29.3.26

"O Pavão" - Bernhard Wenger (Áustria/Alemanha, 2024)

Sinopse:
Matthias (Albrecht Schuch) é um mestre em sua profissão. Você precisa de um namorado culto para impressionar seus amigos? Um filho perfeito para influenciar a opinião que seus parceiros de negócios têm de você? Ou talvez apenas um parceiro de treino para ensaiar uma discussão? Seja o que for, basta contratar Matthias. Embora seja excelente em fingir ser outras pessoas diariamente, o verdadeiro desafio é ser ele mesmo.
Comentário: Bernhard Wenger (1992) é um cineasta e escritor austríaco. Ele produziu cinco curtas, incluindo "Com Licença, Estou Procurando a Sala de Pingue-Pongue e Minha Namorada" (2018) premiado no Austrian Film Awards. "O Pavão" (2024) é seu primeiro longa e o primeiro filme que vejo dele.
Guy Lodge da Variety publicou: "Atencioso, culto, educado, paciente, bom ouvinte, agradável aos olhos: Matthias é o tipo de homem com quem quase qualquer pessoa gostaria de ter como companhia. Por sua vez, ele se alegra em fazer companhia a quase qualquer pessoa: um solteiro de meia-idade em busca de um acompanhante para um concerto de música clássica, uma senhora idosa casada que não consegue conversar com o marido, um homem da sua idade que precisa de um namorado de mentira para conseguir alugar um apartamento.
Só porque ele é pago para fazer companhia em todas essas situações não significa que ele as trate com menos cuidado do que trataria qualquer um de seus próprios relacionamentos não remunerados - o que pode ser um problema, ele percebe, quando sua namorada o abandona, dizendo exasperada que ele 'não parece mais real'. Essa observação concisa leva Matthias a uma espiral descendente, uma crise de identidade, que dá à (...) comédia de humor negro de Bernhard Wenger , “O Pavão ”, seu arco imprevisível.
(...) Este destaque da Semana da Crítica de Veneza já acumulou vendas robustas nos principais territórios graças à sua sátira brilhante e facilmente traduzível e à atuação eletrizante de Albrecht Schuch - o astro alemão que causou impacto internacional com sua performance indicada ao BAFTA em 'Nada de Novo no Front'.
Com sua premissa aparentemente absurda, na verdade inspirada por um boom real de agências de 'amigos para alugar' no Japão, esta reflexão sobre a microgestão do estilo de vida do Instagram e a fragilidade das conexões humanas em uma era de sobrecarga de redes sociais é suficientemente inteligente e original para resistir às inevitáveis ​​comparações com a obra de Yorgos Lanthimos e, particularmente, com Ruben Östlund. 'Peacock' é um pouco mais ameno do que ambos, com a busca melancólica de Matthias pela personalidade que perdeu em algum momento, tornando-o um anti-herói decididamente cativante.
Ainda há um toque de frieza formalista austríaca em sua perspectiva inquisitiva e distante, e na mise-en-scène impecavelmente composta: a fotografia de Albin Wildner é nítida, brilhante e estática, uma tela contida para piadas visuais impactantes.
O vídeo começa com uma nota intrigantemente enigmática, com uma composição sinistra de um carrinho de golfe em chamas num gramado impecável, que é finalmente apagado por um homem e uma mulher que entram agilmente em cena com extintores, antes de se congratularem pelo seu heroísmo. O homem é Matthias: sem qualquer contexto para esta cena, somos levados a presumir que combater incêndios num campo de golfe é simplesmente mais um dia de trabalho para um homem que se orgulha da sua compostura e disponibilidade em todas as situações.
Sempre elegantemente vestido e arrumado, com o bigode bem aparado e o topete loiro impecável, ele é simultaneamente o CEO e o rosto muito atraente da My Companion, uma empresa vienense de aluguel de amigos que disfarça qualquer potencial tristeza ou vulgaridade na empresa com uma linguagem terapêutica amigável e uma estética jovem e vibrante.
Os negócios vão muito bem, a julgar pela casa modernista impecável e elegantemente decorada que ele divide com Sophia (Julia Franz Richter). No entanto, entre seus muitos e variados compromissos de trabalho e a lição de casa que faz para cada um deles (revisar seus conhecimentos de aviação para se passar pelo pai piloto de uma criança em um evento de orientação profissional na escola, preparar um discurso para a luxuosa festa de 60 anos de seu pai fictício), sobra cada vez menos tempo para Matthias ser Matthias.
Quando Sophia o abandona, ele percebe que não tem mais nenhuma conexão consigo mesmo, e tudo o que tenta para reencontrar seu equilíbrio - de retiros de ioga caros a uma paquera casual com uma conhecida (Theresa Frostad Eggesbø) (...) só o faz se sentir ainda mais deslocado em relação aos ritos sociais modernos.
Até mesmo sua casa parece uma casa de exposição que não é realmente sua, com seus incompreensíveis problemas de encanamento, decoração alienantemente perfeita (todo o crédito para o design de produção espirituoso de Katharina Haring) e um filhote de Pomerânia que corre descontroladamente, parecendo um brinquedo, que ele também aluga de uma agência. (...) Será preciso uma mudança drástica em sua rotina para que ele se reencontre, e um egoísmo que certamente não será bom para os negócios".
O que disse a crítica 1: Rogério Machado do site Papo de Cinemateca avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Ainda que com sequências impagáveis e um plot provocador, 'O Pavão' se perde em trocar a ironia e (...) o debate sobre um mundo que vive de aparências pela melancolia do protagonista após uma desilusão amorosa. Ainda que reserve bons momentos aqui e ali, e ostente um desfecho até interessante - que na minha opinião carrega a tônica do que a trama poderia ter sido - o longa (...) pode se tornar base para boas discussões sobre expectativa x realidade, sobretudo num mundo que, a cada geração, parece desconhecer o verdadeiro valor da palavra identidade".
O que disse a crítica 2: Marc van de Klashorst do site ICS Film avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: " Um filme como este não funciona sem um ator que compreenda a tarefa, e Albrecht Schuch (...) assume o papel de Matthias como um camaleão, ou talvez como o pavão do título. Entre o comportamento comedido e amigável do ansioso Matthias no 'trabalho' e a mistura de expressões de constrangimento, confusão e a iminência das lágrimas quando precisa ser ele mesmo, Schuch cria um personagem ricamente texturizado que, à primeira vista, é propositalmente um espaço em branco. Seu timing cômico é exemplar, sem dúvida auxiliado pela edição impecável de Wenger (...). Sua atuação eleva um filme que já é rico em ideias; um filme que, sem dúvida, será comparado aos contemporâneos mais aclamados de Wenger já mencionados, mas que se sustenta por si só graças ao roteiro afiado, à direção precisa e a um ator que entrega uma das melhores performances cômicas do ano".
O que eu achei: Em “O Pavão” (2024) a premissa aparentemente excêntrica - um homem que trabalha numa agência do tipo 'rent a friend', onde clientes pagam para alugar vínculos afetivos - revela-se um terreno fértil para uma reflexão surpreendentemente atual sobre identidade e alienação. Matthias, vivido por Albrecht Schuch, é um profissional exemplar da empresa My Companion, especializado em interpretar papéis: ora filho dedicado, ora parceiro ideal, ora amigo confiável. Mas, à medida que se adapta às expectativas alheias, vai se afastando de qualquer noção de si mesmo. A inspiração do roteiro, nascida de uma experiência real do diretor no Japão onde essas agências de fato existem, dá ao filme uma base inquietante. Wenger relata ter conhecido um funcionário que, de tanto viver vidas emprestadas, já não conseguia acessar suas próprias emoções, uma ideia que estrutura toda a trajetória de Matthias. O filme transforma esse ponto de partida em uma sátira sobre uma sociedade obcecada por aparências, onde o 'eu' se dilui em performances constantes. Embora seja classificado como comédia, “O Pavão” está longe de apostar no riso fácil. Trata-se de um humor contido, quase desconfortável, alinhado à tradição austríaca de um cinema mais austero e melancólico. Há momentos genuinamente engraçados, mas eles surgem sempre tingidos de estranhamento. Nesse equilíbrio delicado, Schuch sustenta o filme com uma atuação precisa: seu Matthias é ao mesmo tempo apático e tragicômico, alguém cuja neutralidade revela um desespero emocional reprimido. Pequenos gestos e olhares bastam para expor o vazio que se acumula por trás de tantas identidades assumidas. A vida cotidiana exige o desempenho de múltiplos papéis, Wenger acerta ao não demonizar completamente essa adaptação social, mas aponta o risco de nos perdermos nela. Quando ser tudo para todos se torna regra, resta a pergunta: o que sobra de autêntico? O filme foi escolhido como representante austríaco ao Oscar de Melhor Filme Internacional, um reconhecimento coerente para uma obra que, com sutileza e inteligência, transforma um conceito curioso em um retrato inquietante do nosso tempo. Atenção ao título original do filme - "Pfau, Bin Ich Echt?" - que, na tradução literal, seria algo como "Pavão, Eu Sou Real?", mas cuja expressão idiomática significa "Nossa, Sou Mesmo Eu?". O animal aparece em alguns momentos do filme e é conhecido por exibir sua cauda exuberante para impressionar os outros. Boa pedida.

28.3.26

“Frida” - Carla Gutierrez (EUA, 2024)

