
Comentário: Trata-se de uma minissérie em 4 episódios filmados, cada um deles, num único plano-sequência com cerca de 50 a 60 minutos cada.
O site da TV Cultura nos conta que "A história segue Jamie Miller, um adolescente de 13 anos da Inglaterra, acusado de matar uma colega de escola a facadas. Ao longo de quatro episódios filmados em tomadas contínuas, sem cortes, o espectador acompanha os eventos de um dia após o crime, três dias depois, sete meses e, finalmente, 13 meses após o ocorrido.
A narrativa explora o impacto desse evento na vida da família Miller, especialmente de seus pais, enquanto tentam entender as razões que levaram o filho a cometer um ato tão brutal. Apesar de não ser baseada em um caso real específico, a série é inspirada em incidentes semelhantes que geraram comoção pública.
"Houve um incidente em que um menino [supostamente] esfaqueou uma garota, e isso me chocou. Fiquei pensando: o que está acontecendo na sociedade para que um menino faça isso? Qual foi o estopim disso?" disse Stephen Graham, criador da série ao site Tudum (...). Ele ressaltou que o objetivo da produção não é apenas retratar um drama sobre violência juvenil, mas provocar uma reflexão profunda sobre os fatores sociais e familiares que contribuem para esses atos.
O roteiro, escrito por Graham e Jack Thorne, também discute a masculinidade tóxica e o papel das redes sociais na formação da identidade dos jovens. Thorne, que coescreveu a história, revelou que a série provocou nele e em Graham uma reflexão sobre a raiva masculina e como ela se manifesta na sociedade contemporânea. 'Essa é uma jornada que nunca fiz como escritor antes, e isso me assustou e me empolgou', afirmou Thorne, destacando a necessidade de debater esse tema".
Jacqui Wakefield da Unidade Global Contra a Desinformação da BBC analisa que um dos motivos que poderia levar um menino de 13 anos a cometer um ato tão bárbaro pode estar na chamada "machosfera". Ela disse: "Cunhado pela primeira vez em 2009, este termo descreve uma rede de comunidades de interesse masculino online. Inclui grupos com um variado espectro de ideologias - desde acreditar que os homens não têm poder institucional até visões mais extremas e misóginas. Mas agora a machosfera ultrapassou os limites da internet, com seu conteúdo extremo sendo recompensado por algoritmos de rede social e alcançando uma audiência que antes não era possível. Influenciadores de masculinidade, como Andrew Tate, agora são famosos no mundo todo".
O roteirista de "Adolescência", Jack Thorne, mergulhou a fundo na internet para pesquisar a machosfera para a série. Ele declarou: "Não se trata apenas de Andrew Tate. Essas ideias estão por toda parte".
De forma resumida, o texto de Wakefield descreve a origem e a evolução da chamada machosfera como uma reação ao feminismo, especialmente a partir da década de 1970, quando parte do Movimento de Libertação dos Homens passou a ver as mulheres e o feminismo como responsáveis pelas dificuldades enfrentadas pelos homens. Nos anos 1990, essas ideias ganharam força em fóruns online, onde surgiram comunidades como incels (abreviação de involuntary celibates que, em português seriam 'celibatários involuntários', referindo-se a homens que dizem querer ter relações afetivas e sexuais, mas afirmam não conseguir apesar de tentarem) e grupos de “profissionais da sedução”, que gradualmente adotaram discursos misóginos e passaram a culpar as mulheres pela solidão masculina.
Segundo ela, com as redes sociais, essas comunidades se expandiram, unificaram ideologias e difundiram conceitos como a “regra 80/20” (que defende a ideia de que 80% das mulheres se interessariam apenas por 20% dos homens, geralmente os mais bonitos, ricos ou 'dominantes', deixando os outros 80% dos homens sem chances no mercado afetivo) e a metáfora da “pílula vermelha” (conhecida como 'red pill', oriunda do filme "Matrix" de 1999, que mostra as opções de se tomar uma pílula azul, caso se queira viver iludido, ingênuo, numa mentira conveniente ou tomar a vermelha e acordar para a verdade, enxergando a realidade), transformando o ressentimento em uma forma de ativismo antifeminista.
Esse ambiente virtual também estimulou campanhas de assédio e, em casos extremos, atos de violência no mundo real, como o ataque cometido por Elliot Rodger em 2014, um jovem de 22 anos que se autodenominava incel, e que matou seis pessoas e feriu 14 em uma tentativa de "punir" as mulheres que o rejeitaram.
Mais recentemente, influenciadores populares passaram a difundir versões “amenizadas” dessas ideias, misturando misoginia com discursos de autoajuda, sucesso financeiro e condicionamento físico, o que torna as mensagens mais aceitáveis ao grande público. Ao mesmo tempo, esses conteúdos atraem jovens que buscam pertencimento e respostas para frustrações pessoais, explorando inseguranças ligadas à solidão, ansiedade e às pressões sobre a masculinidade.
