8.3.26

"Marty Supreme" - Josh Safdie (EUA/Finlândia, 2025)

Sinopse:
Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem com uma ambição desmedida, está pronto para tudo para realizar seu sonho e provar ao mundo inteiro que nada é impossível para ele.
Comentário: Josh Safdie (1984) é um cineasta e roteirista norte-americano. Ele começou dirigindo alguns filmes em parceria com seu irmão mais novo Benny Safdie. "Marty Supreme" (2025) é o primeiro filme que vejo dele e o primeiro que ele dirige sozinho.
Luiza Lopes da Revista Super Interessante publicou: "Timothée Chalamet, que está concorrendo a Melhor Ator, interpreta Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa de Nova York que alterna entre torneios e partidas por dinheiro, usando apostas e pequenos esquemas para financiar viagens e disputar competições maiores. O filme é, em parte, inspirado em uma história real: a de Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial e conquistou 22 títulos entre 1946 e 2002. O roteiro também parte da autobiografia do atleta, 'The Money Player', que ajudou a moldar o tom e o universo do longa.
A ligação do diretor Josh Safdie com essa história começou justamente pelo livro. Ele conheceu Reisman depois que sua esposa, Sara, lhe deu um exemplar da autobiografia. Safdie leu e, junto com o roteirista Ronald Bronstein, passou a escrever uma história sobre 'um sonhador provinciano do Lower East Side que conseguiu se projetar no cenário mundial do pós-guerra por pura força de vontade', nas palavras de Bronstein à revista Time. Ele também descreveu o livro como uma porta de entrada para 'uma subcultura esquecida e extremamente vibrante de desajustados, obsessivos, malandros e sonhadores de Nova York'. Mas o que é real e o que foi inventado em Marty Supreme?
O atleta nasceu em 1º de fevereiro de 1930 e começou a jogar tênis de mesa aos 9 anos, depois do que descreveu como um 'colapso nervoso'. Ele dizia que o esporte era uma 'forma de aliviar a ansiedade'. Foi campeão júnior da cidade aos 13 anos. Pouco depois, se mudou para um hotel em que seu pai trabalhava – diferentemente do filme, que o mostra morando com a mãe. (...)
Retratado no filme, foi no salão Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, no lado oeste de Manhattan, que Reisman aprimorou suas habilidades. Em seu livro de memórias, ele narra: 'quando cheguei ao Lawrence’s pela primeira vez, havia muitos jogadores que podiam me vencer. Pela minha experiência em quadras de rua, eu achava que era especial. Aprendi que não era. Por um tempo, fiquei impressionado com essas pessoas, mas logo consegui vencer todas elas'.
Desde cedo, chamava atenção pelo jeito de se comportar nas partidas. Ficou conhecido como 'a Agulha', por ser magro e rápido, e também como o 'Bad Boy do Tênis de Mesa'. Relatos mostram que ele falava o tempo todo, provocando adversários sobre saques, nervos e namoradas, além de cutucar espectadores e árbitros. Essa atitude fazia parte do modo como ganhava dinheiro no jogo. Ele atraía desafiantes, perdendo algumas partidas de propósito antes de dobrar apostas e vencer com facilidade.
Aos 15 anos, por exemplo, em uma competição nacional na cidade de Detroit, Reisman tentou apostar 500 dólares na própria vitória e entregou cinco notas a quem achou que fosse um agiota. Era, na verdade, o presidente da associação nacional de tênis de mesa. A confusão terminou com ele sendo levado sob custódia pela polícia.
Também tinha como hábito medir a altura da rede antes das partidas para garantir a precisão – usando notas de $100.
No fim dos anos 1940, Reisman e o também jogador Doug Cartland fizeram turnês com a equipe de basquetebol Harlem Globetrotters por três anos, como atração do intervalo, batendo bolas com frigideiras e até com solas de tênis enquanto tocava 'Mary Had a Little Lamb'. Essa relação com os Globetrotters aparece no filme (em uma cena hilária, diga-se).
O momento mais decisivo da trajetória esportiva de Reisman – e que o filme transforma em motor da história – aconteceu em 1952. Na ficção, Mauser perde para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi) em um campeonato mundial e passa a perseguir uma revanche. O longa situa o torneio em Londres, mas o evento real daquele ano foi disputado em Mumbai, na Índia, e também marcou uma derrota para o japonês Hiroji Satoh, que chegaria ao título. Satoh apareceu com uma novidade tecnológica, a chamada “raquete sanduíche”, com camadas de espuma e borracha. O equipamento mudou o esporte ao deixar a bola mais rápida, com mais efeito e um quique menos previsível. Até então, com raquetes mais rígidas, o jogo era mais cadenciado, e muitos atletas conseguiam “ler” as jogadas pelo som do impacto e pelo ritmo das trocas. Reisman ficou indignado e se recusou a adotar a novidade. Em entrevista ao New York Times em 1998, disse: 'antes, havia um diálogo entre dois jogadores, no qual uma criança de 6 anos conseguia entender a conversa entre ataque e defesa. Hoje, um ponto é ganho ou perdido com um movimento imperceptível do pulso'. (...)
Nada indica que Kay Stone tenha existido na vida real. (...) Personagens importantes como Rachel Mizler (Odessa A’zion) e Wally (Tyler, the Creator) também ajudam a 'engordar' o drama, mas não têm correspondentes claros na vida real do jogador. (...)
Reisman passou décadas circulando por um submundo de apostas, exibições e improviso. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. (...)
Do fim dos anos 1950 até o fim dos 1970, administrou seu próprio salão no Upper West Side e também esteve ligado ao Riverside Table Tennis Club. Esses espaços atraíam um público variado e, em alguns momentos, celebridades como o ator Dustin Hoffman, os escritores Kurt Vonnegut e David Mamet e o enxadrista Bobby Fischer.
Reisman também levou seus truques para a TV. Ele apostava que conseguiria partir um cigarro ao meio com uma bola do outro lado da mesa, e fez a façanha no programa de Johnny Carson em 1975 e no de David Letterman em 2008.Faleceu em 2012, aos 82 anos, por complicações pulmonares e cardíacas. Nove meses antes de morrer, reafirmou sua postura competitiva em um perfil do New York Times: 'eu enfrentava as pessoas com espírito de gladiador. Nunca recuei de uma aposta'".
O longa está indicado em nove categorias do Oscar: Filme, Direção, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Original, Edição, Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Escalação de Elenco.
O que disse a crítica 1: Hamilton Rosa Jr. publicou em sua rede social que não gostou. Disse: "Esse filme, que concorre a nove Oscars, é um pingue pongue feito pra quem não tem prazer pelo pingue pongue. O esporte pouco interessa, a movimentação visa apenas os efeitos. Tudo decupado como esquetes de um humorístico pro Tik Tok. Daí talvez a razão do seu sucesso. Gera uma identificação com a galera esperta que não larga o celular no cinema. Mas o que incomoda é a convicção inabalável, do individualismo do personagem: o filme vende sua esperteza como vantagem pra fazer os outros de bobo. O pêndulo estético pesa para o lado do ego. Do diretor e do ator. E a Academia aplaude e mostra a divisão da nação até mesmo na Arte. Assim como há a turma que protesta contra o governo atual e abusivo que rege o país, existe também aqueles que aplaudem. Fosse cinéfilo, esse seria o filme de cabeceira do Donald Trump".
O que disse a crítica 2: Marcelo Hessel do site Omelete classificou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Ao final de 'O Brutalista', ouvimos um discurso que inverte o ditado famoso e diz que o importante é o destino, sim, e não a viagem. À luz de Gaza em 2025, como se interpreta essa fala? Independente da resposta, do seu lado o que Marty Supreme oferece é restabelecer o foco na jornada. Quando o vilão diz para Marty Mauser que não há segundas chances na vida, obviamente o filme se compromete a contradizê-lo em seguida, mas Safdie o faz sem deixar de lembrar que as vitórias, assim como as chances, nunca são definitivas. O movimento não cessa, nem seu acúmulo, e, depois de nove meses, é todo o ciclo geracional que recomeça. A bola viaja de um lado a outro da mesa".
O que eu achei: Achei que poderia gostar de ver retratada no cinema a história Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial, mas acabei achando o resultado menos do que mediano. O problema central foi a dificuldade que tive de me ligar ao protagonista: um cara repulsivo, que se comporta de maneira abertamente canalha ao longo da narrativa, manipulando pessoas, agindo com oportunismo e demonstrando zero empatia pelos que o cercam, incluindo-se aqui a mãe e a namorada grávida. Diferentemente de anti-heróis clássicos, suas atitudes raramente são compensadas por algum traço de humanidade que permita ao espectador criar algum tipo de identificação. Personagens moralmente questionáveis até podem funcionar quando existe autocrítica, culpa ou possibilidade de redenção. Aqui, porém, o protagonista parece atravessar a história sem qualquer processo real de reflexão sobre suas próprias atitudes. Isso cria a sensação de estagnação dramática: ele começa mal e não evolui ao longo das 2h30m de filme. Não espere ver algum resquício de consciência moral. O cinema frequentemente constrói personagens problemáticos, mas ainda assim interessantes ou fascinantes. Neste caso, o protagonista parece mais desagradável do que complexo. É aquela figura que quer porque quer jogar tênis de mesa profissionalmente e vai conseguir isso custe o que custar. É golpe em cima de golpe, trapaça em cima de trapaça, independente dos estragos, dos sofrimentos imputados às pessoas que o cercam, o importante é chegar lá. Então fica muito difícil torcer por ele ou se interessar pelo seu destino. O comportamento do personagem ao longo da trama sugere traços psicológicos problemáticos como narcisismo extremo, impulsividade e ausência de remorso. O filme também não explora essas características como estudo psicológico, o que faz com que elas pareçam mais um conjunto de atitudes naturais de um ser humano obstinado do que um retrato consistente de alguém doente que precisa de tratamento. Também não fica claro se o filme está criticando ou celebrando esse comportamento já que as ações do protagonista são tratadas com certo fascínio ou glamour, o que indica que o filme está mais interessado em exibir o personagem do que em questioná-lo. Nem é preciso dizer que a família do verdadeiro Marty Reisman desaprovou o resultado. Não que o cara fosse um santo: não era. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. Mas eles disseram que o filme deturpa quem ele foi na vida real, afirmam que a versão mostrada não tem relação com o homem. Eles consideraram o retrato humilhante, pois transformou o atleta em uma figura degradante, exagerando os comportamentos negativos e construindo um personagem egoísta e mesquinho distante da realidade. Como filme também não achei a oitava maravilha: o ritmo é frenético e cansativo, deixando pouco espaço para o espectador respirar ou assimilar o que está acontecendo; a montagem é excessivamente fragmentada: são cortes rápidos e cenas curtas que nem sempre se desenvolvem plenamente, parecendo um aglomerado de episódios, tipo esquetes, que dão a sensação de uma grande colagem de momentos ao invés de uma narrativa orgânica. As músicas, apesar de boas, chamam mais atenção para si mesmas do que para a narrativa. É como se música, montagem e câmera quisessem competir entre si por atenção. O tom é instável, oscilando entre comédia, drama e caricatura sem encontrar um equilíbrio claro. Não me perguntem como mas o longa está indicado em nove categorias do Oscar, dentre elas Ator (apesar da caricatura moralmente degradante do personagem, Timothée Chalamet está ótimo no papel), Roteiro Original (com certeza original e não adaptado, já que usou o nome e a fama do tenista mas deturpou toda a autobiografia) e Edição (fãs de TikTok vão gostar). Se eu fosse votante, levaria no máximo Melhor Ator. E olhe lá.