Sinopse:
Uma jornada crua e mágica pela vida da icônica artista mexicana Frida Kahlo, contada por meio de suas próprias palavras em diários, cartas e entrevistas, trazida à vida com uma animação lírica inspirada em sua inesquecível obra.
Comentário: Maria do Rosário Caetano do site Revista de Cinema publicou: "Mais um filme sobre Frida Kahlo? E o público não se cansa? Ainda há algo de novo a dizer sobre a pintora que foi companheira do muralista Diego Rivera e amante de Trotski?
Carla Gutiérrez, montadora e documentarista norte-americana, nascida e criada no Peru, acredita que sim. Há ainda muito a se mostrar (e dizer) sobre a pintora mexicana, que viveu à sombra de Rivera, mas foi, em tempos de reafirmação da mulher, redescoberta e transformada em ícone planetário. Por isso, Carla realizou 'Frida', um fascinante documentário de sintéticos 88 minutos, enriquecido pelo uso criativo do cinema de animação. (...)
A realizadora não está interessada em narrativa biográfica, nem em busca de fontes e documentos inéditos (...) mas sim em traçar um retrato íntimo da pintora mexicana, desenhado pela própria artista. E a partir de fonte subjetiva – os Diários (ilustrados) de Frida, que os escreveu até sua morte, em 1954, aos 47 anos. E também de cartas e entrevistas da artista.
Uma latino-americana, afinal Carla nasceu no Peru, busca, com sororidade, as emoções, sensações, desejos, sonhos e frustrações da pintora, que expôs suas entranhas na criação de seus quadros e na escrita de seus famosos diários. Não custa lembrar, Frida era muito espirituosa e irônica. Já no começo de sua narrativa existencial, ela lembra que a mãe era fanática religiosa, a ponto de encomendar missas na própria casa da família. O pai, fotógrafo de origem alemã, era ateu. Sob essas duas influências, ela, ainda pré-adolescente, se perguntava: 'será que a Virgem Maria é mesmo virgem?' Na adolescência, Frida passou a desfrutar de dinâmica convivência com o grupo Los Cachuchas, disposto a colocar o México arcaico de pernas pro ar.
Em sintonia com nosso tempo histórico, Carla dá ênfase, em seu documentário, aos sentimentos, à postura feminista de Frida e aos traumatizantes abortos espontâneos que ela sofreu (um deles nos EUA). A cineasta (...) dá destaque à bissexualidade da pintora. E o faz evocando voz masculina, a de Diego Rivera, com quem Frida se casou por duas vezes. Em carta a uma amiga, Rivera pergunta se ela sabia que Frida era homossexual. Não se sabe o que a interlocutora respondeu. Mas o documentário de Carla Gutiérrez faz coro a muitas outras narrativas (incluindo os filmes ficcionais 'Frida, Natureza Viva', de Paul Leduc, e 'Frida', de Julie Taymor). Como Frida amou Rivera com todas as suas forças (palavras dela: 'te quiero mas que mi propia pele') e viveu experiências amorosas com muitos parceiros do sexo masculino, a ênfase em sua vida erótica acaba tomando o rumo hegemônico da heterossexualidade.
Para tornar a questão ainda mais complexa, muitas vozes se somam na farta obra editorial sobre Frida Kahlo para garantir que Rivera, um garanhão desmedido, era, contraditoriamente, ciumento. Preferia que a esposa se relacionasse com mulheres, mantendo-se distante dos homens.
O escritor francês J.M.G. Le Clézio, autor do livro 'Diego e Frida' (Scritta, 1993), integra o time dos que não acreditam na homoafetividade de Frida. Na página 108 dessa obra apaixonada pelo casal mais famoso da pintura mexicana, ele escreve: 'Enquanto Diego vive sua vida sensual, devorando todos e todas que dele se aproximam e continua, incansavelmente, a cobrir as paredes com signos e símbolos de uma história que o arrebata, Frida sabe que, longe de seu sol, pode apenas esfriar e descer ao inferno do nada. Procura sobreviver, refugia-se com Anita Brenner, faz um mad cap flight em avião particular até Nova York, ensaia flertar com outros homens, permite que lhe atribuam uma lenda de experiência lésbica'.
Para Le Clézio, que ganharia o Prêmio Nobel de Literatura em 2008, até os amantes masculinos de Frida (Nickolas Murray, o soviético Trotski e o escultor nipo-americano Isamu Noguchi) foram 'usados para despertar ciúmes em Diego'.
O romancista, que é também professor universitário e estudioso da história cultural do México, país ao qual dedicou diversas obras, defende em 'Diego e Frida' que o amor dela, a frágil 'paloma', foi integralmente canalizado para o corpulento 'elefante' (ou 'sapo', como ela chamava Diego em momentos lúdicos). Frida enfrentou graves problemas de saúde desde que, num acidente, uma barra de ferro rasgou suas entranhas. Ela passou um ano hospitalizada. Sua vida foi uma soma de dores martirizantes. Dores que ela recriou na obra mais confessional e corporal da arte pictórica mexicana.
Diego e Frida se comprometeram a ter vidas livres. Eram comunistas militantes e acreditavam no 'homem novo'. Foram os anfitriões do líder do Exército Vermelho bolchevique, Leon Trotski, em seu exílio mexicano. Apesar de terem nascido numa sociedade patriarcal, ambos desejavam experimentar novas formas de vida. Foi o que fizeram. A prática do amor livre estava, portanto, dentro do projeto existencial dos dois, por mais machista que Diego fosse.
Para o documentário de Carla Guttiérrez (...), Frida teve, sim, experiências homoafetivas. Mas esse não é o ponto central do filme. O que se busca é a subjetividade e a originalíssima obra da artista.
A cineasta escalou voz feminina quente e apaixonada – a da atriz Fernanda Echevarría del Rivero – para expressar, em espanhol, trechos dos 'Diários' de Frida. E, vez ou outra, Carla introduz as vozes de Rivera (Jorge Richards), Alejandro Gómez Arias, o primeiro amor da adolescente Frida (Manuel Cruz Vivas), Lucienne Bloch (Lindsay Conklin), Jean van Heijenoort (Pablo Alarson), André Breton (Tyler Beerley), entre outros. Mas sem tirar o protagonismo absoluto de pintora.
O que encanta em 'Frida' (...) é a beleza das imagens. Já na abertura, o documentário nos seduz com intervenção sobre a obra mais famosa da artista – 'A Coluna Quebrada', de 1944. Recursos do cinema de animação fazem ruir a coluna grega que substitui a coluna vertebral de Frida Kahlo.
O mesmo procedimento – dar movimentos às obras da artista – se repetirá ao longo do filme. E muitas fotos em preto-e-branco terão elementos colorizados. Tais intervenções, fruto das mais avançadas técnicas do cinema contemporâneo, trazem a assinatura de Ernie Schaeffer".
O que disse a crítica 1: Alvaro Tallarico do site Vivente Andante gostou. Disse: "Carla Gutiérrez conseguiu criar um documentário valoroso, que não apenas apresenta uma nova perspectiva sobre a vida de Frida Kahlo, mas também oferece uma imersão poética e emocional no universo da artista. Nessa mistura surrealista de imagens deslumbrantes, animação inovadora e uma trilha sonora eficiente, 'Frida' se destaca como um dos retratos mais sensíveis e completos da pintora mexicana. É uma obra que, sem dúvida, vai além do tradicional e encanta por sua capacidade de trazer à tona as camadas mais profundas da vida de uma das maiores artistas do século XX".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Criativo, colorido e (...) narrado predominantemente pelas palavras da própria Frida Kahlo, registradas em seu diário ilustrado, este envolvente documentário sobre a artista mexicana é uma homenagem cativante e belíssima ao seu espírito e originalidade. A combinação habilidosa de imagens de arquivo e a animação encantadora e orgânica marca a estreia na direção de Carla Gutiérrez, que trabalhou como editora em diversos documentários sobre mulheres pioneiras, incluindo 'RBG', sobre Ruth Bader Ginsburg, e 'Julia', que explorou o legado da chef de televisão Julia Child".
O que eu achei: Quem nunca ouviu falar na pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954) não sabe o que está perdendo. Ela ficou conhecida pelos seus muitos retratos, especialmente autorretratos, e obras inspiradas na natureza e artefatos do México. Inspirada pela cultura popular do país, empregou um estilo de arte popular naif para explorar questões de identidade, pós-colonialismo, gênero, classe e raça na sociedade mexicana. Suas pinturas tinham frequentemente fortes elementos autobiográficos realistas misturados com fantasia. Para além de pertencer ao movimento Mexicayotl pós-revolucionário, que procurava definir uma identidade mexicana, Kahlo é descrita como uma surrealista ou realista mágica. Embora tenha sido incapacitada pela poliomielite quando criança, Kahlo foi uma estudante promissora, rumo à escola de medicina, até sofrer um acidente de ônibus aos dezoito anos, o que lhe causou problemas médicos para toda a vida. Essa experiência com a dor crônica influenciou basicamente todos os seus trabalhos. Eu já havia assistido uma versão de sua história no bom filme “Frida” (2002) com direção de Julie Taymor. Foi nesse filme que eu soube mais detalhes sobre sua adesão ao Partido Comunista Mexicano, seu relacionamento conturbado com o artista mexicano Diego Rivera, seu caso com Leon Trotski e em como se deu sua ascensão como artista. Neste “Frida” (2024) de Carla Gutierrez tudo isso será abordado novamente só que desta vez em tom de documentário através das cartas, entrevistas e principalmente dos diários ilustrados de Frida, que os escreveu até sua morte aos 47 anos. É como se a história fosse recontada pela sua própria boca, o que dá um sabor especial à sua biografia e às animações desenvolvidas a partir de suas pinturas. A abordagem é cronológica, começa na sua infância em Coyoacán, na Cidade do México; passa pela sua adolescência, o acidente e sua vida adulta, finalizando como um competente filme sobre sua vida. Vale ver.

23.3.26

"Ondas do Destino" - Lars von Trier (Dinamarca/Suécia/França/Países Baixos/Noruega/Islândia/Reino Unido/Finlândia/Itália/Bélgica/Alemanha/Suíça/EUA, 1996)

