11.10.26

“A Noiva!” - Maggie Gyllenhaal (EUA/França, 2026)

Sinopse:
Na Chicago dos anos 30, Frankenstein (Christian Bale) pede ajuda à Dra. Euphronius (Annette Bening) para criar uma companheira. Eles dão vida a uma mulher assassinada (Jessie Buckley), provocando um romance, o interesse da polícia e uma mudança social radical.
Comentário: Maggie Gyllenhaal (1977) é uma atriz, diretora e roteirista estadunidense. Como atriz ela ganhou o Globo de Ouro por seu papel na minissérie britânica “The Honourable Woman” (2014). Como diretora e roteirista, o premiado “A Filha Perdida” (2021) foi seu primeiro longa e o único filme que vi dela. Desta vez vou conferir “A Noiva!” (2026).
Inácio Araújo da Folha SP publicou: “‘A Noiva!’ é, de certa forma, um filme de dualidades, de corpos que se dividem. Assim, logo de início existe uma moça enojada com o grupo de gângsteres, de fato repulsivos, que a cerca. A moça se chama Ida (Jessie Buckley). O líder dos gângsteres se chama Lupino. Juntando os dois, temos Ida Lupino, nome da antiga estrela da Warner e intrépida cineasta independente.
Logo, Ida será morta e ressurgirá entre os vivos como a noiva tão desejada pelo monstro de Frankenstein. Estamos nos anos 1930, era de gângsteres e de filmes. Frankenstein já existia desde o século 19, mas ressurgiu com força no cinema. Agora ressuscita como fã incondicional dos musicais, em especial os estrelados por um certo Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal).
O solitário Frankenstein (Christian Bale) exige da Dra. Euphorius (Annette Bening) a criação de uma noiva. E caberá à finada Ida esse papel. Ao contrário da noiva do filme dos anos 1930, desta vez a noiva já vem completa, ainda que um tanto avariada. Tem fraturas, escoriações, uma enorme mancha (...) no rosto.
Juntos, eles saem para o mundo. Mas o mundo que encontram não se parece muito com o de 1930. Agora parece que está dividido em duas partes: o das pessoas ‘de bem’ e as figuras monstruosas (que podem ser prostitutos, músicos, frequentadores de rave etc.). Em vista disso, Frankie (como ela o chama) e Penny (como ele a nomeia) até que começam bem sua passagem pelo mundo civil.
No entanto, logo começam a surgir os obstáculos. Na saída de uma festa, um bando de estupradores ataca Penny; Frankie se enfurece e a defende. Quando a defende não é o monstro gentil que conhecemos, pelo contrário. Os estupradores morrem e, evidentemente, aqui começa a perseguição.
Vemos que, até aqui, Maggie Gyllenhaal mostrou dois aspectos do cinema: os musicais e os monstros. Entra em cena um outro: o policial. Seu xadrez parece pronto. Na verdade, Frankie e Penny serão mais uma espécie de Bonnie & Clyde do que um casal de monstros: uma dupla marginal que sobrevive num sistema opressivo, feito para eliminar os divergentes.
Ou seja, o policial se impõe sobre o terror. As referências ao filme de Arthur Penn são evidentes. Mas também o musical irrompe em contraponto: é o gênero por excelência capaz de prometer felicidade. E aqui ele tem, obviamente, conotação um tanto irônica.
Mais do que todos os gêneros invocados, o cinema é uma presença sempre invocada e sempre questionada. Por um lado, a proximidade entre a produção cinematográfica e o gangsterismo é notória. Mas o cinema é também o lugar onde se promete ao mundo uma felicidade inexistente, que o filme policial virá conjurar. E o horror nisso tudo? Entra sobretudo como dimensão paradoxal: os monstros não são os monstros. São os outros.
Mais exatamente, Maggie Gyllenhaal acrescenta ao mito de Frankenstein a condenação do universo masculino, com tudo o que possa representar de negativo. Basta observar a dupla de simpáticos detetives envolvidos nessa história: Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e Myrna Mallow (Penélope Cruz). Ele é o detetive. Ela, a assistente, a secretária. Mas é ela, com seu nome que inevitavelmente evoca o nome de outro detetive, Philip Marlowe (criado por Raymond Chandler), quem tem a capacidade de investigar é a mulher.
A enorme vantagem de "A Noiva!" em relação à maior parte dos filmes que se reivindicam feministas (o que inclui os brasileiros) é que em Gyllenhaal o ideário não atropela a história.
Dizer que o filme é feminista não significa dizer que seu interesse ou seu significado resumem-se a isso. A invocação do monstro visto como vítima de um mundo verdadeiramente monstruoso reflete com alguma desenvoltura a maneira como os liberais sentem-se oprimidos nos EUA sob a atual administração de extrema-direita. E, claro, a cultura do machismo extremo, do sadismo, do estupro (e que se pode replicar, aqui no Brasil, do assassinato de mulheres) mostra sua face horrível por inteiro aqui.
O jogo de espelhos do roteiro, que começa com Ida e Lupino, passa por Frankie e Penny, a era clássica e o contemporâneo etc., ajuda muito na felicidade formal do filme, que consegue superar a empostação desmedida da Mary Shelley que aparece no início e retorna de tempos em tempos”.
O que disse a crítica 1: Mattheus Goto da Revista Veja avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “A premissa de ‘A Noiva!’ tinha potencial: fazer um retrato digno para a protagonista de ‘A Noiva de Frankenstein’ (1936), que foi reduzida a uma perspectiva machista. A diretora e roteirista Maggie Gyllenhaal, com uma visão artística requintada, e a atriz Jessie Buckley, uma camaleoa sempre em transformação, pareciam ser a dupla perfeita para o projeto. O filme é bem ambicioso e aposta em diferentes formatos e gêneros. As tentativas ousadas merecem mais aclamação do que o resultado em si, que é confuso e incoerente”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Com um início que já atira o espectador na lógica de sua história fantástica sem se preocupar com o choque, ‘A Noiva!’ exige uma abertura imediata que talvez seja difícil para alguns espectadores, introduzindo rapidamente camadas metalinguísticas, possessão, reanimações rápidas de cadáveres e um Monstro adaptado a outros contextos. Dito isso, aqueles que conseguirem abraçar a proposta de Gyllenhaal serão recompensados por um filme que, além de não temer riscos, é capaz de encontrar soluções instigantes na maior parte de sua execução. E que mais do que justifica a exclamação em seu título”.
O que eu achei: “Frankenstein” (1818) de autoria de Mary Shelley é um dos livros mais adaptados para o cinema. Dizem que há centenas de versões que vão do terror gótico à comédia. Porém, Shelley nunca escreveu um livro sobre a noiva do Monstro. Essa personagem até aparece no livro de 1818 quando, isolado e odiado pela humanidade, o Monstro exige que o cientista Victor Frankenstein crie uma fêmea para lhe fazer companhia. Victor até começa a montar o corpo da criatura feminina, porém, no meio do processo, ele é tomado pelo medo de que ela seja mais maligna do que o monstro, ou que ela o rejeite, ou que os dois gerem uma ‘raça de demônios’ que ameace a humanidade. Então, em um ataque de pânico, Victor destrói o corpo inacabado. Mas bastou essa citação para a Noiva ir parar nas telas do cinema. James Whale foi o precursor. Seu “Frankenstein” (1931) – com Boris Karloff no papel principal – tem uma sequência chamada “A Noiva de Frankenstein” (1935), com a atriz Elsa Lanchester interpretando a criatura feminina com o icônico cabelo preto com mechas brancas em formato de raio. Depois vieram muitos outros. Agora é a vez de Maggie Gyllenhaal mostrar sua versão feminista da criatura. O filme se passa nos anos 1930 em Chicago. Mary Shelley (1797-1851) já estava morta, então no longa ela é uma narradora fantasmagórica. É do além que ela comenta não ter tido ambiente para criar um livro sobre a noiva do monstro já que, no século XIX, não seria aceita uma criatura feminina tendo a história grandiosa que ela merecia. É lá do além que ela irá ‘encarnar’ em Ida (Jessie Buckley está espetacular fazendo os dois papéis). A moça é uma prostituta contratada pela polícia para se infiltrar na máfia, mas a missão dá terrivelmente errado e ela acaba assassinada. O Monstro – criado originalmente em 1818 - já está com mais de um século de vida e o dr. Victor Frankenstein, que o criou, nem está mais neste mundo. Solitário, ele viaja até Chicago à procura de um cientista que vem se empenhando em pesquisas de ressuscitação. Só ao chegar lá é que ele vê que o cientista é uma mulher. É nesse ponto que a ficção e o além-túmulo se cruzam: o corpo de Ida sem vida será reanimado, encarnando todos os desejos de liberdade e críticas ao machismo de Mary Shelley. Com um visual punk-gótico avassalador que desafia os monstros clássicos do cinema, a criatura inicia uma jornada caótica de vingança e autodescoberta. Eu, particularmente, gostei demais do filme. Mas é preciso ser honesto: não é uma obra que vai agradar todo mundo. Maggie Gyllenhaal não entrega um filme de terror convencional. “A Noiva!” é uma produção visceral, excêntrica e cheia de colagens tonais que misturam o drama histórico com a energia caótica do movimento punk. Quem for ao cinema esperando sustos tradicionais ou o clima gótico preto e branco de outrora pode se frustrar. Tem de tudo no filme: é filme de monstros, é musical, é policial, é road movie, é um manifesto de humor ácido e ultrajante. Maggie Gyllenhaal joga todas essas referências no liquidificador com uma liberdade estética impressionante, criando uma obra que deliberadamente se recusa a se encaixar em uma caixinha só. No entanto, para quem aceita embarcar em uma experiência visceral, corajosa e magnética, o longa se revela uma das releituras mais originais e divertidas que o mito de Mary Shelley já ganhou nas telas. Nós mulheres agradecemos. Se jogue.

10.10.26

“Túmulo dos Vagalumes” – Isao Takahata (Japão, 1988)