7.3.26

"Paul McCartney: Homem em Fuga" - Morgan Neville (Reino Unido/EUA, 2025)

Sinopse:
Um retrato íntimo da jornada de Paul McCartney após o fim dos Beatles, quando ele e a esposa, Linda, formam os Wings.
Comentário: Julinho Bittencourt da Revista Fórum publicou: "O título pode parecer irônico – e é mesmo – mas, tudo na vida é referência. Após fazer parte desde a adolescência daquela que é considerada até hoje a 'maior banda do planeta', ou seja, os Beatles, o músico Paul McCartney cai em depressão com a dissolução do grupo, no final da década de 60. Milionário, autor de inúmeros sucessos e com a vida ganha com menos de trinta anos de idade, o personagem se vê desolado.
Ao leitor, que assim como a maioria de nós, aposta corrida com os boletos mês a mês, a reação de Paul McCartney pode parecer ultrajante. Não há, afinal, do que reclamar, não é mesmo? O fato é que nenhum de nós é Paul McCartney, objeto de milhares (ou até mesmo milhões) de reportagens, filmes, especulações, triunfos e, por fim, fracassos também.
E é justamente a visão de uma celebridade que chega ao topo e, quando tudo acaba, fica sem saber o que fazer da vida, que trata o excelente documentário 'Paul McCartney: Man on the Run', de Morgan Neville.
O longa tem duas importâncias vitais. A primeira delas bastante óbvia, é o acervo enorme de imagens inéditas, depoimentos e registros sobre o ex-beatle, o casamento com Linda – e sua enorme importância na reconstrução de sua vida – e a sinceridade com que tudo é tratado.
A segunda é que, todos nós, sobretudo os que viveram um pouco mais, temos um momento na vida que nos parece ser o auge, o melhor e que jamais será superado. E é justamente aí que Paul McCartney nos ensina uma lição imprescindível neste documentário: o que fomos sempre vai existir em nós.
Ao afirmar, atônito, que jamais seria capaz de superar o que os Beatles fizeram, nenhum espectador em sã consciência é capaz de discordar. Apesar da obviedade, McCartney junta todos os seus preciosos cacos sem deixar nada para trás e se recompõe. Abre mão da pirraça de nunca mais tocar canções do antigo grupo, monta uma banda digna de respeito e, mais uma vez, se reinventa em um astro de primeira grandeza da canção mundial.
As imagens são o que todos os fãs adoram assistir. Cenas íntimas no meio de excursões, os músicos se divertindo no ônibus, as crianças e, sobretudo, Linda McCartney sempre presente, enfrentando falatório da imprensa e toda a sorte de maldades.
Paul afirmou que o que mais o comoveu na realização do documentário foi rever as imagens da sua ex-esposa, morta em decorrência de um câncer em 1998. O filme deixa a impressão nítida que, não fosse ela e ele jamais teria atravessado este rubicão em sua vida.
O filme termina em 1980, com o assassinato de John Lennon e a constatação final de que os Beatles jamais voltariam a se juntar. As cenas da primeira entrevista de McCartney ao falar sobre a morte do parceiro comentadas pelo filho mais novo de Lennon, Sean Ono Lennon, são comoventes.
O resto da história a gente conhece. Paul McCartney prossegue, aos 83 anos, fazendo shows mundo afora. E nós, da plateia ou não, seguimos assim como ele perseguindo a reconstrução do que fomos em nós mesmos.
O que disse a crítica 1: Matt Zoller Seitz do site Roger Ebbert avaliou com o equivalente a 3,1 estrelas, ou seja, bom Disse: A Fazenda High Park é "um santuário mental para o qual Paul escapa regularmente porque agora o reconhece como o local do período mais feliz de sua vida. Seu amor por Linda e o amor de Linda por Paul são reiterados inúmeras vezes, em palavras e imagens. O mesmo acontece com o laço fraternal entre John e Paul, que transcendeu suas disputas e se tornou mais caloroso e afetuoso quando eles não precisavam mais competir pelo controle dos Beatles. É comovente ouvir um homem de 83 anos ainda lamentando a perda de seus companheiros de vida mais importantes, John e Linda, nenhum dos quais ele esperava que morressem tão jovens".
O que disse a crítica 2: Jake Sokolsky do site Punch Drunk Critics avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Um dos aspectos mais marcantes de 'Paul McCartney: Homem em Fuga' são os vídeos caseiros e as fotos que Paul e sua esposa Linda guardavam meticulosamente. A família e o relacionamento de Paul com Linda são elementos centrais do filme. 'Paul McCartney: Homem em Fuga' foca nas transições que ocorreram na vida de McCartney, não apenas musicalmente, mas também pessoalmente. De certa forma, é uma história de amadurecimento, uma história de crescimento. Todos os elementos do filme se unem de forma primorosa. Neville e sua equipe conseguem apresentar um olhar envolvente sobre um dos maiores ícones da música. O filme definitivamente vale a pena ser assistido por pessoas de todos, não apenas pelos fãs dos Beatles".
O que eu achei: Nascida nos anos 60, sempre fui fã dos Beatles e sempre me surpreendo com a informação, que não me entra na cabeça, de que essa banda só esteve em atividade por meros 10 anos: de 1960 até 1970. Parece muito mais. Estou com 65 anos e, sempre que ouço uma música deles elas me soam empolgantes como soaria uma boa grande novidade. É difícil assimilar o tanto que eles produziram em apenas uma década. O documentário "Paul McCartney: Man on the Run" (2025) – traduzido para o português literalmente como "Paul McCartney: Homem em Fuga" -, se atém à vida do Paul McCartney após o fim dos Beatles. Ele tinha apenas 27 anos, já estava milionário, dinheiro não era problema, mas ele literalmente 'não sabia para onde correr', afinal ser um ex-beatle não é algo tão fácil de assimilar e, muito menos, de reconstruir. Nascido em Liverpool no Reino Unido, pode-se dizer que a paixão pela nova-iorquina Linda Eastman foi seu grande bote salva-vidas. Seu casamento com ela, ainda em 1969 - ano turbulento na relação entre Paul e John Lennon e também do fim dos Beatles - levou o casal a buscar uma vida pacata na fazenda High Park, na costa oeste da Escócia, onde puderam se isolar do mundo da fama e do assédio para respirar, acalmar a mente e refletir sobre novos rumos. Apesar de Linda ser do mundo da fotografia e não da música, foi com ela nos vocais que ele lançou seu primeiro álbum solo. No segundo, já houve a participação de outros músicos. E assim é que a banda Wings foi entrando em atividade, sendo o foco do documentário. Assim como The Beatles, a banda Wings durou 10 anos: de 1971 a 1981. A discografia completa começa com "Wild Life" (1971), passa por "Red Rose Speedway" (1973), "Band on the Run" (1973), "Venus and Mars" (1975), "Wings at the Speed of Sound" (1976), "Wings Over America" (1976), "London Town" (1978), "Wings Greatest" (1978), "Back to the Egg" (1979) e finaliza com "Concerts for the People of Kampuchea" (1981). No documentário é possível perceber como as tretas com John Lennon nunca deixaram Paul realmente em paz. Amigos de longa data que eram, felizmente conseguiram uma reaproximação das famílias antes de John ser assassinado em 1980, aos 40 anos, em frente ao edifício The Dakota, onde ele morava, na cidade de Nova Iorque. O documentário termina em 1980-1981 com o fim da banda Wings, não chegando a mostrar a morte de Linda por câncer em 1998, mas é possível ver tanto a adoção que Paul fez da filha que Linda já tinha antes de conhecê-lo - Heather McCartney Potter – bem como o nascimento de Mary (1969), Stella (1971) e James Louis (1977). Bem interessante. Com certeza quem é fã vai gostar de ver. Desliguei com aquela sensação agradável de ver um gênio se reconstruindo. Boa pedida.

2.3.26

"Pixote: a Lei do Mais Fraco" - Hector Babenco (Brasil, 1981)

Sinopse:
Pixote (Fernando Ramos da Silva) foi abandonado por seus pais e rouba para viver nas ruas. Ele já esteve internado em reformatórios onde conviveu com todos os tipos de criminosos e jovens delinquentes. Ele sobrevive se tornando um pequeno traficante de drogas, cafetão e assassino, mesmo tendo apenas dez anos.
Comentário: Trata-se do filme número 84 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Duas décadas antes de 'Cidade de Deus', o cinema brasileiro ganhava uma radiografia impiedosa da violência nas ruas e de como ela condenou a juventude das classes miseráveis a buscar o crime como caminho para a sobrevivência. 'Pixote: a Lei do Mais Fraco' conta a história de um garoto de dez anos que é recolhido das ruas de São Paulo para ser internado em um reformatório. Dois de seus amigos são assassinados e, com mais três colegas, ele foge para o Rio de Janeiro, onde entra para o mundo do tráfico de drogas, dos assaltos, assassinatos e da prostituição. Marília Pêra interpreta Sueli, prostituta que acolhe os jovens e os ajuda a cometer os crimes. Em uma cena de forte carga simbólica, Sueli amamenta Pixote, órfão não só dos pais, mas do país que o abandonou. Dirigido pelo argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (de 'Carandiru', de 2003 e 'O Beijo da Mulher Aranha', de 1985), 'Pixote' é baseado no livro-reportagem de Jozé Louzeiro, 'A Infância dos Mortos'. Segundo Babenco, trata-se de um 'momento de realidade do cotidiano'. A produção atingiu grande sucesso no exterior: foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e venceu o prêmio Leopardo de Prata no festival de Locarno. A crítica internacional comparou a obra a 'Os Esquecidos' (1950), de Luis Buñuel, e ressaltou a atuação do protagonista, Fernando Ramos da Silva, um antigo menino de rua que não conseguiu abandonar a marginalidade e acabou morto em 1987, após um tiroteio com a polícia".
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de assistir os 100 filmes essenciais da lista elaborada pela Revista Bravo! em 2007, desta vez conferi "Pixote: a Lei do Mais Fraco" (1981), um clássico incontornável do cinema brasileiro, baseado no livro "Infância dos Mortos" de José Louzeiro. O filme retrata a ausência total de perspectivas para crianças carentes e a brutalidade da 'lei do mais fraco' que rege tanto o reformatório quanto as ruas de São Paulo. A trama acompanha quatro meninos internados em uma instituição marcada por abusos e injustiças. Revoltados, eles fogem e passam a sobreviver ao lado da prostituta Sueli, envolvendo-se com traficantes e pequenos criminosos. Babenco mistura realismo social com um estilo quase documental, há um naturalismo aqui que nenhum outro trabalho seu alcançou. Nada é suavizado: a violência institucional, o abandono e a degradação são expostos sem filtros. O espectador não observa à distância, sente-se dentro daquele universo sufocante. O impacto é ampliado pelo elenco majoritariamente amador. Os meninos, incluindo o protagonista interpretado por Fernando Ramos da Silva, foram escolhidos entre mais de 3 mil candidatos em comunidades carentes. Essa escolha confere uma verdade rara às atuações. Uma das sequências dialoga diretamente com o “Caso Camanducaia”, episódio real de 1974 que simbolizou uma tentativa de limpeza social contra menores de rua. A cena mais célebre envolve Marília Pera como Sueli. O momento em que Pixote, doente, se aninha em seu colo e ela, num gesto improvisado, oferece o peito ao menino, seguido pela rejeição, concentra toda a melancolia do filme. Ali, Fernando Ramos da Silva traduz a dor e o abandono com força devastadora. Premiado no Brasil e no exterior, indicado ao Globo de Ouro e eleito Melhor Filme Estrangeiro por associações de críticos de Los Angeles e Nova York, "Pixote" permanece atual e perturbador. A trágica morte de Fernando Ramos da Silva que não conseguiu seguir carreira como ator ingressando no mundo da criminalidade, apenas reforça o elo cruel entre ficção e realidade. É um filme implacável, cru e absolutamente devastador. Impossível sair ileso.