Sinopse:
No norte da Escócia uma jovem mulher chamada Bess (Emily Watson) se apaixona e se casa com Jan (Stellan Skarsgard), um dinamarquês que trabalha em uma plataforma de petróleo. Quando ele retorna ao seu serviço sofre um acidente, quebrando seu pescoço, o que provavelmente o deixará incapacitado para o resto da vida. Nesta situação Jan pressiona a mulher a procurar amantes e lhe contar detalhes de suas relações.
Comentário: Lars von Trier (1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios. Conhecido por ser provocador nas entrevistas, os comentários antissemitas de von Trier durante uma coletiva de imprensa em Cannes causaram uma controvérsia significativa na mídia, levando o festival a declará-lo como "persona non grata" e bani-lo do festival por um ano. Na sequência, o diretor divulgou uma desculpa formal informando que não era simpatizante do nazismo. Assisti dele as obras-primas "Melancolia" (2011) e "Dogville" (2003), os ótimos "Europa" (1991), "Manderlay" (2005), "Anticristo" (2009) e "Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2" (2013) e o bom "A Casa que Jack Construiu" (2018). Além do seriado "O Reino" (1994-2021). Desta vez vou conferir "Ondas do Destino" (1996).
Roger Ebert nos conta em seu site que "O filme se passa na década de 1970, em uma remota vila no norte da Escócia. Bess (Emily Watson), uma garota de rosto doce e confiante, 'não está muito bem da cabeça', e sua comunidade unida não está satisfeita com sua decisão de se casar com Jan (Stellan Skarsgard), que trabalha em uma das grandes plataformas de petróleo no Mar do Norte".
Bess é virgem e pertence a uma seita rigorosa. Assim que se casam, Jan sofre um acidente na plataforma e fica paralisado do pescoço para baixo. O médico local diz a Bess que ele pode nunca mais andar.
Um dia, Jan pede a Bess para encontrar um homem e fazer amor com ele. Ele diz: "Faça-o por minha causa. E então me conte sobre isso". Bess não gosta dessa ideia, mas faz o que Jan pede. Nunca fica claro porque Jan, um bom homem, fez esse pedido à mulher que ama. Mas essa não é a questão do filme. A questão é que Bess, com sua fé feroz, acredita que, de alguma forma, seu sacrifício pode redimir o marido e até curá-lo. À medida que a condição dele piora, seu comportamento se torna mais desesperador.
"O filme contém muitas revelações surpreendentes, incluindo uma cósmica no final, que deixo você descobrir por si mesmo. Ele tem o tipo de poder bruto, o tipo de consideração desprotegida pela força do bem e do mal no mundo, da qual queremos nos esquivar. Às vezes, é mais fácil nos envolvermos em sentimentalismos e platitudes piedosas e esquecer que Deus criou a natureza 'com unhas e dentes'. Bess não tem nossa capacidade de racionalizar e fugir, e se oferece destemidamente a Deus como o entende.
Esta performance de Emily Watson me lembra o que Truffaut disse sobre James Dean, que como ator ele era mais como um animal do que um homem, procedendo de acordo com o instinto em vez de pensamento e cálculo. Não é uma performance sombria e é frequentemente tocada por humor e deleite, o que a torna ainda mais tocante, como quando Bess fala em voz alta em conversas bidirecionais com Deus, falando ambas as vozes – tornando Deus um adulto severo e ela uma criança confiante. Sua igreja a bane, e meninos pequenos na aldeia jogam pedras nela, mas ela diz: 'Deus dá a todos algo para serem bons. Eu sempre fui estúpida, mas sou boa nisso'.
'Ondas do Destino' foi escrito e dirigido por Lars von Trier, da Dinamarca, que nos faz pensar que tipos de óperas Nietzsche poderia ter escrito. Ele encontra a linha reta e pura através do coração de uma história, e não está preocupado com o que não pode ser conhecido: este filme não explica o pedido cruel de Jan à sua esposa, porque Bess não o questiona. O filme mostra pessoas que se importam com ela, como a cunhada e o médico local, e outras que não se importam: contadores religiosos como os anciãos barbudos da igreja. Eles não entendem nada sobre o cristianismo, exceto por regras inflexíveis que memorizaram (...). Eles falam com Deus como se esperassem que ele os ouvisse e aprendesse. No final do filme, eles recebem a resposta em um grande e selvagem grito irônico.
Poucos filmes como este são feitos, porque poucos cineastas são tão ousados, raivosos e desafiadores. Como muitos filmes verdadeiramente espirituais, este ofenderá os fariseus. Aqui temos uma história que nos obriga a tomar partido, a questionar o que realmente é certo e errado em um universo que parece cruel e indiferente. Será que a crença religiosa é apenas um consolo para o nosso destino inescapável na sepultura? Ou a fé pode nos dar o poder de triunfar sobre a morte e o mal? Bess sabe".
O que disse a crítica 1: Dimas Tadeu do site Papo de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Na medida em que a sina dos personagens vai se esboçando e as tais 'Ondas do Destino' quebram na praia, fica um nó na garganta, um choro engolido, que muita gente não saberá dizer se é de alegria ou de tristeza. É um dos primeiros sinais de um von Trier tão descrente na humanidade que, anos depois, veria em sua extinção o único alívio para uma existência atormentada. Sorte do público (e dele) que o diretor saiba canalizar esta apatia por vias estéticas. No caso de 'Ondas do Destino', por exemplo, fez surgir uma obra essencial sobre o amor, a bondade, a humanidade e sua leveza insustentável".
O que disse a crítica 2: Alcino Leite Neto da Folha SP gostou demais. Escreveu: "Liberdade. Provocação. Desassossego. Precisão. Ousadia. Urgência. Vigor. Paixão. Em um mote: cinema. (...) O extraordinário filme do diretor dinamarquês Lars von Trier é um redemoinho de olhares e gestos, de palavras e sensações, um tumulto de acontecimentos e 'desacontecimentos'. Um redemoinho calculado, se se pode dizer, em que a autonomia da interpretação (quase um improviso), a disponibilidade da câmera (sempre na mão) e a irrupção dos sentimentos criam um complexo sistema de colisões, entrelaçamentos, conflitos - um panorama inteiro do belicoso ato de filmar".
O que eu achei: "Ondas do Destino" (1996) é um drama intenso que mergulha na relação entre fé, amor e sacrifício. Ambientado em uma comunidade religiosa na Escócia, o filme apresenta Bess, uma jovem profundamente devota, inserida em um ambiente rígido e fortemente influenciado pelo cristianismo. Sua personalidade levanta dúvidas: não sabemos se há ali algum tipo de fragilidade mental - já que a família a internou anteriormente - ou se estamos diante de alguém apenas ingênuo, bom, puro e absolutamente entregue à fé. Nesse sentido, Bess me lembrou o protagonista de "Lazzaro Felice" (2018) de Alice Rohrwacher, pela forma como sua bondade parece deslocada do mundo ao redor. A trama se desenvolve quando Bess se casa com um 'forasteiro', algo mal visto pela comunidade. Ele trabalha em uma plataforma de petróleo e, após um grave acidente, tetraplégico e desenganado pelos médicos, passa a incentivá-la a se relacionar com outros homens e relatar tudo a ele. Movida por uma fé absoluta e pela crença de que seu sacrifício pode curá-lo, Bess se entrega a uma trajetória de degradação progressiva, que o filme acompanha sem suavizações. Von Trier constrói Bess como uma figura de mártir, alguém que vive sua devoção de forma extrema, dialogando diretamente com Deus e acreditando receber respostas. Essa dimensão espiritual entra em constante tensão com o mundo físico, cada vez mais brutal e degradante. A obra integra a chamada Trilogia do Coração de Ouro e já antecipa elementos que seriam associados ao Dogma 95: câmera na mão, luz natural e uma estética crua, quase documental. Esse estilo aproxima o espectador da experiência da protagonista, tornando sua jornada ainda mais desconfortável. Mesmo com momentos de dureza extrema, "Ondas do Destino" se sustenta como um filme forte e singular, que provoca reflexão sobre os limites entre fé, amor e autodestruição. Atenção às lindas vinhetas que separam os 'capítulos' do filme - as imagens tem uma pegada artificial e a trilha sonora de cada uma delas é super bem escolhida. Atenção também aos atores Emily Watson (Bess) em inicio de carreira e Stellan Skarsgard (Jan) com 44 anos, trinta anos antes de atuar em "Valor Sentimental" (2025).

22.3.26

"A Voz de Hind Rajab" - Kaouther Ben Hania (Tunísia/França/Território Palestino Ocupado/Reino Unido/Arábia Saudita/EUA/Itália/Chipre, 2025)

Sinopse:
 
Voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino (Saja Kilana, Motaz Malhees, Amer Hlehel, Clara Khoury) permanecem ao telefone com uma menina de seis anos (Hind Rajab) que fica presa em um carro na Gaza devastada pela guerra.
Comentário: Kaouther Ben Hania (1977) é uma cineasta e roteirista tunisiana. São dela os filmes "O Agressor de Túnis" (2014), "A Bela e os Cães" (2017) e o documentário "As 4 Filhas de Olfa" (2023) dentre outros. Assisti dela o excelente "O Homem Que Vendeu Sua Pele" (2020). Desta vez vou conferir "A Voz de Hind Rajab" (2025).
Gabriel Gameiro do site Geek Pop News publicou: "Poucos filmes recentes aproximam tanto cinema e realidade quanto 'A Voz de Hind Rajab'. O longa dirigido por Kaouther Ben Hania parte de uma história real ocorrida em janeiro de 2024, durante a guerra em Gaza. A narrativa acompanha a última ligação de Hind Rajab, menina palestina (...) que pediu ajuda por telefone enquanto estava presa em um carro sob fogo cruzado. A gravação real da criança se tornou o elemento central do filme.
Ao mesmo tempo, a história por trás da produção revela um paralelo inesperado. Enquanto o longa era produzido, a família de Hind ainda vivia em Gaza e enfrentava dificuldades para deixar o território. Com o avanço da guerra, integrantes da equipe do filme acabaram envolvidos na operação que permitiu a fuga dos parentes da menina. Assim, a obra indicada ao Oscar não apenas retrata uma tragédia. Ela também se conecta diretamente com os acontecimentos reais que marcaram a vida da família da criança.
Enquanto a história de Hind era transformada em filme, em 2025, sua família ainda enfrentava a realidade da guerra em Gaza. A mãe da menina, Wissam Hamada, vivia com parentes em meio à escassez de alimentos e às dificuldades de comunicação. Em determinado momento, ela chegou a pedir ajuda à equipe do filme para conseguir comida.
Foi nesse contexto que o produtor executivo Amed Khan passou a acompanhar de perto a situação da família. Khan é ativista humanitário e atua em operações de ajuda em zonas de conflito. Inicialmente, sua equipe conseguiu enviar alimentos para a família dentro de Gaza. No entanto, com o agravamento da guerra, a prioridade passou a ser retirar todos do território.  A partir daí, começou uma operação complexa envolvendo contatos diplomáticos, negociações internacionais e autorizações militares.
O plano para retirar a família de Gaza enfrentou diversos desafios, assim como a operação para salvar Hind Rajab. A evacuação dependia de aprovações de diferentes autoridades e de uma logística delicada. Em determinado momento, parentes de Hind precisaram deixar a casa às pressas após relatos de bombardeios na região. Eles se deslocaram até a cidade de Deir al Balah enquanto aguardavam novas instruções.
Mesmo depois de obter autorização para sair do território, a operação continuou complicada. Voos comerciais não eram considerados seguros para esse tipo de evacuação. Assim, foi necessário organizar um avião particular com autorização especial. Após tentativas frustradas, a terceira operação finalmente conseguiu aprovação.
Em setembro de 2025, a família embarcou e conseguiu deixar a região. O destino foi Grécia, onde receberam asilo com apoio de organizações humanitárias.
A indicação de 'A Voz de Hind Rajab' ao Oscar ampliou a visibilidade da história. No entanto, parte das pessoas ligadas ao filme não pôde comparecer à cerimônia. O ator Motaz Malhees anunciou que não poderá viajar aos Estados Unidos. Ele afirma que a restrição ocorre devido à proibição de entrada para portadores de passaporte palestino imposta pelo presidente Donald Trump. A medida também impede a presença da mãe de Hind na premiação.
Nas redes sociais, Malhees afirmou que lamenta a ausência, mas destacou que a história da menina continua sendo ouvida. Segundo ele, 'é possível bloquear um passaporte, mas não uma voz'.
Em 'A Voz de Hind Rajab', a diretora opta por uma abordagem incomum. Em vez de reconstruir visualmente o ataque que matou a menina, o filme coloca no centro da narrativa a gravação original de sua ligação para os serviços de emergência. A voz de Hind aparece frágil e assustada. Durante a chamada, ela pede socorro e pergunta quando a ajuda chegará.
Enquanto isso, a narrativa acompanha o trabalho do centro de atendimento da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino. Operadores tentam localizar a criança e coordenar o envio de ambulâncias. No entanto, a situação se torna cada vez mais complexa. Autorizações militares, protocolos de segurança e a própria dinâmica do conflito dificultam o resgate. Dessa forma, o filme constrói uma tensão constante. O público acompanha uma corrida contra o tempo cujo desfecho já é conhecido.
Para sustentar essa narrativa, o filme apresenta personagens inspirados nos profissionais que participaram do atendimento. A atriz Saja Kilana interpreta Rana, operadora que conversa com a menina ao telefone. Sua atuação transmite calma e empatia, mesmo diante da gravidade da situação. Já Motaz Malhees interpreta Omar, operador que expressa indignação com a lentidão do processo de resgate. O personagem questiona protocolos e insiste em tentar salvar a criança.
Outro papel importante é o de Mahdi, interpretado por Amer Hlehel. Como chefe do centro, ele precisa equilibrar a urgência da situação com a segurança das equipes de socorro. Ao mesmo tempo, a personagem Nasreen, vivida por Clara Khoury, atua como mediadora e tenta manter o funcionamento do atendimento em meio ao caos. Assim, o filme revela o esforço de profissionais que tentam salvar vidas dentro de um cenário marcado por limitações e riscos constantes.
'A Voz de Hind Rajab' se tornou um dos filmes mais discutidos da temporada. Isso ocorre não apenas por sua linguagem cinematográfica, mas também pela conexão direta com acontecimentos reais. Ao contar a história da última ligação de Hind, o longa registra um episódio marcante da guerra em Gaza.
Ao mesmo tempo, a própria produção acabou participando de um capítulo posterior dessa história: a fuga da família da menina para fora do território. Assim, o filme estabelece um paralelo raro entre arte e realidade. A narrativa exibida na tela reflete acontecimentos que continuaram a se desenrolar longe das câmeras, e que ainda ecoam no debate internacional sobre o conflito".
O filme ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e concorreu ao Oscar na categoria Melhor Filme Internacional.
O que disse a crítica 1: Marcos Faria do Cine Set avaliou com 2,5 estrelas, algo entre ruim e regular. Disse: "O que fazemos com nossos mortos? Guardamos seu direito à privacidade respeitosamente? Ou projetamos seus suspiros finais em Dolby 5.1 numa sala de cinema? Qualquer pessoa em sã consciência escolheria a primeira opção; mas e se, ao escancararmos essa que talvez seja a mais íntima e particular das experiências, pudéssemos denunciar um regime genocida? A profanação estaria perdoada? (...) No fundo, trata-se de uma espécie de reconstituição com toda a cara de um episódio de 'Linha Direta' - o que pode trazer alguns questionamentos à tona: onde termina a denúncia corajosa das atrocidades e onde começa a exploração do sofrimento alheio? (...) Depois de um tempo, começa a parecer que a diretora tunisiana Kaouther Ben Hania quer mesmo esfregar nossa cara no sofrimento da menina para emprestar urgência ao seu filme, de forma bastante oportunista".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'A Voz de Hind Rajab' é um filme imprescindível não por sua imensa força dramática (e é uma obra formidável), mas por ser um tributo a Hind e às mais de 20 mil crianças mortas por Israel - além das outras 1.102 que passaram por amputações, dos 420 bebês natimortos e das quase 60 mil que se tornaram órfãs desde outubro de 2023 (e não devemos nos esquecer das mais de 900 mil que estão sendo privadas de educação, já que o cotidiano de fuga, fome e luto dificilmente viabiliza os estudos). Caso a humanidade tenha futuro - e neste momento não creio que tenha -, seremos todos julgados severamente por termos permitido que um genocídio transmitido em cores e em tempo real tenha se tornado parte de nosso cotidiano".
O que eu achei: Na tarde de 29 de janeiro de 2024, operadores de chamadas da organização humanitária Sociedade do Crescente Vermelho Palestino foram conectados a alguém em necessidade urgente de ajuda. Quem ligou foi Sarah, prima de 15 anos da pequena Hind Rajab Hamada. A prima morre já nos primeiros minutos de ligação e a pequena Hind, com apenas 6 anos de idade, assume a chamada. É por uma linha cheia de estalos nos fones de ouvido que a pequena, desesperada e confusa voz de uma criança implora para que alguém venha buscá-la. Ela e seis membros de sua família - tio, tia e quatro primos - estavam dirigindo por Gaza, por conta da ordem de evacuação do bairro Tel Al-Hawa por parte do exército israelense, quando seu carro foi atingido por tiros. Todos no carro já estavam mortos, menos ela. O filme é um soco no estômago. Ele mescla as falas reais da menina com o atendimento encenado por atores. Há pequenos trechos que mostram os reais atendentes falando com ela. A operação de socorro é desesperadora. O Crescente Vermelho Palestino já está basicamente sem equipes para fazer atendimentos. Um painel com as fotos das equipes mortas em atividade ilustram as paredes da sala da organização. Fazer esse resgate é colocar em risco os poucos membros em campo que ainda estão vivos. É preciso instruções de como chegar ao local com segurança bem como obter autorização, algo que chega a demorar horas. Ao final, como já foi amplamente noticiado, nada dá certo. Foi necessário esperar 12 dias até a retirada do exército israelense para descobrirem o fim trágico de todos: equipe e menina. 355 balas atingiram o carro da família Hamada. 355 balas contra um carro com 2 adultos civis e 4 crianças dentro. Devastador, dilacerante, impactante, pesado, necessário são adjetivos que se aplicam a esse longa. Você desliga com a certeza de que falhamos miseravelmente como humanidade.

