
Comentário: Jean-Pierre Dardenne (1951) e Luc Dardenne (1954) são dois irmãos belgas diretores, produtores e roteiristas. Assisti deles os excelentes "A Criança" (2005) e "Dois Dias, Uma Noite" (2014), os bons "O Garoto da Bicicleta" (2011), "O Jovem Ahmed" (2019) e “Tori e Lokita” (2022) e o mediano “A Garota Desconhecida” (2016). Desta vez vou conferir “Jovens Mães” (2025).
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Existem dois tipos de cineastas: aqueles que você assiste esperando ser surpreendido e aqueles que você já sabe muito bem o que vai encontrar quando os assiste. Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne fazem parte do segundo grupo. Ao longo de mais de quatro décadas, eles construíram um cinema reconhecível, marcado por temas sociais urgentes, proximidade com personagens invisibilizados e pela atenção aos gestos cotidianos. Em ‘Jovens Mães’, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes deste ano e exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, os irmãos seguem fielmente essa linha, oferecendo um retrato sensível da maternidade precoce em um abrigo belga.
O foco da história recai sobre Jessica (Babette Verbeek), Perla (Lucie Laruelle), Julia (Elsa Houben), Ariane (Janaïna Halloy Fokan) e Naïma (Samia Hilmi), cinco adolescentes que buscam uma vida melhor para si e para seus bebês. Cada uma lida com desafios diferentes: amores não correspondidos, medo de repetir os erros das próprias mães, ausência do provedor da criança ou da família, rejeição materna, ou dependência de drogas. Entre decisões difíceis e afeto, essas jovens tentam aprender a cuidar de seus filhos sendo que elas mesmas nunca receberam os mesmos cuidados.
A câmera dos Dardenne permanece próxima, inquieta, respirando junto das personagens. É um cinema que prefere as pequenas expressões às grandes lições morais e redenções. O abrigo onde vivem funciona como um raro espaço de respiro, sustentado por políticas públicas que contrastam com realidades de países ainda travados em debates sobre aborto e autonomia feminina. Dentro desse microcosmo, a ternura parece ter encontrado seu último refúgio. O abrigo torna-se, ao mesmo tempo, casa e escola - o lar que muitas nunca tiveram. Cada atitude e movimento dessas jovens é uma tentativa de romper um ciclo de ausências. O olhar dos diretores é compreensivo, sem julgamentos, reconhecendo a humanidade de escolhas que surgem de uma realidade para a qual elas não estavam preparadas.
O que é curioso sobre ‘Jovens Mães’ é que, apesar do cartaz trazer as cinco adolescentes lado a lado com seus bebês, em uma espécie de confraternização, essa imagem jamais se concretiza na trama. Trata-se de uma promessa de comunhão que o roteiro apenas sugere, mas nunca cumpre por completo. A interação entre as jovens é mínima, e talvez seja esse o único demérito do longa: apesar das garotas conviverem nesse abrigo, são poucas as cenas em que elas se encontram - cada uma delas está ocupada demais lidando com os seus dramas particulares.
Nos raros momentos em que uma estende a mão à outra, surgem cenas de ternura genuína - pequenas demonstrações de cuidado que cativam por revelar, em tela, uma sororidade discreta, um lampejo de família possível dentro do abrigo. São instantes que contrapõem, ainda que brevemente, o isolamento emocional que marca suas trajetórias. É como se o filme quisesse registrar não a força coletiva dessas jovens, mas a solidão que as atravessa, o esforço íntimo de quem tenta aprender, pouco a pouco, como tomar a decisão mais importante de suas vidas: ficar com a criança ou não.
Ao fim, ‘Jovens Mães’ pode parecer menor na filmografia dos Dardenne, mas ao abrir mão de grandes reviravoltas e continuar fazendo o cinema social que marcou suas carreiras, eles permitem que pequenos atos nos revelem o essencial: um presente singelo que tira um sorriso honesto, um abraço com lágrimas há muito tempo guardadas, um pedido de desculpas sincero, uma nova chance. É um filme delicado, sensível e próximo do real, que reforça como os irmãos continuam encontrando humanidade em lugares invisíveis da sociedade”.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Afinal, os Dardenne não estão dispostos a tomar nenhum risco? Não pretendem se aventurar por recursos distintos, menos naturalistas, mais poéticos, intervencionistas, alegóricos? Afinal, suas novas investidas se provam polidas, competentes, porém, incapazes de qualquer surpresa junto ao cinéfilo com mínimo conhecido do percurso dos criadores. O projeto mais recente é bom, sem dúvida — assim como todos os outros. No entanto, quando os filmes começam a se equivaler, e se intercambiar em nossa memória, toca o sinal de alerta. Os grandes autores, rigidamente idênticos a si próprios, estão perdendo a força do gesto”.
