10.8.26

"Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia" - Hector Babenco (Brasil, 1977)

Sinopse:
Nos anos 1960, uma organização clandestina batizada como Esquadrão da Morte passa a combater o crime à margem da lei. Nesse contexto de tensão, vários episódios e personagens marcaram aquele período histórico - o notório assaltante Lúcio Flávio (Reginaldo Faria) é um deles. Na década seguinte, Lúcio monopoliza as manchetes por seus assaltos ousados e fugas espetaculares. Pouco antes de morrer, ele revela a um repórter detalhes sobre o envolvimento da polícia com o mundo do crime.
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. Assisti dele a obra-prima “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1981), o ótimo “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), o bom "Meu Amigo Hindu" (2015) e o péssimo "O Passado" (2007). Desta vez vou conferir “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977).
O site Wikipédia nos conta que Lúcio Flávio Vilar Lyrio (Rio de Janeiro, 1944 –1975) foi um criminoso brasileiro que se tornou conhecido em todo o Brasil na década de 1970 em razão de seus inúmeros crimes. De boa aparência, articulado, violento e de inteligência acima da média, iniciou suas atividades criminosas como ladrão de carros, evoluindo para assaltos a bancos e joalherias e cometendo diversos homicídios. Tornou-se muito conhecido pelas constantes fugas de diversas prisões e pelo envolvimento com policiais pertencentes ao Esquadrão da Morte, os quais também denunciou.
Atuou ao lado de alguns dos mais perigosos marginais do período, dentre os quais seu irmão Nijini Renato, seu cunhado Fernando C. O., Liéce de Paula, Armando Arêas Filho (Armandinho) e outros.
Cometeu crimes nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e em Brasília.
Sua vida foi imortalizada em obras literárias, a mais importante foi concebida pelo escritor José Louzeiro, obra essa que foi baseada em um relato dado por Lúcio Flávio a um repórter policial um pouco antes de sua morte. O relato, cheio de detalhes da sua vida no crime, delatava seus comparsas, como por exemplo, um policial que sempre o acobertava em suas investidas no mundo do crime. A obra de José Louzeiro recebeu o nome de “Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia”, nome homônimo do filme.
Ele foi morto com 19 facadas no peito, na cela número sete do presídio Hélio Gomes, no Rio de Janeiro, durante a madrugada, por um companheiro de cela, Mário Pedro da Silva, em 1975, mas há uma forte suspeita de que ele tenha sido morto pelos policiais que formavam o Esquadrão da Morte, e que temiam que Lúcio os denunciasse.
O filme, estrelado por Reginaldo Farias no papel principal, é justamente a adaptação do livro do José Louzeiro. Porém o filme sofreu censura. Na versão final não aparecem fardas nem viaturas, e os policiais envolvidos tiveram seus nomes trocados. 
O filme foi vencedor do Prêmio do Público da primeira edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1977.
O que disse a crítica 1: Rodrigo de Oliveira do site Papo de Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Com inflados 118 minutos de duração, 'Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia' abusa um tanto por se estender, mas tem momentos interessantes que conseguem segurar a atenção do espectador. As cenas oníricas, sangrentas, dão um bom molho especial em uma trama policial urbana que retrata um período conturbado da história do nosso Brasil. Pode ter envelhecido mal no todo, mas tem predicados que justificam uma olhada com maior atenção".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP, disse que "O que mais importa nos filmes baseados em fatos reais é sua irrealidade. Tomemos 'Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia'. O filme de Hector Babenco é, mais que um relato da trajetória do marginal, o elogio da marginalidade num momento específico da vida nacional. Isto é, os anos 1970, o governo militar: o bandido é o herói, a polícia é o vilão. Não que certas coisas tenham mudado: o tratamento dado aos pobres pela polícia e pela Justiça é bem diverso do que se dá aos ricos. Mas a visão do momento implicava o engajamento do espectador, jovem sobretudo, da classe média, no combate à ditadura. O filme respondia a esse desejo. Daí ao êxito era um pulo".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de José Louzeiro que era um jornalista respeitado da crônica policial do Rio de Janeiro. Ele trabalhou em jornais como ‘A Luta Democrática’ e conhecia intimamente os meandros do submundo carioca, as gírias das prisões e o modus operandi dos criminosos e da polícia. Louzeiro esteve frente a frente com Lúcio Flávio. O criminoso, sabendo que estava jurado de morte pelo Esquadrão da Morte por ‘saber demais’, decidiu abrir o jogo usando o jornalista como um canal para denunciar que os seus assaltos a bancos eram articulados, protegidos e financiados por policiais do alto escalão. Além da entrevista, o autor realizou uma intensa pesquisa para checar a veracidade das denúncias feitas pelo bandido. O livro foi cirúrgico em expor os bastidores do Esquadrão da Morte. Na adaptação para o cinema feita pelo Babenco temos um elenco de peso com Reginaldo Faria no papel principal, Paulo César Peréio, Ivan Cândido, Milton Gonçalves, Ana Maria Magalhães, Lady Francisco, Grande Otelo, Stepan Nercessian e José Dumont. O longa foca na atuação do criminoso de 1970 até 1975, mas o maior interesse aqui é ver o modus operandi do Esquadrão da Morte. Criado no final dos anos 1960, era uma organização paramilitar clandestina, formada majoritariamente por policiais civis e militares, mas que continha também juízes, promotores e até jornalistas. O objetivo era exterminar criminosos comuns e opositores. O contexto da ditadura militar (1964-1985) favoreceu imensamente o surgimento e a expansão desse tipo de grupo pois, sob o pretexto de combater o comunismo e o crime urbano, foram instituídas leis de exceção (como o AI-5) que esvaziaram os direitos humanos, blindando as polícias de investigações. No Rio de Janeiro (antigo estado da Guanabara), o governador e generais criaram um grupo oficial batizado como ‘Os Homens de Ouro’. O detetive Mariel Mariscot (cujo nome foi alterado para Dr. Moretti no filme) fazia parte dele. Sob os aplausos de setores da imprensa e da classe média que adotavam o lema ‘bandido bom é bandido morto’, eles cometiam assassinatos deixando cartazes nos corpos com o desenho de uma caveira. Porém, o que Mariscot menos queria era assassinar Lúcio Flávio. Ele e outros agentes do Esquadrão da Morte monitoravam os passos da quadrilha facilitando suas ações e garantindo que as áreas bancárias ficassem sem patrulhamento policial no momento dos roubos. Claro que o preço dessa proteção era altíssimo. Sempre que a quadrilha realizava um assalto, Mariscot e seus homens apareciam para recolher uma fatia gigantesca do dinheiro. Se Lúcio Flávio se recusasse a pagar, a polícia o prendia ou ameaçava executar seus familiares e comparsas. Quando calhava de Lúcio Flávio ser preso, Mariscot facilitava sua fuga molhando a mão de outras pessoas. A relação implodiu quando a ganância dos policiais sufocou o bando. Lúcio Flávio percebeu que por mais que ele roubasse, ele nunca teria nada. Sabendo que seria morto de qualquer forma foi que ele resolveu desmascarar o policial publicamente. Uma curiosidade é que, dois anos depois de Babenco lançar “Lúcio Flávio” (1977), Antônio Calmon lança “Eu Matei Lúcio Flávio” (1979), um filme estrelado pelo Jece Valadão, que mostra a ótica dos policiais pintando Mariscot como um herói injustiçado. Entretanto, os desmandos de Mariscot já eram tão evidentes na imprensa que não foi possível protegê-lo. Ele foi oficialmente expulso da polícia, preso e mais tarde se tornou segurança do jogo do bicho, acabando assassinado antes mesmo de conseguir ser julgado pelos seus crimes. Obviamente, para lançar o filme, Babenco e o produtor Roberto Farias travaram uma verdadeira guerra com a censura: os nomes dos policiais tiveram que ser trocados e as cenas que mostravam tortura policial explícita e diálogos que faziam ligação direta entre o crime comum e os porões do regime militar tiveram que ser cortados. Mesmo assim ele chegou a ser totalmente proibido em Brasília e só foi liberado no restante do país após forte pressão de setores intelectuais. Imperdível.

9.8.26

"Nouvelle Vague" - Richard Linklater (França/EUA, 2025)