Sinopse:
Os irmãos Setsuko e Seita vivem no Japão em meio à Segunda Guerra Mundial. Após a morte da mãe em um bombardeio e a convocação do pai para a Guerra, eles vão morar com alguns parentes. Insatisfeitos, saem da cidade e acabam em um abrigo na floresta.
Comentário: Jean Carlos Foss do site Tecmundo publicou: “'Túmulo dos Vagalumes’ (1988), dirigido por Isao Takahata, é uma das obras mais poderosas e emocionalmente devastadoras do Studio Ghibli. Ambientado no Japão durante a Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha a luta pela sobrevivência de dois irmãos, Seita e Setsuko, após o bombardeio de Kobe. Órfãos e sem recursos, eles enfrentam a dura realidade da guerra, com pouca ajuda da sociedade que também está devastada pelo conflito. (...)
‘Túmulo dos Vagalumes’ é um dos mais comoventes retratos da tragédia humana já feitos, e essa intensidade emocional tem suas raízes em uma história verdadeira, marcada por luto e culpa. A trama, que acompanha dois irmãos japoneses lutando para sobreviver durante a Segunda Guerra Mundial, foi baseada na experiência pessoal de Akiyuki Nosaka, autor do conto semi-autobiográfico que inspirou o filme. Nosaka viveu o pesadelo da guerra em primeira mão e usou sua escrita para processar a dor que o assombrava.
Nosaka nasceu em 1930, e sua vida mudou radicalmente com o bombardeio de Kobe em 1945, quando ele tinha apenas 14 anos. Durante esse ataque devastador, ele perdeu grande parte de sua família, incluindo sua irmã mais nova, Keiko, que tinha apenas dois anos. Sem recursos e enfrentando um país destruído, Nosaka se viu extremamente abatido. A perda de Keiko o marcou profundamente, e ele carregou uma imensa culpa por sua morte, sentindo que falhou em protegê-la. Essa culpa se tornou o núcleo emocional da história que viria a escrever anos depois.
Publicado em 1967, o conto ‘Túmulo dos Vagalumes’ foi a forma que Nosaka encontrou para processar o trauma de sua juventude. A história gira em torno de Seita e Setsuko, dois irmãos que, assim como ele e sua irmã, perdem os pais e são deixados à própria sorte em meio ao caos da guerra. A luta desesperada de Seita para cuidar de Setsuko espelha a própria experiência de Nosaka, refletindo a fome, a solidão e a dor de perder alguém tão próximo. Ele idealizou Seita como um irmão atencioso e dedicado, uma versão que ele desejava ter sido para sua própria irmã.
A relação entre os dois personagens principais é uma recriação dolorosa da tentativa fracassada de Nosaka de salvar Keiko. A morte de Setsuko no filme, assim como a de Keiko na vida real, não é causada diretamente pela violência da guerra, mas pela fome e negligência que acompanham os conflitos. Nosaka queria mostrar que a guerra destrói muito mais do que corpos em batalhas – ela aniquila as vidas daqueles que não estão no front, os civis que sofrem nas margens da destruição.
Nosaka, no entanto, resistiu por muitos anos a transformar sua história em um filme. Ele recebeu várias propostas de adaptações em live-action, mas acreditava que nenhuma delas seria capaz de capturar a profundidade emocional do conto. Ele achava que atores infantis modernos não conseguiriam expressar a realidade cruel que ele e sua irmã viveram, e que os horrores da guerra perderiam impacto se fossem representados de forma direta. Foi só quando o Studio Ghibli, e o diretor Isao Takahata, propuseram uma adaptação animada que Nosaka se convenceu. A animação permitiu que Takahata explorasse o lirismo da história de Nosaka, criando uma obra que combina a beleza visual com a crueza da narrativa. Takahata, que também experimentou a guerra durante sua infância, captou de maneira única a fragilidade das vidas de Seita e Setsuko, usando metáforas visuais, como os vagalumes, para simbolizar a brevidade da felicidade e da inocência durante tempos de desespero”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Antes da destruição da vida, Takahata nos mostra a destruição dos sentimentos, a destruição da empatia e da forma humana no tratamento entre as pessoas. A tristeza aumenta porque muitas dessas relações são pautadas exatamente pela falta, como na cena em que Seita tenta convencer um lavrador que não tem arroz nem para si próprio. Já a tia dele representa um outro tipo de pessoa nessa equação, aquelas endurecidas e ressecadas pela guerra, enxergando em cada um apenas um instrumento em favor do país e, se este alguém não puder ser um instrumento, então não merece nada. Como disse antes, as discussões trazidas pela obra tornam-se mais tocantes quando traçamos um paralelo delas com a realidade de milhares de pessoas, em todas as idades, que não apenas morrem pela ação direta do fogo das muitas guerras em andamento, mas também por todos os outros males que elas trazem consigo”.
O que disse a crítica 2: Sérgio Alpendre da Folha SP também gostou. Disse tratar-se do “primeiro filme de Isao Takahata pela recém-criada companhia sediada na região metropolitana de Tóquio. Pode-se dizer que realizou uma das pérolas que justificam a fama do estúdio. (...) O que mais impressiona não é a beleza da história, um elogio ao humanismo e um grito antibélico. É o bom gosto de todos os enquadramentos, do uso das cores, dos tempos de corte nas cenas mais sentimentais, até mesmo do uso de uma música que, como sempre na tradição melodramática japonesa, fica muito perto do limite que separa a beleza do exagero”. A produção “faz com que a velha discussão sobre a animação ser ou não cinema, ou mesmo uma forma de arte, seja supérflua”.
O que eu achei: Se eu tivesse que eleger a animação mais triste da face da Terra, mesmo sem ter visto todas, com certeza seria “Túmulo dos Vagalumes” (1988). A trama acompanha os irmãos Seita (14 anos) e Setsuko (4 anos) tentando sobreviver no Japão durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial, em 1945. O filme retrata com dolorosa fidelidade o colapso do país: cidades devastadas por bombardeios aéreos americanos - como o ataque incendiário a Kobe, que desencadeia a história - a fome generalizada e a escassez absoluta de recursos que castigavam a população civil. O que torna tudo ainda mais devastador é saber que a obra é a adaptação de um conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka, que tinha a mesma idade de Seita quando vivenciou o bombardeio de Kobe. Uma breve pesquisa me mostrou que, além do conto de Nosaka, uma fotografia também serviu de inspiração para o filme. Trata-se de uma imagem dilacerante de autoria do fotógrafo Joe O'Donnell, tirada em Nagasaki em 1945, que mostra um menino de dez anos, descalço e com o rosto rígido, carregando o cadáver do irmãozinho nas costas à espera da cremação. É daquelas fotos que nos faz pensar cadê aquele meteoro que eliminou os dinossauros da Terra. Na história, o pai dos protagonistas está servindo na marinha e a mãe morre tragicamente em um ataque. Desamparados, o jovem Seita assume a imensa responsabilidade de proteger sua irmãzinha. Após uma convivência difícil e hostil na casa de uma tia, o orgulho e o desespero levam os dois a se isolarem em um abrigo abandonado na floresta, onde travam uma batalha comovente e solitária pela sobrevivência. É um dos raros filmes do Estúdio Ghibli que foge àquele espírito de sonho e fantasia para focar no mundo real. A força dessa história na cultura japonesa é tamanha que, além do famoso anime, ela ganhou duas outras adaptações com atores reais nos anos 2000 - um filme para a TV em 2005 e outro para o cinema em 2008 -, que exploraram o drama sob novas perspectivas. Para assistir você precisa estar emocionalmente preparado devido ao sofrimento psicológico que ele provoca. Nos faz parar para pensar quantas crianças estão passando por isso hoje nos diversos países em guerra ou mesmo em países sem guerra mas devastados pela violência e pela fome. É um filme importante, necessário, mas difícil de ver e impossível de rever. A classificação etária é de 12 anos, mas eu só mostraria para alguém de 15 ou mais. Veja preparado.

5.10.26

"Rio, Zona Norte" - Nelson Pereira dos Santos (Brasil, 1957)

Sinopse:
O humilde sambista Espírito da Luz (Grande Otelo) é um homem desiludido em virtude das tantas tragédias pessoais. Um dia, ele cai de um trem lotado da Central do Brasil e fratura o crânio. Enquanto agoniza, ele relembra os últimos meses de sua vida, a luta para ter seus sambas gravados e interpretados por grandes artistas e as trapaças do falso parceiro Maurício (Jece Valadão). No hospital, ele recebe a visita do músico Moacir (Paulo Goulart), grande admirador de suas composições.
Comentário: Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) foi um diretor, produtor e roteirista brasileiro, considerado um dos fundadores do movimento Cinema Novo. Sua produção atravessa um período de 60 anos na história do Brasil, com obras como “Rio, 40 Graus” (1955) e “Memórias do Cárcere” (1984) dentre outras. Assisti dele os bons “Vidas Secas” (1963) e “O Amuleto de Ogum” (1974). Desta vez vou conferir "Rio, Zona Norte" (1957).
Luís Alberto Rocha Melo do site Contracampo nos conta que "Quando foi lançado em 1957, 'Rio, Zona Norte' experimentou fracasso de público e de crítica. Os críticos que o condenaram - entre eles, Alex Viany e Paulo Emílio Salles Gomes - apontaram uma espécie de involução no estilo do jovem cineasta que iniciara a carreira de forma impactante e polêmica com 'Rio, 40 Graus' (1955).
A novidade apresentada pelo filme de estreia, consubstanciada numa abordagem direta e realista, ainda que irregular, da ambiência popular e na busca por um cinema feito nas ruas e nas favelas, no qual o personagem central era a própria cidade do Rio de Janeiro, dava lugar, em ‘Rio, Zona Norte’, ao recorte melodramático no tratamento da intriga, aos recursos de roteiro e montagem típicos do cinema convencional hollywoodiano (como o uso do flashback) e a um desequilíbrio na condução da mise-en-scène, ora pendendo para um realismo difuso, ora lançando mão de recursos expressionistas.
Os famosos pressupostos neorrealistas, sempre proclamados a propósito de 'Rio 40 Graus', não encontravam em 'Rio, Zona Norte' uma tradução à altura. O segundo longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos decepcionou os que enxergaram em 'Rio, 40 Graus' o início de um cinema realista brasileiro talvez comparável à escola neorrealista italiana.
O processo de revalorização de 'Rio, Zona Norte' se dá com a produção crítica/ensaística do cinema novo, já nos anos 1960, notadamente a partir das análises de Glauber Rocha reunidas e publicadas em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (1963). Anos mais tarde, o filme será francamente elogiado num artigo escrito por David E. Neves e publicado no número 28 da revista Filme Cultura, em fevereiro de 1978, no qual o crítico e cineasta define 'Rio, Zona Norte' como 'um dos filmes mais inspirados' de Nelson Pereira dos Santos. Buscando valorizar os diversos recursos de mise-en-scène, Glauber comparará Nelson Pereira a Luchino Visconti; David Neves, por sua vez, destacará a estrutura do roteiro (escrito por NPS), louvada justamente por fazer uso expressivo de recursos como o flashback. Um 'filme menor' acaba por se tornar, anos mais tarde, uma 'obra-prima'. (...)
Visto hoje, 'Rio, Zona Norte' assume um outro valor, diferente de quase todas as preocupações não só dos críticos que o rejeitaram em 1957, mas também dos que o revalorizaram nos anos 1960 e 1970. Não é mais o caso de situá-lo entre os filmes 'maiores' ou 'menores' de um cineasta consagrado como Nelson Pereira dos Santos. Diante de 'Rio, Zona Norte', estamos conscientes de que se trata de um filme que adquiriu importância histórica indiscutível. Não nos incomodamos com o fato de que seu realizador introduz, contraditoriamente, uma estrutura em flashback no interior de uma narrativa que se pretendia neorrealista, justamente porque tais questões - fidelidade ou não aos conceitos teóricos do neorrealismo - não são vivenciadas de forma acalorada e imediata pelo espectador de hoje. O que antes era visto como oscilação de estilo do jovem cineasta é hoje nosso ponto maior de interesse. Acompanhar tal oscilação é algo muito mais revelador do que cobrar e vigiar uma virtual coerência e fidelidade a sabe-se lá que escola ou proposta teórica.
'Rio, Zona Norte' é, portanto, um filme protegido pelo tempo. Aquilo que entre nós é extremamente difícil do ponto de vista material - preservar um filme brasileiro da ação predatória dos anos - é sempre possível no âmbito dos discursos ideológicos que são a base da historiografia do cinema brasileiro. Nesse segundo aspecto, 'Rio, Zona Norte' teve o tempo como aliado".
Na trama, a montagem de crédito de abertura apresenta a descoberta de um corpo nas trilhas do trem, enquanto uma trilha sonora de Hollywood toca distraidamente. O homem ferido é Espírito da Luz Soares (literalmente "Espírito da Luz", interpretado pelo Grande Otelo), um compositor cujos sambas unem e elevam o povo brasileiro marginalizado no meio dele em sua luta.
Com base na vida do compositor Zé Keti - que aparece no filme como cantor popular Alaor - a história do Espírito se desenvolve através de flashbacks que transbordam luxuosamente com canções, mas também expõem as múltiplas divisões dentro dos estratos sociais do Rio. Uma vítima de homens de negócios exploradores que sugam sua vida e sua música, Espírito testemunha que cada um de seus sonhos precipitou para uma tragédia implacável.
Segundo Melo, "em 'Rio, 40 Graus' Nelson Pereira ambicionava fazer um painel da realidade carioca. Nos letreiros de apresentação, ouve-se a música de Zé Keti que diz 'Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor'. Em 'Rio, Zona Norte' Nelson procura ocupar-se apenas com o dono dessa voz - e com os sanguessugas que estão ao seu redor. Por ter sido sincero em sua abordagem, Nelson Pereira realizou um filme um tanto sombrio, o que não deixava de ser fruto de certa maturidade: olhar para um só personagem havia se revelado, enfim, uma tarefa muito mais complexa e necessária do que dar conta de toda uma cidade".
Em 2015, a produção foi uma das selecionadas pela ABRACCINE para a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
O que disse a crítica 1: Leonardo Campos do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: " Engraçado que toda a acusação de involução de estilo mudou com as opiniões de Glauber Rocha em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, publicado em 1963, juntamente com um artigo que David Neves veiculou numa revista numa época próxima, tendo comparado os maneirismos de filmagem do cineasta na condução da história ao italiano Luchino Visconti. Por ter emulado alguns elementos da Atlântida no que tange aos eixos sociais como discussão, sem deixar de buscar uma relação popular com o circuito comercial, tais como as narrativas musicais de nosso cinema, 'Rio, Zona Norte' pagou um preço caro na época, mas nada melhor que o tempo para comprovar a sua condição de obra-prima".
O que disse a crítica 2: Amaury Filho do Cineset avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Rio, Zona Norte' é uma obra atemporal, que fala de arte, exclusão e resistência. É um retrato de um Brasil que insiste em cantar, mesmo quando tudo ao redor parece emudecer".
O que eu achei: Se olharmos a filmografia de Nelson Pereira dos Santos, seu primeiro filme foi “Juventude” (1949), um média-metragem realizado em 16mm em parceria com Mendel Charatz que acabou se tornando uma mídia perdida. Na sequência ele fez “Rio, 40 Graus” (1955), seu primeiro longa, considerado um marco do cinema moderno no Brasil e precursor do Cinema Novo. "Rio, Zona Norte" (1957) veio logo depois. Utilizando uma estrutura dramática calcada no melodrama, a trama acompanha a agonia do sambista Espírito da Luz (interpretado por Grande Otelo). Após sofrer um acidente de trem, ele cai na linha férrea do subúrbio, fratura o crânio e, enquanto agoniza nos trilhos aguardando socorro, relembra sua vida, rememorando os fatos que o impediram de viver de sua própria criação artística. Esse roteiro foi livremente inspirado na vida, nos percalços e nas vivências do sambista Zé Kéti (1921-1999). O diretor Nelson Pereira dos Santos era muito amigo do compositor; eles já haviam trabalhado juntos em “Rio, 40 Graus” e a ideia de transformar a dura realidade dos sambistas de morro no tema central de um filme já vinha germinando em sua cabeça. Além de servir de inspiração, o sambista foi o responsável por compor as belas e melancólicas canções que estruturam a narrativa e que aparecem no enredo como sendo de autoria do personagem Espírito da Luz. Zé Kéti também faz uma ponta no longa, interpretando Alaor. O drama do protagonista - que é analfabeto, tem suas músicas roubadas, enfrenta contratos escusos e é explorado por atravessadores - refletia exatamente as barreiras sociais e financeiras reais que Zé Kéti e vários outros compositores periféricos enfrentavam para sobreviver da própria arte na década de 1950. Interessante saber que, na época do lançamento, o filme não foi tão bem recebido. Críticos influentes da época esperavam que Nelson aprofundasse o olhar puramente documental e coletivo do neorrealismo italiano introduzido no filme anterior. Em vez disso, viram em "Rio, Zona Norte" uma ‘involução’ artística, criticando-o por mergulhar no formato do melodrama. Houve também um incômodo com o racismo e a desigualdade mostrados na trama. Felizmente, nos anos 1960, Glauber Rocha declarou que o filme era uma verdadeira certidão de nascimento de um cinema autenticamente brasileiro. Ele argumentou que a crítica dos anos 50 foi míope e que a obra não era uma ‘involução’, mas sim uma evolução política consciente do diretor. Com o tempo, o filme deixou de ser julgado pelo que ‘deveria ter sido’ e passou a ser celebrado pelo que realmente era: uma obra híbrida inovadora que unia a crueza documental das ruas com a potência do drama individual. Atenção para a participação da cantora Ângela Maria, que interpreta a si mesma. Nascida em maio de 1929, a Rainha do Rádio tinha 28 anos na época. Essa escalação foi um golpe de mestre de Nelson Pereira dos Santos: Ângela estava no auge absoluto da carreira e vendia milhões de discos. Sua interação genuína com um personagem fictício deu uma enorme sensação de realismo à história. Boa pedida.