O que disse a crítica 2: Mauricio Ribeiro do site Spoiler Movies avaliou com 3,25 estrelas, algo entre bom e muito bom. Escreveu: “Ao final, como toda denúncia eficaz, tal cinema pode ser incômodo, imperfeito, até frustrante, mas ame ou deixe, permanece necessário. Em tempos de apagamento social sistemático, os irmãos Dardenne seguem fazendo o que sempre fizeram (e importa): um cinema como ato político, sem ornamento, sem álibi, sem desculpas”.
O que eu achei: Quando vi o primeiro anúncio desse filme achei que seria um documentário, mas não. Trata-se de um filme do gênero drama dos irmãos Dardenne, famosos pelo seu cinema social. Este foca na história de cinco meninas, todas engravidaram prematuramente e estão desamparadas, seja porque o pai da criança sumiu, a família abandonou, seja porque não tem onde morar e por aí afora. O que elas têm em comum - além da falta de apoio e da gravidez - é que todas elas foram acolhidas por um abrigo estatal e estão lutando com seus fantasmas. Achei muito interessante o serviço oferecido. Li que, de fato, na Bélgica, existem essas ‘maisons maternelles’ (casas maternais) ou ‘centres d'accueil pour mères et enfants’ (abrigos para mães e filhos). O filme foi diretamente inspirado por uma instituição real localizada próxima à cidade de Liège. O local serviu tanto como laboratório de pesquisa quanto de cenário para as gravações da produção. Li que esses centros são estruturas de acolhimento regulamentadas e subsidiadas pelo governo belga. O principal objetivo é amparar gestantes e mães solo - sejam elas menores ou maiores de idade - que enfrentam extrema vulnerabilidade social, isolamento ou violência doméstica. Funcionam como alojamentos temporários, muitas vezes estruturados como estúdios ou quartos privativos, onde as mães podem residir de forma segura com seus bebês. Áreas comuns como cozinhas, lavanderias e brinquedotecas estimulam a interação e a criação de redes de apoio mútuo entre as residentes. Além disso elas contam com um suporte multidisciplinar, uma rede formada por educadores sociais, psicólogos e assistentes sociais que trabalham no local 24hs por dia. O filme mostra muito bem como o foco dessas casas não é apenas o assistencialismo, mas sim servir como um trampolim para que a jovem mãe aprenda cuidados parentais, organize suas finanças, encontre creches e consiga uma moradia definitiva fora das instituições. Ao retratar essa dinâmica entre as meninas e a instituição, o filme captura com precisão a dualidade dessas instituições na Bélgica: ao mesmo tempo em que funcionam como um ambiente protetor indispensável, as regras rígidas, a convivência forçada e a vigilância institucional constante criam pressões psicológicas profundas sobre as adolescentes que ainda estão descobrindo a própria identidade enquanto precisam aprender a cuidar de uma nova vida. Fiquei curiosa em saber se no Brasil teríamos esse tipo de serviço e, para minha surpresa li que sim. No contexto brasileiro, o acolhimento de adolescentes grávidas ou jovens mães com seus bebês acontece por meio de duas frentes principais: o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e iniciativas do Terceiro Setor, como ONGs e projetos filantrópicos. Há os Centros de Acolhida Especial para Gestantes e Puérperas como o Amparo Maternal em São Paulo e a Casa de Marta e Maria; há as Casas da Gestante, Bebê e Puérpera (CGBP) como A Casa da Gestante de Campinas e a unidade do Hospital Interlagos em São Paulo e há também o serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (Casas Lares). Embora a proposta teórica de proteção e busca por autonomia do Brasil e da Bélgica seja semelhante, a realidade prática no Brasil enfrenta grandes gargalos. Enquanto na Bélgica o fluxo de triagem e encaminhamento para as maisons maternelles é altamente universalizado, no Brasil as vagas em abrigos especializados para mães e filhos são escassas e concentradas em grandes capitais. Outra questão é a falta de unificação: no Brasil, as frentes de atuação batem cabeça com frequência. Uma jovem grávida pode acabar em um abrigo comum de moradores de rua ou em um abrigo de menores tradicional. Dentro da filmografia dos Dardenne é uma obra menor, que repete fórmulas sem o mesmo impacto do passado. Muitos críticos apontam o longa como uma versão ‘no piloto automático’ do que eles já fizeram melhor. Mas ainda assim é um bom filme que mostra com respeito e dignidade seus personagens, evitando o melodrama barato e o sentimentalismo forçado. Não é um documentário, todas as meninas são atrizes, mas tem aquela naturalidade quase documental que eles fazem tão bem.