Ou seja, na série, o adolescente é fruto dessa cultura. É uma família comum, vivendo num mundo comum, que mostra como é preocupante tudo o que é possível neste momento.
Há especulações de que a minissérie terá uma segunda temporada.
O que eu achei: Com o Brasil apresentando em 2025 um número recorde de feminicídios no país e com a pergunta "como matar uma mulher sem deixar rastros" atingindo o número de 163 milhões de buscas no Google em 2025, resolvi conferir a minissérie "Adolescência" (2025). Composta por 4 episódios, ela nos conta a história de um menino de 13 anos que assassinou a facadas uma colega de escola, abordando o impacto das redes sociais, a pressão dos colegas, o bullying e os desafios da parentalidade moderna. O primeiro episódio – que se passa 1 dia após o ocorrido - é hipnotizante: ele mostra a chegada da polícia na casa do garoto que nega ter feito isso e a condução do menino para a delegacia onde começarão os primeiros procedimentos de acusação e investigação. Os pais e a irmã obviamente não acreditam que isso possa ter ocorrido. O segundo se passa três dias depois. Ele se atém basicamente à presença dos detetives na escola, na tentativa de interrogar alunos, buscar coautores, tentar achar a faca utilizada no crime e encontrar alguma explicação para o ocorrido. O terceiro, e talvez melhor de todos, se passa sete meses depois. Ele se concentra basicamente na entrevista conduzida pela psicóloga forense que precisa avaliar a saúde mental do menino e elaborar um laudo pericial que tente explicar os sentimentos complicados do garoto pela menina assassinada. O quarto e último episódio se passa treze meses depois do ocorrido, mostrando o aniversário do pai do menino (interpretado por Stephen Graham que também é um dos criadores da série) cuja família ainda lida com as sequelas do fato. A minissérie é excepcionalmente boa. Dá para se entender, na prática, conceitos cruciais da machosfera (nome que se dá a essa rede online de comunidades de interesse masculino), abordando temas como os incels (celibatários involuntários, homens que não se relacionam por não encontrarem mulheres que os queiram), a regra 80/20 (que defende a ideia que as mulheres se interessam por apenas 20% dos homens existentes no planeta) e as red pills (termo oriundo do filme "Matrix" sobre a opção de se viver iludido ou conhecer a verdade). Apesar da minissérie parecer estar encerrada, há especulações que ela venha a ter uma segunda temporada. Doloroso de assistir, mas muito necessário.
O site da TV Cultura nos conta que "A história segue Jamie Miller, um adolescente de 13 anos da Inglaterra, acusado de matar uma colega de escola a facadas. Ao longo de quatro episódios filmados em tomadas contínuas, sem cortes, o espectador acompanha os eventos de um dia após o crime, três dias depois, sete meses e, finalmente, 13 meses após o ocorrido.
A narrativa explora o impacto desse evento na vida da família Miller, especialmente de seus pais, enquanto tentam entender as razões que levaram o filho a cometer um ato tão brutal. Apesar de não ser baseada em um caso real específico, a série é inspirada em incidentes semelhantes que geraram comoção pública.
"Houve um incidente em que um menino [supostamente] esfaqueou uma garota, e isso me chocou. Fiquei pensando: o que está acontecendo na sociedade para que um menino faça isso? Qual foi o estopim disso?" disse Stephen Graham, criador da série ao site Tudum (...). Ele ressaltou que o objetivo da produção não é apenas retratar um drama sobre violência juvenil, mas provocar uma reflexão profunda sobre os fatores sociais e familiares que contribuem para esses atos.
O roteiro, escrito por Graham e Jack Thorne, também discute a masculinidade tóxica e o papel das redes sociais na formação da identidade dos jovens. Thorne, que coescreveu a história, revelou que a série provocou nele e em Graham uma reflexão sobre a raiva masculina e como ela se manifesta na sociedade contemporânea. 'Essa é uma jornada que nunca fiz como escritor antes, e isso me assustou e me empolgou', afirmou Thorne, destacando a necessidade de debater esse tema".
Jacqui Wakefield da Unidade Global Contra a Desinformação da BBC analisa que um dos motivos que poderia levar um menino de 13 anos a cometer um ato tão bárbaro pode estar na chamada "machosfera". Ela disse: "Cunhado pela primeira vez em 2009, este termo descreve uma rede de comunidades de interesse masculino online. Inclui grupos com um variado espectro de ideologias - desde acreditar que os homens não têm poder institucional até visões mais extremas e misóginas. Mas agora a machosfera ultrapassou os limites da internet, com seu conteúdo extremo sendo recompensado por algoritmos de rede social e alcançando uma audiência que antes não era possível. Influenciadores de masculinidade, como Andrew Tate, agora são famosos no mundo todo".
