5.9.26

"Marianne & Leonard: Words of Love" - Nick Broomfield (Canadá/Reino Unido, 2019)

Sinopse: O documentário retrata a história do amor entre Leonard Cohen e sua musa norueguesa, Marianne Ihlen, mostrando o relacionamento do casal, desde os primeiros dias na Grécia até Leonard se transformar em um músico de sucesso.
Comentário: O documentário retrata a intensa e duradoura relação amorosa entre o cantor Leonard Cohen e sua musa norueguesa Marianne Ihlen.
Leonard Coen (1934–2016) foi um renomado cantor, compositor, poeta e escritor canadense, conhecido por sua voz grave e canções melancólicas como "Hallelujah" e "Bird on the Wire".
Marianne Ihlen (1935–2016) foi uma mulher norueguesa que morou na ilha grega de Hydra nos anos 1960 e se tornou a principal inspiração romântica de Leonard, especialmente para a famosa música "So Long, Marianne".
O diretor do documentário é Nick Broomfield, que conheceu Marianne quando era jovem na ilha de Hydra, na Grécia. Hydra era, na década de 1960, um refúgio barato e isolado para escritores, pintores e músicos do mundo todo. A ilha não tinha carros, eletricidade ou água encanada regular. A vida era simples, as pessoas usavam burros para transporte e passavam os dias sob o sol, nadando no Mar Egeu e bebendo nas tavernas locais.
A comunidade artística que acabou se formando lá era uma espécie de colônia internacional de expatriados. O ponto de encontro central era a taverna de Katsikas, onde os artistas se reuniam para beber retsina (vinho grego), discutir literatura e cantar.
Marianne já morava na ilha com seu filho pequeno após ser abandonada pelo escritor norueguês Axel Jensen. Leonard chegou a Hydra em 1960, pálido e cansado do inverno de Londres. Ele a viu em uma mercearia e a convidou para se sentar com ele e seus amigos. Pouco tempo depois, Leonard usou uma herança de sua avó para comprar uma casa no local. Era de pedra branca, tinha três andares, sem luz ou água, mas com um terraço com vista para o mar. Foi ali que ele e Marianne viveram os momentos mais intensos de sua relação.
Leonard passava as manhãs movido a anfetaminas, escrevendo em sua máquina de datilografar. Enquanto isso, Marianne cuidava da casa e de seu filho pequeno (do casamento anterior), garantindo que Leonard tivesse um ambiente tranquilo para criar. Ela costumava trazer gardênias e lanches para a mesa dele enquanto ele trabalhava.
Embora as anfetaminas (Mandrax) fossem usadas por Leonard para aguentar jornadas exaustivas de até 20 horas diárias digitando sob o sol escaldante da Grécia, nas horas vagas o consumo do casal e dos amigos incluía um "coquetel" variado formado por LSD, haxixe e maconha e álcool.
Foi em Hydra que Leonard escreveu os romances "A Brincadeira Favorita" (1963) e "Belos Perdedores" (1966). As frustrações com as baixas vendas dos livros e o isolamento na ilha o levaram a começar a compor músicas no violão. A famosa canção "Bird on the Wire" (Pássaro no Fio) nasceu em Hydra. O título surgiu quando a eletricidade finalmente chegou ao local e Leonard viu fios telefônicos sendo instalados do lado de fora de sua janela, onde os pássaros costumavam pousar.
Leonard Cohen foi embora de Hydra em meados de 1966 por uma combinação de crise financeira, ambição profissional e desgaste emocional. Embora amasse a ilha, a dinâmica daquele paraíso começou a sufocá-lo. Ele precisava achar outra forma de ganhar dinheiro e viu no mercado musical dos EUA uma saída viável. Ele estava com 32 anos. Naquela época, o epicentro desse movimento artístico mundial era o bairro de Greenwich Village, em Nova York. Para dar uma chance real à sua nova carreira, ele precisava estar onde a indústria musical fervilhava.
Com a mudança, a relação com Marianne começou a enfrentar crises frequentes devido à distância e à infidelidade constante de Leonard Cohen. Embora o casal tentasse manter um relacionamento aberto - algo comum na comunidade liberal de Hydra -, a distância e o comportamento de Leonard após alcançar o estrelato tornaram a situação insustentável para Marianne. Conta-se que o namoro tenha começado a ruir no final dos anos 1960, mas o ponto final definitivo da relação amorosa aconteceu em 1972 quando uma outra companheira de Leonard, Suzanne Elrod (com quem ele teve dois filhos), apareceu na casa de Hydra e confrontou Marianne, o que a fez decidir deixar a ilha e voltar de vez para a Noruega.
Ao retornar para seu país natal, Marianne reconstruiu completamente sua vida, casando-se em 1979 com Jan Stang, um engenheiro norueguês, e assumindo o papel de madrasta dos três filhos dele. Marianne adotou seu sobrenome, trabalhou no departamento de recursos humanos de uma empresa de plataformas de petróleo, dedicou-se à pintura e ao budismo tibetano.
No final de julho de 2016 ela descobriu que tinha leucemia. Desde o momento em que recebeu o diagnóstico médico até o dia de seu falecimento em Oslo, passaram-se poucas semanas. Por ser um quadro incurável e de rápida evolução, Marianne escreveu uma carta de despedida à Leonard. É o conteúdo dessa famosa carta que encerra o documentário. Ela foi enviada para Leonard Cohen em julho de 2016, enquanto Marianne estava internada. O cineasta norueguês Jan Christian Mollestad, amigo próximo de Marianne, entrou em contato com Leonard para enviar a carta e avisar que ela tinha apenas alguns dias de vida. Apenas duas horas depois, Leonard respondeu com um e-mail poético e profundamente tocante que Mollestad leu para para Marianne enquanto ela ainda estava totalmente consciente, um dia antes de entrar em coma e falecer, em 28 de julho de 2016, aos 81 anos.
Assim como Marianne, Leonard também vinha lutando contra uma leucemia e sofria de dores severas causadas por fraturas por compressão na coluna, o que tornava o ato de se sentar ou ficar em pé um enorme sacrifício. Ele passou a maior parte desse período em sua casa em Los Angeles, sob cuidados médicos e cercado por seus filhos, Adam e Lorca, vindo a falecer 3 meses depois de Marianne, aos 82 anos.
O que eu achei: O filme explora como Leonard Coen e Marianne se conheceram em Hydra, uma ilha que funcionava como uma comunidade de artistas na Grécia, a vida boêmia que compartilharam, o impacto do sucesso musical de Leonard e os caminhos diferentes que tomaram mais tarde na vida. O longa também aborda os últimos dias de ambos, que faleceram com poucos meses de diferença em 2016, incluindo a famosa carta de despedida que Marianne enviou a Leonard pouco antes de morrer. O tom é de muita delicadeza, toda a história prende a atenção até por mostrar vidas muito diferentes de qualquer padrão de 'normalidade' que possamos conhecer. Apesar de todo esse clima de liberdade e boemia retratado em Hydra, o documentário também nos lembra como nem sempre viver em comunidades como essa eram sinônimo de um final feliz. Essa dualidade fica evidente na história contada em paralelo sobre o pequeno Axel Joachim Jensen Jr., filho do primeiro casamento de Marianne com o escritor norueguês Axel Jensen. Como o pai biológico o abandonou logo após seu nascimento, Leonard assumiu a figura paterna desde muito cedo. Ele cuidou da criança desde os primeiros meses de vida, dava banho, alimentava e passeava com o menino pela ilha. Quando Marianne e Axel viajaram para a Noruega, Leonard sentiu tanta falta deles que chegou a enviar um telegrama dizendo: "Tenho casa. Tudo o que preciso é da minha mulher e do filho dela". Então seu carinho por ele parece inegável. Apesar disso, esse estilo de vida cobrou um preço alto. O ambiente repleto de efervescência, festas e uso livre de drogas causou uma severa falta de estrutura  emocional na criação do menino. Ao completar 19 anos, Axel desenvolveu sérios problemas psiquiátricos. Ele passou grande parte de sua vida adulta entrando e saindo de instituições de saúde mental na Noruega. O impacto dessa infância caótica gerou tanta repercussão que chegaram a fazer um documentário específico sobre ele chamado "Little Axel" (2022), um média-metragem de 53m que apresenta relatos de que seu pai biológico - que via o menino eventualmente - chegou a introduzi-lo ao LSD quando ele ainda tinha 15 anos. O rapaz veio a falecer em abril de 2026, aos 66 anos de idade, por insuficiência renal em um hospital de Oslo, na Noruega. Entre os fios telefônicos de Hydra que inspiraram canções e as cartas de adeus que fecharam ciclos, o filme costura o belo e o trágico com extrema sensibilidade, finalizando como um retrato comovente de uma época e de como o amor pode ser duradouro e inspirador, mesmo quando moldado por escolhas imperfeitas e vidas que desafiaram qualquer padrão pré-estabelecido. Excelente.

31.8.26

“Steve” – Tim Mielants (Irlanda/Reino Unido, 2025)