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Existem dois tipos de cineastas: aqueles que você assiste esperando ser surpreendido e aqueles que você já sabe muito bem o que vai encontrar quando os assiste. Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne fazem parte do segundo grupo. Ao longo de mais de quatro décadas, eles construíram um cinema reconhecível, marcado por temas sociais urgentes, proximidade com personagens invisibilizados e pela atenção aos gestos cotidianos. Em ‘Jovens Mães’, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes deste ano e exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, os irmãos seguem fielmente essa linha, oferecendo um retrato sensível da maternidade precoce em um abrigo belga.
O foco da história recai sobre Jessica (Babette Verbeek), Perla (Lucie Laruelle), Julia (Elsa Houben), Ariane (Janaïna Halloy Fokan) e Naïma (Samia Hilmi), cinco adolescentes que buscam uma vida melhor para si e para seus bebês. Cada uma lida com desafios diferentes: amores não correspondidos, medo de repetir os erros das próprias mães, ausência do provedor da criança ou da família, rejeição materna, ou dependência de drogas. Entre decisões difíceis e afeto, essas jovens tentam aprender a cuidar de seus filhos sendo que elas mesmas nunca receberam os mesmos cuidados.
A câmera dos Dardenne permanece próxima, inquieta, respirando junto das personagens. É um cinema que prefere as pequenas expressões às grandes lições morais e redenções. O abrigo onde vivem funciona como um raro espaço de respiro, sustentado por políticas públicas que contrastam com realidades de países ainda travados em debates sobre aborto e autonomia feminina. Dentro desse microcosmo, a ternura parece ter encontrado seu último refúgio. O abrigo torna-se, ao mesmo tempo, casa e escola - o lar que muitas nunca tiveram. Cada atitude e movimento dessas jovens é uma tentativa de romper um ciclo de ausências. O olhar dos diretores é compreensivo, sem julgamentos, reconhecendo a humanidade de escolhas que surgem de uma realidade para a qual elas não estavam preparadas.
O que é curioso sobre ‘Jovens Mães’ é que, apesar do cartaz trazer as cinco adolescentes lado a lado com seus bebês, em uma espécie de confraternização, essa imagem jamais se concretiza na trama. Trata-se de uma promessa de comunhão que o roteiro apenas sugere, mas nunca cumpre por completo. A interação entre as jovens é mínima, e talvez seja esse o único demérito do longa: apesar das garotas conviverem nesse abrigo, são poucas as cenas em que elas se encontram - cada uma delas está ocupada demais lidando com os seus dramas particulares.
Nos raros momentos em que uma estende a mão à outra, surgem cenas de ternura genuína - pequenas demonstrações de cuidado que cativam por revelar, em tela, uma sororidade discreta, um lampejo de família possível dentro do abrigo. São instantes que contrapõem, ainda que brevemente, o isolamento emocional que marca suas trajetórias. É como se o filme quisesse registrar não a força coletiva dessas jovens, mas a solidão que as atravessa, o esforço íntimo de quem tenta aprender, pouco a pouco, como tomar a decisão mais importante de suas vidas: ficar com a criança ou não.
Ao fim, ‘Jovens Mães’ pode parecer menor na filmografia dos Dardenne, mas ao abrir mão de grandes reviravoltas e continuar fazendo o cinema social que marcou suas carreiras, eles permitem que pequenos atos nos revelem o essencial: um presente singelo que tira um sorriso honesto, um abraço com lágrimas há muito tempo guardadas, um pedido de desculpas sincero, uma nova chance. É um filme delicado, sensível e próximo do real, que reforça como os irmãos continuam encontrando humanidade em lugares invisíveis da sociedade”.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Afinal, os Dardenne não estão dispostos a tomar nenhum risco? Não pretendem se aventurar por recursos distintos, menos naturalistas, mais poéticos, intervencionistas, alegóricos? Afinal, suas novas investidas se provam polidas, competentes, porém, incapazes de qualquer surpresa junto ao cinéfilo com mínimo conhecido do percurso dos criadores. O projeto mais recente é bom, sem dúvida — assim como todos os outros. No entanto, quando os filmes começam a se equivaler, e se intercambiar em nossa memória, toca o sinal de alerta. Os grandes autores, rigidamente idênticos a si próprios, estão perdendo a força do gesto”.