4.10.26

“Springsteen: Salve-me do Desconhecido” - Scott Cooper (EUA, 2025)

Sinopse:
Uma crônica da criação do álbum "Nebraska" (1982) de Bruce Springsteen (Matthew Anthony Pellicano e Jeremy Allen White), quando ele era um jovem músico à beira do estrelato, lutando para conciliar as pressões do sucesso com os fantasmas do seu passado.
Comentário: Scott Cooper (1970) é um ator, diretor, roteirista e produtor americano, conhecido pelo seu longa “Coração Louco” (2009) que ganhou dois Oscars. “Springsteen: Salve-me do Desconhecido” (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
Bruce Springsteen (1949) é um famoso cantor, compositor e guitarrista de rock dos EUA. Apelidado mundialmente como ‘The Boss’ (O Chefe), ele vendeu mais de 140 milhões de discos e se tornou o arquétipo do trabalhador americano e do rock de arena das décadas de 1970 e 1980. A maior parte de sua trajetória é acompanhada pela icônica E Street Band.
Dentre alguns de seus álbuns e músicas estão: “Born to Run” (1975), o álbum que o lançou ao estrelato mundial com hinos de juventude e liberdade; “Born in the U.S.A.” (1984), um dos discos mais vendidos da história da música, cuja faixa-título critica duramente a situação dos veteranos da Guerra do Vietnã - embora frequentemente incompreendida como um hino puramente patriótico; “Nebraska” (1982), um álbum acústico e sombrio, gravado de forma caseira, que retrata o lado mais vulnerável e introspectivo do artista e “Streets of Philadelphia” (1993), uma canção escrita para o aclamado filme “Filadélfia” (1993).
Springsteen faz parte do seleto grupo de artistas que quase alcançaram o status de "EGOT" por vencer as maiores premiações da indústria cultural. Ele ganhou 20 prêmios Grammy (domínio absoluto em categorias de rock), 1 Oscar de Melhor Canção Original por "Streets of Philadelphia", 1 Prêmio Tony Especial pelo aclamado show intimista “Springsteen on Broadway” e recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honraria civil americana.
Igor Miranda da Revista Rolling Stone publicou: “Estima-se que quase 5% da população mundial tenha depressão. E não há distinção: qualquer um pode ser acometido. Até Bruce Springsteen no auge da fama. Mesmo no início da década de 1980, com o álbum ‘The River’ no topo das paradas nos EUA, ele começou a sentir um vazio.
O resultado foi ‘Nebraska’: álbum acústico captado de modo amador em casa e lançado sob resistência da gravadora, mas insistência do artista e seu empresário, Jon Landau. A história do período ganhou contornos dramáticos ao virar a cinebiografia ‘Springsteen: Salve-me do Desconhecido’, inspirada no livro ‘Deliver Me from Nowhere’, de Warren Zanes.
Como prometido pelo diretor Scott Cooper, o filme foge do formato tradicional de biopic, seja pelo recorte temporal delimitado ou por sua temática obscura. Há vislumbres da glória de Bruce, mas o foco está nas batalhas internas e a conexão disso à sua infância, frequentemente abordada por flashbacks.
Este não é um filme sobre Bruce Springsteen ou ‘Nebraska’. É um filme sobre depressão, com o músico americano de personagem principal. Por isso, boa parte de suas cenas mais importantes ocorre com o protagonista ainda criança (representado por Matthew Anthony Pellicano) junto à calorosa mãe, Adele (Gaby Hoffmann), e ao pai abusivo e alcoólatra, Douglas (Stephen Graham). A relação tensa entre Douglas e o pequeno Bruce guia a trama.
Mas, claro, as cenas com potencial para despertar maior interesse do público trazem Jeremy Allen White. O intérprete de Springsteen adulto evita imitações caricatas. Por vezes, parece até Carmy Berzatto, seu personagem na série ‘The Bear’, que o alçou à fama. E na maior parte do tempo funciona, pois soa espontâneo.
Jeremy Strong arrasa como Jon Landau, homem que começou como crítico musical feroz para, no meio da década de 70, enxergar o ‘futuro do rock’ em Springsteen e virar seu empresário/produtor. Sem a firmeza de Landau no trato com a gravadora, ‘Nebraska’ seria só uma coleção de demos descartadas. E sem a atuação sólida de Strong, ‘Springsteen: Salve-me do Desconhecido’ perderia força.
Outro acerto: Scott Cooper e elenco não perdem tempo ao ditar o ritmo. Em 10 minutos de filme já estamos em Colts Neck, cidade em que Bruce se isola e cria ‘Nebraska’. Em 20 o processo de composição se inicia, com direito a mostrar o modesto equipamento de gravação das demos. Dá gosto de ver.
Surgido em meio a questões existenciais de maior peso, o dilema artístico que muitos acreditariam ser o gancho principal do longa até perde importância. Falo da disputa para guardar as músicas de ‘Born in the U.S.A.’ e lançar ‘Nebraska’ como Springsteen queria. Mas a situação está lá, e é quando a performance de Strong se impõe.
O grande equívoco ocorre quando Cooper se rende às demandas de Hollywood ao inventar uma personagem que tem um romance com Bruce. Interpretada por Odessa Young, Faye Romano busca agregar elementos de outras mulheres da vida do artista. Na história real, Springsteen estava solteiro no período e, dado seu estado mental, sequer dava para imaginá-lo com alguém. Boa atuação de Young à parte, Romano fica ‘sobrando’ na trama. Só serve para reforçar a existência dos sentimentos negativos do músico e entregar um casal, algo exigido em dramas de grandes estúdios.
Tem quem possa se incomodar ainda com o número reduzido de momentos musicais, mas dado o direcionamento escolhido, era esperado. White canta de verdade - e bem - enquanto os atores que representam a E Street Band aparecem quase tanto tempo quanto os músicos aleatórios do bar The Stone Pony, frequentado por Springsteen em meio aos intervalos de composição. Como curiosidade: Jake e Sam Kiszka, respectivamente guitarrista e baixista do Greta Van Fleet, e Jay Buchanan, vocalista do Rival Sons, integram a banda de ‘desconhecidos’.
Fato é que ‘Springsteen: Salve-me do Desconhecido’ está voltado ao interior. Logo, suas passagens mais fortes ocorrem quando aposta-se em silêncio, diálogos econômicos ou música. Talvez a direção pudesse desafiar os paradigmas do showbiz como Bruce o fez com ‘Nebraska’, mas o resultado é honesto e faz jus a ‘The Boss’”.
O que disse a crítica 1: Kevin Rick do site Plano Crítico avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Em um cenário saturado de cinebiografias musicais previsíveis (...), ‘Springsteen: Salve-me do Desconhecido’ se destaca por seu diferencial, retratando um capítulo obscuro da carreira de Bruce Springsteen. O longa não reinventa o gênero, claro, mas há uma qualidade clara na coragem da obra em temas complicados e em uma visão turva do artista para o público. Não há glamour, não há apoteose, não há ‘grande momento’ e há muita verdade nisso. Faltou mais coesão e vigor narrativo, mais desenvolvimento do lado musical, e principalmente mais aprofundamento dos personagens e seus relacionamentos, mas a produção ainda vinga como uma pequena película curiosa e melancólica sobre um grande músico”.
O que disse a crítica 2: Felipe Aguiar do site Coisa de Cinéfilo avaliou com 4,2 estrelas, algo entre o ótimo e o excelente. Escreveu: “Talvez ‘Springsteen: Salve-me do Desconhecido’ seja uma das melhores cinebiografias dos últimos tempos justamente por saber escolher o que mostrar. A força do filme está em seu poder de decisão de delimitar um tempo que é um reflexo de um passado – onde essas cenas são milimetricamente calculadas para não dominarem o filme, mas entregarem o que precisam. Com um elenco que abraça a dor de sua história com cuidado e sensibilidade, este é um dos longas que merecem ser experienciados na telona”.
O que eu achei: Gostei bastante do recorte feito na cinebiografia do músico Bruce Springsteen, mostrando não a forma como ele alcançou o estrelato, mas sim o período mais complicado de sua vida quando ele, sofrendo de depressão, compôs as músicas para o álbum “Nebraska” (1982). O filme começa em 1981, seu álbum “The River” (1980) estava no topo das paradas nos EUA e ele estava em turnê. O longa mostra o forte contraste entre a adoração de milhares de fãs e o vazio absoluto de voltar sozinho para uma casa alugada em Nova Jersey. Como o próprio Bruce costumava dizer: “Eu não sou a minha melhor companhia". Sem a distração e a adrenalina dos palcos, os traumas de infância começam a vir à tona. Lembranças envolvendo sua infância junto aos pais, especialmente sua relação complexa e dolorosa com um pai que sofria de distúrbios mentais, começam a levá-lo para um esgotamento que ele canaliza na música. Ele se isola em seu quarto com um gravador de fitas cassete e começa a compor canções extremamente sombrias e acústicas. É o nascimento das demos de “Nebraska”. A depressão se aprofunda quando ele entra em conflito com as expectativas da gravadora. Ele rejeita as versões gravadas em estúdio com a E Street Band por achar que a energia do grupo destruía o sentimento de isolamento que ele precisava expressar. Por sorte, seu empresário e amigo próximo, Jon Landau, é um cara sensato que intermedia essas negociações preservando o desejo do artista. Além disso ele o incentiva fortemente a buscar ajuda profissional e Bruce finalmente inicia um processo de terapia que o salva desse buraco sem fundo. É interessante observar como o álbum “Nebraska” evidencia sua integridade artística. Ele poderia simplesmente ceder às pressões da gravadora fazendo um álbum comercial, grandioso, com a E Street Band para capitalizar o sucesso de “The River”. Em vez disso, Bruce insiste em lançar as fitas cassete brutas e caseiras, gravadas em seu quarto. Essa escolha corajosa não apenas consolidou “Nebraska” como uma obra-prima crua e intimista, mas também redefiniu o que significava ser um astro do rock no auge da fama. O filme captura com maestria esse triunfo do homem sobre a máquina da indústria fonográfica. No papel principal temos Jeremy Allen White, que consegue capturar a verdade emocional e a honestidade das letras de Bruce. Aliás, vale salientar que, sempre que Bruce aparece cantando na tela, os vocais são do próprio Jeremy. No papel de Jon Landau está Jeremy Strong. Quem conhece Landau diz que ele está perfeito na pele do empresário e mentor de Bruce, um cara centrado, calmo e bastante coerente em suas decisões. O pai de Bruce é feito por Stephen Graham. Quem assistiu a série “Adolescência” (2025) vai se lembrar dele. Ele entrega uma atuação visceral e opressora, sendo a personificação física dos fantasmas de Bruce. Grace Gummer, filha da atriz Meryl Streep, também está no elenco, fazendo uma ponta como a esposa de Jon Landau. Interessante observar que mesmo com toda a descrença da gravadora, “Nebraska” chegou ao número 3 das paradas. Além disso, algumas músicas compostas nessa época foram retrabalhadas com a E Street Band e deram origem ao disco seguinte de Bruce Springsteen - “Born in the U.S.A.” (1984) - que catapultou de vez a carreira de Bruce ao redor do mundo. Terminei de assistir vendo Bruce Springsteen com outros olhos. Excelente pedida.

