 e para o choque provocado pelos temperamentos distintos dos três policiais, cada um com a sua maneira de resolver os problemas. 'Los Angeles, Cidade Proibida' foi indicado a nove Oscar em 1998. Ganhou apenas os de Roteiro Adaptado e de Atriz Coadjuvante (para Basinger, que levou o Globo de Ouro na mesma categoria). Havia, naquele ano, um fenômeno chamado 'Titanic'".
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de ver todos os 100 filmes listados como essenciais pela Revista Bravo! em 2007, desta vez assisti "Los Angeles, Cidade Proibida" (1997). O longa resgata o espírito dos grandes clássicos hollywoodianos e o atualiza com a energia e o ritmo do cinema dos anos 1990. Ambientada na Los Angeles dos anos 1950, a trama mergulha no submundo do crime organizado, onde mafiosos e seus capangas controlam a distribuição de heroína e outras drogas ilícitas, enquanto a alta sociedade consome esse luxo proibido em festas regadas a dinheiro, poder e prostituição. É um universo onde tudo se mistura: política, polícia, mídia e crime. O grande trunfo do filme está justamente na construção de seus personagens. Entre os policiais, há de tudo: o idealista que tenta seguir as regras, o ambicioso que vende informações para ganhar notoriedade, o truculento que resolve tudo na base da violência e até figuras da alta cúpula, aparentemente irrepreensíveis, mas profundamente corrompidas, trabalhando lado a lado com o crime. Essa variedade cria um mosaico moral complexo e extremamente interessante. Ao terminar não pude deixar de ver no longa uma mistura de dois temas muito atuais: o Rio de Janeiro com o domínio do tráfico de drogas envolvendo políticos e polícia e o caso Jeffrey Epstein. Então apesar do filme ser antigo, ele é bastante elucidativo para saber como as coisas funcionam. O elenco contribui decisivamente para o impacto do filme, com destaques para Russell Crowe, Guy Pearce e Kevin Spacey, que dão vida a personagens distintos, mas igualmente marcantes. Kim Basinger também está ótima na pele de uma prostituta de luxo. O resultado é um filme envolvente, daqueles gostosos de assistir, que combina investigação policial, drama e crítica social com enorme habilidade. O diretor Curtis Hanson conduz a narrativa com precisão, equilibrando as múltiplas histórias sem perder o ritmo. A atmosfera noir, a reconstituição de época e o roteiro bem amarrado tornam a experiência ainda mais rica. No fim, “Los Angeles, Cidade Proibida” é um ótimo filme justamente por conseguir unir entretenimento e complexidade com temas bem atuais. Exige atenção absoluta para acompanhar a trama cheia de reviravoltas e personagens ambíguos, mas vale pelo resultado que mostra com competência uma sociedade onde aparência e corrupção caminham lado a lado.

26.4.26

"A Única Saída" - Park Chan-wook (Coreia do Sul/França, 2025)

Sinopse:
 
Um homem de meia-idade chamado Man-Su (Lee Byung-hun) perde seu emprego depois de 25 anos no cargo. Man-Su era um funcionário premiado e exemplar, um veterano na indústria do papel e na companhia Solar Paper, vendida para uma empresa americana. Antes bem pago e vivendo a vida dos sonhos ao lado da esposa Mi-ri (Son Ye-jin), da filha Ri-one (So Yul Choi) e do enteado Si-one (Woo Seung Kim) numa luxuosa casa, agora Man-Su se vê envolvido numa busca feroz e desesperada por uma nova colocação.
Comentário: Park Chan-wook (1963) é um cineasta sul-coreano considerado um dos nomes mais importantes de cineastas sul-coreanos da sua geração. Assisti dele o ótimo "Três... Extremos" (2004) que era composto por três histórias de terror dirigidas por três diretores diferentes. Vi também o ótimo “Oldboy” (2003) e o mediano “Decisão de Partir” (2022).
Raquel Carneiro da Revista Veja publicou: "Man-Su (Lee Byung-hun) é um homem realizado que vive na casa dos sonhos com a mulher que ama, tem dois filhos adoráveis e dois cachorros brincalhões. Ele faz questão de dizer isso à família durante um churrasco no quintal, ao grelhar as enguias que ganhou da empresa de produção de papel onde trabalha há 25 anos. Mal sabe o coitado que o presente de grego é um prenúncio para tempos de escassez: pouco depois, Man-su é demitido com diversos colegas em um corte em massa, quando a companhia da Coreia do Sul é adquirida por uma multinacional americana. A nova administração está disposta a tudo para reduzir custos - e, para obter isso, vai substituir boa parte da mão de obra humana por aparatos movidos pela inteligência artificial.
Assim começa o calvário do protagonista de 'A Única Saída' (Eojjeolsuga Eobsda, Coreia do Sul, 2025), novo filme do diretor Park Chan-wook (...). Aos 62 anos, o cineasta que impactou o mundo com o aclamado drama de vingança 'Oldboy' (2003) volta a mirar um drama social que expõe o que há de pior nas pessoas - e faz isso com um impressionante controle narrativo, imagens soberbas e humor macabro.
Conforme o desemprego persiste, Man-su se desespera ao ver seu estilo de vida de classe média alta se esvair. Embora tenha a opção de se reinventar em outra atividade, ele só enxerga a única saída do título do filme: agora Man-su está disposto a eliminar, literalmente, os concorrentes com quem disputa os pouquíssimos cargos disponíveis em outras empresas que fazem parte do obsoleto setor de papel.
Baseado no livro 'O Corte', do autor americano Donald Westlake, publicado em 1997 e ambientado na Coreia do Sul, o filme traduz um mal-estar subjacente à vida social do país asiático, apesar da pujança de seu capitalismo: o desalento que atinge certa parcela da população com formação de alto nível, condenada ao desemprego ou a ocupações menores em razão da concorrência pelas boas vagas".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Ele disse tratar-se: "de uma produção sólida, certamente inventiva nas imagens, e sem medo dos excessos ou delírios. É possível que as críticas ao filme (...) decorram das altas expectativas que o autor cria para si, após trabalhos muito melhores, como 'Oldboy' (2003), 'Lady Vingança' (2005), 'Sede de Sangue' (2009) e 'Segredos de Sangue' (2013). Caso viesse de um cineasta iniciante, esta proposta pudesse ser aclamada pelo potencial revelado. Aqui, aponta para um diretor em busca de novos registros, porém hesitando quanto ao alvo de sua paródia. Chan-wook não se coloca ao lado dos trabalhadores contra os patrões, ou ao lado dos fracos contra o sistema: ele ridiculariza a todos da mesma maneira, algo que talvez se mostre menos humanista do que politizado, e fácil até demais como chacota. Depois de seu longa-metragem anterior, o igualmente mediano 'Decisão de Partir', o cineasta ingressa numa fase distinta de sua carreira. Este parece ser um instante de transição - ainda não se sabe se para algo melhor, pior, ou somente diferente".
O que disse a crítica 2: Alexandre Almeida do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'A Única Saída' é um dos grandes filmes de 2025 e mais um exemplo da importância de Park Chan-wook para o cinema mundial. Se há uma universalidade na história de Donald E. Westlake, passada nos EUA (livro), na França (Costa-Gravas) e agora na Coreia do Sul, a condução do diretor torna tudo mais cômico, urgente e humano. A vida de Man-soo está passando diante de seus olhos, sua família se deteriorando a cada minuto e Park Chan-wook foge de qualquer tipo de conforto para contar essa trama que, assim como o capitalismo, não tem tempo a perder. Mesmo que seja nos fazendo rir do desespero".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro "The Ax” (O Corte, 1997) do autor americano Donald Westlake. Este livro já havia sido adaptado para o cinema anteriormente por Costa Gavras no longa homônimo "O Corte" (2005). Como Costa Gavras detinha os direitos do livro foi necessário que Chan-wook o procurasse. Ele apoiou ativamente a nova adaptação, sendo esse novo filme produzido pela produtora de Gavras. Nos créditos é possível observar uma dedicatória ao diretor pelo apoio concedido. Se formos comparar as duas adaptações, é possível observar que elas oferecem visões distintas sobre a mesma premissa: um homem desempregado que decide eliminar seus concorrentes para recuperar o emprego e consequentemente seu lugar na sociedade. A abordagem de Costa Gavras é considerada mais fiel à estrutura do livro. Ela possui um tom de comédia sombria misturada com suspense noir, focando na sátira social. Já a adaptação de Park Chan-wook é mais engraçada, mergulhando no terror psicológico e no drama familiar, refletindo a crueldade do mercado de trabalho modernoO resultado é tipo uma chanchada coreana que aposta no improvável e no exagero, com cenas repletas de comicidade física que o ator Lee Byung-hun super dá conta com seu gestual atrapalhado, patético, incapaz de realizar com desenvoltura as tarefas mais simples a que se propõe. Além do excelente elenco, chama a atenção a fotografia com tomadas surpreendentes. A edição e o design sonoro também não ficam atrás. Uma boa pedida para quem procura um longa fora dos padrões ocidentais.

22.4.26

“Suçuarana” - Clarissa Campolina & Sérgio Borges (Brasil, 2024)