Sinopse:
Paris, 1959. Um realizador desconhecido (Guillaume Marbeck), um produtor aventureiro (Bruno Dreyfürst), um orçamento irrisório, uma equipe minúscula, e o projeto louco de rodar um primeiro filme em 20 dias com um embrião de roteiro sobre um marginal em fuga (Aubry Dullin) e a sua namorada (Zoey Deutch). Esses são os bastidores das filmagens de "Acossado" (1960) de Jean-Luc Godard, um marco do movimento cinematográfico francês Nouvelle Vague.
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), o ótimo "Blue Moon: Música e Solidão" (2025), os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017) e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou conferir "Nouvelle Vague" (2025).
Katia Kreutz do site AIC – Academia Internacional de Cinema nos explica o que é a Nouvelle Vague, ela publicou: "Reunindo alguns dos grandes representantes do cinema moderno europeu, a Nouvelle Vague francesa foi um dos movimentos mais relevantes da história do cinema. Os diretores daquele período buscavam usar a técnica como uma forma de estilo. Para eles, um cineasta era, antes de mais nada, um autor. O filme deveria desafiar as convenções e desconstruir as bases do cinema, ou seja, a lógica narrativa tradicional e a continuidade do espaço e tempo. É como se o cineasta fosse um ensaísta que 'escrevesse com a luz', usando a câmera como sua caneta – um conceito que foi chamado de 'caméra-stylo'.
O termo Nouvelle Vague (que, em tradução literal, significa 'nova onda'), foi usado inicialmente entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960, na França, por um grupo de críticos cinematográficos da popular revista 'Cahiers du Cinéma'. As bases teóricas mais importantes para os integrantes desse grupo vieram dos escritos de Alexandre Astruc e, sobretudo, de André Bazin, cujas ideias ajudaram a moldar toda uma geração de estudiosos, críticos e cineastas.
O conceito da caméra-stylo via o cinema como uma forma de linguagem audiovisual, fundamentalmente escrita pelo diretor do filme. A Cahiers du Cinéma, fundada por Bazin em 1951, tornou-se o 'quartel general' de um grupo de jovens cinéfilos, amantes da sétima arte: François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Eric Rohmer – que, posteriormente, se tornariam os mais conhecidos diretores da Nouvelle Vague.
Um dos principais argumentos de Bazin consistia na rejeição da estética da montagem, tanto os cortes radicais propostos pelo cineasta russo Sergei Eisenstein quanto o estilo 'invisível' de edição dos filmes hollywoodianos. Ele defendia longos planos e uso da profundidade de campo, no que chamava de mise-en-scène (algo como 'representação da cena'). Os elementos que compunham a estrutura fílmica, de acordo com esse pensamento, eram todos aqueles que precediam a montagem propriamente dita, incluindo posicionamento e movimento de câmera, iluminação e distribuição da ação nos planos.
Os críticos da Cahiers não abraçaram apenas as ideias de Bazin, como também tomaram emprestado de Astruc o conceito de autoria. A chamada politique des auteurs ('política dos autores') sustentava que o filme deveria ser uma forma de expressão artística pessoal e que as melhores obras cinematográficas eram aquelas nas quais estava visível a assinatura de seus autores.
O movimento rejeitava ainda a 'tradition de qualité' – filmes adaptados de obras clássicas da literatura, que dominavam as salas de cinema francesas na época. O ímpeto por novidade que movia os jovens autores ficou evidente em uma espécie de manifesto escrito em 1953 por François Truffaut, 'Une certaine tendance du cinéma français' (Uma certa tendência do cinema francês). No texto, o cineasta denunciava as adaptações literárias para o cinema como uma forma segura de garantir bilheterias, resultando em trabalhos sem imaginação, o que ele chamou de 'cinéma de papa' (cinema de papai).
Os autores dispostos a criar uma 'nova onda' do cinema francês tinham uma coisa em comum: o desejo de gravar em locações reais, abordando temas de cunho social. Muitos dos cineastas do movimento estavam ativamente engajados nas revoltas políticas que aconteciam na França, na década de 1960. Até mesmo suas experimentações radicais com a edição, o estilo visual e a narrativa faziam parte de uma necessidade de quebrar os paradigmas conservadores daquele tempo".
Um dos filmes que fazem parte desse movimento é o longa "Acossado" (1960) de Jean-Luc Godard que conta a história de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) que, após roubar um carro em Marselha, foge para Paris. No caminho ele mata um policial que tentou prendê-lo por excesso de velocidade e, em Paris, persuade a relutante Patricia Franchisi (Jean Seberg), uma estudante americana com quem se envolveu, a escondê-lo até receber o dinheiro que lhe devem.
José Geraldo Couto do site IMS nos conta que "o filme de Richard Linklater retrata os bastidores da produção de 'O Acossado' (1960) (...). Vemos ali, em ação, a personalidade efervescente e imprevisível de Godard (Guillaume Marbeck), às voltas com um produtor duro na queda (Georges de Beauregard, encarnado por Bruno Dreyfürst), uma equipe atarantada e duas estrelas de personalidades díspares (Jean Seberg/Zoey Deutch e Jean-Paul Belmondo/Aubry Dullin). A missão nada modesta da trupe: subverter o cinema convencional e criar uma nova forma (ou novas formas) de expressar o real por meio de som e imagem.
(...) É forçoso dizer que se trata de um filme irresistível para os cinéfilos (entre os quais me incluo), talvez por conta de certo desejo fetichista de estar ali, no epicentro de uma revolução estética, política e moral. E nos deixamos levar prazerosamente por essa onda, que o próprio Godard maduro ironizaria invertendo a frase. 'Une vague nouvelle', disse ele, transformando o adjetivo em substantivo e vice-versa: uma vaga novidade.
Assim, o filme nos leva não apenas aos sets de filmagem, mas também à redação dos 'Cahiers du Cinéma', às conversas com ídolos como Rossellini e Bresson, aos cafés e ruas do Quartier Latin, numa reconstituição cuidadosa expressa num preto e branco que mimetiza a imagem do filme original, cujo frescor, aliás, segue incólume.
Para que não se quebre o encanto, praticamente todos os diálogos são frases de efeito ditas de fato em alguma ocasião, ou expressam de modo didático as transgressões buscadas por Godard. E aqui há um paradoxo: fala-se, por exemplo, do faux-raccord e dos cortes no interior do plano, mas o filme de Linklater não os pratica em nenhum momento, resignando-se a uma decupagem essencialmente convencional, 'invisível'. É um filme clássico celebrando um filme moderno.
(...) Um complemento ou contraponto mais que interessante seria o documentário 'Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague' (2010), de Emmanuel Laurent e Antoine de Baecque, disponível em DVD da Imovision. Ali se investiga mais a fundo essa espinhosa amizade/inimizade criativa que sacudiu a história do cinema".
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 2 estrelas, ou seja, algo entre fraco e regular. Disse: "A produção parece ter sido concebida primariamente para proporcionar a Linklater o prazer pessoal de 'refilmar' 'Acossado' - ou pelo menos o de documentar ficcionalmente sua produção, o que lhe permite reencenar não apenas passagens do original, mas reconstruir ambientes inteiros, como ao recriar em estúdio o apartamento de Patrícia, que originalmente era uma locação (um quarto de hotel). Além disso, o cineasta norte-americano se mostra tão determinado a perpetuar a aura mítica de Godard que, ao abordar a montagem do filme de 1960 (que, sim, foi inovadora no uso dos cortes secos para criar elipses abruptas dentro de planos contínuos), traz o francês articulando esta abordagem formal como se tivesse sido um conceito teoricamente premeditado em vez de um acidente feliz originado da necessidade prática de reduzir significativamente a duração do filme para viabilizar sua distribuição comercial. (...) Podendo se dar ao luxo também de ignorar a falta de caráter de Godard, já que suas ações vis contra Truffaut e Varda ainda estavam no futuro, Linklater acaba por idealizar um homem que simplesmente não existia, ignorando as lições de seu outro longa de 2025, 'Blue Moon', que se enriquecia justamente graças à complexidade moral de seu protagonista".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "De Linklater pode-se dizer o que for (eu, em particular, nunca me entusiasmei demais com seus filmes), mas sempre esteve combatendo à sua maneira esse modo de ser da indústria. Por exemplo, quando filmou por dez anos a evolução de seu filho [referindo-se ao longa 'Boyhood - Da Infância à Juventude' (2014)]. Não é o único caso: o seriado inglês 'Adolescência' mostrou há pouco que é possível usar a tecnologia moderna para transmitir ao público sensações originais, uma aventura, de certa forma. O que 'Nouvelle Vague' sugere não é olhar para a nouvelle vague com uma lágrima nos olhos por conta de um passado tão rico, mas reencontrar um espírito capaz de novamente engajar o cinema na aventura da arte. Arte amadora, isto é, feita por amor. Não é tarefa fácil, mas também não é impossível".
O que eu achei: Quem gosta de cinema com certeza gostará de "Nouvelle Vague" (2025), uma produção franco-americana com direção de Richard Linklater. Todo filmado em P&B em escala 3:4, o filme nos conta a história do movimento cinematográfico Nouvelle Vague, que surgiu na França no final da década de 1950, impulsionado por jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma que decidiram virar diretores para romper com o cinema tradicional. Essa revista começou a ser publicada em 1951 e ainda existe. Quem a fundou foi o lendário teórico André Bazin junto com três sócios. Na redação figuravam nomes como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Éric Rohmer, que cansaram de apenas escrever sobre como o cinema deveria ser feito e decidiram provar na prática as suas próprias teorias. Essa transição de críticos para diretores foi um dos fenômenos mais fascinantes da história do cinema e aconteceu de forma muito natural e estratégica. Eles odiavam o ‘Cinéma de Papa’ (cinema dos pais), que eram produções francesas caras, cheias de diálogos literários e feitas dentro de estúdios fechados. Para eles, se um diretor de verdade era o dono da obra, eles precisavam assumir o controle total das câmeras. Como eram jovens e não tinham o apoio dos grandes estúdios, eles transformaram a falta de recursos em estilo e inovação utilizando câmeras leves nas ruas, luz do dia, equipes pequenas com poucos técnicos e atores amadores ou iniciantes e, em geral, fazendo capturas de imagem sem áudio que eram dubladas posteriormente. O primeiro deles que se aventurou foi Claude Chabrol, que usou uma herança de família para financiar “Nas Garras do Vício” (1958). Na sequência veio François Truffaut que pegou dinheiro emprestado do sogro e fez “Os Incompreendidos” (1959), um sucesso de bilheteria e crítica que trouxe o prestígio que o grupo precisava. Daí veio o Jean-Luc Godard que usou as sobras de rolos de filme de Truffaut para rodar “Acossado” (1960), quebrando todas as regras de montagem do cinema tradicional. O filme se debruça basicamente sobre os bastidores da produção de “Acossado” mostrando o jovem Godard improvisando os diálogos no próprio dia da gravação, usando carrinhos de supermercado ou cadeiras de rodas para fazer os travellings com a câmera ou tentando esconder o câmera man dentro de caixas para não chamar a atenção nas ruas e preservar a naturalidade das cenas. Vale a pena assistir “Acossado” antes de ver “Nouvelle Vague” pois vai ficar mais interessante ver Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg decorando as falas minutos antes das filmagens, bem como observar Jean Seberg desesperada, detestando a falta de organização e o estilo improvisado de Godard. Ela chegou a ligar para o marido dizendo que o filme seria um desastre completo e que a carreira dela estaria arruinada. Hoje sabemos que o resultado foi o contrário disso. Além do filme ser uma delícia de ver, vale prestar atenção na semelhança entre os atores escalados e os verdadeiros personagens da época. Com exceção da atriz norte-americana Zoey Deutch, que interpreta Jean Seberg, quase todo o elenco principal é composto por atores franceses jovens e praticamente desconhecidos do grande público. Super recomendo.

3.8.26

“Fantasia” – Joe Grant & Dick Huemer (EUA, 1940)

