
Comentário: O site do próprio filme nos conta que "'Sugarcane' é o primeiro longa-metragem documental de Julian Brave NoiseCat (descendente da Nação Lil'Wat de Mount Currie) e Emily Kassie. Ele é um retrato cinematográfico de uma comunidade durante um momento de reflexão internacional.
Ambientado em meio a uma investigação inovadora sobre abusos e mortes em um internato indígena, o filme capacita os participantes a romperem ciclos de trauma intergeracional, testemunhando verdades dolorosas e há muito ignoradas – e o amor que perdura em suas famílias, apesar da revelação do genocídio.
Em 2021, a descoberta de sepulturas não identificadas perto de um internato indígena administrado pela Igreja Católica no Canadá provocou uma onda de indignação nacional sobre a separação forçada, a assimilação forçada e os abusos sofridos por muitas crianças nessa rede de internatos segregados, concebida para destruir gradualmente a cultura e o tecido social das comunidades indígenas.
Quando Kassie, jornalista e cineasta, pediu a seu antigo amigo e colega, NoiseCat, que dirigisse um filme documentando a investigação da Primeira Nação de Williams Lake sobre a Missão de São José, ela jamais imaginou o quão próxima essa história estava da própria família dele.
Conforme a investigação prosseguia, Emily e Julian viajaram de volta aos rios, florestas e montanhas de suas terras ancestrais para ouvir as inúmeras histórias dos sobreviventes.
Durante a produção, a própria história de Julian tornou-se parte integrante deste belo e multifacetado retrato de uma comunidade. Ao oferecer espaço, tempo e profunda empatia, os diretores revelaram o que estava oculto. Kassie e NoiseCat se depararam tanto com a dor extraordinária que esses indivíduos precisavam suprimir como forma de sobrevivência, quanto com a beleza singular de um grupo de pessoas que encontrava forças para perseverar".
O que disse a crítica 1: André Barcinski da Folha SP avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Nem toda grande história rende um grande documentário. É o caso de 'Sugarcane', (...) um dos filmes documentais mais premiados de 2024, mas que parece estar sendo celebrado mais pela força de sua incrível história do que por seus méritos cinematográficos. (...) O filme tenta abarcar muitas histórias, e talvez esse seja o seu problema central. Há tantos personagens e tantas subtramas que o espectador acaba se perdendo na narrativa, e a força dramática da história se perde. (...) Merece ser visto, mas fica aquém da força de sua história".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "É assim que se manifesta o trauma geracional. Este documentário impactante e multifacetado entrelaça uma investigação obstinada sobre os crimes horríveis perpetrados contra gerações de crianças indígenas em um internato administrado pela Igreja Católica no Canadá, com relatos do efeito cascata do trauma, de avós a pais e filhos. É uma obra notavelmente corajosa e reveladora, especialmente para o codiretor Julian Brave NoiseCat e seu pai, Ed Archie NoiseCat, cuja dolorosa jornada em busca de cura é a espinha dorsal do filme. Os fatos repugnantes do caso são apresentados com uma contenção respeitosa, mas é impossível assistir a este filme sem sentir uma raiva fria e implacável em nome das vítimas".
O que eu achei: As origens do passado canadense confundem-se com as teorias que visam explicar o processo de ocupação do território americano. Segundo alguns indícios, acredita-se que populações de aborígenes tenham chegado a essa região há cerca de 30.000 anos. Em seguida vieram os vikings, que há cerca de 1.000 anos promoveram um curto período de ocupação da Ilha de Terra Nova, já inaugurando uma série de conflitos entre eles e os nativos. Passados seis séculos, o navegador italiano Giovani Caboto, a serviço dos membros da Coroa Britânica, reivindicou o domínio europeu no ano de 1497. Logo em seguida, os franceses também se fixaram na região. As tentativas de assimilar os povos indígenas estavam enraizadas no colonialismo imperial, motivadas pelo conceito de propriedade de terra e pela crença de que os colonizadores, por conta de sua suposta superioridade racial e cultural, estavam trazendo civilização a povos selvagens que jamais poderiam se civilizar por si mesmos. Nesse sentido, esforços de assimilação tiveram início já no século XVII, com a chegada de missionários franceses e, posteriormente, de missionários anglicanos, que abriram inúmeras escolas para difundir o Cristianismo. A princípio essas escolas funcionavam por períodos curtos, depois se transformaram em internatos. A partir de 1894 – segundo informa o documentário - o governo canadense forçou crianças indígenas a frequentar esses colégios. O estrago foi grande. A divulgação do estereótipo de que a população indígena seria preguiçosa e pouco inteligente, e que só a educação religiosa severa seria capaz de "salvar" os jovens indígenas, fez essas instituições prosperarem e crescerem em números. Estima-se que chegaram a existir cerca de 139 escolas federais desse tipo no Canadá e 408 nos EUA, sendo que a última só foi fechada em 1997. Ocorre que em maio de 2021, o Canadá foi abalado pela descoberta de que mais de 200 crianças indígenas desaparecidas estavam enterradas