Sinopse:
Dora (Sinara Teles) atravessa uma paisagem devastada pela mineração em busca de uma terra perdida sonhada por ela e por sua mãe. Guiada por um misterioso cachorro, ela encontra refúgio em uma vila de trabalhadores de uma fábrica abandonada. Eles vivem em coletividade e lembram o lar que ela tanto procura.
Comentário: Clarissa Campolina (1979) e Sérgio Borges (1975) são dois cineastas brasileiros, fundadores do coletivo audiovisual mineiro Teia, que surgiu no início dos anos 2000. “Suçuarana” (2024) é o primeiro filme que vejo deles.
O longa é livremente inspirado no livro publicado em 1903 “The Beast in the Jungle “ (A Fera na Selva), de Henry James.
Victor Kutz da Revista Cult publicou: “’Suçuarana’ é o nome que se dá no Brasil à onça parda, ou puma, um tipo de felino predador presente por toda a América, que mantém o hábito de caçar sozinho ao entardecer. No entanto, ‘Suçuarana’ é também o nome da história de Dora no longa-metragem de Clarissa Campolina e Sérgio Borges (...).
Na trama, acompanhamos o deslocamento de Dora, uma personagem que percorre veredas em busca da mítica Serra da Suçuarana, local em que sua mãe teria morado tempos atrás. Desenraizada, ela recusa papéis impostos e conta com a ajuda e a gentileza de estranhos para sobreviver em uma paisagem marcada pela devastação da mineração.
Em entrevista à Cult, Campolina diz acreditar na capacidade dessa estrutura narrativa de exercitar a alteridade em tempos em que ‘o mundo anda tão rápido, mas somos colocados sempre no mesmo lugar’. Em ‘Suçuarana’, o desejo de mudança é correspondido por um deslocamento geográfico no qual Dora ‘encontra a possibilidade de sair de um lugar que já não é mais físico’, reflete. Já Borges lembra que a ideia de deslocamento estava presente desde o início do projeto, como uma forma de ‘utopia do movimento’ perseguida pelo filme, ao que Campolina completa: ‘se perdermos essa utopia, creio que será difícil viver’”.
O filme é dividido em duas partes. Na primeira, ‘as pessoas se acotovelam para sobreviver’, descreve a diretora, ‘mas ainda há gestos que, no fundo, anunciam que uma outra vida é possível’. Isso prepara para a segunda parte, quando Dora finalmente encontra uma comunidade. A essa divisão narrativa, soma-se também uma divisão estética: a primeira parte do filme é gravada utilizando tecnologias de vídeo digital; a segunda é gravada inteiramente em película, o que, segundo Borges, corresponde ao desejo de incorporar ao filme elementos do realismo fantástico, tanto na trama como na textura da imagem, o que implicou em desafios técnicos para a filmagem: ‘no primeiro momento em que Clarissa propôs a ideia de filmar em 16mm, fiquei um pouco receoso, pois torna o projeto mais caro e reduz a quantidade de takes para cada cena. Tínhamos que fazer tudo quase que ‘em um tiro único’, o que exige mais concentração. Acho que isso aumenta a chance da magia do cinema acontecer’.
Campolina conta ainda que a direção do filme, assinada em conjunto, partiu de um questionamento perene ao chamado ‘cinema de autor’, sistema já problematizado por cineastas como Jean Luc-Godard e Chris Marker, que, na França dos anos 1960, passaram a produzir filmes assinados por coletivos de autores, como o Groupe Dziga Vertov e o collectif SLON – ISKRA, respectivamente. Essa perspectiva parte da percepção de que o cinema é fruto de proposições, vontades e interlocuções que não podem surgir individualmente.
A vontade de propor experimentações formais e estéticas, no entanto, produziu, para Campolina e Borges, a necessidade de buscar financiamento para o filme, que contou com o apoio da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual. A diretora reafirma a necessidade de políticas públicas para o setor que apoiem a produção de obras variadas e lembra que ‘desde o primeiro governo Lula isso foi sendo estabelecido. Depois tivemos um retrocesso enorme com os governos de Temer e Bolsonaro. Após termos ganhado o edital, nós ficamos três ou quatro anos com o dinheiro retido para fazer o filme. Não conseguimos produzir diante dessa insegurança tão grande que foi imposta ao cinema, e principalmente ao cinema experimental, no qual acreditamos. Existe uma diferença entre um cinema feito para ganhar dinheiro e outro feito como uma pesquisa de linguagem. Acho que todos devem existir’”.
“Suçuarana” foi premiado no Festival de Brasília de 2024 em cinco categorias: Melhor Atriz para Sinara Telles, Melhor Ator Coadjuvante para Carlos Francisco, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som e Melhor Montagem.
O que disse a crítica 1: Raissa Ferreira do site Filmes & Filmes avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “O olhar de Dora guia o longa, tornando suas observações de tudo que a cerca uma sequência de cenas que valorizam o instante. As gentilezas humanas encontradas são lembretes de uma sociedade perdida, mas reconstruída nas margens pelas atitudes que se somam. São esses fatores, tanto de afeto quanto de humanidade, que mais interessam a Campolina e Borges, construindo imagens que traduzem tanto uma realidade mais crua, quanto ideais fantásticos de uma jornada existencial”.
O que disse a crítica 2: Francisco Carbone do site Cenas de Cinema avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Porque caminham em paralelo com muitas ausências de um afeto que nem se imaginava precisar, cada um dos personagens de ‘Suçuarana’ experimenta uma versão própria da solitude, e de como a adaptação a essa chave varia entre cada ser. Isso não impede a montagem de Luiz Pretti de criar ritmo intenso a essas passagens sem medo de encarar esses fantasmas, de um futuro desconectado a outros seres, de uma ausência de expectativa na colocação social de cada um. Não soam distantes seus temas, e a maneira cada vez mais esgotada com que assistimos cada personagem acaba unindo-os ainda mais, rumo ao desconhecido sentimento de não pertencer a lugar nenhum”.
O que eu achei: Inspirado no livro “The Beast in the Jungle” (A Fera na Selva, 1903), de Henry James, o longa conta a história de Dora (Sinara Teles) uma pobre trabalhadora que sai vagando pela estrada em busca do ‘Vale de Suçuarana’, um local mítico e possivelmente imaginário, cujo nome aparece no verso de uma fotografia de sua mãe. Gravado nas imediações de Belo Horizonte e de Ouro Preto, em Minas Gerais, nessas andanças ela percorre paisagens devastadas pela mineração, chegando a uma vila de trabalhadores de uma fábrica abandonada onde encontra refúgio. O filme tem dois momentos: o primeiro deles, que retrata Dora inquieta pela vontade de sair em busca desse lugar, é filmado com equipamento digital, enquanto o segundo, mais contemplativo, é capturado em película 16 mm. O filme – cujo foco é mais a travessia do que a chegada - resulta num retrato melancólico do Brasil, de pessoas que caminham em busca do inatingível. Atenção à presença do ator mineiro Carlos Francisco no papel de Ernesto. Sua presença carismática – já observada anteriormente em “Marte Um” – fez toda diferença no clima de aconchego buscado pela protagonista. Um filme calmo, caracterizado pela simplicidade e pela contenção, tanto na narrativa quanto na estética, evitando exageros dramáticos, reviravoltas ou clímax. Boa pedida.

20.4.26

"O Mensageiro" - Karen Shakhnazarov (URSS, 1986)

Sinopse:
Vivendo durante a era Gorbachev numa sociedade à deriva, um rapaz sem noção da realidade (Fyodor Dunayevsky) consegue emprego de entregador. Através de uma das entregas, ele conhece o professor Kuznetsov (Oleg Basilashvili) e sua filha Katya (Anastasiya Nemolyaeva). Para irritar o professor, ele afirma ter engravidado Katya. Para sua surpresa, ela confirma a sua história.
Comentário: Karen Shakhnazarov (1952) é um cineasta, produtor e roteirista soviético. Ele se tornou diretor geral da Mosfilm em 1998. Ele é conhecido pelo seu trabalho em "Enfermaria Nº 6" (2009), "Cidade Zero" (1988) e "Tigre Branco" (2012). Assisti dele o excelente “Anna Karenina: A História de Vronsky” (2017). Desta vez vou conferir "O Mensageiro" (1986).
Guillermo Sánchez Ferrer do site Cinema Gavia publicou: "'O Mensageiro' (1986) é um filme do aclamado diretor Karen Shakhnazarov, que retratou como nenhum outro a atitude da juventude em relação às reformas soviéticas que ocorreram durante o período da Perestroika. O filme foi um enorme sucesso de bilheteria (tornando-se o sexto filme de maior bilheteria na URSS naquele ano) e um sucesso de crítica. (...)
O ator principal de 'O Mensageiro', Fyodor Dunayevsky, compartilha parte da história por trás do enredo do filme. Assim como o personagem que interpreta, seus pais se divorciaram quando ele tinha apenas quatorze anos. Ele então trabalhou em um jardim de infância, onde se envolveu em diversas brigas, chegando a enfrentar acusações no tribunal juvenil. Sua entrada no cinema foi puramente por acaso. Sua ex-colega de classe, Anastasiya Nemolyayeva , que originalmente interpretaria a protagonista feminina, Katya, enviou várias fotos de seus colegas para o estúdio para o papel de Ivan. Dunayevsky foi convidado para uma audição e, após ser aprovado, conseguiu o papel principal.
'O Mensageiro' é um retrato que apresenta uma luta geracional. De um lado, está a geração representada pelo personagem principal, Ivan. São os jovens da Perestroika. São os jovens que já não acreditam no socialismo, mas sim no que veem na televisão, agora aberta ao Ocidente (numa cena, os vemos assistindo a filmes de artes marciais). 'O Mensageiro', enquanto obra documental de todo este período, é verdadeiramente excecional.
O diretor nos apresenta todas essas novas influências: música rock (desde a música que está tocando até os pôsteres de bandas que Ivan tem em seu quarto), danças (quase como uma sequência icônica, vemos vários jovens dançando a dança do robô, tão emblemática dos anos oitenta), festas (uma boate aparece diretamente no filme), o próprio idioma... Como eu disse, como um simples documentário, é uma verdadeira maravilha para todos os amantes da cultura eslava e de sua história.
Por outro lado, essa geração entra em conflito com a geração soviética, simbolizada pelo pai de Katya, magistralmente interpretado por Oleg Basilashvili. Esses são os pais que viveram a Segunda Guerra Mundial ou o período pós-guerra. Eles acreditavam que o socialismo triunfaria no mundo todo. Eles sempre tiveram (...) uma vida planejada e, portanto, entram em conflito direto com essa nova geração.
A geração que o pai de Katya representa era a de sonhadores. Eles deram suas vidas pelo socialismo, acreditando que o mundo seria um lugar melhor. O sonho deles era que seus filhos tivessem a vida que lhes fora negada. Eram idealistas. No entanto, a nova geração trazida pela Perestroika não transmitiu esses sonhos às gerações mais jovens. Ou melhor, trouxe sonhos completamente diferentes. Como o filme mostra, os jovens olhavam para os Estados Unidos e para o que viam em Hollywood. Não havia nada além de querer um carro e ser bonito. Apenas superficialidade pela superficialidade. Ou pelo menos essa é a visão do cineasta, e a história acabou por lhe dar razão.
Em 'O Mensageiro', essa mesma ideia é vista repetidamente, refletida no próprio diálogo. 'Qual é o seu sonho? O que você pretende fazer no futuro?', perguntam ao nosso protagonista. E, no entanto, ele não sabe como responder, porque, na realidade, nem ele mesmo sabe. Essa era do colapso dos antigos sonhos é justamente o tema principal do filme.
Filmes como 'O Mensageiro' (1986) são raros, em grande parte devido ao seu humor peculiar. Filmes soviéticos com dramas semelhantes ou mesmo histórias parecidas são abundantes, mas geralmente adotam um tom pessimista ou dramático. Aqui, no entanto, um humor original é empregado e, embora o filme possa, em última análise, transmitir uma mensagem de desespero, ela é sempre atenuada por um humor que invariavelmente se origina do nosso protagonista. De fato, o personagem principal usa esse humor absurdo e corrosivo como uma espécie de escudo contra suas próprias inseguranças e medos.
Com a Perestroika, a URSS também se abriu para a música ocidental, que permeou todos os aspectos da vida cotidiana. Em 'O Mensageiro', o papel da música é essencial para que possamos perceber as grandes diferenças que surgiram entre as duas gerações. Por um lado, temos a música que era popular na época, a música eletrônica, que o filme utiliza não apenas quando os jovens protagonistas estão presentes, mas também nos interlúdios entre as cenas.
Muitos dos temas principais eram, na verdade, versões criadas especificamente para o filme, baseadas em canções populares da época. Por outro lado, temos música tradicional, que aparece apenas em uma cena: aquela em que o pai pede a Katya que cante uma canção tradicional ('Solobey, o Rouxinol', uma canção clássica composta por Alexander Aliyaviev em 1851), mas ela se recusa. Nenhuma explicação adicional sobre o significado dessa sequência é necessária, pois ela se explica por si só. Além disso, 'O Mensageiro' inclui canções de rock que começavam a surgir naquela época. Entre outros grupos, Akbarium e Zemlyane estão presentes".
Em termos de prêmios, "O Mensageiro" ganhou o Prêmio do Júri Infantil e o Prêmio do Comitê Central da Liga da Juventude Comunista da Geórgia "por uma solução fascinante e espirituosa para o tema complexo da formação da personalidade de um jovem" no 20º Festival de Cinema de Toda a União em Tbilisi. Ele também ganhou o Prêmio Especial do Júri na competição de longas-metragens no 15º Festival Internacional de Cinema de Moscou e foi indicado ao Prêmio Nika de Melhor Trilha Sonora (compositor Eduard Artemyev).
O que disse a crítica 1: Felipe B. Brida do site DVD Magazine gostou. Disse "'O Mensageiro' é, talvez, o melhor dos trabalhos desse diretor, pontual, e de certa forma, atual, pois trata de uma geração de jovens desiludidos no novo mundo em transformação. (...) No trânsito dessas relações, o diretor discute o fim da Era Gorbachev, mostrando uma sociedade à deriva, sem perspectivas, que presenciava o Socialismo ruir, em meio a uma crise política, social e econômica (o filme é de 1986, estamos falando de anos antes da queda do muro de Berlim e da dissociação da URSS). Há um grau de melancolia no trato da história, reforçado pela bonita fotografia escura e de ambientes internos (casas, escritório), do mestre russo Nikolay Nemolyaev, além de uma trilha sonora eletrônica bem modernosa, assinada por Eduard Artemyev (compositor de trilhas de Andrei Tarkovsky, como 'Solaris' e 'Stalker')".
O que disse a crítica 2: Guillermo Sánchez Ferrer do site Cinema Gavia deu 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Uma obra atemporal que deveria ser vista obrigatoriamente por todos os amantes do cinema não convencional. Mesmo como um artefato arqueológico de uma era passada, possui um valor inegável".
O que eu achei: Trata-se de um filme soviético de comédia baseado em um roteiro de Alexander Borodyansky e no conto homônimo do próprio diretor Shakhnazarov. Apesar do filme ser de 1986, a trama gira em torno dos problemas da juventude da era Perestroika. Embora Mikhail Gorbachev tenha assumido o poder na União Soviética em março de 1985 e iniciado as discussões sobre reformas, foi a partir de 1986 que as medidas concretas de reestruturação econômica (Perestroika) e abertura política/transparência (Glasnost) começaram a ser implementadas. Portanto, 1986 é considerado um ano fundamental no início da aplicação prática dessas políticas que duraram até 1991. A trama começa mostrando o divórcio dos Miroshnikov. Seu filho, Ivan, um jovem de 17 anos recém-formado no ensino médio, mora com a mãe. Desinteressado dos estudos ele é reprovado no vestibular, mas consegue um emprego de office-boy em uma editora. No primeiro dia de trabalho ele é enviado para entregar um manuscrito ao Professor Kuznetsov. É na casa do professor que Ivan conhece a filha dele, Katya, e os dois logo travam uma amizade. Porém o rapaz é extremamente ‘sem noção’, algo que irrita o professor ao mesmo tempo que encanta sua filha. Para representar essa abertura ocorrida na época, são mostradas muitas cenas com a juventude soviética consumindo filmes americanos, perfumes franceses, ouvindo bandas não tradicionais e dançando breakdance, que ganhou popularidade no país. Entretanto, apesar de servir como um retrato de época, o filme não é tão agradável de assistir. A proposta de comédia simplesmente não funciona: o humor é irregular, muitas vezes baseado em situações constrangedoras ou no comportamento errático do protagonista, talvez mais compreensível para o público local. Ivan rapidamente passa a soar apenas como irritante, o que compromete o envolvimento com a narrativa. A condução do roteiro também contribui para essa sensação de frustração. Há momentos que parecem prometer um olhar mais crítico ou sensível sobre aquela juventude em transição, mas essas ideias não se desenvolvem plenamente, ficando dispersas. Mesmo o pano de fundo histórico - que poderia enriquecer a experiência - acaba funcionando mais como uma curiosidade do que como um elemento realmente integrado ao longa. Finaliza como um filme que deixa a desejar, uma comédia que não faz rir nem chorar, um retrato geracional que não emociona, resultando em uma experiência bastante morna.