Sinopse:
Oito segmentos de músicas clássicas conduzidas pelo maestro Leopold Stokowsky são acompanhados de animações que mostram fadas, peixes, flores, cogumelos e folhas dançando, além do Mickey interpretando "O Aprendiz de Feiticeiro".
Comentário: Trata-se do filme número 86 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “O projeto de Walt Disney era ambicioso: unir animação e música erudita e ainda tentar recuperar a popularidade de seu personagem mais importante, Mickey Mouse, que havia perdido prestígio na década de 1930. A ideia inicial era um curta estrelado pelo rato, ‘O Aprendiz de Feiticeiro’. Acabou sendo expandida e se transformou em ‘Fantasia’, longa composto de oito segmentos independentes em que as animações são acompanhadas de obras-primas de Beethoven (‘Sexta Sinfonia’, também conhecida como ‘Pastoral’), Schubert (‘Ave Maria’) e Stravinsky (‘A Sagração da Primavera’), entre outros. A regência ficou a cargo do maestro inglês Leopold Stokowsky. As oito histórias são variadas. Vão desde a reinvenção das quatro estações do ano até a Teoria da Evolução, passando por mitos gregos, balé, demônios em noite de Halloween, uma procissão religiosa e as desventuras do aprendiz vivido por Mickey. Tanta ambição não foi suficiente para transformar o longa em sucesso, tendo sido considerado por crítica e público pretensioso e enfadonho, na época. O fracasso e o alto custo de produção sepultaram os planos dos Estúdios Disney de realizar um relançamento de ‘Fantasia’ a cada ano, trazendo sempre uma nova sequência. O filme foi o primeiro da história a utilizar tecnologia estereofônica - em que o som é dividido por canais. Foi lançada uma nova versão em 1999, intitulada ‘Fantasia/2000’”.
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de assistir os 100 filmes Essenciais listados pela Revista Bravo! em 2007, desta vez conferi “Fantasia” (1940) no qual Walt Disney une animação com música erudita. São 8 segmentos distintos, todos conduzidos pelo maestro Leopold Stokowsky, que também apresenta e explica cada um deles. O primeiro é a “Tocata e Fuga em Ré Menor” (Bach). É o mais fraco de todos pois a animação é composta apenas por formas, linhas e cores abstratas que acompanham o ritmo e a melodia da orquestra. O segundo é a “Suíte Quebra-Nozes” (Tchaikovsky) que possui uma animação delicada composta por fadas, cogumelos dançantes, flores e peixes que celebram as estações do ano. O terceiro é “O Aprendiz de Feiticeiro” (Paul Dukas), o único que conta com um personagem da Disney - o Mickey Mouse - interpretando o jovem aprendiz que tenta usar a magia de seu mestre para não precisar carregar baldes d'água, perdendo o controle da situação. O quarto é “A Sagração da Primavera” (Stravinsky) cuja animação mostra uma visão científica sobre a criação da Terra, a evolução da vida primitiva e a ascensão e extinção dos dinossauros. O quinto é um pouco diferente: é uma espécie de interlúdio onde os músicos apresentam um rápido improviso de jazz seguido do narrador interagindo diretamente com a própria representação visual do som: a 'trilha sonora'. O sexto - “Sinfonia Pastoral” (Beethoven) – mostra um cenário mitológico grego com centauros, pégasos, faunos e o deus Baco, interrompido por uma tempestade causada por Júpiter. O sétimo apresenta “Dança das Horas” (Amilcare Ponchielli) da ópera “Gioconda”. É o melhor de todos. A animação é uma sátira bem-humorada do balé clássico executada por avestruzes, hipopótamos, elefantes e jacarés. E, por fim, o oitavo segmento, apresenta “A Noite no Monte Calvo” (Modest Mussorgsky) seguido de “Ave Maria” (Franz Schubert). A animação começa mostrando o demônio Chernabog convocando os maus espíritos nas trevas. O som dos sinos da alvorada dissipa a escuridão, dando lugar a uma procissão de fiéis com tochas, simbolizando a vitória da luz sobre as trevas. O longa dura pouco mais de 2hs e, como disse a Revista Bravo!, é enfadonho e foi um fracasso de bilheteria. Está na lista de ‘essenciais’ apenas porquê foi o primeiro da história a utilizar tecnologia estereofônica. Terminei de ver me perguntando a que público ele se destina, já que o conteúdo de alguns segmentos não é indicado para crianças (o demônio é assustador, as almas penadas também, as abstrações não devem despertar interesse). Aparentemente a ideia era atingir um público mais maduro e intelectualizado, apreciador de música erudita, mas algumas animações são extremamente infantis (como a do Mickey sendo aprendiz de feiticeiro ou outras com fadas fofas e casais de cavalinhos). Concluí que ele acaba não agradando público nenhum. Nem sei como em 1999 lançaram uma nova versão chamada “Fantasia 2000”. Com certeza não pretendo ver.

2.8.26

“Jovens Mães” – Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne (Bélgica/França, 2025)

Sinopse:
Jessica (Babette Verbeek), Perla (Lucie Laruelle), Julia (Elsa Houben), Ariane (Janaïna Halloy Fokan) e Naïma (Samia Hilmi) estão vivendo em um abrigo para jovens mães. Cinco adolescentes que esperam uma vida melhor para si e para seus bebês.
Comentário: Jean-Pierre Dardenne (1951) e Luc Dardenne (1954) são dois irmãos belgas diretores, produtores e roteiristas. Assisti deles os excelentes "A Criança" (2005) e "Dois Dias, Uma Noite" (2014), os bons "O Garoto da Bicicleta" (2011), "O Jovem Ahmed" (2019) e “Tori e Lokita” (2022) e o mediano “A Garota Desconhecida” (2016). Desta vez vou conferir “Jovens Mães” (2025).
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Existem dois tipos de cineastas: aqueles que você assiste esperando ser surpreendido e aqueles que você já sabe muito bem o que vai encontrar quando os assiste. Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne fazem parte do segundo grupo. Ao longo de mais de quatro décadas, eles construíram um cinema reconhecível, marcado por temas sociais urgentes, proximidade com personagens invisibilizados e pela atenção aos gestos cotidianos. Em ‘Jovens Mães’, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes deste ano e exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, os irmãos seguem fielmente essa linha, oferecendo um retrato sensível da maternidade precoce em um abrigo belga.
O foco da história recai sobre Jessica (Babette Verbeek), Perla (Lucie Laruelle), Julia (Elsa Houben), Ariane (Janaïna Halloy Fokan) e Naïma (Samia Hilmi), cinco adolescentes que buscam uma vida melhor para si e para seus bebês. Cada uma lida com desafios diferentes: amores não correspondidos, medo de repetir os erros das próprias mães, ausência do provedor da criança ou da família, rejeição materna, ou dependência de drogas. Entre decisões difíceis e afeto, essas jovens tentam aprender a cuidar de seus filhos sendo que elas mesmas nunca receberam os mesmos cuidados.
A câmera dos Dardenne permanece próxima, inquieta, respirando junto das personagens. É um cinema que prefere as pequenas expressões às grandes lições morais e redenções. O abrigo onde vivem funciona como um raro espaço de respiro, sustentado por políticas públicas que contrastam com realidades de países ainda travados em debates sobre aborto e autonomia feminina. Dentro desse microcosmo, a ternura parece ter encontrado seu último refúgio. O abrigo torna-se, ao mesmo tempo, casa e escola - o lar que muitas nunca tiveram. Cada atitude e movimento dessas jovens é uma tentativa de romper um ciclo de ausências. O olhar dos diretores é compreensivo, sem julgamentos, reconhecendo a humanidade de escolhas que surgem de uma realidade para a qual elas não estavam preparadas.
O que é curioso sobre ‘Jovens Mães’ é que, apesar do cartaz trazer as cinco adolescentes lado a lado com seus bebês, em uma espécie de confraternização, essa imagem jamais se concretiza na trama. Trata-se de uma promessa de comunhão que o roteiro apenas sugere, mas nunca cumpre por completo. A interação entre as jovens é mínima, e talvez seja esse o único demérito do longa: apesar das garotas conviverem nesse abrigo, são poucas as cenas em que elas se encontram - cada uma delas está ocupada demais lidando com os seus dramas particulares.
Nos raros momentos em que uma estende a mão à outra, surgem cenas de ternura genuína - pequenas demonstrações de cuidado que cativam por revelar, em tela, uma sororidade discreta, um lampejo de família possível dentro do abrigo. São instantes que contrapõem, ainda que brevemente, o isolamento emocional que marca suas trajetórias. É como se o filme quisesse registrar não a força coletiva dessas jovens, mas a solidão que as atravessa, o esforço íntimo de quem tenta aprender, pouco a pouco, como tomar a decisão mais importante de suas vidas: ficar com a criança ou não.
Ao fim, ‘Jovens Mães’ pode parecer menor na filmografia dos Dardenne, mas ao abrir mão de grandes reviravoltas e continuar fazendo o cinema social que marcou suas carreiras, eles permitem que pequenos atos nos revelem o essencial: um presente singelo que tira um sorriso honesto, um abraço com lágrimas há muito tempo guardadas, um pedido de desculpas sincero, uma nova chance. É um filme delicado, sensível e próximo do real, que reforça como os irmãos continuam encontrando humanidade em lugares invisíveis da sociedade”.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Afinal, os Dardenne não estão dispostos a tomar nenhum risco? Não pretendem se aventurar por recursos distintos, menos naturalistas, mais poéticos, intervencionistas, alegóricos? Afinal, suas novas investidas se provam polidas, competentes, porém, incapazes de qualquer surpresa junto ao cinéfilo com mínimo conhecido do percurso dos criadores. O projeto mais recente é bom, sem dúvida — assim como todos os outros. No entanto, quando os filmes começam a se equivaler, e se intercambiar em nossa memória, toca o sinal de alerta. Os grandes autores, rigidamente idênticos a si próprios, estão perdendo a força do gesto”.
O que disse a crítica 2: Mauricio Ribeiro do site Spoiler Movies avaliou com 3,25 estrelas, algo entre bom e muito bom. Escreveu: “Ao final, como toda denúncia eficaz, tal cinema pode ser incômodo, imperfeito, até frustrante, mas ame ou deixe, permanece necessário. Em tempos de apagamento social sistemático, os irmãos Dardenne seguem fazendo o que sempre fizeram (e importa): um cinema como ato político, sem ornamento, sem álibi, sem desculpas”.
O que eu achei: Quando vi o primeiro anúncio desse filme achei que seria um documentário, mas não. Trata-se de um filme do gênero drama dos irmãos Dardenne, famosos pelo seu cinema social. Este foca na história de cinco meninas, todas engravidaram prematuramente e estão desamparadas, seja porque o pai da criança sumiu, a família abandonou, seja porque não tem onde morar e por aí afora. O que elas têm em comum - além da falta de apoio e da gravidez - é que todas elas foram acolhidas por um abrigo estatal e estão lutando com seus fantasmas. Achei muito interessante o serviço oferecido. Li que, de fato, na Bélgica, existem essas ‘maisons maternelles’ (casas maternais) ou ‘centres d'accueil pour mères et enfants’ (abrigos para mães e filhos). O filme foi diretamente inspirado por uma instituição real localizada próxima à cidade de Liège. O local serviu tanto como laboratório de pesquisa quanto de cenário para as gravações da produção. Li que esses centros são estruturas de acolhimento regulamentadas e subsidiadas pelo governo belga. O principal objetivo é amparar gestantes e mães solo - sejam elas menores ou maiores de idade - que enfrentam extrema vulnerabilidade social, isolamento ou violência doméstica. Funcionam como alojamentos temporários onde as mães podem residir de forma segura com seus bebês. Áreas comuns como cozinhas, lavanderias e brinquedotecas estimulam a interação e a criação de redes de apoio mútuo entre as residentes. Além disso elas contam com um suporte multidisciplinar, uma rede formada por educadores sociais, psicólogos e assistentes sociais que trabalham no local 24hs por dia. O filme mostra muito bem como o foco dessas casas não é apenas o assistencialismo, mas sim servir como um trampolim para que a jovem mãe aprenda cuidados parentais, organize suas finanças, encontre creches e consiga uma moradia definitiva fora das instituições. Ao retratar essa dinâmica entre as meninas e a instituição, o filme captura com precisão a dualidade dessas instituições: ao mesmo tempo em que funcionam como um ambiente protetor, as regras rígidas, a convivência forçada e a vigilância institucional constante criam pressões psicológicas profundas sobre as adolescentes que ainda estão descobrindo a própria identidade enquanto precisam aprender a cuidar de uma nova vida. Fiquei curiosa em saber se no Brasil teríamos esse tipo de serviço e, para minha surpresa li que sim. No contexto brasileiro, o acolhimento de adolescentes grávidas ou jovens mães com seus bebês acontece por meio de duas frentes principais: o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e iniciativas do Terceiro Setor, como ONGs e projetos filantrópicos. Embora a proposta teórica de proteção e busca por autonomia do Brasil e da Bélgica seja semelhante, a realidade prática no Brasil enfrenta grandes gargalos, até pelo tamanho do nosso país. Enquanto na Bélgica o fluxo de triagem e encaminhamento para as maisons maternelles é altamente universalizado, no Brasil as vagas em abrigos especializados para mães e filhos são escassas e concentradas em grandes capitais. Outra questão é a falta de unificação: no Brasil, as frentes de atuação batem cabeça com frequência. Uma jovem grávida pode acabar em um abrigo comum de moradores de rua ou em um abrigo de menores tradicional. Dentro da filmografia dos Dardenne é uma obra menor, que repete fórmulas sem o mesmo impacto do passado. Muitos críticos apontam o longa como uma versão ‘no piloto automático’ do que eles já fizeram melhor anteriormente. Mas ainda assim é um bom filme que mostra com respeito e dignidade seus personagens, evitando o melodrama barato e o sentimentalismo forçado. Não é um documentário, todas as meninas são atrizes, mas tem aquela naturalidade quase documental que eles fazem tão bem.