Sinopse:
Steve (Cillian Murphy) é um diretor que luta para manter o reformatório onde ele trabalha aberto enquanto lida com problemas de saúde mental. Ao mesmo tempo, um estudante problemático chamado Shy (Jay Lycurgo) enfrenta agressividade e fragilidade, preso entre seu passado e a falta de perspectivas futuras.
Comentário: Tim Mielants (1979) é um diretor de cinema belga. Ele é conhecido por suas colaborações com o ator Cillian Murphy, tendo dirigido a terceira temporada de "Peaky Blinders" da BBC, bem como os filmes "Patrick" (2019) e "Wil" (2023), dentre outros. Assisti dele o bom "Pequenas Coisas Como Estas" (2024). Desta vez vou conferir “Steve” (2025).
Trata-se de uma adaptação do best-seller “Shy”, publicado em 2023 pelo escritor Max Porter. O livro retrata algumas horas da noite em que um jovem problemático de 16 anos foge de um reformatório na Inglaterra de 1995. Carregando uma mochila cheia de pedras e fones de ouvido, o protagonista enfrenta memórias de violência, culpa e profunda angústia juvenil.
O protagonista é Shy, um adolescente com histórico de mau comportamento, reprovações e passagens por atos de vandalismo e agressão. O reformatório onde ele está alojado é uma instituição para jovens severamente perturbados e infratores. A narrativa funciona como um monólogo interior fragmentado, misturando prosa e poesia. Na cabeça de Shy ecoam vozes de professores, lembranças da mãe e o volume máximo de músicas eletrônicas que ele usa para tentar abafar a própria dor. Os temas centrais do livro são compaixão, crueldade, depressão na adolescência, masculinidade tóxica e o peso do isolamento emocional.
O próprio escritor Max Porter adaptou o roteiro. Enquanto o livro é focado quase inteiramente na mente do jovem Shy, o filme expande a narrativa e foca em Steve, o diretor do reformatório. É Cillian Murphy que faz o papel de diretor. Na trama, ele luta para salvar a escola do fechamento iminente e manter o controle dos alunos enquanto enfrenta a deterioração de sua própria saúde mental. Jay Lycurgo é quem assume o papel de Shy, o adolescente problemático e autodestrutivo. O filme conta também com grandes nomes britânicos como Emily Watson e a rapper/atriz Simbi Ajikawo (conhecida como Little Simz).
O longa foi capitaneado pelo diretor belga Tim Mielants. Ele já havia trabalhado com Cillian Murphy no drama histórico “Pequenas Coisas como Estas” (2024) e na série Peaky Blinders. Para traduzir a escrita poética e fragmentada do livro, o filme utiliza um estilo visual cru, diálogos sobrepostos, câmeras na mão e monólogos diretos para a tela. A atmosfera recria com fidelidade a estética e a energia da Inglaterra de meados dos anos 1990.
Cillian Murphy é um fã confesso do escritor. Ele já havia protagonizado a versão teatral do primeiro livro de Porter, “Grief Is the Thing With Feathers” (O Luto é Aquela Coisa Com Penas), e produziu este filme por meio de sua própria produtora, a Big Things Films.
O que disse a crítica 1: Kevin Rick do Plano Crítico avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “No balanço final, ‘Steve’ não se estabelece como conforto autoral. É imperfeito, por vezes desorientado, ambicioso a ponto de se perder, mas sustenta-se pela atuação de Murphy e do elenco coadjuvante juvenil. Se a narrativa falha em abraçar todos os jovens que acena ou em entregar uma história menos gritante, ela ao menos revela o peso de um homem que tentou ser ponte em um abismo, em todas as crises e estresses que o perseguem ao longo de um dia infernal”.
O que disse a crítica 2: Vitor Polessi do Cine Set avaliou com 3 estrelas, seja, bom. Escreveu: “A escolha de um final mais aberto deixa ‘Steve’ mais ambíguo e sujeito a reflexões. O problema é que ele escorrega em um melodrama exagerado e desnecessário, que só tem a intenção de terminar o filme de forma bonitinha e acolhedora, porém, essa escolha acaba tirando a força da conclusão. A obra não atinge a excelência que poderia por não ousar em desenvolver mais a sua temática e seguir muito saídas fáceis de um drama convencional. Ainda assim é um drama bem conciso, muito bem dirigido e com Cillian Murphy contribuindo para conceder mais qualidade ao projeto”.
O que eu achei: O que me motivou a ver esse filme foi que eu já havia gostado da parceria do diretor Tim Mielants com o ator Cillian Murphy no longa "Pequenas Coisas Como Estas" (2024) e “Steve” (2025) seria uma outra oportunidade de vê-los trabalhando juntos. O filme é um drama psicológico ambientado nos anos 1990 na Inglaterra, com a história se passando inteiramente ao longo de um único dia dentro de um reformatório/internato para ‘jovens problemáticos’ que estão prestes a ser abandonados pela sociedade. O roteiro foi escrito por Max Porter, adaptando seu próprio livro “Shy” (2023), que é o nome de um desses jovens. Ele é um adolescente profundamente fragilizado que lida com traumas do passado e oscila constantemente entre impulsos de violência, autodestruição e o medo do futuro após ter os laços cortados por seus pais que não querem mais ter contato com ele. O filme optou pelo título “Steve” que é o nome do diretor que luta desesperadamente para salvar a instituição do fechamento iminente e manter os alunos na linha, ao mesmo tempo em ele enfrenta o esgotamento extremo, o vício e a deterioração de sua própria saúde mental. Tanto a escola quanto os personagens do filme são obras de ficção com o local servindo como uma alegoria dos internatos e programas de intervenção social progressistas britânicos comuns na década de 1990. Ao transformar o livro em filme, Porter realizou mudanças estruturais profundas. Enquanto o livro é inteiramente focado na mente caótica e perturbada do adolescente Shy, no filme, o foco muda para o diretor Steve. Acompanhamos o esgotamento físico e mental dele. No livro, o drama de Shy é íntimo e psicológico. No filme, Porter adicionou uma equipe de documentaristas e repórteres gravando dentro do reformatório e uma visita inesperada de um deputado. Isso eleva a pressão sobre Steve, já que a mídia questiona publicamente se o local é um gasto de dinheiro público desnecessário ou não. Além disso, enquanto o livro foca em como a comunidade ajuda o jovem a não se sentir sozinho, o filme foca no peso hercúleo, na solidão e na exaustão que os educadores enfrentam para manter esses jovens seguros. Em entrevistas Max Porter revelou que a ideia de recontar a própria história sob a ótica do professor surgiu após as conversas que teve com leitores e educadores reais durante o lançamento do livro e a importância de vê-los retratados nas telas. Eu particularmente gostei. O ator Cillian Murphy entrega uma performance magnética e sutil que consegue transmitir o esgotamento extremo do diretor apenas através dos olhos, de seus silêncios e de pequenos detalhes físicos, como o hábito angustiante de escrever lembretes nas próprias mãos. Outra qualidade é que o roteiro foge daquele estereótipo batido do ‘professor milagreiro’ que salva os alunos com discursos inspiradores, retratando de forma honesta o sistema de ensino falho, os recursos escassos e os problemas sociais que não se resolvem em um passe de mágica. Os atores que interpretam os adolescentes problemáticos não são atores profissionais, apenas Shy interpretado por Jay Lycurgo é um ator britânico em ascensão: achei que esse mix funcionou perfeitamente para gerar a energia caótica, agressiva e dolorosamente autêntica do reformatório. Gostei também da câmera nervosa que cria uma atmosfera íntima, documental e claustrofóbica, como se tudo estivesse prestes a desmoronar. Outro ponto de destaque é a trilha sonora. Shy ouve em seu fone músicas eletrônicas do gênero drum’n bass muito típicas dos anos 1990, cujo ritmo acelerado traduz com perfeição a mente barulhenta dos personagens. Em termos de defeitos citaria apenas duas passagens: uma cena que me pareceu óbvia demais e uma outra um tanto açucarada, mas creio que a lição de empatia que o filme traz supera esses pequenos problemas. Há também a questão do final que fica em aberto: que fim afinal tiveram Shy e Steve? Isso você vai ter que assistir e tirar suas próprias conclusões.

30.8.26

“Antoine e Colette” - François Truffaut (França, 1962)

Sinopse:
Antoine Donel (Jean-Pierre Léaud) tem 18 anos. Em um concerto, ele se apaixona por uma jovem estudante chamada Colette (Marie-France Pisier), mas a distância os separa. Por isso, ele se muda para o apartamento em frente ao dela, para vê-la todos os dias e tentar conquistá-la.
Comentário: François Truffaut (1932-1984) foi um cineasta francês, um dos fundadores do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague que marcou uma ruptura com os padrões tradicionais do cinema industrial e introduziu inovações narrativas, estéticas e conceituais. Assisti dele os ótimos "Os Incompreendidos" (1959), "Fahrenheit 451" (1966) e "A História de Adele H." (1975), os bons “Um Só Pecado” (1964) e "A Noiva Estava de Preto" (1968), além de “Jules e Jim - Uma Mulher para Dois” (1962). Desta vez vou conferir “Antoine e Colette” (1962).
Daniel Barnes do site Dare Daniel publicou: “’Antoine e Colette’ fazia parte originalmente de um filme coletivo de 1962 chamado ‘Amor aos 20’, uma verdadeira miscelânea de ‘primeiros amores’ que também incluía segmentos dirigidos por Andrzej Wajda, Marcel Ophuls, Renzo Rossellini e Shintaro Ishihara. Infelizmente, o filme completo não parece estar disponível em lugar nenhum, embora o primeiro segmento de Truffaut tenha resistido ao tempo.
O curta-metragem de 32 minutos é uma sequência legítima de ‘Os Incompreendidos’, que acompanha o personagem Antoine Doinel (interpretado com uma impressionante frieza por Jean-Pierre Léaud) vários anos após o congelamento da imagem no filme anterior. Ele agora tem 17 anos e, como o narrador nos informa, está vivendo seu sonho de uma ‘vida solitária e independente’. Antoine trabalha num emprego humilde numa gravadora, fuma bitucas de cigarro num apartamento apertado com vista para Paris e alimenta seu amor pela música clássica frequentando concertos para jovens.
Uma das características que definem o ‘primeiro amor’ é que ele frequentemente não é correspondido. Antoine começa a reparar numa bela moça chamada Colette nos concertos e passa a cortejá-la com o ardor de um cachorrinho apaixonado. Contudo, mesmo depois de lhe escrever uma carta de amor, ela só o ‘trata como amigo’, e todas as suas tentativas de marcar um encontro são recebidas com respostas blasé como ‘talvez’, ‘quem sabe’ e ‘não posso prometer’.
Embora seja uma análise mais aprofundada do mesmo personagem, Antoine e Colette tem um tom muito mais leve do que ‘Os Incompreendidos’, e o filme leva seu protagonista por um caminho oposto. Enquanto o longa de 1959 era todo sobre a fuga patológica de Antoine da vida doméstica, em ‘Antoine e Colette’ ele a persegue obstinadamente e obsessivamente.
As tentativas de Léaud de invadir o afeto de Colette – e, por extensão, o calor acolhedor de sua família – são verdadeiramente obsessivas, chegando ao ponto de ele se mudar para o apartamento do outro lado da rua. A magia de Truffaut reside no fato de que, tanto aqui quanto em ‘Os Incompreendidos’, reconhecemos os impulsos frequentemente depravados e egoístas por trás das ações de Antoine (...)”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O filme tem cortes secos e brincadeiras estéticas que nos lembram um pouco ‘Atirem no Pianista’, mas sua estrutura tem um caráter próprio, intimista e sentimental – Truffaut sempre foi ótimo em criar atmosfera dramática, seja através do roteiro, seja através da direção – um modelo que podemos observar em todos os filmes seguintes das Aventuras de Antoine Doinel (‘Beijos Proibidos’, ‘Domicílio Conjugal’ e ‘O Amor em Fuga’). A história de Antoine e Colette é simples e despretensiosa, talvez despretensiosa demais, especialmente na caracterização dos personagens secundários, mas o filme prende o espectador e traz um fator emocional que nos toca e nos faz lembrar de nossas próprias corridas, telefonemas, perseguições e lágrimas dos nossos amores aos vinte anos”.
O que disse a crítica 2: Jake Cole do site Slant Magazine avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “No curta-metragem de 1962, ‘Antoine e Colette’ o jovem [ator Jean-Pierre Léaud] faz suas primeiras investidas cortesãs em direção a uma garota, Colette, interpretada por Marie-France Pisier, mas se esforça tanto para dizer a coisa certa o tempo todo que acaba parecendo excessivamente ensaiado e atrevido. Frequentemente interrompendo Colette enquanto finge respeito cavalheiresco, Antoine aos poucos vai minando o interesse da garota por ele. A troca de farpas entre os sexos faz com que seja fácil confundir ‘Antoine e Colette’ com um filme de Éric Rohmer, mas a influência de Truffaut é claramente sentida na ternura da perspectiva do curta sobre o amor jovem, bem como no estilo de câmera livre e descontraído”.
O que eu achei: Jean-Pierre Léaud é um ator francês mais conhecido por ser uma figura importante da Nouvelle Vague francesa e por sua interpretação do personagem Antoine Doinel em uma série de filmes de François Truffaut, começando com “Os Incompreendidos” (1959). Neste primeiro longa, Antoine é ainda um pré-adolescente. Nascido em 1944, no ano que esse primeiro filme foi rodado o ator estava com aproximadamente 14 a 15 anos. Mostrava o menino vivendo em Paris e cercado por adultos sem consideração, incluindo seus pais que não prestavam atenção nele. Seu melhor amigo era o Rene (Patrick Auffay), com quem ele passava horas bolando planos arriscados para melhorar de vida. Eles matam aula, mentem e roubam uma máquina de escrever para conseguir dinheiro, mas o roubo fracassado leva Antoine ao reformatório, de onde ele foge na icônica cena final em direção ao mar. “Antoine e Colette” (1962) é uma continuação direta de “Os Incompreendidos”. Neste segundo filme – um curta de 32 minutos - o ator está com a idade de 17 para 18 anos. Antoine continua morando em Paris e trabalha na fábrica de discos Philips. Ele vai a um concerto de música clássica e se apaixona à primeira vista por Colette (Marie-France Pisier) de quem se aproxima tentando conquistar, não só a moça, mas também seus pais, que o adoram. Como ele mora sozinho num quarto de hotel, fica fácil ele se mudar para um outro local bem em frente ao prédio da família dela. Mas suas investidas são em vão, já que ela o vê apenas como um amigo. O filme faz parte de uma antologia de curtas chamado “O Amor aos 20 Anos” (1962), retratando o habitual amor não correspondido que praticamente todos nós vivemos nessa faixa de idade. Vale observar que nesse curta seu antigo amigo Rene também está presente. É ele que acompanha Antoine nesses concertos de música. O ator que interpreta Rene no primeiro filme - Patrick Auffay – é o mesmo ator do segundo. O curta é bem gostoso de assistir. Em comparação com “Os Incompreendidos” é super mais leve, com a trama saindo do desespero da sobrevivência e entrando nas dores universais do primeiro amor. É um drama muito mais cotidiano e identificável. Após esse filme, Truffaut ainda rodou mais três longas com o mesmo personagem: “Beijos Proibidos” (1968), “Domicílio Conjugal” (1970) e “O Amor em Fuga” (1979). Nos filmes seguintes das chamadas “Aventuras de Antoine Doinel” conta-se que a infância e adolescência ficam para trás. Com o ator com cerca de 23 para 24 anos, o foco de “Beijos Proibidos” estará na vida adulta, nos romances e na carreira de Antoine. Com certeza vou querer ver!