19.4.26

"Black Dog" – Guan Hu (China, 2024)

Sinopse:
Depois de dez anos na prisão, Lang (Eddie Peng) regressa à sua cidade natal no noroeste da China, agora quase abandonada, prestes a dar lugar a um complexo de fábricas. No esforço de limpar a cidade antes dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008, Lang apenas consegue encontrar trabalho na caça aos cães vadios. Um perigoso cão, com uma alta recompensa de captura, morde Lang. Os dois ficam isolados para evitar a propagação do vírus da raiva enquanto se desenvolve uma forte amizade entre eles.
Comentário: Guan Hu (1968) é um cineasta chinês. Filho de uma atriz de teatro e de um ator de cinema. Seu primeiro longa-metragem é “Tou Fa Luan Le” (Dirt, 1994), considerado um dos principais filmes da sexta geração do cinema chinês. Esta geração surgiu nos anos 90 e as suas obras são caracterizadas pela atenção à vida contemporânea e o foco nas comunidades marginalizadas numa China de profundas transformações econômicas e sociais. Os filmes seguintes de Hu são majoritariamente filmes comerciais sobre a história militar chinesa como “Mr. Six” (2015), “The Eight Hundred” (2020) e “The Sacrifice” (2020). “Black Dog” (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
Cici Peng do Financial Times publicou: “Um ex-recluso estabelece uma relação com um cão agressivo no estranho e surreal noir ‘Black Dog’, muito elogiado em Cannes. Guan Hu não é um homem de muitas palavras. ‘Black Dog’, que realizou e venceu o prémio Un Certain Regard em Cannes este ano [2024], é igual. O centro emocional do filme manifesta-se nas interações silenciosas entre um homem e o seu cão e a força destruidora da paisagem do Deserto de Gobi, onde os caninos dominam. ‘O filme é construído a partir do silêncio’, diz Guan, ‘da possibilidade de um canal misterioso de comunicação não linguística entre humanos e cães’.
Entre as dunas ondulantes de areia de carvão, o tempo parece ter parado. Planos gerais capturam humanos e animais a se deslocarem pelo deserto, quais insetos. Deambulam sem rumo por uma cidade-fantasma que parece uma ruína de um outro tempo. Cães aparecem por todo lado, desde o topo das dunas às ruas vazias da cidade, às fissuras de edifícios abandonados. Ao colocar humanos e animais na mesma escala, ‘Black Dog’ examina a ‘animalidade dentro dos humanos’, diz Guan.
‘Desde o começo, decidimos seguir um princípio de ‘não interferência’, um modo observacional. Não queríamos interferir na vida como ela é. A nossa perspectiva é que o fado humano é pequeno e insignificante perante a imensidão da natureza e do Deserto de Gobi’.
Guan vem da ‘Sexta Geração’ de cineastas chineses, ao lado de Jia Zhang-Ke e Wang Xiaoshuai, favoritos dos festivais internacionais. Tendo surgido no início da década de 90, o grupo é caracterizado pelo seu estilo realista distinto e o seu foco nas pessoas nas margens da sociedade chinesa em rápida mutação.
Ao contrário dos seus contemporâneos, Guan é mais difícil de definir: antes de realizar este filme de autor, fez sobretudo cinema comercial que examinava a história militar da China com um tom mais patriótico, incluindo o bem-sucedido drama de guerra ‘The Eight Hundred’ (2020), o filme com maior receita de bilheteira no país nesse ano. Contudo, no início da sua carreira, fez mais filmes independentes, como o seu primeiro longa-metragem ‘Dirt’ (1994), sobre o mundo do rock em Pequim. ‘Agora, com ‘Black Dog’, espero voltar a ouvir o meu ‘eu interior’, voltar àquele espírito que definiu o início da minha carreira’, diz o realizador. ‘Portanto, este filme é muito íntimo nesse sentido’.
Ao crescer com uma mãe atriz de teatro e com um pai ator de cinema, Guan observava tudo; foi um filho dos estúdios de Pequim - ‘Tudo desde cinema de autor europeu aos sucessos nacionais… Sou particularmente influenciado por Stanley Kubrick e Alan Parker. São completamente originais e não pertencem a qualquer gênero’.
De forma semelhante, ‘Black Dog’ escapa à categorização fácil. Estruturado como um híbrido entre noir e western, o filme mostra o solitário e taciturno Lang (Eddie Peng) no seu regresso a casa para confrontar os fantasmas do seu passado. É 2008; Lang cumpriu pena por homicídio involuntário. Lang não é recebido com carinho – é procurado por ‘Butcher’ Hu (Hu Xiaoguang), cujo sobrinho morreu, e o seu pai vive no jardim zoológico degradado.
Em vez de enfrentar uma multidão armada segundo o clássico estilo noir, o inimigo de Lang é um vendedor de veneno de cobra; em vez de uma clássica femme fatale, a relação-chave de Lang é com um galgo [um cão com o corpo esguio, peito profundo e pernas longas, criados originalmente para caça e corridas] agressivo, Xiao Xin. ‘Queríamos escolher um cão estranho - um que não fosse fácil de domar’, diz Guan.
De igual modo, ao escolher Peng para o papel, ‘ele não parecia os personagens suaves e belos que tinha interpretado antes e, por isso, eu estava interessado em mostrar aquela dureza ‘lobal’ dentro dele. O personagem de Lang é sobretudo silencioso, o que é crucial. Quando saem da prisão, muitos ex-reclusos não gostam de falar – é como uma rejeição da sociedade a que regressam’.
No entanto, isto não é um filme sobre a amizade entre homem e cão: ‘Black Dog’ recusa-se a adular a domesticação do animal. ‘Quando Lang encontra o cão, não é um animal de estimação, é um personagem’, diz Guan. ‘Estas pessoas e estes cães estão na margem, solitários, desolados e incapazes de acompanhar a evolução dos tempos. E estas pessoas? Penso que os filmes têm a responsabilidade de se focar nelas’.
De forma a estabelecer a relação entre Peng e Xiao Xin, os dois passaram dois meses no set ensaiando cada cena. ‘Xiao Xin e Eddie eram inseparáveis, até dormiam juntos’, diz Guan. ‘Eventualmente, o Eddie adotou o Xin’.
O filme de Guan, filmado na cidade de Yumen, estrutura-se à volta de uma sensação de ausência – uma sinfonia ‘anti-urbana’, de certa forma. Planos são frequentemente enquadrados dentro de edifícios destruídos ou no exterior das jaulas vazias do jardim zoológico local, que, diz Guan, ‘encontramos assim, de fato. Muitos edifícios foram completamente abandonados. Estas cidades no Noroeste já foram muito prósperas, mas começaram a decair quando os seus recursos foram gastos. É possível ver estas instalações bem construídas como hospitais e restaurantes – mas não há pessoas no seu interior. Os edifícios contam uma história da sociedade chinesa contemporânea’.
A câmara passa frequentemente por um mural dedicado aos próximos Jogos Olímpicos, já a desvanecer-se. ‘Quis situar o filme em 2008 porque é um dos anos mais importantes para a China. É o ano do nosso maior orgulho, mas também do maior sofrimento. Há pessoas cujas vidas foram esquecidas que nunca veremos’.
Apesar do tema, o filme evita um realismo austero; o realizador opta, em vez disso, por aquilo que descreve como um ‘naturalismo surreal’. ‘Para fazer este filme, precisávamos de um sistema metafórico’, diz o realizador. ‘Debaixo desta história, tem de haver elementos de fantasia e transcendência’.
Tal como os cães, o filme é povoado por dezenas de cobras, um tigre no jardim zoológico e um lobo avistado no horizonte, o que ‘joga com o mútuo isolamento e alienação do mundo’.
Enquanto falamos, Liang Jing, a esposa de Guan e produtora, aparece na chamada: ‘Há sempre animais nos filmes de Guan Hu. Houve uma vaca, um peixe-balão e um cavalo. Cães são relativamente mais fáceis de dirigir’.
O realizador não tem dificuldades com a falta de controle quando filma animais? Guan encolhe os ombros. ‘Se não conseguimos o plano, continuamos tentando. O primeiro encontro entre Lang e Xiao Xin tinha de acontecer num plano-sequência. Filmamos este plano durante 20 dias. Ainda assim, foi uma rodagem particularmente prazerosa. Parecia que os deuses estavam nos ajudando. Houve até uma tempestade de areia que virou um carro. Mas continuamos a filmar’.
Apesar da fragilidade do homem e do cão ao longo do filme, é uma demonstração da habilidade de Guan que mesmo esta pequenez pode conter um poder imenso. No plano final, a câmara demora-se num close-up do rosto de Peng; a sua presença ‘é sobre esta duplicidade – tanto da sua insignificância no deserto’, diz Guan, ‘mas também sobre como ele é o nosso universo fílmico total’”.
O que disse a crítica 1: Phil Hoad do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Talvez, em um nível pessoal, o novo e irascível amigo de Lang represente algum traço selvagem interior que ele precisa reprimir, enquanto os cães soltos representam os despossuídos do avanço econômico da China. Este último aspecto é capturado em composições épicas e sombrias de cães percorrendo praças, e os habitantes desolados filmados in situ contra seu cenário decadente, evitando-se, em grande parte, closes até que sejam absolutamente necessários. Esse rigor se dissipa um pouco em uma trama sobre um circo itinerante, bem como em um romance especulativo, que soa um tanto como um filme independente básico. Mas a esplêndida desolação da visão da China torna os momentos reconfortantes do filme ainda mais vitais”.
O que disse a crítica 2: Matilde Garrido do site Fio Condutor avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Há filmes que não procuram deslumbrar pela grandiosidade, mas antes pela contenção obstinada. ‘Black Dog’ de Guan Hu, é um desses gestos raros: uma narrativa seca, quase brutal, na qual a redenção não se grita, antes se adivinha nos silêncios e nos gestos suspensos. Regressando a uma escala intimista, depois de incursões em épicos históricos, Hu descobre no deserto uma metáfora árida para uma China em mutação e, na ligação entre um homem e um cão, uma inesperada afirmação de humanidade. (...) ‘Black Dog’ é um filme de fronteiras - entre géneros, entre tempos, entre vidas esvaziadas - que se impõe não por excesso, mas por um rigor emocional raro no cinema contemporâneo”.
O que eu achei: "Black Dog" (2024) é um filme que poderia facilmente cair naquele clichê já esperado de ‘filmes de cachorro’, mas o longa se salva dessa cilada. Ambientado no Deserto de Gobi, noroeste da China, no ano de 2008, às vésperas das Olimpíadas de Pequim, ele mostra o país em transformação retratando uma cidade que está sendo demolida para dar lugar à instalação de um complexo de fábricas. Os moradores aos poucos estão abandonando o local, enquanto cachorros são deixados para trás e se juntam aos de rua formando uma matilha talvez maior que o atual número de habitantes. O filme começa com o personagem Lang (interpretado por Eddie Peng) regressando à essa cidade após passar 10 anos preso por homicídio culposo. Seu pai, alcoólatra, resolveu ir morar dentro do zoológico da cidade, igualmente abandonado, assumindo a tarefa de alimentar os animais encarcerados. No esforço de limpar a cidade antes dos Jogos Olímpicos começarem, Lang apenas consegue encontrar trabalho na caça aos cães vadios e será nessa empreitada que ele irá conhecer um cão preto com raiva, da raça galgo, com quem estabelecerá uma forte relação de amizade. A fotografia do deserto e da cidade em demolição é um verdadeiro deslumbre. Lembra Polaroides com seus tons pálidos azul-esverdeados. O responsável - Gao Weizhe – contou em entrevistas que para obter esse efeito ele usou lentes anamórficas Cooke 2x/i S35, todas de distância focal única. A beleza natural do local obviamente contribuiu muito, mas Weizhe declara ter feito a captura das imagens influenciado pela estética de fotógrafos americanos como Robert Adams e Stephen Shore, representantes da "Nova Topografia", que valoriza a sensação de calma e neutralidade, ao mesmo tempo em que esconde uma imensa energia sob a superfície. Outro elemento surpreendente no longa é a trilha sonora composta por músicas do Pink Floyd - isso mesmo, Pink Floyd num filme chinês. Quem é fã da banda vai se deliciar ao ouvir clássicos como "Hey You" além de uma versão instrumental de "Mother", ambas do álbum The Wall. Ao mesmo tempo grandioso e íntimo, o filme finaliza como uma história potente sobre reintegração, solidão e resiliência humana, enquanto faz uma crítica sociopolítica ousada e uma exploração íntima das lutas pessoais na China dos anos 2000. Excelente.