1.8.26

"O Botão de Pérola" - Patricio Guzmán (Chile/França/Espanha/Suiça, 2015)

Sinopse:
O oceano contém a história de toda a humanidade. No mar estão as vozes da Terra e de todo o espaço. A água, fronteira mais longa do Chile, também esconde o segredo de dois misteriosos botões encontrados no fundo do mar. Com mais de 4 mil km de costa e o maior arquipélago do mundo, o Chile apresenta uma paisagem sobrenatural, com vulcões, montanhas e glaciares. Nessa paisagem estão as vozes da população indígena da Patagônia, dos primeiros navegadores ingleses que chegaram ao país, e também a voz dos presos políticos chilenos. Alguns dizem que a água tem memória. Este filme mostra que ela também tem voz.
Comentário: Patricio Guzmán (1941) é um diretor de cinema chileno, especializado em documentários. Assisti dele os excelentes "Nostalgia da Luz" (2010), sobre duas buscas diferentes realizadas no deserto chileno do Atacama: uma por astrônomos à procura de respostas sobre a história do cosmos e outra por mulheres à procura dos restos mortais de entes queridos mortos pelo regime de Pinochet e "A Cordilheira dos Sonhos" (2019) sobre os mistérios da Cordilheira dos Andes, revelando poderosas informações sobre o passado e o presente do Chile. Desta vez vou conferir "O Botão de Pérola" (2015).
Eduardo Escorel da Revista Piauí publicou: "Apesar do intervalo de cinco anos que separa as estreias de 'Nostalgia da Luz', em 2010, e de 'O Botão de Pérola', em 2015, os dois filmes de Patricio Guzmán deveriam ser exibidos em programa duplo e assistidos obrigatoriamente um após o outro, pois formam um díptico sobre a busca dos cerca de 3 mil desaparecidos políticos chilenos, vítimas da ditadura chefiada pelo general Augusto Pinochet que perdurou quase dezessete anos, de 1973 a 1990. (...)
Transcorridos mais de trinta anos desde que Guzmán concluiu, em 1979, 'A Batalha do Chile', seu primeiro documentário de repercussão internacional, ele foi capaz de se reinventar como cineasta, passando da militância quente da mocidade à reflexão madura de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola'. (...)
Os fatos que dão origem a 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' decorrem do desfecho político documentado em 'A Batalha do Chile' – durante a ditadura militar, milhares de presos políticos são assassinados, seus corpos enterrados ou lançados ao mar, alguns desenterrados depois e levados para lugares desconhecidos na tentativa de impedir que fossem encontrados. Entre os presos e desaparecidos está Jorge Müller, diretor de fotografia e câmera de 'A Batalha do Chile'. O país deixara de ser o 'remanso de paz, isolado do mundo' que fora durante a infância e juventude de Guzmán, conforme ele mesmo diz na narração inicial de 'Nostalgia da Luz'.
Graças à sua antiga paixão pela astronomia e à experiência de vida adquirida, ao tratar em 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' do trauma coletivo do Chile, país no qual além dos desaparecidos há cerca de 60 mil ex-torturados, Guzmán foi capaz de articular o passado com o tempo presente, dominante em 'A Batalha do Chile'. Aprendera que 'nada se vê no instante em que é visto', como diz o astrônomo Gaspar Galaz, em 'Nostalgia da Luz'.
'O presente não existe', prossegue Galaz. 'Ou seja, o único presente que existe, se é que existe, é o que eu tenho na minha mente. Minha consciência é o que mais se aproxima do presente absoluto. E talvez nem mesmo isso seja verdade, porque quando penso o sinal demora a se deslocar entre meus sentidos. O passado, eu creio, é a grande ferramenta do astrônomo. (...) Balizado por paradigmas da astronomia, arqueologia, geologia e história, Guzmán dedica o terço inicial de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' à apresentação dessas referências, recorrendo na narração a metáforas para iluminar suas formulações. (...)
A estrutura narrativa de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' arrodeia em espiral o tema central dos dois filmes – a busca de vestígios humanos de prisioneiros políticos assassinados –, cerrando passo a passo o foco da reflexão e produzindo dessa maneira efeito dramático impactante. (...)
Segundo Guzmán, 'O Botão de Pérola' foi concebido a partir da associação entre o botão encontrado em um dos trilhos usados para assegurar que os corpos afundassem, ficando ancorados no mundo do mar, e a história de Jemmy Button, nativo de ilhas ao redor do arquipélago da Terra do Fogo, que teria sido comprado dos pais pelo preço de um botão de madrepérola e levado pelo capitão FitzRoy para a Inglaterra, em 1830, para ser civilizado. Button tornou-se uma celebridade, mas depois de um ano retornou à sua terra natal no Beagle que levava Charles Darwin em sua famosa viagem, abandonou rapidamente roupas e hábitos europeus que havia adquirido e recusou a oferta para voltar mais uma vez à Inglaterra. (...)
Para Guzmán, o Chile é 'um país que não trabalha seu passado. Está estagnado em um golpe de Estado que ainda o mantém imobilizado, de certo modo'. O arqueólogo Lautaro Núñez, entrevistado em 'Nostalgia da Luz', diz compartilhar dessa visão: 'É um paradoxo. O passado mais recente nós o encapsulamos. É um paradoxo enorme. (...) Não fizemos absolutamente nada para compreender por que, no século XIX, foram produzidos esses modelos econômicos vertiginosos como o do salitre, do qual não restou nada. Então… nossas histórias mais próximas, nós as mantivemos escondidas, nós as mascaramos. Há como um contrassenso. Como se não quiséssemos nos aproximar dessa pré-história próxima, como se ela fosse quase uma pré-história acusatória. E isso, estimado amigo, não serve. Não serve para ninguém. Nem à direita, nem ao centro, nem à esquerda'.”
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Adoro Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Os comentários políticos, filosóficos e geográficos do diretor são valiosos. É notável ver como ele consegue articular conhecimentos tão diferentes, de maneira fluida. Talvez as imagens não sejam tão belas quanto os planos desérticos de 'Nostalgia da Luz', e é possível que o conjunto não apresente a mesma sensação de novidade, por reproduzir a mecânica do documentário precedente, mas ainda assim a obra é muito acima da média. O que prejudica o ritmo desta exposição é a narração em off, feita pelo próprio diretor. Guzmán adota novamente um tom professoral e ex-tre-ma-men-te ar-ti-cu-la-do, como se estivesse explicando para crianças com dificuldade de cognição. A monotonia do filme não deve contribuir para seu sucesso, nem no circuito de arte. Apesar do teor arrastado e didático, vale fazer um esforço para assimilar o rico pensamento interdisciplinar do diretor".
O que disse a crítica 2: Geoffrey Macnab do site Independent (UK) avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "O documentário de Patricio Guzmán, em formato de ensaio, é enganoso, mas profundamente comovente. Começa de forma mística, com reflexões sobre um bloco de quartzo de 3.000 anos descoberto no deserto chileno, que contém uma gota d'água em seu interior. (...) Em seguida, entra a política. O filme apresenta um relato sombrio de como os povos indígenas foram caçados pelos colonizadores. Depois, Guzmán aborda a queda do presidente Allende e os anos de Pinochet, durante os quais os opositores do regime foram presos, torturados, assassinados e jogados de helicópteros ao mar. Então, as reflexões sobre o cosmos são esquecidas quando o diretor aborda de forma muito direta atrocidades que muitos chilenos prefeririam esquecer".
O que eu achei: Após assistir os tocantes "Nostalgia da Luz" (2010) e "A Cordilheira dos Sonhos" (2019) do diretor chileno Patricio Guzmán, faltava completar a trilogia vendo "O Botão de Pérola" (2015), cuja oportunidade surgiu agora com o ingresso dele no site do SESC Digital. “O Botão de Pérola” é igualmente tocante. É documental, mas tem aquela pegada poética que só almas muito delicadas seriam capazes de produzir. O título conecta dois episódios trágicos do Chile por meio do oceano. O primeiro, ocorrido em 1830, faz referência a Jemmy Button (cujo nome real era Orundellico, esse Botton só está aí por causa do botão), um nativo de um arquipélago que fica no extremo sul da região patagônica chamado Terra do Fogo que, em 1830, foi ‘comprado’ por um desbravador inglês em troca de um simples botão de madrepérola. Ele levou esse nativo para a Inglaterra a fim dele viver temporariamente como um ‘civilizado inglês’ e em 1833 trouxe o rapaz de volta devolvendo-o à comunidade. Orundellico passou por um choque cultural profundo e não agiu como um missionário civilizador como esperavam, mas o episódio abriu as portas para o extermínio indígena. O outro episódio trágico refere-se a um botão de camisa, também de madrepérola, encontrado por mergulhadores, que estava incrustado num trilho de trem encontrado no fundo do mar. Esses trilhos eram usados para afundar os corpos dos opositores políticos de Pinochet. Eles eram jogados no mar pelos helicópteros com a finalidade de desaparecerem. O diretor usa a imagem dos botões, ambos encontrados na mesma região do país, para conectar crimes distantes por mais de um século, transformando o objeto em uma testemunha silenciosa da história chilena, como se a imensa costa do Chile e a água do oceano fossem um grande arquivo de memória. Interessante observar que em cada um desses documentários, Guzmán aborda elementos naturais. O primeiro - “Nostalgia da Luz” (2010) - aborda a Terra e o Cosmos. Gravado no Deserto do Atacama, ele mostra astrônomos olhando para o Céu com seus potentes telescópios para buscar a luz do passado do universo, enquanto um grupo de mulheres (mães e esposas) olham para a Terra em busca dos restos mortais de seus parentes desaparecidos na ditadura e ali enterrados. O segundo - que é este - fala da Água. Guzmán parte do fato de que o Chile possui uma costa marítima gigantesca para explorar o mar como testemunha da história. A água é apresentada como a antiga estrada dos indígenas nômades da Patagônia e, posteriormente, como o cemitério secreto onde o regime militar despejava os corpos dos opositores. E por fim - em “A Cordilheira dos Sonhos” (2019) - ele utiliza A Pedra e a Rocha para investigar a imensa Cordilheira dos Andes, que serve como uma muralha natural que isola o Chile do resto do mundo. Aqui, a montanha de pedra é tratada como uma testemunha silenciosa e imutável que assistiu de perto a todo o isolamento político, à violência do regime militar e à posterior guinada neoliberal do país. Do micro ao macro, Patricio Guzmán é um desses documentaristas que possui uma linguagem cinematográfica única, tipo um ensaio poético-filosófico. Seus filmes passam longe da abordagem tradicional, meramente jornalística, militante ou de denúncia. Ele eleva a dor histórica a uma escala cósmica e existencial como nenhum outro. Imperdíveis todos.