29.8.26

“Noite e Neblina” - Alain Resnais (França, 1956)

Sinopse:
 
Alternando entre passado e presente, este curta documental apresenta os campos de concentração abandonados de Auschwitz e Majdanek, dez anos após seu fechamento, enquanto descreve os horrores que vitimaram seus prisioneiros.
Comentário: Alain Resnais (1922-2014) foi um realizador, roteirista e montador francês. Ele dirigiu diversos filmes ao longo da vida, dentre eles "O Ano Passado em Marienbad" (1961) e "Medos Privados em Lugares Públicos" (2007), dentre outros. Assisti dele o bom "Amar, Beber e Cantar" (2014) e os curiosos “Hiroshima, Meu Amor” (1959) e "Meu Tio da América" (1980). Desta vez vou conferir o documentário “Noite e Neblina” (1956). 
João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema publicou: “’Noite e Neblina’, média metragem (32 min) realizado por Alain Resnais em 1956, é um marco na cinematografia sobre o Holocausto. O filósofo Theodor Adorno dizia que escrever poesia após Auschwitz é um ato bárbaro, pois a arte corre o risco de se tornar mero ornamento ou de silenciar o horror. Quando o filme foi feito, uma década após o fim da guerra e a descoberta dos campos, a memória era recente, embora o trauma histórico, diante de uma tal violência, parecesse recalcado, reprimido em algum lugar do inconsciente coletivo. Hoje, em que muitos insistem em negar o Holocausto, mais do que nunca o documentário de Resnais permanece atual e emocionalmente potente.
Conhecimento e a memória mudam com o tempo – essa é uma das preocupações temáticas de Resnais, neste e outros trabalhos. Mudam também países e pessoas, e o Estado de Israel, criado por meio de votação na ONU logo após a 2ª guerra – voto influenciado, entre outros aspectos, pelo Holocausto – empreende hoje uma ação sistemática de aniquilamento da população palestina em Gaza.
O projeto de ‘Noite e Neblina’ surgiu a partir de uma exposição no Instituto Pedagógico Nacional francês, em 1954. Olga Wormser e Henri Michel, os organizadores, convidaram o produtor Anatole Dauman, que aderiu à ideia do filme e chamou Alain Resnais para ser o diretor. Inicialmente, ele recusou: achava que sua falta de experiência direta nos campos de concentração tiraria qualquer índice de autenticidade. A saída foi integrar o poeta Jean Cayrol, sobrevivente do campo de Mauthausen, para escrever o texto. Cayrol, autor de ‘Poèmes de la Nuit et du Brouillard’, lançado em 1946, relutou a princípio – a ideia de revisitar essas experiências era dolorosa demais. Convenceu-o o amigo comum de ambos, Chris Marker.
A obsessão e destreza formal de Resnais certamente fazem com que o produto final tenha uma carga emocional única, seja em comparação a documentários convencionais, seja em relação a construções ficcionais. A narrativa do filme avança por meio de digressões, montadas com sutileza e precisão, acopladas a comentários dissonantes e quase irônicos, que captam a atenção da audiência. A confrontação entre passado e presente resulta que a pergunta final – Enfim, quem é o responsável? – pareça ser dirigida a qualquer espectador, no presente do lançamento do filme, como também em outras épocas. Resnais admitiu que a guerra na Argélia estava presente em seus pensamentos quando da produção em 1955, mas não seria a atual escalada hegemônica norte-americana do Presidente Trump também suscetível desse questionamento?
Henri Michel, um dos proponentes iniciais do projeto, terminou se distanciando do filme. Para ele, o ‘valor histórico’ de um filme de compilação se baseava na ‘autenticidade’ das imagens de arquivo e no rigor factual da narrativa, que deveria ser escrita por um historiador cuja competência e autoridade científica garantissem a ausência de quaisquer tendências ficcionais. O oposto do que imaginou Alain Resnais.
As sequências coloridas foram filmadas em 1955, Auschwitz e Majdanek, também campo de concentração, tiveram autorização e apoio do governo polonês. A narração, feita pelo ator Michel Bouquet, optou pela neutralidade, sem traços de emoção, de acordo com instruções do diretor. Cenas do passado, em preto e branco, foram editadas a partir de material de arquivo e fotografias coletadas em museus de campos de concentração.
A versão alemã de ‘Noite e Neblina’, obviamente um aspecto sensível, foi traduzida do francês pelo grande poeta Paul Celan, judeu que esteve internado nos campos nazistas. A tradução de Celan acentuou a identidade judaica das vítimas e a responsabilidade alemã de forma mais explícita que o original, usando seu estilo poético, mais hermético e opaco do que o texto de Cayrol.
Celan e Cayrol se conheceram quando o primeiro começou a traduzir o livro de poemas de Cayrol – embora possuíssem sensibilidades poéticas distintas, confluíram na percepção de que o fundamental seria transcender o aspecto histórico propriamente dito, e encontrar um modo de transmitir um ato que é, basicamente, inexprimível.
A recepção de documentário de Resnais foi intensa: ganhou o prestigiado Prêmio Jean Vigo em 1956, mas enfrentou resistências, inclusive tentativas de censura. O veterano crítico Jonathan Rosenbaum não tem dúvidas: para ele, ‘Noite e Neblina’ é o melhor filme já feito sobre os campos de concentração… ‘Shoah’ (1985), de Claude Lanzmann, deve tanto a este filme que jamais poderia ter sido concebido, muito menos realizado, sem o exemplo de Resnais. ‘A Lista de Schindler’, por seu turno, é uma caricatura perto do filme de Resnais”.
O que disse a crítica 1: Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Alain Resnais nos restitui nada menos que o Holocausto, com uma das montagens mais precisas do cinema moderno.
Daí nascer um filme desconcertante. À descrição minuciosa dos campos, com sua arquitetura, diversos departamentos, divisões sociais, clínicas e prisões - feitas a partir das ruínas preservadas dos campos de extermínio, dessas ruínas da morte -, intercalam-se as imagens que Godard um dia, e para sempre, definiu como pornográficas: as imagens dos prisioneiros, em filmes ou fotos, em seu caminho para a morte. Os cabelos ou óculos perdidos na rota para o cadafalso. A intercalação entre o presente (o de hoje ou qualquer outro) e a memória deixa o espectador em estado de perplexidade e impotência. Elas são signos do acontecido, do irreparável. Diante dessas imagens só podemos chorar e lembrar. Ou, antes, podemos chorar e não podemos deixar de lembrar. Elas servem para isso. Para a memória. Para que o intolerável não se repita. Para que alguns de nós, ao menos, nunca mais aceitem a ordem unida”.
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Acima de qualquer coisa, ‘Noite e Neblina’ é um filme para nos mostrar que aquilo que precedeu o Holocausto pode estar escondido em práticas e comportamentos de nosso momento político atual. A paz que alguns lugares vivem hoje pode fazer muitos se esquecerem de como ideias de segregação e superioridade são perigosas para a humanidade, e que não se deve flertar com elas, pois rapidamente farão apagar a memória de como essa grande máquina de extermínio começou a funcionar. E principalmente, como a ‘normalidade’, em seus problemas e felicidades cotidianas, tende a se esquecer de coisas que jamais deveriam ser esquecidas. Contundente e necessário, ‘Noite e Neblina’ é um documentário-lembrete. Uma viagem histórica e analítica por um período cujo espectro, queiramos ou não admitir, continua a nos rondar”.
O que eu achei: Trata-se de um documentário sobre o Holocausto com duração de 32 minutos que intercala imagens de arquivo em preto e branco - que mostram a ascensão do nazismo, a engrenagem do terror, o transporte dos prisioneiros e o horror brutal encontrado nos campos de concentração - com imagens coloridas e bucólicas dos campos vazios - como Auschwitz e Majdanek - uma década após o fim da guerra. A câmera se move lentamente pelo mato que cresceu e pelas ruínas abandonadas. Oras vemos imagens chocantes de 1933–1945 e oras vemos a quietude desses campos em 1955. Às imagens são acrescentados textos escritos pelo poeta e sobrevivente do campo de concentração Jean Cayrol, narrados pelo ator francês Michel Bouquet. Se hoje ver esse filme já é uma experiência dilacerante, o que dirá em 1956, quando ele foi lançado! O título do filme “Noite e Neblina” faz referência a um código secreto usado por Hitler que utilizava a sigla NN - 'Nacht und Nebel' em alemão – para identificar os prisioneiros políticos. Com isso, quando os guardas da SS vissem essa inscrição nas roupas de um prisioneiro, eles já sabiam tratar-se de um oponente da Alemanha nazista capturado secretamente, considerado de altíssima periculosidade para o regime e que deveria receber o tratamento mais severo possível. Essas pessoas não podiam ter seus nomes registrados em listas públicas. Elas deveriam ‘desaparecer na noite e na neblina’. É bastante interessante observar que a palavra ‘judeu’ só é usada uma única vez no filme. Ao invés dela usa-se a palavra ‘deportado’ já que o Holocausto e o sistema de campos de concentração foram projetados para exterminar qualquer grupo considerado indesejável. Não podemos esquecer que além dos 6 milhões de judeus, as vítimas incluíram prisioneiros políticos e membros da resistência (comunistas, socialistas, democratas e opositores de países ocupados como a França), ciganos (povos Roma e Sinti), testemunhas de Jeová (perseguidos por se recusarem a jurar lealdade a Hitler ou servir ao exército), homossexuais (presos sob leis de ‘indecência’), pessoas com deficiência (alvos do programa de eutanásia forçada que testou os primeiros métodos de extermínio por gás) e prisioneiros de guerra soviéticos. Com isso a declaração antigenocídio do curta acaba sendo mais abrangente, mostrando que o perigo do fascismo e da barbárie humana pode renascer em qualquer lugar, contra qualquer grupo, a qualquer momento. Há quem acredite que isso nunca mais vai se repetir, mas além do ressurgimento de grupos neonazistas, a comunidade internacional e organizações como a Genocide Watch monitoram outras crises onde há fortes evidências de práticas genocidas como a que Israel está fazendo em Gaza ou as que acontecem no Sudão, Mianmar (Rohingya), China (Uigures) e República Democrática do Congo. O filme se torna, então, atualíssimo, imprescindível, atemporal, difícil de ver, mas obrigatório pois toda a atenção é pouca.