18.4.26

"O Imaginário" - Yoshiyuki Momose (Japão, 2023)

Sinopse:
 
Rudger, um menino imaginário nascido da cabeça da pequena Amanda, embarca em uma aventura quando descobre o mundo dos amigos imaginários que foram esquecidos pelos humanos.
Comentário: Trata-se de um anime adaptado do livro "The Imaginary" (O Imaginário), escrito pelo autor britânico A. F. Harrold. O roteiro adaptado foi escrito por Yoshiaki Nishimura. Os desenhos foram feitos a mão.
Rafael Motamayor do site Slash Film publicou: "Animação e terror formam uma combinação peculiar e complexa. Embora o Ocidente já tenha visto filmes de animação infantil descambarem para o terror puro diversas vezes, com animes a situação é ainda mais complicada, onde, na maioria das vezes, o terror se resume a uma quantidade enorme de sangue ou horror corporal. Mesmo assim, quando a atmosfera de terror não funciona em um filme de animação, é provável que ele ainda apresente um monstro ou vilão aterrorizante. Isso se confirma desde os primórdios da animação nos Estados Unidos, quando 'Branca de Neve' assombrou inúmeras crianças com a Rainha Má.
Essa tradição praticamente desapareceu, já que desenhos animados inspirados no terror estão se tornando cada vez mais raros a cada ano. Isso só torna os filmes que ainda resgatam o poder do terror em um contexto voltado para o público infantil ainda mais impactantes. É o caso de 'O Imaginário', o novo filme do Studio Ponoc, que nossa própria BJ Colangelo descreveu em sua crítica como 'uma façanha de animação de tirar o fôlego, com uma história poderosa que o torna um clássico geracional em potencial'.
No filme, um amigo imaginário chamado Rudger é perseguido por um monstro, que se parece com um velho sinistro de camisa havaiana chamado Sr. Bunting. Porém, por baixo dessa aparência, ele é um dos monstros mais assustadores da história recente do cinema para todas as idades. Como o roteirista e produtor Yoshiaki Nishimura contou ao Slash Film no Festival de Cinema de Animação de Annecy, havia planos para muito mais do Sr. Bunting do que vemos no filme. 'Existe uma saga sobre a história de fundo', disse Nishimura por meio de um tradutor. 'Infelizmente, não temos tempo suficiente para entrar em detalhes [no filme], levaria muito tempo'.
No mundo de 'O Imaginário', o Sr. Bunting é uma espécie de bicho-papão para amigos imaginários, um mito sobre um monstro que literalmente devora amigos imaginários porque não tem mais imaginação própria. Ele é uma espécie de cruzamento entre a garça titular de 'O Menino e a Garça', de Miyazaki, e Pennywise, o Palhaço, de 'It', de Stephen King, o que significa que, quando se aproxima, revela uma segunda forma muito mais assustadora e ameaçadora. Quando o Sr. Bunting ataca e tenta matar Rudger, ele abre a boca mais do que qualquer ser vivo deveria ser capaz, sua garganta se expandindo ao infinito enquanto os gritos dos amigos imaginários podem ser ouvidos em seu interior.
Embora ele funcione perfeitamente como um vilão com uma história de fundo bastante vaga, é fascinante ver o quanto Nishimura se dedicou à história de Bunting independentemente do romance original de A.F. Harrold e ilustrado por Emily Gravett, especialmente porque essa parte acabou não sendo vista. 'Ele é alguém que viveu por muito tempo, cerca de 300 anos, e acho que ele representa aqueles que sofreram grandes perdas ao longo do tempo', disse o escritor.
Segundo Nishimura, Bunting foi 'roubado de algo que realmente era valorizado pelos pais', e isso explica em parte quem ele se tornou no filme. Ele representa o pior cenário possível para uma criança com imaginação fértil e simboliza o que aconteceria se Amanda nunca perdesse Rudger, se ela se apegasse ao amigo imaginário dele e não o deixasse ir. De fato, no filme, descobrimos que Bunting quer continuar vendo seu amigo imaginário e, para isso, consome outros amigos imaginários, assim como Pennywise faz com crianças.
Se o Sr. Bunting já não fosse assustador o suficiente, ele está sempre acompanhado de sua amiga imaginária, uma garota que 'cheira a podridão e é fria como um picolé', que por acaso se parece muito com Sadako de 'Ringu'. O design da personagem é baseado na ilustração original do livro, que Nishimura admite 'se parecia muito com personagens de terror japoneses como Sadako', com o diretor Yoshiyuki Momose inicialmente desenhando a garota com 'um ar mais severo, um olhar realmente frio e assustador'. De fato, se Bunting é o Lorde das Trevas que ataca no último segundo, então sua amiga imaginária é uma Nazgûl que persegue suas presas e as prepara para serem devoradas. Para piorar a situação, ela pode mudar de forma e se transformar em monstros gigantes e criaturas voadoras aterrorizantes.
Ao falar sobre a adição de elementos de terror em 'O Imaginário', Nishimura disse que 'também é necessário entender que este é o mundo real e eu não queria mimar as crianças para protegê-las, para que vivessem numa bolha sem realmente encarar o medo'. Essa é a chave de 'O Imaginário', um filme que trata do poder da imaginação e do encantamento, mas que não se furta a mostrar que, muitas vezes, a imaginação é um mecanismo de defesa para escapar dos horrores da realidade. E, na verdade, quando o Sr. Bunting e sua capanga Sadako fazem parte da sua realidade, faça tudo o que puder para fugir para bem longe".
O que disse a crítica 1: Siddhant Adlakha do site The Daily Beast não gostou. Disse: "Justo quando se aproxima de momentos comoventes, o filme se desvia para muitas direções confusas e repletas de tramas, o que impede que ele alcance um desfecho emocional satisfatório".
O que disse a crítica 2: Tom Spoors do site Loud and Clear avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "'O Imaginário' é um título muito apropriado, já que a quantidade de ideias imaginativas exibidas a cada segundo é impressionante. Embora haja momentos que inevitavelmente parecem uma pálida imitação de algumas das melhores obras do estúdio Ghibli, há material original e empolgante o suficiente para que eu ainda recomende 'O Imaginário' de todo o coração para qualquer pessoa que queira se emocionar. Ele evoca as melhores partes de brincar com o amigo imaginário da infância, ao mesmo tempo que consegue rechear sua narrativa com lições profundas e reflexões maduras".
O que eu achei: Em “O Imaginário” (2023), Yoshiyuki Momose - fundador do Studio Ponoc - demonstra com clareza a herança artística que carrega após anos trabalhando no Studio Ghibli e colaborando diretamente com Hayao Miyazaki, revelando uma forte ligação com essa tradição estética e narrativa. Isso se percebe tanto no cuidado visual quanto na forma como o fantástico se entrelaça ao cotidiano. Baseado no livro “The Imaginary”, de A. F. Harrold, o filme parte de uma ideia instigante: investigar o destino dos amigos imaginários quando eles deixam de ser necessários e as crianças os abandonam. A partir daí, o longa se desenrola numa narrativa rica, que transita entre aventura e reflexão, explorando temas como solidão, perda, luto e o papel da imaginação na infância. Visualmente é um espetáculo. Os desenhos feitos à mão são lindíssimos, com atenção minuciosa aos detalhes e uma fluidez que reforça o caráter onírico da história. Há claras similaridades com obras como o alucinante “A Viagem de Chihiro”, especialmente na integração entre o mundo real e o imaginário, no olhar sensível sobre a infância e no ritmo contemplativo que valoriza pequenos gestos e silêncios. Por outro lado, o roteiro complexo e a duração de cerca de 1h45 podem dificultar o engajamento de crianças pequenas, que talvez não acompanhem plenamente a proposta. Mesmo para pré-adolescentes, há uma exigência de atenção absoluta, pois a condução narrativa por vezes soa um pouco confusa, com passagens que poderiam ser mais claras. Outro ponto que vale destacar é a coragem que o longa tem em explorar temas sombrios. Desde uma cobra estrangulando uma menina até o desaparecimento de um importante personagem secundário, o filme utiliza imagens relativamente fortes para uma animação voltada para a família, retratando a crueldade do mundo e o quão sombrio nosso imaginário pode se tornar. Ainda assim, vale assistir pois ele se sustenta pela força de sua ideia central e pela beleza de sua execução.

