
Comentário: Krzysztof Kieslowski (1941-1996) é um cineasta polonês de quem já assisti aos ótimos “Decálogo” (1989) - composto por 10 filmes inspirados pelos 10 Mandamentos - e “Trilogia das Cores” (1993-1994) - composta pelos filmes “A Liberdade é Azul”, “A Fraternidade é Vermelha” e “A Igualdade é Branca”, além do bom “Sorte Cega” (1981) e do curioso “Calma” (1976). Desta vez vou rever “A Igualdade é Branca” (1994).
Inácio Araujo da Folha SP publicou: “Se ‘A Liberdade É Azul’ era um filme povoado pela morte, mas finalmente dominado pela vida, em ‘A Igualdade É Branca’ – segundo exemplar da trilogia sobre as cores da bandeira francesa – Kieslowski inverte os dados. O amor move os personagens, mas seus impasses é que dominam a cena.
A ação começa no Palácio da Justiça, em Paris, onde se julga o pedido de divórcio que a francesa Dominique (Julie Delpy) move contra seu marido, o polonês Karol (Zamachowski). Dominique alega que o casamento não foi consumado, o que o réu confirma. Antes do casamento eles mantinham relações sexuais; depois, nada aconteceu. Ele pede tempo. O juiz dá o divórcio. Em seguida, Karol volta à Polônia, reconhece seu país (agora toscamente capitalista), envolve-se em negócios um tanto escusos e, graças a eles, enriquece.
Kieslowski (prêmio de Melhor Direção em Berlim-94 pelo filme) leva a trama como um folhetim. A cada situação rocambolesca segue-se outra, mais retorcida, mais absurda. Em todas, a castração (portanto, a impossibilidade física de amar) funda a ficção, tanto quanto a igualdade (de direitos entre homens e mulheres, países capitalistas e ex-socialistas, de acesso ao prazer ou mesmo de vingança).
A exemplo de ‘Azul’ – mais até –, ‘Igualdade’ se estrutura como uma espécie de conto desimportante: tudo se passa como se a história pudesse ser essa ou qualquer outra. Como se ao final o espectador pudesse se perguntar: ‘e daí?’
Essa é uma característica constante dos filmes de Kieslowski: o sentido se organiza ao longo da série que está realizando (como ‘O Decálogo’). O significado vincula-se a algo em princípio óbvio (aqui, o lema que funda a República francesa: ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade’), mas o desenvolvimento de cada filme é desconcertante, explora de maneira inesperada o seu tema.
Em "Igualdade", o mecanismo repete-se: temos uma história sem qualquer transcendência, que se encerra em seu próprio acontecer e parece não interessar senão aos personagens. Mas esse aspecto logo dá lugar a uma sensação de incômodo que o filme transmite cena após cena.
A horas tantas, esse amor – e seus desdobramentos inverossímeis – concretiza-se em um orgasmo: momento único, fugaz, talvez nunca mais repetido. Momento também em que o cinema se manifesta plenamente, como encontro entre real e imaginário.
É a essa beleza delicada, instável, que aspira a ‘Igualdade’, um filme em que, no mais, Kieslowski substitui o registro otimista de ‘Azul’ por uma reflexão mais sombria.
Por um lado, volta à Polônia, agora sem governo comunista, para constatar que a mudança não é uma maravilha. Por outro, fala da igualdade entre homens e mulheres, como a constatar que a convivência entre os sexos é plenamente impossível. Ou, pior ainda, é ao mesmo tempo plena e impossível”.
O que disse a crítica 1: Waldemar Dalenogare avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “A produção mantém o bom nível de ‘Azul’, mas uma coisa me chamou muito a atenção: a música não foi instrumento decisivo para o toque do roteiro. Não me entenda mal: a trilha está no filme, mas ela não é destaque. Talvez a necessidade de contextualizar ao máximo o mundo de Karol e Dominique tenha tirado o sono de Kieslowski, que se afastou um pouco de seu padrão para tentar inovar e adaptar o tema proposto. Sławomir Idziak não participou na construção da fotografia, e sua ausência pode ser facilmente notada. Ao invés do uso de filtros, as tomadas apostaram nos céus cinzentos e no brilho natural para montar bonitas passagens. Um filme bem-feito, mas com uma excessiva preocupação no contexto da história. Talvez fosse melhor manter as dúvidas no espectador”.
O que disse a crítica 2: Leonardo Campos do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “’A Igualdade é Branca’ é um dos mais emocionantes filmes da sua geração. Uma produção que comprova a qualidade do cinema além dos efeitos especiais. A produção recebeu o Urso de Prata em Berlim e foi indicada ao Urso de Ouro, não passou por outras premiações mais badaladas do circuito industrial, mas habita a memória cultural coletiva contemporânea, provavelmente, como um filme tocante e profundamente paradoxal, assim como a obra do diretor, que terminou a trilogia em ‘A Fraternidade é Vermelha’, lançado em 1995, e, concomitantemente, a sua carreira, afinal, como apontado, ‘consegui com o último filme o que queria na posição de cineasta’”.