27.8.26

“Narcos” – Carlo Bernard, Chris Brancato & Doug Miro (EUA/Colômbia, 2015-2017)

Sinopse:
Conta a história dos cartéis de Medellín e Cali, incluindo a ascensão e a queda de Pablo Escobar (Wagner Moura) e os impérios do narcotráfico que marcaram a história da Colômbia.
Comentário: Trata-se de uma série em 3 temporadas com 10 episódios cada uma, que mostra a ascensão e a queda do tráfico de cocaína na Colômbia.
Começa mostrando a produção de cocaína nos laboratórios do Chile, sob o comando de um químico conhecido como "Barata", que teve que deixar seu país às pressas para não ser executado pela polícia do ditador Augusto Pinochet que havia assumido o poder no Chile e iniciado uma forte repressão aos traficantes locais. Barata foge então para a Colômbia, onde propõe uma parceria de negócios a Pablo Escobar, que até então era apenas um golpista e contrabandista de mercadorias comum na cidade de Medellín. Ele vendia diplomas escolares e bilhetes de loteria falsos, cobrava dívidas, roubava lápides de mármore de túmulos, roubava carros para desmanche e contrabandeava cigarros, bebidas e eletrodomésticos. Foi com o contrabando que ele aprendeu a subornar caminhoneiros e policiais para mandar maconha para outros locais.
No seriado, foi a chegada de Barata que o levou a traficar cocaína. Pablo imediatamente percebeu o potencial financeiro da droga e abandonou os demais delitos que davam pouco lucro, fundando uma espécie de ‘cooperativa’ cujo objetivo era unir forças com outros criminosos e clãs familiares independentes.
É dessa reunião que surge o famoso Cartel de Medellín, que contava com membros como os Irmãos Ochoa (Jorge Luis, Juan David e Fabio), Gonzalo Rodríguez Gacha (El Mexicano), Carlos Lehder (que comprou uma ilha inteira nas Bahamas apenas para reabastecer os aviões lotados de cocaína que iam para a Flórida) e Gustavo Gaviria (primo-irmão de Pablo Escobar). Pablo Escobar era o líder principal da organização.
O seriado também mostra a atuação dos agentes americanos, especialmente de Steve Murphy e Javier Peña. Eles trabalham na DEA (Drug Enforcement Administration, que significa Lei de Execução de Drogas) e viajam para a Colômbia porque era de lá que saíam toneladas de cocaína diretamente para o solo americano, transformando o narcotráfico em um problema de segurança nacional naquele país.
O fio condutor das duas primeiras temporadas é o embate direto entre os agentes da DEA e o Cartel de Medellín, enquanto a terceira temporada – com o Cartel de Medellín já encerrado - passa a focar na caçada ao Cartel de Cali, também situado na Colômbia, na cidade de Santiago de Cali.
Renato Hermsdorff do site Adoro Cinema publicou uma lista com 10 coisas que você precisa saber sobre a badalada produção:
- Narcos é uma série “americana”: não se engane, mesmo com produção executiva de José Padilha, que dirige os dois primeiros episódios, o showrunner Chris Brancato é o criador da série, ao lado de Adam Fierro. “Narcos” é uma produção internacional para o mercado mundial da Netflix. E o inglês é a língua dominante. Cerca de 60% da série é falada no idioma de Shakespeare, enquanto os demais 40% são interpretados na língua de Gabriel García Márquez. E nada de Machado de Assis.
- Wagner Moura não é o protagonista: embora Pablo Escobar seja a figura central para entender o surgimento e o boom do narcotráfico, a série é contada do ponto de vista de um agente da DEA (Drug Enforcement Administration), o BOPE dos EUA a instituição norte-americana responsável pelo combate às drogas – a mesma de Hank Schrader (Dean Norris), de “Breaking Bad”. Esse é o papel de Boyd Holbrook, como Steve Murphy, policial que existiu “de verdade”. É ele o verdadeiro protagonista de “Narcos”.
- A série não poupa críticas ao governo dos Estados Unidos: contemplando um período que vai do fim dos anos 1970 até os 1980, “Narcos” não poupa críticas à política externa norte-americana em relação à América Latina, sobretudo aos governos Richard Nixon (1969-1974) e Ronald Reagan (1981 a 1989). Eles pouco se importaram com a chegada do pó nos Estados Unidos, nem mesmo quando uma onda de violência se alastrou pelas cidades estadunidenses. Para os políticos, o comunismo era uma ameaça muito mais “perigosa” – o que, inclusive, levou os EUA a apoiar ditaduras de direita por aqui. Somente quando se deram conta do volume da evasão de dólares (a voz do dinheiro) do país para a Colômbia é que resolveram intervir. E “Narcos” não perdoa.
- O papel de André Mattos é pequeno: além de Padilha, Moura – e do diretor de fotografia Lula Carvalho, que coordena uma equipe técnica de brasileiros –, André Mattos, o polêmico apresentador de TV de “Tropa de Elite 2” também está no elenco de “Narcos”. Ele vive Jorge, um dos irmãos Ochoa, que integraram o Cartel de Medellín. Apesar de relativamente importante para a trama, o personagem pouco aparece – e fala menos ainda.
- Dois episódios são dirigidos por Fernando Coimbra: além de Padilha, Moura, Lula e equipe, há outra prata da casa envolvida no projeto de Narcos. Fernando Coimbra, do excelente “O Lobo Atrás da Porta”, dirige dois episódios da série, o sétimo e o oitavo – por sinal, dois dos melhores da temporada.
- O tema da abertura também é de um brasileiro: não está satisfeito com a participação brasileira? Pois além de Padilha, Moura, Lula e equipe, Mattos e Coimbra, a música tema da abertura de Narcos é “Tuyo”, cantada por Rodrigo Amarante (ex-Los Hermanos), portanto, outro brasileiro.
- Tem (futura) bondgirl em papel importante: é Stephanie Sigman, de 28 anos. A atriz mexicana de “Miss Bala”, em “Narcos”, vive a jornalista Valeria Velez. E, em breve, será vista como uma bondgirl nos cinemas, com a estreia de “007 Contra Spectre”. Corre a boca pequena (a.k.a. o vazamento de informações da Sony por hackers que ficou conhecido como Sony leaks) que a escalação se deu como exigência do governo mexicano, que investiu uma grana na nova aventura de James Bond.
- Personagem central teve nome modificado: e esse personagem é exatamente Valeria Velez (Stephanie). Valeria não existiu, mas foi inspirada em uma outra jornalista, famosíssima na Colômbia, chamada Virginia Vallejo. Virginia foi amante de Pablo e teve papel de destaque na ascensão do traficante. Ela, inclusive, chegou a escrever uma autobiografia, chamada “Amando a Pablo, odiando a Escobar” – e Penélope Cruz deve interpretá-la em mais uma cinebiografia que está sendo preparada sobre o criminoso. Segundo Wagner Moura, “ela talvez tenha sido a única mulher mais inteligente do que Pablo”. Muito provavelmente (a informação não é confirmada), os produtores decidiram mudar o nome da personagem por questões jurídicas. A jornalista está com 65 anos e hoje vive em Miami.
- O ator que interpreta o braço direito de Pablo Escobar perdeu um tio em um atentado aéreo provocado pelo criminoso: aqui temos um cruzamento entre realidade e ficção. Pablo Escobar não tinha freio moral quando assunto era parar seus inimigos. Em 1989, na tentativa de assassinar César Gaviria, então candidato à presidência da Colômbia, ele explodiu um avião em pleno voo, matando 110 pessoas. Entre essas, estava um tio do ator colombiano Juan Pablo Raba. E não é que Raba está no elenco de “Narcos”? Pior: como Gustavo Gaviria (o sobrenome é coincidência), primo e braço direito do chefão do tráfico.
A série deixa um gancho para uma continuação que de fato ocorreu: chama-se “Narcos: México” (2018) e é dos mesmos diretores.
O que eu achei: Comecei a assistir a série achando que tudo o que eu iria ver nos episódios seria a história real dos cartéis de Medellín e de Cali e que eu saberia exatamente como foi a atuação de Pablo Escobar na Colômbia, mas logo no primeiro episódio já aparece a informação de que a série é baseada em fatos reais, mas que, no entanto, certos personagens, nomes, empresas, incidentes, locais e eventos foram dramatizados ou alterados para fins dramáticos e que qualquer semelhança com pessoas (vivas ou mortas) ou eventos reais é puramente coincidência. Claro que, num primeiro momento, dá pra entender que esse texto protege os produtores e a Netflix contra processos por difamação ou uso indevido de imagem de pessoas reais envolvidas no narcotráfico, mas a série - apesar de usar nomes reais como o de Pablo Escobar e inserir imagens de arquivo de jornais de verdade da época - inventa fatos, personagens e diálogos que nunca existiram na história real, alterando a linha do tempo e condensando múltiplos personagens reais em um só. Com isso, estima-se que 40% seja ficção e 60% não-ficção. Então não é viável encarar o seriado como uma aula de história. Mesmo assim, é uma excelente porta de entrada para despertar a curiosidade sobre a história da América Latina nas décadas de 70 a 90. Dentre as qualidades da série podemos citar Wagner Moura no papel de Pablo Escobar. Apesar da produção ser americana-colombiana, a contratação dele foi uma escolha pessoal do diretor José Padilha, que estava envolvido no projeto e já havia trabalhado com ele anteriormente. Claro que essa escolha causou grande controvérsia na época, já que Escobar é um dos maiores símbolos da história da Colômbia e um ator brasileiro é que iria representá-lo. O cara teve que engordar 20kg para atingir o porte físico pesado e estufado que o traficante tinha, especialmente em sua fase final de vida. Como o ator tem uma estrutura física naturalmente magra, ele revelou em entrevistas que o processo foi uma verdadeira forçação de barra com o próprio corpo, trazendo consequências para sua saúde, como o aumento drástico nas taxas de colesterol. Outro problema que o ator enfrentou é que ele não falava uma única palavra de espanhol quando foi escalado. Para conseguir dar conta do recado, Moura viajou por conta própria para Medellín cinco meses antes do início das gravações. Ele se matriculou em um curso de idiomas e passou a ler jornais colombianos e biografias todos os dias, além de morar no próprio bairro que Pablo Escobar construiu - o Barrio Pablo Escobar - convivendo com os locais para pegar o sotaque específico da região. Além disso, os episódios são muito bem produzidos: as locações são reais, evitando cenários de estúdio; a reconstituição de época é impecável, com figurino, carros, arquitetura e cortes de cabelo que transportam o espectador com precisão para os anos em questão e a fotografia e a direção de arte são primorosas, com cenas de perseguição, tiroteios e invasões tensas dirigidas com padrão cinematográfico. Com isso, se você encarar como uma boa série policial de TV, você sairá satisfeito. Depois, se tiver curiosidade, basta dar um Google nas verdades e mentiras da série: a coisa mais fácil é achar textos e vídeos esclarecendo esses pontos. Foi uma das melhores séries que já assisti.