13.4.26

"O Rei da Comédia" - Martin Scorsese (EUA, 1982)

Sinopse:
Jerry Langford (Jerry Lewis) é um consagrado apresentador de TV. Um dia, ao se encaminhar para o trabalho, ele é sequestrado pelo aspirante a comediante Rupert Pumpkin (Robert De Niro) e sua amiga Masha (Sandra Bernhard). Para escapar da situação, Jerry concede a Rupert espaço em seu programa de TV, de forma que ele possa apresentar seu número.
Comentário: Martin Scorsese (1942) é um diretor de cinema norte-americano. Dentre os vários filmes que já assisti deles estão a obra-prima "Os Bons Companheiros" (1990) e os excelentes “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980), “Cabo do Medo” (1991), “Gangues de Nova York” (2002), "Os Infiltrados" (2006), "Ilha do Medo" (2009) e “Assassinos da Lua das Flores” (2023). Vi também três documentários: "No Direction Home: Bob Dylan" (2005), "Rolling Stones - Shine a Light" (2007) e "Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese" (2019). Desta vez vou conferir "O Rei da Comédia" (1982).
Luiz Eduardo Luz do site Canto dos Clássicos nos conta que: "Quando realizou 'O Rei da Comédia' (The King Of Comedy, 1983), o lendário cineasta Martin Scorsese já havia passado por muita coisa em sua vida pessoal e profissional. Em pouco mais de uma década, consolidou-se como um dos expoentes da Nova Hollywood e uma das vozes mais fortes na mudança de paradigma que ocorreu na indústria no início dos anos 70, principalmente no que se refere ao tratamento de temas como violência e sexo, anteriormente tratados como tabus.
Depois de dirigir o aclamado 'Taxi Driver' em 1976, o jovem nova-iorquino, nascido e criado em uma fervorosa família de imigrantes italianos católicos, acabou sucumbindo ao alcoolismo. Durante os anos seguintes, mesmo continuando a produzir, ameaçou parar de trabalhar várias vezes. Em 1980, seu grande amigo Robert De Niro levou o projeto de 'Touro Indomável' (1980) para sua análise. Scorsese concordou em dirigir o filme, e, por muitas vezes, disse que seria seu último. O sucesso do filme levou o artista a largar a bebida e voltar de vez ao mundo do cinema.
Dois anos depois, a dupla se reuniria outra vez em 'O Rei da Comédia'. O filme mostra um Scorsese especialmente tranquilo e descompromissado, em uma divertida e provocante análise sobre o mundo do show business – e seu lado obscuro. De Niro interpreta Rupert Pupkin, um comediante fracassado e totalmente obcecado por seu ídolo, Jerry Langford, interpretado pelo icônico gênio da comédia Jerry Lewis. Pupkin imita Langford no modo de vestir, no jeito de andar e até no estilo que em faz suas piadas. Numa noite, Pupkin dá um jeito de entrar na limusine do astro para lhe pedir ajuda com a carreira.
Depois desse acontecimento, Scorsese estabelece um jogo narrativo com o espectador. Alternando sequências em que Pupkin é apadrinhado e ajudado por Langford com outras em que o jovem é constantemente ignorado e evitado pelo ídolo, o diretor nunca nos dá certeza do que é real e do que é sonho, do que é o que realmente está acontecendo ou do que é sonhado pelo problemático Pupkin. Depois da alternância entre os dois tipos de narrativa, Scorsese, sabendo que tem o espectador na mão, dá-se o direito de brincar com a expectativa criada para as próximas cenas. Quando esperamos uma cena da realidade, vem uma ilusória, e vice versa.
No decorrer do filme, a obsessão de Pupkin pela fama vai se tornando cada vez mais perigosa. A cada nova rejeição de Langford, o protagonista fica mais empenhado em fazer sucesso como comediante. A resiliência de Rupert culmina com o sequestro de Jerry, parte de um elaborado plano que busca colocar Pupkin no topo da comédia nacional.
'O Rei da Comédia' não é o que normalmente vemos da dupla Scorsese/De Niro. Não na superfície, pelo menos, pois a comédia de humor negro traz, no fundo, muitos dos temas recorrentes tratados na filmografia do mestre. Ambição, poder e notoriedade são algumas das temáticas mais importantes de 'O Rei da Comédia', e também podem ser encontrados em inúmeros clássicos do diretor, como 'Os Bons Companheiros' (1990), 'Cassino' (1995) e 'O Lobo de Wall Street' (2013), por exemplo".
O que disse a crítica 1: Roger Ebert em seu site avaliou com o equivalente a 3,75, ou seja, ficou entre o muito bom e o ótimo. Escreveu: "'O Rei da Comédia' não é, como você já deve ter adivinhado, um filme divertido. Também não é um filme ruim. É frustrante de assistir, desagradável de lembrar e, à sua maneira, bastante eficaz".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Em mãos menos hábeis, 'O Rei da Comédia' poderia ter virado uma comédia de humor negro, sempre procurando o riso fácil através do incomum. Aqui isto não acontece. Há algumas risadas, é claro, mas é só. E mesmo assim elas vêm durante os 'delírios' de Pupkin, sempre exageradamente narcisistas. Scorsese não quer fazer rir. Ele procura a reflexão".
O que eu achei: Dirigido por Martin Scorsese, o filme é uma sátira afiada e desconcertante sobre o desejo de fama e as ilusões do show business, temas que, décadas depois, permanecem assustadoramente atuais. A trama acompanha Rupert Pupkin, interpretado pelo sempre excelente Robert De Niro, um aspirante a comediante que vive à margem do sucesso, alimentando fantasias de reconhecimento e prestígio. Convencido de seu talento, ele acredita que só precisa de uma chance para conquistar o público, ainda que essa ‘chance’ precise ser obtida a qualquer custo. O alvo de sua obsessão é um famoso apresentador de talk show vivido por Jerry Lewis, em um raro e surpreendente papel dramático. Lewis entrega uma atuação contida e melancólica, funcionando como contraponto perfeito à energia inquietante de De Niro. Scorsese conduz a narrativa com precisão, equilibrando humor e desconforto. O riso aqui é sempre ambíguo: ao mesmo tempo em que algumas situações são genuinamente engraçadas, há um incômodo crescente ao perceber o abismo entre a percepção de Rupert e a realidade. O filme expõe, com ironia cruel, a linha tênue entre ambição e delírio, talento e compulsão. Além de criticar o mundo do entretenimento, “O Rei da Comédia” é um estudo perturbador sobre a necessidade de validação e os perigos de confundir notoriedade com realização pessoal. Sem excessos, sem falhas aparentes e com atuações impecáveis, o filme me pareceu um dos trabalhos mais refinados e inquietantes da filmografia de Scorsese. Uma obra que, de tão precisa, beira a perfeição. Atenção à rápida aparição de membros da banda The Clash na cena em que os personagens Rupert Pupkin (Robert De Niro) e Masha (Sandra Bernhard) discutem na rua. É possível ver Joe Strummer, Mick Jones e Paul Simonon, junto com seu empresário Kosmo Vinyl.

12.4.26

"Filhos" - Gustav Möller (Dinamarca/Suécia/França, 2024)