17.3.26

"Um Domingo Maravilhoso" - Akira Kurosawa (Japão, 1947)

Sinopse:
Após a Segunda Guerra Mundial, o casal de namorados Yuzo (Isao Numasaki) e Masako (Chieko Nakakita) passa um domingo juntos tentando deixá-lo inesquecível. Mesmo com problemas econômicos e preocupações com a era nuclear, o amor deles lhes dá a possibilidade de se iludirem com um futuro melhor.
Comentário: Akira Kurosawa (1910-1998) foi produtor, montador, escritor e pintor japonês mas se destacou como cineasta e roteirista, um dos mais importantes do Japão e seus filmes influenciam até hoje uma grande geração de diretores. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu em torno de 30 filmes. É amplamente considerado um dos cineastas mais importantes da história do cinema, o que lhe rendeu um Oscar em 1989 pelo conjunto de sua obra. Assisti dele as obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985), o ótimo "Céu e Inferno" (1963), os bons “Os Sete Samurais” (1954) e "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), o mediano “Viver” (1952) e os curiosos "Sonhos" (1990) e "Madadayo" (1993). Desta vez vou conferir "Um Domingo Maravilhoso" (1947).
Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta que "Depois de sua visão política sobre o Japão pré, durante e pós Segunda Guerra ('Não Lamento Minha Juventude', 1946), Akira Kurosawa faria uma obra de caráter social e muito próximo ao ideal neorrealista de exposição de conflitos e problemas sociais, com a diferença do uso de atores profissionais e das filmagens em estúdio. A despeito dessas características, 'Um Domingo Maravilhoso' (1947) é uma obra pungente sobre a vida no Japão após a grande guerra, um retrato social e particular de como a sobrevivência em tempos difíceis pode ser diferente para cada grupo de pessoas, especialmente em um país em reconstrução, onde a fiscalização e o olhar para as massas são mínimos ou inexistentes.
Com roteiro de Kurosawa e Keinosuke Uekusa, 'Um Domingo Maravilhoso' acompanha um dia na vida do casal Yuzo e Masako, que mesmo com pouco dinheiro, tentam fazer de seu domingo juntos um dia inesquecível. A motivação sonhadora de Masako e o ceticismo e amargura de Yuzo se chocam já nas primeiras sequências do filme. Ele, um ex-soldado com um emprego de pequena remuneração; ela, uma garota apaixonada que tenta levar adiante o sonho de construir uma vida ao lado do namorado que tinha antes da Guerra e que agora parece ter se esquecido ou perdido a capacidade de sonhar.
Em meio à pobreza, o sonho se eleva como uma possibilidade, uma promessa de dias melhores mesmo que tudo pareça dizer o contrário. É olhando através dessa janela onírica que Masako mantém viva a esperança de construir um Café e uma vida ao lado de Yuzo. Sua representação como proprietária de uma grande casa chega a ser triste e dolorosa, mesmo que percebamos a alegria dela em se imaginar vivendo aquela realidade. Em contraste, Yuzo observa os sapatos gastos e furados da namorada e se recusa e entrar no jogo de representação, mergulhado completamente em pensamentos sobre o futuro pouco animador. Essa oposição entre pessimismo e otimismo será uma constante em todo o filme e passa de um protagonista para outro, alternando a intensidade e os motivos correlatos conforme o filme avança.
O experiente Asakazu Nakai, que voltaria a trabalhar com Kurosawa outras vezes ('Viver', 'Trono Manchado de Sangue', 'Os Sete Samurais' e 'Ran', só para citar algumas) apresenta um belo trabalho de fotografia, com iluminação delicada e tomadas inesquecíveis, como toda a poderosa sequência final, onde Yuzo rege a Sinfonia Inacabada de Franz Schubert em um anfiteatro vazio. A escolha da sinfonia é tão metaforicamente perfeita quanto a representação mimética do ator Isao Numasaki, que apresenta uma ponderada e tocante mudança psicológica do início para o final da obra. Já a atriz Chieko Nakakita, que trabalhara com Kurosawa em 'A Mais Bela' (1944) e 'Não Lamento Minha Juventude' (1946), representa uma Masako dócil, frágil, sonhadora, mas ao mesmo tempo forte e determinada, um contraponto perfeito para a personalidade de Yuzo. Algumas mudanças bruscas de humor quebram um pouco o ritmo de boa representação da atriz, mas nada que diminua assustadoramente a qualidade de seu trabalho".
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "Como costumeiro em sua filmografia, Kurosawa utiliza os fenômenos da natureza para indicar o tom do filme. Por exemplo, a chuva marca os momentos mais tristes de 'Um Domingo Maravilhoso'. Quando o sol reaparece, o rapaz Yuzo se anima para sair à rua, depois da forte briga com Masako. E, finalmente, o vendaval atrapalha a fantasia do rapaz na condução da orquestra. 'Um Domingo Maravilhoso' é outro grande exemplar de drama contemporâneo de Akira Kurosawa. Realista e existencial, retrata com sensibilidade a dureza do pós-guerra no Japão".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Como a 'Sinfonia Inacabada' [música de Franz Schubert que toca durante o filme], a história de 'Um Domingo Maravilhoso' não termina. Por ser apenas a visão de um único dia na vida de Yuzo e Masako, temos a projeção de diversas possibilidades para o futuro, e embora possamos juntar elementos do próprio filme para acreditarmos em algo pleno de realizações, não podemos afirmar com certeza, porque o próprio filme também nos mostra como coisas aparentemente certas podem se tornar impossíveis de se concretizar. Todavia, a mensagem de esperança em meio ao sofrimento e o poder do sonho como fuga de uma realidade dolorosa são elementos que não se dissipam facilmente da mente do espectador e, com certeza, marcam a construção desse drama social poderoso do mestre Kurosawa".
O que eu achei: Um dos cineastas mais famosos do oriente, espécie de embaixador do cinema japonês, Akira Kurosawa iniciou sua carreira nos anos 1940 com um modernismo devedor dos experimentos da década anterior. Alguns estudiosos subdividem seu cinema em fases, começando com trabalhos humanistas do pós-guerra (1943–1946), seguido de um período de transição para a modernidade (1947-1950), iniciado justamente pelo filme "Um Domingo Maravilhoso" (1947), que se passa logo após o término da Segunda Guerra Mundial. O longa mostra um casal de namorados - Yuzo (Isao Numasaki) e Masako (Chieko Nakakita) – que passa um domingo com 35 ienes no bolso, tentando deixá-lo inesquecível, tarefa essa que não será fácil frente aos problemas econômicos e preocupações com a era nuclear e com a falta de perspectivas. Eles até tentam se divertir, mas nada dá certo. O que resta pra eles então é tentarem se iludir e sonhar com um futuro melhor. Apesar da premissa interessante, ele está longe dos melhores de sua carreira. Aliás todos os filmes dessas duas primeiras fases ainda carecem de aprimoramentos que só começaram a aparecer de 1950 em diante, em obras como "Rashomon" (1950), "Os 7 Samurais" (1954) e "Trono Manchado de Sangue" (1957); atingindo seu auge nos anos 1960 que começa com o bom "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), seguindo para o ótimo "Céu e Inferno" (1963) e desembocando nas obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985). É notório como o passar dos anos foi deixando Kurosawa mais afiado. "Um Domingo Maravilhoso" é o sétimo filme do diretor. Está mais para um daqueles trabalhos de um cineasta em lapidação. O filme se passa em um único dia, os cenários são teatrais com filmagens notadamente capturadas em estúdio, mostrando a cidade de Tóquio devastada pela guerra ou um quarto de pensão decadente que Yuzo divide com um colega. Atenção à música que Yuzo rege num anfiteatro vazio. Trata-se da maravilhosa "Sinfonia Inacabada" de Franz Schubert, um dos pontos altos do filme.

