2.11.26

“20.000 Léguas Submarinas” - Richard Fleischer (EUA, 1954)

Sinopse:
 
Em 1866, o Professor Pierre M. Aronnax (Paul Lukas) e seu assistente Conseil (Peter Lorre), que estão em São Francisco para pesquisar relatos de um monstro marinho gigante atacando navios no Oceano Pacífico, são convidados a participar de uma expedição para procurar a tal criatura. Durante a busca, eles e o arpoador Ned Land (Kirk Douglas) são lançados ao mar durante um ataque, acabando por descobrir que o monstro é na verdade um submarino pilotado pelo brilhante, mas assombrado, Capitão Nemo (James Mason).
Comentário: Richard Fleischer (1916-2006) foi um cineasta norte-americano. Seu pai era Max Fleischer, também cineasta e criador de séries de desenhos animados. Estudou arte dramática e dirigiu o grupo teatral "Arena Players" entre 1937 e 1940. Iniciou-se no cinema a partir de 1940 com numerosos documentários para a RKO, recebendo o Oscar de Melhor Documentário pelo filme “Design for Death” (1947). Assisti dele o ótimo “Viagem Fantástica” (1966). Desta vez vou conferir “20.000 Léguas Submarinas” (1954).
O site português A Janela Encantada publicou: “Para muitos o pai da ficção científica foi o visionário escritor francês Jules Verne. Autor de uma prodigiosa imaginação, Verne ficou célebre pelos romances de aventuras com que espantou os seus leitores do século XIX, falando de feitos prodigiosos, e viagens incríveis que empurravam o homem para onde nunca tinha ido. Exemplo disso são as viagens à lua, ao centro da terra, à volta do mundo em 80 dias, aos polos e, claro, a aventura submarina do Capitão Nemo e do submersível Nautilus.
Definindo desde logo o que é importante na ficção científica, Verne falava de desafios então tidos como impossíveis (alguns já concretizados), e das consequências que eles trariam ao pensamento e comportamento humano. Surge nessa série [de livros] um dos seus mais curiosos personagens, o Capitão Nemo, um homem amargurado pelos crimes da humanidade, que resolve tomar a lei nas suas mãos, como um tirano ou um deus de um outro mundo (o subaquático), onde se comporta, ora com benevolência e sabedoria, ora com crueldade.
Este negrume [escuridão das profundezas do oceano] é reciclado pela Walt Disney na sua superprodução natalícia de 1954, realizada por Richard Fleischer. Fazendo pleno uso das técnicas então em voga, a cor da Technicolor, e a tela alargada do Cinemascope, o próprio Walt Disney produziu este filme marcado pela grandiosidade da aventura, pelos efeitos especiais revolucionários (o filme ganharia o Oscar desse ano nesta categoria), e pela espetacularidade das imagens subaquáticas. Destaca-se ainda o original decòr, com um submarino que faria história, e toda uma decoração marcante, em arte deco, que seria aliás responsável pelo Oscar de direção artística que o filme também receberia.
Filmado usando, sempre que possível, cenários naturais, o filme levou a equipe de várias centenas de pessoas a vários locais do Caribe. Embora mantendo a atmosfera negra que rodeava a figura de Nemo (interpretado com segurança por James Mason), o filme tem sempre um lado aventureiro, muito querido a Disney, e representado principalmente pela interação de tons cómicos entre os personagens de Kirk Douglas e Peter Lorre. Não falta por isso um início que lembra um western, várias cenas de ação, o humor conseguido com uma foca, e até alguns momentos musicais, com Kirk Douglas a cantar.
Apesar das concessões feitas ao imaginário (e público pretendido) da Disney, ‘20.000 Léguas Submarinas’ não deixa de ser uma muito boa adaptação do romance de Verne, mantendo-se fiel em espírito, quer pelo lado de aventura, quer pelo desafio lançado pelas conquistas científicas sugeridas por um homem em colisão com o resto da humanidade.
O filme foi a terceira adaptação para cinema do romance Júlio de Verne, depois das versões mudas ‘20.000 Lieues Sous Les Mers’ (1907) de Georges Méliès e de ‘20,000 Leagues Under the Sea’ (1916) de Stuart Paton. Além destas houve já várias versões para televisão (...).
‘20000 Léguas Submarinas’ de Richard Fleischer foi o primeiro filme de ficção científica da Walt Disney Productions, o primeiro longa-metragem da Disney distribuído pela Buena Vista Distribution, e um dos primeiros filmes de não animação da companhia. Foi também um enorme sucesso de bilheteira em 1954, permanecendo até hoje como a mais popular versão cinematográfica da obra do escritor francês”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “Com esperados momentos musicais - alguns orgânicos na trama, outros nem tanto -, uma hilária foquinha e uma relação muito boa entre Kirk Douglas e Peter Lorre em cena, ‘20.000 Léguas Submarinas’ encanta pelas imagens e diverte, mas não é um filme de roteiro fechadinho e personagens ou temática perfeitamente construídas. Mesmo assim, seu saldo final é muito positivo e com toda a certeza vale a sessão”.
O que disse a crítica 2: Thomas Boeira do site Papo de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Funcionando como entretenimento, sem para isso sacrificar os temas mais sérios que ajudaram o livro de Jules Verne a ser tão marcante, ‘20.000 Léguas Submarinas’ enfatiza as palavras de seu Capitão Nemo, ‘Há esperança para o futuro’, indicando que seus conhecimentos talvez sejam compartilhados quando estivermos prontos. Mas considerando que ainda nutrimos certo gosto pela autodestruição e pelo ódio, fica a pergunta: estaremos prontos algum dia?”
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro “20.000 Léguas Submarinas”, escrito pelo francês Jules Verne em 1870. Conta a viagem do misterioso submarino Nautilus, comandado por Nemo, um engenheiro, cientista e inventor, amargurado e misterioso. Ele renegou a sociedade terrestre para viver em total isolamento nos oceanos, construindo o Nautilus em segredo. Ao mesmo tempo em que demonstra um intelecto brilhante e paixão pelas artes e ciências, Nemo é movido por um desejo implacável de vingança contra o imperialismo e as nações que tiraram dele sua família e sua liberdade. Vão juntar-se a ele na viagem, três outros personagens: o Professor Pierre Aronnax, um naturalista e biólogo marinho francês; Conselho, seu fiel e dedicado assistente; e Ned Land, um destemido e impulsivo arpoador canadense. O trio estava a bordo de um navio quando viu o submarino e o atacou, acreditando ser um terrível monstro marinho. Como o submarino revidou o ataque, o navio afundou e o trio acabou a bordo do Nautilus, tornando-se prisioneiros e, ao mesmo tempo, testemunhas das maravilhas e perigos do mundo subaquático de Nemo. O elenco é liderado por James Mason, Kirk Douglas, Paul Lukas e Peter Lorre, quatro atores aclamados, que dão conta de deixar a história ainda mais interessante. O resultado é um filme daqueles bem despreocupados, ótimo pra assistir num feriado ou domingo à tarde com a família. Em comparação com o livro que tive oportunidade de ler na pré-adolescência, no geral, o filme mantém a premissa básica, mas o roteiro de Earl Felton estruturou a trama quase como uma história de ‘fuga de prisão’ do trio, dando mais ritmo cinematográfico do que o livro, que é mais episódico e contemplativo. Ele é considerado o primeiro grande blockbuster em live-action produzido inteiramente nos estúdios da Disney nos Estados Unidos, além de ter sido o pioneiro do estúdio no formato CinemaScope. Essa superprodução marcou um ponto de virada para a empresa, provando que Walt Disney poderia rivalizar com os maiores estúdios de Hollywood em filmes com personagens de carne e osso, e não apenas em animações. O design icônico do submarino Nautilus, com visual vitoriano/industrial, foi concebido por Harper Goff. Excelente para ver lindas paisagens submarinas e esfriar a cabeça.

1.11.26

“O Órfão” - László Nemes (Hungria/Reino Unido/EUA/Chipre/França/Alemanha, 2025)