Sinopse:
Eva Hansen (Sidse Babett Knudsen) é uma guarda prisional com altos ideais, mas sua vida vira de cabeça para baixo quando o assassino de seu filho (Sebastian Bull Sarning) chega à prisão onde trabalha. Ela pede secretamente para ser transferida para a ala dele, a mais brutal e perigosa.
Comentário: Gustav Möller (1988) é um cineasta sueco. Ele estudou na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca onde desenvolveu o curta "In Darkness" (2015). Seu primeiro longa-metragem, "Culpa" (2018), estreou no Festival de Sundance, onde ganhou o Prêmio do Público. Em colaboração com o roteirista Oskar Söderlund, cocriou a série "Coração Sombrio" (2022). Assisti dele o ótimo "Culpa" (2018). Desta vez vou conferir "Filhos" (2024).
Peter Debruge da Variety nos conta que "Os cinéfilos podem reconhecer o nome Gustav Möller, pois seu primeiro longa-metragem, 'Culpa' (2018), foi exibido no Festival de Sundance e inspirou um remake em inglês estrelado por Jake Gyllenhaal. O filme se passa em uma das extremidades de uma linha de emergência, onde um policial sobrecarregado tenta resgatar uma pessoa em apuros cuja crise não é tão simples quanto parece. Um exemplo impressionante de criatividade dentro de limitações, 'Culpa' convida o público a criar um filme de ação em suas mentes, oferecendo-lhes pouco mais do que o rosto tenso de um único personagem para observar durante a maior parte da duração.
Com 'Filhos' (2024), Möller fez um filme mais convencional, mas ainda assim a maior parte da narrativa se desenrola fora das telas. Sua protagonista é uma agente penitenciária dinamarquesa chamada Eva Hansen (Sidse Babett Knudsen, estrela da série de TV 'Borgen'). Ela tem metade do tamanho da maioria dos presos homens de sua ala, mas obviamente sabe se defender, estufando os ombros e elevando a voz quando necessário, caso os homens se comportem mal.
Nas cenas iniciais do filme, antes do desenrolar da trama, Möller mostra Eva se esforçando ao máximo por seus protegidos - não para compensar o fato de ser mulher em uma prisão masculina, mas porque se importa. Ela demonstra um instinto quase maternal ao tentar educar e controlar a raiva dos detentos, o que faz sentido mais tarde, quando descobrimos que seu filho de 19 anos morreu atrás das grades. É o tipo de ironia que cria personagens memoráveis ​​no cinema: Eva sente que falhou na criação de Simon (cuja história pregressa fica totalmente a cargo da imaginação do público) e agora retribui a atenção que deveria ter lhe dado, na esperança de que isso possa salvar o filho de outra mãe.
Mas 'Filhos' não é uma história piedosa sobre uma guarda prisional inspiradora. Se Eva parece mais compassiva do que se poderia esperar de seu cargo, saiba que sua caridade tem limites. Logo nos primeiros minutos do filme, um novo grupo de detentos chega, e Eva se enrijece ao ver um rosto familiar entre eles: alto e coberto de tatuagens, com o olhar raivoso e vazio de alguém que desistiu do mundo antes mesmo de experimentá-lo, Mikkel Iversen (Sebastian Bull) é o homem que assassinou seu filho. A partir do momento em que Eva o reconhece, ela começa a se comportar de maneira diferente, e pelo resto do filme, nossa tarefa é adivinhar o que ela está pensando.
Eva dirige-se diretamente à sala do diretor para explicar este conflito de interesses imprevisto. Mas, em vez de se demitir, pede transferência para o Centro Zero, para onde Mikkel está sendo enviado por ter matado outro detento - a ala de alta segurança onde ficam os presos mais perigosos. Impressionado com a determinação da mulher, o comandante rigoroso do Centro Zero, Rami (Dar Salim), tenta prepará-la para o trabalho entre os incorrigíveis. Ele quer proteger Eva, mesmo que ela talvez não seja quem precise de proteção ali.
A verdadeira questão - aquela que Möller quer que fique martelando em nossas cabeças - é se Eva busca vingança ou redenção para esse assassino recém-chegado. Há câmeras de segurança por toda a prisão, o que dificulta que ela tente algo muito ousado. Mas se ela quiser tornar a vida de Mikkel miserável, há muitas maneiras de fazer isso, desde cuspir em sua comida até negar-lhe o direito de usar o banheiro. E se ele reagir às suas provocações, Eva pode colocá-lo em confinamento solitário ou até mesmo cancelar suas visitas - o que ela tenta fazer depois de ver a mãe de Mikkel (Marina Bouras) em uma lista de visitantes futuros.
Embora o filme se chame 'Filhos', são essas duas mães que oferecem o paralelo mais rico, pois ambas vivenciaram o fracasso e a frustração de ver os filhos que criaram se desviarem do caminho certo - mas, é claro, Mikkel privou Eva da chance de confortar ou reformar o próprio filho. (...)
Filmado na extinta prisão de Vridsløselille, em Copenhague, o diretor de fotografia Jasper J. Spanning observa Eva e os prisioneiros como uma equipe de documentarista, acompanhando-os no trabalho e observando quando ninguém mais está por perto. Isso confere ao filme uma sensação de intimidade quase secreta dentro de um espaço estéril e opressivo".
O que disse a crítica 1: Marcio Sallem do site Cinema com Crítica avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "O elenco valoriza o trabalho de direção e mitiga o roteiro fraquíssimo (...). A história não redime Mikkel, nem o humaniza expressivamente, embora evidencie que até criminosos iguais a este têm direito a ser tratados com o mínimo de humanidade. Além da dupla central, Dar Salim está muito bem no papel do chefe de ala. É um ator iraquiano que me agradou quando tive a oportunidade de conhecê-lo em 'O Pacto', de Guy Ritchie, e que chama a atenção pela maneira com que exerce a sua liderança e, depois, com que demonstra lealdade a Eva. Uma lealdade que a protagonista não demonstra em relação a seus valores, em um drama prisional e revanchista eficaz, mas que mereceria um roteiro melhor, um roteiro que não deboche da nossa inteligência".
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Filhos' atinge sua melhor metáfora quando explora o título, ou seja, as relações maternas destes homens encarcerados. Por mais hediondos que tenham sido os seus passados, eles ainda serão os filhos de alguma mãe. O espelhamento entre Eva e Helle (Marina Bouras), mãe de Mikkel, proporciona um excelente embate humano, além de mais um motivo para o espectador temer pelo destino de todos os envolvidos. Como reagem as mães de filhos infratores? Sentem culpa? Defendem-no, ou esperam que sejam punidos? Com apenas duas mulheres em cena, o texto traz uma variedade impressionante de estados psíquicos a este respeito".
O que eu achei: Conheci o cinema do diretor sueco Gustav Möller em 2019 ao assistir o excelente filme “Culpa” (2018) que se passa inteiro dentro de uma delegacia de polícia. Nesse longa anterior, confinado à uma mesa de emergências, um policial, encarregado de receber ligações e transmitir às delegacias responsáveis, é surpreendido pela chamada de uma mulher desesperada, tentando comunicar o seu sequestro sem chamar a atenção do sequestrador. A estratégia usada pelo diretor na ocasião foi deixar a câmera aprisionada à delegacia com toda a ação ocorrendo na imaginação do espectador que vai acompanhando os telefonemas que o policial recebe. E mesmo assim tudo é muito emocionante e agitado, com direito a reviravoltas e tudo mais. Desta vez a proposta não é tão radical. “Filhos” (2024) tem uma pegada mais convencional, mas não menos interessante. Conta a história de Eva (Sidse Babett Knudsen), uma policial que trabalha dentro do sistema prisional. Seu filho, já falecido, também cometeu erros e foi preso, mas foi assassinado dentro da prisão por um outro detento. Com isso Eva tem um olhar de mãe para com aqueles rapazes. Ocorre que, um belo dia, chega a essa prisão um assassino chamado Mikkel Iversen (Sebastian Bull) que ela logo reconhece o nome: é o assassino de seu filho. Pretendendo vingança ela pede transferência para a ala de alta periculosidade onde ele será instalado. Daí pra frente o que vamos observar é esse embate entre o profissionalismo de Eva e o desejo de retaliação. Conforme o filme caminha o roteiro aproveita para explorar, com competência, as diversas camadas de sentimentos pelos quais Eva vai passar: de mãe amorosa para os presos a carrasca, especialmente com relação a esse monstro que a privou de conviver com seu filho e a quem ela poderia ajudar a ser uma pessoa melhor. Ao mesmo tempo, ela confessa ao padre o sentimento de culpa pelo alívio que sentiu quando o filho foi preso, já que ela, na verdade, nunca deu conta dele. Ao mesmo tempo, ela sente inveja da mãe de Mikkel que pode visitá-lo, mas essa mulher que deveria estar feliz também não dá conta desse filho que, ao que tudo indica, nunca será salvo. São diversas emoções conflitantes se passando no coração dessas mães. É, mais uma vez, Möller explorando pequenos detalhes para criar uma obra opressiva, repleta de tensão atmosférica e psicológica, munido de poucos elementos, resultando numa reflexão ética sobre justiça, punição e o papel de uma mãe na cura de feridas profundas. Não supera “Culpa”, mas ainda assim, é um excelente filme que sabe explorar perfeitamente a dor e os dilemas morais. Gostei muito.

6.4.26

"Homebound" - Neeraj Ghaywan (Índia, 2025)