27.7.26

“Sobre Cavalos e Homens” - Benedikt Erlingsson (Islândia/Alemanha/Noruega, 2013)

Sinopse:
 Em um vale isolado da Islândia, a vida da pequena comunidade gira em torno dos cavalos. Por meio de uma série de histórias interligadas, o filme acompanha homens, mulheres e seus animais em situações diversas.
Comentário: Benedikt Erlingsson (1969) é um ator e diretor de teatro e cinema islandês. Ele dirigiu dois longas-metragens - “Sobre Cavalos e Homens” (2013) e “Um Mulher em Guerra” (2018 - ambos vencedores do Prêmio de Cinema do Conselho Nórdico. “Sobre Cavalos e Homens” (2013) é o primeiro filme que vejo dele.
Hernandes Matias Junior do site Românticos Radicais publicou “O cineasta islandês Benedikt Erlingsson nos transporta para as paisagens geladas e grandiosas da Islândia rural, tecendo uma série de vinhetas interligadas que revelam a complexa relação entre o homem e o cavalo. A narrativa se desenrola através de diversos episódios, cada um focado em um morador de uma pequena comunidade e seu vínculo, por vezes terno, por vezes brutal, com os animais que são tanto parceiros de trabalho quanto símbolos de orgulho e status. Desde o drama de um cavaleiro cuja égua o humilha publicamente, até a saga de um homem que busca uma égua perdida cruzando mares, a obra desvela as idiossincrasias e as paixões que movem esses indivíduos em um ambiente onde a natureza dita as regras.
A película de Erlingsson distingue-se por sua capacidade de fundir o sublime e o ridículo, o trágico e o cômico, sem jamais suavizar a crueza da existência. Os cavalos, mais do que simples coadjuvantes, emergem como seres de dignidade própria, suas interações com os humanos muitas vezes refletindo e magnificando a própria condição humana em sua forma mais crua. Há uma observação perspicaz sobre a hierarquia social local, as disputas por território e afeto, e os rituais que cimentam (ou fraturam) a comunidade. A beleza estonteante da paisagem islandesa serve como um pano de fundo implacável, lembrando-nos constantemente da força indomável do ambiente.
A genialidade de ‘Sobre Cavalos e Homens’ reside na sua abordagem direta, quase documental, mas imbuída de uma sensibilidade que capta a essência da vida em sua dimensão mais primordial. Não há floreios narrativos desnecessários; a câmera registra os eventos com uma clareza desarmante, permitindo que a comédia surja do absurdo das situações e que a tragédia se instale sem aviso. A película explora como os impulsos mais básicos – amor, ciúme, fúria, lealdade – se manifestam em um cotidiano moldado pela proximidade com a vida selvagem. É um exame sem julgamento da interdependência entre as espécies, onde a sobrevivência e a honra são guiadas por uma lógica que transcende as convenções urbanas. A obra celebra uma forma de vida em que a natureza selvagem e os instintos animais persistem, definindo as ações e o destino de seus habitantes”.
O que disse a crítica 1: Peter Bradshaw do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Erlingsson se aproxima dos cavalos de uma forma íntima e pessoal, de uma maneira sincera e romântica, em vez de erótica ou irônica; em particular, ele utiliza (...) planos fechados que permitem apreciar a textura e a sensação da pele do animal – claramente o trabalho de um conhecedor. É uma história de amor sobre cavalos, com cavalos, quase como um filme mudo com palavras. Os cavalos são a linguagem que permite aos personagens humanos se comunicarem. Este filme merece seu status de cult”.
O que disse a crítica 2: Camilla Møhring Reestorff do site Lola também gostou. Escreveu: “Isso pode parecer uma narrativa simples, trágica e cômica sobre a preservação da natureza e dos cavalos islandeses, mas é um reflexo mais complexo da conectividade global”.
O que eu achei: Que filme lindo este “Sobre Cavalos e Homens” (2013) do Benedikt Erlingsson! Ele mostra uma pequena comunidade na Islândia que tem uma ligação profunda com os cavalos, contando diferentes histórias dos moradores desse vale que se misturam umas com as outras. Dentre as tramas há um cortejo de um homem que vai visitar uma viúva por quem está interessado e a visita é interrompida por um cavalo que resolve cruzar com uma égua; um alcoólatra que resolve fazer seu cavalo nadar pelo mar congelante apenas para comprar álcool de um marinheiro; uma guerra entre vizinhos por conta da instalação de arames farpados que bloqueia rotas de cavalgada antigas; um turista perdido na nevasca e outras diversas. Todas contadas através de uma observação antropológica, com um humor peculiar e cenas viscerais que retratam amor, morte e a natureza selvagem, muitas vezes através dos olhos dos próprios equinos. Além das histórias gostosas de acompanhar, a fotografia é um deslumbre pois mostra a exuberante paisagem local recheada com esses lindos cavalos islandeses, resultando numa combinação de encher os olhos. A última cena que mostra a reunião do outono é maravilhosa pois retrata o tradicional round-up anual, conhecido na Islândia como Réttir. É o momento em que toda a comunidade se junta para reunir os cavalos que passaram o verão soltos nas montanhas, misturando homens e animais em um grande clímax visual. Li que o diretor, apesar de ter origem urbana – ele nasceu e cresceu em Reykjavík - é um apaixonado criador de cavalos islandeses e frequenta o meio rural desde a infância. Ele próprio define o filme como uma colagem de ‘histórias de bastidores’ que ouviu ou testemunhou ao longo de décadas frequentando fazendas e conversando com fazendeiros locais. Apesar disso, os moradores retratados no filme não são pessoas comuns daquela região, mas sim um elenco composto por atores profissionais, sendo que quase todos já sabiam andar a cavalo perfeitamente, o que é muito comum na cultura do país. O resultado é fruto de uma observação afiada de alguém que conhece intimamente os costumes daquela comunidade, mas que mantém o distanciamento necessário para satirizar suas excentricidades. Quem tiver interesse em ver pode procurar o longa pelo seu título original – “Hross í oss” – ou buscar por nomes como “Horses and Men”, “Cavalos e Homens”, “Sobre Cavalos e Homens” ou mesmo “Corações de Cavalos”. Um filme marcante e digno de aplausos. Excelente.

26.7.26

“A História do Som” - Oliver Hermanus (EUA/Reino Unido/Suécia/Itália, 2025)