1.3.26

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" - Chloé Zhao (Reino Unido/EUA, 2025)

Sinopse:
 A história de Agnes (Jessie Buckley) - a esposa de William Shakespeare (Paul Mescal) - enquanto ela luta para lidar com a perda de seu único filho, Hamnet (Jacobi Jupe).
Comentário: Chloé Zhao (1982) é uma diretora, roteirista, produtora e editora chinesa conhecida por seu trabalho em filmes independentes americanos. Seu primeiro filme, "Songs My Brothers Taught Me" (2015), estreou no Festival Sundance de Cinema. Seu segundo longa-metragem, "The Rider" (2017), recebeu indicações ao Independent Spirit Award de Melhor Filme e Melhor Diretor. Assisti dela o excelente "Nomadland" - Chloé Zhao (EUA, 2020) que ganhou o Oscar nas categorias Filme, Direção e Atriz (McDormand), de um total de seis indicações. Desta vez vou conferir "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (2025).
Paula Jacob da Harpers Bazaar publicou: "Conhecida por realizar filmes que misturam elementos de documentário com ficção, Chloé Zhao já amadureceu o seu olhar e formato, mas a essência da sua direção permanece a mesma: conseguir alcançar o âmago, tanto da história quanto do espectador. Em 'Hamnet' não é diferente. O filme tem roteiro adaptado por ela e Maggie O’Farrell, autora do livro de mesmo nome, publicado em 2021, que conta a vida de William Shakespeare antes de estontear a sociedade inglesa com a estreia da peça 'Hamlet'.
A narrativa é uma fabulação, porque pouco ou quase nada sobre a vida pessoal do célebre escritor e dramaturgo resistiu ao tempo – ou aos biógrafos mais interessados em sua genialidade. O que se sabe é de um primeiro casamento com uma mulher mais velha, com quem teve três filhos (uma menina e um casal de gêmeos), sendo um deles morto precocemente por uma questão de saúde. Com essas poucas peças de um imenso quebra-cabeça, Maggie imaginou como era a dinâmica dessa casa, quem era Agnes e como ela e as crianças se relacionavam com Shakespeare.
Na versão para o cinema, Zhao acolhe todas essas intuições e transforma em uma viagem sensorial sobre família, amor, criatividade e luto. Interpretada com o coração na mão por Jessie Buckley, a protagonista é vista como uma bruxa pela pequena comunidade onde vive no interior da Inglaterra. Filha da floresta, como dizem, ela ficou órfã cedo e foi criada por outra família junto com o irmão, mas ninguém a compreendia em sua essência. Alquimista de ervas e conectada profundamente com fauna e flora, Agnes teve um encontro arrebatador com William, daqueles impossíveis de fugir. Casaram-se pela espera da primogênita. Logo depois, tiveram gêmeos.
Apesar de parecer um conto de fadas idealizado de pessoas pouco reconhecidas pelos historiadores, 'Hamnet', na verdade, perfura a imagem perfeita do encontro amoroso para adentrar no instável terreno da arte e da criação. Enquanto o dramaturgo tentava fazer carreira em Londres, ela e as crianças ficavam na casa em Stratford-upon-Avon, mantendo o dia a dia rural de sempre: colheita, costura, comida. As viagens de William passaram a ser mais recorrentes e longas, criando lacunas de sua presença dentro de casa e uma saudade imensa na família.
Durante uma dessas sagas para conseguir espaço no teatro inglês da época, Hamnet adoece. A região estava cada vez mais assolada por surtos de peste bubônica, causando febre incontrolável e fraqueza na população. Inconformada com a situação, Agnes tenta de tudo para fazer a criança melhorar, mas não há mais tempo e o pequeno morre na sala da casa. A partir desse ponto, o filme se divide no processo físico da dor no corpo da mãe, visivelmente abalada pela perda; e no outro processo, introspectivo e soturno do pai. A falta de comunicação entre os dois faz esmaecer as cores do dia, e a rotina se mostra um exercício cruel de se manter sã diante do inominável.
Além de Agnes Shakespeare, 'Hamnet' também é capaz de dar contorno, textura, cheiro para o menino que inspirou o pai a criar uma das obras mais célebres da história. Uma encenação final construída por Zhao e sua equipe de design de produção, encabeçada por Fiona Crombie, que tira o fôlego de qualquer amante da literatura e da dramaturgia. Aliás, o filme inteiro evoca a seriedade da atuação teatral, com um elenco que não teme a vulnerabilidade. E não digo nem só a premiada Jessie Buckley e o já inebriante Paul Mescal, mas o pequeno Jacobi Jupe, que vive Hamnet, com uma performance à altura de seus companheiros adultos de cena. A emoção é inescapável".
O filme concorre às seguintes categorias no Oscar: Filme, Direção (Chloé Zhao), Atriz (Jessie Buckley), Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Figurino, Trilha Sonora (Max Richter) e Escalação de Elenco (Nina Gold).
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 1 estrela, ou seja, sofrível. Disse: "Se há 28 anos 'Shakespeare Apaixonado' tentou imaginar o que inspirou o bardo a escrever não apenas 'Romeu e Julieta', mas 'Noite de Reis', em 2025 a cineasta chinesa Chloé Zhao decidiu conjecturar sobre a jornada emocional que gerou 'Hamlet', juntando-se à escritora Maggie O´Farrell para adaptar o livro publicado por esta e que aqui se transforma em algo que poderia facilmente ser intitulado 'Shakespeare Enlutado'. Infelizmente, se o trabalho que rendeu o Oscar a Harvey Weinstein e a Gwyneth Paltrow já não representava uma obra memorável, aqui o resultado se torna ainda pior graças à mão pesada da diretora, que conduz o longa com a sutileza de alguém que busca acender uma vela de aniversário com um lança-chamas, tratando drama e histrionismo como sinônimos e tentando arrancar a fórceps as lágrimas do espectador".
O que disse a crítica 2: Isabel Wittmann do site Feito Por Elas avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "O que Zhao faz é subverter uma lógica em que a mulher-natureza é obrigatoriamente oprimida pelo homem-cultura. Para a primeira, é possível perceber nesse lugar uma possibilidade de liberdade e expressão, ainda que com suas contradições, ao passo que no segundo se supre as limitações e necessidades. Tudo isso em uma trajetória de uma protagonista histórica (mesmo que ficcionalizada) intensa, mas com um cinema elaborado com um rigor admirável. Esse é um dos aspectos mais fascinantes do filme. [Além disso,] é bonito ver o que mulheres talentosas podem fazer pelo cinema contemporâneo, criando, e é sempre esperançoso que tenham mais espaço. 'Morra, Amor' e 'Hamnet' andam de mãos dadas cutucando questões pertinentes, provocando e, acima de tudo, entregando excelente cinema com tudo isso. Uma história sobre amor em suas diferentes facetas, sobre domesticidade e liberdade, sobre luto e reencontro, 'Hamnet' é a demonstração das qualidades expressivas do cinema de Chloé Zhao. E o resto é silêncio".
O que eu achei: Muito pouco se sabe sobre a vida pessoal do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). Nascido na pequena cidade de Stratford-upon-Avon, ele era filho do subprefeito da cidade, John Shakespeare, e de Mary Arden. Foi agraciado com uma boa educação, manifestando, desde cedo, seu talento artístico. Em 1582 ele casou-se com Anne Hathaway (também conhecida como Agnes) e juntos tiveram três filhos: Susanna (nascida em 1583) e os gêmeos Judith e Hamnet (nascidos em 1585). Hamnet, o único menino, veio a falecer em 1596, com apenas 11 anos de idade, muito provavelmente por conta da peste bubônica que assolava a nação. Alguns historiadores defendem a tese que a morte de Hamnet levou seu pai a escrever "A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca", já que, à época, os nomes Hamlet e Hamnet eram usados de forma intercambiável. Outros defendem que a peça é uma adaptação para o teatro da lenda medieval escandinava de Amleth, nada tendo a ver com a morte da criança. Foi de posse dessas e de outras poucas informações que a escritora Maggie O’Farrell escreveu, em 2021, o livro "Hamnet", preenchendo as lacunas de informações com suposições do que teria acontecido com essa família. O foco do livro e do filme, adaptado pela escritora junto com a diretora Chloé Zhao, é a personagem Agnes (interpretada magistralmente pela atriz Jessie Buckley), apresentada como uma mulher excêntrica e selvagem que costumava caminhar pela propriedade da família com seu falcão pousado na luva e que tinha dons extraordinários como prever o futuro, ler pessoas e curá-las com poções e plantas. Após o casamento, Agnes se torna uma mãe superprotetora e a força centrífuga na vida do marido, que seguira para Londres com o objetivo de se estabelecer como dramaturgo. A vida do casal é severamente abalada com a morte do menino que sucumbe a uma febre repentina. O luto da mãe – que é uma mulher do mundo da natureza – é aquele luto devastador que só quem é mãe e já perdeu um filho saberia explicar. O luto do pai – que é um homem do mundo do intelecto – defende a ideia que a escrita da peça foi a forma que ele encontrou para elaborar essa dor, apresentando a história invertida de um filho que perdeu seu pai, já que na peça o Rei da Dinamarca (o pai) é assassinado pelo seu irmão Claudio que, após matá-lo, casou-se com a então viúva Gertrudes, mãe do príncipe Hamlet (o filho), assumindo o trono. Esse pai morto, interpretado nas primeiras encenações pelo próprio William Shakespeare, é representado pelo personagem de um Fantasma que interage com o garoto, o Príncipe Hamlet, numa representação genial do fantasma que ele se tornou após perder o menino. Essa não deixa de ser uma especulação interessante já que a obra foi toda escrita entre os anos de 1599 e 1601, logo após o menino falecer em 1596O filme é muito bonito e triste que vale ser visto até por não se tratar de uma cinebiografia óbvia do dramaturgo. Atenção para o jovem Noah Jupe que faz o príncipe no palco nas cenas derradeiras da peça. Este ator é irmão do menino Jacobi Jupe que faz Hamnet-criança. A semelhança entre os dois serve bem à tese do filme.