2.10.26

“Blossons Shangai” - Wong Kar-Wai (China, 2023-2024)

Sinopse:
A série acompanha a ascensão meteórica e as provações de Ah Bao (Hu Ge), um jovem ambicioso que se transforma em um dos empresários mais bem-sucedidos de Xangai durante o boom econômico dos anos 1990. Guiado pelo mentor tio Ye (You Benchang), o protagonista navega pelo perigoso e glamouroso mundo dos negócios, acumulando uma imensa fortuna através do mercado de ações e do comércio nacional e internacional.
Comentário: Trata-se de um seriado composto por uma única temporada e subdividido em 30 episódios, criado a partir da adaptação do romance “Blossoms” de Jin Yucheng, vencedor do Prêmio de Literatura Mao Dun em 2015.
A palavra “Blossoms” (que significa "Flores" ou "Desabrochar" em inglês) carrega um significado simbólico no contexto do seriado. A série se passa no início dos anos 1990, época em que a China passava por intensas reformas econômicas. O termo simboliza o florescimento financeiro, cultural e social de Xangai. A cidade surge como um terreno fértil, cheio de oportunidades, onde novos ricos, mercados de ações e comércios vibrantes brotam da noite para o dia.
O diretor Wong Kar-Wai declarou que considera “Blossoms Shanghai” a terceira e última parte de sua "Trilogia de Xangai". Segundo ele, o seriado encerra uma narrativa temática que começou no cinema com os aclamados filmes “Amor à Flor da Pele” (2000) e “2046” (2004).
Em “Amor à Flor da Pele” (2000), estamos em Hong Kong no começo da década de 1960. A secretária Su Li-zhen (Maggie Cheung Man-yuk), casada, aluga um quarto numa pensão. O quarto ao lado, que também está vago, é alugado pelo também casado senhor Chow (Tony Leung), editor-chefe de um jornal local. Tanto a secretária quanto o editor chefe são de Xangai. Essa pensão onde eles vão morar é de propriedade da Sra. Suen, outra xangainesa. Todo aquele microcosmo de fofocas, jogos de mahjong e jantares reproduz os costumes de Xangai em Hong Kong. Com isso, o dialeto de Xangai ecoa na ambientação local. Há também, em comum, o lirismo romântico pautado por desencontros amorosos, melancolia, oportunidades perdidas e a inevitável passagem do tempo - marcas registradas de “Amor à Flor da Pele” – e que podem ser vistas nas relações do protagonista Ah Bao com as mulheres que cruzam o seu caminho.
Com relação à “2046” (2004), o protagonista desse longa é o criador do mundo de "Blossoms Shangai". Na trama desse filme estamos entre os anos de 1966 e 1969. Acompanhamos justamente o editor-chefe do filme anterior: o jornalista e escritor Chow Mo-wan (Tony Leung) em um estado de decadência. A maior parte da história de “2046” também se passa em Hong Kong e Singapura. O escritor faz parte exatamente daquela comunidade de imigrantes xangaineses que se mudaram para Hong Kong nos anos 1940 e 1950. Para escapar de sua realidade dolorosa ele começa a escrever um livro de ficção científica ambientado em um trem que viaja para o ano 2046. O diretor Wong Kar-Wai declarou que, estruturalmente, enxerga “Blossoms” como se fosse o romance que Chow Mo-wan estava escrevendo. A série dá vida àquela Xangai mítica, hiperestilizada e cheia de segredos que o escritor tentava criar em sua mente.
A ligação desses dois filmes com o seriado é que, embora nesses dois filmes anteriores as histórias se passem na Hong Kong dos anos 1960, a comunidade retratada é composta majoritariamente por imigrantes que fugiram de Xangai, com os personagens principais mantendo os hábitos, os figurinos elegantes e o dialeto de sua terra natal. Já “Blossoms Shanghai” foca na geração que nasceu, cresceu e permaneceu na cidade, mostrando o que aconteceu no território que Chow e Su deixaram para trás. Além disso, a série herda a mesma assinatura visual consagrada do diretor nos cinemas: iluminação neon suntuosa, uso dramático de sombras, câmera lenta e foco na culinária e na moda da época.
O que eu achei: O primeiro episódio é daqueles que mal dá tempo de digerir tudo o que é despejado em cima do espectador, não só em termos de apresentação de personagens como de acontecimentos. Para piorar as coisas, ele intercala presente e passado, dificultando ainda mais a compreensão do que está sendo apresentado. Mas o que posso dizer é que se você superar o desafio do primeiro episódio e seguir em frente o ritmo frenético diminui tornando todo o restante do seriado mais fácil de acompanhar. Essa enxurrada de informações e o ritmo inicial me pareceram intencionais para retratar o "boom" do hipercapitalismo chinês das décadas de 1980-1990. Esse contexto vai nos mostrar como um jovem operário comum e ambicioso chamado Ah Bao fez para se tornar um poderoso magnata dos negócios em Xangai, nesse período de grandes oportunidades. Nesse primeiro episódio, vamos ser apresentados ao seu tio Ye, um veterano do mercado financeiro, um homem vivido e que aceita ser seu mentor nesse objetivo do sobrinho de mudar de vida, aproveitando as oportunidades que a cidade passa a oferecer com a modernização econômica da China. É sob a tutela cirúrgica do tio que Ah Bao aprende a entender o mercado de ações e o comércio exterior. Ele faz uma imensa fortuna na recém-aberta Bolsa de Valores de Xangai. Vamos conhecer também duas mulheres que orbitam Bao. Uma se chama Ling Zi, ela é a dona do restaurante Noites de Tóquio e sócia de Bao. A outra é a senhorita Wang, uma funcionária enérgica e barulhenta da empresa estatal de Importação e Exportação. Ela é o braço direito de Bao na burocracia governamental, ajudando a aprovar suas grandes transações comerciais. Em termos de cenário, quase tudo se passa na Rua Huanghe, centro de Xangai. Uma rua que existe no mundo real e que, nos anos 1990, contava com mais de 100 restaurantes e era famosa por seus letreiros em neon gigantescos, atraindo novos ricos, empresários e muita ostentação. É nessa rua que vamos conhecer uma terceira personagem feminina importante na vida de Bao: a senhorita Li Li, que chega a Xangai oriunda da cidade de Shenzhen e abre um restaurante luxuoso chamado Grand Lisboa. Daí pra frente - além da relação complexa entre Bao, seu tio e essas três mulheres - a narrativa mergulha na frenética guerra de ações da Bolsa de Valores, no comércio exterior e na feroz rivalidade corporativa entre os donos dos restaurantes da Rua Huanghe. A fotografia hiper primorosa que logo de cara nos é apresentada é o ponto forte do seriado. Não tem um episódio que não chame a atenção pelo capricho nesse quesito. Outro ponto interessante é o tom propositadamente melodramático, exagerado e meio brega observado nos personagens e na trilha sonora que, ao invés de soar repulsivo, atrai como uma marca artística para retratar as pessoas que enriqueciam rápido e queriam ostentar, usando ternos italianos caríssimos, joias chamativas, jantando em restaurantes chiques e fazendo caras e bocas. A atuação ‘canastrona’ e cheia de charme do ator Hu Ge (que vive o Sr. Bao) traduz perfeitamente a vaidade e a autoconfiança excessiva daquela geração que achava que podia conquistar o mundo. Tudo na série é ‘a mais’: as luzes, os olhares em câmera lenta, as risadas e as reações dos personagens. O resultado é tipo um novelão. A pegada cafona assumida pelo diretor deixa os episódios divertidos de assistir. Tudo para retratar a energia mítica e quase teatral de uma Xangai que não existe mais. Se eu gostei? Não diria que foi meu seriado favorito, mas terminei de ver entendendo perfeitamente o que aconteceu com a China nas décadas de 1980-1990. É tipo uma aula de história no formato de uma novela das nove. Então vale ver.

28.9.26

“O Império dos Sentidos” - Nagisa Oshima (Japão/França, 1976)