Sinopse:
Dois amigos de infância - Chandan (Vishal Jethwa) e Shoaib (Ishaan Khatter) - buscam um cargo na polícia que lhes promete a dignidade que lhes foi negada por muito tempo. No entanto, à medida que se aproximam do sonho, o desespero crescente ameaça o laço que os mantém unidos.
Comentário: Neeraj Ghaywan (1980) é um diretor e roteirista de cinema indiano que trabalha em filmes de Bollywood. A palavra Bollywood vem da junção das palavras Bombaim (antigo nome de Mumbai) e Hollywood e se refere à indústria cinematográfica indiana não como um todo, mas à indústria que produz filmes em língua hindi. Ghaywan construiu um trabalho no cinema e em séries para streaming, frequentemente centrando suas narrativas em questões de casta, classe, gênero e identidade. Dirigiu curtas-metragens como “Noise” (2011), “The Epiphany” (2013) e “Juice” (2017) e o longa “Crematório” (2015), vencedor do prêmio da crítica na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes. “Homebound” é seu segundo longa e o primeiro filme que vejo dele.
Isadora Wandermurem da Time nos conta que o filme "é inspirado em um ensaio de 2020 do The New York Times escrito pelo jornalista e editor colaborador da Time, Basharat Peer, que capturou um momento marcante durante o lockdown da COVID-19 na Índia. O artigo narra a história de dois amigos de infância, Mohammad Saiyub e Amrit Kumar, cuja jornada de volta para a vila de Devari se tornou viral depois que uma fotografia capturou um amigo segurando o outro, febril e desidratado, à beira de uma estrada.
Estrelado por Ishaan Khatter, Vishal Jethwa e Janhvi Kapoor, 'Homebound' acompanha Shoaib (Ishaan Khatter) e Chandan (Vishal Jethwa) em sua busca por um emprego na polícia que promete dignidade, apenas para se depararem com a brutal realidade sociopolítica da Índia durante o lockdown de 2020. Shoaib, um muçulmano, é inspirado em Mohammad Saiyub, enquanto Chandan, um dalit, é baseado em Amrit Kumar. Em um país com crescente islamofobia e onde a discriminação de castas é oficialmente proibida, mas o estigma persiste, a amizade entre os dois destaca a interseção de divisões sociais, lealdade e resiliência".
Na história real "Mohammad Saiyub, um muçulmano de 22 anos, e Amrit Kumar, um dalit de 24 anos, cresceram juntos na pequena vila de Devari, em Basti, Uttar Pradesh, enfrentando divisões sociais e religiosas profundamente enraizadas. Apesar dessas barreiras sociais, os dois formaram uma forte amizade desde a infância.
Quando jovens adultos, mudaram-se para Surat, na costa oeste da Índia, para trabalhar em fábricas locais, dividindo um quarto alugado enquanto mantinham empregos separados. O objetivo era juntar dinheiro para sustentar suas famílias em Devari, na Índia. Mas, com a chegada da COVID-19 e o lockdown nacional imposto pelo governo em 2020, as fábricas fecharam e os empregos desapareceram, deixando os amigos com economias cada vez menores e sem perspectivas claras de como voltar para casa.
Tentando voltar para casa, Saiyub e Kumar inicialmente tentaram conseguir lugares em trens especiais administrados pelo governo para trabalhadores migrantes, mas depois de semanas sem sucesso, recorreram a um caminhão que transportava trabalhadores para o norte, em direção a Uttar Pradesh. Eles combinaram de pagar ao motorista 4.000 rúpias indianas cada um - aproximadamente US$ 53 na época e cerca de US$ 45 hoje.
A dupla caminhou cerca de 24 quilômetros ao lado de outros 60 trabalhadores para chegar a um local isolado na rodovia, onde o caminhão os aguardava. Uma vez a bordo, eles suportaram a longa e desconfortável viagem em um espaço apertado, semelhante a uma sacada, acima da cabine do motorista.
No dia seguinte, Kumar apresentou febre alta e começou a tremer. Os outros passageiros, temendo uma infecção por COVID-19, insistiram para que ele saísse do caminhão. Saiyub se recusou a abandonar o amigo e o ajudou a descer sob o calor do meio-dia. Eles esperaram em uma pequena clareira à beira da estrada, onde um político local chegou para fornecer comida e água. Saiyub permaneceu ao lado de Kumar, tentando refrescá-lo e mantê-lo consciente enquanto seu estado piorava.
Uma ambulância os transportou para um hospital local em Kolaras. Naquele momento, eles ainda estavam a mais de 500 quilômetros de sua aldeia em Devari. Os médicos suspeitaram inicialmente de insolação e hipoglicemia e iniciaram a terapia de reidratação oral para estabilizá-lo. Como o estado de Kumar piorou, ele foi transferido para um hospital melhor equipado em Shivpuri, onde foi internado na unidade de terapia intensiva com desidratação grave. Saiyub foi colocado em uma ala de quarentena enquanto aguardava o resultado do teste de COVID-19, permanecendo ansiosamente ciente da condição crítica de seu amigo e preocupado com o impacto na família de Kumar.
Em 15 de maio de 2020, uma fotografia - tirada antes da chegada da ambulância - capturou um momento comovente em uma rodovia no centro da Índia: Mohammad Saiyub embalando seu amigo Amrit Kumar no colo, febril, desidratado e quase inconsciente. Ao lado deles, uma garrafa de água pela metade e uma sacola vermelha, enquanto o sol castigava a clareira.
A imagem se espalhou rapidamente pelas redes sociais indianas, tornando-se um poderoso símbolo de amizade inabalável, vulnerabilidade humana e o impacto invisível do lockdown da COVID-19 sobre os trabalhadores migrantes. Ela imortalizou não apenas um momento trágico, mas a luta mais ampla de inúmeros trabalhadores que enfrentam jornadas exaustivas para voltar para casa em meio à pandemia.
Em 16 de maio de 2020, uma enfermeira confirmou o pior medo de Saiyub: Amrit havia falecido devido à desidratação severa. Ambos os amigos testaram negativo para COVID-19, demonstrando que as circunstâncias fatais se deviam às duras condições da viagem, e não ao vírus. Saiyub então enfrentou o desafio de trazer o corpo de Amrit para casa em meio às rígidas regras de confinamento. Inicialmente, as autoridades governamentais impediram o pai de Amrit de viajar, e Saiyub teve que lidar com a burocracia, rezando por um resultado negativo para COVID para que pudesse levar seu amigo de volta para Devari em segurança.
Após receber a confirmação de que ambos os testes deram negativo, Saiyub transportou o corpo de Amrit para a aldeia. Ele foi enterrado no cemitério Dalit local, sob um simples monte de terra.
A morte de Amrit deixou um impacto duradouro em sua família, que dependia de sua renda e apoio. Suas modestas contribuições, incluindo uma pequena casa de tijolos, ressaltaram seu papel na sustentação de suas vidas. Saiyub retornou a Devari com seus pais, enfrentando incertezas econômicas enquanto lamentava a perda de seu amigo de longa data. O ensaio de Peer enquadrou a história deles no contexto mais amplo das lutas dos trabalhadores migrantes da Índia, destacando as vulnerabilidades de casta, classe e sociais reveladas durante a pandemia".
Apesar de "Homebound" se inspirar no ensaio publicado pelo jornalista caxemiri Basharat Peer, os eventos descritos no artigo formaram apenas o clímax do filme, já que o diretor, com a orientação do produtor executivo Martin Scorsese, encontrou na história real de Mohammad Saiyub e Amrit Kumar apenas a essência para desenvolver uma história completamente original.
O que disse a crítica 1: Isaac Jackson do site The Indiependent avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Não é difícil perceber que Ghaywan se inspirou em eventos reais, visto que a narrativa é tão solta e sinuosa quanto admiravelmente verossímil. Há alguns momentos em que as mais de duas horas de duração se arrastam, então é uma sorte que Ghaywan tenha um trunfo dramático na manga para usar nos momentos finais do filme. Precisão biográfica à parte, é um feito narrativo que, em mãos menos talentosas, poderia soar histriônico, mas aqui consegue tocar uma fibra emocional genuína: graças principalmente a Khatter [que interpreta Shoaib], um ator promissor com o talento de um veterano consagrado".
O que disse a crítica 2: Renuka Vyavahare do site Times of India avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "As atuações são excepcionais. Ishaan Khatter entrega uma performance que define sua carreira - precisa, magnética e madura. Com uma presença marcante em cena e uma sabedoria que vai além da sua idade, ele consolida seu lugar entre os melhores atores de sua geração. Vishal Jethwa é igualmente cativante - cru, honesto e uma verdadeira revelação. É revigorante vê-lo incorporar Chandan com tanta contenção e profundidade. Shalini Vatsa, como a mãe de Chandan, deixa uma impressão duradoura com sua graça discreta. Janhvi Kapoor é sincera em sua breve aparição. 'Homebound' levanta muitas questões. Como chegamos a este ponto? O que nos tornou tão desprovidos de empatia e compaixão? Uma observação comovente de um mundo que se torna cada vez mais frio, este é um filme de altíssima qualidade".
O que eu achei: Vi “Homebound” (2025) movida pela curiosidade dele ter sido pré-selecionado como representante da Índia ao Oscar de Filme Internacional, mas a expectativa de encontrar um drama potente acabou dando lugar a uma experiência bem inferior. Inspirado em um ensaio do jornalista Basharat Peer e numa fotografia que viralizou durante o lockdown da Covid-19, o filme parte de um episódio real ocorrido na Índia: a história de dois amigos de infância que tentavam conseguir um cargo na polícia que lhes promete a dignidade negada por muito tempo por conta de sua casta, mas que acabam tendo seus planos frustrados pela chegada da pandemia. Os acontecimentos retratados no artigo aparecem apenas como clímax, enquanto o restante da narrativa segue por caminhos ficcionais que pouco acrescentam em originalidade. A fotografia é belíssima. Ela captura com sensibilidade tanto a vastidão das paisagens quanto a vulnerabilidade dos personagens. Entretanto esses momentos visualmente impactantes sugerem um filme mais profundo do que ele de fato é, já que essa potência estética não encontra equivalente no roteiro. O problema central está no tom excessivamente melodramático. “Homebound” recorre a soluções fáceis, carregando nas emoções de forma previsível, o que enfraquece o impacto da história real que o inspirou. Em vez de explorar as nuances humanas de uma crise tão complexa, o filme opta por uma abordagem simplificada, novelesca, quase didática. O resultado é um longa correto, acessível, mas sem o peso ou a densidade que se espera de um representante ao Oscar. Está mais para um forte candidato a passar na Sessão da Tarde, daqueles com uma trilha sonora apelativa. Numa escala de 1 a 5, daria 2 estrelas no máximo.

3.4.26

"Retrato de Um Certo Oriente" - Marcelo Gomes (Brasil/Itália/Líbano, 2024)

Sinopse:
Emilie (Wafa'a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour), irmãos católicos, fogem de uma guerra no Líbano para o Brasil. Durante a viagem, Emilie se apaixona por um comerciante muçulmano, Omar (Charbel Kamel). Emir sofre de um ciúme incontrolável e usará suas diferenças religiosas para separá-los.
Comentário: Marcelo Gomes (1963) é um cineasta e roteirista brasileiro. São dele os filmes "O Homem das Multidões" (2014), codirigido por Cao Guimarães, "Joaquim" (2017) e "Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar" (2019), todos selecionados para o Festival de Cinema de Berlim. Assisti dele os bons "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), premiado em Cannes; "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009), codirigido por Karim Aïnouz; e "Paloma" (2022). Desta vez vou conferir "Retrato de um Certo Oriente".
Neusa Barbosa do site Cineweb publicou: "Mais do que uma adaptação, é uma inspiração que colhe o diretor Marcelo Gomes a partir do livro de Milton Hatoum, 'Relato de um Certo Oriente'. No filme, em que muda o nome para 'Retrato de um Certo Oriente', ele transforma essa história turbulenta de imigrantes libaneses em Manaus numa espécie de metonímia do texto de Hatoum, colhendo dele apenas alguns personagens e ampliando de maneira singular a participação da Amazônia e não só como cenário.
Afeito a filmes sobre personagens em movimento e choques culturais, como sua estreia, 'Cinema, Aspirinas e Urubus' (2005), em que retratava o convívio de um alemão (Peter Ketnath) e um nordestino (João Miguel) pelas estradas do Brasil, Gomes expande a história pregressa dos irmãos Emilie (Wafa’a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour), igualmente centrais no livro.
No roteiro, assinado por Gomes e Maria Camargo, visita-se o passado dos irmãos, no Líbano de turbulento de 1949, numa tempestuosa cena em que o irmão vem arrancar sua irmã do convento em que se refugiara depois da morte dos pais - uma sequência que conta com a participação carismática da atriz brasileira Tuna Dwek, como a madre superiora. Vendendo a casa dos pais, Emir quer começar vida nova no Brasil com Emilie - a quem o une um amor ciumento, sentimento que será decisivo no rumo dessa história de personagens 'apaixonados e apaixonantes', como define o diretor.
A bordo de um navio a caminho do Brasil, Emir esconde-se na cabine de Emilie como clandestino, para economizar o preço de uma passagem. Em suas explorações pelo navio, Emilie acaba conhecendo Omar (Charbel Kamel), um comerciante libanês já habituado na rota entre o Líbano e o Brasil. Nasce uma paixão entre o muçulmano Omar e a cristã Emilie. Mas a religião é apenas um pretexto para a oposição doentia de Emir, que tem pela irmã uma possessividade quase de paixão incestuosa. Destes repentes extremos do temperamento de Emir, em que se nota um esboço de atração homossexual por um fotógrafo (Eros Galbiati), está contido o potencial de tragédia que, neste aspecto, não se desvia tanto do livro.
Mas, para fugir dos fluxos de consciência que povoam o texto do livro, Gomes constrói um arcabouço de belas imagens em preto-e-branco (fotografia de Pierre de Kerchove), que traduz o conteúdo destes múltiplos olhares, dos libaneses entre si e deles para as populações indígenas locais que eles começam a conhecer já no barco. A parada numa aldeia indígena, aliás, causada por um acidente com Emir, é a oportunidade criada no filme para apresentar melhor as culturas locais e também introduzir um tema muito atual, a luta pela defesa da terra das populações originárias. E é também neste novo ambiente que o amor entre Emilie e Omar poderá enraizar-se, incorporando um elemento de tolerância entre culturas e religiões que, de algum modo, é também fundador de uma certa utopia sonhada pelo Brasil, apesar de todos os preconceitos.
Ao optar por permanecer apenas na juventude de seus personagens, não indo adiante no tempo como o livro, Gomes também limita seu escopo dramático a essa ideia de início de uma vida nova, que é pontuada de paixões mas também de perda e dor. E é nestes temas que o filme encontra uma universalidade, sem trair a especificidade desses encontros tão inusitados, como o dos libaneses e dos indígenas no solo brasileiro".
O que disse a crítica 1: Victor Russo do site Filmes & Filmes avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Gomes parece não ter uma grande pretensão em falar exatamente sobre as Guerras ou sobre a religião, mas de recordar e eternizar o resultado delas, assim como exaltar esses aventureiros que se permitiram encontrar o amor no desconhecido preto e branco de um país que nem sabiam onde ficava. E, ainda que a trama envolvendo o irmão seja bastante novelesca, o cineasta consegue extrair muita beleza entre as relações que Emilie faz pelo caminho, os aprendizados, como a nova língua ou montar uma rede para dormir, que não soam pesarosos, e, sim, parte dessa jornada autoimposta que aos poucos ganha um contorno de sonho e até otimismo".
O que disse a crítica 2: Caio Coletti do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "'Retrato de um Certo Oriente' não é o primeiro e não será o último drama de imigração que articula a tragédia e o triunfo de construir uma vida em um novo lugar (e, necessariamente, destruir a vida que se vivia no antigo). Mas é um sentimento sempre pungente de se ver na tela, e o filme de Marcelo Gomes encontra em suas escolhas estéticas os meios para expressá-lo de uma forma que se apresenta genuína. É mais do que o bastante para valer sua 1h30 de projeção".
O que eu achei: Assistir a “Retrato de Um Certo Oriente” (2024) me fez perceber o quanto eu gosto do trabalho do Marcelo Gomes. Assisti dele anteriormente "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009), codirigido por Karim Aïnouz; e "Paloma" (2022) e este é mais um achado. Inspirado no livro "Relato de um Certo Oriente" de Milton Hatoum (um escritor nascido em Manaus, filho de imigrantes libaneses), o filme explora a saga de imigrantes libaneses no Brasil e os desafios enfrentados na floresta amazônica. A história começa no Líbano de 1949, onde os irmãos católicos Emilie (Wafa'a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour) decidem deixar sua terra natal, ameaçada pela guerra, em busca de uma vida melhor. Bastou uma breve busca na internet pra descobrir que, de fato, o Líbano esteve envolvido na Guerra Árabe-Israelense de 1948, que se estendeu até o início de 1949. Então tudo indica que foi esse conflito que motivou Emir a vender a casa de seus pais e decidir vir tentar a vida no Brasil com sua irmã. Durante a travessia de navio – que parte de Beirute em direção a Belém do Pará - Emilie conhece e se apaixona por Omar (Charbel Kamel), um comerciante muçulmano nascido em Trípoli na Líbia, já habituado a fazer essa rota por conta do comércio e dos tios que residem em Manaus. Contudo, Emir, tomado por ciúmes e influenciado pelas diferenças religiosas, tenta separá-los. Em entrevista, Marcelo Gomes nos conta que todos os filmes dele envolvem uma viagem, neste caso o deslocamento de um país semiárido para ‘o mundo das águas e da floresta' no coração do Amazonas. O romance de Milton Hatoum o interessou especialmente pela questão da alteridade – a natureza ou condição do que é outro, do que é distinto – que é um dos temas preferenciais seus, já que ele acredita que a única maneira de desconstruir preconceitos é ver o mundo através dos olhos alheios. Essa alteridade está não só na relação entre os dois irmãos católicos e o comerciante muçulmano, como também na relação deles com os indígenas da Amazônia e seus rituais religiosos. Aliás, no elenco, os dois atores que interpretam os irmãos são realmente libaneses, enquanto Omar é francês e Anastácia - dentre outros atores - é indígena. A trama é desenvolvida de forma lenta, mais contemplativa do que apressada, tendo o design sonoro e a belíssima fotografia em P&B – assinada pelo brasileiro Pierre de Kerchove, na qual o ‘relato’ vira um ‘retrato’ - como dois pontos altos do longa. É mais um daqueles filmes brasileiros pra gente se orgulhar. Super recomendo.