28.2.26

"Sugarcane: Sombras de um Colégio Interno" - Emily Kassie & Julian Brave NoiseCat (Canadá/EUA, 2024)

Sinopse:
Túmulos sem identificação em escola indígena canadense causam indignação. Comunidade indígena inicia investigação e os sobreviventes confrontam o passado, desenterram verdades e buscam romper ciclos de trauma, enfrentando atrocidades históricas.
Comentário: O site do próprio filme nos conta que "'Sugarcane' é o primeiro longa-metragem documental de Julian Brave NoiseCat (descendente da Nação Lil'Wat de Mount Currie) e Emily Kassie. Ele é um retrato cinematográfico de uma comunidade durante um momento de reflexão internacional.
Ambientado em meio a uma investigação inovadora sobre abusos e mortes em um internato indígena, o filme capacita os participantes a romperem ciclos de trauma intergeracional, testemunhando verdades dolorosas e há muito ignoradas – e o amor que perdura em suas famílias, apesar da revelação do genocídio.
Em 2021, a descoberta de sepulturas não identificadas perto de um internato indígena administrado pela Igreja Católica no Canadá provocou uma onda de indignação nacional sobre a separação forçada, a assimilação forçada e os abusos sofridos por muitas crianças nessa rede de internatos segregados, concebida para destruir gradualmente a cultura e o tecido social das comunidades indígenas.
Quando Kassie, jornalista e cineasta, pediu a seu antigo amigo e colega, NoiseCat, que dirigisse um filme documentando a investigação da Primeira Nação de Williams Lake sobre a Missão de São José, ela jamais imaginou o quão próxima essa história estava da própria família dele.
Conforme a investigação prosseguia, Emily e Julian viajaram de volta aos rios, florestas e montanhas de suas terras ancestrais para ouvir as inúmeras histórias dos sobreviventes.
Durante a produção, a própria história de Julian tornou-se parte integrante deste belo e multifacetado retrato de uma comunidade. Ao oferecer espaço, tempo e profunda empatia, os diretores revelaram o que estava oculto. Kassie e NoiseCat se depararam tanto com a dor extraordinária que esses indivíduos precisavam suprimir como forma de sobrevivência, quanto com a beleza singular de um grupo de pessoas que encontrava forças para perseverar".
O que disse a crítica 1: André Barcinski da Folha SP avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Nem toda grande história rende um grande documentário. É o caso de 'Sugarcane', (...) um dos filmes documentais mais premiados de 2024, mas que parece estar sendo celebrado mais pela força de sua incrível história do que por seus méritos cinematográficos. (...) O filme tenta abarcar muitas histórias, e talvez esse seja o seu problema central. Há tantos personagens e tantas subtramas que o espectador acaba se perdendo na narrativa, e a força dramática da história se perde. (...) Merece ser visto, mas fica aquém da força de sua história".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "É assim que se manifesta o trauma geracional. Este documentário impactante e multifacetado entrelaça uma investigação obstinada sobre os crimes horríveis perpetrados contra gerações de crianças indígenas em um internato administrado pela Igreja Católica no Canadá, com relatos do efeito cascata do trauma, de avós a pais e filhos. É uma obra notavelmente corajosa e reveladora, especialmente para o codiretor Julian Brave NoiseCat e seu pai, Ed Archie NoiseCat, cuja dolorosa jornada em busca de cura é a espinha dorsal do filme. Os fatos repugnantes do caso são apresentados com uma contenção respeitosa, mas é impossível assistir a este filme sem sentir uma raiva fria e implacável em nome das vítimas".
O que eu achei: As origens do passado canadense confundem-se com as teorias que visam explicar o processo de ocupação do território americano. Segundo alguns indícios, acredita-se que populações de aborígenes tenham chegado a essa região há cerca de 30.000 anos. Em seguida vieram os vikings, que há cerca de 1.000 anos promoveram um curto período de ocupação da Ilha de Terra Nova, já inaugurando uma série de conflitos entre eles e os nativos. Passados seis séculos, o navegador italiano Giovani Caboto, a serviço dos membros da Coroa Britânica, reivindicou o domínio europeu no ano de 1497. Logo em seguida, os franceses também se fixaram na região. As tentativas de assimilar os povos indígenas estavam enraizadas no colonialismo imperial, motivadas pelo conceito de propriedade de terra e pela crença de que os colonizadores, por conta de sua suposta superioridade racial e cultural, estavam trazendo civilização a povos selvagens que jamais poderiam se civilizar por si mesmos. Nesse sentido, esforços de assimilação tiveram início já no século XVII, com a chegada de missionários franceses e, posteriormente, de missionários anglicanos, que abriram inúmeras escolas para difundir o Cristianismo. A princípio essas escolas funcionavam por períodos curtos, depois se transformaram em internatos. A partir de 1894 – segundo informa o documentário - o governo canadense forçou crianças indígenas a frequentar esses colégios. O estrago foi grande. A divulgação do estereótipo de que a população indígena seria preguiçosa e pouco inteligente, e que só a educação religiosa severa seria capaz de "salvar" os jovens indígenas, fez essas instituições prosperarem e crescerem em números. Estima-se que chegaram a existir cerca de 139 escolas federais desse tipo no Canadá e 408 nos EUA, sendo que a última só foi fechada em 1997. Ocorre que em maio de 2021, o Canadá foi abalado pela descoberta de que mais de 200 crianças indígenas desaparecidas estavam enterradas clandestinamente nos arredores de um desses internatos (localizado em Kamloops, província de Colúmbia Britânica), um fato que os povos indígenas do país já desconfiavam há décadas já que, ao longo da história canadense, “educação” sempre significou apagamento cultural e “integração” sempre significou genocídio – tal qual aconteceu em todas as Américas. O foco do documentário se fixa então em uma dessas escolas: a antiga Escola Residencial da Missão de Saint Joseph que funcionava na reserva indígena Sugarcane. O próprio povo indígena local está investigando essa unidade já que nos terrenos do colégio suspeita-se que se encontram os restos mortais de outros alunos indígenas secretamente sepultados. Protagonizado pelo próprio diretor Julian Brave NoiseCat, jovem indígena da Primeira Nação, o filme acompanha sua jornada em busca de respostas. Seu pai, Ed Archie NoiseCat, fora obrigado, como tantas outras crianças de Sugarcane, a frequentar esse internato onde sofreram todo tipo de agressão por parte dos padres que dirigiam o estabelecimento. Então ele tinha em seu próprio pai um ponto de partida para a execução do documentário. As entrevistas com os sobreviventes indicam que essas agressões envolviam cruéis sessões de tortura, que iam desde obrigá-las a suportarem o peso de calhamaços carregados com os braços estendidos acima da cabeça até a açoitá-las repetidamente. Havia a violência psicológica de fundo religioso e a violência física envolvendo estupros e abusos sexuais diversos. Crianças morriam na tentativa de fuga desses locais. Bebês, filhos de meninas com padres, eram incinerados deliberadamente. Apesar da investigação na Missão de Saint Joseph não apresentar respostas a todas as suas perguntas, ela acabou por desvendar um padrão de infanticídio, ao qual centenas de milhares de crianças foram submetidas por todo Canadá e EUA, demonstrando que os que sobreviveram alimentam ainda hoje as estatísticas que mostram que os indígenas locais são os maiores em número de casos de depressão, alcoolismo, pobreza extrema e suicídios. O documentário é chocante. Uma verdadeira aula de História que finaliza com a ideia que, se quisermos reparar as violências passadas e presentes do colonialismo, não há outra escolha senão agir. Imperdível.

27.2.26

"Mr. Bean - O Filme" - Mel Smith (Reino Unido/EUA, 1997)

Sinopse:
 
Uma galeria americana decide comprar, através da dádiva de um milionário, o importante quadro "A Mãe de Whistler" do artista James McNeill Whistler, que estava em Paris. Para reforçar a importância do acontecimento a galeria pediu à Royal National Gallery da Inglaterra que enviasse o seu mais ilustre conhecedor de arte para fazer o discurso de apresentação. O escolhido para a tarefa foi o empregado mais detestável que possuíam, Mr. Bean (Rowan Atkinson), pois era a única forma que encontraram para se verem livres dele temporariamente.
Comentário: Mel Smith (1952-2013) é um cineasta, ator e comediante inglês. São dele os seriados "Not the Nine O'Clock News" (1979-1982) e "Alas Smith and Jones" (1984-1998), dentre outros. Ele dirigiu cinco longas-metragens. "Mr. Bean - O Filme" (1997) é o primeiro filme que vejo dele.
Com o título original "Bean: The Ultimate Disaster Movie" (1997), o filme é baseado na série de televisão britânica "Mr. Bean" (1990-1995). Dirigido por Mel Smith e escrito por Robin Driscoll e Richard Curtis - ambos veteranos escritores do seriado original -, o filme é estrelado por Rowan Atkinson.
Na trama Mr. Bean trabalha como vigia de segurança no museu Royal National Gallery, em Londres. Apesar de ser bem-intencionado, o sujeito inadvertidamente comete atitudes desastrosas e destrutivas. Os membros do conselho de administração do museu passam a cogitar a demissão de Bean por ele dormir excessivamente durante a sua função no local, mas são impedidos pelo presidente do museu, que confia firmemente no trabalho de Bean. O conselho então sugere ao presidente que Bean seja enviado à Galeria de Arte Grierson, em Los Angeles, como representante do museu durante a cerimônia de apresentação do quadro "A Mãe de Whistler" (1871), comprado pelo filantropo General Newton por cinquenta milhões de dólares. Ao chegar nos Estados Unidos, Bean é recebido pelo curador local, David Langley, que está impressionado com o perfil falso do "Dr. Bean", e que planeja acomodá-lo em sua casa por dois meses, para desgosto de sua esposa Alison, seu filho Kevin e sua filha Jennifer. Claro que, daí em diante, tudo dará errado.
O que disse a crítica 1: Arthur Barbosa do site Plano Crítico avaliou com 2 estrelas, ou seja, ruim. Disse: "Embora a maioria das cenas tivesse a intenção de arrancar gargalhadas dos telespectadores, já que o personagem é adorado pelo mundo afora, o filme causa vergonha alheia. Bizarro, exagerado, maluco: não fez sentido algum ele atravessar o Oceano Atlântico, pois a história poderia se passar tranquilamente em Londres, na Inglaterra, terra original do Mr. Bean. Não teve cenas dele dirigindo o seu carro, incluindo, por exemplo, a participação especial do seu fiel amigo e companheiro, o ursinho Teddy, o qual apareceu somente na última cena. Além disso, apesar de a produção ser datada de 1997, as piadas são ultrapassadas, gerando, assim, um humor extremamente sem graça".
O que disse a crítica 2: Michael Dequina do site The Movie Report avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: "O roteiro de Richard Curtis, roteirista de 'Quatro Casamentos e um Funeral' (que 'criou' o personagem Mr. Bean com Atkinson), e Robin Driscoll não oferece muito em termos de enredo (...). Além disso, a direção de Smith rapidamente se acomoda em um ritmo previsível de preparação e desenrolar (Bean é deixado sozinho; Bean se mete em todo tipo de confusão absurda; as pessoas reagem). Mas as piadas são hilárias, graças em grande parte a Atkinson, que é um comediante mudo verdadeiramente talentoso. Mr. Bean quase não fala, e Atkinson consegue extrair o máximo de humor através de grunhidos, gestos, movimentos corporais e, principalmente, expressões faciais. Mas isso não significa que as coisas não sejam engraçadas nas raras ocasiões em que ele profere uma palavra; algumas das maiores gargalhadas acontecem durante um discurso culminante que ele é forçado a fazer".
O que eu achei: "Mr. Bean – O Filme" (1997) leva para o cinema o personagem criado e interpretado por Rowan Atkinson. A trama coloca o atrapalhado Bean em Los Angeles, onde é enviado como “especialista” para acompanhar a apresentação de uma famosa obra de arte em um museu. A principal virtude do longa é preservar o humor físico e quase mudo que consagrou o seriado. Algumas sequências - especialmente as envolvendo o famoso quadro "A Mãe de Whistler" (1871) do artista James McNeill Whistler - exploram bem o constrangimento crescente e a escalada do caos, marcas registradas do personagem. Por outro lado, a transposição para o formato de longa exige uma narrativa mais estruturada e nem todas as situações sustentam o mesmo frescor dos episódios curtos da TV. Ainda assim, o filme entrega boas risadas e funciona como entretenimento leve, mantendo o espírito do personagem. Atenção para a subida dos créditos, não desligue sem ver pois há gratas surpresas ali que não devem ser perdidas.

