
Comentário: Rafaela Camelo (1985) é uma cineasta e roteirista brasileira formada em Audiovisual e em Roteiro. É integrante da Rede Paradiso desde 2019. Realizou, entre outros, os curtas “O Mistério da Carne” (2019) e “As Miçangas” (2023). “A Natureza das Coisas Invisíveis” é seu primeiro longa-metragem e o primeiro filme que vejo dela.
O filme conta com um roteiro original escrito pela própria diretora, Rafaela Camelo. O projeto começou a ser desenvolvido anos antes de sua estreia, chegando a participar do prestigiado laboratório de desenvolvimento BrLab sob o título provisório de ‘Sangue do Meu Sangue’. Trata-se de uma narrativa ficcional criada para explorar as vivências da infância, o luto e a espiritualidade no centro-oeste brasileiro.
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Eleito pela crítica o Melhor Filme Brasileiro na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e ainda vencedor do Prêmio Prisma Queer no festival, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ é o primeiro longa da diretora e roteirista Rafaela Camelo, que estreia de forma promissora em uma narrativa nada fácil.
O filme acompanha Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), duas meninas de dez anos que se conhecem durante as férias de verão em um hospital. Glória acompanha o trabalho da mãe enfermeira, enquanto Sofia visita a bisavó, internada com Alzheimer. Unidas pelo desejo de escapar do ambiente hospitalar, elas constroem uma amizade marcada por pequenas descobertas que transformam o cotidiano em momentos poéticos e memoráveis.
A narrativa se desenvolve em duas etapas distintas: os ambientes do hospital e um refúgio no interior de Goiás. No hospital, a monotonia e o ritmo peculiar do espaço de cuidados ajudam a revelar a sensibilidade das protagonistas diante da vida e da morte. Já o contato com a natureza na segunda etapa amplia a percepção das meninas sobre o mundo, funcionando como metáfora para suas próprias transformações. É nesse ritmo contemplativo que o filme encontra sua principal potência, permitindo que o espectador vivencie cada momento compartilhado entre Glória e Sofia.
Nesse sentido, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ remete a ‘Cría Cuervos’, de Carlos Saura, por apresentar a morte e o luto sob o ponto de vista infantil e ao utilizar sequências sutis de sonho e imaginação que misturam fantasia e realidade - com destaque para uma belíssima cena entre a bisavó e um porquinho. Aqui, no entanto, o peso do luto é mais leve, e a experiência da finitude é explorada com curiosidade e sensibilidade, sem as imposições da experiência adulta.
A morte se apresenta como parte da vida, e as meninas aprendem a lidar com ela de maneira natural, refletindo o processo de amadurecimento precoce que a infância, em certas circunstâncias, exige. Dessa forma, o filme se destaca pela forma delicada com que lida com seus temas contemporâneos, como identidade de gênero e rituais religiosos, que surgem de maneira orgânica, permitindo que o espectador compreenda a complexidade da vida sem perder a pureza do olhar infantil”.
Além das premiações já citadas, o filme venceu o Prêmio Grande Otelo na categoria Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem. No Festival de Cinema de Gramado o filme conquistou três prêmios: Prêmio Especial do Júri, Melhor Atriz Coadjuvante para Aline Marta Maia e Melhor Trilha Musical para o compositor chileno Alekos Vuskovic. No Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, o longa levou o Coelho de Ouro de Melhor Longa-Metragem Brasileiro e o Coelho de Prata de Melhor Interpretação, entregue em conjunto para as jovens atrizes Laura Brandão e Serena.
No circuito internacional, o filme estreou na Berlinale e rodou o circuito de festivais norte-americanos, onde se destacou em eventos focados em narrativas LGBTQIA+ e cinema independente como o Frameline - Festival Internacional de Cinema LGBT+ de São Francisco onde venceu o prêmio de Melhor Filme de Estreia e o SIFF - Festival Internacional de Cinema de Seattle, onde saiu premiado pelo júri. O longa também participou de festivais na América do Sul, com destaque para exibições e premiações (incluindo menções especiais) no Uruguai.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ representa uma forma interessante de cinema político, no sentido de apontar para novas configurações familiares, para as identidades queer e a autonomia feminina sem precisar transformar estes tópicos numa problemática, nem apontar dedos a culpados por obstáculos. Em sua aparente simplicidade, concebe uma discreta teia de apoio entre mulheres que se compreendem rapidamente, por atravessarem vivências similares. Entende que a possível fraqueza destas personagens possa constituir a sua força, e que as diferenças as tornam valiosas ao olhar uma da outra (vide o desenho infantil, com a cicatriz orgulhosamente traçada no peito). Uma estreia de peso para Rafaela Camelo, que desperta belas expectativas para seus próximos passos”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Hábil ao ancorar o espectador ao ponto de vista de suas pequenas estrelas, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ é (...) encantador, estabelecendo Rafaela Camelo como um talento a ser acompanhado de perto daqui em diante”.