Sinopse:
Em 1917, um jovem e talentoso estudante de música chamado Lionel (Paul Mescal) conhece David (Josh O'Connor) no Conservatório de Boston, onde eles se aproximam pelo profundo amor que compartilham pela música folk popular. Anos depois, Lionel recebe uma carta de David, que os leva a uma viagem improvisada pelo interior do Maine para coletar canções folk tradicionais.
Comentário: Oliver Hermanus (1983) é um cineasta e escritor sul-africano. Ele estreou em longas-metragens com “Shirley Adams” (2009). “Beleza” (2011) fez sua première mundial na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes e ganhou a Queer Palm. Assisti dele apenas o mediano “Viver” (2022). Desta vez vou conferir “A História do Som” (2025).
Jonathan Wright do site History Extra publicou: “No início do século XX, munidos de equipamentos de gravação inovadores, folcloristas e etnomusicólogos partiram em expedições de coleta de canções pelos Estados Unidos. Seu trabalho documentou músicas que, de outra forma, poderiam ter se perdido ou se alterado ao longo das gerações. Jonathan Wright analisa esse trabalho e conversa com Oliver Hermanus, diretor de ‘A História do Som’, sobre as inspirações da história real que nortearam o filme.
O romance de época ‘A História do Som’ centra-se na relação entre dois músicos, Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O'Connor). A dupla inicia um caso no Conservatório de Música da Nova Inglaterra em 1917, mas as suas vidas divergem com a entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial. David é convocado para lutar na Frente Ocidental. Lionel, cuja visão deficiente o impede de servir no exército, regressa à modesta quinta da sua família no Kentucky.
Após o conflito, os homens se reencontram para uma viagem pelo Maine, visitando casas rurais para gravar canções folclóricas em cilindros de cera para fonógrafo – às vezes chamados de cilindros Edison, em homenagem ao inventor Thomas Edison (1847–1931). (...) O drama também aborda questões de classe, repressão, oportunidades perdidas, luto e a maneira como todos nós viajamos no tempo através de nossas próprias histórias pessoais, de modo que, para citar o diretor Oliver Hermanus, às vezes nos encontramos ‘tendo conversas do passado em nossas cabeças’.
A veracidade emocional do drama é sustentada pela pesquisa dos cineastas sobre o início do século XX – e, mais especificamente, sobre o trabalho daquelas almas corajosas que se propuseram a documentar a música tradicional que ouviam em barracos, varandas e ao redor de fogueiras.
Mas será que ‘A História do Som’ é baseada em fatos reais? E Lionel e David existiram de verdade?
Não, ‘A História do Som’ não é uma história verídica – é baseada no conto homônimo de Ben Shattuck, de 2018 – no entanto, Lionel, interpretado por Paul Mescal, e David, interpretado por Josh O'Connor, são figuras historicamente plausíveis, apesar de ambos serem personagens fictícios. A partir do século XIX, homens e mulheres de ambos os lados do Atlântico ficaram fascinados pela tradição folclórica e se dedicaram a catalogar canções, primeiro compilando letras e anotando melodias, e mais tarde fazendo gravações.
E quem eram esses pesquisadores da vida real?
No Reino Unido, o nome mais importante na área foi Cecil Sharp (1859–1924). Entre suas muitas realizações, Sharp, entusiasta da dança Morris, foi cofundador da Sociedade Inglesa de Dança Folclórica. Esta, posteriormente, fundiu-se com a Sociedade de Canções Folclóricas para formar a Sociedade Inglesa de Dança e Canções Folclóricas (EFDSS), sediada na Cecil Sharp House em Camden, Londres, que permanece um centro para aqueles que pesquisam música folclórica. Sharp também coletou canções nos Estados Unidos, nas Montanhas Apalaches. No entanto, é a família Lomax que está mais associada à coleta de canções nos EUA. Foi John Lomax (1867–1948) quem trouxe Lead Belly (1889–1949) à atenção do público em geral, após ouvir a lenda do folk-blues durante uma visita à Penitenciária Estadual da Louisiana, uma prisão notória mais conhecida como Angola. Lomax foi uma figura fundamental na criação do Arquivo de Canções Folclóricas Americanas (Airfile of American Folk Song), a primeira coleção nacional de música folclórica do país. Os filhos de John, Alan (1915–2002), John Jr. (1907–74) e Bess Lomax Hawes (1921–2009), também foram folcloristas importantes. Alguns colecionadores americanos se especializaram em locais específicos. Vários nomes estão particularmente associados ao Maine, onde David e Lionel coletam material em ‘A História do Som. Entre eles, Fannie Hardy Eckstorm (1865–1946), que documentou a música e a cultura dos trabalhadores e dos nativos americanos Penobscot, e o pioneiro das gravações de campo Robert Winslow Gordon (1888–1961), nascido em Bangor, Maine, e o primeiro diretor do Arquivo de Canções Folclóricas Americanas.
Por que esse trabalho foi importante?
Gerações de músicos se beneficiaram de seu trabalho. O que ficou conhecido como o Renascimento da Música Folk Americana começou na década de 1940. Além de Lead Belly, figuras importantes do início desse movimento incluem Woody Guthrie (1912–67), que em 1940 escreveu ‘This Land is Your Land’ como uma resposta ao que ele considerava o patriotismo exacerbado de ‘God Bless America’, de Irving Berlin, e o incansável ativista Pete Seeger (1919–2014). Muitas figuras do movimento de revitalização musical estavam associadas à política de esquerda. Os violões de Guthrie, na década de 1940, traziam a inscrição: ‘Esta máquina mata fascistas’. Seeger entrou para a lista negra durante a era McCarthy. Na década de 1960, outra geração assumiu o legado, que havia sido metaforicamente deixado nos cafés de Manhattan. Talvez seja um exagero sugerir que, sem os colecionadores de canções, não teríamos tido Joan Baez ou Bob Dylan, mas as carreiras desses artistas, e nossa história cultural compartilhada, teriam sido muito diferentes”.
O que disse a crítica 1: Diego Souza Carlos do site Adoro Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Ainda que o filme não se decida entre o relacionamento dos garotos, a função deles em meio ao período histórico e as reverberações da música dentro e fora de suas vidas, ‘A História do Som’ fica no caminho dos quereres. A intenção está ali, mas há um sentimento constante de distanciamento entre os objetos temáticos e os personagens. Assim como Lionel parece estar sempre em busca de si mesmo, o longa acompanha o protagonista numa crise com sons tão encantadores quanto passageiros”.
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “Os atores estão muito dedicados aos seus papéis. Existe certo encantamento em encontrar dois dos nomes mais importantes da nova geração, juntos, no ápice de sua forma, em composições avessas ao sentimentalismo fácil. Nenhum dos dois se entrega a ‘cenas de Oscar’: apesar de inúmeros motivos para chorarem, e se fervilharem de amor, eles mantêm uma aparência serena ao longo desta jornada transformadora. (Este foi mais um motivo, aliás, para se alegar indiferença por parte da direção). No único choro digno deste nome, a câmera se afasta, deixando o ator se expressar de maneira quase imperceptível ao espectador. Nunca somos convidados a temer por eles, ou nos apiedar sobre eles. ‘A História do Som’ constitui praticamente o anti-‘O Segredo de Brokeback Mountain’ dos amores campestres entre sujeitos enrustidos. Onde o filme de Ang Lee era pura catarse, Hermanus deixa o grito preso na garganta”.
O que eu achei: O longa conta a história de Lionel (Paul Mescal), um menino que morava com seus pais numa fazenda em Kentucky, nos EUA, cujo pai tinha o hábito de cantar canções tradicionais e folclóricas da região enquanto trabalhava ou cuidava dele. Seu pai foi o primeiro a notar que Lionel tinha um ‘dom de Deus’: a capacidade cinestésica de enxergar os sons em cores, cheiros e formas. Ele incentivou a sensibilidade musical do filho desde cedo fazendo com que, anos mais tarde, Lionel ingressasse no prestigiado Conservatório de Música de Boston para estudar canto. É num bar frequentado pelos alunos que ele conhece David (Josh O'Connor) com quem ele inicia um pequeno romance. Ocorre que anos mais tarde David consegue um emprego em uma universidade e escreve uma carta para Lionel convidando-o para se juntar a ele em um projeto de pesquisa financiado pela instituição. Equipados com um fonógrafo Edison e cilindros de cera, eles partem numa viagem para registrar as vozes e canções tradicionais das comunidades locais. Meu interesse por esse filme veio mais por conta desse projeto do que pela história de amor. Os tais cilindros de cera - desenvolvidos por Thomas Edison - foram a primeira mídia comercial do mundo capaz de registrar e reproduzir o som humano de forma prática. No período em que o filme se passa (1919), era o que existia para fazer gravações de campo. Apesar do filme ser uma história fictícia, podemos ter uma ideia de como se dava essa prática de coleta de canções que deu início à etnomusicologia. Na vida real, pesquisadores faziam justamente isso: levavam o fonógrafo e os cilindros para locais isolados e registravam canções folclóricas de tradição oral. Era uma corrida contra o tempo para salvar a cultura popular e as vozes de comunidades rurais antes que fossem apagadas pela modernidade e pela urbanização pós-Primeira Guerra. Dentre folcloristas de renome podemos citar Cecil Sharp, John Lomax, seus filhos Alan, John Jr. e Bess Lomax Hawes, Fannie Hardy Eckstorm e Robert Winslow Gordon. Mas não podemos deixar de lembrar do brasileiro Mário de Andrade que, em 1938, idealizou e enviou a Missão de Pesquisas Folclóricas para o Norte e Nordeste do país, para fazer esse trabalho. Na época, ele era diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. A Missão foi a campo com uma equipe liderada pelo arquiteto e urbanista Luiz Saia. Eles passaram por estados como Pernambuco (onde registraram o frevo, maracatus e cocos), Paraíba (cantorias de viola e rituais locais), Maranhão (Tambor de Crioula e Bumba Meu Boi) e Pará (manifestações amazônicas e indígenas). Ao invés de usar cilindros de cera, como vemos no filme, a Missão utilizou uma pesada máquina de gravação que cravava o som diretamente em discos de acetato e alumínio de 78 RPM, além de fazer filmagens, fotos e anotações. Todo esse importantíssimo trabalho está sob a guarda do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e já foi digitalizado, servindo de base para estudos no mundo inteiro. Com relação ao filme em si, ele é bem arrastado. O que salva, além do tema, é a excelente fotografia, o trabalho de áudio que é genial e o final que redime o filme de qualquer defeito que ele possa ter. Vale ter uma certa paciência e seguir até o fim por conta do ótimo desfecho.

21.7.26

“Clark” – Jonas Åkerlund (Suécia, 2022)

Sinopse:
Esta é a história de Clark Olofsson (Bill Skarsgård), o criminoso controverso que inspirou o termo "Síndrome de Estocolmo". Baseada nas verdades e mentiras contadas por ele.
Comentário: A minissérie possui 6 episódios. O site Aventuras na História publicou: “Com a ilustre atuação de Bill Skarsgård, o público conhece a história (...) de Clark Olofsson, homem responsável por um sequestro que originou o que identificamos hoje como ‘Síndrome de Estocolmo’, ou seja, quando a vítima desenvolve um vínculo com o sequestrador. Vale destacar, no entanto, que a série é baseada na autobiografia do criminoso, sendo assim marcada por verdades e mentiras, como repercute o Express. Fato é que na década de 1960, Olofsson iniciou uma saga que o tornaria um dos mais insólitos criminosos da Suécia.
Contudo, o que ganha destaque na série da Netflix é o assalto que ele participou em 1970, em Estocolmo, e que não acabou tendo um resultado positivo. Na Praça Norrmalmstorg, foi iniciado o episódio que fez com que Clark fosse tirado da cadeia e levado para o banco, como uma das condições impostas por Jan Olsson, um dos nomes envolvidos no crime, conforme repercutido pela BBC em 2016. Diante dos desdobramentos, os reféns, em um episódio inusitado, acabaram desenvolvendo simpatia pelos sequestradores, o que resultou no que conhecemos hoje como ‘Síndrome de Estocolmo’.
Após a série da Netflix, muitos devem se perguntar onde se encontra Clark Olofsson, 49 anos após o crime que entrou para a História. Bom, o Express repercute que ele tem atualmente 75 anos e mora na Bélgica, seu destino após ser tirado de trás das grades. Antes de voltar a vida normal, o INews relata que Clark foi absolvido por envolvimento no episódio, pois, conseguiu argumentar que fora capaz de atuar na tentativa de manter os reféns com vida. Em seguida, ele foi levado de volta à prisão, pois, teria que cumprir o que sobrou de sua sentença original.
Todavia, se engana quem imagina que o criminoso se arrependeu do passado: ele escapou da prisão de Norrköping, realizou assalto a um banco de Copenhague e fugiu. Conseguiu passar um ano longe da captura das autoridades, contudo, fora detido e precisou encarar oito anos de prisão.
O Express também explica que, até o ano de 2012, Clark se encontrava na prisão de Saltvki, Härnösand, antes de ser transferido para a prisão de Kumla. Uma das tentativas para reverter a condenação se deu em 2013, através da solicitação de um novo julgamento, contudo, não teve sucesso.
Outro desdobramento do caso se deu em 2016, quando foi levado para a prisão de Vorst, na Bélgica. Já em 2018, segundo o Express, tentou negociar a possibilidade da liberdade condicional. No mesmo ano, ele foi libertado e passou a viver na Bélgica”. Ele faleceu em 2025 com a idade de 78 anos.
O que eu achei: A minissérie conta a história do criminoso sueco Clark Olofsson (1947-2025), considerado o primeiro 'gângster celebridade' da Suécia. Intercalando presente e passado, conhecemos sua infância marcada por um pai alcoólatra, uma mãe com graves problemas psiquiátricos e um ambiente de extrema pobreza e violência doméstica, que levou Clark e suas irmãs a serem enviados para lares adotivos. Determinado a fugir dessa realidade, Clark ingressou numa escola de marinheiros e, aos 15 anos, falsificou a assinatura da mãe para embarcar num navio que o levou a conhecer o mundo. Mais tarde, a família voltou a viver reunida em Gotemburgo, mas isso não foi suficiente para afastá-lo da criminalidade. Aos 16 anos já estava num reformatório. Depois vieram roubos, assaltos, condenações e sucessivas fugas, inclusive de presídios de segurança máxima. A fama mundial veio em 1973, durante o assalto ao banco Kreditbanken, em Estocolmo. Cercado pela polícia, um assaltante chamado Jan Erik Olsson fez quatro funcionários reféns e exigiu, além de dinheiro, um carro e a presença de seu amigo Clark, que estava preso. Clark foi solto e levado para o local. Durante seis dias de negociações aconteceu algo inesperado: os reféns passaram a simpatizar com os sequestradores. Foi desse episódio que surgiu o termo Síndrome de Estocolmo. Ao contrário dos criminosos comuns, Clark cultivava a imagem de um anti-herói carismático. Jovem, bem-vestido e consciente do poder da imprensa, dava entrevistas sorrindo e transformou a própria trajetória criminosa em espetáculo. A mídia sueca, por sua vez, alimentou esse mito porque Clark vendia jornais como ninguém. Com classificação indicativa para maiores de 16 anos, com muitas cenas de violência e sexo, a série é bem-feita, anárquica e irreverente. Como foi baseada na autobiografia de Clark e não se pode acreditar que tudo que está no livro é verdade, a série também toma algumas liberdades e mistura realidade e ficção. Se há algum problema aqui ele não está na produção, mas no próprio personagem. É preciso ter um certo estômago para acompanhar um sujeito desprezível, sem escrúpulos, arrogante e abusado sendo tratado como um badboy irresistível, com a mídia e as mulheres aos seus pés. Eu até gostei da série, mas confesso que já não via a hora dela terminar. Ainda bem que só tem seis episódios.

