
Comentário: Lynne Ramsay (1969) é uma cineasta e roteirista escocesa. Ela ganhou reconhecimento internacional com filmes como "O Lixo e o Sonho" (1999), "O Romance de Morvern Callar" (2002) e "Precisamos Falar Sobre Kevin" (2011). Sua obra explora temas complexos como trauma, violência e relações familiares. Assisti dela o excelente "Precisamos Falar Sobre Kevin" (2011) e o mediano "Você Nunca Esteve Realmente Aqui" (2017). Desta vez vou conferir "Morra, Amor" (2025).
Aline Telles da Carta Capital publicou: "Com o renomado diretor Martin Scorsese entre os produtores, o drama psicológico 'Morra, Amor', estrelado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, (...) promete mais do que uma história intensa: o longa reacende discussões urgentes sobre saúde mental materna, isolamento e transtornos pós-parto.
Inspirado no livro da escritora argentina Ariana Harwicz, o filme dirigido pela britânica Lynne Ramsay acompanha Grace, uma mulher que, após se mudar com o marido para uma fazenda isolada, começa a vivenciar sintomas graves de deterioração mental após o nascimento do primeiro filho. A trama reflete os conflitos internos de uma maternidade real, distante do ideal romântico frequentemente retratado pela sociedade.
Para Fernando Tomita, coordenador da psiquiatria do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), a obra de Lynne Ramsay traz à tona uma realidade pouco comum, mas de extrema gravidade, gerando a necessidade de ser mais bem disseminada na população. 'O período pós-parto é um dos momentos mais vulneráveis na vida da mulher. Há mudanças hormonais intensas, privação de sono, inseguranças, ansiedade e, em muitos casos, solidão. O isolamento e a cobrança interna podem contribuir para o risco de desenvolver quadros como a depressão ou a psicose pós-parto', explica.
A psicose pós-parto, aliás, tema central do filme, é um transtorno grave, de evolução rápida, e que exige atenção médica imediata. 'É importante diferenciar a psicose de condições mais leves, como o chamado baby blues, que provoca tristeza e oscilação de humor nos primeiros dias após o parto. A psicose, por outro lado, envolve delírios, alucinações e desconexão com a realidade, podendo colocar em risco a mãe e o bebê', alerta Fernando Tomita.
Segundo o médico, o isolamento é um fator de risco determinante, algo que o filme retrata de forma simbólica e angustiante. 'A personagem se vê sozinha em meio ao campo, sem suporte, cercada pelo silêncio. Esse isolamento é um reflexo potente de muitas mulheres que, mesmo cercadas de pessoas, sentem-se invisíveis ou incompreendidas. Falar sobre isso é essencial para quebrar o tabu e promover empatia', analisa.
Com uma estética visceral e um olhar feminino sobre o sofrimento psicológico, 'Morra, Amor' faz eco à trilogia involuntária de Ariana Harwicz (composta também por 'A Débil Mental' e 'Precoz'), que discute a inadequação às normas sociais e o peso dos papéis tradicionais de gênero. 'A maternidade é frequentemente retratada como um momento de plenitude, mas, para muitas mulheres, ela também pode vir acompanhada de medo, exaustão e culpa. Reconhecer essas emoções é parte do cuidado', adiciona o psiquiatra.
Por isso, o acompanhamento psiquiátrico e psicológico no pós-parto é fundamental. Observar sinais como tristeza persistente, irritabilidade, apatia, pensamentos negativos ou comportamentos confusos, incluindo possível recusa de dar atenção ao bebê, pode fazer toda a diferença para um diagnóstico precoce e uma recuperação segura.
Com uma atuação elogiada e direção sensível, 'Morra, Amor' promete ser um dos filmes mais impactantes de 2025 — tanto pelo retrato cru da maternidade quanto pela reflexão que provoca sobre a saúde mental feminina. 'Quando a sociedade compreende que pedir ajuda é um ato de coragem, e não de fraqueza, damos um passo importante rumo à prevenção. O cinema, nesse sentido, tem um papel valioso: ele sensibiliza, humaniza e amplia o diálogo sobre temas que ainda são silenciados', finaliza Fernando Tomita".