16.3.26

"Blue Moon: Música e Solidão" - Richard Linklater (EUA/Irlanda, 2025)

Sinopse:
Na noite de 31 de março de 1943, o lendário letrista Lorenz Hart (Ethan Hawke) enfrenta sua autoconfiança abalada no bar Sardi's, enquanto seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) comemora a noite de estreia de seu inovador musical "Oklahoma!".
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017) e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou conferir "Blue Moon: Música e Solidão" (2025).
Rodrigo Fonseca publicou no Correio da Manhã: "'Blue Moon' foi rodado em 15 dias, em estúdio, em Dublin, na Irlanda, por uma bagatela, e compensou o orçamento que consumiu para sair do papel com uma sucessão de vitórias, a começar pela indicação ao Urso de Ouro de 2025. Andrew Scott foi premiado na Berlinale (...) com o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante, por seu desempenho no painel histórico da Broadway. Recebeu mais 13 láureas e 68 indicações a troféus de peso, com destaque para o Oscar, [onde] concorre nas categorias de Melhor Ator (para Hawke) e Melhor Roteiro Original (Robert Kaplow). A nomeação em Hollywood deveria lhe abrir salas no Brasil, mas não foi capaz: o streaming foi seu destino. (...)
[No Longa] Linklater e Ethan revisitam a saga do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi's, durante a festa de abertura do novo espetáculo (o fenômeno "Oklahoma!") de seu ex-parceiro Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott. Na noite de 31 de março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos os seus demônios.
Em recente entrevista ao Correio da Manhã, Hawke explicou que 'o álcool, no caso de Lorenz, é apenas o sintoma de um problema profundo ligado ao senso de não pertencimento e a bebida só faz ampliar a sua solidão'. Linklater costuma falar dela com frequência. E o faz por meio do verbo, em narrativas palavrosas. Contam-se nos dedos as vozes autorais da realização capazes de pavimentar integralmente a sua narrativa na palavra, a extrair delas um grau (transcendente) de cinemática, como Linklater consegue. No documentário, ressaltava-se Eduardo Coutinho (1933-2014) por essa façanha (a expandir os limites do plano talking head) e, hoje, na ficção, encontra-se essa destreza na obra de comida e bebida perfumados a cigarros do sul-coreano Hong Sang-Soo (de 'A Mulher Que Fugiu').
Dínamo do modo de produção indie nos EUA, Linklater deu lá suas escapadelas mais cinemáticas, ou seja, fez filmes nos quais o movimento é mais abundante do que o falatório, vide 'Escola do Rock' (2004) ou o recente (e delicioso) 'Hit Man' (aqui chamado 'Assassino Por Acaso', de 2023).
No entanto, retorna ao esquema dos filmes concentrados em parlatórios (sempre num viés de tom confessional e existencialista) com recorrência. Construiu nessa vereda uma espécie de carta de intenções de uma estética investigativa dos desacertos e desatinos do querer e do viver, que se estendeu à animação com 'Waking Life' (2001), um poema em forma de rotoscopia. A forma como explora as fraturas expostas pela fala alcança um novo estágio (e um amadurecimento notável) em 'Blue Moon'. Leva Hawke aos píncaros da excelência consigo.
Passados 17 anos de 'Eu e Orson Welles' (2009), o diretor retorna ao universo do teatro, num namorico com as figuras exponenciais dessa expressão artística milenar, no intuito de entender a ciranda de vaidades e de decepções que circunda o glamour da Broadway. Assume, para isso, a data de estreia do espetáculo 'Oklahoma!', e parte das franjas desse abrir de cortinas para explorar as inquietações de Lorenz Hart. São dele baladas memoráveis como 'The Lady Is a Tramp'; 'Manhattan'; 'My Funny Valentine' e 'Bewitched, Bothered and Bewildered'.
Apesar de retratá-lo na sua fase crepuscular, Linklater jamais se afoga na amargura, embora ela esteja lá, no ciúme e no inconformismo que Lorenz (chamado por amigos e amantes de Larry) sente do projeto teatral da dupla Rodgers e Hammerstein, que reestrutura o entretenimento americano. Parece não haver lugar para ele no que se funda na primeira metade da década de 1940, numa indústria embalada pelas suas canções de amor. Por isso, ele bebe. A certa medida, ao fitar um drink, diz: 'Como pode tanto prazer caber em algo tão pequeno'. A mesma dinâmica se aplicaria por nós, cinéfilos, a uma joiazinha como 'Blue Moon', que merece uma chance em tela grande".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "É possível que 'Blue Moon' soe, de fato, um tanto maçante no segundo terço, quando algum momento de solidão ou recolhimento de Hart seria benéfico, para equilibrar a metralhadora verbal do personagem. Fãs do compositor talvez não apreciem este olhar voltado à decadência, com pouca ênfase no trabalho do artista durante décadas. Focar-se no protagonista no instante exato em que decai, pessoal e artisticamente, talvez soe delicado para alguém de tamanho reconhecimento no meio, até então. Mesmo assim, Linklater evita o caráter laudatório e excessivamente linear dos biopics, propondo fragmentos de uma personalidade complexa, que nunca tenta explicar, nem resumir. O diretor respeita as contradições de Hart - e aí, possivelmente, reside o seu principal trunfo".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "Em 'Blue Moon', não temos apenas as fragilidades de Lorenz Hart reveladas. O filme destaca, é verdade, o seu ponto de vista para as coisas, mas é possível perceber o quanto os outros profissionais em torno dele possuem inseguranças, dúvidas, ansiedade e uma melancolia que muito tem a ver com o momento que vivem (a Segunda Guerra Mundial) e que, talvez por fuga ou por mentirem para si mesmos, tentam deixar de lado e destacar apenas o 'aqui e agora', a beleza de uma letra, de um acorde, de um artigo, de uma fotografia, de um enredo… tudo misturado às mais diversas emoções humanas. Nós saímos de 'Blue Moon' com uma sensação esquisita de 'completude incompleta'. Por um lado, temos a saciedade de bons diálogos de um olhar até mesmo invasivo para Lorenz Hart. Por outro, a fome de mais elementos para além de seu núcleo, de seu olhar viciado e lamentador. Não diria, porém, que é uma armadilha inevitável do filme. É somente parte de nossa curiosidade, nascida da altíssima qualidade com que o diretor projetou a sombra de um artista que tanta beleza trouxe para o mundo, mas que não conseguiu utilizá-la para iluminar o seu próprio caminho".
O que eu achei: Que retrato delicado este sobre compositor americano Lorenz Hart (1895-1943). Foi fazendo par com Richard Rodgers (responsável pelas melodias) por mais de 20 anos, que ele escreveu a letra de 26 musicais da Broadway, incluindo sucessos como “Blue Moon”, “The Lady Is a Tramp”, “Manhattan”, “Bewitched, Bothered and Bewildered” e “My Funny Valentine”. Hart nasceu no Harlem, na cidade de Nova Iorque, e é o mais velho de dois filhos. Seus pais eram imigrantes judeus de origem alemã. Do lado materno, Hart era sobrinho-neto do poeta alemão Heinrich Heine. Seu irmão, Teddy Hart, também se dedicou ao teatro e se tornou um astro da comédia musical. Ele chegou a estudar jornalismo, trabalhou para os irmãos Shubert traduzindo canções de peças alemãs para o inglês, quando em 1919, um amigo o apresentou a Richard Rodgers e os dois se juntaram para compor músicas para uma série de produções teatrais. Eles ganharam muito dinheiro. Em 1938 Lorenz Hart começa a sofrer com o alcoolismo. Mesmo assim, eles continuaram trabalhando juntos até meados de 1942. Em julho de 1942, o New York Times noticiou que Richard Rodgers, Lorenz Hart e Oscar Hammerstein II começariam a trabalhar em uma versão musical de um peça folclórica. Rodgers havia trazido o letrista Oscar Hammerstein II para o projeto devido à piora do estado mental de Hart, que admitiu que tinha dificuldade em escrever um musical para um ambiente rural como Oklahoma e abandonou o projeto. Ocorre que o musical "Oklahoma!" foi um enorme sucesso. O filme vai mostrar justamente uma versão imaginada da noite de 31 de março de 1943, na qual o lendário letrista (interpretado magistralmente por Ethan Hawke, indicado ao Oscar por sua atuação) se encontra dentro do bar Sardi's, esperando a chegada de seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) juntamente com seu novo parceiro Hammerstein (Simon Delaney) para comemorar a noite de estreia do inovador "Oklahoma!". Com um roteiro original inspirado nas cartas que o letrista escreveu para sua musa Elizabeth Weiland, o filme tem uma pegada teatral com poucas mudanças de cenários, poucos personagens e muitos monólogos. A câmera de Linklater trabalha com enquadramentos que transformam o ator Ethan Hawk, que na vida real tem 1,80m de altura, em um homem franzino e decadente com pouco mais de 1,50m. É nesse fatídico dia que Lorenz Hart vai constatar que sua saída da dupla foi a chave do sucesso para a carreira do parceiro decolar, num misto de autocomiseração, inveja, ciúme e desdém. Conta-se que eles ainda trabalharam juntos mais uma vez nesse ano, quando Rogers o chama para compor seis letras de músicas, mas no dia da estreia desse musical, Hart cai bêbado na rua e desaparece, tendo sido encontrado doente dois dias depois e levado ao Doctors Hospital onde morreu em poucos dias. Um filme triste, mas extremamente bem feito que resulta num brilhante estudo de personagem. Tive que procurar imagens do ator Ethan Hawke para me lembrar quem era, tamanha a transformação. O ator não ganhou o Oscar, mas era outro concorrente que se ganhasse, não teria sido uma injustiça. Excelente pedida.