24.8.26

“Se Meu Apartamento Falasse” - Billy Wilder (EUA, 1960)

Sinopse:
Um funcionário ambicioso (Jack Lemmon) descobre um atalho para subir na companhia em que trabalha: ceder seu apartamento para os encontros amorosos de seus chefes. A tática inicialmente dá certo, mas passa a ser ameaçada quando ele se apaixona pela amante de um de seus chefes (Shirley MacLaine).
Comentário: Billy Wilder (1906-2002) foi um diretor de cinema, roteirista e produtor norte-americano. Sua carreira estendeu-se por mais de 50 anos em mais de 60 filmes, muitos bem recebidos tanto pelo público quanto pela crítica. Assisti dele os ótimos “Crepúsculo dos Deuses” (1950) e “Quanto Mais Quente Melhor” (1956). Desta vez vou conferir “Se Meu Apartamento Falasse” (1960).
Rubens Ewald Filho do site UOL Cinema publicou: “O filme foi premiado com os Oscars de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Direção de Arte e Montagem (Wilder e seu parceiro Diamond ganharam três prêmios cada, um recorde de estatuetas para a mesma pessoa). Lemmon na época descreveu a cena em que ele tenta reviver Shirley de seu coma como uma das mais difíceis que já tinha feito (em cima da cama há um quadro, ‘Ciganos Adormecidos’, de Roussseau, em cuja composição Wilder teria se inspirado).
Paul Douglas, que ia fazer o papel do chefe, morreu dois dias antes de começarem as filmagens, e o velho amigo MacMurray (que havia feito ‘Pacto de Sangue’ com Wilder) foi chamado. Shirley e Lemmon se reuniriam novamente com Wilder dois anos depois em ‘Irma La Douce’ (1963), mas sem o mesmo sucesso. Em 1968, o filme foi transformado em um show da Broadway, ‘Promises, Promises’, com canções de Burt Bacharach e Hal David, estrelado por Jerry Orbach e Jill O'Hara.
Billy Wilder nunca negou que era um cínico. Acontece que às vezes ele exagera, fica com a mão pesada demais (‘Beija-me Idiota’) ou é derrubado pelas ciladas da sátira (‘Cupido Não Tem Bandeira’). Mas às vezes deixa entrever, por trás das ironias, seu bom, velho e sentimental coração, o que deve explicar o sucesso deste filme, que foi seu último grande sucesso de público e crítica. Até os gênios envelhecem, e nunca mais a mistura deu tão certo. Talvez por que aqui Billy ainda estava deslumbrado com a descoberta dos inúmeros talentos de Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
Segundo o diretor, a origem da fita é remota, nasceu quando ele assistiu ao filme ‘Desencanto’ (Brief Encounter, 1946), em que se contava a história de um casal adúltero que pedia emprestado um apartamento de um amigo para poder ter uma relação sexual (não existiam motéis na época, nem no filme original nem neste).
Quando procurava um papel para Jack Lemmon veio essa ideia, que ele juntou com um escândalo em Hollywood, um marido ciumento que matou um agente que tinha um caso com a mulher dele, a atriz Joan Bennett. O que interessou Billy foi que, para os encontros sexuais, o casal utilizava o apartamento de um funcionário de baixo escalão da agência, um solteirão que trabalhava na correspondência.
Foi assim que tomou forma essa comédia-dramática, daquelas que fazem rir, mas também incomodam um pouco. Wilder considera este seu melhor filme, até por ter chegado ao público num momento ideal, quando se aceitava melhor a liberalização de costumes (embora insista que a fita demonstra também seu amor por Nova York, por pessoas que não chamam a atenção e que, de repente, se tornam heróis de uma hora para outra, incluindo vizinhos que se ajudam mesmo quando não se entendem).
Mas a maneira mais simples de entender o filme é como uma crítica ao capitalismo das empresas e empregados, em que, para se ter sucesso, é preciso ter cara de pau e nenhum escrúpulo. E por isso muita gente o considera imoral (ou simplesmente realista, ao menos até o fim, que já é mais discutível). Embora a história pudesse se passar em qualquer outra cidade do mundo, o filme é muito americano, muito de sua época, inteligente como só Wilder sabia fazer”.
O que disse a crítica 1: Hiago Leal do site Cinema com Rapadura avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “Se há uma coisa em comum entre os grandes cineastas, certamente é serem grandes fãs de cinema. O próprio Billy Wilder mesmo é um ótimo exemplo disso. O diretor tinha uma placa em sua mesa com as palavras ‘como Lubitsch faria isso?’, em referência ao diretor do clássico ‘Ladrão de Alcova’, Ernst Lubitsch. E em ‘Se Meu Apartamento Falasse’, ele usa o conceito de outro filme, ‘Desencanto’, de David Lean, para mostrar um novo ponto de vista que nenhuma obra havia abordado. Wilder criou, com este seu clássico de 1960, uma obra que fala também sobre as comemorações de fim de ano, e que ressoa todos os outros dias”.
O que disse a crítica 2: Roberto Honorato do site Plano Crítico também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: “Com ‘Se Meu Apartamento Falasse’, Wilder se tornou a primeira pessoa a receber os três prêmios principais da Academia (um de Melhor Filme, e os outros dois para Direção e Roteiro), e não me impressiona como o filme continua tão engraçado e envolvente. Com uma história tão divertida e elenco impecável, só um louco para não se apaixonar por essa comédia”.
O que eu achei: “Se Meu Apartamento Falasse” (1960) trata dos temas de infidelidade e chantagem corporativa, assuntos que hoje não são mais nenhuma novidade, mas que na Hollywood da década de 1960 desafiavam o moralismo da sociedade americana. O filme é sensacional, tão bom ou até melhor do que outros que vi do diretor como “Crepúsculo dos Deuses” (1950) e “Quanto Mais Quente Melhor” (1956). Na trama, um funcionário ambicioso de uma empresa de seguros (Jack Lemmon) descobre um jeito de agradar seus superiores: ceder seu apartamento para os encontros amorosos de seus chefes. A tática inicialmente dá certo, até a tão sonhada promoção ele consegue, mas tudo vira um problema quando ele se apaixona pela amante de um de seus chefes (Shirley MacLaine). Muitos críticos o consideram uma obra-prima por alcançar um equilíbrio perfeito entre divertir o público e dissecar o lado sombrio do ‘sonho americano’. Dentre suas grandes qualidades está o roteiro que é uma aula de estrutura cinematográfica. Ele transita entre a comédia romântica leve e o drama melancólico - incluindo uma tentativa de suicídio - sem perder o tom. Os diálogos são rápidos, cheios de duplos sentidos e frases marcantes. Ele retrata a solidão urbana, mostrando a modernidade de Nova York não como um lugar glamouroso, mas como um espaço de isolamento. O mar de mesas idênticas na empresa de seguros ilustra o esmagamento do indivíduo pela máquina corporativa. O apartamento de Baxter é o reflexo disso: um espaço íntimo invadido pelo desejo alheio. Outro ponto de destaque são os protagonistas: C.C. Baxter (Jack Lemmon) não é um herói corajoso, mas um homem comum que cede à corrupção moral (emprestar o apartamento para os chefes traírem as esposas e para subir na carreira) enquanto Fran Kubelik (Shirley MacLaine) é a amante de um homem casado, uma personagem que o cinema tradicional costumava punir ou demonizar, mas que aqui ganha a total empatia do público por sua vulnerabilidade. O diretor usou lentes anamórficas (Panavision) de forma inovadora para a comédia. Em vez de focar apenas nos rostos, ele usava a profundidade de campo. A escala gigantesca do escritório - obtida com truques de perspectiva, usando mesas menores e até atores mirins ao fundo - acentuava a insignificância de Baxter na empresa. Quem conhece o cinema de Billy Wilder sabe de seu olhar cínico sobre a natureza humana. Porém, neste filme, o cinismo é temperado por uma profunda ternura pelos dois protagonistas. Eles são duas peças descartáveis no jogo dos poderosos e encontram dignidade um no outro. Imperdível.

23.8.26

“Honey, Não!” - Ethan Coen (Reino Unido/EUA, 2025)

Sinopse:
Honey O'Donahue (Margaret Qualley) é uma investigadora particular de uma pequena cidade, que averigua uma série de mortes estranhas ligadas a uma igreja misteriosa, comandada por um padre chamado Dean (Chris Evans). Quando a jovem investigadora é chamada para a cena de um acidente de carro fatal, rapidamente peças de um misterioso quebra-cabeças começam a aparecer e ela descobre que a vítima era uma potencial cliente que, naquele dia, havia ligado para contratar seus serviços.
Comentário: Ethan Coen (1957) é um cineasta americano. Trabalhando ao lado de seu irmão Joel, ele dirigiu, escreveu, editou e produziu muitos filmes. Assisti da dupla a obra-prima "Fargo" (1996), os ótimos “Barton Fink - Delírios de Hollywood” (1991), "O Homem Que Não Estava Lá" (2001), "Queime Depois de Ler" (2008), "Onde os Fracos Não Têm Vez" (2008), "Um Homem Sério" (2009), "Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum" (2013), "The Ballad of Buster Scruggs" (2018) e "E aí, Meu Irmão, Cadê Você?" (2000), dentre outros. Desta vez vou assistir um filme dirigido apenas pelo Ethan chamado “Honey, Não!” (2025).
O site do Festival do Rio publicou: “A obra reafirma o processo de renovação criativa que tem marcado a fase artística atual do realizador. Vencedor dos principais prêmios do cinema mundial, entre eles o Oscar, o Globo de Ouro e a Palma de Ouro, o diretor foi responsável, ao lado do irmão Joel, por alguns dos títulos mais celebrados do cinema estadunidense das últimas quatro décadas. Agora, em pausa nessa parceria, o cineasta apresenta o segundo capítulo da chamada ‘trilogia lésbica de filmes B’ iniciada em ‘Garotas em Fuga’ (Drive Away Dolls), lançado em 2024.
Como no filme anterior, ‘Honey, Não!’ traz uma trama focada em protagonistas sáficas [termo usado para descrever qualquer mulher ou pessoa não-binária que sente atração afetiva ou sexual por mulheres], é estrelado por Margaret Qualley (‘A Substância’) e conta com um roteiro escrito por Coen em parceria com Tricia Cooke, sua esposa.
Qualley interpreta a detetive particular Honey O’Donahue, que atua em Bakersfield, uma pequena cidade da Califórnia. Acostumada a investigar casos de infidelidade conjugal, ela se vê diante de uma trama muito mais perigosa após acompanhar a morte misteriosa de uma mulher em um acidente de carro. Seguindo as pistas do caso, ela descobre uma série de óbitos em circunstâncias estranhas ligadas a uma excêntrica igreja liderada por um carismático pastor, interpretado por Chris Evans. Conforme se aprofunda na investigação, Honey se depara com segredos, sedução e mentiras, embarcando em uma narrativa que mistura elementos de thriller policial com humor ácido e sátira social.
O elenco traz ainda a presença de Aubrey Plaza no papel da policial MG Falcone, que se torna aliada de Honey no caso e na cama, e de Charlie Day no papel do detetive Marty Metakawich.
Para interpretar a detetive particular Honey O’Donahue, Margaret Qualley conta que precisou conter o que chama de seu lado ‘Scooby-Doo’, mais brincalhão, para adotar uma postura mais enigmática, contou a atriz em entrevista para a revista i-D. ‘Precisei ser um pouco mais suave do que eu realmente sou, mais misteriosa. Tenho a tendência de querer neutralizar os conflitos antes mesmo deles surgirem. Já Honey é como o próprio mel - habilidosa, fluida, deslizando despercebida’, afirmou.
A atriz também destacou a experiência de colaborar novamente com Ethan Coen e Tricia Cooke, dupla responsável pelo filme, foi ‘algo diferente de tudo’ o que já viveu num set de cinema. ‘Eles se respeitam e se amam muito. Eu adoro o mundo em que eles vivem’, disse a atriz, que já torce para retornar no terceiro trabalho da trilogia. ‘Não li nenhum roteiro e não fui contatada. Mas que fique registrado: se eu não estiver, vou ficar ofendida e chateada’, brincou.
Para o papel, a atriz disse ainda que mergulhou no universo do cinema noir, revisitando filmes clássicos e livros sobre o tema, buscando inspiração tanto nas femme fatales quanto nos galãs masculinos para compor sua personagem. ‘Tentei me inspirar em Lauren Bacall e Humphrey Bogart. Li a autobiografia de Bacall e ela falava sobre como ela deixava sua voz mais grave. Certa vez, ela subiu numa montanha e gritou até perder a voz. Eu não fui tão longe, mas tentei me aproximar desse timbre’, conta.
Cooke, corroteirista do filme, já declarou que encarou ‘Honey, Não!’ como uma forma de ‘inverter as normas de gênero’ de produções sobre detetives, colocando no centro da narrativa uma ‘femme fatale clássica, meio sedutora, uma detetive muito envolvente’, que pudesse ser a estrela dessa obra focada em protagonistas lésbicas. ‘Queríamos fazer esse jogo butch-femme [Butch define a pessoa que expressa sua identidade de forma mais masculina e Femme define a pessoa que expressa sua identidade de forma mais feminina], brincando com as normas de gênero das histórias de detetive clássicas’, disse a autora em entrevista para o site Deadline”.
O que disse a crítica 1: Robledo Milani do site Papo de Cinema avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “Prometendo muito, mas entregando pouco, ‘Honey, Não!’ é não mais do que uma coletânea de piadas curiosas, algumas engraçadas, outras apenas bem colocadas, mas ainda assim um tanto desconexas, que em nenhum dos contextos propostos consegue se colocar à altura das expectativas levantadas. Eis, portanto, um longa formado por partes dignas de atenção, mas que quando juntas se revelam soltas, ligadas fragilmente por meio de ruídos e tropeços que mais atrapalham a fruição do que convencem como um todo. Sem apontar um destino a seguir, eis um diretor tentando se mostrar completo, uma deficiência que conseguiu disfarçar por muito tempo, mas que agora, sozinho, se torna bastante evidente”.
O que disse a crítica 2: Ygor Monroe do Caderno Pop avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “‘Honey, Não!’ encontra relevância justamente na maneira como provoca sensações contraditórias. É irregular, desordenado, ousado e provocador. É também engraçado, estiloso, exagerado e consciente de sua própria estética. A obra confirma a força de Margaret Qualley em personagens que pedem presença e ironia, enquanto Aubrey Plaza reforça sua capacidade de ocupar narrativas com intensidade magnética. Chris Evans, por sua vez, entrega um antagonista que diverte e perturba na mesma medida”.
O que eu achei: Quem nunca ouviu falar nos filmes dos irmãos Ethan e Joel Coen, responsáveis por longas premiados, incluindo-se aí a obra-prima "Fargo" (1996)? Ocorre que desde 2019 ambos vêm investindo em carreiras solo. Em 2021 Joel dirigiu sozinho o ótimo “A Tragédia de Macbeth”, enquanto Ethan comandou em 2024 “Garotas em Fuga” e em 2025 “Honey, Não!”, ambos partes de uma trilogia de filmes B voltados ao protagonismo lésbico. “Garotas em Fuga” eu não cheguei a ver, mas o que se diz na crítica especializada é que foi um filme que passou batido, despertando pouco interesse. O complicado é que “Honey, Não!” também não empolgou ninguém. Para se ter uma ideia “A Tragédia de Macbeth” do Joel teve 92% de aprovação no Rotten Tomatoes e foi indicado a Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte no Oscar. Enquanto “Garotas em Fuga” obteve 63% de aprovação e “Honey, Não!” 47%. Muitos já estão afirmando que essa separação serviu para deixar claro qual dos irmãos era a grande mente criativa por trás de seus excelentes trabalhos. “Honey, Não!” – cujo roteiro foi escrito pelo Ethan em parceria com sua esposa Tricia Cooke - acompanha a história de Honey O'Donahue (Margaret Qualley), uma detetive particular que resolve investigar a morte de uma mulher ocorrida em um acidente automobilístico. Ao puxar o fio dessa investigação, ela se depara com uma teia de mortes estranhas conectadas a uma igreja misteriosa comandada pelo egocêntrico reverendo Dean. Para desvendar o quebra-cabeça repleto de crimes, mafiosos e mentiras, Honey ganha o apoio da policial MG Falcone com quem acaba se envolvendo romanticamente. O filme tinha tudo para dar certo: o elenco - com destaque para Margaret Qualley -; o visual marcante que conta com uma excelente fotografia ensolarada da Califórnia, sequências de ação viscerais, sangrentas na medida certa e uma atmosfera estilosa de ‘filme B trash’ que remete ao cinema de crime clássico; o humor ácido e a premissa ousada. Entretanto o resultado é no máximo mediano. O roteiro é vazio e sem rumo, é tipo uma coleção de piadas e esquetes desconexos. A trama principal de investigação perde o fôlego rapidamente, dando a sensação de que o filme não tem uma história real para contar. O excesso de subtramas deixa o todo mal desenvolvido terminando sem uma conclusão satisfatória, resultando fatalmente num longa esteticamente decorativo e emocionalmente raso. Com duração de pouco mais de 1h30m, o final abrupto frustra, soando apressado e sem o peso dramático - ou mesmo cômico - que o mistério inicial prometia. Com isso o longa acabou confirmando o que muitos temiam: Joel se segura sozinho, mas Ethan não.