O que eu achei: “A Natureza das Coisas Invisíveis” (2025) é um filme que se ancora na delicadeza para tratar de temas que a sociedade considera complexos demais para o universo infantil: a finitude da vida e a identidade de gênero. O longa entrega uma experiência leve e agradável, consolidando-se como uma obra correta e de boa qualidade, ainda que esbarre em algumas escolhas narrativas excessivamente enigmáticas. A trama acompanha Glória, uma menina de 10 anos filha de uma enfermeira, que carrega a cicatriz de um transplante cardíaco, e Sofia, uma criança que vivencia sua transição social de gênero sob o antigo nome de Bento. Quando a bisavó de Sofia alcança os limites do tratamento hospitalar, as mães das meninas optam por um caminho de acolhimento e dignidade: sair do hospital onde se encontram e prosseguir os cuidados paliativos em um sítio no interior de Goiás. O ponto forte do filme reside na naturalidade com que a diretora conduz a transição de Sofia. Vivida pela carismática atriz mirim trans Serena, a personagem não é definida pelo sofrimento ou pela rejeição. Ao mostrar que a identidade de gênero se manifesta de forma genuína já na infância - e que o respeito a isso se dá puramente no campo social, do afeto e do nome -, o roteiro quebra o tabu do preconceito sem precisar recorrer à violência. A infância ali tem direito de apenas ser. Por outro lado, o filme adota o realismo fantástico para lidar com o mistério de Glória. A presença constante de porcos que a menina visualiza inicialmente no banheiro do hospital e, posteriormente, no sítio, flerta com a hipótese de um xenotransplante (um coração suíno modificado). No entanto, essa analogia com o porco peca pela falta de clareza. Embora o belo desenho final feito por Glória tente amarrar a cicatriz ao animal, a explicação permanece aberta e abstrata demais para o espectador, gerando mais uma dúvida do que o encantamento poético que a direção pretendia alcançar. Ainda assim, o saldo é positivo. Ao trocar esse final de vida da avó de um ambiente hospitalar para um bucólico refúgio rural, o longa transforma o luto iminente em um rito de passagem sereno, resultando num filme capaz de acolher o espectador com a mesma ternura com que suas personagens acolhem umas às outras. Boa pedida.
O filme conta com um roteiro original escrito pela própria diretora, Rafaela Camelo. O projeto começou a ser desenvolvido anos antes de sua estreia, chegando a participar do prestigiado laboratório de desenvolvimento BrLab sob o título provisório de ‘Sangue do Meu Sangue’. Trata-se de uma narrativa ficcional criada para explorar as vivências da infância, o luto e a espiritualidade no centro-oeste brasileiro.
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Eleito pela crítica o Melhor Filme Brasileiro na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e ainda vencedor do Prêmio Prisma Queer no festival, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ é o primeiro longa da diretora e roteirista Rafaela Camelo, que estreia de forma promissora em uma narrativa nada fácil.
O filme acompanha Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), duas meninas de dez anos que se conhecem durante as férias de verão em um hospital. Glória acompanha o trabalho da mãe enfermeira, enquanto Sofia visita a bisavó, internada com Alzheimer. Unidas pelo desejo de escapar do ambiente hospitalar, elas constroem uma amizade marcada por pequenas descobertas que transformam o cotidiano em momentos poéticos e memoráveis.
A narrativa se desenvolve em duas etapas distintas: os ambientes do hospital e um refúgio no interior de Goiás. No hospital, a monotonia e o ritmo peculiar do espaço de cuidados ajudam a revelar a sensibilidade das protagonistas diante da vida e da morte. Já o contato com a natureza na segunda etapa amplia a percepção das meninas sobre o mundo, funcionando como metáfora para suas próprias transformações. É nesse ritmo contemplativo que o filme encontra sua principal potência, permitindo que o espectador vivencie cada momento compartilhado entre Glória e Sofia.
Nesse sentido, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ remete a ‘Cría Cuervos’, de Carlos Saura, por apresentar a morte e o luto sob o ponto de vista infantil e ao utilizar sequências sutis de sonho e imaginação que misturam fantasia e realidade - com destaque para uma belíssima cena entre a bisavó e um porquinho. Aqui, no entanto, o peso do luto é mais leve, e a experiência da finitude é explorada com curiosidade e sensibilidade, sem as imposições da experiência adulta.