14.3.26

"Sonhos S.A." - Kim Hagen Jensen & Tonni Zinck (Dinamarca/Bélgica/Suécia/Alemanha/EUA/Irlanda, 2019)

Sinopse:
 
Sentindo falta da mãe falecida, Minna fica arrasada quando o pai se casa novamente, formando uma família com a madrasta Helene e a meia-irmã Jenny, obcecada por redes sociais. Minna se refugia então no mundo dos sonhos, onde tudo é possível. Certa noite, enquanto sonha, ela atravessa uma parede e encontra Gaff, uma criatura falante responsável por construir sonhos. Ela implora que ele a ajude a entrar nos sonhos de Jenny para plantar ideias em sua mente, mas quebrar as regras a leva a todo tipo de problema, tanto no mundo dos sonhos quanto na vida real.
Comentário: Trata-se de uma animação também divulgada no Brasil com o título "A Fábrica de Sonhos", que se aproximaria mais do original dinamarquês "Drømmebyggerne" (Os Construtores de Sonhos).
Serena Seghedoni do site Loud and Clear publicou: "Para onde vamos quando adormecemos? O que acontece com nossas mentes quando entramos no reino dos sonhos? Tudo o que vemos e sentimos é apenas produto da nossa imaginação ou também é, de alguma forma, real?
Em 'Sonhos S.A.', as codiretoras Kim Hagen Jensen e Tonni Zinck abordam essas e muitas outras questões, mostrando-nos um mundo oculto que existe dentro de um dos reinos mais fascinantes, misteriosos e privados que já visitamos – aquele que percorremos todas as noites, em nossos próprios sonhos.
Esta envolvente animação dinamarquesa gira em torno de Minna (Emilie Kroyer Koppel), uma jovem que descobre um mundo oculto em seus sonhos, onde pequenas figuras robóticas 'constroem' os sonhos das pessoas em palcos de teatro. Conforme Minna convence seu próprio construtor de sonhos (o adorável Gaff, interpretado por Martin Buch) a lhe dar acesso aos bastidores de seus próprios sonhos, ela descobre que também pode manipular os sonhos de outras pessoas – o que parece ser a maneira perfeita de tentar influenciar sua nova meia-irmã, plantando ideias em sua mente. Mas Minna logo aprende que interferir nos sonhos das pessoas tem consequências e se vê embarcando em uma missão para salvar sua família de um pesadelo criado por ela mesma – e aprendendo algumas coisas sobre si mesma no processo.
A primeira coisa que você notará em 'Sonhos S.A.' é que ele é absolutamente deslumbrante. Animado pela equipe por trás de 'Operação Big Hero' e 'Sherlock Holmes', o filme apresenta tabuleiros de xadrez voadores, cascatas de flocos de milho caindo do céu, criaturas adoráveis ​​– sejam reais ou imaginárias – e cenários magníficos que farão você se apaixonar instantaneamente pelo mundo dos sonhos secreto de Minna. Você ficará cativado por sua imaginação, desenvolverá imediatamente um carinho por seu afetuoso construtor de sonhos e se pegará sorrindo em cada cena com Viggo Mortensen – ou seja, o adorável hamster de Minna. Muito esforço foi investido para tornar 'Sonhos S.A.' mágico, um esforço que realmente transparece na beleza de seus detalhes.
É impossível não notar que essa linda história parece ter algumas semelhanças com 'Divertida Mente', da Pixar, outra animação incrivelmente cativante que gira em torno das criaturas que habitam nossos cérebros. 'Sonhos S.A.' se diferencia da adorada aventura da Pixar por diversos motivos, a começar pelo visual fascinante, a la 'Alice no País das Maravilhas', do mundo imaginário da protagonista, com relógios, peças de xadrez, animais flutuantes e montanhas-russas em tons pastel que certamente te transportarão para o mundo de Minna. (...)
O conflito do filme surge quando a vida de Minna é interrompida por Helene (Ditte Hansen) e Jenny (Caroline Vedel), duas personagens que, de alguma forma, descobrimos mais tarde como a nova noiva do pai de Minna e sua filha viciada em tecnologia e amante de sushi, respectivamente, mas cujos passados ​​sequer são mencionados no filme".
Segundo Seghedoni muito pouco é informado sobre o relacionamento do pai de Minna com Helene. O próprio pai de Minna, John (Rasmus Botoft), parece ser obcecado por uma banda mexicana de nome peculiar e o único desenvolvimento de personagem que ele apresenta ao longo do filme é o gosto por anchovas. Helene, a madrasta, passa quase despercebida e Jenny é retratada como a típica millennial obcecada por selfies.
"No entanto, a maior oportunidade perdida diz respeito à mãe de Minna, (...) uma cantora que, como descobrimos logo, abandonou o marido e a filha para seguir carreira na música, e que aparece no filme apenas em cartões-postais e vídeos do YouTube – uma presença desnecessária que se soma à coleção de personagens subdesenvolvidos na vida de Minna".
O que disse a crítica 1: Lorenna Montenegro do site Cenas de Cinema avaliou com 1 estrela, ou seja, ruim. Disse: "É tudo tão previsível e acabrunhado que chega a irritar a maneira com que paulatinamente Minna vai entrando nos sonhos do pai e da realmente insuportável Jenny para que as coisas corram como ela quer, para que 'tudo volte ao normal'. Os seres que trabalham na fábrica de sonhos são dóceis e submissos, o que torna toda a trama plana e pouco afeita aos picos emocionais presentes no storytelling das produções de uma Pixar, por exemplo. (...) É triste pensar que não faltaram para os animadores dinamarqueses excelentes exemplos dentro da animação europeia - em especial a francesa e inglesa -, onde buscar inspiração para fazer algo bom, ainda que simples, mas autêntico".
O que disse a crítica 2: Rich Cline do site Shadows on the Wall avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "Há ideias surpreendentemente sombrias permeando esta história, com perigos arrepiantes à espreita neste reino fantástico. E, de volta à sua vida real, Minna enfrenta um bullying implacável de todos os lados. Mas sua manipulação de Jenny parece ainda mais cruel e tem sérias repercussões. Assim, no ato final, ela precisa embarcar em uma jornada de redenção que soa um pouco forçada. Mesmo assim, os temas mais profundos são fortes, explorando novas emoções, com a inventividade visual dos cineastas se tornando implacavelmente envolvente".
O que eu achei: "Sonhos S.A." (2019) é uma animação europeia que aposta em uma premissa bastante atraente: um universo onde sonhos são produzidos e administrados por uma espécie de 'empresa especializada'. A ideia imediatamente desperta curiosidade e abre espaço para explorar a imaginação de maneira livre. A história acompanha uma jovem que, sem querer, descobre esse mundo secreto responsável por criar sonhos para as pessoas enquanto dormem. A partir daí, o filme combina aventura, fantasia e um toque de reflexão sobre medo, imaginação e crescimento emocional. O conceito em si é interessante e tem potencial para situações criativas, especialmente ao mostrar como sonhos podem ser manipulados ou transformados. Visualmente, a animação em CGI é colorida, dinâmica, tem cenários que exploram bem o caráter surreal do universo onírico. Há momentos em que a parte visual realmente se destaca, com sequências que brincam com lógica e forma de maneira inventiva. No entanto, embora a premissa seja promissora, o desenvolvimento da história nem sempre acompanha o mesmo nível de inspiração. O roteiro segue caminhos relativamente previsíveis e alguns conflitos se resolvem de maneira rápida demais, o que diminui de alguma forma o impacto dramático de certas situações. Ainda assim, "Sonhos S.A." cumpre bem seu papel como entretenimento familiar. Tem ritmo ágil, personagens simpáticos e uma mensagem positiva sobre enfrentar medos e valorizar a imaginação. Não chega a ser uma animação memorável dentro do gênero, mas também está longe de decepcionar. É um filme agradável, com boas ideias e execução competente. Atenção para o nome dado ao adorável hamster de Minna: Viggo Mortensen, uma homenagem ao ator, músico, poeta e fotógrafo americano-dinamarquês, famoso por atuar em filmes do Cronenberg e na trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001-2003).

10.3.26

“Terra Estrangeira” - Walter Salles & Daniela Thomas (Brasil/Portugal, 1995)

Sinopse:
Anos 90. Sem perspectiva de vida num Brasil tomado pelo caos em plena era Collor, Paco (Fernando Alves Pinto) decide viajar para Portugal após a morte da mãe, levando uma misteriosa encomenda. Em Lisboa, ele conhece Alex (Fernanda Torres), brasileira namorada de Miguel (Alexandre Borges), todos envolvidos num esquema de contrabando, que vai tornar suas vidas um pesadelo.
Comentário: Walter Salles (1956) é um cineasta brasileiro. Herdeiro do Itaú Unibanco, ele é uma figura importante do Cinema de Retomada no Brasil. Seus filmes ganharam prêmios em Cannes, Veneza, no British Academy Film Awards, ganhou Urso de Ouro, Globo de Ouro e Oscar. Já vi dele os ótimos "Diários de Motocicleta" (2004) e “Ainda Estou Aqui” (2024) e o bom "Na Estrada" (2012). Daniela Thomas (1959) é uma cineasta, diretora teatral, dramaturga, iluminadora, cenógrafa e figurinista brasileira. Ela é filha do desenhista e cartunista Ziraldo e irmã do compositor Antonio Pinto. “Terra Estrangeira” (1995) foi dirigido numa parceria entre ela e Walter Salles.
A ideia do filme surgiu a partir de uma fotografia encontrada na capa de um livro, onde se via um casal à deriva, encalhado numa praia deserta como um navio emborcado na areia. Segundo Walter Salles, "pouco a pouco, foi ficando claro que aquela cena refletia formas distintas de exílio: político, econômico, afetivo”.
Karina Braga do site Culturadoria nos conta que "O filme foi considerado um dos 100 melhores do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Ao lado de 'Carlota Joaquina: Princesa do Brazil' (1995) e 'O Quatrilho' (1995), 'Terra Estrangeira' (1995) foi um marco na reestruturação do cinema nacional porque, naquela época, vivíamos tempos obscuros, marcados pelo corte radical de incentivos à produção cultural, providos pelo então presidente Fernando Collor [que presidiu o Brasil de 1990-1992]. Foi nesse cenário de terra arrasada que nasceu, então, 'Terra Estrangeira'.
Selecionado pelo festival de Roterdã, uma grande vitrine do cinema autoral, o filme era a primeira produção brasileira a participar desta competição em muitos anos. 'Terra Estrangeira' conta a história do jovem Paco (Fernando Alves Pinto) que resolve migrar para Portugal e se encontra com Alex (Fernanda Torres). Juntos se envolvem com pessoas perigosas e tentam uma fuga alucinada para a Espanha.
O filme sintetiza o sentimento de desilusão que tomou conta do país na época, sendo muito bem traduzido pela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho. Essa estética bicolor é, na verdade, também protagonista, porque fala de um Brasil frio e opaco. Um país vivenciando, de fato, o espírito de estar à deriva. O preto-e-branco adotado pelo diretor de fotografia, retira todo os adereços, as distrações, e foca naquilo que é o essencial: a realidade seca dos personagens, párias em terra estrangeira.
O filme foi bem aceito pela crítica e pelo público em geral, marcando o reinício do cinema brasileiro no cenário dos festivais internacionais. Acabou vencedor do Prêmio Golden Rosa Camuna como Melhor Diretor; Grand Prix, Melhor Filme Estrangeiro; Margarida de Prata, Melhor Filme; e troféu APCA, Melhor Roteiro.
Podemos dizer que a imagem de um navio encalhado numa praia, que acabou inspirando o filme 'Terra Estrangeira', era a metáfora ideal para o Brasil em meados de 1990. O momento histórico da criação do filme foi marcado pela completa desilusão nacional. O Brasil, presidido por um falso caçador de marajás, acabou se perdendo em meio à inflação descontrolada e medidas econômicas caóticas, com aumento claro no nível de pobreza da população. O presidente Fernando Collor também opta por atacar a cultura e a educação. Em março de 1990, ao assumir a Presidência da República extinguiu o Ministério da Cultura. Um mês depois, o Programa Nacional de Desestatização deu fim à Embrafilme e, do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema foi desestruturada. Houve, inclusive, o confisco da poupança de todos os brasileiros, que acabou por provocar um aumento na taxa de suicídio e fuga do país, ou seja, a busca por uma maior estabilidade em terra estrangeira. Fica claro, aqui, o sentimento de completa deriva do povo brasileiro, o que justifica a metáfora do barco que deu origem a filme".
O que disse a crítica 1: César Barzine do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "Português é a língua predominante neste filme cartográfico. Há vozes de brasileiros, portugueses e angolanos falando a mesma língua, contudo, apesar de ser um único idioma, a comunicação entre eles parece ser algo ausente. A língua é, na verdade, a peça-chave para acentuar a distância entre esses personagens".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: "Manifestando o embate entre o ímpeto da juventude e as barreiras impostas pela conjuntura sócio-política, seja a do Brasil, antes chamado de país do futuro, ou a da Europa, o Velho Continente decrépito, simbolizado pelo navio encalhado à beira da praia, 'Terra Estrangeira' se apresenta como um filme pungente, bonito em sua abordagem dura e melancólica da realidade. A melodia de ‘Vapor Barato’, um dos grandes clássicos da MPB, acompanha sutilmente boa parte da viagem de Paco e Alex rumo a novas transposições de divisas para, então, tentar a felicidade. Quando tudo se direciona ao terreno da indefinição, com ares de possível tragédia, a voz de Gal Costa substitui a de Fernanda Torres, atriz que até ali cantarolava a música, o que reforça a desesperança e o nó na garganta. Não se trata de ser pessimista. Walter Salles e Daniela Thomas apenas capturam o estado das coisas, contrapondo valores, sendo o humano maior que o das joias ou o do violino raro, segundo suas manifestadas convicções".
O que eu achei: “Terra Estrangeira” (1995) foi o terceiro filme feito pelo Walter Salles. O primeiro foi "A Grande Arte" (1991), uma produção de porte considerável, falada em inglês, com casting gringo. O segundo foi um curta-metragem. Então pode-se dizer que o longa é de um cineasta bem em início de carreira. A direção é dividida com Daniela Thomas, que acabara de realizar os cenários e figurinos de "The Flash and the Crash Days", peça dirigida por Gerald Thomas. O roteiro traz as marcas de seu tempo, época em que era possível entrever as contradições de um mundo cada vez mais integrado, mas com pessoas cada vez mais desenraizadas, não somente de uma nacionalidade ou de outra, mas da dignidade, da cidadania, e da relação com o outro. A atriz Fernanda Torres, que na época estava com 30 anos, é uma das protagonistas. Li uma matéria assinada por ela no jornal Folha SP dizendo: "Imagine um país inviável, presidido por um falso caçador de corruptos, que vê a cultura e a educação como inimigas. Imagine que esse mesmo país, com taxa de inflação descontrolada e miséria crescente, se valha de medidas econômicas caóticas, forçando muitos de seus habitantes a optar pelo exílio, párias em terras estrangeiras. Esse era o Brasil do início da década de 1990". O falso caçador de corruptos a que ela se refere é Fernando Collor de Melo, que presidiu o Brasil de 1990 até 1992. Foram apenas 2 anos, mas o estrago foi grande. Assim que ele assumiu o cargo, ele extinguiu o Ministério da Cultura e, um mês depois, deu fim à Embrafilme. Fernanda Torres conta que do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema de pé foi desmantelada. Não havia nem sequer um telefone fixo para atender uma ligação. Ela estava no México quando recebeu a notícia do confisco de Zélia Cardoso de Mello, ou seja, o governo havia se apoderado de todo o dinheiro depositado pelos brasileiros nos bancos. Quem viveu essa época sabe o pesadelo que foi, muita gente se suicidou ao se ver praticamente sem um tostão furado no bolso. O longa está longe do resultado de filmes posteriores do Walter Salles, como "Central do Brasil" (1998) ou "Ainda Estou Aqui" (2025), mas conta com um bom elenco - além da Fernanda, há o Alexandre Borges, a Laura Cardoso e o Luís Melo – e ótima trilha sonora com destaque para a canção 'Vapor Barato' escrita por Jards Macalé e Waly Salomão e interpretada por Gal Costa. Restaurado em 4K ele está disponível em plataformas de streaming, sendo uma oportunidade de ser visto como um marco dos anos 1990, com sua representação do deslocamento, sua estética marcante e por capturar um momento histórico crucial do Brasil.