Sinopse:
Hungria, 1957. Um jovem judeu (Bojtorján Barabás) é criado pela mãe (Andrea Waskovics) com histórias idealizadas sobre o pai falecido. Mas o garoto vê seu mundo virar de cabeça para baixo com o aparecimento de um homem violento que afirma ser seu verdadeiro pai (Grégory Gadebois).
Comentário: László Nemes (1977) é um cineasta e roteirista húngaro. Assisti dele a obra-prima "O Filho de Saul" (2015), vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Desta vez vou conferir “O Órfão” (2025).
Bruno Ghetti da Folha SP publicou: “A paternidade é um tema de grande importância na obra do húngaro László Nemes. Em seu filme mais famoso, ‘O Filho de Saul’, de 2015, um judeu encontra o cadáver do seu rebento, morto pelos nazistas, e faz o possível para enterrá-lo dignamente. E em seu novo trabalho, ‘O Órfão’ (...) é uma criança que fica obcecada por descobrir o paradeiro do pai, que sumiu durante o Holocausto.
Mas o filme, exibido no festival de Veneza do ano passado, tem um aspecto bem mais pessoal - e que envolve paternidade para além dos fatos da trama. É que a história se inspira na infância do próprio pai do diretor, o também cineasta e dramaturgo András Jeles, que passou por uma situação muito semelhante à do protagonista.
‘Na verdade, foi a mãe dele quem me contou a maior parte do que está no filme. Meu pai até ajudou no roteiro, mas quem transmitia a história para mim, antigamente, era a minha avó’, disse Nemes, em Veneza. Alguns detalhes, porém, nem mesmo ela chegou a relatar, então o cineasta tomou certas liberdades, mas manteve o essencial de sua história familiar. ‘Com o filme, estou tentando compreender meu próprio ser, minha origem’.
A trama começa pouco após o fim da Segunda Guerra, quando o pequeno Andor reencontra sua mãe, judia que precisou se esconder em um vilarejo húngaro para escapar do Holocausto, enquanto o menino ficou em um orfanato. Dez anos mais tarde, mãe e filho levam uma vida mais estabelecida, embora sem luxos, em Budapeste. Mas Andor sofre com a falta de informações sobre o pai, que aparentemente teria morrido na guerra.
A situação se agrava quando reaparece o homem que escondeu a mãe de Andor durante o nazismo. Ele agora se envolve amorosamente com ela e quer assumir oficialmente a paternidade do garoto. Que, no entanto, recusa-o como pai.
Nemes diz haver um aspecto shakespeariano ali. ‘Acho que as grandes tramas humanas se baseiam em uma história arquetípica. ‘Hamlet’ é assim: tem o fantasma do pai, o rei usurpador e o príncipe sozinho. É uma narrativa edipiana. Acho que as histórias arquetípicas têm sua própria lógica e são, de certa forma, míticas’, diz o cineasta, mencionando que quanto mais se debruçava sobre a história de seu pai, mais detectava nela traços hamletianos.
A trama de ‘O Órfão’ se passa imediatamente após a Revolução Húngara de 1956, quando um levante popular tentou livrar o país da influência extrema soviética. Que foi prontamente massacrado, inclusive com aumento de militares russos na região.
Visto em 2026, quando a Rússia quer manter influência à força na Ucrânia, o ressurgimento desse episódio pode soar como uma referência ao autoritarismo de Vladimir Putin, mas o cineasta nega. ‘É natural surgirem essas comparações, mas não é algo que foi buscado’, diz.
‘O cinema não é uma ferramenta política. Não deveria ser. Talvez no subtexto, mas não no texto’, dispara o cineasta, de certo modo antecipando a polêmica fala do diretor alemão Wim Wenders no último Festival de Berlim, quando disse que artistas ‘têm que ficar fora da política’.
Nemes também vai na contramão de vários colegas em sua postura sobre os conflitos de Israel, dizendo em entrevistas que há antissemitismo espalhado pelo mundo ocidental. E, esteticamente, discorda de quem acha que o cinema deve evitar mostrar excesso de sofrimento humano, preferindo representações mais positivas sobre quem vivencia tragédias.
‘Mas o sofrimento é real e aconteceu a muitas pessoas’, diz Nemes. ‘Onde está a esperança em um filme como ‘Chinatown’ [de Roman Polanski, de 1974]? Você precisa ter esperança em ‘Chinatown’?
Acho que o cinema tem o dever de contar histórias humanas que sejam arquetípicas. Não é político. É uma repetição das mesmas histórias, várias vezes. Fazer algo diferente disso não cumpre seu propósito principal’.
O húngaro diz acreditar que, nos últimos 20 anos, houve uma capitulação da arte em nome de certas demandas, ‘para agradar ao público e à mídia, para ganhar prêmios. De certa forma, os cineastas traíram um pouco a arte. Há uma pressão industrial, há uma autocensura, há essa digitalização que tem efeitos absolutamente terríveis, inclusive no processo criativo’.
Aliás, a liberdade para criar parece inegociável para o diretor, que, desde o êxito de ‘O Filho de Saul’, tem flertado com Hollywood, mas tentativas de controlá-lo artisticamente teriam impedido projetos. Mas Nemes já alça voos internacionais - no mês passado, lançou no Festival de Cannes ‘Moulin’, produzido na França, sobre um herói antifascista do país. E seu novo projeto será em língua inglesa, ‘Outer Dark’, estrelado por Jacob Elordi. Ao que parece, porém, deverá impor seus ímpetos artísticos.
‘O cinema mundial está cada vez mais parecido com um produto simplificado de um código hollywoodiano, feito sob medida para o que os executivos e jornalistas consideram bom para o mundo’, diz. ‘Há muito moralismo, um neopuritanismo. E acho que isso simplesmente mata a arte’."
O que disse a crítica 1: Neusa Barbosa do site Cineweb avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Certamente, pode-se ler a história desta pequena família como uma metáfora da Hungria. Mas o filme revela-se bem mais insatisfatório do que ‘O Filho de Saul’, embora o pequeno Borjtorján Barabas seja uma revelação como jovem talento”.
O que disse a crítica 2: Amanda Silva da Revista Bula avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “No fim, o órfão do título não é o menino sem pai. É o menino com pais demais: o morto idealizado, o vivo intolerável, o Estado que deseja educá-lo pela força e a própria História, essa mãe monstruosa que dá à luz filhos já endividados com crimes que não cometeram. Nemes não faz um filme confortável, tampouco inteiramente perfeito. Faz algo mais raro: um drama que entende que certas revelações não encerram a infância. Elas a profanam”.
O que eu achei: O filme começa em Budapeste, capital da Hungria, quatro anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Uma mãe judia vai até um orfanato buscar seu filho Andor, que ficou ali abrigado enquanto ela se escondia em um vilarejo húngaro no interior para escapar do Holocausto. Ela o leva para casa enquanto o menino pergunta se seu pai também irá ao encontro deles. Pula para 1957. Se em 1949 o país estava estruturando o regime comunista, em 1957 Budapeste vivia sob um clima pesado de terror, silenciamento e reconstrução forçada, decorrente do esmagamento da Revolução Húngara de 1956. Essa revolução foi uma revolta popular que pedia o fim da interferência soviética. Ela terminou com a URRS invadindo Budapeste com tanques, esmagando a revolta e deixando parte da capital em ruínas com milhares de mortos. Foi justamente em 1957 que o novo ditador instalado por Moscou, János Kádár, iniciou uma caçada implacável contra qualquer um que tivesse apoiado a revolução. Tribunais militares prenderam dezenas de milhares de pessoas, e centenas de líderes rebeldes e intelectuais foram executados. Os temidos conselhos operários foram oficialmente banidos ao longo daquele ano. Cerca de 200.000 húngaros fugiram do país para o Ocidente para escapar da morte ou da prisão. Isso representava uma perda massiva de jovens, cientistas, artistas e médicos, deixando Budapeste imersa em um luto coletivo, com famílias separadas por fronteiras rigidamente fechadas. A polícia secreta agia intensamente. Vizinhos espionavam vizinhos e expressar qualquer insatisfação contra o governo comunista ou contra a URRS resultava em desaparecimento ou prisão. No filme, esse salto para 1957 mostra Andor e sua mãe tentando sobreviver e conviver nessa cidade devastada, onde o trauma recente da guerra se somava ao novo trauma da ocupação militar soviética. Andor, agora com 12 anos, cresce imerso em um doloroso isolamento. Ele permanece inconformado com a falta de notícias do pai que, ao que tudo indica, foi assassinado em algum campo de concentração durante a guerra. Diante do silêncio sufocante da mãe e da rigidez do regime, o garoto passa a projetar no pai ausente a imagem mítica de um herói idealizado, apegando-se a conversas imaginárias como uma tábua de salvação. A coisa piora quando o homem que abrigou sua mãe no interior reaparece. Trata-se de um açougueiro truculento e pouco amoroso. Tendo perdido a esposa e o filho na guerra, ele agora almeja casar-se com a mulher que ele acolheu e assumir a paternidade de Andor. Vale salientar que esse homem afirma categoricamente ser o verdadeiro pai biológico do garoto e quer lhe dar seu sobrenome. Claro que Andor não acredita nele. Acreditar despedaçaria por completo o mito do herói de guerra que o garoto idolatrava. O filme é extremamente bem executado. A fotografia e a reconstituição de época são simplesmente fantásticas, sem contar o talento inegável do jovem ator Bojtorján Barabás, que interpreta Andor. O ponto fraco, contudo, é que a primeira metade inteira da produção é repleta de frases evasivas e enigmáticas. Embora a narrativa finalmente deslanche na segunda metade, você termina de ver sem ter a certeza de quem, afinal, era o verdadeiro pai daquela criança: o judeu desaparecido que foi casado com sua mãe ou o açougueiro que a abrigou? Essa questão só se tornou clara para mim ao descobrir, fora da tela, que o diretor concedeu entrevistas contando que roteiro foi baseado na vida real de seu próprio pai. A mãe de Andor no filme é totalmente baseada na figura de sua avó. Com isso, nesse aspecto de clareza narrativa, o filme deixou muito a desejar. Na minha opinião, ter deixado essa informação de quem era o verdadeiro pai mais clara teria feito toda a diferença. Poderia ter transformado o longa em outra obra-prima na filmografia de Nemes. Sem isso o que temos é um bom filme, divagante, mas ainda bom.

31.10.26

“Save the Children” - Stan Lathan (EUA, 1973)

Sinopse: Documentário que mostra um festival musical beneficente de cinco dias que aconteceu em Chicago em 1972. O evento foi organizado pela Operation PUSH, liderada pelo reverendo Jesse Jackson, e reuniu artistas de grandes gravadoras de música negra, como Motown, Stax e Atlantic Records.
Comentário: Trata-se de um documentário musical que registra um importante encontro da música e da cultura afro-americana realizado em Chicago, entre 27 de setembro e 1º de outubro de 1972. O evento, chamado PUSH Expo, foi organizado pela Operation PUSH (People United to Save Humanity), entidade fundada e liderada pelo reverendo Jesse Jackson, que atuava na defesa dos direitos da população negra e na promoção de oportunidades sociais e econômicas para essa comunidade. Com o lema “Save the Children” (Salvem as Crianças), a iniciativa tinha como principal preocupação o futuro dos jovens negros, em um período marcado por desigualdades raciais e tensões sociais nos Estados Unidos.
O filme reúne apresentações de alguns dos grandes nomes da música negra norte-americana, abrangendo diferentes gêneros, como soul, gospel, jazz, blues e funk. Entre os artistas registrados estão Marvin Gaye, Roberta Flack, Bill Withers, Isaac Hayes, Curtis Mayfield, Gladys Knight, Wilson Pickett, Sammy Davis Jr., The Temptations, The Staple Singers e Jackson 5, com destaque para o ainda muito jovem Michael Jackson. As apresentações musicais são intercaladas com imagens da vida cotidiana da população negra de Chicago, cenas de bairros, atividades comunitárias, manifestações culturais e registros da própria exposição, que também reunia artistas, empresários e representantes de diferentes setores da comunidade afro-americana. O documentário inclui ainda momentos religiosos e manifestações de caráter social, reforçando a proposta de mobilização e valorização cultural que orientava o encontro.
Embora tenha sido filmado durante o evento de 1972, o longa-metragem foi lançado originalmente em setembro de 1973. Depois de uma circulação bastante limitada nos cinemas, acabou praticamente desaparecendo, permanecendo por décadas sem uma distribuição comercial significativa ou lançamento oficial em vídeo doméstico. Seu resgate ocorreu muitos anos depois, quando o diretor Stan Lathan e outros envolvidos no projeto trabalharam para recuperar o material original. A restauração digital, concluída em 2023, recuperou a imagem e o som, preservando o conteúdo e a montagem originais, sem alterações nas apresentações ou no sentido histórico do registro. A nova versão foi lançada internacionalmente em 2024.
O que eu achei: “Save the Children” (1973) é um registro musical e histórico que merece ser resgatado do esquecimento. Realizado em 1973, a partir de um grande encontro cultural promovido em Chicago no ano anterior, o filme reúne alguns dos mais importantes nomes da música afro-americana em apresentações que vão do soul ao gospel, passando pelo blues, funk e jazz. O elenco musical é de primeira: Marvin Gaye, Roberta Flack, Bill Withers, Isaac Hayes, Curtis Mayfield, Gladys Knight, Wilson Pickett, The Temptations, The Staple Singers, Jackson 5 e muitos outros. É uma oportunidade de rever artistas em plena atividade, alguns deles em momentos particularmente especiais de suas carreiras. Chama a atenção também o jovem Michael Jackson, que já demonstrava o talento e a presença de palco que o tornariam um dos maiores nomes da música mundial. Mas o filme não se limita a reunir grandes apresentações. Entre os números musicais, aparecem imagens da população negra de Chicago, de suas manifestações culturais, de atividades comunitárias e de discursos que ressaltam a importância da educação, da igualdade de oportunidades e da valorização da identidade afro-americana. O evento, organizado pela entidade Operation PUSH, liderada por Jesse Jackson, tinha justamente o propósito de mobilizar a comunidade em torno dessas questões. Gostei muito do que vi. Além da qualidade e da diversidade das apresentações, há algo particularmente interessante em observar artistas tão importantes reunidos em um mesmo acontecimento, compartilhando um momento histórico e cultural. O filme permite também perceber a força da música como instrumento de expressão, identidade e mobilização social. A restauração digital, realizada décadas depois de sua produção, devolve ao público um documento que poderia ter permanecido esquecido. A recuperação da imagem e do som permite apreciar melhor as apresentações e preservar um registro de grande valor para a história da música e da cultura afro-americana. É show, é retrato de época, de uma comunidade e de artistas que ajudaram a transformar a música popular do século XX. Muito bom.

27.10.26

“O Sonho de Wadjda” - Haifaa Al-Mansour (Arábia Saudita/Países Baixos/Alemanha/Jordânia/Emirados Árabes Unidos/EUA, 2012)