23.2.26

"Quando Voam as Cegonhas" - Mikhail Kalatozov (URSS, 1957)

Sinopse:
Durante os ataques alemães às tropas russas no estopim da Segunda Guerra, o jovem rapaz Boris (Aleksey Batalov) decide se alistar, deixando sua amada Veronika (Tatyana Samoylova) esperando por ele em Moscou. Com o passar dos meses, nenhuma notícia de Bóris, Veronika acaba se casando com Mark (Aleksandr Shvorin), um primo de Bóris. Mas o desespero e falta de aceitação dos absurdos da guerra fazem com que ela fique na eterna espreita, esperando a volta do antigo namorado.
Comentário: Mikhail Kalatozov (1903-1973) foi um cineasta, diretor de fotografia e roteirista russo – ele nasceu em Tiflis, URSS, hoje Tbilisi, Republica da Georgia. Ele trabalhou nos estúdios Lenfilm e Mosfilm, foi adido cultural na Embaixada da URSS nos EUA e ocupou o cargo de vice-ministro de Cinematografia. Dentre seus filmes estão “Coragem” (1939), “Valeri Chkalov” (1941), “Os Invencíveis” (1943), “Complô dos Condenados” (1950), “Turbilhões Hostis” (1953), “Três Homens Numa Balsa” (1953), “Soy Cuba” (1964) e “A Tenda Vermelha” (1969). "Quando Voam as Cegonhas" (1957) é o primeiro filme que vejo dele.
Fernando JG do site Plano Crítico publicou: "Até a morte de Stalin, e ainda alguns anos depois, a arte produzida na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) tinha como base o conceito de Realismo Socialista, em que a estética da criação estava minada pelos agentes do Estado, que decidiam o modo que a arte deveria ser produzida, e comumente apresentava o bem-estar soviético, o proletário como força de movimento, as paisagens rurais e o êxito do regime, como 'Lênin em Outubro' (1937), de Mikhail Romm e Dmitri Vasilyev.
Logo após essa centralização artística na URSS – que, convenhamos, não há nada de novo sob o sol de um regime totalitário, ainda que socialista -, a chave vira e Stalin morre, em 1957, e é então o momento em que a produção cinematográfica ganha novos ares e uma maior liberdade no ofício das artes. No ano seguinte da morte de Stalin, 'Quando Voam as Cegonhas' ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes ao retratar amor e guerra em um longa real e sentimental. Diferente da grande idealização de mundo proposta pelo realismo, 'Quando Voam as Cegonhas', ainda que dentro da influência do Partido, mostra também o outro lado da moeda ao filmar os destroços da Grande Guerra. É a partir deste instante que o cinema soviético abre caminho para a transição, cujo grande nome dessa mudança estética é Andrei Tarkovski com seu projeto simbólico e poético.
Particularmente, vejo que esse filme se aproxima de muitos outros que foram lançados mais para frente, como 'A Infância de Ivan' (1964), do Tarkovski, e 'A Russian Youth' (2019), de Alexander Zolotukhin. O traço comum em todos eles é que decidem tratar de um tema tão difícil com sensibilidade e delicadeza, com belos enquadramentos e um descritivismo excelente através da mise-en-scène. Se em Tarkovski e em Zolotukhin a guerra é vista pela ótica de uma criança, em 'Quando Voam as Cegonhas' este mesmo tema é visto por sobre as lentes do amor entre dois jovens, que têm suas vidas mudadas pela tragédia.
Boris (Aleksey Batalov) e Veronika (Tatyana Samoylova) caminham pela avenida, embebidos de paixão um pelo outro em um cenário hollywoodiano onde o amor é possível: É assim que começa o longa. Enquanto isso, no Céu, lá no alto, cegonhas voando, indicando mudança: é amor ou guerra? O diretor apresenta, com uma disposição cênica cheia de poesia, o casal de namorados, que segura um primeiro ato com planos e uma intensa vontade de estarem um ao lado do outro. É uma paixão jovem, avassaladora, que vai sofrer um processo de ruptura doloroso. Boris é proletário em uma fábrica, Veronika, uma enfermeira. Enquanto planejam uma vida juntos, a dois, Boris não deixa de pensar, por outro lado, que a guerra está batendo na porta e ele quer servir como voluntário – novamente esse heroísmo remanescente do realismo socialista aparece -, mas Veronika não concorda com essa ideia, e quando chega a carta de convocação, se desespera. Para ela, não é justo. E então Boris parte para a guerra, deixando Veronika, mas prometendo voltar. É um jovem nacionalista que quer salvar a sua nação do imperialismo nazista. Ao se separarem, ela acaba se casando com o primo de Boris algum tempo depois, enquanto este acaba por falecer no campo de batalha. Ela, em uma esperança quase messiânica, espera que o seu grande amor retorne, mas infelizmente já não é mais possível.
O diretor vê o seu próprio filme através de uma técnica chamada Chiaroscuro, apostando em contrastes tonais de Luz e Sombra para dar conta de uma carga dramática que oscila entre os temas do amor e da guerra. O uso estético diz tanto quanto o diálogo, já que a fotografia conta, por si só, a história. A câmera de mão visita minuciosamente, no primeiro momento, a beleza da cidade de Moscou. As luzes e a clareza da cidade se confundem com esse lirismo dos pombinhos enamorados. Vestida de branco, Veronika vive os seus melhores dias e é por ela que a gente conhece as belezas de uma Rússia pré-guerra. É lindo no ato inicial quando luz e sombra se camuflam e se sobreposicionam, como se uma entrasse dentro da outra, algo parecido com o que o Bergman fez em 'Persona' (1966) quando funde e mescla Alma e Elisabet.
Quando Boris vai para a guerra, predominantemente a sombra toma conta da ambientação, e o que antes era um cenário límpido e de possibilidade, como as ruas de Moscou no início do longa, dá lugar a um cenário de guerra, com trincheiras e barreiras por toda parte. A direção insiste em fazer esse contraste: o antes e o depois, demonstrando desastres por onde passa. É a versão soviética da guerra, abrindo para o público os horrores que a invasão alemã causou. Quando a direção decide retratar o abrigo, lugar que todos vão quando eclode uma guerra, ela o faz de maneira a mostrar o desespero e a desesperança em cada rosto, junto de um sombreamento característico.
A cena da explosão no apartamento, em que ela já está com o primo de Boris – e insatisfeita, óbvio, pois não o ama -, é um ótimo momento para mostrar a força desse expressionismo de luz e sombra, preto e branco, que atuam na construção cênica, como Murnau faz em 'Fausto' (1926). Nesta cena, do segundo ato, Moscou sofre um ataque aéreo, enquanto isso, o casal está dentro de casa tentando se proteger. A sombra toma conta da ambientação, junto com a carga dramática de um piano feroz. Veronika está vestida com uma mescla de cores brancas e pretas, e logo em seguida ela passa o resto do segundo e do terceiro ato vestida de roupas pretas. É a própria figura da sombra, representação da guerra e do luto. Ela passa por uma perda objetal e sofre de melancolia por essa perda causada pela guerra. Mesmo que demore a descobrir que seu amado foi morto, ela sofre pela ausência e as cores do seu vestuário denunciam esse sentimento de falta, bem como a acentuação de luz ou de sombra também indicam os sentimentos do momento.
Ao final do filme tudo retorna em branco: a luz do dia, a roupa de Veronika, as flores brancas. É o fim da guerra. As últimas cenas têm um forte apelo socialista, e é visivelmente influenciado pelos filmes de King Vidor, sobretudo pelo espírito de coletividade em 'O Pão Nosso' (1937). Cada cena parece ser pensada com detalhe, além de ter uma importância única na construção fílmica. Tudo é aproveitado. O plano-sequência de Veronika atravessando a casa indo abrir a porta para a mulher que entrega cartas, ansiosa para ver se tem algum recado para ela, é esteticamente lindo e tecnicamente impecável, com foco em cada movimento de avanço, em cada passo que ela dá. A câmera espiral, no momento em que Boris falece, seguida da alucinação é outro trunfo. Muito semelhante ao que Alejandro Jodorowsky fará em seu 'A Montanha Sagrada' (1973), com movimentos de câmera que se afastam do objeto como em um zoom, levando a quem assiste a um efeito hipnótico, o diretor aposta nesse distanciamento objetal no momento da morte de Boris, construindo um efeito prazeroso de assistir. Bem como a cena de Veronika atravessando os tanques de guerras numa atitude épica. Não surpreende em nada 'Quando Voam as Cegonhas' ter obtido a Palma de Ouro em Cannes.
Para falar de amor, o longa é apenas um soco no estômago. A trama da promessa de um amor eterno e do encontro de almas entre Boris e Veronika é de um romantismo ímpar. No entanto, tudo isso rompe com a eclosão da guerra. O tema da ausência e do abandono é o que impulsiona o drama. O diretor deixa a temática muito explícita na cena em que ouvimos o lamentar de um soldado ao descobrir que sua esposa o abandonou, e ele então deseja morrer naquele exato instante em que descobriu que foi trocado. O filme se utiliza da guerra para discutir também o amor. Veronika é, de algum modo, abandonada pelo marido que vai à guerra, e ela, por outro lado, não o espera retornar, casando com seu primo. Isso reverbera na própria situação das milhares de mulheres que perderam seus maridos, ou ficaram a uma eterna espera pelo retorno de alguém que não vai mais voltar. É uma fratura amorosa causada pela guerra. Se de um lado é a história épica dos perrengues e da vitória soviética em relação aos alemães, como numa hino de vitória e exaltação da própria União Soviética, por outro lado, é a narração de um coração partido e de uma mulher que sofre com um estado permanente de ausência e abandono em relação à sua perda amorosa, que se perde duas vezes: a primeira quando ele parte, a segunda quando ele morre. Mais a fundo, o roteiro trabalha de modo excelente a partir do mito do eterno retorno, reatualizando um motivo clássico nas artes e adaptando-o para a realidade soviética".
O que disse a crítica 1: Fernando JG do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: "Um belo filme russo, 'Quando Voam as Cegonhas' trata de uma situação comum no momento de guerra, que é quando o homem precisa partir, deixando família, esposa e filhos. Sem medo de que o melodrama possa atrapalhar a narrativa, a direção aposta justamente nela como fio condutor e obtém um resultado esteticamente impecável e uma narração excelente. Além disso, figura entre os filmes favoritos de Scorsese e do Coppola, o que não é pouca coisa".
O que disse a crítica 2: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica também avaliou com 4,5 estrelas. Escreveu: "'Quando Voam as Cegonhas' impressiona pela sua estética e pela mensagem pacifista". Segundo ele "os planos são belíssimos" e "os sons de bombas e outros ruídos substituem a música". É "uma experiência visualmente deslumbrante que reforça os momentos dramáticos de sua bela estória".
O que eu achei: Produzido pela Mosfilm o longa é um marco do cinema soviético do pós-guerra e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Ambientado em 1941, no momento em que a Alemanha invade a URSS, o filme acompanha Boris (Aleksey Batalov), jovem que se alista no Exército Vermelho pouco antes do aniversário de sua namorada Veronika (Tatyana Samoylova). Disposto a lutar e retornar como herói, ele deixa para trás uma vida que será profundamente transformada pelos efeitos da guerra. Embora ainda dialogue com a tradição patriótica do período, exaltando coragem, bravura e a importância dos heróis, o filme surge poucos anos após a morte de Stalin, em 1953, e já revela um abrandamento do tom propagandístico. O drama humano ganha espaço central. A guerra não é apenas mostrada como cenário épico, mas como uma força devastadora que reverbera no cotidiano das famílias e, sobretudo, na trajetória de Veronika. É a partir dela que o filme constrói seu núcleo moral. Em uma das sequências mais impactantes, Veronika parece ser violentada pelo primo de Boris. Carregando a vergonha e o peso do ocorrido, ela aceita casar-se com ele, mesmo consciente do sofrimento que isso pode causar ao namorado no front. Esse conflito íntimo amplia o debate sobre honra, culpa e sobrevivência emocional em tempos extremos. A célebre cena final simboliza uma espécie de libertação da personagem Veronika sugerindo um certo protagonismo feminino, algo impensável na década anterior. Há traços de melodrama, típicos do período, mas eles nunca ultrapassam o limite do aceitável. Com isso, o resultado é um filme forte, que equilibra contexto histórico e intensidade emocional. Atenção à fotografia de Sergey Urusevskiy. Boa parte da potência do filme se deve aos movimentos de câmera e às soluções expressivas que traduzem emoções de maneira singular. Boa pedida.