8.3.26

"Marty Supreme" - Josh Safdie (EUA/Finlândia, 2025)

Sinopse:
Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem com uma ambição desmedida, está pronto para tudo para realizar seu sonho e provar ao mundo inteiro que nada é impossível para ele.
Comentário: Josh Safdie (1984) é um cineasta e roteirista norte-americano. Ele começou dirigindo alguns filmes em parceria com seu irmão mais novo Benny Safdie. "Marty Supreme" (2025) é o primeiro filme que vejo dele e o primeiro que ele dirige sozinho.
Luiza Lopes da Revista Super Interessante publicou: "Timothée Chalamet, que está concorrendo a Melhor Ator, interpreta Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa de Nova York que alterna entre torneios e partidas por dinheiro, usando apostas e pequenos esquemas para financiar viagens e disputar competições maiores. O filme é, em parte, inspirado em uma história real: a de Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial e conquistou 22 títulos entre 1946 e 2002. O roteiro também parte da autobiografia do atleta, 'The Money Player', que ajudou a moldar o tom e o universo do longa.
A ligação do diretor Josh Safdie com essa história começou justamente pelo livro. Ele conheceu Reisman depois que sua esposa, Sara, lhe deu um exemplar da autobiografia. Safdie leu e, junto com o roteirista Ronald Bronstein, passou a escrever uma história sobre 'um sonhador provinciano do Lower East Side que conseguiu se projetar no cenário mundial do pós-guerra por pura força de vontade', nas palavras de Bronstein à revista Time. Ele também descreveu o livro como uma porta de entrada para 'uma subcultura esquecida e extremamente vibrante de desajustados, obsessivos, malandros e sonhadores de Nova York'. Mas o que é real e o que foi inventado em Marty Supreme?
O atleta nasceu em 1º de fevereiro de 1930 e começou a jogar tênis de mesa aos 9 anos, depois do que descreveu como um 'colapso nervoso'. Ele dizia que o esporte era uma 'forma de aliviar a ansiedade'. Foi campeão júnior da cidade aos 13 anos. Pouco depois, se mudou para um hotel em que seu pai trabalhava – diferentemente do filme, que o mostra morando com a mãe. (...)
Retratado no filme, foi no salão Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, no lado oeste de Manhattan, que Reisman aprimorou suas habilidades. Em seu livro de memórias, ele narra: 'quando cheguei ao Lawrence’s pela primeira vez, havia muitos jogadores que podiam me vencer. Pela minha experiência em quadras de rua, eu achava que era especial. Aprendi que não era. Por um tempo, fiquei impressionado com essas pessoas, mas logo consegui vencer todas elas'.
Desde cedo, chamava atenção pelo jeito de se comportar nas partidas. Ficou conhecido como 'a Agulha', por ser magro e rápido, e também como o 'Bad Boy do Tênis de Mesa'. Relatos mostram que ele falava o tempo todo, provocando adversários sobre saques, nervos e namoradas, além de cutucar espectadores e árbitros. Essa atitude fazia parte do modo como ganhava dinheiro no jogo. Ele atraía desafiantes, perdendo algumas partidas de propósito antes de dobrar apostas e vencer com facilidade.
Aos 15 anos, por exemplo, em uma competição nacional na cidade de Detroit, Reisman tentou apostar 500 dólares na própria vitória e entregou cinco notas a quem achou que fosse um agiota. Era, na verdade, o presidente da associação nacional de tênis de mesa. A confusão terminou com ele sendo levado sob custódia pela polícia.
Também tinha como hábito medir a altura da rede antes das partidas para garantir a precisão – usando notas de $100.
No fim dos anos 1940, Reisman e o também jogador Doug Cartland fizeram turnês com a equipe de basquetebol Harlem Globetrotters por três anos, como atração do intervalo, batendo bolas com frigideiras e até com solas de tênis enquanto tocava 'Mary Had a Little Lamb'. Essa relação com os Globetrotters aparece no filme (em uma cena hilária, diga-se).
O momento mais decisivo da trajetória esportiva de Reisman – e que o filme transforma em motor da história – aconteceu em 1952. Na ficção, Mauser perde para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi) em um campeonato mundial e passa a perseguir uma revanche. O longa situa o torneio em Londres, mas o evento real daquele ano foi disputado em Mumbai, na Índia, e também marcou uma derrota para o japonês Hiroji Satoh, que chegaria ao título. Satoh apareceu com uma novidade tecnológica, a chamada “raquete sanduíche”, com camadas de espuma e borracha. O equipamento mudou o esporte ao deixar a bola mais rápida, com mais efeito e um quique menos previsível. Até então, com raquetes mais rígidas, o jogo era mais cadenciado, e muitos atletas conseguiam “ler” as jogadas pelo som do impacto e pelo ritmo das trocas. Reisman ficou indignado e se recusou a adotar a novidade. Em entrevista ao New York Times em 1998, disse: 'antes, havia um diálogo entre dois jogadores, no qual uma criança de 6 anos conseguia entender a conversa entre ataque e defesa. Hoje, um ponto é ganho ou perdido com um movimento imperceptível do pulso'. (...)
Nada indica que Kay Stone tenha existido na vida real. (...) Personagens importantes como Rachel Mizler (Odessa A’zion) e Wally (Tyler, the Creator) também ajudam a 'engordar' o drama, mas não têm correspondentes claros na vida real do jogador. (...)
Reisman passou décadas circulando por um submundo de apostas, exibições e improviso. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. (...)
Do fim dos anos 1950 até o fim dos 1970, administrou seu próprio salão no Upper West Side e também esteve ligado ao Riverside Table Tennis Club. Esses espaços atraíam um público variado e, em alguns momentos, celebridades como o ator Dustin Hoffman, os escritores Kurt Vonnegut e David Mamet e o enxadrista Bobby Fischer.
Reisman também levou seus truques para a TV. Ele apostava que conseguiria partir um cigarro ao meio com uma bola do outro lado da mesa, e fez a façanha no programa de Johnny Carson em 1975 e no de David Letterman em 2008.Faleceu em 2012, aos 82 anos, por complicações pulmonares e cardíacas. Nove meses antes de morrer, reafirmou sua postura competitiva em um perfil do New York Times: 'eu enfrentava as pessoas com espírito de gladiador. Nunca recuei de uma aposta'".
O longa está indicado em nove categorias do Oscar: Filme, Direção, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Original, Edição, Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Escalação de Elenco.
O que disse a crítica 1: Hamilton Rosa Jr. publicou em sua rede social que não gostou. Disse: "Esse filme, que concorre a nove Oscars, é um pingue pongue feito pra quem não tem prazer pelo pingue pongue. O esporte pouco interessa, a movimentação visa apenas os efeitos. Tudo decupado como esquetes de um humorístico pro Tik Tok. Daí talvez a razão do seu sucesso. Gera uma identificação com a galera esperta que não larga o celular no cinema. Mas o que incomoda é a convicção inabalável, do individualismo do personagem: o filme vende sua esperteza como vantagem pra fazer os outros de bobo. O pêndulo estético pesa para o lado do ego. Do diretor e do ator. E a Academia aplaude e mostra a divisão da nação até mesmo na Arte. Assim como há a turma que protesta contra o governo atual e abusivo que rege o país, existe também aqueles que aplaudem. Fosse cinéfilo, esse seria o filme de cabeceira do Donald Trump".
O que disse a crítica 2: Marcelo Hessel do site Omelete classificou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Ao final de 'O Brutalista', ouvimos um discurso que inverte o ditado famoso e diz que o importante é o destino, sim, e não a viagem. À luz de Gaza em 2025, como se interpreta essa fala? Independente da resposta, do seu lado o que Marty Supreme oferece é restabelecer o foco na jornada. Quando o vilão diz para Marty Mauser que não há segundas chances na vida, obviamente o filme se compromete a contradizê-lo em seguida, mas Safdie o faz sem deixar de lembrar que as vitórias, assim como as chances, nunca são definitivas. O movimento não cessa, nem seu acúmulo, e, depois de nove meses, é todo o ciclo geracional que recomeça. A bola viaja de um lado a outro da mesa".
O que eu achei: Achei que poderia gostar de ver retratada no cinema a história de Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial, mas acabei achando o resultado menos do que mediano. O problema central foi a dificuldade que tive de me ligar ao protagonista: um cara repulsivo, que se comporta de maneira abertamente canalha ao longo da narrativa, manipulando pessoas, agindo com oportunismo e demonstrando zero empatia pelos que o cercam, incluindo-se aqui a mãe e a namorada grávida. Diferentemente de anti-heróis clássicos, suas atitudes raramente são compensadas por algum traço de humanidade que permita ao espectador criar algum tipo de identificação. Personagens moralmente questionáveis até podem funcionar quando existe autocrítica, culpa ou possibilidade de redenção. Aqui, porém, o protagonista parece atravessar a história sem qualquer processo real de reflexão sobre suas próprias atitudes. Isso cria a sensação de estagnação dramática: ele começa mal e não evolui ao longo das 2h30m de filme. Não espere ver algum resquício de consciência moral. O cinema frequentemente constrói personagens problemáticos, mas ainda assim interessantes ou fascinantes. Neste caso, o protagonista parece mais desagradável do que complexo. É aquela figura que quer porque quer jogar tênis de mesa profissionalmente e vai conseguir isso custe o que custar. É golpe em cima de golpe, trapaça em cima de trapaça, independente dos estragos, dos sofrimentos imputados às pessoas que o cercam, o importante é chegar lá. Então fica muito difícil torcer por ele ou se interessar pelo seu destino. O comportamento do personagem ao longo da trama sugere traços psicológicos problemáticos como narcisismo extremo, impulsividade e ausência de remorso. O filme também não explora essas características como estudo psicológico, o que faz com que elas pareçam mais um conjunto de atitudes naturais de um ser humano obstinado do que um retrato consistente de alguém doente que precisa de tratamento. Também não fica claro se o filme está criticando ou celebrando esse comportamento já que as ações do protagonista são tratadas com certo fascínio ou glamour, o que indica que o filme está mais interessado em exibir o personagem do que em questioná-lo. Nem é preciso dizer que a família do verdadeiro Marty Reisman desaprovou o resultado. Não que o cara fosse um santo: não era. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. Mas eles disseram que o filme deturpa quem ele foi na vida real, afirmam que a versão mostrada não tem relação com o homem. Eles consideraram o retrato humilhante, pois transformou o atleta em uma figura degradante, exagerando os comportamentos negativos e construindo um personagem egoísta e mesquinho distante da realidade. Como filme também não achei a oitava maravilha: o ritmo é frenético e cansativo, deixando pouco espaço para o espectador respirar ou assimilar o que está acontecendo; a montagem é excessivamente fragmentada: são cortes rápidos e cenas curtas que nem sempre se desenvolvem plenamente, parecendo um aglomerado de episódios, tipo esquetes, que dão a sensação de uma grande colagem de momentos ao invés de uma narrativa orgânica. As músicas, apesar de boas, chamam mais atenção para si mesmas do que para a narrativa. É como se música, montagem e câmera quisessem competir entre si por atenção. O tom é instável, oscilando entre comédia, drama e caricatura sem encontrar um equilíbrio claro. Não me perguntem como mas o longa está indicado em nove categorias do Oscar, dentre elas Ator (apesar da caricatura moralmente degradante do personagem, Timothée Chalamet está ótimo no papel), Roteiro Original (com certeza original e não adaptado, já que usou o nome e a fama do tenista mas deturpou toda a autobiografia) e Edição (fãs de TikTok vão gostar). Se eu fosse votante, levaria no máximo Melhor Ator. E olhe lá.