Sinopse:
Wadjda (Waad Mohammed) tem dez anos de idade e mora no subúrbio de Riade, a capital da Arábia Saudita. Ela é uma garota teimosa e cheia de vida que gosta de brincar com os garotos. Um dia, após uma disputa com o amigo Abdullah (Abdullrahman Al Gohani), ela vê uma bela bicicleta verde à venda. Wadjda gostaria de comprar a bicicleta para superar o colega em uma corrida, mas na sociedade conservadora onde vivem, garotas não podem dirigir carros ou bicicletas. Ela decide então fazer de tudo para conseguir o dinheiro sozinha.
Comentário: Haifaa Al-Mansour (1974) é uma cineasta da Arábia Saudita. Ela é uma das mais conhecidas e controversas diretoras de cinema e a primeira mulher saudita a tornar-se cineasta. Filha do poeta Abdul Rahman Mansour, que introduziu a ela os filmes através de vídeos – já que não havia salas de cinema na Arábia Saudita entre 1983 e 2018 - ela estudou Literatura Comparada na Universidade Americana do Cairo e concluiu um Mestrado em Estudos de Cinema pela Universidade de Sydney, na Austrália. “O Sonho de Wadjda” (2012) é o primeiro filme que vejo dela.
Margarida Ataíde do site Centro Loyola de BH publicou: “Primeiro filme realizado por uma mulher na história do cinema da Arábia Saudita, ‘O Sonho de Wadjda’ é uma proposta atraente para um Ocidente com vasta criação cinematográfica no feminino. (...) 
Inevitavelmente, a história de Wadjda tem algo de biográfico, não obstante a rara sorte da realizadora em ter um pai e uma mãe atentos aos sonhos das filhas, os primeiros a encorajá-las a estudar e a perseguir a sua vontade, sem ceder à pressão do meio cultural em que cresceram, o que lhes custaria algum isolamento.
Precisamente por ter experimentado a constrição humana da condição feminina no seu país, ditada por um rígido normativo cultural, mas também a possibilidade de dilatação, a personagem criada por Haifaa, igual a tantas meninas cheias de potencial que sabe existirem, pelo menos, na sua cidade natal, surge como porta de esperança, consistentemente aberta, para uma Arábia Saudita mais justa e igualitária. E para um mundo, desperto pelo cinema, mais atento a esta realidade.
Bom mote para o diálogo inter-religioso, ‘O Sonho de Wadjda’ ganha pelo sentido positivo que prevalece no tratamento de uma realidade certamente trágica para as mulheres que ousem desafiar o código moral sob o qual nasceram, pela integridade da protagonista e pela justa combinação de vigor e elegância na construção narrativa”.
O que disse a crítica 1: Jorge Mourinha do site Público PT avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “A história da menina inquieta que não se aquieta para garantir que vai conseguir a bicicleta com que sonha podia ser tirada de um dos modernos filmes iranianos sobre a infância (Kiarostami ou Ghobadi vêm à cabeça). Mas é contada pela saudita Haifaa al-Mansour de modo bem menos sisudo, com o charme irresistível da jovem heroína Waad Mohammed que lhe empresta muito charme. Mas isso não chega para fazer de ‘O Sonho de Wadjda’, fábula amável e simpática, o grande filme que o seu estatuto de obra dirigida por uma mulher num país fundamentalistamente patriarcal parece convocar. É fita honesta e modesta, mas (...) que não consegue sustentar o ‘peso’ contextual que lhe é colocado em cima”.
O que disse a crítica 2: Bernard Boo do site Way to Índia avaliou com 4,4 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Com a bicicleta simbolizando sonhos e desejos supremos, o filme parece talhado na mesma essência da obra-prima de Vittorio de Sica, ‘Ladrões de Bicicletas’, mas com uma essência esperançosa oposta. Esperançosa, isto é, para aqueles com uma mentalidade liberal; a visão conservadora na Arábia Saudita é que andar de bicicleta compromete a virtude de uma garota, o que torna o sonho de Wadjda de percorrer as ruas de Riad controverso. Mas para as jovens que se identificam com alguém como Wadjda, o filme será inestimável; como a bicicleta verde com franjas coloridas deslizando ao longo da muralha empoeirada da cidade, Wadjda pode ser um farol de inspiração”.
O que eu achei: Dirigido por Haifaa Al-Mansour, considerada a primeira mulher a assinar um longa-metragem na Arábia Saudita, "O Sonho de Wadjda" (2012) utiliza a aparente simplicidade de uma fábula infantil para desarmar o conservadorismo de uma sociedade patriarcal. Acompanhar Wadjda, uma menina determinada de 10 anos que deseja uma bicicleta verde para apostar corrida com seu amigo Abdullah, transborda sensibilidade, adotando uma abordagem realista para expor as micro agressões e a segregação cotidiana vivida pelas mulheres sauditas. Assistir à obra hoje confere a ela um caráter de documento histórico. Na época das filmagens, a própria Al-Mansour precisou dirigir várias cenas externas escondida dentro de uma van, comunicando-se com os atores via walkie-talkie para não desafiar a rígida separação de gêneros nas ruas. Além disso, o filme não pôde ser exibido comercialmente em sua terra natal no ano de lançamento, pois as salas de cinema eram proibidas no país, restrição essa que só caiu em 2018. Felizmente, parte da realidade de Wadjda mudou na última década. Impulsionada pelo plano estratégico Saudi Vision 2030, a Arábia Saudita promoveu reformas nos direitos femininos. Em 2013, o governo liberou oficialmente o uso de bicicletas por mulheres para fins de lazer. Em 2018, as mulheres conquistaram o direito de dirigir carros. A autonomia de locomoção expandiu-se com a permissão para que viajem de forma independente e obtenham passaportes sem o aval de um tutor. No mercado de trabalho, a participação feminina saltou de 17% para mais de 34%, com mulheres ocupando cargos públicos e liderando empresas. Embora o sistema de tutela masculina ainda resista em questões de casamento e divórcio, o avanço é inegável. O longa triunfa ao provar que o desejo de liberdade não nasce de influências externas, mas sim do anseio humano intrínseco de avançar. Muito bom.

25.10.26

“Pai Mãe Irmã Irmão” - Jim Jarmusch (EUA/Reino Unido/Itália/França/Irlanda/Alemanha, 2025)

Sinopse:
O filme acompanha três histórias sobre relacionamentos conturbados entre pais e filhos. O primeiro se passa em Jersey (EUA), o Pai (Tom Waits) recebe a visita do casal de filhos, Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik). O segundo se passa em Dublin (Irlanda), as irmãs Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps) vão à casa da Mãe (Charlotte Rampling) para o chá anual em família. O terceiro se passa em Paris (França), os irmãos gêmeos Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat), fazem uma viagem ao passado após perderem o Pai e a Mãe em um desastre de avião. 
Comentário: Jim Jarmush (1953) é um cineasta e ator norte-americano conhecido pelas suas produções independentes feitas com orçamento limitado. Assisti dele 7 filmes: a obra-prima "Down By Law" (1986), os ótimos "Sobre Cafés e Cigarros" (2003) e “Amantes Eternos” (2013), os bons “Estranhos no Paraíso” (1984), “Uma Noite Sobre a Terra” (1991) e “Flores Partidas” (2005) e os não tão bons “Paterson” (2016) e “Os Mortos não Morrem” (2019). Desta vez vou conferir “Pai Mãe Irmã Irmão” (2025).
Eduardo Reis da Revista Cult publicou: “Com um elenco estelar, com nomes como Tom Waits, Adam Driver, Cate Blanchett, Indya Moore e Charlotte Rampling, o cineasta norte-americano Jim Jarmusch, em seu último filme ‘Pai Mãe Irmã Irmão’, (...) nos presenteia com um tríptico de narrativas independentes. Nelas, pais, filhos e irmãos orbitam uns aos outros sem jamais conseguirem reduzir completamente as distâncias que os separam.
O filme nos convida a uma experiência nada espetacular. Para os mais ansiosos e viciados em dopamina, talvez este não seja um bom filme. Mas, para aqueles que ainda resguardam uma mínima dignidade de conexão com os sutis e pequenos detalhes das belezas insignificantes e reconhecem prazer em obras que deflagram as falências hipermodernas das verborragias, das saturações de cores e das excessivas sobreposições de imagens, sim, para este público trata-se de um grandioso filme.
Poucas obras me parecem dialogar tão intensamente com ‘Pai Mãe Irmã Irmão’ quanto ‘As Três Irmãs’ (1900), de Anton Tchekhov, na qual o conflito raramente explode e se acumula em silêncios, hesitações e ressentimentos. Como nos personagens de Jarmusch, há algo que permanece suspenso, incapaz de encontrar forma ou linguagem. É dessa impossibilidade que o filme extrai sua força. É dessa imaterialidade feita de ausências, constrangimentos e afetos reprimidos que Jarmusch constrói seu tríptico.
No primeiro episódio, Tom Waits interpreta um pai que recebe a visita dos filhos numa atmosfera permeada de estranhamentos. Sem jeito, ele já não sabe como lidar com eles e, consequentemente, os filhos também não sabem como dialogar com o pai. O drama não está em um acontecimento extraordinário, mas na incapacidade de estabelecer uma relação autêntica. Em vez de afeto expresso diretamente, os filhos levam comida e mantimentos. É uma forma de cuidado mediada pelas coisas, que evidencia a pobreza da troca simbólica entre eles: conseguem entregar alimentos, mas não conseguem compartilhar intimidade.
Diante de silêncios constrangedores, o pai serve água, depois chá, mas a conversa não flui. Todos parecem minimamente seguros nas arquiteturas de ausência que ergueram para si próprios. Quando a filha diz ter se sentido estranha durante a visita, a sensação parece vir menos de algo que aconteceu do que daquilo que não aconteceu. Ela retorna carregando o mesmo mal-estar de antes. Em Tchekhov, esse movimento é recorrente: os personagens passam por situações que deveriam transformá-los, mas acabam retornando ao ponto de partida.
É esse acúmulo de constrangimentos que torna o filme interessante ao esgarçar o drama burguês (Szondi, 2004). Nada aqui é edificante. A família tradicional escorre pelas bordas das casas, das salas e das mesas de jantar. O pai criado por Jarmusch já não é o pai da tradição, detentor da autoridade e do sustento. Trata-se de um homem que pede dinheiro emprestado ao filho e que, ao receber alguns trocados, se entrega aos braços da prostituta que o acolhe. Tanto em Jarmusch quanto em Tchekhov, o conflito se instala nessa combustão interna dos personagens, entre o que gostariam de dizer e aquilo que conseguem efetivamente expressar.
Na segunda parte do tríptico, o cineasta constrói uma verdadeira engenharia da assepsia maternal. Tudo está limpo, organizado e perfeitamente disposto. No entanto, nenhum afeto encontra acolhimento em tanta perfeição espacial. Os objetos, os vasos de flores, os belos doces e os gestos cotidianos passam a carregar a tensão que os personagens não conseguem verbalizar. O silêncio se faz na coreografia dos talheres, manipulados entre xícaras e sucessivas rodadas de chá.
A etiqueta doméstica converte-se numa linguagem do constrangimento. À mesa, ninguém parece capaz de dizer exatamente o que pensa ou sente. O mal-estar emerge da tentativa de corresponder às expectativas de uma mãe excessivamente apegada às convenções. Como em Tchekhov, o silêncio não é vazio. Ele é preenchido por pequenos rituais que evitam o confronto direto. Quanto mais banal a ação exterior, mais intensa parece ser a vida interior das personagens, entre elas uma filha que não consegue nomear sua sexualidade diante da mãe e a outra, bem-sucedida no trabalho, cuja frieza parece ter sido moldada por esse mesmo regime de contenção.
No terceiro episódio, Jarmusch lança alguma luminosidade sobre seus personagens. Dois irmãos gêmeos reencontram-se em Paris para organizar os objetos deixados pelos pais mortos. Entre fotografias, documentos contraditórios, certidões e registros duvidosos, descobrem que talvez jamais tenham conhecido verdadeiramente aquelas pessoas. A ausência de explicações não parece uma lacuna do roteiro, mas uma escolha deliberada. Mais do que sugerir um mistério a ser solucionado, o filme parece perguntar até que ponto conhecemos nossa própria família. Os pais deixam aos filhos não apenas uma herança material, mas um enigma.
Por isso compreendo ‘Pai Mãe Irmã Irmão’ como uma experiência da ausência. Os pais estão ausentes não apenas porque morreram, mas porque sempre preservaram não lugares: identidades opacas e segredos que sobrevivem a eles. Em vez de respostas, deixam vestígios: arquivos e testemunhos questionáveis.
Um fio invisível atravessa os três episódios. Jarmusch o constrói a partir de dois motivos recorrentes: o Rolex falso que circula entre os personagens e as aparições de jovens andando de skate. Ambos funcionam como signos de uma temporalidade suspensa. O Rolex, símbolo da precisão e do controle do tempo, aparece como falsificação. Já os skatistas surgem em câmera lenta, deslizando pela cidade sem finalidade aparente. De um lado, o tempo adulto das responsabilidades e expectativas; de outro, um tempo suspenso, contemplativo.
Rolex falso e slow motion convergem para uma mesma questão: a artificialidade do tempo. Os personagens vivem presos a cronologias: envelhecer, cuidar dos pais, constituir família, manter aparências, enquanto o filme insiste em mostrar brechas nessa ordem temporal. Há algo melancólico nisso. Nesses instantes, a família se revela menos como espaço de encontro ou pertencimento e mais como uma arquitetura da ausência, sustentada por existências mínimas, silêncios e tudo aquilo que nunca conseguimos dizer”.
O longa ganhou o Leão de Ouro em Veneza.
O que disse a crítica 1: Marcio Sallem do site Cinema com Crítica avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “O cinema de Jim Jarmusch é um gosto adquirido. Mais interessado em registrar a banalidade da existência humana, do que em dramatizá-la, e mais preocupado em expressar com distância e frieza os conflitos dos personagens, (...) Jarmusch atrai e repele com a mesma intensidade. Talvez imagine o cineasta como um tipo de artista plástico trabalhando no cinema, e precisaria adaptar melhor esta ideia, mas há uma qualidade hipnótica em seu cinema que não é facilmente explicada por palavras ou que as dispense inteiramente. É um estilo zen obtido pela câmera, pela trilha sonora e por atuações que rejeitam atuar, rejeitam empostar os diálogos, expressar as emoções e até o gesto de sentir. Em alguns de seus filmes, este estilo cai e se amolda como uma luva (...). Em outros filmes, não, e é o caso de ‘Pai Mãe Irmã Irmão’”.
O que disse a crítica 2: Robledo Milani do site Papo de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “’Mãe Irmã Irmão’ fala destes arquétipos apontados no batismo, mas é como se algo estivesse faltando e fosse justamente esse vazio que os envolvidos tanto se dedicassem a preencher. Jim Jarmusch, portanto, por meio de um traçado quase ingênuo, mas em nada inocente, tangencia portas que precisam desse lembrete para reafirmar suas existências, enquanto delega a tarefa de transpô-las tanto ao espectador, que decidirá por si se cabe ou não tal empenho, como também aos personagens, que ganham vida tanto pelo histórico que carregam até o ponto em que se apresentam, como também pelo muito que terão a enfrentar depois. Um filme sem início e nem fim, e justamente por isso, tão imensamente gratificante”.
O que eu achei: Em um cenário cinematográfico frequentemente dominado pelo excesso de estímulos e narrativas frenéticas, encontrar uma obra que se sustente na pura observação é um alívio. É exatamente isso o que acontece em “Pai Mãe Irmã Irmão” (2025), o mais recente trabalho do cineasta Jim Jarmusch. Coproduzido por um vibrante consórcio entre os EUA, Reino Unido, Itália, França, Irlanda e Alemanha, o longa-metragem se consolida como um bom interlúdio, funcionando como um retorno puro ao Jarmusch clássico: minimalista, melancólico, poético e estritamente observacional. Estruturado como um tríptico que acompanha os descompassos afetivos de três famílias espalhadas pelo mundo, o longa é consistentemente belo, mesmo quando aparentemente nada acontece. Sem grandes reviravoltas ou confrontos melodramáticos, somos convidados a testemunhar a sutileza dos silêncios prolongados, dos olhares de soslaio e das distâncias geográficas e emocionais que separam pais e filhos. Jarmusch transforma essa desconexão e o silêncio familiar em uma experiência emocional profunda, provando que o cinema contemplativo pode ter força para nos desarmar e nos tocar. Gostei especialmente de rever Tom Waits que participa do primeiro segmento, ambientado na zona rural dos Estados Unidos. Nele, vemos o lendário músico, ótimo com seus 75 anos de idade, interpretando o patriarca idoso que recebe a visita de seus filhos. A presença cênica de Waits, com seu carisma rústico e melancólico, ancora a narrativa em um realismo que nos faz lembrar daquelas constrangedoras reuniões de família no Natal. Nos três segmentos o clima é desajeitado, beira o desastre, mas não chega a tanto. O que Jarmusch capta com maestria é a beleza do imperfeito. Em tempos onde os vínculos parecem artificiais, sobreviver a um encontro familiar com afeto e dignidade - apesar dos ressentimentos silenciosos - já é, por si só, um motivo mais do que suficiente para fazer um brinde. Imperdível para os fãs do diretor ou para os amantes do cinema autoral.

