
Comentário: Lars von Trier (1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios. Conhecido por ser provocador nas entrevistas, os comentários antissemitas de von Trier durante uma coletiva de imprensa em Cannes causaram uma controvérsia significativa na mídia, levando o festival a declará-lo como "persona non grata" e bani-lo do festival por um ano. Na sequência, o diretor divulgou uma desculpa formal informando que não era simpatizante do nazismo. Assisti dele as obras-primas "Melancolia" (2011) e "Dogville" (2003), os ótimos "Europa" (1991), "Manderlay" (2005), "Anticristo" (2009) e "Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2" (2013) e o bom "A Casa que Jack Construiu" (2018). Além do seriado "O Reino" (1994-2021). Desta vez vou conferir "Ondas do Destino" (1996).
Roger Ebert nos conta em seu site que "O filme se passa na década de 1970, em uma remota vila no norte da Escócia. Bess (Emily Watson), uma garota de rosto doce e confiante, 'não está muito bem da cabeça', e sua comunidade unida não está satisfeita com sua decisão de se casar com Jan (Stellan Skarsgard), que trabalha em uma das grandes plataformas de petróleo no Mar do Norte".
Bess é virgem e pertence a uma seita rigorosa. Assim que se casam, Jan sofre um acidente na plataforma e fica paralisado do pescoço para baixo. O médico local diz a Bess que ele pode nunca mais andar.
Um dia, Jan pede a Bess para encontrar um homem e fazer amor com ele. Ele diz: "Faça-o por minha causa. E então me conte sobre isso". Bess não gosta dessa ideia, mas faz o que Jan pede. Nunca fica claro porque Jan, um bom homem, fez esse pedido à mulher que ama. Mas essa não é a questão do filme. A questão é que Bess, com sua fé feroz, acredita que, de alguma forma, seu sacrifício pode redimir o marido e até curá-lo. À medida que a condição dele piora, seu comportamento se torna mais desesperador.
"O filme contém muitas revelações surpreendentes, incluindo uma cósmica no final, que deixo você descobrir por si mesmo. Ele tem o tipo de poder bruto, o tipo de consideração desprotegida pela força do bem e do mal no mundo, da qual queremos nos esquivar. Às vezes, é mais fácil nos envolvermos em sentimentalismos e platitudes piedosas e esquecer que Deus criou a natureza 'com unhas e dentes'. Bess não tem nossa capacidade de racionalizar e fugir, e se oferece destemidamente a Deus como o entende.
Esta performance de Emily Watson me lembra o que Truffaut disse sobre James Dean, que como ator ele era mais como um animal do que um homem, procedendo de acordo com o instinto em vez de pensamento e cálculo. Não é uma performance sombria e é frequentemente tocada por humor e deleite, o que a torna ainda mais tocante, como quando Bess fala em voz alta em conversas bidirecionais com Deus, falando ambas as vozes – tornando Deus um adulto severo e ela uma criança confiante. Sua igreja a bane, e meninos pequenos na aldeia jogam pedras nela, mas ela diz: 'Deus dá a todos algo para serem bons. Eu sempre fui estúpida, mas sou boa nisso'.
'Ondas do Destino' foi escrito e dirigido por Lars von Trier, da Dinamarca, que nos faz pensar que tipos de óperas Nietzsche poderia ter escrito. Ele encontra a linha reta e pura através do coração de uma história, e não está preocupado com o que não pode ser conhecido: este filme não explica o pedido cruel de Jan à sua esposa, porque Bess não o questiona. O filme mostra pessoas que se importam com ela, como a cunhada e o médico local, e outras que não se importam: contadores religiosos como os anciãos barbudos da igreja. Eles não entendem nada sobre o cristianismo, exceto por regras inflexíveis que memorizaram (...). Eles falam com Deus como se esperassem que ele os ouvisse e aprendesse. No final do filme, eles recebem a resposta em um grande e selvagem grito irônico.
Poucos filmes como este são feitos, porque poucos cineastas são tão ousados, raivosos e desafiadores. Como muitos filmes verdadeiramente espirituais, este ofenderá os fariseus. Aqui temos uma história que nos obriga a tomar partido, a questionar o que realmente é certo e errado em um universo que parece cruel e indiferente. Será que a crença religiosa é apenas um consolo para o nosso destino inescapável na sepultura? Ou a fé pode nos dar o poder de triunfar sobre a morte e o mal? Bess sabe".
O que disse a crítica 1: Dimas Tadeu do site Papo de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Na medida em que a sina dos personagens vai se esboçando e as tais 'Ondas do Destino' quebram na praia, fica um nó na garganta, um choro engolido, que muita gente não saberá dizer se é de alegria ou de tristeza. É um dos primeiros sinais de um von Trier tão descrente na humanidade que, anos depois, veria em sua extinção o único alívio para uma existência atormentada. Sorte do público (e dele) que o diretor saiba canalizar esta apatia por vias estéticas. No caso de 'Ondas do Destino', por exemplo, fez surgir uma obra essencial sobre o amor, a bondade, a humanidade e sua leveza insustentável".