Sinopse: Uma ex-prostituta chamada Sada Abe (Eiko Matsuda) se envolve em um caso de amor obsessivo com Kichizô Ishida (Tatsuya Fuji), o senhorio da propriedade onde ela trabalha como criada. O que começa como uma diversão inconsequente, transforma-se em uma paixão que ultrapassa limites.
Comentário: Trata-se do filme número 89 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Oshima já era um veterano quando realizou, em 1976, este polêmico drama de alta carga erótica. O diretor, que estreou em 1959 no conjunto de jovens cineastas talentosos que constituiu o que se tornou conhecido como Nouvelle Vague japonesa, acumula 46 títulos em sua filmografia. Mas foi a repercussão de ‘O Império dos Sentidos’ que tornou seu nome mais conhecido nos países ocidentais. Na esteira de ‘O Último Tango em Paris’, feito por Bertolucci em 1972, Oshima narra os encontros sexuais de um casal, que evolui do prazer a jogos de poder e dominação que culminam em tragédia. Amor e destruição caminham acoplados até um ápice em que a comunhão entre os dois e o sentimento que os aproxima não se distingue da necessidade de um ser destruído pelo outro. Sexo e morte, desejo e aniquilamento atravessam cada cena, numa espécie de ritual sobre os mecanismos da perversão em que a questão moral é abolida para que o espectador seja exposto a forças que não constam em seus hábitos visuais. A exposição crua de cenas explícitas de sexo levou o filme a ser considerado obsceno em vários países, mas também atraiu um público que correu aos cinemas para ver situações eróticas até então limitadas ao mercado da pornografia. A entrega ao sexo como única forma de prazer também pode ser lida como o símbolo do final de uma época, os anos 1960, em que os ideais utópicos estavam sendo ultrapassados e já não restavam muitas crenças na política e na sociedade. Oshima fez um filme não só polêmico, mas premonitório”.
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de ver todos os filmes listados pela Revista Bravo! em 2007 como ‘essenciais’, desta vez assisti a “O Império dos Sentidos” (1976). Eu já havia visto a obra no cinema na época de seu lançamento no Brasil, mas não sabia que o enredo é baseado em um caso real ocorrido no Japão nos anos 1930, época em que o país vivia uma onda de forte militarismo e imperialismo. O que se sabe é que a verdadeira Sada Abe (interpretada por Eiko Matsuda) era uma ex-gueixa e prostituta que começou a trabalhar como garçonete em um restaurante em Tóquio. Lá, ela conheceu o dono do estabelecimento, Kichizō Ishida (interpretado por Tatsuya Fuji), que era casado. Os dois iniciaram um caso amoroso que rapidamente se transformou em uma obsessão mútua. Isolados, eles passavam dias praticando jogos sexuais extremos, que evoluíram para a asfixia erótica. Durante um desses episódios, enquanto Kichi, como ela o chamava, dormia exausto, Sada o estrangulou com a faixa de um quimono. Em seguida, usou uma faca de cozinha para castrá-lo. Antes de deixar o local do crime, Sada escreveu mensagens de amor no corpo do amante usando seu próprio sangue e passou os três dias seguintes vagando por Tóquio. Ela carregava os genitais decepados dentro de suas vestes, tratando-os como ‘relíquias sagradas’. Quando a polícia finalmente a encontrou, ela não resistiu à prisão e confessou ter agido puramente por amor e pelo desejo de posse absoluta. Surpreendentemente, a opinião pública e até mesmo os juízes demonstraram certa simpatia pelo seu ‘crime de amor’. Sada foi condenada a apenas 6 anos de prisão, cumprindo 5. Após ser libertada, escreveu uma autobiografia, trabalhou brevemente no teatro interpretando a si mesma e desapareceu por completo na década de 1970, tornando-se uma figura mítica na cultura pop japonesa. Essa história veio à tona em maio de 1936, transformando-se na principal notícia dos jornais e ofuscando as tensas manchetes políticas da época. Existem pelo menos 6 filmes diretamente baseados nessa história. O de Nagisa Oshima é o mais célebre deles. O diretor queria fazer uma obra que quebrasse as barreiras do convencional. Ele queria que o longa contivesse sexo real e não simulado entre os atores principais, algo estritamente proibido pelas leis de obscenidade do Código Penal Japonês, que até hoje restringe a exibição de genitais. Para conseguir finalizar e lançar a obra sem ser preso ou ter o material apreendido, Oshima bolou um plano: registrou oficialmente o filme como uma coprodução franco-japonesa. As cenas explícitas foram filmadas em Kyoto, mas os rolos de filme foram enviados para Paris para serem revelados e editados. Quando ficou pronto, o longa passou a ser considerado, legalmente, um filme francês. Ao ser exibido no Festival de Cannes de 1976, o longa foi um sucesso estrondoso de crítica, gerando debates acalorados sobre as fronteiras entre a pornografia e a arte de vanguarda. No Japão, o governo não pôde confiscar a película porque ela pertencia a uma produtora francesa; no entanto, Oshima foi processado criminalmente por obscenidade após publicar o roteiro e fotos da produção em um livro em território japonês. O julgamento arrastou-se por quatro anos, mas o diretor acabou absolvido. Já o filme original e sem cortes continua banido de exibições públicas no Japão até os dias de hoje, sendo veiculado apenas com tarjas de censura ou desfoque digital. Quanto ao elenco contratado, a jovem Eiko Matsuda era uma atriz quase desconhecida quando aceitou o papel. Antes de viver Sada, ela havia trabalhado em papéis menores em filmes independentes de baixo orçamento, produções eróticas e trabalhos como modelo fotográfica. Já Tatsuya Fuji era um ator veterano razoavelmente conhecido, que vinha trabalhando há anos em filmes de ação policial, produções de gangues juvenis e dramas eróticos, sendo um rosto mais familiar. Quanto ao filme, a obra prova que o ato sexual cru podia ser usado não apenas no circuito marginal da pornografia de baixo orçamento, mas também como ferramenta narrativa de altíssima qualidade técnica, com fotografia sofisticada, enquadramentos rigorosos e atuações dramáticas intensas. Essa fusão brutal de erotismo e pulsão de morte influenciou dezenas de cineastas modernos. É um longa que, se você deixar o moralismo de lado, vale muito a pena ver. Ele foi, de fato, essencial para a história do cinema.

27.9.26

“Palestina 36” - Annemarie Jacir (Território Palestino Ocupado/Reino Unido/Catar/França/EUA/Dinamarca/Jordânia/Emirados Árabes Unidos/Arábia Saudita/Itália/Turquia/Suécia/Austrália/Noruega, 2025)

Sinopse:
Em 1936, enquanto as aldeias palestinas se revoltam contra o domínio colonial britânico, Yusuf (Karim Daoud Anaya) viaja entre Jerusalém e sua casa rural, em meio à escalada de agitação e um momento decisivo para o Império Britânico.
Comentário: Annemarie Jacir (1974) é uma escritora e cineasta palestina. Ela pertence a uma nova geração de cineastas locais que conquistam o público ocidental com filmes impactantes. Dentre suas produções consagradas estão “O Sal Deste Mar” (2008), que recebeu duas indicações no prestigioso Festival de Cannes, e “Quando Vi Você” (2012), vencedor de um prêmio no Festival Internacional de Cinema de Berlim. O drama histórico “Palestina 36” (2025) é o primeiro longa que vejo dela.
Se você pretende assistir ao filme Palestina 36, é importante entender o contexto da trama antes. Não se trata de um documentário, mas sim de um drama histórico épico baseado em fatos reais ocorridos na Palestina em 1936. Vale a pena esclarecer alguns pontos:
1. Em 1936, a Palestina já estava ocupada pelos ingleses?
Sim. Desde o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando o Império Otomano desmoronou, a Sociedade das Nações (que seria a avó da ONU) entregou a região para o controle da Grã-Bretanha. Isso ficou formalmente conhecido como o Mandato Britânico da Palestina. Em 1936, os ingleses já mandavam e desmandavam ali havia quase duas décadas.
2. O que aconteceu em 1936?
Aconteceu o que os historiadores chamam de Grande Revolta Árabe (ou Grande Revolta Palestina), que durou de 1936 a 1939. Foi o maior, mais longo e mais expressivo movimento dos palestinos para tentar expulsar os colonizadores ingleses. Para você entender o tamanho da insatisfação local que gerou essa explosão, imagine duas grandes pressões acumuladas:
- O Domínio Britânico: os palestinos queriam sua independência e viam a Grã-Bretanha confiscando terras e cobrando impostos abusivos.
- A Imigração em Massa: paralelamente, milhares de judeus fugiam desesperadamente do antissemitismo e do crescimento do fascismo e nazismo na Europa. Os britânicos facilitavam a entrada dessa imigração judaica e a venda de terras para o movimento sionista, gerando o temor generalizado nos camponeses árabes locais de que eles seriam gradualmente expulsos de suas próprias terras.
3. O que seria exatamente esse movimento sionista?
O movimento sionista (ou simplesmente sionismo) é, em sua definição essencial, o nacionalismo judaico. Trata-se de um movimento político e ideológico surgido no final do século XIX na Europa que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e a criação e manutenção de um Estado nacional próprio na região histórica do antigo Reino de Israel (também conhecida como Palestina).
O termo deriva de Sião, o nome de uma colina em Jerusalém que se tornou, ao longo dos séculos de dispersão (diáspora), um símbolo da pátria bíblica e do desejo de retorno dos judeus à terra de seus ancestrais.
Sua origem se deu por conta do crescimento do antissemitismo. O movimento ganhou força na Europa Central e Oriental diante de uma forte onda de perseguição e discriminação contra comunidades judaicas. Intelectuais judeus concluíram que a única forma de garantir a segurança e a sobrevivência do seu povo seria possuindo um Estado soberano.
O jornalista austro-húngaro Theodor Herzl é considerado o pai do sionismo político. Ele organizou o Primeiro Congresso Sionista Mundial em 1897, na Basileia (Suíça), estruturando o movimento institucionalmente.
4. Como se deu essa Grande Revolta Árabe ou Grande Revolta Palestina?
A revolta começou em abril de 1936 de forma impressionante: com uma greve geral de seis meses. O comércio fechou, o transporte parou e a população se recusou a pagar impostos para o governo britânico. Como os ingleses não cederam, o movimento escalou a partir de 1937 para uma guerrilha nas montanhas e vilarejos rurais. Grupos de camponeses sabotavam linhas de trem, cortavam cabos de comunicação e emboscavam tropas britânicas para tentar inviabilizar a ocupação.
5. E qual foi o desfecho dessa revolta?
Os ingleses reagiram com uma violência colonial esmagadora. Mandaram um volume imenso de soldados, instituíram a lei marcial, prenderam lideranças e começaram a demolir casas e punir vilarejos inteiros que ajudavam os rebeldes. A revolta acabou derrotada em 1939, deixando a sociedade palestina muito fragilizada politicamente e militarmente, o que abriu caminho direto para a partilha da região anos mais tarde.
6. O que esperar do filme?
O filme vai tentar retratar esse evento. O coração do filme são os aldeões palestinos, em especial Yusuf e sua família. Na cidade o filme foca em duas famílias: a família de Amir e a de Khuloud, dois intelectuais urbanos em Jerusalém e moradores da vila rural de Al Basma. As duas famílias estão ligadas por Yusuf. Espere ver um retrato forte e sem filtros sobre como o colonialismo britânico sufocou essa revolta e como os eventos de 1936 criaram as bases de tudo o que acontece no território até os dias de hoje.
7. Há no filme personagens que interpretam pessoas reais?
- Os personagens palestinos são todos fictícios e vêm de lugares diferentes.
- Khuloud, a jornalista, interpretada por Yasmine Al Massri é uma mistura de jornalista da alta sociedade com uma socialite que vivia em Jerusalém na época e era muito conhecida por suas festas com os britânicos. A elite palestina se misturava bastante com os britânicos. E as mulheres que eram jornalistas na época e fundavam gráficas escreviam sob pseudônimos masculinos para serem levadas a sério, mas também porque esses lugares tinham governos coloniais e escrever sob um pseudônimo quando se fazia uma crítica era, na verdade, uma forma de proteção.
- Wingate, um oficial britânico e sionista cristão interpretado por Robert Aramayo, foi um homem realmente violento e desequilibrado. Ele era muito mais insano do que o filme mostra. Ele foi dispensado do Exército Britânico e da Palestina. Estava fora do sistema, fazendo as coisas do jeito dele no campo de batalha.
- Thomas Hopkins, o secretário do alto comissário, é baseado em uma pessoa real que realmente se demitiu e se tornou marxista. Ele foi para lá pensando que havia boas intenções, que estavam fazendo algo pela população nativa e que seria útil, mas aos poucos, em seus diários, ele percebe que é um projeto fracassado com uma agenda oculta, e que não quer fazer parte disso. Ele acaba se demitindo e se tornando um marxista e ativista anticolonial pelo resto da vida. No filme ele é Hopkins, interpretado por Billy Howle, mas seu nome verdadeiro era Hodgkin.
- O vencedor do Oscar Jeremy Irons interpreta Sir Arthur Grenfell Wauchope, o alto comissário britânico para o Mandato Britânico da Palestina.
- Liam Cunningham interpreta Charles Tegart, o especialista em contrainsurgência da vida real que explica ao alto comissário e a outros oficiais britânicos a necessidade de táticas antiterroristas extremamente brutais para suprimir a Revolta Árabe. Charles era irlandês. Ele foi o primeiro a idealizar o conceito de um muro, não os israelenses - eles fizeram isso depois. Tudo o que os britânicos fizeram, os israelenses simplesmente copiaram o projeto.
8. Onde foram feitas as filmagens?
O longa foi filmado na Jordânia, Palestina, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Jaffa e Belém. A diretora declara que ele foi feito em condições extremamente difíceis e que tiveram que interromper as filmagens quatro vezes. O que deveria durar três meses acabou se tornando quase dois anos de luta para concluir o filme, pois ele foi rodado durante o genocídio.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Através desta obra, os palestinos ganham um mito, uma pedra simbólica, em detrimento de uma proposta de debate qualificado - até porque a direção nos diz exatamente o que pensar e sentir; qual lado defender, e quem temer. Não resta muito à participação do espectador: somos passivamente colocados na posição de alunos silenciosos, destinados a nos calar e aprender. Caso chegue, de fato, a um público amplo, este projeto tão megalomaníaco quanto idealista pode vir a conquistar alguns adeptos e conscientizar certas mentes mal-informadas. Quem sabe, ele funcione enquanto primeiro passo para obras menos desengonçadas, que, sobretudo, coloquem o povo palestino enquanto público-alvo de sua própria história”.
O que disse a crítica 2: Peter Bradshaw do site The Guardian também avaliou com 3 estrelas. Escreveu: “Este é um filme comovente, embora com um ritmo um tanto lento e, por vezes, com uma abordagem didática. (...) Há um vasto elenco de personagens, com o conteúdo emotivo do filme cuidadosamente distribuído entre todos eles, embora o cerne da história seja Yusuf (Karim Daoud Anaya), um rapaz do interior que consegue um emprego em Jerusalém com um editor de jornal cosmopolita e de centro-liberal, que não se opõe a fazer concessões ao sionismo. Yusuf não é particularmente político, mas acaba sendo radicalizado pela brutalidade britânica. Nenhum desses personagens se entrega completamente à paixão, mas todos são retratados de forma convincente, e o filme serve como um lembrete veemente do que não se ensina nas escolas britânicas”.
O que eu achei: Escolhido oficialmente para representar a Palestina no Oscar de Melhor Filme Internacional, “Palestina 36” (2025) é um resgate poético e urgente das origens de um conflito que ecoa até os dias atuais. O longa se debruça sobre a Grande Revolta Árabe ocorrida de 1936-1939 contra o domínio colonial britânico, um período pouquíssimo explorado pelo cinema ocidental. A trama acompanha Yusuf, um jovem palestino dividido entre o cotidiano pacato da aldeia rural onde reside e a efervescência política de Jerusalém onde trabalha. O roteiro costura o grande evento histórico - o aumento das tensões com o Mandato Britânico e a chegada massiva de refugiados judeus que fugiam do nazismo e do fascismo europeu - com as pequenas histórias individuais. A narrativa opta por centralizar o foco na engrenagem colonial britânica, mantendo a comunidade de colonos judeus em segundo plano, vislumbrada de forma mais distante. O mais interessante da obra está em como ela reivindica o peso histórico dessa revolta. A insurreição popular anticolonial - iniciada por uma greve geral massiva de seis meses - é retratada em sua raiz camponesa e trabalhadora. A diretora faz questão de ilustrar as engrenagens da dominação britânica: os altos impostos sobre a agricultura, o confisco de propriedades e as leis marciais brutais. Ao focar na violência esmagadora usada pelo Império Britânico para sufocar o levante, o filme traça uma linha histórica direta, mostrando como as estruturas de repressão impostas naquela década desmantelaram a sociedade palestina, deixando-a fragmentada, sem liderança centralizada e militarmente indefesa. Um cenário de vulnerabilidade cujos reflexos podem ser notados até os dias de hoje. Visualmente, o filme é muito bem feito. A cinematografia de Hélène Louvart captura com precisão o contraste entre a beleza natural da terra e a violência da opressão colonial, enquanto a trilha sonora de Ben Frost constrói uma atmosfera de tensão crescente. O elenco, encabeçado por rostos conhecidos do cinema como Jeremy Irons e Robert Aramayo, entrega o peso emocional que a história exige. Claro que o filme despertou debates acalorados na crítica internacional. Setores mais conservadores acusaram o longa-metragem de promover uma revisão histórica parcial e romantizada ao pintar a sociedade palestina da época como uma frente artificialmente unificada contra o colonialismo. Críticos apontam que o roteiro suaviza as violentas fraturas internas entre clãs rivais - como os Husaynis e os Nashashibis - e os choques culturais entre camponeses e as elites urbanas. Da mesma forma, a caracterização de figuras militares britânicas, como o capitão Wingate, é criticada por deslizar para uma vilanização caricata. De qualquer forma, creio que um filme é sempre uma representação. Tem sempre um ponto de vista e me parece válido, eventualmente, darmos voz para uma opinião palestina e feminina. Com isso, apesar das controvérsias, é uma boa porta de entrada para se entender um pouco mais daquela realidade.