17.8.26

“O Rosto” - Ingmar Bergman (Suécia, 1958)

Sinopse:
 Suécia, 1846. O Dr. Vogler (Max von Sydow) é hipnotista, mágico e líder do Vogler's Magnetic Health Theatre, uma trupe conhecida por suas habilidades sobrenaturais. Quando o espetáculo chega em Estocolmo, os principais habitantes da cidade pedem que sua trupe lhes forneça uma amostra de seu trabalho antes de permitir apresentações públicas. Os descrentes tentam expô-los como charlatães, mas Vogler e sua equipe se mostram espertos demais.
Comentário: Ingmar Bergman é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá à suas obras. Já assisti dele 23 filmes, mas sua produção engloba em torno de uns 60. Dentre os trabalhos já vistos estão as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966), "O Ovo da Serpente" (1977), "Sonata de Outono" (1978) e a minissérie “Fanny e Alexander” (1982). Desta vez vou conferir “O Rosto” (1958).
Nuno Galopim do site Máquina de Escrever publicou: “Refletindo as experiências de Ingmar Bergman como encenador, ‘O Rosto’ (1958) é uma metáfora da criação artística e de como tudo na vida se sustenta e mantém pela fé e pela ilusão. Um dos grandes filmes menos conhecidos do mestre sueco.
A verdade é triste. A verdade é um lago escuro e morto. A verdade corre o risco de não existir, e o universo de ser uma espécie de cebola cósmica que, em última instância, se descascada camada a camada, revelará a sua derradeira face, ou seja, o Nada. Por isso, porque tudo se sustenta pela crença e pela ilusão, podemos dizer que, de certo modo, todas as ideias são delirantes, na medida em que a realidade objetiva (a ‘coisa em si’ kantiana) não pode ser conhecida, está-nos vedada, apenas podendo dela termos representações mentais.
Mas a mente faz jus ao seu nome, isto é, mente-nos. No limite, e como advogam as filosofias hinduístas, a realidade é maya (ilusão), um manto de ilusões que cobre o ‘deserto do real’. Em traços gerais, é este o foco temático de ‘O Rosto’ (1958), de Ingmar Bergman, que, como o cineasta refere no livro autobiográfico ‘Images – My Life in Film’, reflete as suas experiências como encenador no Malmö City Theatre entre 1952 e 1959.
Se podemos encontrar neste filme alguma verdade, essa verdade remete precisamente para o universo artístico e para a natureza do artista. Através da história de uma trupe itinerante de artistas de números ‘esotéricos’ que é submetida a uma avaliação por parte de um pequeno colégio de autoridades da cidade sob acusação de charlatanismo, Bergman elabora uma metáfora sobre a natureza falsa e impostora da criação artística, em que o criador surge como uma espécie de embusteiro que cobre com sucessivas máscaras sedutoras e enganadoras a cruel e desoladora verdade do seu próprio rosto. Como se todos os homens fossem chamados a ser atores no teatro da existência humana, e como se ser e existir passasse sempre por uma mediação teatral da verdade, por uma tradução embelezada, civilizada e artificiosa de uma realidade que precisa de maquiagem e acabamentos para não surgir em toda a sua chocante e vulnerável nudez.
A grande questão que atravessa este filme - que na versão norte-americana conheceu o título ‘The Magician’ - é a da religião. Neste caso, a religião como véu protetor contra um universo ameaçador e sem uma entidade divina que confira um sentido maior à vida humana e, sobretudo, à morte.
Albert Vogler (Max von Sydow), o mágico que lidera a trupe, e cujos ‘inexplicáveis poderes’ são postos à prova diante dos seus céticos avaliadores, é um homem que perdeu a fé, mas que, apesar de morto de cansaço existencial, continua a repetir o seu número desprovido de sentido, qual padre que repetisse um ritual litúrgico cujo simbolismo se tivesse esvaziado. Perante o Dr. Vergerus (Gunnar Björnstrand), que, no seu materialismo científico, acredita que tudo é mensurável e explicável, e que declara que o seu único interesse seria dissecá-lo e compreender a fisiologia do prestidigitador, Vogler montará uma farsa que provará ter a capacidade de assombrar o cínico doutor.
Bergman institui-se assim como o mágico que cria um espetáculo entusiasmante e assombrante mas que é de alto a baixo uma mentira, um truque, um jogo de espelhos (‘smoke and mirrors’). Uma metáfora perfeita de como tudo na vida, começando pela própria ficção, se sustenta e mantém pela fé e pela ilusão.
‘O Rosto’ ganhou o Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes de 1959”.
O que disse a crítica 1: Tim Brayton do site Alternate Ending avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “’O Rosto’ conseguiu demonstrar que podemos saber que algo é falso e ainda assim nos comover, mesmo que queiramos fingir o contrário (o que o filme incentiva com sua cena final tremendamente falsa, na qual tudo termina de forma feliz e perfeita demais, embora a irônica tomada final - ou, mais especificamente, a irônica mixagem de som que a acompanha - deixe claro que o filme não acredita nisso mais do que nós). A arte de Vogler é significativa porque as pessoas querem acreditar em magia; a arte de Bergman é significativa porque as pessoas querem acreditar na transcendência estética”.
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “Mesmo ambientada no século XIX, a película brinca com ‘medos anacrônicos’ e superstições que não pertencem àquele tempo, mas que dão conta de uma tradição oral, fortemente mantida por saltimbancos e artistas em cidades pequenas. As vozes, conselhos e relatos do que viram ‘no mundo’ têm um grande peso para os locais e, mais uma vez, o tema do filme se escancara. São expostas as máscaras e a mágica da arte, mistas de herança cultural e pitadas de ciência popular, aqui demonstrada no nome da Companhia (Teatro de Saúde Magnética de Vogler) e pelos frascos contendo líquidos milagrosos para ressaltar a libido e curar doenças. No meio de tanto engano, promessas e representações, o rosto de Vogler não se esconde mais. E sua máscara cai, sua voz é ouvida e o patetismo das situações de bastidores (como discussão entre casal, humilhação e necessidade financeira) se exibe”.
O que eu achei: “O Rosto” (1958) é um filme menos conhecido do cineasta Ingmar Bergman. A história se passa na Suécia do século XIX, quando um enigmático mágico itinerante chamado Dr. Albert Vogler (Max von Sydow) chega a Estocolmo com sua trupe para se apresentar. As autoridades e médicos da cidade exigem que ele realize uma demonstração antes do show público, pois o consideram um charlatão. Inicia-se então um jogo psicológico onde os céticos tentam desmascarar os truques sobrenaturais do mágico, enquanto ele e sua equipe provam ser mais inteligentes e manipuladores do que o esperado. É através do personagem Albert Vogler que Bergman projeta suas próprias angústias como diretor e criador. O filme mostra a profissão ‘artista’ como uma espécie de ‘farsante que diz a verdade’, alguém que depende da cumplicidade do público com a ilusão para que a sua arte ou magia ganhe vida. O cerne do conflito dramático se dá no eterno conflito humano entre o desejo pelo inexplicável e a necessidade médico-científica de categorizar o mundo. Lançado logo após obras fortemente metafísicas como “O Sétimo Selo” (1957) e “Morangos Silvestres” (1957), “O Rosto” aborda a fé de forma mais irônica, mas não menos profunda. O silêncio autoimposto do personagem Vogler que finge ser mudo no início da trama evoca o silêncio de Deus - um tema recorrente na filmografia de Bergman -, testando os limites da crença daqueles que o cercam. Apesar de não alcançar o patamar de perfeição de outros trabalhos mais conhecidos do diretor, este também merece ser visto, pois faz uma mistura interessante entre a comédia satírica (especialmente no núcleo dos criados e nas poções de amor vendidas pela trupe) e o suspense/terror gótico (com forte uso de sombras, passagens secretas e uma famosa sequência de clímax psicológico que flerta diretamente com o cinema de horror). Foi lançado no Brasil com o título “O Rosto”, mas pode ser encontrado também como “O Mágico” ou pelo título original “Ansiktet”. No elenco, além do Max von Sydow, temos Ingrid Thulin, Erland Josephson, Bibi Andersson e outros atores recorrentes em longas do diretor. Boa pedida.