clandestinamente nos arredores de um desses internatos (localizado em Kamloops, província de Colúmbia Britânica), um fato que os povos indígenas do país já desconfiavam há décadas já que, ao longo da história canadense, “educação” sempre significou apagamento cultural e “integração” sempre significou genocídio – tal qual aconteceu em todas as Américas. O foco do documentário se fixa então em uma dessas escolas: a antiga Escola Residencial da Missão de Saint Joseph que funcionava na reserva indígena Sugarcane. O próprio povo indígena local está investigando essa unidade já que nos terrenos do colégio suspeita-se que se encontram os restos mortais de outros alunos indígenas secretamente sepultados. Protagonizado pelo próprio diretor Julian Brave NoiseCat, jovem indígena da Primeira Nação, o filme acompanha sua jornada em busca de respostas. Seu pai, Ed Archie NoiseCat, fora obrigado, como tantas outras crianças de Sugarcane, a frequentar esse internato onde sofreram todo tipo de agressão por parte dos padres que dirigiam o estabelecimento. Então ele tinha em seu próprio pai um ponto de partida para a execução do documentário. As entrevistas com os sobreviventes indicam que essas agressões envolviam cruéis sessões de tortura, que iam desde obrigá-las a suportarem o peso de calhamaços carregados com os braços estendidos acima da cabeça até a açoitá-las repetidamente. Havia a violência psicológica de fundo religioso e a violência física envolvendo estupros e abusos sexuais diversos. Crianças morriam na tentativa de fuga desses locais. Bebês, filhos de meninas com padres, eram incinerados deliberadamente. Apesar da investigação na Missão de Saint Joseph não apresentar respostas a todas as suas perguntas, ela acabou por desvendar um padrão de infanticídio, ao qual centenas de milhares de crianças foram submetidas por todo Canadá e EUA, demonstrando que os que sobreviveram alimentam ainda hoje as estatísticas que mostram que os indígenas locais são os maiores em número de casos de depressão, alcoolismo, pobreza extrema e suicídios. O documentário é chocante. Uma verdadeira aula de História que finaliza com a ideia que, se quisermos reparar as violências passadas e presentes do colonialismo, não há outra escolha senão agir. Imperdível.
Ambientado em meio a uma investigação inovadora sobre abusos e mortes em um internato indígena, o filme capacita os participantes a romperem ciclos de trauma intergeracional, testemunhando verdades dolorosas e há muito ignoradas – e o amor que perdura em suas famílias, apesar da revelação do genocídio.
Em 2021, a descoberta de sepulturas não identificadas perto de um internato indígena administrado pela Igreja Católica no Canadá provocou uma onda de indignação nacional sobre a separação forçada, a assimilação forçada e os abusos sofridos por muitas crianças nessa rede de internatos segregados, concebida para destruir gradualmente a cultura e o tecido social das comunidades indígenas.
Quando Kassie, jornalista e cineasta, pediu a seu antigo amigo e colega, NoiseCat, que dirigisse um filme documentando a investigação da Primeira Nação de Williams Lake sobre a Missão de São José, ela jamais imaginou o quão próxima essa história estava da própria família dele.
Conforme a investigação prosseguia, Emily e Julian viajaram de volta aos rios, florestas e montanhas de suas terras ancestrais para ouvir as inúmeras histórias dos sobreviventes.
Durante a produção, a própria história de Julian tornou-se parte integrante deste belo e multifacetado retrato de uma comunidade. Ao oferecer espaço, tempo e profunda empatia, os diretores revelaram o que estava oculto. Kassie e NoiseCat se depararam tanto com a dor extraordinária que esses indivíduos precisavam suprimir como forma de sobrevivência, quanto com a beleza singular de um grupo de pessoas que encontrava forças para perseverar".
O que disse a crítica 1: André Barcinski da Folha SP avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Nem toda grande história rende um grande documentário. É o caso de 'Sugarcane', (...) um dos filmes documentais mais premiados de 2024, mas que parece estar sendo celebrado mais pela força de sua incrível história do que por seus méritos cinematográficos. (...) O filme tenta abarcar muitas histórias, e talvez esse seja o seu problema central. Há tantos personagens e tantas subtramas que o espectador acaba se perdendo na narrativa, e a força dramática da história se perde. (...) Merece ser visto, mas fica aquém da força de sua história".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "É assim que se manifesta o trauma geracional. Este documentário impactante e multifacetado entrelaça uma investigação obstinada sobre os crimes horríveis perpetrados contra gerações de crianças indígenas em um internato administrado pela Igreja Católica no Canadá, com relatos do efeito cascata do trauma, de avós a pais e filhos. É uma obra notavelmente corajosa e reveladora, especialmente para o codiretor Julian Brave NoiseCat e seu pai, Ed Archie NoiseCat, cuja dolorosa jornada em busca de cura é a espinha dorsal do filme. Os fatos repugnantes do caso são apresentados com uma contenção respeitosa, mas é impossível assistir a este filme sem sentir uma raiva fria e implacável em nome das vítimas".