26.9.26

“Seymor Hersh: Em Busca da Verdade” - Laura Poitras e Mark Obenhaus (EUA, 2025)

Sinopse:
Ele dedicou a carreira a descobrir as verdades que os poderosos queriam esconder. De My Lai a Abu Ghraib, conheça melhor o trabalho do jornalista Seymour Hersh.
Comentário: Trata-se de um documentário sobre Seymour Hersh (1937), um renomado jornalista investigativo norte-americano que ganhou um prêmio Pulitzer em 1970 pela reportagem em My Lai (Vietnã). Dentre suas principais coberturas estão o massacre de My Lai (1969/1970); o escândalo de Watergate (1972-1974) e a prisão de Abu Ghraib (2004), dentre outros.
Eduardo Graça do O Globo publicou: “Quando Seymour Hersh revelou o massacre cometido, em 1968, por soldados americanos em My Lai contra civis vietnamitas, inclusive bebês, o jornalista foi acusado de atentar contra o interesse nacional. Penou para publicar a reportagem. Os horrores lhe renderam muitas noites sem dormir e um Pulitzer.
Em 2004, denunciou torturas e abusos sofridos por prisioneiros em Abu Ghraib após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. As Forças Armadas chiaram novamente. De seus pares, recebeu o epíteto de ‘aquele que faz o poder tremer’.
Teimosamente na ativa aos 88 anos, ele é a razão de ser de ‘Seymour Hersh: Em Busca da Verdade’, documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus, [que foi] pré-indicado ao Oscar (...).
Lá se vão duas décadas desde que Poitras, após devorar os textos de Hersh na New Yorker sobre a Guerra ao Terror do governo George W. Bush, quis cooptá-lo para o filme. Perfilá-lo, defendia, seria ideal para escancarar o ciclo de abuso de poder em Washington desde os anos 1960. À época, o jornalista justificou sua negativa com a necessidade de proteger suas fontes.
Há três anos, a morte de informantes, a insistência de Poitras e os filmes por ela dirigidos no período garantiram sua bênção ao projeto. ‘Em Busca da Verdade’ foi finalizado com Donald Trump de volta à Casa Branca, quando a reflexão sobre o precário estado da democracia americana, a propagação de fake news e o cerco de Washington a uma imprensa em crise está na pauta do dia.
‘Hoje são mais nítidas as consequências da impunidade dos crimes cometidos pelos governantes. Desgraçadamente, a escala do que eu queria mostrar aumentou. Por outro lado, o posicionamento do filme se fortaleceu’, afirmou a diretora ao GLOBO, por videochamada.
Quando abordou Hersh em 2005, Poitras, então com 41 anos, acabara de dirigir seu primeiro longa, ‘My Country, My Country’, passado no Iraque ocupado. Uma década depois receberia o Oscar por ‘Cidadãoquatro’, a partir das revelações de Edward Snowden sobre programas secretos de vigilância da Agência de Segurança Nacional dos EUA. Depois mergulhou no WikiLeaks e em Julian Assange para seu ‘Risk’. E no ano passado recebeu o Leão de Ouro em Veneza por ‘Toda Beleza e Carnificina’, sobre o ativismo político da fotógrafa americana Nan Goldin.
Hersh viu os filmes. E tomou nota dos riscos envolvidos no trabalho de uma das fundadoras da plataforma Intercept, da qual depois se desligaria.
‘A obra do Sy [como é conhecido pelos amigos] é tão impressionante que não cogito me colocar no patamar dele. Identifico, sim, paralelos, no interesse por narrativas não-oficiais, no questionamento dos limites do poder. E sei que o respeito mútuo pesou para ele finalmente me dizer sim’, afirmou Poitras.
‘Em Busca da Verdade’ persegue a trajetória de Hersh com o objetivo de reforçar a importância, para a saúde das democracias, de se detectar e enfrentar o câncer da impunidade. Ao GLOBO, Poitras comparou como as instituições, nas duas maiores democracias das Américas, têm lidado com a doença. Classificou como ‘bom sinal’ o julgamento e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que, até o momento, ‘arca com as consequências de seus atos’: ‘Isso jamais aconteceu nos EUA, e não só com Trump. [O vice-presidente] Dick Cheney normalizou a tortura e não morreu na prisão. [O presidente] Richard Nixon renunciou e foi perdoado’. Por outro lado, o assassinato de mais de uma centena de pessoas na operação policial no Rio mês passado atesta que ações de acobertamento ainda alimentam o ciclo de impunidade aí.
Nos EUA, não foram poucos os críticos que, ao elogiarem ‘Em Busca da Verdade’, questionaram se os feitos de Hersh seriam possíveis hoje, em um cenário de mídia fragmentado e com o ciclo ininterrupto de notícias. Poitras crê que documentaristas vêm suprindo lacunas deixadas pelo jornalismo profissional. ‘Destaco o trabalho de Petra Costa, que, com ‘Democracia em Vertigem’ e ‘Apocalipse nos Trópicos’ [também pré-indicado ao Oscar] trata do tema com maestria, a partir da realidade brasileira. Ela é genial’, disse ao GLOBO.
Um dos trunfos de ‘Em Busca da Verdade’ é o uso cirúrgico das imagens de arquivo. Hersh ofereceu, pela primeira vez, e com enorme relutância, acesso ilimitado a seu robusto e caótico baú, das notas do fim dos anos 1960 às conversas com fontes de Gaza nos últimos dois anos. Imagens, rascunhos, documentos e áudios do Vietnã, da queda de Nixon, do golpe no Chile, e de investigações pela CIA ilustram a enormidade do trabalho.
Hersh conta no filme como ter deixado seu número de telefone em entrevista a uma rádio o levou à fonte que lhe forneceu as imagens de Abu Ghraib. A maneira como a mulher encontrou as fotos é outra pequena joia do documentário. O filme também apresenta novas informações sobre a saída do repórter do New York Times, em 1979, quando investigava o crescente poder das corporações e teria esbarrado em interesses não só dos donos do jornal, mas do comando do jornalismo. Após passar pela New Yorker e colaborar com a London Review of Books, ele hoje publica no Substack, na página ‘É pior do que você pensa’, com mais de 200 mil assinantes.
Um dos momentos mais saborosos do documentário se dá na reprodução da conversa de Nixon com seu secretário de Estado, Henry Kissinger, quando classificam Hersh de ‘aquele filho da puta, que sempre está certo’. Mas o filme prova que não era sempre o caso. O repórter também errou. Em um dos equívocos mais célebres, Hersh reconhece ter questionado a denúncia de opositores do regime de Bashar al-Assad de que ele ordenara, como depois comprovado, uso de gás tóxico contra a população. Sua fonte, com quem falava amiúde, era o próprio ditador. ‘No início, Sy ficou reticente em tratar do tema. Mas depois entendeu que só buscávamos algo especialmente caro a ele, a precisão’, disse o codiretor Mark Obenhaus.
O que disse a crítica 1: Ramsés Albertoni do site Observatório da Imprensa avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “O legado de Hersh não é apenas as histórias que ele contou, embora essas histórias tenham mudado a História. Seu legado é a demonstração de que jornalismo de verdade, aquele que importa, aquele que faz diferença, é incompatível com tranquilidade, com segurança, com aceitação. É um trabalho de resistência, de teimosia, de recusa em aceitar as histórias que nos contam. E enquanto houver pessoas dispostas a fazer esse trabalho, sabendo dos riscos, aceitando as consequências, ainda há esperança de que a verdade, eventualmente, prevaleça sobre as mentiras oficiais. Contudo, o documentário termina com o aviso implícito de que essas pessoas estão desaparecendo. E quando a última delas se for, quando ninguém mais estiver disposto a pagar o preço da verdade, não seremos capazes de reconhecer as mentiras que nos governam. Porque ninguém estará lá para contá-las”.
O que disse a crítica 2: Caio Coletti do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “O grande trunfo de ‘Em Busca da Verdade’ é compilar as contranarrativas ouvidas e relatadas por Hersh durante sua carreira, e entender o papel que elas desempenharam no correr da história dos EUA - um país patologicamente indisposto a confrontar a sua própria cultura de violência, a sua tendência a desumanizar o outro, a corrupção absoluta do seu poder absoluto (ou, ao menos, percebidamente absoluto) na política global. Num mundo em que é muito mais fácil aceitar as histórias que nos contam, é preciso gente que não se contente e conte outras. Muito frequentemente, de fato, é um caso de vida ou morte”.
O que eu achei: Assistir a esse documentário me fez lembrar diretamente do longa “Todos os Homens do Presidente” (1976), dirigido por Alan J. Pakula, que mostrava o trabalho dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein investigando e revelando o caso Watergate, um dos maiores escândalos políticos da história dos EUA, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon em 1974. Seymour Hersh (1937) é outro desses jornalistas abnegados. Ele também chegou a investigar o caso Watergate e a lista de furos jornalísticos atribuídos a ele é imensa. O filme mostra as investigações mais importantes e de maior impacto de sua carreira. Uma delas foi sobre o massacre de My Lai (1969), ocasião em que Hersh descobriu e expôs o assassinato em massa de mais de 500 civis inocentes (incluindo mulheres, crianças e idosos) na aldeia sul-vietnamita por tropas do Exército dos EUA. O caso havia sido completamente acobertado pelas forças armadas, mas foi a público graças a ele e virou o principal combustível para os protestos antiguerra nos EUA, rendendo a Hersh o Prêmio Pulitzer de 1970. Outro caso descoberto por ele foi a Operação CHAOS (1974). Hersh revelou que a CIA estava operando um gigantesco e ilegal programa secreto de espionagem dentro do próprio território americano. O alvo eram milhares de cidadãos americanos envolvidos nos movimentos civis e contra a Guerra do Vietnã. O impacto dessa revelação foi que o Congresso americano acabou criando a histórica Comissão Church, que resultou na criação de leis rígidas de fiscalização para a CIA e o FBI. Ele também investigou a intervenção dos EUA no Golpe do Chile (1974), descobrindo o envolvimento direto do governo Nixon e de Henry Kissinger no financiamento oculto e no apoio logístico para desestabilizar o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, abrindo caminho para a ditadura militar de Augusto Pinochet. Embora o discurso público dos EUA fosse o de combate ao comunismo no contexto da Guerra Fria, o estopim prático para a agressiva intervenção foi o interesse deles nas minas de cobre chilenas. Qualquer semelhança com as atuais eleições no Brasil e o interesse em nossos minerais críticos e terras raras não são mera coincidência. Outra investigação que o documentário mostra foi a que ele fez sobre as torturas na prisão de Abu Ghraib (2004). Hersh obteve relatórios militares internos e fotos chocantes que comprovaram que soldados americanos praticavam tortura sistemática, abusos sexuais e humilhações sádicas contra prisioneiros iraquianos na base militar de Abu Ghraib, destruindo a narrativa humanitária da ocupação dos EUA no Iraque. Em 2023, ele ainda investigou de forma independente a sabotagem dos gasodutos Nord Stream. Hersh publicou em seu Substack uma extensa reportagem alegando que o governo de Joe Biden, operando através da CIA e em colaboração com a Marinha da Noruega, planejou e executou as explosões que destruíram os gasodutos submarinos Nord Stream 1 e 2 no Mar Báltico. Embora a Casa Branca tenha negado veementemente a acusação e a reportagem tenha atraído forte controvérsia por se basear em uma única fonte anônima, a revelação chocou o cenário geopolítico no contexto da Guerra na Ucrânia. O título original do documentário - “Cover-Up” (Acobertamento) - é perfeito, pois define exatamente o papel do jornalismo investigativo: expor aquilo que os governos tentam esconder a sete chaves sob a justificativa de segurança nacional. Seu trabalho tornou-se algo em extinção. O cara correu risco de vida; o governo dos EUA frequentemente usava a máquina de comunicação pública para desqualificá-lo, chamando-o de louco, mentiroso ou traidor da pátria. Sustentar essa pressão e continuar batendo na porta de fontes sabendo que o Estado quer destruir sua carreira exige uma coragem rara. Atualmente, com as redações com menos orçamento para investigações longas e o perigo real enfrentado por jornalistas no mundo inteiro, a figura do repórter individual faz muita falta. Ainda existem alguns desses lobos solitários por aí, mas essa figura tem sido substituída cada vez mais por redes que reúnem grupos de jornalistas, dando a eles um amparo institucional e tecnológico coletivo que jornalistas solitários não têm como acessar. É um documentário essencial, que vale a pena cada minuto.