A morte se apresenta como parte da vida, e as meninas aprendem a lidar com ela de maneira natural, refletindo o processo de amadurecimento precoce que a infância, em certas circunstâncias, exige. Dessa forma, o filme se destaca pela forma delicada com que lida com seus temas contemporâneos, como identidade de gênero e rituais religiosos, que surgem de maneira orgânica, permitindo que o espectador compreenda a complexidade da vida sem perder a pureza do olhar infantil”.
Além das premiações já citadas, o filme venceu o Prêmio Grande Otelo na categoria Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem. No Festival de Cinema de Gramado o filme conquistou três prêmios: Prêmio Especial do Júri, Melhor Atriz Coadjuvante para Aline Marta Maia e Melhor Trilha Musical para o compositor chileno Alekos Vuskovic. No Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, o longa levou o Coelho de Ouro de Melhor Longa-Metragem Brasileiro e o Coelho de Prata de Melhor Interpretação, entregue em conjunto para as jovens atrizes Laura Brandão e Serena.
No circuito internacional, o filme estreou na Berlinale e rodou o circuito de festivais norte-americanos, onde se destacou em eventos focados em narrativas LGBTQIA+ e cinema independente como o Frameline - Festival Internacional de Cinema LGBT+ de São Francisco onde venceu o prêmio de Melhor Filme de Estreia e o SIFF - Festival Internacional de Cinema de Seattle, onde saiu premiado pelo júri. O longa também participou de festivais na América do Sul, com destaque para exibições e premiações (incluindo menções especiais) no Uruguai.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ representa uma forma interessante de cinema político, no sentido de apontar para novas configurações familiares, para as identidades queer e a autonomia feminina sem precisar transformar estes tópicos numa problemática, nem apontar dedos a culpados por obstáculos. Em sua aparente simplicidade, concebe uma discreta teia de apoio entre mulheres que se compreendem rapidamente, por atravessarem vivências similares. Entende que a possível fraqueza destas personagens possa constituir a sua força, e que as diferenças as tornam valiosas ao olhar uma da outra (vide o desenho infantil, com a cicatriz orgulhosamente traçada no peito). Uma estreia de peso para Rafaela Camelo, que desperta belas expectativas para seus próximos passos”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Hábil ao ancorar o espectador ao ponto de vista de suas pequenas estrelas, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ é (...) encantador, estabelecendo Rafaela Camelo como um talento a ser acompanhado de perto daqui em diante”.
O que eu achei: “A Natureza das Coisas Invisíveis” (2025) é um filme que se ancora na delicadeza para tratar de temas que a sociedade considera complexos demais para o universo infantil: a finitude da vida e a identidade de gênero. O longa entrega uma experiência leve e agradável, consolidando-se como uma obra correta e de boa qualidade, ainda que esbarre em algumas escolhas narrativas excessivamente enigmáticas. A trama acompanha Glória, uma menina de 10 anos filha de uma enfermeira, que carrega a cicatriz de um transplante cardíaco, e Sofia, uma criança que vivencia sua transição social de gênero sob o antigo nome de Bento. Quando a bisavó de Sofia alcança os limites do tratamento hospitalar, as mães das meninas optam por um caminho de acolhimento e dignidade: sair do hospital onde se encontram e prosseguir os cuidados paliativos em um sítio no interior de Goiás. O ponto forte do filme reside na naturalidade com que a diretora conduz a transição de Sofia. Vivida pela carismática atriz mirim trans Serena, a personagem não é definida pelo sofrimento ou pela rejeição. Ao mostrar que a identidade de gênero se manifesta de forma genuína já na infância - e que o respeito a isso se dá puramente no campo social, do afeto e do nome -, o roteiro quebra o tabu do preconceito sem precisar recorrer à violência. A infância ali tem direito de apenas ser. Por outro lado, o filme adota o realismo fantástico para lidar com o mistério de Glória. A presença constante de porcos que a menina visualiza inicialmente no banheiro do hospital e, posteriormente, no sítio, flerta com a hipótese de um xenotransplante (um coração suíno modificado). No entanto, essa analogia com o porco peca pela falta de clareza. Embora o belo desenho final feito por Glória tente amarrar a cicatriz ao animal, a explicação permanece aberta e abstrata demais para o espectador, gerando mais uma dúvida do que o encantamento poético que a direção pretendia alcançar. Ainda assim, o saldo é positivo. Ao trocar esse final de vida da avó de um ambiente hospitalar para um bucólico refúgio rural, o longa transforma o luto iminente em um rito de passagem sereno, resultando num filme capaz de acolher o espectador com a mesma ternura com que suas personagens acolhem umas às outras. Boa pedida.