16.8.26

"Belén: Uma História de Injustiça" – Dolores Fonzi (Argentina, 2025)

Sinopse:
A advogada Soledad Deza (Dolores Fonzi) assume o caso de uma jovem (Camila Plaate) injustamente condenada à prisão após ser acusada de realizar um aborto ilegal. Ambas as mulheres enfrentam um sistema judicial corrupto e uma sociedade que deseja vê-las fracassar. À medida que o caso de Belén ganha notoriedade, surge um movimento feminista que repercute por toda a Argentina.
Comentário: Dolores Fonzi (1978) é uma atriz, diretora e produtora argentina. Iniciou sua carreira ainda jovem, ganhando destaque na televisão com a série "Verano del '98" (1998). Ao longo dos anos, consolidou-se como uma das atrizes mais respeitadas do cinema latino-americano, em filmes como "A Aura" (2005) de Fabián Bielinsky e "Paulina" (2015) de Santiago Mitre - prêmio de Melhor Atriz em San Sebastián. Como diretora e roteirista, é conhecida por seu engajamento social e político. "Belén: Uma História de Injustiça" (2025) é o primeiro filme que vejo dela.
Rafaela Gomes do CinePOP nos conta que "Escolhido para representar a Argentina no Oscar 2026 e exibido na seleção oficial do Festival do Rio 2025, 'Belén' é o novo trabalho da cineasta e atriz Dolores Fonzi - uma complexa obra que faz uma difícil reflexão social a respeito de um dos assuntos mais controversos ao redor do mundo: o aborto.
Baseado no livro 'Somos Belén', de Ana Correa, o longa acompanha Julieta (Camila Plaate), uma jovem vítima de um aborto espontâneo que é falsamente acusada de interromper sua gestação de maneira ilegal. Com o apoio da advogada Soledad Deza (vivida por Fonzi), ela enfrentará os tribunais sociais a fim de provar sua inocência e quem sabe mudar o cenário argentino de forma permanente.
Ambientado em Tucumán, 'Belén' revisita um episódio real ocorrido em uma Argentina marcada por tensões morais e jurídicas. Com direção delicada e atuações potentes, o filme se propõe a discutir o que há de mais universal nas histórias de injustiça: o desejo humano por dignidade e empatia.
Em entrevista ao CinePOP, durante o Festival do Rio 2025, Fonzi recordou o que mais a impressionou ao conhecer o caso retratado no filme: 'O que me pareceu mais absurdo é como, em uma cidade pequena como Tucumán, ninguém soube que ela estava presa por dois anos e meio. Isso é o mais impressionante. As próprias advogadas que descobriram o caso diziam: ‘como é possível que não tenhamos sabido?’
A diretora reflete que o isolamento de Julieta simboliza um silêncio coletivo - e também a força contida na própria protagonista. 'Ela não queria que ninguém soubesse, e conseguiu isso. Quando quis que se soubesse, tudo veio à tona. Há algo poderoso nesse gesto: foi presa e desapareceu. E, de repente, reaparece e muda tudo'.
Depois de uma longa trajetória como atriz, Fonzi decidiu se aventurar para atrás das câmeras, em um processo de transição que ela considera ter sido natural, ainda que tenha sido marcado por diversos desafios e adequações. 'O mais difícil é confiar que vai dar certo. Na primeira vez, foi complicado entender como seria atuar e dirigir ao mesmo tempo, mas acabou sendo mais fácil do que eu imaginava. O segredo é se cercar de uma equipe talentosa, em quem você acredita e pode descansar. Dirigir é um ato de confiança coletiva'.
A cineasta conta que a ideia de adaptar o livro de Ana Correa surgiu após a experiência de seu primeiro longa como diretora: 'Quando o livro saiu, eu ainda não tinha dirigido. Só depois da minha primeira experiência na direção é que me propuseram fazer 'Belén'. Não era um projeto que eu imaginava dirigir, mas quando o convite chegou, me pareceu um presente'.
E diante de um assunto tão controverso, que fortalece ainda mais a polarização política e social ao redor do mundo, a diretora argentina tenta manter a esperança de um novo tempo onde a aceitação do outro seja superior às diferenças ideológicas. Demonstrando uma certa preocupação com o cenário atual, ela salienta sua fé profunda na arte como uma espécie de manifesto: 'É difícil acreditar que o mundo vai se unir, porque às vezes parece que há pessoas sem alma. Mas há outras com alma - e 'Belén' é um filme com alma. É sobre sentir, sobre se conectar com o humano. O que podemos fazer é resistir criando a partir do coração, da empatia e do amor. Essa é uma história que fala sobre união, sobre o poder do coletivo. Porque só quando as pessoas se unem é que algo realmente muda'.
E ainda que 'Belén' seja um complexo relato sobre a autonomia corporal da mulher, o longa busca cruzar os questionamentos a que se propõe, a fim de transcender a densa e exaustiva conversa sobre o aborto. Ao afirmar que sua obra é de fato sobre a essência do que é ser humano perante questões tão difíceis, Fonzi lembra a si mesma e a audiência sobre o poder de contar histórias que sejam relacionáveis e que nos permitam enxergar o outro para além de suas convicções – ainda que sejam divergentes ou contraditórias. 'Acho que a força do filme vai além do tema. É sobre empatia, sobre se unir, sobre não ficar indiferente. É sobre o que acontece quando alguém escolhe não olhar para o lado', concluiu".
Além de ser o representante da Argentina no Oscar, o filme foi indicado à Melhor Filme no Internacional Critics Choice.
O que disse a crítica 1: Cath Clarke do site The Guardian avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "O filme é essencialmente um drama jurídico: sólido, em sua maior parte divertido e ocasionalmente emocionante. Acompanha [a advogada] Deza e sua equipe passo a passo enquanto lutam contra o sistema para que Belén consiga o recurso. Conforme o caso se desenrola, ele toma conta dos momentos de vigília de Deza, causando ondas de ressentimento em sua família. É um lembrete das expectativas em relação ao trabalho e à vida pessoal para as mulheres – não importa o quão importante seja seu trabalho, perder o recital de violino do seu filho não será perdoado. O filme termina em um clímax emocionante (...).
O que disse a crítica 2: Paula Vázquez Prieto do site La Nation avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "'Belén' tem senso de humor, estabelece com segurança o desenvolvimento de sua narrativa, evita simplificações maniqueístas ao apresentar contradições - a forma como as ameaças contra [a advogada] Deza aparecem é o melhor exemplo dessa escolha - e se torna entusiasmada - talvez até um pouco demais - no final, com uma epopeia que, em retrospectiva, se revela fundamental para conquistas posteriores".
O que eu achei: Me surpreendeu positivamente o filme "Belén: Uma História de Injustiça" (2025), o longa argentino que foi enviado para concorrer ao Oscar. Trata-se de uma adaptação do livro “Somos Belén” (2019), escrito pela jornalista, advogada e ativista argentina Ana Correa, que conta um caso real que teve forte repercussão internacional: a dramática jornada jurídica de uma jovem de 27 anos da província de Tucumán presa injustamente em 2014 após sofrer um aborto espontâneo em um hospital público e ser equivocadamente acusada de infanticídio. O pseudônimo Belén - dado à personagem Julieta - é um codinome usado como proteção jurídica. Julieta também não é o seu nome real. Proteger sua identidade foi fundamental para preservar sua integridade física contra perseguições e linchamentos públicos de grupos conservadores. Até hoje, o público geral não sabe o nome verdadeiro da mulher por trás do caso. Nessa época – 2014 – a presidente da Argentina era Cristina Kirchner, cuja posição oficial sobre o aborto era de estrita oposição e resistência à descriminalização. O fato é que Belén não foi julgada adequadamente. Quando ela deu entrada no hospital ela estava grávida de poucos dias e ela mesma nem sabia disso. A busca pelo atendimento de emergência se deu por conta de cólicas abdominais intensas e dores de estômago. Ao chegar no hospital e ir ao banheiro foi que ela percebeu que estava sangrando e a equipe médica a informou que ela estava sofrendo um aborto. Algum funcionário acreditou que ela havia provocado esse aborto e chamou a polícia. Com isso Belén foi pega de surpresa duas vezes: por descobrir que estava grávida e abortando e por ser presa injustamente. Belén amargou 29 meses de cela. Se não fosse a advogada Soledad Deza assumir o caso, talvez ela estivesse presa até hoje. A luta pela libertação de Belén mobilizou coletivos feministas, organizações de direitos humanos e a Anistia Internacional. A tal "Onda Verde" tornou-se um marco e um símbolo na discussão sobre os direitos reprodutivos na América Latina, abrindo caminho para, em 2020, a Argentina – presidida por Alberto Fernández com Kirchner de vice - legalizar o aborto. Conta-se que Cristina Kirchner consolidou sua nova posição alinhada ao projeto do governo de Alberto Fernández, liderando pessoalmente a longa e tensa sessão de debates no Senado. Atualmente, sob o mandato do presidente Javier Milei, a lei do aborto legal continua em vigor no país, mas o acesso real ao procedimento vem enfrentando severas restrições práticas. Quem se interessa por dramas de tribunal e ativismo político com certeza vai gostar. A história é comovente, é tratada com sensibilidade e possui atuações magníficas na dupla principal. Vale ver.

15.8.26

“Zootopia: Essa Cidade é o Bicho” - Rich Moore, Jared Bush & Byron Howard (EUA, 2016)