21.9.26

“Edvard Munch” - Peter Watkins (Suécia/Noruega, 1973)

Sinopse:
Cinebiografia do pintor expressionista norueguês Edvard Munch (Geir Westby), que viveu de 1863 a 1944. O filme se concentra nos anos de formação de Munch, tanto do homem quanto do artista. Acompanhamos seus problemas familiares, seu conturbado relacionamento com uma mulher casada (Gro Fraas), sua amizade com o dramaturgo August Strindberg (Alf-Kåre Strindberg) e a criação de suas principais telas, dentre elas “O Grito” (1893).
Comentário: Peter Watkins (1935-2025) foi um cineasta e roteirista inglês. Viveu na Suécia, Canadá e Lituânia. Pioneiro do docudrama, todos os seus filmes foram ou documentários ou dramas apresentados com técnicas de documentário, por vezes apresentando acontecimentos históricos e outros eventos possíveis no futuro imediato, como se repórteres e cineastas estivessem lá para entrevistar os participantes. “Edvard Munch” (1973) é o primeiro filme que vejo dele.
Jean-Luc Douin do Monde publicou na Folha de São Paulo: "Duramente criticada em seu lançamento em 1973, a biografia do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) feita por Peter Watkins foi relançada na França.
A obra foi considerada por Ingmar Bergman 'um trabalho de gênio'. Profundamente subjetivo (o cineasta coloca nele seu próprio 'grito'), o filme utiliza um método revolucionário: uma montagem alquímica mistura a elaboração de quadros, uma cronologia alterada por reminiscências obsessivas, o 'leitmotiv' [um leitmotiv é um tema, objeto ou frase recorrente que serve para construir os aspectos metafóricos e temáticos de uma obra] de uma memória assombrada por cenas-chaves e intervenções de personagens, que, como se estivessem sendo entrevistados, assumem juízos morais e estéticos.
O alcance dessas confissões-intervenções filmadas cara a cara incomoda o esquema pedagógico do projeto, já que Watkins quis que elas fossem relativamente sem controle, espaços de liberdade oferecidos aos atores não profissionais envolvidos na aventura.
Carregado de angústia, de cores espasmódicas, de ambiências crepusculares, de tensão sexual e de palidezes moribundas, 'Edvard Munch' explora o contexto ideológico (o trabalho infantil na indústria), médico-familiar (tuberculose hereditária, agonias sem fim, mulheres e crianças cuspindo sangue), artística (salões de café enfumaçados onde se reunia a boemia de Christiania, como o pintor Christian Krohg e o escritor 'sedicioso' Hans Jaeger).
Desenhando freneticamente, arranhando, entalhando a tela, incidindo a matéria com um nervosismo revelador da intensidade emocional, Munch encarna um homem refém do desejo e assombrado por dois fantasmas - a doença e o puritanismo.
Refaz ao infinito as hemorragias pulmonares dos parentes, o ambiente de fogo e enxofre que o cerca. Os anjos negros que o velaram no berço têm aqui a figura de um pai que lhe impõe o retorno para casa toda noite para a prece diária ou as máscaras de uma burguesia hipócrita que reprova seus companheiros e demoniza a libido.
Nessa segunda metade do século 19, a polícia controla a prostituição e as doenças venéreas, enquanto à margem dos salões que vivem de condenar as blasfêmias se reproduzem artistas que 'falam de Marx e de Darwin' e mulheres 'insubmissas', decididas a viver sua própria lei.
Munch, como seus amigos Jaeger, Ibsen ou Strindberg, é refém de um doloroso paradoxo. Ele faz parte desses homens decididos a denunciar a escravidão do casamento e a não mortificar seus instintos, mas que sofrem ao ver suas amantes se converterem ao amor livre e enxergam as mulheres liberadas como vampiras.
O filme é ritmado por esse triplo pesadelo: tosses de sangue sobre travesseiros brancos, ecos recorrentes de choros e gemidos do artista; a eterna visão dessa senhora Heiberg, uma mulher casada de quem ele deseja a pele macia, mas que se entrega a outro homem e que ele passa a perseguir e a ameaçar ('Você acabará feia e deformada, e eu rirei disso!').
Expressão íntima da melancolia, de uma angústia que colore céus e nuvens de vermelho-sangue, a pintura de Munch é divagação de um frustrado, tensão psíquica e sexual, exacerbação de uma 'alma ferida' por pulsões não satisfeitas e apaixonada por madonas com rostos cadavéricos.
Esse é o segredo de seu imaginário, em que seres apaixonados de rostos disformes se devoram e uma sexualidade voraz frequentemente termina no túmulo. Daí vem o equívoco, denunciado por Kokoschka: 'O espírito de Munch lhe permite diagnosticar um terror justamente onde se acreditava estar o progresso social'.
Aí mora o sublime horror de Munch, marca de uma subversão carnal e de um imaginário cósmico. Corpos condenados ao grito infinito no torpor das noites por essa maldição que ainda faz sentido: 'O ciúme não vem do medo de perder, mas do de partilhar'".
O que disse a crítica 1: Maria do Rosário Caetano da Revista de Cinema gostou muito. Disse: "O lançamento no mercado brasileiro do DVD da série que o britânico Peter Watkins dedicou ao pintor Edvard Munch (1863-1944), autor do seminal 'O Grito', constitui fato notável. A Versátil, com este ousado lançamento (mais de 300 minutos de duração), apresenta aos que se interessam por pintura e pelo cinema documental, filme único, obrigatório. Realizado em 1973, ' Edvard Munch' é velho conhecido da cinefilia europeia. O passar do tempo fez dele objeto de culto, festejado em sólido verbete no 'Dictionaire de la Pensée du Cinéma', organizado por De Baecque & Chevalier. (...) E por que ' Edvard Munch' é tão importante? Porque constitui um dos pontos altos da filmografia do octogenário Witkins, um dos renovadores da docficção ou etnoficção. Ou, ainda, docudrama, apesar do desgaste deste termo".
O que disse a crítica 2: J. Hoberman da Artforum escreveu: "É um ensaio com atores que possui a forma e os recursos de um documentário: discurso direto, narração em contraponto, enquadramento casual, zooms estilo vérité. Com mais de três horas de duração, o filme é densamente editado e em grande parte acronológico. As cenas dramáticas são fragmentadas - frequentemente uma sucessão de closes - mas não indiretas. De forma alguma esotérico e sempre consciente da questão de classe, Watkins se esforça para estabelecer a infância miserável e marcada pela morte do artista norueguês, o meio social em que nasceu e o círculo boêmio ao qual gravitou - com atenção especial às questões de liberdade sexual. Utilizando os diários de Munch para estabelecer um monólogo interior, Watkins salta para frente e para trás no tempo, com os flashbacks proliferando freneticamente à medida que seu filme se aproxima do fim. (...) Não há como confundir 'Edvard Munch' com outra coisa senão um filme. Poderíamos chamar a montagem de Watkins de livre associação, se não fosse tão musical. Ela se preocupa tanto com a repetição e a variação quanto o próprio Munch - e é tão complexa à sua maneira quanto 'A Criança Doente' [título dado a seis pinturas e a diversas litografias, gravuras a ponta-seca e a água-forte do pintor norueguês feitas entre 1885 e 1926]".
O que eu achei: "Edvard Munch" (1974) foi uma minissérie produzida para a TV e depois transformada num longa com 3h30 de duração. O diretor, Peter Watkins, foi um cara que revolucionou o cinema ao fundir a linguagem do documentário televisivo com a encenação da ficção, tornando-se o pioneiro do chamado docudrama. Em uma época em que o cinema histórico era dominado por dramas românticos e lineares, foi ele quem quebrou a chamada ‘quarta parede’ e utilizou técnicas de jornalismo para retratar o passado e o presente. O objetivo desse trabalho é contar a história do pintor Edvard Munch (1863-1944), famoso pelo quadro “O Grito”. A base para o trabalho não foi nenhuma biografia escrita por terceiros, mas sim os diários do próprio artista que somam mais de 13.000 páginas, revelando que ele era tão obsessivo com as palavras quanto era com os pincéis. Watkins filmou uma parte desse diário. O recorte começa em 1880 – quando ele tinha 17 anos e resolveu se tornar pintor – até 1908, quando ele estava com 45 anos e teve um colapso nervoso. Como Watkins raramente trabalhava com astros de cinema, quem assume o papel principal é Geir Westby, um ator não profissional em sua estreia nas telas. Em vez de utilizar estúdio, Watkins utiliza uma câmera de 16mm na mão que parece perseguir os personagens, como se uma equipe de reportagem tivesse viajado no tempo para registrar a efervescência da antiga Christiania (atual Oslo), onde ele cresceu, e os tormentos do pintor. Outro recurso curioso é fazer com que os personagens olhassem diretamente para a lente da câmera, interagindo com quem está assistindo, bem ao estilo do seriado “The Office”. Há também uma narração feita pelo próprio Watkins, que transmite dados históricos, estatísticas de saúde da época e trechos dos diários de forma sóbria e factual, contrastando fortemente com a montagem febril, não linear e com o design de som imersivo que reflete o estado mental do artista. Quase todas as falas reflexivas sobre os sentimentos de Munch, seus traumas de infância (como a morte da mãe e da irmã) e suas obsessões amorosas dolorosas foram retiradas palavra por palavra de seus diários. Apesar da genialidade do diretor nessa abordagem altamente inventiva, o resultado é cansativo. Talvez se a obra fosse consumida no formato original de minissérie a experiência fosse menos exaustiva, mas, como longa-metragem, as 3h30 de duração custam a passar. O ritmo arrastado, a lentidão e o excesso de flashbacks repetitivos cobram um preço alto do espectador. Foi um desafio de resistência chegar até o final. Outro problema diz respeito ao recorte feito por Watkins que se foca basicamente no mito do artista maldito. O longa aborda o período mais difícil de sua vida, marcado pela miséria familiar, pelo alcoolismo e pela rejeição violenta da crítica conservadora de Christiania. Watkins foca nos escândalos, como a famosa exposição de Berlim em 1892 que foi fechada pela Associação de Artistas local após uma votação interna por considerá-la ultrajante. O diretor usa isso para pintar Munch como um eterno injustiçado pelo sistema e pela burguesia. Ao focar no diário, o filme prioriza a dor e o sofrimento que são a gênese do Expressionismo. Aparentemente, mostrar Munch colhendo os frutos do sucesso quebraria o clima de opressão que o diretor queria construir. Com isso fica de fora o sucesso estrondoso que Munch fez a partir de 1908. Não é mostrado que, após sofrer o colapso nervoso e se internar em uma clínica na Dinamarca para tratar o alcoolismo, Munch retorna à Noruega transformado. O filme até menciona que, a partir daí, sua arte mudou: ele passou a pintar paisagens solares, trabalhadores e cores vibrantes. Mas não é mencionado em nenhum momento que em 1909, o governo norueguês o convidou para pintar os gigantescos murais da Universidade de Oslo, que foi sua consagração nacional, fazendo dele um herói da pátria. Também é omitido que aos 53 anos, Munch já era um homem próspero e internacionalmente aclamado. Ele comprou uma imensa propriedade em Ekely, onde ele construiu vários estúdios ao ar livre e de inverno, vivendo como um proprietário de terras rico. Então o filme até vale pelo aprendizado sobre a mente de Munch e por mostrar parte de sua revolução estética, mas exige uma paciência que nem todo mundo está disposto a ter para, ao final, não sabermos tudo sobre ele.