24.10.26

“Brava Gente Italiana” - Sergio Sbragia (Brasil, 2015)

Sinopse:
A história da imigração italiana no Brasil contada pelos descendentes dos primeiros imigrantes, que se estabeleceram no Paraná e no Rio Grande do Sul, fugindo da fome e da miséria.
Comentário: Desiderio Peron da Revista Insieme publicou: “Produzido por Carlos Moleta, o filme tem por base o livro ‘Casal da Capelinha da Água Verde’, de Susete Moletta, e lança luzes sobre aspectos da imigração italiana, especialmente no Paraná.
O filme foi rodado em 2012 em Curitiba, Colombo e São José dos Pinhais, no Paraná, e em diversas localidades da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, além de algumas localidades da Região do Vêneto, na Itália.
Navegando com facilidade sobre o assunto, Sbragia lembra que é filho de italiano: ‘meu pai é um músico toscano, de Lucca, que imigrou em 1947, depois de passar dois anos como prisioneiro na II Guerra Mundial. Ele veio para o Rio de Janeiro e trabalhou 35 anos na Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde era o primeiro contrabaixista. Ele ainda está vivo, apesar de muito doente, com 97 anos. Renato Sbragia, é o nome dele, fundou no Rio a Associazione Lucchesi nel Mondo.
O diretor explica que, no total, foram três semanas de filmagens entre Paraná e Rio Grande do Sul, com uma equipe brasileira: André Luis da Cunha, o fotógrafo; Marcos Manna, o técnico de som direto; e Tanise Marchesan, assistente de câmera. Já na Itália, foram quatro dias de pré-produção e uma semana de filmagem e a equipe de dois romanos: Michele Cinque, o fotógrafo; Alessandro Lunardi, o técnico de som direto.
Antes de filmar – explica Sbragia – ‘eu fiz uma viagem preliminar aos locais de filmagem, para escolha dos personagens do filme. Fizemos inicialmente uma semana de filmagem em Colombo, Curitiba e Pinhais, e outra semana em Garibaldi, Carlos Barbosa e Caxias do Sul. Passou um tempo, houve a filmagem na Itália, e meses depois, mais uma semana de filmagem no Paraná, para encerrar’.
A trilha sonora do filme, quase toda de canções vênetas, inclui, segundo o diretor, ‘uma belíssima canção (‘Bisogna Ricordarsi dei Nostri Bisnoni’), composta em dialeto vêneto pelo músico gaúcho Valmor Marasca, que também é personagem do filme. Ela foi gravada numa igreja rural da Serra Gaúcha com o acompanhamento dos Canarinhos de Carlos Barbosa.
No Paraná, ‘tivemos a ajuda inestimável da Angela Mottin, de Colombo, como apoio de produção. Ela nos abriu as portas de muitos dos principais personagens do filme’.
Pelo filme passeiam pessoas simples, gente que vive no dia a dia a sua cultura italiana. Veja outras considerações sobre o filme que dirigiu:
- A Susete Moletta, autora do livro, é também personagem do filme e é mostrada em sua busca incessante – em arquivos laicos e paroquiais da região de Bassano – para conhecer a história de seus antepassados. É um trabalho que ela realiza como uma missão divina, guiada pelos tataravós.
- Em Colombo temos muitas histórias, como a de Pedrinho Strapasson, cujo bisavô trouxe as mudinhas de videira e plantou nas mesmas terras onde ele ainda hoje cultiva e produz vinho.
- A família Lunardon, há várias gerações responsável por tocar os sinos da Torre da Igreja da Colônia Faria, uma família que mantém viva a fé católica de seus ancestrais. Um casal Lunardon de Marostica, na Itália, conta como era a realidade da região, na época em que alguns dos Lunardon emigraram para o Brasil.
- Outro entrevistado é o Ivanor Minatti, do Círculo Trentino de Curitiba. ‘Gravamos com ele e com um grupo que estava em Pádova, e acompanhamos em especial um desses descendentes brasileiros em busca de suas origens italianas – o Orildo Mascarello. Ele foi a uma cidadezinha de origem dos Mascarello, e documentamos o encontro dele com um Mascarello italiano, em Mura di Molvena, próximo a Bassano del Grappa’.
- Um outro ponto alto do filme é um almoço de domingo na casa das irmãs Alberti, uma família vêneta de grande descendência. O macarrão e a polenta cortada a fio. Toda a sabedoria e a infância dura das nonnas.
- ‘Nós gravamos com o Marasca e com os Canarinhos de CB, na companhia da turma da ‘Sexta-feira Alegre’, uns quinze respeitáveis senhores de Garibaldi que se reúnem para magníficas noitadas de boa comida, vinhos, música e alegria. Tem também uma música do ‘Vanti in Drio’ grupo de teatro e música’.
- A cultura italiana permanece muito viva nas regiões onde se cultiva a uva e se produz o vinho, tanto em Colombo, como em Garibaldi. Mais ainda no Rio Grande do Sul, onde o dialeto vêneto é uma língua viva, falada nas casas, nas ruas, onde há grupos musicais e teatrais com repertório na língua vêneta. O Marasca é um expoente desses artistas que produz cultura vêneta.
- Em Forqueta, RS, uma bela história com belos personagens: os irmãos Onzi. Sabrina com 14 anos foi ser modelo em Nova Iorque, ganhou dinheiro, teve muitas chances, mas largou tudo e gosta mesmo é de ficar perto dos pais, que tem uma bela empresa familiar de produção de vinho (produz quantidade considerável para uma empresa familiar).
- O irmão de Sabrina, um ‘bel raggazzo’, também trabalhou em temporadas da São Paulo Fashion Week, mas não aguentou mais de duas e hoje tudo o que quer é trabalhar com o pai, viver ali, e tocar a plantação de uva e a produção do vinho.
Sbragia explica que a história do filme é contada, não por historiadores ou especialistas, mas pelos descendentes dos protagonistas dessa história. É um filme – diz ele – com personagens cativantes, muita música, risadas e lágrimas: ‘Eu fui convidado a dirigir o documentário ‘Brava Gente Italiana’ pelo produtor do filme, Carlos Moletta. Tive uma boa experiência de trabalho com ele, anos atrás, quando montei um filme de ficção que ele havia produzido. Quando ele me chamou – o fato de ser filho de italiano e falar o idioma – também foi um fator que contribuiu para o convite – já havia iniciado o projeto, mas num outro formato, de docudrama, com outro diretor, mas a coisa não foi adiante. Quando entrei para o projeto, resolvemos modificá-lo e fazer um documentário de personagens. Ele me deu liberdade total de criação e eu comecei a pesquisa do zero. Viajei sozinho de início, conhecendo os locais e pessoas que depois viemos a filmar. Todo esse processo, desde a pesquisa, passando pela filmagem e edição, foi pra mim uma viagem existencial, um mergulho nas minhas raízes, ainda que a história dos imigrantes vênetos não fosse exatamente igual à do meu pai toscano, que veio para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial’.
O diretor considera que o processo de finalização, como em geral qualquer documentário, é uma fase que requer meses de muito trabalho e dedicação. Assim, ‘apesar das limitações do orçamento – os recursos financeiros se esgotaram em meio à montagem – conseguimos chegar ao fim. Conseguimos parcerias para fazer a colorimetria e a mixagem do áudio, além da codificação nas várias mídias de exibição, incluindo o filme digital para salas de exibição comercial. Quando eu entrei, acertamos um cachê (modesto) e eu comecei tudo do zero, sem nem tomar conhecimento das despesas totais. Na parte de finalização o dinheiro acabou e eu tive que investir recursos próprios e trabalho, tornando-me co-produtor do filme. Para a mixagem e codificação/copiagem o Moletta fez acordos e vamos pagar adiante’.
No fim, sentimento de dever cumprido!? O diretor responde: ‘O sentimento ao final do trabalho é o melhor possível. Temos som e imagem de ótima qualidade. Fizemos uma primeira sessão para convidados, e a reação da plateia, que se divertiu e se emocionou, nos deixou muito satisfeitos. Agora o filme segue para a exibição em salas comerciais de cinema. O objetivo é distribuir o filme em cinemas do sul e sudeste do Brasil, preferencialmente. E nosso público-alvo é a população de descendentes de italianos no Brasil, um número nada desprezível de 30 milhões de pessoas. Mas o filme interessa também aos descendentes de imigrantes de qualquer outro país, o que no Brasil, é quase toda a população’.
E acrescenta: ‘Gostaria de dizer que o documentário tem dois ganchos importantes com a realidade. Primeiramente, a Imigração Italiana no Brasil está comemorando em 2015, 140 anos. Os processos migratórios, em todo o mundo, quase sempre tem a mesma causa: guerras, fome e miséria. Foi assim no século XIX na Itália, e ainda hoje, esse é um dos maiores problemas do nosso planeta’”.
O que disse a crítica 1: O site MIC Nossa Terra escreveu: “Um filme delicado e repleto de memórias onde as tradições de família, as histórias à mesa, a produção do vinho, a boa comida e a alegria desse povo marcam presença e emocionam”.
O que disse a crítica 2: O site do IMDB publicou: “O filme cumpre um papel antropológico crucial ao documentar o uso do dialeto vêneto (talian), falado por milhões de brasileiros, muitas vezes de forma mais preservada do que em regiões da própria Itália”.
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro “Da Itália para o Brasil – O Casal da Capelinha da Água Verde” (2007), da escritora ítalo-brasileira Susete Moletta, que atualmente reside em Bassano del Grappa, na Província de Vicenza, Itália. A obra aborda a trajetória dos imigrantes italianos e de seus descendentes no Brasil, com foco nos radicados no Sul, região que os acolheu em diferentes fluxos migratórios ao longo dos séculos XIX e XX. Essas famílias partiram, em sua grande maioria, da região do Vêneto, no norte italiano. Entre as cidades retratadas estão Colombo, Curitiba e São José dos Pinhais, no Paraná, e Garibaldi, Carlos Barbosa e Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Em termos técnicos, a película se destaca por sua excelente execução. A fotografia é cuidadosa, capturando com qualidade técnica e sensibilidade as paisagens sulistas e as expressões dos entrevistados, enquanto o desenho de som e a trilha sonora ajudam a construir a atmosfera nostálgica que conduz a narrativa. Por outro lado, o conteúdo traz menos nuances políticas ou debates socioeconômicos sobre a imigração do que se poderia esperar de um documentário histórico tradicional, optando por um caminho mais íntimo e pessoal. Além da música, da comida e da produção de vinho mostradas no longa, um ponto interessante é o enfoque na questão linguística. O documentário destaca o dado de que, ainda hoje, a herança do dialeto veneziano (ou talian) se mantém viva no cotidiano de milhões de descendentes no país, sobrevivendo de forma mais expressiva aqui do que em sua própria terra de origem. O resultado final é um filme profundamente amoroso. Embora tenha como fio condutor a história dos antepassados da escritora, a produção expande seu escopo ao incorporar os relatos e as memórias de diversas outras famílias de imigrantes radicadas no Sul, transformando o que no livro é uma pesquisa familiar em uma calorosa homenagem coletiva à identidade ítalo-brasileira.