O que eu achei: Trata-se do segundo longa da trilogia “Trois Couleurs” (Três Cores) do diretor polonês Krzysztof Kieslowski. O primeiro - "A Liberdade é Azul" (1993) – utilizava a cor azul para falar da tristeza, enquanto a liberdade era abordada no vazio do luto vivido por uma mulher chamada Julie (Juliette Binoche) que havia perdido seu marido e filha num acidente. Neste “A Igualdade é Branca” (1994), a cor branca que associamos imediatamente à pureza e à paz é ironicamente utilizada para mostrar a igualdade na guerra das relações afetivas. Conta a história de um casal - Dominique (Julie Delpy) e Karol (Zbigniew Zamachowski) – que se separa porque, segundo ela, o casamento não foi consumado. O sofrimento do marido Karol se transforma então num desejo de vingança que a fará sofrer igualmente. Em comparação com o primeiro longa da trilogia, o Azul me pareceu mais interessante do que este. Mas vistos como partes de uma trilogia, todos acabam merecendo nossa atenção. Apesar dos três filmes contarem histórias independentes, vê-los na sequência em que foram feitos propicia perceber pequenos detalhes que amarram todas as histórias. Observe que a trama de "A Igualdade é Branca" começa no tribunal onde Dominique e Karol estão se separando. Enquanto acompanhamos esse processo de separação vemos ao fundo uma passagem rápida de duas personagens do primeiro longa: Julie (Juliette Binoche) e Sandrine (Florence Pernel). Essas aparições fortuitas estão indicando que as histórias dos três longas acontecem ao mesmo tempo e no mesmo universo. Se você rever o primeiro filme, perceberá que há um momento em que Julie (Binoche) entra no tribunal procurando por seu advogado e é barrada por um guarda. Enquanto Sandrine (Pernel), a amante do falecido, também está nesse mesmo tribunal tratando do processo de herança dele. Tudo isso ocorre enquanto Karol está no banco dos réus. O juiz (Philippe Morier-Genoud) que conduz a audiência do divórcio de Karol e Dominique também é o mesmo magistrado francês que aparece lidando com as questões legais e burocráticas decorrentes do acidente de carro e do espólio no primeiro longa. Outra curiosidade: nos três filmes uma idosa tenta colocar uma garrafa de vidro em uma lixeira de reciclagem. Em “A Liberdade é Azul” Julie vê a idosa, mas não a ajuda. Ela está tão mergulhada no luto e no isolamento total do mundo que fica indiferente ao sofrimento alheio. Neste segundo longa Karol também a vê e também não a ajuda. Ele está tão humilhado, quebrado e focado em sua própria miséria que a cena apenas reforça sua visão de mundo naquele instante: a vida é injusta para todos, não há igualdade no sofrimento e cada um deve cuidar de si. Enfim, trata-se de outro bom filme na filmografia do polonês que vale ser visto com muita atenção. Boa pedida.
Inácio Araujo da Folha SP publicou: “Se ‘A Liberdade É Azul’ era um filme povoado pela morte, mas finalmente dominado pela vida, em ‘A Igualdade É Branca’ – segundo exemplar da trilogia sobre as cores da bandeira francesa – Kieslowski inverte os dados. O amor move os personagens, mas seus impasses é que dominam a cena.
A ação começa no Palácio da Justiça, em Paris, onde se julga o pedido de divórcio que a francesa Dominique (Julie Delpy) move contra seu marido, o polonês Karol (Zamachowski). Dominique alega que o casamento não foi consumado, o que o réu confirma. Antes do casamento eles mantinham relações sexuais; depois, nada aconteceu. Ele pede tempo. O juiz dá o divórcio. Em seguida, Karol volta à Polônia, reconhece seu país (agora toscamente capitalista), envolve-se em negócios um tanto escusos e, graças a eles, enriquece.
Kieslowski (prêmio de Melhor Direção em Berlim-94 pelo filme) leva a trama como um folhetim. A cada situação rocambolesca segue-se outra, mais retorcida, mais absurda. Em todas, a castração (portanto, a impossibilidade física de amar) funda a ficção, tanto quanto a igualdade (de direitos entre homens e mulheres, países capitalistas e ex-socialistas, de acesso ao prazer ou mesmo de vingança).
A exemplo de ‘Azul’ – mais até –, ‘Igualdade’ se estrutura como uma espécie de conto desimportante: tudo se passa como se a história pudesse ser essa ou qualquer outra. Como se ao final o espectador pudesse se perguntar: ‘e daí?’
Essa é uma característica constante dos filmes de Kieslowski: o sentido se organiza ao longo da série que está realizando (como ‘O Decálogo’). O significado vincula-se a algo em princípio óbvio (aqui, o lema que funda a República francesa: ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade’), mas o desenvolvimento de cada filme é desconcertante, explora de maneira inesperada o seu tema.
Em "Igualdade", o mecanismo repete-se: temos uma história sem qualquer transcendência, que se encerra em seu próprio acontecer e parece não interessar senão aos personagens. Mas esse aspecto logo dá lugar a uma sensação de incômodo que o filme transmite cena após cena.