20.9.26

“Turno da Noite” - Petra Volpe (Suíça/Alemanha, 2025)

Sinopse:
Floria (Leonie Benesch), uma enfermeira dedicada, trabalha incansavelmente em uma enfermaria com falta de pessoal. Hoje seu turno se transforma em uma corrida contra o relógio tensa e urgente.
Comentário: Petra Biondina Volpe (1970) é uma roteirista e diretora de cinema suíça, conhecida por ter dirigido o filme “A Ordem Divina” (2017). “Turno da Noite” (2025) é o primeiro filme que vejo dela.
Deborah Cole do site The Guardian publicou: “O mundo poderá enfrentar uma escassez de 13 milhões de enfermeiros até o final desta década. Para seu novo filme, a diretora suíça Petra Volpe imaginou as consequências de apenas um plantão perdido em uma noite movimentada em um hospital e acabou criando um filme-catástrofe.
Com ‘Turno da Noite’, Volpe buscou lançar luz sobre a linha de frente da iminente catástrofe na área da saúde, através dos olhos da dedicada e exausta Floria. Interpretada pela atriz alemã Leonie Benesch, a jovem enfermeira demonstra uma graça inicialmente acrobática em seu dia de trabalho, cuja primeira metade lembra um episódio particularmente frenético semelhante ao mostrado na série de culinária do restaurante ‘The Bear’, mas com consequências de vida ou morte.
Ao chegar para o seu turno, alegre e cheia de energia, e depois de perguntar sobre as férias recentes da colega, Floria logo fica sabendo que outra enfermeira ligou dizendo que estava doente. A carga de trabalho iminente aumenta exponencialmente, intensificando o estresse e elevando a probabilidade de ela cometer um erro fatal.
A cineasta Volpe, nascida na Suíça, afirma que escolheu o título alemão do filme, Heldin (Heroína), porque ele é um termo mítico frequentemente reservado para guerreiros e o aplicou à bravura e ao sacrifício inerentes ao trabalho de cuidado.
‘Este trabalho, que é extremamente complexo e carregado de emoção, é completamente desvalorizado em nossas sociedades’, diz Volpe. ‘Considero isso muito sintomático, pois é um trabalho feminino – 80% das pessoas [em muitos países] que realizam esse trabalho são mulheres’.
Volpe inspirou-se em uma colega de quarto de longa data que trabalhava como enfermeira e no romance autobiográfico ‘Nossa profissão não é o problema – são as circunstâncias’, da ex-cuidadora alemã Madeline Calvelage, que a aconselhou no roteiro. ‘Meu coração estava acelerado desde o primeiro capítulo e pensei comigo mesma: ‘Isso parece um thriller’, diz Volpe. ‘Mas em meio a essa tensão, você encontra os momentos mais ternos e humanos’.
O filme gira em torno das necessidades crescentes e conflitantes dos pacientes em uma enfermaria hospitalar, com um conjunto diferente de demandas médicas e emocionais à espreita atrás de cada porta, sinalizadas à equipe por uma campainha estridente.
A carreira meteórica de Benesch já incluiu papéis em ‘The Crown’ e ‘Babylon Berlin’, além de participações em filmes como ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke, o drama sobre os ataques nas Olimpíadas de Munique, ‘September 5’, e o indicado ao Oscar alemão ‘A Sala dos Professores’. Ela afirma que um tema comum em seus personagens mais recentes é ‘pessoas que se dedicam intensamente ao que fazem’. Mas observa que é raro ver enfermeiras e suas façanhas cotidianas como protagonistas em séries médicas.
‘Você está acostumado a ver os médicos como os heróis e, em segundo plano, uma enfermeira pode estar cuidando de uma bolsa de infusão, tomando um café ou tendo um caso com o médico chefe’, diz Benesch. ‘Antes disso, não estava claro para mim quanta responsabilidade médica real recai sobre os ombros dos enfermeiros’.
Benesch, que estudou na Guildhall School of Music & Drama de Londres, disse que passou vários turnos acompanhando enfermeiras de verdade em um hospital suíço para aprender a ‘coreografia’ das interações entre a equipe e os pacientes, e as habilidades manuais de preparar uma seringa ou aferir a pressão arterial. ‘Eu queria que as enfermeiras de verdade não conseguissem me diferenciar de uma profissional’, diz ela. ‘Só espero que as pessoas não se assustem com um filme legendado, porque a história é absolutamente universal’.
O filme ‘Turno da Noite’ gerou debates acalorados sobre reformas políticas e se provou um sucesso de crítica e de bilheteria na Europa de língua alemã, superando até mesmo o último filme de Bridget Jones nos cinemas suíços.
Na estreia mundial no Festival de Cinema de Berlim [...] várias enfermeiras foram convidadas a aparecer em seus uniformes no tapete vermelho e a subir ao palco após a exibição para receber uma salva de palmas. Dias antes das eleições gerais na Alemanha, algumas delas exibiam cartazes com a hashtag #wirsindfloria (Nós Somos Floria). (…)
Volpe, que divide seu tempo entre Berlim e Nova York, diz que ficou satisfeita ao ver enfermeiras indo em grupos assistir ao filme e espera que ele transforme o restante do público em pacientes melhores. ‘As enfermeiras deveriam estar no topo da nossa hierarquia social, mas vivemos em um mundo onde é justamente o contrário’, afirma. ‘Este filme é uma carta de amor à profissão’.
Embora o filme se passe na infraestrutura social precária, porém ainda intacta, da Europa, Volpe disse ter visto nos EUA os cortes drásticos de Donald Trump no Medicaid, programa que atende principalmente pessoas pobres e com deficiência, ameaçando prejudicar os mais vulneráveis. ‘Vemos uma grande crueldade em todas essas medidas’, afirma. ‘Elon Musk disse que considera a empatia o maior problema da nossa época, o que é, obviamente, monstruoso. O mínimo que um artista pode fazer é se opor a isso. Cedo ou tarde, todos nós dependeremos daquela pessoa ao lado da cama’.”
O que disse a crítica 1: Miguel Revel do site The Golden Take gostou. Disse: “O stress vai aumentando à medida que as horas passam, mas a realizadora sabe manter os pés no chão (...) sem partir para os habituais exageros norte-americanos, [finalizando como] um justo reconhecimento e agradecimento pelo esforço desta classe trabalhadora que dá tudo para nos manter vivos e com saúde quando, por alguma razão, vamos parar aos seus cuidados”.
O que disse a crítica 2: Peyton Robinson do site Roger Ebert avaliou com o equivalente a 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Manter um ponto de vista próximo, embora essencial para o filme, por vezes é o seu maior ponto fraco. Na cena final, sente-se imensa empatia e exaustão, concluindo de forma impactante a façanha sísifa de Floria (mas com a consciência de que outro turno a aguarda amanhã). "Turno da Noite" nunca perde de vista a compaixão pela protagonista, mas peca por não aprofundar o contexto. Deixando um gostinho de quero mais, o filme de Volpe toca o coração, mas não satisfaz o desejo por uma obra mais completa”.
O que eu achei: “Turno da Noite” é o nome do filme da Suíça pré-selecionado para o Oscar Internacional de 2026. O roteiro foi inspirado no livro de não ficção alemão “Unser beruf ist nicht das problem: es sind die umstände” (Nossa profissão não é o problema: as circunstâncias é que são), escrito pela ex-enfermeira Madeline Calvelage. A obra de Calvelage descreve de forma muito realista e crua a rotina exaustiva e as pressões sistêmicas enfrentadas pelos profissionais de enfermagem no dia a dia. A diretora relatou em entrevistas que ler o livro lhe deu ‘palpitações no coração’ e que a estrutura de acompanhar um único plantão tenso veio diretamente dessa leitura. Na trama, vamos acompanhar a rotina exaustiva de Floria (Leonie Benesch), uma enfermeira dedicada que trabalha em uma enfermaria com falta de pessoal. No dia retratado pelo longa, das três enfermeiras de plantão, apenas duas foram trabalhar, com isso o turno vai ser uma corrida contra o relógio com pacientes exigindo demandas diversas. Apesar de ter o livro como base e ponto de partida, a diretora também complementou o roteiro com um intenso processo de pesquisa, incluindo a imersão em hospitais, acompanhando enfermeiras em seus turnos reais para entender a dinâmica física e emocional do ambiente e entrevistando dezenas de profissionais de saúde, contando com médicos e enfermeiras reais como consultores para garantir o tom quase documental da produção. O resultado é perfeito. A sensação de exaustão da protagonista ultrapassa a tela e contagia quem está assistindo. Essa entrega impressionante se deve ao talento da atriz alemã Leonie Benesch, cuja preparação para o papel foi extremamente rigorosa. Ela aprendeu a manusear equipamentos, aplicar injeções e mover pacientes de forma tecnicamente correta, para que seus movimentos no hospital parecessem automáticos, como os de alguém com anos de experiência. Ela também chegou a acompanhar plantões noturnos reais em hospitais antes das filmagens, para entender não só a técnica, mas o peso físico, a pressão e a fadiga mental que atingem esses profissionais. O estilo de filmagem também ajuda. A direção Petra Volpe foca muito nos detalhes do plano fechado e na câmera na mão, o que nos coloca ‘dentro’ do uniforme da Floria. Não há o glamour ou o melodrama exagerado de séries médicas tradicionais, mas sim o foco no cansaço, com os vilões sendo o relógio e as condições de trabalho. No final do filme um letreiro informa que 36% dos enfermeiros formados largam a profissão após 4 anos de atividade e que, até 2030, a Suíça terá uma carência de 30 mil profissionais de enfermagem, enquanto na Alemanha a carência de enfermeiros pode chegar a 260 mil até 2029. Segundo a OMS, a escassez mundial de enfermeiros atinge toda a Europa. Se observarmos o cenário do Brasil, aqui temos um grande volume de profissionais formados cujo desequilíbrio se concentra mais na distribuição geográfica e na desvalorização financeira. Mas esse volume vem caindo. Há projeções que indicam que, até 2030, o Brasil poderá ter uma quantidade quase equivalente - ou até maior - de médicos em relação a enfermeiros graduados. Isso pode levar a um colapso operacional, já que a enfermagem representa a sustentação diária e o cuidado contínuo à beira do leito nos hospitais. Além disso, governos como o da Alemanha têm feito campanhas ativas para recrutar enfermeiros brasileiros, oferecendo vistos e cursos de idioma. Caso queira assistir, o nome original do longa é “Heldin”, que significa “Heroína”, mas ele também pode ser encontrado como “Late Shift”, “Turno da Noite” ou “Na Linha da Frente”. Com certeza vou repensar meu comportamento quando estiver internada. Excelente pedida.