19.10.26

“A Fraternidade é Vermelha” - Krzysztof Kieslowski (França/Suíça/Polônia, 1994)

Sinopse:
A jovem modelo Valentine (Irène Jacob) atropela um cachorro e quando procura o dono do animal conhece um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant) que passa a maior parte de seu tempo ouvindo as conversas telefônicas de seus vizinhos. A partir desse encontro, os dois formam uma estranha amizade.
Comentário: Krzysztof Kieslowski (1941-1996) é um cineasta polonês de quem já assisti aos ótimos “Decálogo” (1989) - composto por 10 filmes inspirados pelos 10 Mandamentos - e “Trilogia das Cores” (1993-1994) - composta pelos filmes “A Liberdade é Azul”, “A Fraternidade é Vermelha” e “A Igualdade é Branca”, além do bom “Sorte Cega” (1981) e do curioso “Calma” (1976). Desta vez vou rever “A Fraternidade é Vermelha” (1994).
Leonardo Campos do site Plano Crítico publicou: “Um filme sobre a velhice e a juventude. Uma produção que arremata o processo de reconstrução de significados para os ideais iluministas que soavam (e soam) na contemporaneidade como distantes e evasivos. O projeto ainda está presente, por sinal, muito bem arquitetado: com o bicentenário da Revolução Francesa, o mundo estava diante de uma Europa que desejava o rompimento com as barreiras nacionais.
Neste desfecho, Valentine (Irène Jacob) dirige o seu carro ao voltar de uma atividade para casa, mas por conta do destino, atropela a cadela de alguém em seu caminho. Diante do animal ferido, encontra uma coleira com o endereço e segue até o local. Ao chegar, descobre um homem amargo que a recepciona muito mal. Ele é um juiz aposentado que termina a sua existência terrena espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. O motivo desse homem misterioso é tomar posse das intimidades alheias, para acompanhar passo a passo o desenrolar dos seus respectivos destinos. Há, todavia, em Valentine, o paradoxo comum na trilogia em questão: inicialmente aterrorizada e com postura de condenação, passa a se envolver com aquela situação considerada abusiva e errônea, atos que vão de encontro aos seus ideais.
No que tange aos aspectos narrativos, este é o capítulo da trilogia com maior profundidade de campo, principalmente nas cenas mais contemplativas e filosóficas. A cor vermelha tonaliza semáforos, faróis, bolas de boliche, cerejas, dentre outras coisas. É uma cor bem representativa, pois nos remete ao sangue das relações humanas, da circulação que envolve os encontros e desencontros dos personagens de toda a trilogia. Na seara da direção de arte e do design de produção, temos várias referências significativas, sendo uma delas a foto de Franz Kafka que aparece no estúdio de fotografia. Coincidência ou não nos remete ao Processo, um dos monumentos da literatura moderna. Cabe ressaltar o trabalho de som: entre arroubos de silêncio e composições discretas para ilustrar algumas cenas, a música do filme comove e serve como elemento coesivo para as emoções dos personagens em cena.
‘A Fraternidade é Vermelha’ marca o fim de uma brilhante jornada. Com esse filme, Kieslowiski disse ter alcançado o que queria como cineasta e ser humano. Notadamente o seu filme favorito da trilogia, é onde encerra e relaciona as narrativas anteriores, numa espécie de metáfora avassaladora: no final, somos informados pela televisão que um acidente de balsa dizimou quase toda a tripulação e passageiros, restando apenas alguns poucos sobrevivente, dentre eles, Julie (Juliette Binoche, de A Liberdade é Azul), Dominique e Karol Karol (Julie Delpy e ator, respectivamente, de A Igualdade é Branca) e Valentine, protagonista do filme em questão.
Por estarmos diante de uma trilogia com abordagens geopolíticas, não há como negar a força metafórica deste naufrágio, pois o acidente representa os representantes das microscópicas ações dentre de um feixe macro de relações dentre do continente europeu numa era de indecisões e incertezas. Uma situação que representa um roteiro apurado e preocupado em dar verossimilhança ao que se representa e ressignifica, tendo em vista a abordagem do primeiro texto, mais explícita no que diz respeito aos ideais iluministas reapresentados na contemporaneidade, sem as afetividades e excessos idealistas da antiga história. Ao escrever estas reflexões, encontrei-me diante do solilóquio eterno herói da dúvida e da postergação: Hamlet. Ser ou não ser? Seria o naufrágio uma interpretação para os europeus unidos apenas pela tragédia? Não há nada verbal que comprove, mas podemos inferir, haja vista que estamos diante de um continente sempre envolvido em guerras internas.
O diretor morreu um ano depois do lançamento. Ainda jovem, nos idos dos 50 e tantos anos de idade, foi vítima de um colapso cardíaco, oriundo da vida ativa e frenética que levava, acompanhada, como disse Julie Delpy, ‘por noites montando o primeiro filme e o dia filmando outro, tendo o cigarro como escapismo para o estresse da vida tão badalada’.
Antes de concluir o curso de Cinema na Academia Cinematográfica de Lodz, dirigiu curtas que denunciavam questões sociais na Polônia, e, como não seria diferente para um diretor visionário e crítico, encontrou problemas com a censura. Realizou, em 1976, os filmes ‘A Cicatriz’ e ‘A Profana’, sendo o segundo uma observação sobre o ofício de cineasta. Nos anos 1980, em específico, 1987, filmou para a televisão o seu famoso ‘Decálogo’, produções com uma média de 60 minutos de duração, focadas nos 10 mandamentos bíblicos. Para o formato longa-metragem, adaptou ‘Não Matarás’ e ‘Não Amarás’, clássicos absolutos para o campo da crítica compromissada e dos cinéfilos. Antes de estrear a Trilogia das Cores, lançou-se no cinema francês com ‘A Dupla Vida de Veronique’, drama que nos revelou a carismática e brilhante Irène Jacob.
'A Fraternidade é Vermelha' esteve nas premiações mais badaladas da indústria. O filme concorreu ao Globo de Ouro de Melhor filme, ao Oscar de Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia. Em Cannes, disputou a Palma de Ouro, mas perdeu para ‘Pulp Fiction’, de Quentin Tarantino. Ao longo dos seus 99 minutos de duração, espera-se que o espectador consiga identificar os elos entre as três narrativas, independentes por um lado, mas parte de um mesmo contexto, visto sob o viés do bloco que forma a trilogia, filmes imperdíveis e didáticas aulas de cinema para os interessados em compreender mais sobre a linguagem cinematográfica”.
O que disse a crítica 1: Waldemar Dalenogare avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “O último filme da carreira de Krzysztof Kieslowski talvez seja seu mais impactante. Não é o mais bonito esteticamente e nem tem a melhor história, mas o cuidado com o roteiro e a preocupação em fechar uma trilogia costurando todas as pontas é algo notável. (...) Poucos diretores encerram sua carreira com chave de ouro. Obrigado por nos presentear com esta obra prima, grande Kieslowski”.
O que disse a crítica 2: Roberto Siqueira do site Cinema e Debate avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Com sensibilidade e competência, Kieslowski fecha sua trilogia neste ‘A Fraternidade é Vermelha’, questionando os valores da revolução francesa e mostrando que os seres humanos são imperfeitos, mas é justamente nesta imperfeição que está a graça de todos nós, seres capazes de amar e odiar, chorar e sorrir, se alegrar e sofrer. Isto nada mais é do que viver”.
O que eu achei: “A Fraternidade é Vermelha” (1994) do diretor Krzysztof Kieslowski amarra a Trilogia das Cores mostrando que, apesar do isolamento, vidas estão conectadas por coincidências e empatia. Na trama, a modelo Valentine (Irène Jacob) atropela um cachorro e quando vê em sua coleira o endereço do dono, ela leva o animal ferido até lá. O cara é um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant), mais velho do que ela, que passa a maior parte de seu tempo ouvindo as conversas telefônicas de seus vizinhos a partir de um sistema de grampo que ele mesmo criou. A partir desse encontro, os dois formam uma estranha amizade. Se nos dois filmes anteriores há o egoísmo e a frieza, no Vermelho há a fraternidade representada pelo calor humano, o amor, a compaixão e a conexão real entre as almas. Ser fraterno significa agir com a consideração que se espera entre irmãos. É nesse sentido que o juiz aposentado aceita o afeto descompromissado da jovem modelo Valentine, superando seu cinismo e restabelecendo sua fé na humanidade. A jornada fecha um ciclo de perdão e aceitação. Pude notar que nos três longas há uma cena recorrente: uma idosa vista na rua tentando colocar uma garrafa numa máquina de reciclagem. Valentine vê a cena e imediatamente se levanta para ajudar a idosa a colocar a garrafa no contêiner. Essa atitude resume o conceito de fraternidade. É o único momento da trilogia em que o ciclo de indiferença, mostrado nos filmes anteriores nos quais a idosa não recebe ajuda, é quebrado. Outro destaque fica para a cena final que conecta definitivamente os três longas. A balsa na qual Valentine pretende atravessar o Canal da Mancha rumo à Inglaterra sofre um acidente. Quase toda a tripulação e passageiros morrem, restando apenas alguns poucos sobreviventes. É nesse momento que vamos nos deparar com todos os personagens principais da trilogia: Julie (Juliette Binoche, de “A Liberdade é Azul”), Dominique e Karol Karol (Julie Delpy e Zbigniew Zamachowski, de “A Igualdade é Branca”) e Valentine, protagonista do filme em questão. É através de um noticiário na TV que vemos esses personagens sendo resgatados, simbolizando uma união invisível entre as pessoas. Ao encerrar a jornada, Kieslowski não apenas conclui sua trilogia de forma magistral, mas transforma os conceitos políticos da Revolução Francesa em sentimentos profundamente humanos, consolidando o trabalho como uma obra de arte obrigatória, capaz de nos fazer olhar para o próximo com mais atenção, tolerância e, acima de tudo, esperança.