O que disse a crítica 2: Alcino Leite Neto da Folha SP gostou demais. Escreveu: "Liberdade. Provocação. Desassossego. Precisão. Ousadia. Urgência. Vigor. Paixão. Em um mote: cinema. (...) O extraordinário filme do diretor dinamarquês Lars von Trier é um redemoinho de olhares e gestos, de palavras e sensações, um tumulto de acontecimentos e 'desacontecimentos'. Um redemoinho calculado, se se pode dizer, em que a autonomia da interpretação (quase um improviso), a disponibilidade da câmera (sempre na mão) e a irrupção dos sentimentos criam um complexo sistema de colisões, entrelaçamentos, conflitos - um panorama inteiro do belicoso ato de filmar".
O que eu achei: "Ondas do Destino" (1996) é um drama intenso que mergulha na relação entre fé, amor e sacrifício. Ambientado em uma comunidade religiosa na Escócia, o filme apresenta Bess, uma jovem profundamente devota, inserida em um ambiente rígido e fortemente influenciado pelo cristianismo. Sua personalidade levanta dúvidas: não sabemos se há ali algum tipo de fragilidade mental - já que a família a internou anteriormente - ou se estamos diante de alguém apenas ingênuo, bom, puro e absolutamente entregue à fé. Nesse sentido, Bess me lembrou o protagonista de "Lazzaro Felice" (2018) de Alice Rohrwacher, pela forma como sua bondade parece deslocada do mundo ao redor. A trama se desenvolve quando Bess se casa com um 'forasteiro', algo mal visto pela comunidade. Ele trabalha em uma plataforma de petróleo e, após um grave acidente, tetraplégico e desenganado pelos médicos, passa a incentivá-la a se relacionar com outros homens e relatar tudo a ele. Movida por uma fé absoluta e pela crença de que seu sacrifício pode curá-lo, Bess se entrega a uma trajetória de degradação progressiva, que o filme acompanha sem suavizações. Von Trier constrói Bess como uma figura de mártir, alguém que vive sua devoção de forma extrema, dialogando diretamente com Deus e acreditando receber respostas. Essa dimensão espiritual entra em constante tensão com o mundo físico, cada vez mais brutal e degradante. A obra integra a chamada Trilogia do Coração de Ouro e já antecipa elementos que seriam associados ao Dogma 95: câmera na mão, luz natural e uma estética crua, quase documental. Esse estilo aproxima o espectador da experiência da protagonista, tornando sua jornada ainda mais desconfortável. Mesmo com momentos de dureza extrema, "Ondas do Destino" se sustenta como um filme forte e singular, que provoca reflexão sobre os limites entre fé, amor e autodestruição. Atenção às lindas vinhetas que separam os 'capítulos' do filme - as imagens tem uma pegada artificial e a trilha sonora de cada uma delas é super bem escolhida. Atenção também aos atores Emily Watson (Bess) em inicio de carreira e Stellan Skarsgard (Jan) com 44 anos, trinta anos antes de atuar em "Valor Sentimental" (2025).
Roger Ebert nos conta em seu site que "O filme se passa na década de 1970, em uma remota vila no norte da Escócia. Bess (Emily Watson), uma garota de rosto doce e confiante, 'não está muito bem da cabeça', e sua comunidade unida não está satisfeita com sua decisão de se casar com Jan (Stellan Skarsgard), que trabalha em uma das grandes plataformas de petróleo no Mar do Norte".
Bess é virgem e pertence a uma seita rigorosa. Assim que se casam, Jan sofre um acidente na plataforma e fica paralisado do pescoço para baixo. O médico local diz a Bess que ele pode nunca mais andar.
Um dia, Jan pede a Bess para encontrar um homem e fazer amor com ele. Ele diz: "Faça-o por minha causa. E então me conte sobre isso". Bess não gosta dessa ideia, mas faz o que Jan pede. Nunca fica claro porque Jan, um bom homem, fez esse pedido à mulher que ama. Mas essa não é a questão do filme. A questão é que Bess, com sua fé feroz, acredita que, de alguma forma, seu sacrifício pode redimir o marido e até curá-lo. À medida que a condição dele piora, seu comportamento se torna mais desesperador.
"O filme contém muitas revelações surpreendentes, incluindo uma cósmica no final, que deixo você descobrir por si mesmo. Ele tem o tipo de poder bruto, o tipo de consideração desprotegida pela força do bem e do mal no mundo, da qual queremos nos esquivar. Às vezes, é mais fácil nos envolvermos em sentimentalismos e platitudes piedosas e esquecer que Deus criou a natureza 'com unhas e dentes'. Bess não tem nossa capacidade de racionalizar e fugir, e se oferece destemidamente a Deus como o entende.
Esta performance de Emily Watson me lembra o que Truffaut disse sobre James Dean, que como ator ele era mais como um animal do que um homem, procedendo de acordo com o instinto em vez de pensamento e cálculo. Não é uma performance sombria e é frequentemente tocada por humor e deleite, o que a torna ainda mais tocante, como quando Bess fala em voz alta em conversas bidirecionais com Deus, falando ambas as vozes – tornando Deus um adulto severo e ela uma criança confiante. Sua igreja a bane, e meninos pequenos na aldeia jogam pedras nela, mas ela diz: 'Deus dá a todos algo para serem bons. Eu sempre fui estúpida, mas sou boa nisso'.