Sinopse:
Judy Hopps, uma coelha que é filha de agricultores, está insatisfeita com a vida no interior e pretende se mudar para Zootopia, uma cidade grande onde ela poderá se tornar a primeira coelha policial. Quando Judy consegue alcançar o seu objetivo, ela é designada para a sua grande missão, que é encontrar uma lontra perdida. Contando com a ajuda inesperada de Nick, uma raposa conhecida por sua malícia, ela descobre que existe uma conspiração que afetará toda a cidade.
Comentário: De acordo com o site Wikipédia, trata-se de um filme de animação computadorizada produzido pela Walt Disney Animation Studios que conta a história de Judy Hopps, uma coelha que tem o sonho de se tornar policial na cidade de Zootopia, e da raposa sagaz Nick Wilde, que ganha a vida na base da trapaça. Juntos terão de superar suas diferenças para desvendar um caso relevante na cidade.
O longa foi dirigido por Byron Howard (diretor de “Bolt: Supercão” e “Enrolados”), Rich Moore e Jared Bush como codiretor. É o 55º filme da Walt Disney Animation.
A música do filme foi composta por Michael Giacchino, sendo o seu primeiro longa-metragem na Walt Disney Animation Studios. Além de seu papel na voz de Gazelle, a cantora Shakira também contribuiu com uma canção original para o filme intitulada "Try Everything", que foi escrita por Sia e Stargate. A parte instrumental do filme foi gravada por uma orquestra, com Tim Simonec conduzindo.
“Zootopia” foi recebido com aclamação geral da crítica e do público, que o elogiou pela sua crítica social, pelos personagens e pelas sequências de ação policial e comédia. Arrecadou mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria, o segundo longa animado da Disney a chegar nesta marca após “Frozen”, e é a quarta maior bilheteria de 2016.
O American Film Institute o elegeu um dos dez melhores filmes americanos do ano. Em 2017 ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme de Animação, além de ganhar o Oscar de Melhor Filme de Animação.
O que disse a crítica 1: Marcela Gelinski do site Coisa de Cinéfilo gostou. Disse: “Depois que a Disney lançou ‘Divertida Mente’, eu fiquei me perguntando se o estúdio continuaria neste padrão de retomar desenhos animados que fazem o espectador refletir sobre a vida. E não é que sim? ‘Zootopia’ é a clara certeza de que a Disney está cada dia mais cuidadosa com seus roteiros e enredos, provando que animação não é apenas para crianças”.
O que disse a crítica 2: Natália Bridi do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “A animação é sincera. Seus protagonistas não estão acima do preconceito. A intolerância existe e precisa ser admitida para ser superada, não mascarada com desculpas, descobrem Judy e Nick ao longo da sua investigação. Fruto de uma nova fase do estúdio Disney, que também evitou transformar Elsa em uma vilã unidimensional, ‘Zootopia’ serve a uma geração que, por ser mais cínica, não aceita uma fábula de distância professoral. O público precisa fazer parte da história para captar a mensagem, uma missão que o filme cumpre com êxito, sem esquecer a diversão pelo caminho”.
O que eu achei: Demorei pra assistir o oscarizado “Zootopia: Essa Cidade é o Bicho” (2016) mas, antes tarde do que nunca, pois a animação é simplesmente incrível. Ela foi inspirada num clássico desenho animado da Disney chamado “Robin Hood” (1973), mostrando um mundo inteiramente habitado por animais antropomórficos (que andam e se vestem como humanos) e com uma raposa sagaz e ágil como o protagonista Robin Hood. Na trama, a otimista coelha Judy Hopps realiza o sonho de se tornar a primeira policial de sua espécie na vibrante metrópole de Zootopia, um mundo onde predadores e presas vivem em harmonia. Subestimada pelo seu chefe por ser pequena e fofa, ela ganha a chance de provar seu valor ao assumir o caso do misterioso desaparecimento de uma lontra. Para resolver o mistério em apenas 48 horas, Judy chantageia e se alia a Nick Wilde, uma raposa vigarista e cínica que conhece os submundos da cidade. O preconceito e a discriminação sistêmica são os temas centrais da animação. A parte visual é simplesmente um arraso. Os cenários fantásticos desenvolvidos pela Walt Disney Animation Studios foram resultado de anos de pesquisa e do desenvolvimento de softwares criados exclusivamente para o filme. Antes de encostarem nos computadores, os diretores e os 75 animadores da equipe passaram 18 meses estudando o comportamento dos animais. Eles viajaram para o Quênia para observar de perto os habitats naturais. A maior inspiração para a cidade veio ao observarem predadores e presas bebendo água juntos em um mesmo poço, pacificamente. Isso deu a base para o conceito da ‘metrópole da convivência’, onde animais distintos coexistem. Achei sensacional a ideia de dividir a cidade em biomas, com uma parte inspirada em Dubai e Las Vegas, com dunas artificiais e prédios em formato de termiteiros, aquecida por um gigantesco sistema de ar-condicionado central; outra parte parecendo florestas tropicais; a Vila dos Roedores (Little Rodentia) onde tudo é minúsculo para acomodar ratos e porquinhos-da-índia; além do ambiente ártico do Distrito de Tundratown que abriga ursos polares, lobos, alces e raposas-do-ártico. É muito capricho reunido. Fazendo as vozes dos personagens há um elenco de peso, com destaque para a cantora Shakira que interpreta a cantora Gazelle, num trocadilho que mistura o animal gazela com o nome da cantora Adele. A animação teve desdobramentos e sequências como a série “Zootopia+” (2022) composta por curtas de animação e o longa-metragem “Zootopia 2” (2025) que é uma sequência direta deste e que também concorreu ao Oscar. Tudo indica que, em breve, teremos outro longa chamado “Zootopia 3”. Se joguem!

10.8.26

"Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia" - Hector Babenco (Brasil, 1977)

Sinopse:
Nos anos 1960, uma organização clandestina batizada como Esquadrão da Morte passa a combater o crime à margem da lei. Nesse contexto de tensão, vários episódios e personagens marcaram aquele período histórico - o notório assaltante Lúcio Flávio (Reginaldo Faria) é um deles. Na década seguinte, Lúcio monopoliza as manchetes por seus assaltos ousados e fugas espetaculares. Pouco antes de morrer, ele revela a um repórter detalhes sobre o envolvimento da polícia com o mundo do crime.
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. Assisti dele a obra-prima “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1981), o ótimo “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), o bom "Meu Amigo Hindu" (2015) e o péssimo "O Passado" (2007). Desta vez vou conferir “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977).
O site Wikipédia nos conta que Lúcio Flávio Vilar Lyrio (Rio de Janeiro, 1944 –1975) foi um criminoso brasileiro que se tornou conhecido em todo o Brasil na década de 1970 em razão de seus inúmeros crimes. De boa aparência, articulado, violento e de inteligência acima da média, iniciou suas atividades criminosas como ladrão de carros, evoluindo para assaltos a bancos e joalherias e cometendo diversos homicídios. Tornou-se muito conhecido pelas constantes fugas de diversas prisões e pelo envolvimento com policiais pertencentes ao Esquadrão da Morte, os quais também denunciou.
Atuou ao lado de alguns dos mais perigosos marginais do período, dentre os quais seu irmão Nijini Renato, seu cunhado Fernando C. O., Liéce de Paula, Armando Arêas Filho (Armandinho) e outros.
Cometeu crimes nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e em Brasília.
Sua vida foi imortalizada em obras literárias, a mais importante foi concebida pelo escritor José Louzeiro, obra essa que foi baseada em um relato dado por Lúcio Flávio a um repórter policial um pouco antes de sua morte. O relato, cheio de detalhes da sua vida no crime, delatava seus comparsas, como por exemplo, um policial que sempre o acobertava em suas investidas no mundo do crime. A obra de José Louzeiro recebeu o nome de “Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia”, nome homônimo do filme.
Ele foi morto com 19 facadas no peito, na cela número sete do presídio Hélio Gomes, no Rio de Janeiro, durante a madrugada, por um companheiro de cela, Mário Pedro da Silva, em 1975, mas há uma forte suspeita de que ele tenha sido morto pelos policiais que formavam o Esquadrão da Morte, e que temiam que Lúcio os denunciasse.
O filme, estrelado por Reginaldo Farias no papel principal, é justamente a adaptação do livro do José Louzeiro. Porém o filme sofreu censura. Na versão final não aparecem fardas nem viaturas, e os policiais envolvidos tiveram seus nomes trocados. 
O filme foi vencedor do Prêmio do Público da primeira edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1977.
O que disse a crítica 1: Rodrigo de Oliveira do site Papo de Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Com inflados 118 minutos de duração, 'Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia' abusa um tanto por se estender, mas tem momentos interessantes que conseguem segurar a atenção do espectador. As cenas oníricas, sangrentas, dão um bom molho especial em uma trama policial urbana que retrata um período conturbado da história do nosso Brasil. Pode ter envelhecido mal no todo, mas tem predicados que justificam uma olhada com maior atenção".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP, disse que "O que mais importa nos filmes baseados em fatos reais é sua irrealidade. Tomemos 'Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia'. O filme de Hector Babenco é, mais que um relato da trajetória do marginal, o elogio da marginalidade num momento específico da vida nacional. Isto é, os anos 1970, o governo militar: o bandido é o herói, a polícia é o vilão. Não que certas coisas tenham mudado: o tratamento dado aos pobres pela polícia e pela Justiça é bem diverso do que se dá aos ricos. Mas a visão do momento implicava o engajamento do espectador, jovem sobretudo, da classe média, no combate à ditadura. O filme respondia a esse desejo. Daí ao êxito era um pulo".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de José Louzeiro que era um jornalista respeitado da crônica policial do Rio de Janeiro. Ele conhecia intimamente os meandros do submundo carioca, as gírias das prisões e o modus operandi dos criminosos e da polícia. Louzeiro esteve frente a frente com Lúcio Flávio. O criminoso, sabendo que estava jurado de morte pelo Esquadrão da Morte por ‘saber demais’, decidiu abrir o jogo usando o jornalista como um canal para denunciar que os seus assaltos a bancos eram articulados, protegidos e financiados por policiais do alto escalão. Além da entrevista, o autor realizou uma intensa pesquisa para checar a veracidade dessas denúncias. O livro foi cirúrgico em expor os bastidores do Esquadrão da Morte. Na adaptação para o cinema feita pelo Babenco temos um elenco de peso com Reginaldo Faria no papel principal, Paulo César Peréio, Ivan Cândido, Milton Gonçalves, Ana Maria Magalhães, Lady Francisco, Grande Otelo, Stepan Nercessian e José Dumont. O longa foca na atuação do criminoso de 1970 até 1975, mas o maior interesse aqui é ver o modus operandi do Esquadrão da Morte. Criado no final dos anos 1960, era uma organização paramilitar clandestina, formada majoritariamente por policiais civis e militares, mas que continha também juízes, promotores e até jornalistas. O objetivo era exterminar criminosos comuns e opositores. O contexto da ditadura militar (1964-1985) favoreceu imensamente o surgimento e a expansão desse tipo de grupo pois, sob o pretexto de combater o comunismo e o crime urbano, foram instituídas leis de exceção (como o AI-5) que esvaziaram os direitos humanos, blindando as polícias de investigações. No Rio de Janeiro, o governador e generais criaram um grupo oficial batizado como ‘Os Homens de Ouro’. O detetive Mariel Mariscot (cujo nome foi alterado para Dr. Moretti no filme) fazia parte dele. Sob os aplausos de setores da imprensa e da classe média que adotavam o lema ‘bandido bom é bandido morto’, eles cometiam assassinatos deixando cartazes nos corpos com o desenho de uma caveira. Porém, o que Mariscot menos queria era assassinar Lúcio Flávio. Ele e outros agentes do Esquadrão da Morte monitoravam os passos da quadrilha facilitando suas ações e garantindo que as áreas bancárias ficassem sem patrulhamento policial no momento dos roubos. Claro que o preço dessa proteção era altíssimo. Sempre que a quadrilha realizava um assalto, Mariscot e seus homens apareciam para recolher uma fatia gigantesca do dinheiro. Se Lúcio Flávio se recusasse a pagar, a polícia o prendia ou ameaçava executar seus familiares e comparsas. Quando calhava de Lúcio Flávio ser preso, Mariscot facilitava sua fuga molhando a mão de outras pessoas. A relação implodiu quando a ganância dos policiais sufocou o bando. Lúcio Flávio percebeu que por mais que ele roubasse, ele nunca teria nada. Sabendo que seria morto de qualquer forma foi que ele resolveu desmascarar o policial publicamente. Uma curiosidade é que, dois anos depois de Babenco lançar “Lúcio Flávio” (1977), Antônio Calmon lança “Eu Matei Lúcio Flávio” (1979), um filme estrelado pelo Jece Valadão, que mostra a ótica dos policiais pintando Mariscot como um herói injustiçado. Entretanto, os desmandos de Mariscot já eram tão evidentes na imprensa que não foi possível protegê-lo. Ele foi oficialmente expulso da polícia, preso e mais tarde se tornou segurança do jogo do bicho, acabando assassinado antes mesmo de conseguir ser julgado pelos seus crimes. Obviamente, para lançar o filme, Babenco e o produtor Roberto Farias travaram uma verdadeira guerra com a censura: os nomes dos policiais tiveram que ser trocados e as cenas que mostravam tortura policial explícita e diálogos que faziam ligação direta entre o crime comum e os porões do regime militar tiveram que ser cortados. Mesmo assim ele chegou a ser totalmente proibido em Brasília e só foi liberado no restante do país após forte pressão de setores intelectuais. Imperdível.