O que disse a crítica 1: Isadora Granato do site Oxente Pipoca avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: "A execução dessa jornada mental é o grande tropeço de 'Morra, Amor'. O filme erra em concentrar todo o seu ímpeto dramático e narrativo nos primeiros 20 minutos. É nesse breve período que o espectador é bombardeado com as tensões, os questionamentos e o prenúncio da espiral psicótica de Grace. A montagem inicial é frenética e desconfortável, cumprindo a função de nos inserir no estado de espírito caótico da protagonista. O problema é que, após essa explosão inicial, o filme mergulha em um marasmo que se estende pela maior parte da sua duração. A promessa de uma desintegração mental constante se transforma em uma repetição tediosa de cenas que não avançam a narrativa nem aprofundam a crise da personagem de forma eficaz. O ritmo arrastado da 1h30min subsequente esgota a paciência, perdendo qualquer interesse gerado no começo".
O que disse a crítica 2: Kevin Rick do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "É um filme difícil em diversos sentidos, devastador e profundamente humano. Não nos pede para julgar Grace, mas para acompanhá-la até o limite daquilo que ela consegue suportar. E, no fim, talvez seja esse o maior horror: perceber que a protagonista poderia ter sido salva, se alguém tivesse realmente escutado antes de apenas olhar. Se 'Morra, Amor' é tão devastador emocionalmente, muito disso vem do modo como sua direção e sua concepção estética moldam a subjetividade de Grace. O filme poderia facilmente cair no melodrama ou na caricatura de 'mulher à beira de um ataque de nervos', mas a cineasta entende que o colapso mental não se expressa em explosões, e sim em gestos mínimos, silêncios, e uma câmera que observa mais do que explica".
O que eu achei: Baseado no romance homônimo de Ariana Harwicz, o drama acompanha uma mulher que vive em uma casa isolada em uma cidade rural no interior dos Estados Unidos, convivendo com uma condição de psicose e batalha diariamente com sua sanidade enquanto a maternidade e o casamento a enlouquecem. O complicado no longa é que essa condição não fica clara. Não se mostra, em nenhum momento, tratar-se de uma psicose, muito menos que seja uma psicose pós-parto. O casal, desde o início do filme se mostra diferenciado. Não sabemos se ela sofre de alguma doença mental ou se é apenas um daqueles casais estilo ‘sexo, drogas e rock’n roll’. Há cenas de sexo selvagem, um bebê abandonado na casa enquanto o casal sai de carro com o cachorro, um desleixo com a casa, com a alimentação e com a higiene que você fica se perguntando como a criança não fica doente vivendo com esses dois. Ao mesmo tempo nota-se que ela não está bem nas suas atitudes que oscilam entre a apatia e a agressividade, contra os outros ou contra ela mesma. Por conta do vai-e-vem temporal não se explicita em nenhum momento que a mãe fosse outra antes da criança nascer. Essa montagem confusa - que tenta simular o colapso mental da personagem - falha em estabelecer um fio condutor claro, tornando a experiência confusa, opaca e cansativa ao invés de imersiva. O ritmo também não é dos melhores: o filme começa acelerado e depois mergulha num marasmo repetitivo que não faz a narrativa avançar nem aprofunda a crise da protagonista de maneira eficaz. Fiquei lembrando de outros dois filmes que vi da mesma diretora. Em comparação com o excelente “Precisamos Falar Sobre Kevin” (2011), este não chega nem aos pés. No anterior, também havia a questão da maternidade. Mostrava o sofrimento da ambivalência materna - por um lado a alegria de ser mãe e, por outro, o luto pela perda de liberdade - e da falta de conexão biológica com o bebê desde a gestação. Em "Morra, Amor" (2025), o colapso da mãe é predominantemente químico. Ela sofre de uma depressão pós-parto severa que escala para a psicose perinatal. A diferença crucial é que enquanto “Precisamos Falar Sobre Kevin” constrói uma tensão progressiva com um propósito narrativo claro, “Morra, Amor” prioriza a imersão sensorial em detrimento do desenvolvimento da história. A estrutura imersiva deste longa me parece ter mais a ver com um outro longa da diretora, que eu também não gostei, chamado “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” (2017), sobre um veterano de guerra traumatizado. E isso pra mim, assim como não funcionou no filme de 2017, também não me agradou neste. Muitos vão gostar, mas para mim é um filme no máximo mediando.