'Ondas do Destino' foi escrito e dirigido por Lars von Trier, da Dinamarca, que nos faz pensar que tipos de óperas Nietzsche poderia ter escrito. Ele encontra a linha reta e pura através do coração de uma história, e não está preocupado com o que não pode ser conhecido: este filme não explica o pedido cruel de Jan à sua esposa, porque Bess não o questiona. O filme mostra pessoas que se importam com ela, como a cunhada e o médico local, e outras que não se importam: contadores religiosos como os anciãos barbudos da igreja. Eles não entendem nada sobre o cristianismo, exceto por regras inflexíveis que memorizaram (...). Eles falam com Deus como se esperassem que ele os ouvisse e aprendesse. No final do filme, eles recebem a resposta em um grande e selvagem grito irônico.
Poucos filmes como este são feitos, porque poucos cineastas são tão ousados, raivosos e desafiadores. Como muitos filmes verdadeiramente espirituais, este ofenderá os fariseus. Aqui temos uma história que nos obriga a tomar partido, a questionar o que realmente é certo e errado em um universo que parece cruel e indiferente. Será que a crença religiosa é apenas um consolo para o nosso destino inescapável na sepultura? Ou a fé pode nos dar o poder de triunfar sobre a morte e o mal? Bess sabe".
O que disse a crítica 1: Dimas Tadeu do site Papo de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Na medida em que a sina dos personagens vai se esboçando e as tais 'Ondas do Destino' quebram na praia, fica um nó na garganta, um choro engolido, que muita gente não saberá dizer se é de alegria ou de tristeza. É um dos primeiros sinais de um von Trier tão descrente na humanidade que, anos depois, veria em sua extinção o único alívio para uma existência atormentada. Sorte do público (e dele) que o diretor saiba canalizar esta apatia por vias estéticas. No caso de 'Ondas do Destino', por exemplo, fez surgir uma obra essencial sobre o amor, a bondade, a humanidade e sua leveza insustentável".
O que disse a crítica 2: Alcino Leite Neto da Folha SP gostou demais. Escreveu: "Liberdade. Provocação. Desassossego. Precisão. Ousadia. Urgência. Vigor. Paixão. Em um mote: cinema. (...) O extraordinário filme do diretor dinamarquês Lars von Trier é um redemoinho de olhares e gestos, de palavras e sensações, um tumulto de acontecimentos e 'desacontecimentos'. Um redemoinho calculado, se se pode dizer, em que a autonomia da interpretação (quase um improviso), a disponibilidade da câmera (sempre na mão) e a irrupção dos sentimentos criam um complexo sistema de colisões, entrelaçamentos, conflitos - um panorama inteiro do belicoso ato de filmar".
O que eu achei: "Ondas do Destino" (1996) é um drama intenso que mergulha na relação entre fé, amor e sacrifício. Ambientado em uma comunidade religiosa na Escócia, o filme apresenta Bess, uma jovem profundamente devota, inserida em um ambiente rígido e fortemente influenciado pelo cristianismo. Sua personalidade levanta dúvidas: não sabemos se há ali algum tipo de fragilidade mental - já que a família a internou anteriormente - ou se estamos diante de alguém apenas ingênuo, bom, puro e absolutamente entregue à fé. Nesse sentido, Bess me lembrou o protagonista de "Lazzaro Felice" (2018) de Alice Rohrwacher, pela forma como sua bondade parece deslocada do mundo ao redor. A trama se desenvolve quando Bess se casa com um 'forasteiro', algo mal visto pela comunidade. Ele trabalha em uma plataforma de petróleo e, após um grave acidente, tetraplégico e desenganado pelos médicos, passa a incentivá-la a se relacionar com outros homens e relatar tudo a ele. Movida por uma fé absoluta e pela crença de que seu sacrifício pode curá-lo, Bess se entrega a uma trajetória de degradação progressiva, que o filme acompanha sem suavizações. Von Trier constrói Bess como uma figura de mártir, alguém que vive sua devoção de forma extrema, dialogando diretamente com Deus e acreditando receber respostas. Essa dimensão espiritual entra em constante tensão com o mundo físico, cada vez mais brutal e degradante. A obra integra a chamada Trilogia do Coração de Ouro e já antecipa elementos que seriam associados ao Dogma 95: câmera na mão, luz natural e uma estética crua, quase documental. Esse estilo aproxima o espectador da experiência da protagonista, tornando sua jornada ainda mais desconfortável. Mesmo com momentos de dureza extrema, "Ondas do Destino" se sustenta como um filme forte e singular, que provoca reflexão sobre os limites entre fé, amor e autodestruição. Atenção às lindas vinhetas que separam os 'capítulos' do filme - as imagens tem uma pegada artificial e a trilha sonora de cada uma delas é super bem escolhida. Atenção também aos atores Emily Watson (Bess) em inicio de carreira e Stellan Skarsgard (Jan) com 44 anos, trinta anos antes de atuar em "Valor Sentimental" (2025).