2.4.26

"Ozark" - Bill Dubuque & Mark Williams (EUA, 2017-2022)

Sinopse:
A trama acompanhava a família Byrde, formada pelo contador Marty Byrde (Jason Bateman), sua mulher Wendy Byrde (Laura Linney) e seus dois filhos Charlotte (Sofia Hublitz) e Jonah (Skylar Gaertner), que se mudam para a região remota de Ozark, no Missouri, interior dos Estados Unidos, após Marty se endividar com um cartel do narcotráfico mexicano. Lá, eles constroem seu próprio império criminal com ajuda da criminosa Ruth Langmore (Julia Garner).
Comentário: Trata-se de um seriado composto por 4 temporadas, totalizando 44 episódios, que segue a vida de Marty Byrde, um consultor financeiro, que, por circunstâncias extremas, inicia operações de lavagem de dinheiro para um cartel mexicano. Junto com sua família, Marty se muda para a região dos Lagos Ozark, onde desenvolve planos intrincados para lavar grandes quantias.
A série não só foca nas atividades criminais de Marty, mas também explora as dinâmicas familiares e os conflitos pessoais. Wendy Byrde, esposa de Marty, desempenha um papel crucial na história, evoluindo de uma dona de casa para uma figura central nos negócios ilícitos. Além disso, "Ozark" apresenta uma gama de personagens secundários, cada um com suas próprias histórias e motivações, que enriquecem a trama principal. Esses personagens incluem agentes da lei, criminosos locais e membros do cartel.
O site sobre mercado financeiro Melver nos conta que "A série se destaca por sua representação autêntica da lavagem de dinheiro e suas implicações morais e legais. Os criadores de 'Ozark' habilmente entrelaçam ação, suspense e drama, criando uma narrativa que prende a atenção do espectador. Ao longo das temporadas, 'Ozark' mergulha em temas como lealdade, poder e sobrevivência, proporcionando uma visão multifacetada do submundo do crime financeiro. Com roteiro bem elaborado e performances excepcionais, 'Ozark' não é apenas entretenimento; é uma janela para um mundo muitas vezes oculto e perigoso.
A lavagem de dinheiro é um processo complexo usado para disfarçar a origem ilegal de fundos. Esse processo transforma dinheiro obtido de maneira ilícita em ativos aparentemente legítimos. O objetivo principal é ocultar a ligação entre o dinheiro e sua fonte criminosa. Assim, os criminosos conseguem usar os fundos sem levantar suspeitas.
Existem três etapas principais na lavagem de dinheiro. A primeira é a colocação, onde o dinheiro ilícito entra no sistema financeiro. Em seguida, vem a ocultação, que envolve uma série de transações para confundir a origem dos fundos. Por fim, temos a integração, onde o dinheiro já ‘limpo’ é reintroduzido na economia. Nessa fase, ele aparece como um rendimento legítimo.
Os métodos de lavagem de dinheiro são diversos e podem incluir negócios legítimos, como restaurantes e casas noturnas, ou investimentos em ativos como imóveis. Além disso, a lavagem de dinheiro frequentemente utiliza tecnologias avançadas e operações bancárias internacionais. O avanço da tecnologia digital, especialmente com as criptomoedas, introduziu novos métodos de lavagem de dinheiro.
Combater a lavagem de dinheiro é crucial, pois ela financia atividades como o tráfico de drogas e o terrorismo. Governos e organizações internacionais, como o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), trabalham para desenvolver políticas para combater essa prática. Leis rigorosas e cooperação internacional são essenciais para identificar e prevenir a lavagem de dinheiro. Entender esse processo é fundamental para reconhecer e combater o crime financeiro em um contexto global.
Na série 'Ozark', a lavagem de dinheiro é um tema central, abordado com detalhes e nuances. Marty Byrde, o protagonista, emprega métodos sofisticados para lavar dinheiro para um cartel de drogas mexicano. Ele utiliza negócios locais, como um barco-cassino e uma imobiliária, para misturar fundos ilícitos com receitas legítimas. Essa estratégia exemplifica a etapa de colocação no processo de lavagem de dinheiro. Além disso, Marty realiza transações complexas para distorcer a trilha financeira. Isso inclui investimentos em negócios que geram grande volume de dinheiro vivo, facilitando a mistura de fundos ilícitos. Essas ações representam a etapa de ocultação. A série mostra como essas transações são meticulosamente planejadas para evitar suspeitas.
Finalmente, na fase de integração, vemos o dinheiro sendo reinvestido como se fosse legítimo. Marty cria uma aparência de normalidade, usando o dinheiro em transações legais, como a compra de propriedades. Este aspecto da série ilustra o quão desafiador pode ser para as autoridades detectar e rastrear a lavagem de dinheiro.
A série 'Ozark' apresenta estratégias de lavagem de dinheiro que, embora convincentes, são muito diferentes em vários aspectos da realidade. Na ficção, Marty Byrde utiliza negócios locais para camuflar o dinheiro sujo, uma prática comum, mas executada com uma precisão quase inalcançável na vida real. No mundo real, a lavagem de dinheiro envolve uma rede muito mais ampla e complexa de operações e transações internacionais.
Além disso, as técnicas mostradas em 'Ozark', como o uso de cassinos e investimentos em imóveis, são métodos conhecidos, mas simplificados na série. Na vida real, os processos são muito mais intricados e menos previsíveis. Os lavadores de dinheiro reais frequentemente mudam suas estratégias para evitar a detecção, algo que a série não aborda profundamente.
No entanto, 'Ozark' acerta ao retratar as consequências legais e pessoais da lavagem de dinheiro. As tensões e perigos enfrentados por Marty e sua família refletem as ameaças reais vivenciadas por aqueles envolvidos em tais atividades ilícitas. A série também acerta ao mostrar a constante necessidade de inovação nas técnicas de lavagem, uma realidade no mundo do crime financeiro.
A principal diferença entre a série e a realidade reside na dramatização. Enquanto 'Ozark' foca em um indivíduo, a lavagem de dinheiro real é um problema global, envolvendo redes vastas e muitas vezes entidades corporativas. Portanto, embora 'Ozark' ofereça uma visão intrigante, ela representa apenas uma fração da complexidade e escala da lavagem de dinheiro no mundo real".
A série ganhou diversos prêmios, incluindo o Globo de Ouro 2021 na categoria Melhor Série – Drama.
O que eu achei: O seriado lembra muito uma outra série que eu vi chamada "Breaking Bad" (2008-2013) já que se trata de um consultor financeiro chamado Martin Byrde, que leva sua família do subúrbio de Chicago para uma comunidade no Missouri chamada Ozark com a finalidade de lavar dinheiro para um cartel de drogas. Li que a inspiração para a criação desse seriado veio justamente de "Breaking Bad", como a própria Netflix confirmou. Em ambos temos o retrato de um homem de meia-idade comum, pai de família, que entra para o mundo do crime e que precisa aprender a lidar com esse ambiente de tráfico de drogas e de lavagem de dinheiro. A primeira temporada é um pouco irregular. Ela serve basicamente pra conhecermos os personagens e entendermos como esse contador se envolveu com o chefão de um cartel mexicano chamado Omar Navarro. Vamos ver a mudança da família dele de Chicago para Ozark, vamos nos familiarizar com sua esposa, seus filhos, com os moradores da cidade e com uma série de personagens que vão surgindo ao longo dos episódios envolvidos com essa tarefa de transformar dinheiro ganho de forma ilícita em dinheiro limpo. Vamos conhecer também os agentes do FBI empenhados em chegar no dono do cartel. Ao longo da primeira temporada eu até pensei em desistir, mas ainda bem que eu segui em frente, pois as demais temporadas são melhores, bem mais envolventes e impactantes. Já somos íntimos dos personagens principais e as atividades ilícitas da família encontram saídas que soam um pouco mais verossímeis do que na primeira temporada. O ritmo também melhora bastante. O resultado final é muito bom. Diferentemente de "Breaking Bad", aqui há um grande destaque para as personagens femininas, dentre elas Wendy Byrde (Laura Linney) a esposa de Marty; Ruth Langmore (Julia Garner), uma jovem esperta e durona que se torna sócia e amiga de Marty; Helen Pierce (Janet McTeer), advogada e parceira de negócios do cartel de drogas; Darlene Snell (Lisa Emery), uma traficante de heroína local, imprevisível e violenta e Camila Elizonndro (Verónica Falcón), a irmã do chefe do cartel que surge na última temporada. Ainda considero o seriado "Breaking Bad" superior, mas quem gosta dessas tramas envolvendo famílias comuns e tráfico de drogas, vai gostar deste também. Ótimo pra distrair a cabeça.