18.10.26

“Song Sung Blue – Um Sonho a Dois” - Craig Brewer (EUA, 2025)

Sinopse:
Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) são dois artistas covers com azar na vida. Após dar muito sangue, suor e lágrimas para o cenário musical amador de Wisconsin (EUA), eles se conectam para formar um duo chamado Lightning & Thunder que ganharia fama moderada na região por seu show-tributo a Neil Diamond.
Comentário: Craig Brewer (1971) é um diretor, produtor e roteirista de cinema americano. São dele o premiado “Ritmo de Um Sonho” (2005), além do remake de “Footloose - Ritmo Contagiante” (2011) e “Meu Nome É Dolemite” (2019). “Song Sung Blue – Um Sonho a Dois” (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
Márcio Sallem do site Cinema com Crítica publicou: “Uma parte do público está (com razão) intolerante ou reticente a biografias de artistas musicais. Mas e quando esta biografia for de artistas cover ou intérpretes? Antes de se casarem, Mike e Claire Sardina, batizados Lightning e Thunder, formaram uma banda tributo a Neil Diamond e alcançaram um moderado sucesso na cidade de Milwaukee, ao ponto de serem convidados por Eddie Vedder para abrir o show do Pearl Jam. Esta trajetória é o tema de ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois’, uma biografia de altos e baixos, não muito diferente do que foi a vida profissional e pessoal do casal e de sua família.
Com a direção e o roteiro de Craig Brewer, a narrativa esboça alguns comentários sobre a cultura da representação, ou interpretação. Mais do que apenas artista cover, Mike tentou dar a sua leitura para Neil Diamond, interpretá-lo, e foi este toque ou olhar que o tornou bem-sucedido. Não é somente cantar, vestir-se ou comportar-se da mesma forma, não é uma mimetização, mas é a interpretação de um indivíduo a partir da subjetividade e sensibilidade de um outro indivíduo. Um processo análogo ao de Hugh Jackman e Kate Hudson ao darem a vida às versões cinematográficas de Mike e Claire. Eles podem tomar emprestado suas roupas, seus cabelos, seus impulsos e desejos, mas isto é reinterpretado pelo que Hugh e Kate trazem dentro deles. A intensidade do ator australiano, a sensibilidade e doçura da atriz estadunidense, ambos representam artistas que representaram outros artistas, e esta boneca russa é um agrado inesperado de uma narrativa que, no resto do tempo, está contente em atingir as metas esperadas de um Oscar bait [ou ‘isca para o Oscar’, uma produção feita de propósito para conseguir indicações ou prêmios da Academia de Hollywood].
Mike é um alcoólatra em recuperação há 20 anos, uma informação dada logo no início e que desperta, no espectador experiente, a expectativa de que Mike terá uma recaída em um momento catártico. Fora isso, Mike é negligente com as dores agudas no peito e bastante sugestivas de um problema cardíaco grave, uma arma de Chekov engatilhada e apenas esperando para disparar. São pistas plantadas cedo e condizentes com o tipo de história melodramática que está sendo costurada. Uma em que a alegria, a vitória e o sonho são acompanhados e temperados com a sombra de personagens quebrados, ao menos traumatizados o suficiente para que a luz no fim do túnel não seja tomada pelo que não é. Porque, além das pistas plantadas no roteiro, a imprevisibilidade joga o seu jogo, igual a um raio que atinge, às vezes duas vezes o mesmo lugar. O imprevisível é o convite inesperado, é o carro desgovernado, o que transforma a vida das pessoas, para o bem ou para o mal.
O que não é imprevisível é a batalha diária da classe média e trabalhadora para manter a cabeça acima da água. A narrativa costura a trajetória artística de Mike e Claire com a sua vida suburbana, as contas atrasadas, os reparos e remendos necessários para que o carro velho continue funcionando (pois não dá para substitui-lo). Na narrativa, a arte é trabalho, é um meio de subsistência familiar, apesar do desejo de Mike em entreter e dos holofotes que acompanham as apresentações. Mike e Claire não procuram a fama na música, mas uma maneira de ter uma vida estável, compartilhar o sonho americano e construir um jardim florido fazendo aquilo que amam. Todos temos este sonho, uma razão que explica a aceitação do público desta história de azarões, especialmente por ser estrelada por intérpretes carismáticos, povoada por personagens não antagonistas e que partilham esforços para que Mike e Claire deem certo, e cujos obstáculos são só decorrentes de ‘a vida acontecendo’.
Por essas razões, ‘Song Sung Blue’ atinge no alvo o espectador, também por elas, erram o alvo da crítica. Não que crítica e espectador sejam tão distintos assim, mas é que onde um encontra emoção, o outro encontra manipulação. Emoção pela manipulação, e não pelo desenrolar dos eventos. A estrada acidentada que os personagens atravessam é a estrada da vida, disto não há dúvida, mas as curvas estão artificialmente posicionadas pela narrativa a fim de provocar e explorar a emoção em vez de deixá-la acontecer. No momento em que Mike e Claire estão no auge, logo veio a voz atrás da minha cabeça, ‘É agora que as coisas começam a sair dos trilhos’. Dito e feito. Quando Claire reergue-se após um acidente, só veio a memória das pistas plantadas no início e de quando, e não se, a narrativa ia utilizá-las. A história de Mike e Claire pode ter acontecido assim, só que a opção de contá-la deste modo, de sublinhar o que é sublinhado, é da direção. Aí é onde está a manipulação.
A favor de ‘Song Sung Blue’, o talento de Hugh Jackman e Kate Hudson de acertar notas dramáticas e musicais com a mesma facilidade, e da competente Ella Anderson, que é capaz de conferir vulnerabilidade e tridimensionalidade para além de sua esquemática personagem (a filha mais velha de Claire, que paulatinamente recebe Mike na família). Também é bom escutar Neil Diamond para além de ‘Sweet Caroline’, e perceber como os álbuns do músico dialogam com a trajetória não só de Mike e Claire, mas também de quem se frustra com os sonhos não realizados e, mesmo assim, não para de sonhar. O que sobra a músicos operários iguais a este, igual a qualquer trabalhador, é o sonho e o dia de amanhã”.
O que disse a crítica 1: Mattheus Goto da Veja SP avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “O cinema está saturado de biografias musicais, mas ‘Song Sung Blue’ é um pouco diferente. O longa de Craig Brewer não é sobre aquela clássica jornada de superação de um ídolo da música, com sexo, drogas e rock and roll, mas sim sobre dores e problemas de heróis da vida real, afinal é inspirado em uma história verídica”. Porém, “o filme exala americanismos, com o tema e a abordagem”.
O que disse a crítica 2: Hiccaro Rodrigues do site Estação Nerd avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “A montagem dá um ritmo de vídeo clipe ao que vemos e os 133 minutos de duração passam voando, para quem assistiu o documentário no qual o filme se baseia verá que determinados detalhes foram alterados e omitidos, mas nenhum deles prejudica o desenvolvimento da trama. Pelo contrário, são remoções cirúrgicas e que não deixam questões em aberto. ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois’ é um filme surpreendentemente arrebatador e inegavelmente divertido. Uma história que vai conquistar não só os fãs de Neil Diamond, como também quem não conhece as canções do músico e a banda”.
O que eu achei: Estamos acostumados a ver o cinema reverenciar os deuses da música em cinebiografias grandiosas, por isso, “Song Sung Blue - Um Sonho a Dois” (2025) surpreende. Em vez de focar nos dilemas de um ícone global, o diretor Craig Brewer decide mirar os holofotes na base da pirâmide artística: a jornada real de Mike (1951-2006) e Claire Sardina (1961), uma dupla cover do cantor e compositor norte-americano Neil Diamond (1941). Essa escolha não apenas oxigena o gênero, mas humaniza o conceito de sucesso ao celebrar aqueles que vivem à sombra da fama alheia, mas com uma paixão que é inteiramente deles. O filme é uma adaptação de um documentário chamado “Song Sung Blue”, dirigido por Greg Kohs, do ano de 2008. Descobrir que os altos e baixos de Mike e Claire não foram inventados por roteiristas de Los Angeles, mas sim baseados em fatos verídicos, dá um peso dramático extra à produção. O trabalho de Brewer funciona como uma respeitosa homenagem a esse material de origem, traduzindo o carisma da dupla para a linguagem do cinema, especialmente do melodrama musical, já que a vida desses dois não foi nada fácil. Longe do glamour dos tapetes vermelhos, o cenário da narrativa é uma Milwaukee operária do início dos anos 1990, onde Mike - um mecânico e veterano do Vietnã - e Claire - uma cabeleireira com dois filhos para sustentar - lutam contra a escassez financeira. Batizando a dupla como 'Lightning & Thunder', eles passam a cruzar o circuito de feiras e pequenos bares locais, transformando a melancolia de suas vidas privadas numa catarse coletiva através dos hinos de Neil Diamond. Essa rotina de sobrevivência e pequenas glórias regionais é marcada por um contraste constante: enquanto lidam com as agruras da pobreza de uma classe trabalhadora esquecida e com um certo azar que parece insistir em acompanhá-los, eles experimentam um gostinho inusitado do estrelato de verdade quando Eddie Vedder, líder da banda Pearl Jam, convida a dupla suburbana para subir ao palco principal do festival Summerfest, em 1995. Nos papéis principais, a responsabilidade de dar vida ao casal fica por conta de Hugh Jackman e Kate Hudson. Para quem se propõe a dar uma olhada no documentário original, o trabalho de composição da dupla salta aos olhos por caminhos bem distintos. A atuação de Jackman como Mike 'Lightning' é cirúrgica, assemelhando-se de forma muito fiel ao homem real em seus trejeitos, melancolia e presença de palco. Por outro lado, a interpretação de Hudson como Claire 'Thunder' toma mais liberdades criativas, entregando uma persona com uma aparência e energia que se afastam bastante da Claire original. Ainda assim, esse papel rendeu a Hudson uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. O resultado foi melhor do que eu esperava. Talvez a temática inusitada tenha me pegado de surpresa, já que é raro ver o cinema comercial se dedicar à personagens às margens da indústria da música. Além disso, as canções icônicas de Neil Diamond - como 'Sweet Caroline' e a própria ‘Song Sung Blue’ - ajudam a ditar o ritmo da narrativa, funcionando como uma trilha sonora nostálgica e como um motor emocional que conecta o espectador à resiliência da dupla. É um filme que, contra todas as probabilidades, encontra a sua grandeza na simplicidade dos seus heróis. Vale ver nem que seja apenas para conhecer esse nicho de mercado tão peculiar.

13.10.26

“A Natureza das Coisas Invisíveis” - Rafaela Camelo (Brasil/Chile, 2025)