A horas tantas, esse amor – e seus desdobramentos inverossímeis – concretiza-se em um orgasmo: momento único, fugaz, talvez nunca mais repetido. Momento também em que o cinema se manifesta plenamente, como encontro entre real e imaginário.
É a essa beleza delicada, instável, que aspira a ‘Igualdade’, um filme em que, no mais, Kieslowski substitui o registro otimista de ‘Azul’ por uma reflexão mais sombria.
Por um lado, volta à Polônia, agora sem governo comunista, para constatar que a mudança não é uma maravilha. Por outro, fala da igualdade entre homens e mulheres, como a constatar que a convivência entre os sexos é plenamente impossível. Ou, pior ainda, é ao mesmo tempo plena e impossível”.
O que disse a crítica 1: Waldemar Dalenogare avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “A produção mantém o bom nível de ‘Azul’, mas uma coisa me chamou muito a atenção: a música não foi instrumento decisivo para o toque do roteiro. Não me entenda mal: a trilha está no filme, mas ela não é destaque. Talvez a necessidade de contextualizar ao máximo o mundo de Karol e Dominique tenha tirado o sono de Kieslowski, que se afastou um pouco de seu padrão para tentar inovar e adaptar o tema proposto. Sławomir Idziak não participou na construção da fotografia, e sua ausência pode ser facilmente notada. Ao invés do uso de filtros, as tomadas apostaram nos céus cinzentos e no brilho natural para montar bonitas passagens. Um filme bem-feito, mas com uma excessiva preocupação no contexto da história. Talvez fosse melhor manter as dúvidas no espectador”.
O que disse a crítica 2: Leonardo Campos do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “’A Igualdade é Branca’ é um dos mais emocionantes filmes da sua geração. Uma produção que comprova a qualidade do cinema além dos efeitos especiais. A produção recebeu o Urso de Prata em Berlim e foi indicada ao Urso de Ouro, não passou por outras premiações mais badaladas do circuito industrial, mas habita a memória cultural coletiva contemporânea, provavelmente, como um filme tocante e profundamente paradoxal, assim como a obra do diretor, que terminou a trilogia em ‘A Fraternidade é Vermelha’, lançado em 1995, e, concomitantemente, a sua carreira, afinal, como apontado, ‘consegui com o último filme o que queria na posição de cineasta’”.
O que eu achei: Trata-se do segundo longa da trilogia “Trois Couleurs” (Três Cores) do diretor polonês Krzysztof Kieslowski. O primeiro - "A Liberdade é Azul" (1993) – utilizava a cor azul para falar da tristeza, enquanto a liberdade era abordada no vazio do luto vivido por uma mulher chamada Julie (Juliette Binoche) que havia perdido seu marido e filha num acidente. Neste “A Igualdade é Branca” (1994), a cor branca que associamos imediatamente à pureza e à paz é ironicamente utilizada para mostrar a igualdade na guerra das relações afetivas. Conta a história de um casal - Dominique (Julie Delpy) e Karol (Zbigniew Zamachowski) – que se separa porque, segundo ela, o casamento não foi consumado. O sofrimento do marido Karol se transforma então num desejo de vingança que a fará sofrer igualmente. Em comparação com o primeiro longa da trilogia, o Azul me pareceu mais interessante do que este. Mas vistos como partes de uma trilogia, todos acabam merecendo nossa atenção. Apesar dos três filmes contarem histórias independentes, vê-los na sequência em que foram feitos propicia perceber pequenos detalhes que amarram todas as histórias. Observe que a trama de "A Igualdade é Branca" começa no tribunal onde Dominique e Karol estão se separando. Enquanto acompanhamos esse processo de separação vemos ao fundo uma passagem rápida de duas personagens do primeiro longa: Julie (Juliette Binoche) e Sandrine (Florence Pernel). Essas aparições fortuitas estão indicando que as histórias dos três longas acontecem ao mesmo tempo e no mesmo universo. Se você rever o primeiro filme, perceberá que há um momento em que Julie (Binoche) entra no tribunal procurando por seu advogado e é barrada por um guarda. Enquanto Sandrine (Pernel), a amante do falecido, também está nesse mesmo tribunal tratando do processo de herança dele. Tudo isso ocorre enquanto Karol está no banco dos réus. O juiz (Philippe Morier-Genoud) que conduz a audiência do divórcio de Karol e Dominique também é o mesmo magistrado francês que aparece lidando com as questões legais e burocráticas decorrentes do acidente de carro e do espólio no primeiro longa. Outra curiosidade: nos três filmes uma idosa tenta colocar uma garrafa de vidro em uma lixeira de reciclagem. Em “A Liberdade é Azul” Julie vê a idosa, mas não a ajuda. Ela está tão mergulhada no luto e no isolamento total do mundo que fica indiferente ao sofrimento alheio. Neste segundo longa Karol também a vê e também não a ajuda. Ele está tão humilhado, quebrado e focado em sua própria miséria que a cena apenas reforça sua visão de mundo naquele instante: a vida é injusta para todos, não há igualdade no sofrimento e cada um deve cuidar de si. Enfim, trata-se de outro bom filme na filmografia do polonês que vale ser visto com muita atenção. Boa pedida.