22.2.26

"Bugonia" - Yorgos Lanthimos (Irlanda/Reino Unido/Canadá/Coreia do Sul/EUA, 2025)

Sinopse:
Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) são dois jovens obcecados por conspirações. Eles sequestram a CEO de uma grande empresa, Michelle Fuller (Emma Stone), por acreditar que ela é uma alienígena que quer destruir a Terra. Teddy, Don, Michelle e um policial (Stavros Halkias) se envolvem em uma tensa batalha psicológica.
Comentário: Yorgos Lanthimos (1973) é um cineasta, produtor e roteirista grego. Já assisti dele as obras-primas "O Lagosta" (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017), os ótimos “Dente Canino” (2009) e "A Favorita" (2018), os bons “Alpes” (2011) e “Tipos de Gentileza” (2024) e o curioso "Kinetta" (2005). Desta vez vou conferir "Bugonia" (2025).
Alissa Wilkinson (The New York Times) escreveu: "Se há uma coisa que une os filmes de Yorgos Lanthimos, é que todo mundo fala como um alienígena tentando simular a linguagem humana. Talvez a emoção humana, também. A maioria dos personagens dele parece nova no planeta, seres que ainda não entenderam totalmente a coisa da interação interpessoal.
A sua comédia de 2023, 'Pobres Criaturas', apresentava um bebê no corpo de uma mulher solta na sociedade e encantada por cada parte dela. Mas você pode voltar até 'Dente Canino' (2009), seu filme infernal, possivelmente hilário e perturbador, sobre irmãos adultos criados em isolamento do mundo, e ver o mesmo DNA. Ninguém sabe o que está acontecendo em um filme de Lanthimos. Eu mal tenho certeza de que ele saiba.
Então, parece uma espécie de piada interna que 'Bugonia', a mais recente obra do diretor, seja um pouco sobre alienígenas, mas apresente seu diálogo mais humano. É praticamente naturalista, e embora o roteiro de Will Tracy seja baseado no filme de ficção científica 'Save the Green Planet!' (2003), de Jang Joon Hwan, o filme parece mais uma paródia maluca de Spielberg.
Teddy (Jesse Plemons) - que é, de certa forma, nosso herói - anda de bicicleta pelas estradas de terra perto de sua casa, usando uma mochila, e vive com seu primo Don (Aidan Delbis) em uma casa agradavelmente espaçosa cheia de bugigangas e objetos de gerações passadas. A trilha sonora cresce com instrumentos de corda. Você pode sentir a umidade na pele.
Teddy e Don são apicultores e conspiracionistas, uma combinação interessante, e Teddy está obcecado por sua teoria favorita: que Andromedanos - uma raça superior da galáxia vizinha - estão controlando o planeta e também destruindo-o. Seu foco se concentra em Michelle (Emma Stone), a principal executiva da empresa farmacêutica que parece empregar a maior parte da cidade.
Michelle é magra, fabulosamente rica e uma verdadeira 'girlboss', enquanto Teddy é sujo e tem um rabo de cavalo engordurado. Eles não poderiam ser mais diferentes. Teddy e Don estão certos de que, se capturarem Michelle e a destruírem, salvarão a Terra, já que ela e sua empresa estão no centro desse complô andromedano. Ela, obviamente, é uma Deles.
Este não é realmente o filme mais estranho de Lanthimos, e não é o mais engraçado ou mais divertido também. É, mais do que tudo, meio triste. Teddy teve uma vida bem ruim, cujos detalhes são gradualmente revelados à medida que a história avança, e ele é o tipo de cara que você esperaria que se enredasse em uma teoria da conspiração.
Michelle o identifica com bastante precisão como alguém preso em uma câmara de eco da internet, entrando em uma espiral onde cada uma de suas ideias é reforçada por outra. ('Isso é alguma bobagem que você leu no The Times?', ele grita para ela, só que ele não diz bobagem, e na verdade ela provavelmente ouviu o podcast.)
Mas mesmo um Lanthimos menor tem seus prazeres, se você gosta do que ele faz. Há um absurdismo errático em seu estilo: justo quando você acha que sabe do que se trata este filme, ele te sacode para o lado por um segundo, para que você não fique muito confortável. Você precisa continuar assistindo, apenas para saber no que tudo isso vai resultar - e provavelmente você não vai adivinhar o final.
Na verdade, porém, o motivo para assistir 'Bugonia' são seus protagonistas. Esta é a quarta colaboração de Stone com Lanthimos após 'A Favorita', 'Pobres Criaturas' e 'Tipos de Gentileza'. A maior parte do filme gira em torno da insistência de Teddy de que Michelle é uma alienígena e da insistência de Michelle de que ela não é. É um papel ideal para Stone, com seus olhos de anime imensos e sorriso levemente sobrenatural, e sua habilidade de alternar entre expressões impassíveis e vivacidade em um piscar de olhos.
A estrela do show, no entanto, é Plemons, que atuou ao lado de Stone em todos os três segmentos do tríptico 'Tipos de Gentileza', mas aqui recebe uma história de longa duração para brincar. Teddy não é um personagem fácil de interpretar. Ele é desagradável, preso em algum estado de desenvolvimento estagnado, absolutamente certo de sua razão e ainda assim totalmente ridículo e quase certamente perigoso. Ele desceu tanto em sua espiral que tem que falar com palavras muito difíceis, encadeadas em frases cuidadosamente ensaiadas, recitando-as apressadamente como se tivesse medo de ser tirado do seu caminho.
Tudo isso resulta em um filme que se assemelha mais a um drama de personagens do que a um filme de ação, embora seja um drama particularmente estranho. O que é mais notável, do ponto de vista de Lanthimos, é que desapareceram as frases rebuscadas e a gramática que soavam como se o diálogo tivesse sido (propositalmente) traduzido pelo Google Tradutor e revertido várias vezes".
"Bugonia" concorre ao Oscar de Melhor Filme, Atriz (Emma Stone), Roteiro Adaptado (Will Tracy) e Trilha Sonora (Jerskin Fendrix).
O que disse a crítica 1: Natalia Bocanera do site Cinema com Crítica avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Se a hierarquização social é manifesta nas relações, 'Bugonia' soa exagerado na representação do oprimido. Lanthimos não se importa em ridicularizar essas figuras, para submetê-las cada vez mais profundamente a uma exploração pelo corporativismo representado pela CEO a ponto de fundir a ignorância à classe trabalhadora. Não há vitimização do oprimido, que vai reproduzir a lógica de violência como resposta à sua realidade, e fica evidente a ideia de imutabilidade do poder. Entretanto, o tom da ridicularização ultrapassa os limites de uma ironia que já ficou por nós bem compreendida, tornando-se expressão incômoda de uma classe".
O que disse a crítica 2: Victor Cierro do site Tangerina UOL avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Bugonia' é, acima de tudo, um retrato afiado do nosso tempo. É sobre o poder da crença, o medo do desconhecido e a facilidade com que a verdade se distorce nas telas. Lanthimos entrega aqui não só o melhor filme de 2025 até agora, mas também um lembrete perturbador de como a ficção pode refletir – e expor – os nossos piores impulsos".
O que eu achei: A palavra grega “bugonia” - que dá título ao filme - remete à ideia de nascimento espontâneo. Etimologicamente, é construída pela junção dos significados de boi e geração, aludindo ao mito segundo o qual especificamente as abelhas podem nascer a partir de um boi ou animal morto em sacrifício. Segundo a crença, um apicultor chamado Aristeu, após perder suas colmeias, recupera-as por meio da bugonia, fazendo emergir novas abelhas da carcaça de um boi. Esse termo vem bem a calhar quando o assunto é teoria da conspiração, algo que afeta pessoas a acreditarem que as ideias mais absurdas - aquelas sem base científica e sem compromisso com a realidade, propagadas pelos chamados 'tios do zap' - podem se tornar reais. No filme, dois conspiracionistas - Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) - estão obcecados com a ideia de que Andromedanos - uma raça superior da galáxia vizinha - estão controlando o planeta Terra e também destruindo-o. Eles são apicultores e estão vendo as abelhas desaparecerem. Teddy viu no YouTube explicações sobre o assunto e está crente que Michelle (Emma Stone) - a principal executiva da empresa farmacêutica local - é uma deles. O plano então é capturá-la e fazer com ela os leve até seu imperador que vive em Andrômeda para tentar resolver esse assunto diretamente com ele. O filme é estranho, bizarro, paranoico, bem no estilo Yorgos Lanthimos de ser. Ele prende a atenção até o final, você mal pisca para poder acompanhar onde isso tudo vai dar. Mas achei o final decepcionante pois, apesar dele mostrar como crenças extremas e ambições pessoais podem deixar uma pessoa insana, ele acaba fazendo isso chancelando justamente esses comportamentos que nos desinformam e nos matam, se perdendo em seu próprio jogo de poder e ironia. Se a ideia era dizer que uma mentira repetida inúmeras vezes se torna verdade (a pós-verdade), o longa atinge seu objetivo. Porém é sabido como um filme influencia a maneira de pensar das pessoas então, por conta do final, que pode acabar fazendo um estrago tão nocivo quanto as próprias teorias da conspiração, acabei não gostando tanto. É um filme que vale ser visto pelo elenco (não sei como Jesse Plemons não está indicado ao Oscar), mas não pela sua conclusão. Mediano, no máximo.