Sinopse:
 Glória (Laura Brandão), uma menina de 10 anos, passa as férias no hospital onde sua mãe, a enfermeira Antônia (Larissa Mauro), trabalha. No local, ela conhece Sofia (Serena), cuja bisavó (Aline Marta Maia) está internada com a saúde debilitada. Convicta de que o ambiente hospitalar está fazendo mal à idosa, Sofia convence sua mãe de levar a avó de volta ao sítio onde ela reside, no interior de Goiás, para viver seus últimos dias com dignidade. Antônia e Glória resolvem ir junto para esse refúgio rural, onde encontram conforto e ressignificam o fim do verão.
Comentário: Rafaela Camelo (1985) é uma cineasta e roteirista brasileira formada em Audiovisual e em Roteiro. É integrante da Rede Paradiso desde 2019. Realizou, entre outros, os curtas “O Mistério da Carne” (2019) e “As Miçangas” (2023). “A Natureza das Coisas Invisíveis” é seu primeiro longa-metragem e o primeiro filme que vejo dela.
O filme conta com um roteiro original escrito pela própria diretora, Rafaela Camelo. O projeto começou a ser desenvolvido anos antes de sua estreia, chegando a participar do prestigiado laboratório de desenvolvimento BrLab sob o título provisório de ‘Sangue do Meu Sangue’. Trata-se de uma narrativa ficcional criada para explorar as vivências da infância, o luto e a espiritualidade no centro-oeste brasileiro.
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Eleito pela crítica o Melhor Filme Brasileiro na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e ainda vencedor do Prêmio Prisma Queer no festival, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ é o primeiro longa da diretora e roteirista Rafaela Camelo, que estreia de forma promissora em uma narrativa nada fácil.
O filme acompanha Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), duas meninas de dez anos que se conhecem durante as férias de verão em um hospital. Glória acompanha o trabalho da mãe enfermeira, enquanto Sofia visita a bisavó, internada com Alzheimer. Unidas pelo desejo de escapar do ambiente hospitalar, elas constroem uma amizade marcada por pequenas descobertas que transformam o cotidiano em momentos poéticos e memoráveis.
A narrativa se desenvolve em duas etapas distintas: os ambientes do hospital e um refúgio no interior de Goiás. No hospital, a monotonia e o ritmo peculiar do espaço de cuidados ajudam a revelar a sensibilidade das protagonistas diante da vida e da morte. Já o contato com a natureza na segunda etapa amplia a percepção das meninas sobre o mundo, funcionando como metáfora para suas próprias transformações. É nesse ritmo contemplativo que o filme encontra sua principal potência, permitindo que o espectador vivencie cada momento compartilhado entre Glória e Sofia.
Nesse sentido, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ remete a ‘Cría Cuervos’, de Carlos Saura, por apresentar a morte e o luto sob o ponto de vista infantil e ao utilizar sequências sutis de sonho e imaginação que misturam fantasia e realidade - com destaque para uma belíssima cena entre a bisavó e um porquinho. Aqui, no entanto, o peso do luto é mais leve, e a experiência da finitude é explorada com curiosidade e sensibilidade, sem as imposições da experiência adulta.
A morte se apresenta como parte da vida, e as meninas aprendem a lidar com ela de maneira natural, refletindo o processo de amadurecimento precoce que a infância, em certas circunstâncias, exige. Dessa forma, o filme se destaca pela forma delicada com que lida com seus temas contemporâneos, como identidade de gênero e rituais religiosos, que surgem de maneira orgânica, permitindo que o espectador compreenda a complexidade da vida sem perder a pureza do olhar infantil”.
Além das premiações já citadas, o filme venceu o Prêmio Grande Otelo na categoria Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem. No Festival de Cinema de Gramado o filme conquistou três prêmios: Prêmio Especial do Júri, Melhor Atriz Coadjuvante para Aline Marta Maia e Melhor Trilha Musical para o compositor chileno Alekos Vuskovic. No Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, o longa levou o Coelho de Ouro de Melhor Longa-Metragem Brasileiro e o Coelho de Prata de Melhor Interpretação, entregue em conjunto para as jovens atrizes Laura Brandão e Serena.
No circuito internacional, o filme estreou na Berlinale e rodou o circuito de festivais norte-americanos, onde se destacou em eventos focados em narrativas LGBTQIA+ e cinema independente como o Frameline - Festival Internacional de Cinema LGBT+ de São Francisco onde venceu o prêmio de Melhor Filme de Estreia e o SIFF - Festival Internacional de Cinema de Seattle, onde saiu premiado pelo júri. O longa também participou de festivais na América do Sul, com destaque para exibições e premiações (incluindo menções especiais) no Uruguai.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ representa uma forma interessante de cinema político, no sentido de apontar para novas configurações familiares, para as identidades queer e a autonomia feminina sem precisar transformar estes tópicos numa problemática, nem apontar dedos a culpados por obstáculos. Em sua aparente simplicidade, concebe uma discreta teia de apoio entre mulheres que se compreendem rapidamente, por atravessarem vivências similares. Entende que a possível fraqueza destas personagens possa constituir a sua força, e que as diferenças as tornam valiosas ao olhar uma da outra (vide o desenho infantil, com a cicatriz orgulhosamente traçada no peito). Uma estreia de peso para Rafaela Camelo, que desperta belas expectativas para seus próximos passos”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Hábil ao ancorar o espectador ao ponto de vista de suas pequenas estrelas, ‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ é (...) encantador, estabelecendo Rafaela Camelo como um talento a ser acompanhado de perto daqui em diante”.
O que eu achei: “A Natureza das Coisas Invisíveis” (2025) é um filme que se ancora na delicadeza para tratar de temas que a sociedade considera complexos demais para o universo infantil: a finitude da vida e a identidade de gênero. O longa entrega uma experiência leve e agradável, consolidando-se como uma obra correta e de boa qualidade, ainda que esbarre em algumas escolhas narrativas excessivamente enigmáticas. A trama acompanha Glória, uma menina de 10 anos filha de uma enfermeira, que carrega a cicatriz de um transplante cardíaco, e Sofia, uma criança que vivencia sua transição social de gênero sob o antigo nome de Bento. Quando a bisavó de Sofia alcança os limites do tratamento hospitalar, as mães das meninas optam por um caminho de acolhimento e dignidade: sair do hospital onde se encontram e prosseguir os cuidados paliativos em um sítio no interior de Goiás. O ponto forte do filme reside na naturalidade com que a diretora conduz a transição de Sofia. Vivida pela carismática atriz mirim trans Serena, a personagem não é definida pelo sofrimento ou pela rejeição. Ao mostrar que a identidade de gênero se manifesta de forma genuína já na infância - e que o respeito a isso se dá puramente no campo social, do afeto e do nome -, o roteiro quebra o tabu do preconceito sem precisar recorrer à violência. A infância ali tem direito de apenas ser. Por outro lado, o filme adota o realismo fantástico para lidar com o mistério de Glória. A presença constante de porcos que a menina visualiza inicialmente no banheiro do hospital e, posteriormente, no sítio, flerta com a hipótese de um xenotransplante (um coração suíno modificado). No entanto, essa analogia com o porco peca pela falta de clareza. Embora o belo desenho final feito por Glória tente amarrar a cicatriz ao animal, a explicação permanece aberta e abstrata demais para o espectador, gerando mais uma dúvida do que o encantamento poético que a direção pretendia alcançar. Ainda assim, o saldo é positivo. Ao trocar esse final de vida da avó de um ambiente hospitalar para um bucólico refúgio rural, o longa transforma o luto iminente em um rito de passagem sereno, resultando num filme capaz de acolher o espectador com a mesma ternura com que suas personagens acolhem umas às outras. Boa pedida.

12.10.26

"Kagemusha - A Sombra de Um Samurai" - Akira Kurosawa (Japão/EUA, 1980)

Sinopse:
No século 16, quando poderosos líderes de clãs concorriam pelo controle do Japão, um ladrão condenado (Tatsuya Nakadai), com uma estranha semelhança com um deles, é usado como seu dublê. Quando o líder do clã morre, o ladrão é obrigado a assumir seu lugar.
Comentário: Akira Kurosawa (1910-1998) foi produtor, montador, escritor e pintor japonês mas se destacou como cineasta e roteirista, um dos mais importantes do Japão e seus filmes influenciam até hoje uma grande geração de diretores. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu em torno de 30 filmes. É amplamente considerado um dos cineastas mais importantes da história do cinema, o que lhe rendeu um Oscar em 1989 pelo conjunto de sua obra. Assisti dele as obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985), o ótimo "Céu e Inferno" (1963), os bons “Os Sete Samurais” (1954) e "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), os medianos "Um Domingo Maravilhoso" (1947) e “Viver” (1952) e os curiosos "Sonhos" (1990) e "Madadayo" (1993). Desta vez vou conferir "Kagemusha - A Sombra de Um Samurai" (1980).
Luiz Santiago do site Plano Crítico publicou: "Os dez anos que separaram 'O Barba Ruiva' (1965) de 'Dersu Uzala' (1975) foram de transformações pessoais e também artísticas para Akira Kurosawa. Neste período, muita coisa aconteceu em sua vida, entre dificuldades de encontrar financiamento para seus projetos, a fracasso de bilheteria daquele que seria um empreendimento com outros diretores ('Dodeskaden – O Caminho da Vida', 1970), gerando uma tentativa de suicídio do diretor, com medo de que sua carreira tivesse terminado. E então veio o início de um retorno aos eixos, que trouxe a adaptação da obra literária do explorador russo Vladimir Arseniev.
Abraçado por diretores icônicos da Nova Hollywood (Spielberg, Lucas, Scorsese e Coppola), Kurosawa conheceria um novo momento em sua carreira, já empregando um diferente tipo de abordagem temática que desenvolveu após 'O Barba Ruiva'. Foi neste cenário - e com ajuda de Francis Ford Coppola e George Lucas como produtores de uma versão internacional, ajudando no financiamento do filme - que surgiu o épico 'Kagemusha, a Sombra de um Samurai', em 1980.
Historicamente falando, o filme se passa em um período de grandes mudanças políticas e territoriais no Japão, o Período Sengoku, também chamado de Era dos Estados Beligerantes, com guerras civis assolando clãs através de todo o país.
O roteiro de Kagemusha, escrito por Masato Ide e Kurosawa, se passa, então, em um cenário de inquietações e batalhas, e nos mostra uma jornada de controle geopolítico, colocando em cena um ladrão condenado à pena de crucificação que é salvo de sua sentença por guardar uma absurda semelhança com um dos Senhores de Clã, o que faz desse ladrão o dublê perfeito. Quando o verdadeiro Senhor local morre, as circunstâncias colocam este homem pobre no lugar áureo do Clã, interpretando por um determinado período (a vontade do falecido Senhor era que sua morte fosse oculta por 3 anos) o posto mais alto do local.
A princípio, o roteiro é bastante confuso e parecem faltar elementos sólidos de justificativa para praticamente todos os personagens em cena. A bem da verdade, temos a impressão de que se trata de uma continuação ou da segunda parte de algo a que não tivemos acesso. Kurosawa é corajoso e habilidoso o bastante para começar com essa abordagem incomum de uma narrativa em continuidade e rapidamente nos dar ingredientes dramáticos a partir dos quais podemos entender o que se passa. A guerra é esclarecida. A posição do Senhor Shingen Takeda é apresentada de modo largo e de maneira até um pouco cômica (destaque absoluto para o excelente Tatsuya Nakadai, que interpresa Takeda e, depois, Kagemusha) e a partir de então, seguimos com a preparação para a batalha e uma forma de lidar com as quebras de expectativas de domínio territorial, como se o destino de cada indivíduo aqui (lembrando que o roteiro não se furta em flertar com o místico ou o onírico) estivessem esperando a vez de ser alterado pelos mais banais motivos.
A produção de Kagemusha esteve entre as mais laboriosas da carreira de Kurosawa, mas à parte os esforços de lidar com centenas de figurantes, cavalos e dinâmica cênica funcionando perfeitamente, não houveram grandes contratempos ao longo do processo. O único impasse verdadeiro aconteceu ainda nos primeiros dias de ensaio, quando o então contratado para protagonizar o filme, o ator Shintarô Katsu (da franquia 'Zatoichi'), apareceu com uma câmera no set, dizendo que iria filmar o seu processo de atuação e transformação de Senhor Takeda para Kagemusha. Não deu outra: Kurosawa o demitiu no mesmo dia, contratando rapidamente Tatsuya Nakadai.
Ao longo de todo o processo, o cineasta não encontraria mais empecilhos além dos já esperados para uma produção deste tamanho, especialmente quando falamos de uma obra que mantém o rigor e perfeccionismo estético de seu diretor, vide as vestimentas históricas, a representação dos interiores dos castelos, o sistema de estratégias para a batalha e a dinâmica hierárquica daquele período da História do país, filmado com precisão.
Assinada por Takao Saitô (que estreou como fotógrafo ao lado de Kurosawa, em 'Sanjuro') e Shôji Ueda (em sua primeira parceria com o Mestre), a fotografia de 'Kagemusha' está entre as mais belas construções do cinema, tendo a capacidade de colocar na tela clãs de diferentes bandeiras, sequências de diferentes forças dramáticas atrelada a cores e ângulos próprios, jamais repetidos em contraste a outros Clãs; distintas aberturas e movimentos de ligação entre inimigos; e ainda as construções específicas que mais nos chamam a atenção, como as estonteantes cenas em que o ladrão descobre o corpo do Senhor dentro da jarra; a sequência do sonho em todo o seu mergulho plástico, fortemente colorido e a soberba batalha noturna, momento do filme com um dos mais marcantes trabalhos de edição na criação do suspense diante do público.
Nessas condições estéticas tão imensas, o espectador fica esperando que o roteiro vá expandir a premissa, mas a única preocupação aqui é a exploração da dualidade entre sósia e Senhor mais o possível impacto que isso tem nos chefes de Clãs inimigos".
O que disse a crítica 1: Cássio Starling Carlos crítico da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Como em tantos filmes anteriores do mestre, 'Kagemusha' é uma ópera, uma sequência admirável de quadros encenados mas também um genuíno conto filosófico, e é este o aspecto que mantém o filme nas alturas (...). Nesta troca, em que a potência deixa um espaço em branco que será ocupada por um fantasma, Kurosawa realiza uma reflexão sobre o poder e sua natureza, a guerra e suas desrazões, sobre a qual a natureza impera soberana e os homens vagam pelo mundo apenas como sombras de si mesmos".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do Plano Crítico também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: "a abordagem do roteiro impede que o fortalecimento de uma investigação mais próxima do Kagemusha seja feita, ao mesmo tempo que impede que as ambições de guerra sejam plenamente exploradas, ficando no meio um grande peso de ordem quase filosófica, onde um ladrão se vê perfeitamente tomado pelas ideias e postura de seu falecido Senhor - dedicando-se com afinco a assumir seu papel -, embora saiba que esta 'sombra' deverá sair de cena algum dia. No entanto, essa disposição textual tem peso negativo bastante limitado. A despeito dela (e da forma como o diretor filma o ciclo de ações durante a batalha final, com os chefes dos Clãs aliados praticamente entregando-se à morte), 'Kagemusha' está entre um dos mais incríveis contos históricos sobre este intenso período da história do Japão. Um grande filme sobre o poder de uma figura política, sua representação e as consequências que a sua saída de cena pode trazer para todos. Um épico sobre personalidade, sobre a arte da guerra e sobre o legado de alguém".
O que eu achei: "Kagemusha - A Sombra de Um Samurai" (1980) é um desses épicos que se passam no Japão feudal, mais precisamente no turbulento período Sengoku (1467-1603). Estamos em 1573, o país estava dividido entre dezenas de senhores feudais (daimyos). O implacável senhor feudal Oda Nobunaga havia marchado até a capital Quioto e destronado o último Xogum Ashikaga, destruindo o antigo sistema político. Nobunaga queria unificar o Japão sob o seu punho de ferro e usava táticas brutalmente modernas, incluindo o uso de armas de fogo trazidas por comerciantes europeus. O único rival militar com força para barrar Nobunaga era Takeda Shingen, o líder do clã Takeda, famoso por ter a cavalaria mais temida do Japão. Em 1572, Shingen já havia esmagado as forças de Tokugawa na Batalha de Mikatagahara e, no início de 1573, avançava em direção a Quioto. No auge da campanha, em maio de 1573, Shingen morre subitamente. Historiadores debatem se foi por pneumonia, câncer ou devido a um tiro de sniper. Seu clã esconde sua morte por um tempo para evitar que os inimigos os ataquem. Kurosawa usa exatamente essa brecha histórica real para criar a sua ficção. No filme, com a morte de Shingen, seus homens resolvem omitir essa informação dos inimigos substituindo o líder por um kagemusha (um sósia). No papel principal está o ator Tatsuya Nakadai. Ele interpreta de forma magistral os dois personagens principais: tanto o imponente senhor feudal Takeda Shingen quanto o ladrão sem nome que é obrigado a ocupar seu lugar. Embora tenha sido superado cinco anos mais tarde pela obra-prima "Ran" (1985), “Kagemusha” não perde o seu brilho. Ele funcionou como um ‘ensaio de luxo’ para o que viria a ser feito. O próprio Kurosawa admitiu que usou o longa como um teste de figurinos, cores, coreografias e locações para preparar “Ran”, que era o projeto dos seus sonhos. Se em “Ran” testemunhamos o caos absoluto provocado pela vaidade e pela decadência de um líder, em “Kagemusha” o foco é a sustentação artificial desse poder por meio de uma farsa. Ambos se completam. Um dos momentos mais fascinantes do filme ocorre quando mergulhamos no subconsciente do ladrão através de seus pesadelos. Visualmente arrebatadoras, essas cenas abandonam o realismo histórico para adotar uma estética expressionista e quase psicodélica, com cores saturadas e cenários distorcidos. Nelas, o sósia é assombrado pelo fantasma do verdadeiro Shingen e pelo peso esmagador da identidade que foi obrigado a assumir. Outro destaque fica para a sequência final, que reconstitui a histórica Batalha de Nagashino (1575). Em uma quebra de expectativa, Kurosawa opta por não filmar o choque direto do combate, mas sim nos mostrar apenas os disparos das armas e a reação horrorizada dos generais. O verdadeiro impacto vem logo em seguida, quando a câmera revela a devastação: um exército dizimado onde homens e cavalos perdem a vida em meio ao sangue e à lama. A presença dos cavalos morrendo é perturbadora. Filmados sem uso de efeitos digitais, dezenas de animais reais cobrem o chão em posições agonizantes. Vale saber que nenhum animal foi ferido: Kurosawa recorreu a veterinários para sedá-los e sua equipe teve apenas 30 minutos para capturar as imagens antes que eles acordassem. O longa é imperdível. Ao equilibrar o drama íntimo de um homem comum com o colapso de uma era, Kurosawa entrega um espetáculo que vai muito além do entretenimento. É um filme belo, cruel e profundamente reflexivo. Uma recomendação obrigatória não apenas para os entusiastas da cultura japonesa, mas para qualquer um que deseje testemunhar a genialidade de um dos maiores cineastas da história. Excelente.