O que eu achei: As origens do passado canadense confundem-se com as teorias que visam explicar o processo de ocupação do território americano. Segundo alguns indícios, acredita-se que populações de aborígenes tenham chegado a essa região há cerca de 30.000 anos. Em seguida vieram os vikings, que há cerca de 1.000 anos promoveram um curto período de ocupação da Ilha de Terra Nova, já inaugurando uma série de conflitos entre eles e os nativos. Passados seis séculos, o navegador italiano Giovani Caboto, a serviço dos membros da Coroa Britânica, reivindicou o domínio europeu no ano de 1497. Logo em seguida, os franceses também se fixaram na região. As tentativas de assimilar os povos indígenas estavam enraizadas no colonialismo imperial, motivadas pelo conceito de propriedade de terra e pela crença de que os colonizadores, por conta de sua suposta superioridade racial e cultural, estavam trazendo civilização a povos selvagens que jamais poderiam se civilizar por si mesmos. Nesse sentido, esforços de assimilação tiveram início já no século XVII, com a chegada de missionários franceses e, posteriormente, de missionários anglicanos, que abriram inúmeras escolas para difundir o Cristianismo. A princípio essas escolas funcionavam por períodos curtos, depois se transformaram em internatos. A partir de 1894 – segundo informa o documentário - o governo canadense forçou crianças indígenas a frequentar esses colégios. O estrago foi grande. A divulgação do estereótipo de que a população indígena seria preguiçosa e pouco inteligente, e que só a educação religiosa severa seria capaz de "salvar" os jovens indígenas, fez essas instituições prosperarem e crescerem em números. Estima-se que chegaram a existir cerca de 139 escolas federais desse tipo no Canadá e 408 nos EUA, sendo que a última só foi fechada em 1997. Ocorre que em maio de 2021, o Canadá foi abalado pela descoberta de que mais de 200 crianças indígenas desaparecidas estavam enterradas clandestinamente nos arredores de um desses internatos (localizado em Kamloops, província de Colúmbia Britânica), um fato que os povos indígenas do país já desconfiavam há décadas já que, ao longo da história canadense, “educação” sempre significou apagamento cultural e “integração” sempre significou genocídio – tal qual aconteceu em todas as Américas. O foco do documentário se fixa então em uma dessas escolas: a antiga Escola Residencial da Missão de Saint Joseph que funcionava na reserva indígena Sugarcane. O próprio povo indígena local está investigando essa unidade já que nos terrenos do colégio suspeita-se que se encontram os restos mortais de outros alunos indígenas secretamente sepultados. Protagonizado pelo próprio diretor Julian Brave NoiseCat, jovem indígena da Primeira Nação, o filme acompanha sua jornada em busca de respostas. Seu pai, Ed Archie NoiseCat, fora obrigado, como tantas outras crianças de Sugarcane, a frequentar esse internato onde sofreram todo tipo de agressão por parte dos padres que dirigiam o estabelecimento. Então ele tinha em seu próprio pai um ponto de partida para a execução do documentário. As entrevistas com os sobreviventes indicam que essas agressões envolviam cruéis sessões de tortura, que iam desde obrigá-las a suportarem o peso de calhamaços carregados com os braços estendidos acima da cabeça até a açoitá-las repetidamente. Havia a violência psicológica de fundo religioso e a violência física envolvendo estupros e abusos sexuais diversos. Crianças morriam na tentativa de fuga desses locais. Bebês, filhos de meninas com padres, eram incinerados deliberadamente. Apesar da investigação na Missão de Saint Joseph não apresentar respostas a todas as suas perguntas, ela acabou por desvendar um padrão de infanticídio, ao qual centenas de milhares de crianças foram submetidas por todo Canadá e EUA, demonstrando que os que sobreviveram alimentam ainda hoje as estatísticas que mostram que os indígenas locais são os maiores em número de casos de depressão, alcoolismo, pobreza extrema e suicídios. O documentário é chocante. Uma verdadeira aula de História que finaliza com a ideia que, se quisermos reparar as violências passadas e presentes do colonialismo, não há outra escolha senão agir. Imperdível.