O que disse a crítica 2: Mauricio Ribeiro do site Spoiler Movies avaliou com 3,25 estrelas, algo entre bom e muito bom. Escreveu: “Ao final, como toda denúncia eficaz, tal cinema pode ser incômodo, imperfeito, até frustrante, mas ame ou deixe, permanece necessário. Em tempos de apagamento social sistemático, os irmãos Dardenne seguem fazendo o que sempre fizeram (e importa): um cinema como ato político, sem ornamento, sem álibi, sem desculpas”.
O que eu achei: Quando vi o primeiro anúncio desse filme achei que seria um documentário, mas não. Trata-se de um filme do gênero drama dos irmãos Dardenne, famosos pelo seu cinema social. Este foca na história de cinco meninas, todas engravidaram prematuramente e estão desamparadas, seja porque o pai da criança sumiu, a família abandonou, seja porque não tem onde morar e por aí afora. O que elas têm em comum - além da falta de apoio e da gravidez - é que todas elas foram acolhidas por um abrigo estatal e estão lutando com seus fantasmas. Achei muito interessante o serviço oferecido. Li que, de fato, na Bélgica, existem essas ‘maisons maternelles’ (casas maternais) ou ‘centres d'accueil pour mères et enfants’ (abrigos para mães e filhos). O filme foi diretamente inspirado por uma instituição real localizada próxima à cidade de Liège. O local serviu tanto como laboratório de pesquisa quanto de cenário para as gravações da produção. Li que esses centros são estruturas de acolhimento regulamentadas e subsidiadas pelo governo belga. O principal objetivo é amparar gestantes e mães solo - sejam elas menores ou maiores de idade - que enfrentam extrema vulnerabilidade social, isolamento ou violência doméstica. Funcionam como alojamentos temporários, muitas vezes estruturados como estúdios ou quartos privativos, onde as mães podem residir de forma segura com seus bebês. Áreas comuns como cozinhas, lavanderias e brinquedotecas estimulam a interação e a criação de redes de apoio mútuo entre as residentes. Além disso elas contam com um suporte multidisciplinar, uma rede formada por educadores sociais, psicólogos e assistentes sociais que trabalham no local 24hs por dia. O filme mostra muito bem como o foco dessas casas não é apenas o assistencialismo, mas sim servir como um trampolim para que a jovem mãe aprenda cuidados parentais, organize suas finanças, encontre creches e consiga uma moradia definitiva fora das instituições. Ao retratar essa dinâmica entre as meninas e a instituição, o filme captura com precisão a dualidade dessas instituições na Bélgica: ao mesmo tempo em que funcionam como um ambiente protetor indispensável, as regras rígidas, a convivência forçada e a vigilância institucional constante criam pressões psicológicas profundas sobre as adolescentes que ainda estão descobrindo a própria identidade enquanto precisam aprender a cuidar de uma nova vida. Fiquei curiosa em saber se no Brasil teríamos esse tipo de serviço e, para minha surpresa li que sim. No contexto brasileiro, o acolhimento de adolescentes grávidas ou jovens mães com seus bebês acontece por meio de duas frentes principais: o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e iniciativas do Terceiro Setor, como ONGs e projetos filantrópicos. Há os Centros de Acolhida Especial para Gestantes e Puérperas como o Amparo Maternal em São Paulo e a Casa de Marta e Maria; há as Casas da Gestante, Bebê e Puérpera (CGBP) como A Casa da Gestante de Campinas e a unidade do Hospital Interlagos em São Paulo e há também o serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (Casas Lares). Embora a proposta teórica de proteção e busca por autonomia do Brasil e da Bélgica seja semelhante, a realidade prática no Brasil enfrenta grandes gargalos. Enquanto na Bélgica o fluxo de triagem e encaminhamento para as maisons maternelles é altamente universalizado, no Brasil as vagas em abrigos especializados para mães e filhos são escassas e concentradas em grandes capitais. Outra questão é a falta de unificação: no Brasil, as frentes de atuação batem cabeça com frequência. Uma jovem grávida pode acabar em um abrigo comum de moradores de rua ou em um abrigo de menores tradicional. Dentro da filmografia dos Dardenne é uma obra menor, que repete fórmulas sem o mesmo impacto do passado. Muitos críticos apontam o longa como uma versão ‘no piloto automático’ do que eles já fizeram melhor. Mas ainda assim é um bom filme que mostra com respeito e dignidade seus personagens, evitando o melodrama barato e o sentimentalismo forçado. Não é um documentário, todas as meninas são atrizes, mas tem aquela naturalidade quase documental que eles fazem tão bem.