11.10.26

“A Noiva!” - Maggie Gyllenhaal (EUA/França, 2026)

Sinopse:
Na Chicago dos anos 30, Frankenstein (Christian Bale) pede ajuda à Dra. Euphronius (Annette Bening) para criar uma companheira. Eles dão vida a uma mulher assassinada (Jessie Buckley), provocando um romance, o interesse da polícia e uma mudança social radical.
Comentário: Maggie Gyllenhaal (1977) é uma atriz, diretora e roteirista estadunidense. Como atriz ela ganhou o Globo de Ouro por seu papel na minissérie britânica “The Honourable Woman” (2014). Como diretora e roteirista, o premiado “A Filha Perdida” (2021) foi seu primeiro longa e o único filme que vi dela. Desta vez vou conferir “A Noiva!” (2026).
Inácio Araújo da Folha SP publicou: “‘A Noiva!’ é, de certa forma, um filme de dualidades, de corpos que se dividem. Assim, logo de início existe uma moça enojada com o grupo de gângsteres, de fato repulsivos, que a cerca. A moça se chama Ida (Jessie Buckley). O líder dos gângsteres se chama Lupino. Juntando os dois, temos Ida Lupino, nome da antiga estrela da Warner e intrépida cineasta independente.
Logo, Ida será morta e ressurgirá entre os vivos como a noiva tão desejada pelo monstro de Frankenstein. Estamos nos anos 1930, era de gângsteres e de filmes. Frankenstein já existia desde o século 19, mas ressurgiu com força no cinema. Agora ressuscita como fã incondicional dos musicais, em especial os estrelados por um certo Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal).
O solitário Frankenstein (Christian Bale) exige da Dra. Euphorius (Annette Bening) a criação de uma noiva. E caberá à finada Ida esse papel. Ao contrário da noiva do filme dos anos 1930, desta vez a noiva já vem completa, ainda que um tanto avariada. Tem fraturas, escoriações, uma enorme mancha (...) no rosto.
Juntos, eles saem para o mundo. Mas o mundo que encontram não se parece muito com o de 1930. Agora parece que está dividido em duas partes: o das pessoas ‘de bem’ e as figuras monstruosas (que podem ser prostitutos, músicos, frequentadores de rave etc.). Em vista disso, Frankie (como ela o chama) e Penny (como ele a nomeia) até que começam bem sua passagem pelo mundo civil.
No entanto, logo começam a surgir os obstáculos. Na saída de uma festa, um bando de estupradores ataca Penny; Frankie se enfurece e a defende. Quando a defende não é o monstro gentil que conhecemos, pelo contrário. Os estupradores morrem e, evidentemente, aqui começa a perseguição.
Vemos que, até aqui, Maggie Gyllenhaal mostrou dois aspectos do cinema: os musicais e os monstros. Entra em cena um outro: o policial. Seu xadrez parece pronto. Na verdade, Frankie e Penny serão mais uma espécie de Bonnie & Clyde do que um casal de monstros: uma dupla marginal que sobrevive num sistema opressivo, feito para eliminar os divergentes.
Ou seja, o policial se impõe sobre o terror. As referências ao filme de Arthur Penn são evidentes. Mas também o musical irrompe em contraponto: é o gênero por excelência capaz de prometer felicidade. E aqui ele tem, obviamente, conotação um tanto irônica.
Mais do que todos os gêneros invocados, o cinema é uma presença sempre invocada e sempre questionada. Por um lado, a proximidade entre a produção cinematográfica e o gangsterismo é notória. Mas o cinema é também o lugar onde se promete ao mundo uma felicidade inexistente, que o filme policial virá conjurar. E o horror nisso tudo? Entra sobretudo como dimensão paradoxal: os monstros não são os monstros. São os outros.
Mais exatamente, Maggie Gyllenhaal acrescenta ao mito de Frankenstein a condenação do universo masculino, com tudo o que possa representar de negativo. Basta observar a dupla de simpáticos detetives envolvidos nessa história: Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e Myrna Mallow (Penélope Cruz). Ele é o detetive. Ela, a assistente, a secretária. Mas é ela, com seu nome que inevitavelmente evoca o nome de outro detetive, Philip Marlowe (criado por Raymond Chandler), quem tem a capacidade de investigar é a mulher.
A enorme vantagem de "A Noiva!" em relação à maior parte dos filmes que se reivindicam feministas (o que inclui os brasileiros) é que em Gyllenhaal o ideário não atropela a história.
Dizer que o filme é feminista não significa dizer que seu interesse ou seu significado resumem-se a isso. A invocação do monstro visto como vítima de um mundo verdadeiramente monstruoso reflete com alguma desenvoltura a maneira como os liberais sentem-se oprimidos nos EUA sob a atual administração de extrema-direita. E, claro, a cultura do machismo extremo, do sadismo, do estupro (e que se pode replicar, aqui no Brasil, do assassinato de mulheres) mostra sua face horrível por inteiro aqui.
O jogo de espelhos do roteiro, que começa com Ida e Lupino, passa por Frankie e Penny, a era clássica e o contemporâneo etc., ajuda muito na felicidade formal do filme, que consegue superar a empostação desmedida da Mary Shelley que aparece no início e retorna de tempos em tempos”.
O que disse a crítica 1: Mattheus Goto da Revista Veja avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “A premissa de ‘A Noiva!’ tinha potencial: fazer um retrato digno para a protagonista de ‘A Noiva de Frankenstein’ (1936), que foi reduzida a uma perspectiva machista. A diretora e roteirista Maggie Gyllenhaal, com uma visão artística requintada, e a atriz Jessie Buckley, uma camaleoa sempre em transformação, pareciam ser a dupla perfeita para o projeto. O filme é bem ambicioso e aposta em diferentes formatos e gêneros. As tentativas ousadas merecem mais aclamação do que o resultado em si, que é confuso e incoerente”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Com um início que já atira o espectador na lógica de sua história fantástica sem se preocupar com o choque, ‘A Noiva!’ exige uma abertura imediata que talvez seja difícil para alguns espectadores, introduzindo rapidamente camadas metalinguísticas, possessão, reanimações rápidas de cadáveres e um Monstro adaptado a outros contextos. Dito isso, aqueles que conseguirem abraçar a proposta de Gyllenhaal serão recompensados por um filme que, além de não temer riscos, é capaz de encontrar soluções instigantes na maior parte de sua execução. E que mais do que justifica a exclamação em seu título”.
O que eu achei: “Frankenstein” (1818) de autoria de Mary Shelley é um dos livros mais adaptados para o cinema. Dizem que há centenas de versões que vão do terror gótico à comédia. Porém, Shelley nunca escreveu um livro sobre a noiva do Monstro. Essa personagem até aparece no livro de 1818 quando, isolado e odiado pela humanidade, o Monstro exige que o cientista Victor Frankenstein crie uma fêmea para lhe fazer companhia. Victor até começa a montar o corpo da criatura feminina, porém, no meio do processo, ele é tomado pelo medo de que ela seja mais maligna do que o monstro, ou que ela o rejeite, ou que os dois gerem uma ‘raça de demônios’ que ameace a humanidade. Então, em um ataque de pânico, Victor destrói o corpo inacabado. Mas bastou essa citação para a Noiva ir parar nas telas do cinema. James Whale foi o precursor. Seu “Frankenstein” (1931) – com Boris Karloff no papel principal – tem uma sequência chamada “A Noiva de Frankenstein” (1935), com a atriz Elsa Lanchester interpretando a criatura feminina com o icônico cabelo preto com mechas brancas em formato de raio. Depois vieram muitos outros. Agora é a vez de Maggie Gyllenhaal mostrar sua versão feminista da criatura. O filme se passa nos anos 1930 em Chicago. Mary Shelley (1797-1851) já estava morta, então no longa ela é uma narradora fantasmagórica. É do além que ela comenta não ter tido ambiente para criar um livro sobre a noiva do monstro já que, no século XIX, não seria aceita uma criatura feminina tendo a história grandiosa que ela merecia. É lá do além que ela irá ‘encarnar’ em Ida (Jessie Buckley está espetacular fazendo os dois papéis). A moça é uma prostituta contratada pela polícia para se infiltrar na máfia, mas a missão dá terrivelmente errado e ela acaba assassinada. O Monstro – criado originalmente em 1818 - já está com mais de um século de vida e o dr. Victor Frankenstein, que o criou, nem está mais neste mundo. Solitário, ele viaja até Chicago à procura de um cientista que vem se empenhando em pesquisas de ressuscitação. Só ao chegar lá é que ele vê que o cientista é uma mulher. É nesse ponto que a ficção e o além-túmulo se cruzam: o corpo de Ida sem vida será reanimado, encarnando todos os desejos de liberdade e críticas ao machismo de Mary Shelley. Com um visual punk-gótico avassalador que desafia os monstros clássicos do cinema, a criatura inicia uma jornada caótica de vingança e autodescoberta. Eu, particularmente, gostei demais do filme. Mas é preciso ser honesto: não é uma obra que vai agradar todo mundo. Maggie Gyllenhaal não entrega um filme de terror convencional. “A Noiva!” é uma produção visceral, excêntrica e cheia de colagens tonais que misturam o drama histórico com a energia caótica do movimento punk. Quem for ao cinema esperando sustos tradicionais ou o clima gótico preto e branco de outrora pode se frustrar. Tem de tudo no filme: é filme de monstros, é musical, é policial, é road movie, é um manifesto de humor ácido e ultrajante. Maggie Gyllenhaal joga todas essas referências no liquidificador com uma liberdade estética impressionante, criando uma obra que deliberadamente se recusa a se encaixar em uma caixinha só. No entanto, para quem aceita embarcar em uma experiência visceral, corajosa e magnética, o longa se revela uma das releituras mais originais e divertidas que o mito de Mary Shelley já ganhou nas telas. Nós mulheres agradecemos. Se jogue.