18.2.26

"Manas" - Marianna Brennand (Brasil/Portugal, 2024)

Sinopse:
Ciente de que o futuro não lhe reserva muitas opções em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó, Marcielle (Jamilli Correa), de 13 anos, decide confrontar a engrenagem violenta que rege sua família e as mulheres da sua comunidade.
Comentário: Marianna Brennand (1980) é uma diretora, roteirista, produtora e documentarista brasileira, sombrinha neta do artista plástico pernambucano Francisco Brennand (1927-2019). Dentre seus filmes estão os documentários "O Coco, A Roda, O Pneu e O Farol" (2007) e "Francisco Brennand" (2012). "Manas" (2024) é o primeiro filme que vejo dela.
Marina Lourenço do site G1 escreveu que "Essa é a primeira vez que Marianna Brennand se dedica a um filme de ficção. Diretora dos documentários 'Francisco Brennand' (2012) e 'Danado de Bom' (2016), ela se inspirou nos casos de exploração sexual infantil da Ilha do Marajó (PA) para produzir 'Manas'.
O filme conta a história de Tielle (Jamilli Correa), garota de 13 anos que vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó. Em uma pequena casa de palafita, vivem ela, seu pai Marcílio (Rômulo Braga), a mãe Danielle (Fátima Macedo) e três irmãos (...). A família sofre com insegurança alimentar e compartilha o quarto para dormir. Com a chegada da puberdade, Tielle é incentivada pela mãe a vender açaí nas balsas da região. Lá, a garota passa a ser explorada sexualmente pelos tripulantes. Violência que não é tão diferente da que sofre em casa, onde seu pai a submete a abusos e assédios.
Com exceção de uma cena de socos e empurrões, 'Manas' dispensa o explícito. Em vez de uma violência gráfica estilizada, o filme causa espanto pela história em si e opta por não expor os corpos das atrizes adolescentes - escolha coerente diante de suas críticas à sexualização infantil. Ao mesmo tempo, toques e beijos maliciosos ganham espaço para enfatizar o lado sutil da violência sexual, que muitas vezes é tratada com tom permissivo, sobretudo quando os assediadores são pessoas próximas à vítima.
Marianna fez questão de tratar do assunto com bastante profundidade. Ao mesmo tempo em que nos leva à perversidade desse tipo de crime, a cineasta rejeita maniqueísmos. Enquanto vemos personagens complexos na tela, somos expostos a diferentes tipos de negligência.
Além do cuidado primoroso que o filme teve no retrato da exploração sexual infantil, suas cenas são altamente sensíveis e emocionantes. 'Manas' nos faz engolir em seco. É um chute no estômago. Muito bem amarrado, o roteiro cresce aos poucos. Com um início arrastado, o enredo engata quando Tielle começa a ser assediada. Dali em diante, um clima de suspense agonizante nos prende às cenas, que oscilam entre o previsível e o inesperado. Intenso, o final foge de clichês e dificulta ainda mais a digestão de tudo o que assistimos até então. É um paradoxo: causa alívio e perturbação.
O brilho de 'Manas' também está em seu elenco impecável. A protagonista Jamilli Correa é a que mais impressiona. A atuação tem um olhar marcado pelo medo, silêncio e revolta hipnotizantes. Surpreendentemente, é sua estreia como atriz. A paraense nunca havia atuado. Agora, aos 16 anos, ela tem um portfólio promissor que deve render a ela um futuro de grandes papéis. Rômulo Braga e Fátima Macedo também estão afiadíssimos em seus papéis. Isso vale para Dira Paes, que interpreta a policial Aretha, personagem inspirada em duas pessoas reais: o delegado Rodrigo Amorim e a ativista Marie Henriqueta, importantíssimos no combate à exploração sexual infantil no Marajó".
Em termos de premiações e apresentação em festivais o filme conta, até o momento, com 12 vitórias e 5 indicações, dentre elas a do Festival de Veneza onde Marianna ganhou o Director’s Award, principal prêmio da mostra Giornate Degli Autori. Na mesma semana do lançamento da produção no Brasil, Brennand embarcou para o Festival de Cannes, onde recebeu o prêmio Women In Motion Emerging Talent, voltado a cineastas promissoras que vêm se destacando na indústria.
O que disse a crítica 1: Marcelo Forlani do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Para não expor seu elenco infantil à mesma violência que estava denunciando, Marianna trabalhou o elenco para demonstrar sentimentos, sem falar de motivos para senti-los. Assim, 'Manas' mostra a exploração sexual sem mostrar sexo, nem sensualizar. Ao contrário, o que se sente ao ver o filme é uma tensão palpável. Chega a lembrar a pescaria com timbó praticada pelos indígenas da região amazônica, em que uma toxina é jogada na água e deixa o peixe temporariamente paralisado".
O que disse a crítica 2: Lúcia Monteiro da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Manas' é um filme exuberante e triste, interpretado por um elenco muito forte - a expressividade de Jamilli Correa não deixa ninguém indiferente. (...) Mais habituada ao documentário, Marianna Brennand investiu na narrativa de ficção em meio a uma pesquisa aprofundada sobre tráfico de menores e abuso na Ilha de Marajó. Meio século depois de 'Iracema' (1974) [filme de Jorge Bodansky e Orlando Senna], porém, sobra o desejo de ver uma adolescência feliz e saudável em meio aos igarapés amazônicos. Ou em que o desejo de ir embora não seja apenas fruto do desespero".
O que eu achei: Li na Revista Piauí um texto da própria diretora contando que foi num encontro com a Fafá de Belém que ela soube mais a fundo dos casos de exploração sexual contra crianças e adolescentes que vivem às margens do Rio Tajapuru, situado na Ilha do Marajó, estado do Pará. Esse rio funciona como uma rota estratégica de navegação entre o rio Amazonas e outras partes da região, sendo uma área de trânsito intenso de balsas e navios que sobem para Manaus, Santarém e Porto Velho, abrigando diversas famílias ribeirinhas. Por ser documentarista, o primeiro ímpeto da diretora seria o de fazer um documentário, mas como colocar diante das câmeras mulheres e crianças que haviam sofrido traumas tão profundos? Pedir a elas que recontassem os abusos seria expô-las a mais uma violência. Foi aí que surgiu a opção por fazer uma ficção. Na trama, Marcielle (Jamilli Correa), uma jovem de 13 anos, vive na Ilha do Marajó junto ao pai, Marcílio (Rômulo Braga), à mãe, Danielle (Fátima Macedo) e aos irmãos, incluindo-se aí a 'mana' mais nova, Carol (Emily Pantoja). À medida que Tielle (como ela é chamada) vai amadurecendo, ela se vê presa entre dois ambientes abusivos: sua própria casa - onde ela precisa lidar com os assédios do pai - e a balsa – as embarcações onde a meninas da região vendem produtos e são exploradas sexualmente. Encurralada, ela decide confrontar a situação. Jamilli Correa, que tinha na época das filmagens apenas 13 anos, nunca havia atuado antes. A câmera basicamente não desgruda do seu expressivo rosto que vai-se transformando conforme ela passa a sofrer física e emocionalmente. Os atores profissionais Dira Paes, Fátima Macedo e Rômulo Braga completam o time principal, todos excelentes em suas atuações. A cineasta rejeita maniqueísmos, tudo é muito bem dosado, não há cenas de nudez ou sexo, não há trilha sonora e, apesar das lindas paisagens, o longa nos atinge em cheio, resultando num importante filme-denúncia que lança luz sobre um tema urgente, que não ocorre só lá. Como disse a diretora: "Espero que 'Manas' possa encorajar mulheres a quebrarem os silêncios que cercam todo tipo de violência que lhes é imposta". Excelente pedida.

17.2.26

“Garfield – Fora de Casa” - Mark Dindal (EUA/Reino Unido/Hong Kong, 2024)

Sinopse:
Mundialmente famoso por odiar segundas-feiras e amar lasanha, o gato Garfield está prestes a ter uma aventura ao ar livre quando ele e seu amigo canino Odie são forçados a sair de suas vidas perfeitamente mimadas para se juntarem a Vic, o verdadeiro pai de Garfield, em um arriscado assalto.
Comentário: O site Papo de Cinema nos conta que o personagem Garfield "egresso das tirinhas criadas por Jim Davis, é uma das figuras fictícias mais populares do mundo. Suas histórias foram publicadas em mais de 2500 jornais mundo afora. Originalmente chamada Jon [que é o nome do tutor do gato], a tirinha foi impressa pela primeira vez no periódico norte-americano The Pendleton Times em 08 de janeiro de 1976 – o design dos personagens era bem diferente do que conhecemos atualmente. Do jeito como ficou globalmente célebre, Garfield estreou em 19 de Junho de 1978. O clássico formato preto e branco das tirinhas foi modificado apenas em 1999, quando Garfield e seus amigos começaram a aparecer em cores.
Além do felino laranja que odeia segundas-feiras e adora lasanha acima de tudo, esse universo conta com o cão Odie; seu tutor Jon Arbuckle (cartunista); o gato Nermal, Pooky, ursinho de pelúcia do protagonista; Arlene, a bichana rosa que namora Garfield; Liz Wilson, veterinária e paixão de Jon, entre muitos outros.
Garfield migrou ainda nos anos 1980 ao audiovisual, primeiramente em especiais televisivos e seriados animados (...) fazendo a sua estreia nas telonas apenas em 2004".
Sobre a animação “Garfield – Fora de Casa” (2024), Célio Silva do site G1 publicou: “Felizmente, todos os elementos que consagraram o gato preguiçoso e bom de prato surgem no filme de 2024 com o bom humor que o tornou mundialmente famoso, mas de um jeito que agrada pais e filhos.
A trama mostra as origens de Garfield, desde que ele era um filhotinho que, depois de ser deixado nas ruas, é atraído pelo cheiro que vem de um restaurante de comida italiana, onde conhece o solitário Jon. Os dois se tornam grandes amigos e Garfield, além de ganhar um novo lar, mostra ter um apetite insaciável (especialmente por lasanha), para o desespero de seu dono. Após anos numa vida acomodada e confortável, acompanhado do cão Odie, também adotado por Jon, Garfield vê tudo virar de cabeça para baixo quando ele e seu companheiro são sequestrados pela gata de rua Jinx e seus comparsas. O motivo é que, junto com os bandidos, está Vic, o verdadeiro pai de Garfield. O velho gato se meteu numa encrenca e, por isso, é obrigado a participar de um assalto a uma produtora de leite. Mesmo ressentido com Vic, por tê-lo abandonado no passado, Garfield deixa a preguiça de lado para ajudar o pai a sair dessa enrascada. (...)
Quem tiver a oportunidade de ver ‘Garfield: Fora de Casa’ em sua versão original, poderá ouvir as vozes de diversos atores e atrizes em evidência no cinema internacional. Garfield é dublado por Chris Pratt, que já está virando figurinha fácil em animações. O Senhor das Estrelas de ‘Guardiões da Galáxia’ já dublou o Mario em ‘Super Mario Bros.’ e fez dublagens em outros filmes como ‘Dois Irmãos’ e ‘Uma Aventura Lego’. Além de Pratt, o elenco de dubladores também conta com Samuel L. Jackson como Vic, Nicholas Hoult como Jon e Hannah Waddingham como Jinx”.
O que disse a crítica 1: Victor Cierro do site Tangerina avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Escreveu: “A animação, diferente dos filmes de sucesso desse gênero, não pensa no público adulto. A trama usa piadas voltadas às crianças para tentar arrancar risadas. No entanto, a história do gato que ama lasanha fica previsível, sem nenhum momento memorável e muitas vezes sem graça”.
O que disse a crítica 2: Pedro Sobreiro do Cine Pop avaliou com 4 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “’Garfield – Fora de Casa’ é provavelmente a melhor adaptação que o ícone das tirinhas já teve e consegue manter toda a essência do personagem em uma aventura divertidíssima que vai arrancar risadas dos pequenos e encantar os adultos, principalmente os ‘pais de pet’. É aquele filme simples, mas que encontra justamente nessa ação de fazer o simples bem feito o seu maior mérito”.
O que eu achei: "Garfield - Fora de Casa" (2024) não possui nenhuma relação com filmes anteriores como "Garfield - O Filme" (2004) ou sua sequência "Garfield 2" (2006). Nos longas de 2004 e 2006 o que se fez foi um trabalho de live action no qual atores humanos interagiam com animações. Este faz parte de outra linha de produções, totalmente animada, onde não há elenco humano. Em "Garfield - Fora de Casa", os 10 minutos iniciais se preocupam em mostrar o histórico do gato Garfield, nos familiarizando sobre suas origens e em como ele foi adotado por Jon, tornando-se o preguiçoso, esfomeado e folgado gato obeso que odeia segundas-feiras. O tempo passa, Garfield já é um 'adulto' e – como anuncia o título em português – ele terá que sair de casa para ajudar seu verdadeiro pai, o gato Vic, que se meteu em uma enrascada. Como a proposta aqui é atingir o público infantil, o gato de humor mais ácido com sarcasmo que surgiu nas tirinhas de jornais no final dos anos 1970 é substituído por uma animação de piadas mais leves, não tão interessantes para o público adulto. O filme tem mensagens pertinentes sobre abandono e adoção, não é a última bolacha do pacote - teve momentos em que eu me esforcei para permanecer ligada na trama -, mas é uma boa animação para as famílias assistirem junto com as crianças, graças ao bom humor e à fofura de seus personagens principais. Além disso, é um programa perfeito para quem curte gatos de todos os tipos. Quem for ver a versão original em inglês deve prestar atenção à excelente interpretação de Samuel L. Jackson que faz a voz de Vic, pai do Garfield.