20.7.26

“A Igualdade é Branca” - Krzysztof Kieslowski (França/Suíça/Polônia, 1994)

Sinopse:
Após se divorciar na França de sua amada Dominique (Julie Delpy), um polonês (Zbigniew Zamachowski) volta ao seu país de origem disposto a ganhar muito dinheiro para poder se vingar do grande amor da sua vida.
Comentário: Krzysztof Kieslowski (1941-1996) é um cineasta polonês de quem já assisti aos ótimos “Decálogo” (1989) - composto por 10 filmes inspirados pelos 10 Mandamentos - e “Trilogia das Cores” (1993-1994) - composta pelos filmes “A Liberdade é Azul”, “A Fraternidade é Vermelha” e “A Igualdade é Branca”, além do bom “Sorte Cega” (1981) e do curioso “Calma” (1976). Desta vez vou rever “A Igualdade é Branca” (1994).
Inácio Araujo da Folha SP publicou: “Se ‘A Liberdade É Azul’ era um filme povoado pela morte, mas finalmente dominado pela vida, em ‘A Igualdade É Branca’ – segundo exemplar da trilogia sobre as cores da bandeira francesa – Kieslowski inverte os dados. O amor move os personagens, mas seus impasses é que dominam a cena.
A ação começa no Palácio da Justiça, em Paris, onde se julga o pedido de divórcio que a francesa Dominique (Julie Delpy) move contra seu marido, o polonês Karol (Zamachowski). Dominique alega que o casamento não foi consumado, o que o réu confirma. Antes do casamento eles mantinham relações sexuais; depois, nada aconteceu. Ele pede tempo. O juiz dá o divórcio. Em seguida, Karol volta à Polônia, reconhece seu país (agora toscamente capitalista), envolve-se em negócios um tanto escusos e, graças a eles, enriquece.
Kieslowski (prêmio de Melhor Direção em Berlim-94 pelo filme) leva a trama como um folhetim. A cada situação rocambolesca segue-se outra, mais retorcida, mais absurda. Em todas, a castração (portanto, a impossibilidade física de amar) funda a ficção, tanto quanto a igualdade (de direitos entre homens e mulheres, países capitalistas e ex-socialistas, de acesso ao prazer ou mesmo de vingança).
A exemplo de ‘Azul’ – mais até –, ‘Igualdade’ se estrutura como uma espécie de conto desimportante: tudo se passa como se a história pudesse ser essa ou qualquer outra. Como se ao final o espectador pudesse se perguntar: ‘e daí?’
Essa é uma característica constante dos filmes de Kieslowski: o sentido se organiza ao longo da série que está realizando (como ‘O Decálogo’). O significado vincula-se a algo em princípio óbvio (aqui, o lema que funda a República francesa: ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade’), mas o desenvolvimento de cada filme é desconcertante, explora de maneira inesperada o seu tema.
Em "Igualdade", o mecanismo repete-se: temos uma história sem qualquer transcendência, que se encerra em seu próprio acontecer e parece não interessar senão aos personagens. Mas esse aspecto logo dá lugar a uma sensação de incômodo que o filme transmite cena após cena.
A horas tantas, esse amor – e seus desdobramentos inverossímeis – concretiza-se em um orgasmo: momento único, fugaz, talvez nunca mais repetido. Momento também em que o cinema se manifesta plenamente, como encontro entre real e imaginário.
É a essa beleza delicada, instável, que aspira a ‘Igualdade’, um filme em que, no mais, Kieslowski substitui o registro otimista de ‘Azul’ por uma reflexão mais sombria.
Por um lado, volta à Polônia, agora sem governo comunista, para constatar que a mudança não é uma maravilha. Por outro, fala da igualdade entre homens e mulheres, como a constatar que a convivência entre os sexos é plenamente impossível. Ou, pior ainda, é ao mesmo tempo plena e impossível”.
O que disse a crítica 1: Waldemar Dalenogare avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “A produção mantém o bom nível de ‘Azul’, mas uma coisa me chamou muito a atenção: a música não foi instrumento decisivo para o toque do roteiro. Não me entenda mal: a trilha está no filme, mas ela não é destaque. Talvez a necessidade de contextualizar ao máximo o mundo de Karol e Dominique tenha tirado o sono de Kieslowski, que se afastou um pouco de seu padrão para tentar inovar e adaptar o tema proposto. Sławomir Idziak não participou na construção da fotografia, e sua ausência pode ser facilmente notada. Ao invés do uso de filtros, as tomadas apostaram nos céus cinzentos e no brilho natural para montar bonitas passagens. Um filme bem-feito, mas com uma excessiva preocupação no contexto da história. Talvez fosse melhor manter as dúvidas no espectador”.
O que disse a crítica 2: Leonardo Campos do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “’A Igualdade é Branca’ é um dos mais emocionantes filmes da sua geração. Uma produção que comprova a qualidade do cinema além dos efeitos especiais. A produção recebeu o Urso de Prata em Berlim e foi indicada ao Urso de Ouro, não passou por outras premiações mais badaladas do circuito industrial, mas habita a memória cultural coletiva contemporânea, provavelmente, como um filme tocante e profundamente paradoxal, assim como a obra do diretor, que terminou a trilogia em ‘A Fraternidade é Vermelha’, lançado em 1995, e, concomitantemente, a sua carreira, afinal, como apontado, ‘consegui com o último filme o que queria na posição de cineasta’”.
O que eu achei: Trata-se do segundo longa da trilogia “Trois Couleurs” (Três Cores) do diretor polonês Krzysztof Kieslowski. O primeiro - "A Liberdade é Azul" (1993) – utilizava a cor azul para falar da tristeza, enquanto a liberdade era abordada no vazio do luto vivido por uma mulher chamada Julie (Juliette Binoche) que havia perdido seu marido e filha num acidente. Neste “A Igualdade é Branca” (1994), a cor branca que associamos imediatamente à pureza e à paz é ironicamente utilizada para mostrar a igualdade na guerra das relações afetivas. Conta a história de um casal - Dominique (Julie Delpy) e Karol (Zbigniew Zamachowski) – que se separa porque, segundo ela, o casamento não foi consumado. O sofrimento do marido Karol se transforma então num desejo de vingança que a fará sofrer igualmente. Em comparação com o primeiro longa da trilogia, o Azul me pareceu mais interessante do que este. Mas vistos como partes de uma trilogia, todos acabam merecendo nossa atenção. Apesar dos três filmes contarem histórias independentes, vê-los na sequência em que foram feitos propicia perceber pequenos detalhes que amarram todas as histórias. Observe que a trama de "A Igualdade é Branca" começa no tribunal onde Dominique e Karol estão se separando. Enquanto acompanhamos esse processo de separação vemos ao fundo uma passagem rápida de duas personagens do primeiro longa: Julie (Juliette Binoche) e Sandrine (Florence Pernel). Essas aparições fortuitas estão indicando que as histórias dos três longas acontecem ao mesmo tempo e no mesmo universo. Se você rever o primeiro filme, perceberá que há um momento em que Julie (Binoche) entra no tribunal procurando por seu advogado e é barrada por um guarda. Enquanto Sandrine (Pernel), a amante do falecido, também vai a esse mesmo tribunal tratando do processo de herança dele. Tudo isso ocorre enquanto Karol está no banco dos réus. O juiz (Philippe Morier-Genoud) que conduz a audiência do divórcio de Karol e Dominique também é o mesmo magistrado francês que aparece no primeiro longa. Outra curiosidade: nos três filmes uma idosa tenta colocar uma garrafa de vidro em uma lixeira de reciclagem. Em “A Liberdade é Azul” Julie vê a idosa, mas não a ajuda. Ela está tão mergulhada no luto e no isolamento total do mundo que fica indiferente ao sofrimento alheio. Neste segundo longa Karol também a vê e também não a ajuda. Ele está tão humilhado, quebrado e focado em sua própria miséria que a cena apenas reforça sua visão de mundo naquele instante: a vida é injusta para todos, não há igualdade no sofrimento e cada um deve cuidar de si. Enfim, trata-se de outro bom filme na filmografia do polonês que vale ser visto com muita atenção. Boa pedida.

19.7.26

"Ladrões" - Darren Aronofsky (EUA, 2025)