Aline Telles da Carta Capital publicou: "Com o renomado diretor Martin Scorsese entre os produtores, o drama psicológico 'Morra, Amor', estrelado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, (...) promete mais do que uma história intensa: o longa reacende discussões urgentes sobre saúde mental materna, isolamento e transtornos pós-parto.
Inspirado no livro da escritora argentina Ariana Harwicz, o filme dirigido pela britânica Lynne Ramsay acompanha Grace, uma mulher que, após se mudar com o marido para uma fazenda isolada, começa a vivenciar sintomas graves de deterioração mental após o nascimento do primeiro filho. A trama reflete os conflitos internos de uma maternidade real, distante do ideal romântico frequentemente retratado pela sociedade.
Para Fernando Tomita, coordenador da psiquiatria do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), a obra de Lynne Ramsay traz à tona uma realidade pouco comum, mas de extrema gravidade, gerando a necessidade de ser mais bem disseminada na população. 'O período pós-parto é um dos momentos mais vulneráveis na vida da mulher. Há mudanças hormonais intensas, privação de sono, inseguranças, ansiedade e, em muitos casos, solidão. O isolamento e a cobrança interna podem contribuir para o risco de desenvolver quadros como a depressão ou a psicose pós-parto', explica.
A psicose pós-parto, aliás, tema central do filme, é um transtorno grave, de evolução rápida, e que exige atenção médica imediata. 'É importante diferenciar a psicose de condições mais leves, como o chamado baby blues, que provoca tristeza e oscilação de humor nos primeiros dias após o parto. A psicose, por outro lado, envolve delírios, alucinações e desconexão com a realidade, podendo colocar em risco a mãe e o bebê', alerta Fernando Tomita.
Segundo o médico, o isolamento é um fator de risco determinante, algo que o filme retrata de forma simbólica e angustiante. 'A personagem se vê sozinha em meio ao campo, sem suporte, cercada pelo silêncio. Esse isolamento é um reflexo potente de muitas mulheres que, mesmo cercadas de pessoas, sentem-se invisíveis ou incompreendidas. Falar sobre isso é essencial para quebrar o tabu e promover empatia', analisa.
Com uma estética visceral e um olhar feminino sobre o sofrimento psicológico, 'Morra, Amor' faz eco à trilogia involuntária de Ariana Harwicz (composta também por 'A Débil Mental' e 'Precoz'), que discute a inadequação às normas sociais e o peso dos papéis tradicionais de gênero. 'A maternidade é frequentemente retratada como um momento de plenitude, mas, para muitas mulheres, ela também pode vir acompanhada de medo, exaustão e culpa. Reconhecer essas emoções é parte do cuidado', adiciona o psiquiatra.
Por isso, o acompanhamento psiquiátrico e psicológico no pós-parto é fundamental. Observar sinais como tristeza persistente, irritabilidade, apatia, pensamentos negativos ou comportamentos confusos, incluindo possível recusa de dar atenção ao bebê, pode fazer toda a diferença para um diagnóstico precoce e uma recuperação segura.
Com uma atuação elogiada e direção sensível, 'Morra, Amor' promete ser um dos filmes mais impactantes de 2025 — tanto pelo retrato cru da maternidade quanto pela reflexão que provoca sobre a saúde mental feminina. 'Quando a sociedade compreende que pedir ajuda é um ato de coragem, e não de fraqueza, damos um passo importante rumo à prevenção. O cinema, nesse sentido, tem um papel valioso: ele sensibiliza, humaniza e amplia o diálogo sobre temas que ainda são silenciados', finaliza Fernando Tomita".