7.3.26

"Paul McCartney: Homem em Fuga" - Morgan Neville (Reino Unido/EUA, 2025)

Sinopse:
Um retrato íntimo da jornada de Paul McCartney após o fim dos Beatles, quando ele e a esposa, Linda, formam os Wings.
Comentário: Julinho Bittencourt da Revista Fórum publicou: "O título pode parecer irônico – e é mesmo – mas, tudo na vida é referência. Após fazer parte desde a adolescência daquela que é considerada até hoje a 'maior banda do planeta', ou seja, os Beatles, o músico Paul McCartney cai em depressão com a dissolução do grupo, no final da década de 60. Milionário, autor de inúmeros sucessos e com a vida ganha com menos de trinta anos de idade, o personagem se vê desolado.
Ao leitor, que assim como a maioria de nós, aposta corrida com os boletos mês a mês, a reação de Paul McCartney pode parecer ultrajante. Não há, afinal, do que reclamar, não é mesmo? O fato é que nenhum de nós é Paul McCartney, objeto de milhares (ou até mesmo milhões) de reportagens, filmes, especulações, triunfos e, por fim, fracassos também.
E é justamente a visão de uma celebridade que chega ao topo e, quando tudo acaba, fica sem saber o que fazer da vida, que trata o excelente documentário 'Paul McCartney: Man on the Run', de Morgan Neville.
O longa tem duas importâncias vitais. A primeira delas bastante óbvia, é o acervo enorme de imagens inéditas, depoimentos e registros sobre o ex-beatle, o casamento com Linda – e sua enorme importância na reconstrução de sua vida – e a sinceridade com que tudo é tratado.
A segunda é que, todos nós, sobretudo os que viveram um pouco mais, temos um momento na vida que nos parece ser o auge, o melhor e que jamais será superado. E é justamente aí que Paul McCartney nos ensina uma lição imprescindível neste documentário: o que fomos sempre vai existir em nós.
Ao afirmar, atônito, que jamais seria capaz de superar o que os Beatles fizeram, nenhum espectador em sã consciência é capaz de discordar. Apesar da obviedade, McCartney junta todos os seus preciosos cacos sem deixar nada para trás e se recompõe. Abre mão da pirraça de nunca mais tocar canções do antigo grupo, monta uma banda digna de respeito e, mais uma vez, se reinventa em um astro de primeira grandeza da canção mundial.
As imagens são o que todos os fãs adoram assistir. Cenas íntimas no meio de excursões, os músicos se divertindo no ônibus, as crianças e, sobretudo, Linda McCartney sempre presente, enfrentando falatório da imprensa e toda a sorte de maldades.
Paul afirmou que o que mais o comoveu na realização do documentário foi rever as imagens da sua ex-esposa, morta em decorrência de um câncer em 1998. O filme deixa a impressão nítida que, não fosse ela e ele jamais teria atravessado este rubicão em sua vida.
O filme termina em 1980, com o assassinato de John Lennon e a constatação final de que os Beatles jamais voltariam a se juntar. As cenas da primeira entrevista de McCartney ao falar sobre a morte do parceiro comentadas pelo filho mais novo de Lennon, Sean Ono Lennon, são comoventes.
O resto da história a gente conhece. Paul McCartney prossegue, aos 83 anos, fazendo shows mundo afora. E nós, da plateia ou não, seguimos assim como ele perseguindo a reconstrução do que fomos em nós mesmos.
O que disse a crítica 1: Matt Zoller Seitz do site Roger Ebbert avaliou com o equivalente a 3,1 estrelas, ou seja, bom Disse: A Fazenda High Park é "um santuário mental para o qual Paul escapa regularmente porque agora o reconhece como o local do período mais feliz de sua vida. Seu amor por Linda e o amor de Linda por Paul são reiterados inúmeras vezes, em palavras e imagens. O mesmo acontece com o laço fraternal entre John e Paul, que transcendeu suas disputas e se tornou mais caloroso e afetuoso quando eles não precisavam mais competir pelo controle dos Beatles. É comovente ouvir um homem de 83 anos ainda lamentando a perda de seus companheiros de vida mais importantes, John e Linda, nenhum dos quais ele esperava que morressem tão jovens".
O que disse a crítica 2: Jake Sokolsky do site Punch Drunk Critics avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Um dos aspectos mais marcantes de 'Paul McCartney: Homem em Fuga' são os vídeos caseiros e as fotos que Paul e sua esposa Linda guardavam meticulosamente. A família e o relacionamento de Paul com Linda são elementos centrais do filme. 'Paul McCartney: Homem em Fuga' foca nas transições que ocorreram na vida de McCartney, não apenas musicalmente, mas também pessoalmente. De certa forma, é uma história de amadurecimento, uma história de crescimento. Todos os elementos do filme se unem de forma primorosa. Neville e sua equipe conseguem apresentar um olhar envolvente sobre um dos maiores ícones da música. O filme definitivamente vale a pena ser assistido por pessoas de todos, não apenas pelos fãs dos Beatles".
O que eu achei: Nascida nos anos 60, sempre fui fã dos Beatles e sempre me surpreendo com a informação, que não me entra na cabeça, de que essa banda só esteve em atividade por meros 10 anos: de 1960 até 1970. Parece muito mais. Estou com 65 anos e, sempre que ouço uma música deles elas me soam empolgantes como soaria uma boa grande novidade. É difícil assimilar o tanto que eles produziram em apenas uma década. O documentário "Paul McCartney: Man on the Run" (2025) – traduzido para o português literalmente como "Paul McCartney: Homem em Fuga" -, se atém à vida do Paul McCartney após o fim dos Beatles. Ele tinha apenas 27 anos, já estava milionário, dinheiro não era problema, mas ele literalmente 'não sabia para onde correr', afinal ser um ex-beatle não é algo tão fácil de assimilar e, muito menos, de reconstruir. Nascido em Liverpool no Reino Unido, pode-se dizer que a paixão pela nova-iorquina Linda Eastman foi seu grande bote salva-vidas. Seu casamento com ela, ainda em 1969 - ano turbulento na relação entre Paul e John Lennon e também do fim dos Beatles - levou o casal a buscar uma vida pacata na fazenda High Park, na costa oeste da Escócia, onde puderam se isolar do mundo da fama e do assédio para respirar, acalmar a mente e refletir sobre novos rumos. Apesar de Linda ser do mundo da fotografia e não da música, foi com ela nos vocais que ele lançou seu primeiro álbum solo. No segundo, já houve a participação de outros músicos. E assim é que a banda Wings foi entrando em atividade, sendo o foco do documentário. Assim como The Beatles, a banda Wings durou 10 anos: de 1971 a 1981. A discografia completa começa com "Wild Life" (1971), passa por "Red Rose Speedway" (1973), "Band on the Run" (1973), "Venus and Mars" (1975), "Wings at the Speed of Sound" (1976), "Wings Over America" (1976), "London Town" (1978), "Wings Greatest" (1978), "Back to the Egg" (1979) e finaliza com "Concerts for the People of Kampuchea" (1981). No documentário é possível perceber como as tretas com John Lennon nunca deixaram Paul realmente em paz. Amigos de longa data que eram, felizmente conseguiram uma reaproximação das famílias antes de John ser assassinado em 1980, aos 40 anos, em frente ao edifício The Dakota, onde ele morava, na cidade de Nova Iorque. O documentário termina em 1980-1981 com o fim da banda Wings, não chegando a mostrar a morte de Linda por câncer em 1998, mas é possível ver tanto a adoção que Paul fez da filha que Linda já tinha antes de conhecê-lo - Heather McCartney Potter – bem como o nascimento de Mary (1969), Stella (1971) e James Louis (1977). Bem interessante. Com certeza quem é fã vai gostar de ver. Desliguei com aquela sensação agradável de ver um gênio se reconstruindo. Boa pedida.