Sinopse:
Quando seu vizinho Russ (Matt Smith) lhe pede para cuidar de seu gato, um ex-prodígio do beisebol chamado Hank Thompson (Austin Butler), agora trabalhando como barman, se vê no meio de gangues sem saber o porquê. Ele precisa usar toda a astúcia para sobreviver e entender o que está acontecendo.
Comentário: Darren Aronofsky (1969) é um cineasta, roteirista, produtor cinematográfico e ambientalista americano. Assisti dele a obra-prima "Mãe!" (2017), os excelentes “Réquiem Para Um Sonho” (2000), "O Lutador" (2008) e "Cisne Negro" (2010), o bom “A Baleia” (2022) e o péssimo "Noé" (2014). Desta vez vou conferir "Ladrões" (2025).
Cesar Soto do G1 publicou: “’Ladrões’, novo filme do renomado cineasta Darren Aronofsky, mostra que alguma coisa mudou dentro do americano de 56 anos. Conhecido por histórias perturbadoras como ‘Réquiem Para Um Sonho’ (2000) - clássico sobre jovens viciados que lançou sua carreira e traumatizou uma geração no processo - e ‘Cisne Negro’ (2010), ele apresenta um dos filmes mais divertidos do ano.
Protagonizado por uma estrela em franca ascensão em Hollywood, Austin Butler, a aventura criminosa (...) conta a história de um ex-jogador de beisebol preso, por acidente, em uma disputa entre gângsteres de Nova York.
Um contraste gritante em relação aos estudos sobre religiosidade, humanidade e obsessão, dentro de ambientes sufocantes e claustrofóbicos como os retratados pelo diretor em ‘Mãe!’ (2017) ou ‘A Baleia’ (2022), seu filme mais recente.
Mas o que levou um dos cineastas americanos mais conhecidos por seu currículo cheio de obras incômodas e sombrias? ‘Há uma certa fome por esse tipo de coisa agora. É difícil chamar a atenção das pessoas. Há tanta distração no mundo’, diz Aronofsky em entrevista ao G1. ‘Se há uma coisa que Hollywood deveria fazer neste momento é calar a boca e dançar’. ‘Então, eu gostaria de fazer apenas algo que fosse divertido e desse às pessoas duas horas de uma ótima jornada. E esse era o filme mais meio que comercial que eu estava desenvolvendo há um tempo’.
Conhecido também por escrever a maior parte de seus filmes, em ‘Ladrões’ o diretor realiza pela segunda vez seguida uma adaptação para o cinema de uma história escrita por outra pessoa. Pela segunda vez, também, convida o autor original para o cargo.
Em ‘A Baleia’, o trabalho tinha ficado com o dramaturgo Samuel D. Hunter, responsável pela peça na qual o filme era baseado. ‘Acho que ele é um dos grandes escritores dos Estados Unidos’, fala Aronofsky. Mesmo assim, em seu primeiro trabalho para o cinema, Hunter precisou de muita atenção do diretor. ‘Mas a natureza de suas palavras era tão linda que eu não queria mexer com elas’, conta. Com Charlie Huston, escritor do livro (‘Caught Stealing’, mesmo título em inglês) adaptado em ‘Ladrões’, a experiência foi bem diferente. Afinal, ele já tinha um rascunho pronto, ‘que definitivamente capturava a energia e parecia um filme’.
‘Olha, escrever um livro é uma situação muito diferente do que escrever um roteiro. Por exemplo, você não pode fazer monólogos internos tão bem. E a voz de Hank (o protagonista) era uma parte grande do livro’, diz Aronofsky. ‘Mas, quero dizer, nesses dois casos tudo deu certo’.
Lançado em 2005, ‘Caught Stealing’ - título que faz referência ao beisebol que o protagonista não joga mais - é na verdade o primeiro de uma trilogia. Por isso, o cineasta faz um paralelo com seus próprios enredos do passado, compostos por discussões complexas e protagonistas perturbados. ‘Você assiste ao desenvolvimento de um personagem em uma história bem mais longa, de uma forma muito mais realista. E o que foi divertido foi me apegar a esse realismo da trama e do personagem, mesmo quando ele está cercado por todos esses acontecimentos absurdos’, afirma o diretor.
Ele sabe que essa vontade sincera de levar puro entretenimento ao público vai de encontro às expectativas que seus fãs - e o público em geral - têm de seu trabalho. Por isso, espera que as pessoas consigam separar a obra do artista, ‘por mais que eu esteja aqui falando sobre o filme’.
‘Isso é engraçado. Eu ando um pouco preocupado com isso - que as pessoas vão ficar chateadas por não estarem mais perturbadas. Então, você meio que está ferrado não importa o que aconteça. Não há como ganhar’."
O que disse a crítica 1: Robledo Milani do site Papo de Cinema avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “Hank é o típico cara ‘na hora errada e no lugar errado’. No decorrer dos próximos dias e horas, tudo vai ficando cada vez pior, e se mostrará ainda mais difícil decidir o que fazer e em quem confiar. A inspiração para o roteiro de Charlie Huston (também autor do livro no qual o filme é uma adaptação), obviamente, é o hoje referencial ‘Depois de Horas’ (1985). Porém, aquilo que Martin Scorsese falava com propriedade sobre uma cidade corrompida, exótica e que existia por meio de vias tortas, Darren Aronofsky se aproxima por meio do estereótipo, do clichê publicitário e fazendo uso de um verniz que aposta mais na pose do que nas motivações. Dessa forma, é fácil acompanhar os desdobramentos pelos quais os personagens se ocupam durante as quase duas horas de ‘Ladrões’. Mas é mais um quebra-cabeças esforçando-se para fazer sentido e menos uma história de desencontros e falsas coincidências que urgia em ser narrada. Por outro lado, também não chega a ser mero veículo para o estrelato de um ou outro astro envelhecido (...). Enfim, entrega o que promete. E nem um passo além disso”.
O que disse a crítica 2: Francisco Carbone do Cenas de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Com um elenco onde se misturam rostos conhecidos com tipos menos testados, é o rosto central que exemplifica todo o amálgama de intenções de ‘Ladrões’. Austin Butler surgiu para o grande público na impressionante corporificação de Elvis, e desde então ele sempre demonstra ter mais potencial que lá. Como o protagonista de Aronofsky, ele encarna as camadas de seu personagem e filme, que dividem as mesmas conotações – (...) seu rosto invade a tela para preencher cada possível dúvida de entendimento narrativo. Seja na angústia atroz que carrega, no sofrimento onde esbarra, na fúria que se aplaca em determinado momento, na saudade de um tempo que ele mesmo foi responsável por encerrar, Butler é um nome da novíssima geração que tem a dizer através da expressividade que seu diretor, como sempre, é hábil em arrancar de seus atores”.
O que eu achei: O título original "Caught Stealing" pode tanto significar “Pego Roubando”, como pode ser entendido como um trocadilho com um termo clássico do beisebol que se refere a uma jogada em que um corredor tenta avançar para a próxima base sem que a bola tenha sido rebatida, mas é ‘pego’ pelo time adversário. A trama se passa na Nova York de 1998. Conta a história de Hank Thompson (Austin Butler), um ex-prodígio do beisebol que atualmente trabalha como barman. Seu vizinho punk viaja e lhe pede para cuidar de seu gato. O que parecia uma tarefa simples vira um inferno já que o vizinho é traficante de drogas e há uma penca de gente do mal atrás do dinheiro obtido com a venda dos entorpecentes. O filme é um thriller gostoso de ver. Me lembrou muito dois filmes do Guy Ritchie: "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" (1998) e "Snatch: Porcos e Diamantes" (2000). O curioso é que o longa é muito diferente dos filmes do próprio Aronofsky, famoso pelos dramas psicológicos intensos, as tragédias, o terror e as histórias de autodestruição que deixam o público angustiado. Este é basicamente um suspense policial de ritmo acelerado com o protagonista passando por apuros, com uma narrativa sendo guiada pelo caos urbano, cheio de adrenalina e gags, que nem parece dele. O roteiro foi escrito pelo Charlie Huston, autor do livro original no qual o filme se baseia. Então prepare-se para ver algo muito diferente do que ele habitualmente faz. Poucos diretores conseguem se reinventar assim, transitando entre universos tão diferentes sem perder a qualidade técnica. Além do filme em si ser bom, o longa se mostrou uma excelente oportunidade para o ator Austin Butler se libertar do fantasma do Elvis. Ele dá um show na pele de um bartender comum, super vulnerável e magnético. Resumindo, é um filme violento na medida certa, divertido de se ver e que tem uma trilha sonora pós-punk incrível que dita o ritmo. Vale o play.

18.7.26

"Como Treinar o Seu Dragão" – Chris Sanders & Dean DeBlois (Reino Unido/França/EUA, 2010)

Sinopse:
Na ilha de Berk, os vikings dedicam a vida a matar dragões. Soluço, filho do chefe Stoico, também sonha em matar um dragão e provar seu valor ao pai, apesar da descrença geral. Um dia ele acerta um dragão chamado Banguela. Soluço percebe que ele perdeu parte da cauda e, com isso, não consegue mais voar. Soluço passa a trabalhar em um artefato que possa substituir a parte perdida e, aos poucos, se aproxima do dragão. Só que, paralelamente, Stoico autoriza que o filho participe do treino para dragões, cuja prova final é justamente matar um dos animais.
Comentário: Isabela Boscov publicou em seu site: "Praticamente não existe ficção infantil ou infantojuvenil cujo tema central não seja o confrontamento com as regras do mundo adulto – porque há pouco, na vida de uma criança, que consuma mais tempo e energia do que entendê-las, ou que cause mais perplexidade e eventual sofrimento do que aprender a lidar com elas. Por boa razão, assim, essa é a base sobre a qual se assenta o roteiro de boa parte dos filmes para crianças que se produzem hoje.
Mas não muitos podem se gabar de compreender tão bem o reverso dessa condição quanto 'Como Treinar o Seu Dragão' (2010). O menino Soluço, magrinho e meio medroso, é um fracasso como viking e uma decepção para seu pai, o chefe do clã. Nunca vai ser um caçador de dragões. E matar dragões é o que de mais essencial se pode fazer na ilha de Berk, assolada por ferocíssimos cuspidores de fogo. Uma coincidência, um momento de compaixão e a curiosidade típica da idade o colocam em um caminho diferente. Soluço vai se transformar, em segredo, em um domador de dragões. E essa é de fato a pedra de toque do filme – o sentimento libertador, inebriante e vertiginoso que uma criança prova quando descobre que, às vezes, há uma alternativa a pôr-se sob as rédeas adultas: pode-se usar a imaginação para inventar regras melhores.
'Como Treinar o Seu Dragão' é adaptado do livro homônimo (publicado aqui no Brasil pela Intrínseca), o primeiro de uma série de oito volumes protagonizados por Soluço e escritos pela inglesa Cressida Cowell. A autora, que passou os verões de sua infância em uma ilha escocesa isolada, sem eletricidade nem telefone, guarda uma lembrança vívida do senso de aventura que experimentou ali, e em especial de como acreditava que, naquela costa escarpada, os dragões existiriam de fato. Essa memória emotiva norteia seus livros e permanece intacta na animação dirigida pela dupla do anárquico 'Lilo & Stitch'.
Os cenários são sempre monumentais, mas ora parecem idílicos, ora têm um quê de assustador, como no mundo interior da infância – sugestões muito bem aproveitadas no trabalho em 3D. A descoberta mútua entre Soluço e o dragão Banguela, que ele salva e 'conserta' (ele perdeu parte da cauda ao ser perseguido), é repleta de humor e sentimento. E o final introduz um dado real de sacrifício físico que é mais comum em desenhos inflexivelmente morais como os do japonês Hayao Miyazaki do que nas animações dos grandes estúdios americanos (no caso, a DreamWorks de 'Shrek'), com sua visão superprotetora da infância: aqui, Soluço perde algo precioso por se manter fiel às suas convicções. Mas ele e toda Berk ganham mais ainda por ter ouvido o menino que compensa o que lhe falta em autoridade com o que lhe sobra em imaginação".
O que disse a crítica 1: André Barcinski crítico da Folha SP avaliou como bom. Disse: "'Como Treinar o seu Dragão' (...), é um raro exemplo de filme infantil que agrada a espectadores de todas as idades. O longa combina imagens deslumbrantes, ótimos efeitos em 3D e uma história instigante sobre o mundo dos vikings".
O que disse a crítica 2: Thiago Siqueira do site Cinema com Rapadura avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Ele elogiou o design dos animais e dos humanos, os efeitos computadorizados e as texturas de cada material, a trilha sonora de John Powell e as cenas de voo e de combates do filme em 3D e finalizou dizendo: "Divertido e marcante, 'Como Treinar o Seu Dragão' é uma aventura incrível, embora eu não a indique para crianças muito pequenas justamente por ser demasiadamente movimentada e até pesada em dados momentos, principalmente em seu clímax. De qualquer modo, digo sem medo de errar que se trata da melhor animação realizada pela Dreamworks/PDI. Recomendo!".
O que eu achei: Trata-se de uma animação baseada no primeiro livro de uma série chamado “Como Treinar o Seu Dragão” da inglesa Cressida Cowell. A trama acompanha Soluço, um jovem viking franzino da ilha de Berk, que tenta provar seu valor. Diferente de sua tribo, que caça dragões, ele acidentalmente captura um raro dragão da raça "Fúria da Noite", batizando-o de Banguela. Ao cuidar da fera, Soluço descobre que ele é dócil como um animal doméstico, unindo-se a ele para salvar a sua vila de uma criatura gigante. Temas como amadurecimento, rejeição familiar, sensação de não pertencimento e deficiência física são abordados no longa. É bonito ver o forte vínculo silencioso que se constrói entre Soluço e Banguela, baseado na empatia e na observação um do outro. Apesar de Banguela ser um dragão, nota-se em sua construção uma inspiração direta em animais como gatos, cães e panteras. A trilha sonora de John Powell, que achei levemente exagerada em alguns poucos pontos, foi indicada ao Oscar por ditar o tom de aventura e emoção. Mesmo as piadas de alívio cômico são divertidas. A única crítica que li é que a animação se distancia demais do livro que lhe deu origem. Dizem que houve uma mudança radical na personalidade dos dragões, que no livro falam e são bem menores. Com relação à classificação etária ser livre, eu não recomendaria para crianças muito pequenas pois há cenas razoavelmente violentas e uma trama não tão simplificada. Em termos de continuações essa animação teve duas até o momento: "Como Treinar o Seu Dragão 2" (2014) e "Como Treinar o Seu Dragão: O Mundo Oculto" (2019). E esse longa de 2010 teve em 2025 uma refilmagem em live action.