O roteirista de "Adolescência", Jack Thorne, mergulhou a fundo na internet para pesquisar a machosfera para a série. Ele declarou: "Não se trata apenas de Andrew Tate. Essas ideias estão por toda parte".
De forma resumida, o texto de Wakefield descreve a origem e a evolução da chamada machosfera como uma reação ao feminismo, especialmente a partir da década de 1970, quando parte do Movimento de Libertação dos Homens passou a ver as mulheres e o feminismo como responsáveis pelas dificuldades enfrentadas pelos homens. Nos anos 1990, essas ideias ganharam força em fóruns online, onde surgiram comunidades como incels (abreviação de involuntary celibates que, em português seriam 'celibatários involuntários', referindo-se a homens que dizem querer ter relações afetivas e sexuais, mas afirmam não conseguir apesar de tentarem) e grupos de “profissionais da sedução”, que gradualmente adotaram discursos misóginos e passaram a culpar as mulheres pela solidão masculina.
Segundo ela, com as redes sociais, essas comunidades se expandiram, unificaram ideologias e difundiram conceitos como a “regra 80/20” (que defende a ideia de que 80% das mulheres se interessariam apenas por 20% dos homens, geralmente os mais bonitos, ricos ou 'dominantes', deixando os outros 80% dos homens sem chances no mercado afetivo) e a metáfora da “pílula vermelha” (conhecida como 'red pill', oriunda do filme "Matrix" de 1999, que mostra as opções de se tomar uma pílula azul, caso se queira viver iludido, ingênuo, numa mentira conveniente ou tomar a vermelha e acordar para a verdade, enxergando a realidade), transformando o ressentimento em uma forma de ativismo antifeminista.
Esse ambiente virtual também estimulou campanhas de assédio e, em casos extremos, atos de violência no mundo real, como o ataque cometido por Elliot Rodger em 2014, um jovem de 22 anos que se autodenominava incel, e que matou seis pessoas e feriu 14 em uma tentativa de "punir" as mulheres que o rejeitaram.
Mais recentemente, influenciadores populares passaram a difundir versões “amenizadas” dessas ideias, misturando misoginia com discursos de autoajuda, sucesso financeiro e condicionamento físico, o que torna as mensagens mais aceitáveis ao grande público. Ao mesmo tempo, esses conteúdos atraem jovens que buscam pertencimento e respostas para frustrações pessoais, explorando inseguranças ligadas à solidão, ansiedade e às pressões sobre a masculinidade.
Ou seja, na série, o adolescente é fruto dessa cultura. É uma família comum, vivendo num mundo comum, que mostra como é preocupante tudo o que é possível neste momento.
Há especulações de que a minissérie terá uma segunda temporada.
O que eu achei: Com o Brasil apresentando em 2025 um número recorde de feminicídios no país e com a pergunta "como matar uma mulher sem deixar rastros" atingindo o número de 163 milhões de buscas no Google em 2025, resolvi conferir a minissérie "Adolescência" (2025). Composta por 4 episódios, ela nos conta a história de um menino de 13 anos que assassinou a facadas uma colega de escola, abordando o impacto das redes sociais, a pressão dos colegas, o bullying e os desafios da parentalidade moderna. O primeiro episódio – que se passa 1 dia após o ocorrido - é hipnotizante: ele mostra a chegada da polícia na casa do garoto que nega ter feito isso e a condução do menino para a delegacia onde começarão os primeiros procedimentos de acusação e investigação. Os pais e a irmã obviamente não acreditam que isso possa ter ocorrido. O segundo se passa três dias depois. Ele se atém basicamente à presença dos detetives na escola, na tentativa de interrogar alunos, buscar coautores, tentar achar a faca utilizada no crime e encontrar alguma explicação para o ocorrido. O terceiro, e talvez melhor de todos, se passa sete meses depois. Ele se concentra basicamente na entrevista conduzida pela psicóloga forense que precisa avaliar a saúde mental do menino e elaborar um laudo pericial que tente explicar os sentimentos complicados do garoto pela menina assassinada. O quarto e último episódio se passa treze meses depois do ocorrido, mostrando o aniversário do pai do menino (interpretado por Stephen Graham que também é um dos criadores da série) cuja família ainda lida com as sequelas do fato. A minissérie é excepcionalmente boa. Dá para se entender, na prática, conceitos cruciais da machosfera (nome que se dá a essa rede online de comunidades de interesse masculino), abordando temas como os incels (celibatários involuntários, homens que não se relacionam por não encontrarem mulheres que os queiram), a regra 80/20 (que defende a ideia que as mulheres se interessam por apenas 20% dos homens existentes no planeta) e as red pills (termo oriundo do filme "Matrix" sobre a opção de se viver iludido ou conhecer a verdade). Apesar da minissérie parecer estar encerrada, há especulações que ela venha a ter uma segunda temporada. Doloroso de assistir, mas muito necessário.