O que disse a crítica 1: Isadora Granato do site Oxente Pipoca avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: "A execução dessa jornada mental é o grande tropeço de 'Morra, Amor'. O filme erra em concentrar todo o seu ímpeto dramático e narrativo nos primeiros 20 minutos. É nesse breve período que o espectador é bombardeado com as tensões, os questionamentos e o prenúncio da espiral psicótica de Grace. A montagem inicial é frenética e desconfortável, cumprindo a função de nos inserir no estado de espírito caótico da protagonista. O problema é que, após essa explosão inicial, o filme mergulha em um marasmo que se estende pela maior parte da sua duração. A promessa de uma desintegração mental constante se transforma em uma repetição tediosa de cenas que não avançam a narrativa nem aprofundam a crise da personagem de forma eficaz. O ritmo arrastado da 1h30min subsequente esgota a paciência, perdendo qualquer interesse gerado no começo".
O que disse a crítica 2: Kevin Rick do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "É um filme difícil em diversos sentidos, devastador e profundamente humano. Não nos pede para julgar Grace, mas para acompanhá-la até o limite daquilo que ela consegue suportar. E, no fim, talvez seja esse o maior horror: perceber que a protagonista poderia ter sido salva, se alguém tivesse realmente escutado antes de apenas olhar. Se 'Morra, Amor' é tão devastador emocionalmente, muito disso vem do modo como sua direção e sua concepção estética moldam a subjetividade de Grace. O filme poderia facilmente cair no melodrama ou na caricatura de 'mulher à beira de um ataque de nervos', mas a cineasta entende que o colapso mental não se expressa em explosões, e sim em gestos mínimos, silêncios, e uma câmera que observa mais do que explica".
O que eu achei: Baseado no romance homônimo de Ariana Harwicz, o drama acompanha uma mulher que vive em uma casa isolada em uma cidade rural no interior dos Estados Unidos, convivendo com uma condição de psicose e batalha diariamente com sua sanidade enquanto a maternidade e o casamento a enlouquecem. O complicado no longa é que essa condição não fica clara. Não se mostra, em nenhum momento, tratar-se de uma psicose, muito menos que seja uma psicose pós-parto. O casal, desde o início do filme se mostra diferenciado. Não sabemos se ela sofre de alguma doença mental ou se é apenas um daqueles casais estilo ‘sexo, drogas e rock’n roll’. Há cenas de sexo selvagem, um bebê abandonado na casa enquanto o casal sai de carro com o cachorro, um desleixo com a casa, com a alimentação e com a higiene que você fica se perguntando como a criança não fica doente vivendo com esses dois. Ao mesmo tempo nota-se que ela não está bem nas suas atitudes que oscilam entre a apatia e a agressividade, contra os outros ou contra ela mesma. Por conta do vai-e-vem temporal não se explicita em nenhum momento que a mãe fosse outra antes da criança nascer. Essa montagem confusa - que tenta simular o colapso mental da personagem - falha em estabelecer um fio condutor claro, tornando a experiência confusa, opaca e cansativa ao invés de imersiva. O ritmo também não é dos melhores: o filme começa acelerado e depois mergulha num marasmo repetitivo que não faz a narrativa avançar nem aprofunda a crise da protagonista de maneira eficaz. Fiquei lembrando de outros dois filmes que vi da mesma diretora. Em comparação com o excelente “Precisamos Falar Sobre Kevin” (2011), este não chega nem aos pés. No anterior, também havia a questão da maternidade. Mostrava o sofrimento da ambivalência materna - por um lado a alegria de ser mãe e, por outro, o luto pela perda de liberdade - e da falta de conexão biológica com o bebê desde a gestação. Em "Morra, Amor" (2025), o colapso da mãe é predominantemente químico. Ela sofre de uma depressão pós-parto severa que escala para a psicose perinatal. A diferença crucial é que enquanto “Precisamos Falar Sobre Kevin” constrói uma tensão progressiva com um propósito narrativo claro, “Morra, Amor” prioriza a imersão sensorial em detrimento do desenvolvimento da história. A estrutura imersiva deste longa me parece ter mais a ver com um outro longa da diretora, que eu também não gostei, chamado “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” (2017), sobre um veterano de guerra traumatizado. E isso pra mim, assim como não funcionou no filme de 2017, também não me agradou neste. Muitos vão gostar, mas para mim é um filme no máximo mediando.