16.2.26

“Bird” - Clint Eastwood (EUA, 1988)

Sinopse:
Cinebiografia do saxofonista de jazz Charlie "Bird" Parker (Forest Whitaker), que morreu aos 34 anos de overdose de heroína. O filme mostra o relacionamento difícil de Parker com sua esposa, Chan Parker (Diane Venora), assim como cenas do saxofonista improvisando no palco iluminado com neon e fumaça de cigarro em clubes antigos de jazz.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano de quem já assisti 22 filmes, dentre eles a obra-prima “Os Imperdoáveis” (1992) e os ótimos “O Estranho Sem Nome” (1973), “As Pontes de Madison” (1995), “Sobre Meninos e Lobos” (2003), “Menina de Ouro” (2004), “Cartas de Iwo Jima” (2006) e “A Conquista da Honra” (2006).
“Bird” (1988) conta a história do saxofonista americano de jazz Charlie Parker (1929-2012). O título do filme é o apelido dele. Começou sendo Yardbird e, mais tarde, esse apelido foi encurtado para Bird, que significa pássaro em português.
Marcelo Orozco do site Giz_br nos conta que “Charlie nasceu em Kansas City, uma cidade grande com uma expressiva cena de jazz nos anos 1920 e 1930. Após dominar os rudimentos do saxofone alto, mais agudo que o tenor, o rapaz meteu as caras para tocar em alguma banda ou orquestra. Com 16 anos, já viajava para tocar profissionalmente e ficou baseado em Ozark, no estado do Missouri. Em 1939, mudou-se para Nova York para uma grande aposta em sua carreira. Logo tornou-se músico fixo da banda de Jay McShann, na qual ficaria até 1942. As grandes descobertas viriam na metrópole.
Numa jam session (sessão de improviso de músicos em suas horas vagas), Charlie descobriu que podia desconstruir toda a estrutura de notas da música ‘Cherokee’ – tocava algumas notas ou sequências, deixava outras de fora, acelerava a velocidade com que tocava um jorro de notas e obtinha um resultado que era praticamente outra música. Este era praticamente o método do bebop. Desconstruir para criar algo novo e diferente. Se pensarmos bem, isso segue sendo feito até hoje, só que agora digitalmente através de samplers.
Mas, além de criar em cima de standards, Parker e a turma do bebop também compunham do zero. E, quando falamos em turma, ela inclui o primeiro e maior parceiro de Parker: o trompetista Dizzy Gillespie, igualmente genial e com um visual ímpar, com boina, cavanhaque e bochechas que se inflavam como baiacus quando tocava.
Parker e Gillespie se conheceram numa esquina de Nova York. E descobriram que eram almas gêmeas musicais na criatividade e na ambição de fazer algo importante. Com outros monstros jovens como os pianistas Thelonious Monk e Bud Powell, e o baterista Max Roach, formou-se um núcleo duro de um novo jeito de tocar jazz. Não havia uma banda fixa na maior parte do tempo, mas o estilo ganhou um nome que agregava a todos: bebop.
Por causa de uma greve do sindicato dos músicos em relação às gravadoras entre 1942 e 1944, o bebop só chegou ao vinil com certo atraso. Como líder, Charlie Parker só gravou e lançou seus primeiros discos em 1945.
Dizzy partiu para formar seu próprio grupo em seguida e seu substituto na banda do líder Parker foi um rapazinho de 19 anos chamado Miles Davis. É impressionante a quantidade de gênios que orbitou em torno de Parker. (...)
Criou-se um culto a Parker que chegou a extremos de obsessão. Havia fãs dedicados que levavam gravadores rústicos aos shows para gravar apenas o saxofone de Parker. Isso gerou uma circulação de fitas e discos clandestinos (ou seja, piratas) que não tinha comparação na época.
(...) A célebre velocidade de Parker no saxofone não era pura técnica exibicionista sem alma. Ele era perfeitamente capaz de tocar lentamente e com sentimento, especialmente nas covers de baladas românticas. Charlie também não tinha medo de experimentar. Apreciador de música clássica, persistiu com gravadoras até finalmente conseguir gravar um álbum inteiro com orquestra de cordas, o célebre ‘Charlie Parker With Strings’, gravado em novembro de 1949 e puxado pelo clássico ‘Summertime’.
O problema é que a genialidade musical era afetada pelo comportamento errático de Charlie por seu vício pesado em heroína. Numa temporada na Califórnia, botou fogo nos lençóis de seu quarto de hotel e, pelado e chapado, saiu em disparada pelos corredores. Foi detido e internado de julho de 1946 a janeiro de 1947 no hospital psiquiátrico de Camarillo – que inspiraria sua brilhante composição ‘Relaxin’ at Camarillo’, gravada logo após sua saída da internação.
Outros incidentes causados pela droga podem ter sido menos espetaculares ou históricos. Mas não menos danosos à carreira e à saúde de Bird. Por isso seu corpo estava num estado lastimável ao morrer”.
O filme foi uma grande homenagem que Clint Eastwood fez a esse saxofonista mas, segundo Orozco, “dividiu opiniões quando chegou aos cinemas e ainda tem defensores e antipatizantes” pois “estudiosos do jazz questionam um monte de detalhes e incongruências de ‘Bird’. Uma das principais é a cena em que Parker fica revoltado ao ver um velho amigo saxofonista tocando rhythm’n’blues dançante – ou uma versão pioneira de rock’n’roll – num show. O amigo toca poucas notas ruidosas com intensidade puramente rítmica e apela para a tosca ‘buzinada’ (‘Honk!’) para excitar a plateia. Na saída do palco, Parker manifesta sem cerimônia sua contrariedade em relação ao que acabou de ver. Essa cena foi questionada. Charlie era um apaixonado por música, independentemente de estilos, e poderia até ter arriscado alguns experimentos com o rhythm’n’blues ou o rock’n’roll, que estouraria e tomaria conta do mundo uns poucos meses depois de sua morte”.
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Clint Eastwood já dirigira treze filmes antes de ‘Bird’ (1988), quase todos com qualidade acima da média. Mas, foi com a cinebiografia de Charlie ‘Bird’ Parker que Eastwood conquistou respeito como diretor de filmes de prestígio. Para os franceses, representou um presente, o argumento que precisavam para comprovar seu cinema autoral”.
O que disse a crítica 2: Matthew Vilela do site Mais Goiás colocou “Bird” na lista dos 10 melhores filmes feitos por Eastwood. Ele disse: “Eu amo jazz e Charles ‘Bird’ Parker foi um dos grandes artistas norte-americanos do gênero. Esta cinebiografia dirigida por Clint Eastwood e estrelada por Forest Whitaker segue a cartilha básica de cinebiografias no cinema, mas as atuações são tão boas, e a direção de Eastwood valoriza tanto elas, que o resultado é puro prazer”.
O que eu achei: Em "Bird" (1988), Clint Eastwood realiza um verdadeiro trabalho de amor. Escritor, produtor e diretor, o astro durão revela aqui sua face mais sensível: a de um apaixonado por jazz, pianista nas horas vagas e admirador confesso do gênero (anos antes já havia homenageado Thelonious Monk em documentário). O resultado é uma obra-prima que transcende o formato de cinebiografia. O filme mergulha na vida de Charlie Parker, o lendário 'Bird', figura central do bebop, revolucionário na técnica e na linguagem musical. Eastwood conduz a narrativa com delicadeza e precisão, capturando a atmosfera esfumaçada dos clubes, a vibração quase mística das jam sessions e a intensidade criativa que pulsava naquela geração. A trilha sonora autêntica não é mero acompanhamento: é alma, respiração e matéria viva. A estrutura narrativa impressiona. A montagem fragmenta a cronologia de forma tão fluida que o espectador é conduzido por memórias e estados de espírito sem perceber rupturas. Mais do que contar fatos, o filme traduz sensações. O efeito das drogas, o caos emocional, os altos e baixos de uma trajetória marcada por genialidade e autodestruição, tudo é sentido na pele. Não sei até que ponto a biografia é rigorosamente fiel aos fatos, há quem aponte uma ou outra inconsistência, mas isso se torna secundário diante da verdade emocional alcançada. Ao final compreendemos o espírito de Parker: sua dor, sua urgência criativa, sua grandeza. Vale destacar a atuação monumental de Forest Whitaker. Ele não interpreta Parker; ele o incorpora. Sua presença em cena é hipnótica, humanizando o mito sem jamais diminuir sua dimensão histórica. “Bird” é cinema no mais alto nível: sensorial e profundamente comovente. Uma celebração da arte e de um gênio que mudou a música para sempre. Obra-prima.