
Comentário: Sergei Loznitsa (1964) é um cineasta ucraniano com origem bielorrussa. Ele nasceu na Bielorrússia, antiga União Soviética, e cresceu em Kiev, na Ucrânia. Formou-se em matemática aplicada e trabalhou como pesquisador de inteligência artificial antes de estudar cinema. Vive na Alemanha desde 2001. Seu trabalho alterna entre ficção e documentário, e muitos de seus filmes são construídos a partir de imagens de arquivo sobre a história soviética. “Dois Procuradores” (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
O site do IMS publicou: “‘Dois Procuradores’ é inspirado em um romance do físico, escritor e prisioneiro político Georgy Demidov.
Em entrevista a Lida Bach para o portal Dirty Movies, Loznitsa conta: ‘Ele escreveu seu romance em 1968, a partir de sua experiência de vida. Foi preso em 1938 e passou 14 anos em um campo de concentração da União Soviética, o Gulag. Anos depois, quando finalmente foi libertado, escreveu o romance. Na década de 1980, a KGB confiscou todos os seus manuscritos. Ele nunca viu uma única linha de seus textos ser publicada. Morreu em 1987. Após o colapso da União Soviética, sua filha lutou para recuperar as obras do pai. Finalmente, conseguiu. Em 2008, este livro foi publicado como parte de uma coleção baseada nas memórias de pessoas que estiveram no Gulag. Comprei todos os livros dessa coleção. Li este em 2010 e decidi fazer o filme. Essa história esteve dentro de mim por muito tempo. Finalmente, escrevi o roteiro em 2022. Filmamos no outono do ano passado, em outubro’”.
Mas o que seria o Gulag?
A palavra Gulag vem do russo Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-Trudovykh Lagerey, que significa Diretoria Principal dos Campos de Trabalho Corretivo. Era o sistema de campos de trabalho forçado da União Soviética, administrado pela polícia secreta (como a NKVD). Funcionou com maior intensidade da década de 1920 até meados da década de 1950, durante o regime de Josef Stalin. Dentre os presos estavam tanto criminosos comuns quanto milhões de prisioneiros políticos, opositores do regime, intelectuais, artistas e pessoas acusadas falsamente de traição ou de serem inimigos do Estado (especialmente durante o período dos Grandes Expurgo nos anos 1930). Os detentos eram submetidos a jornadas exaustivas de trabalho físico como mineração e construção de ferrovias, fome, frio extremo e violência, resultando na morte de centenas de milhares a milhões de pessoas.
Loznitsa prossegue: “‘Procuro fazer filmes sobre partes da nossa história que são chamadas de desconhecidas, não escritas ou ‘não mostradas’, porque a nossa história é imprevisível. Nos tempos soviéticos, as autoridades reescreviam a história de acordo com a direção proposta por Stalin. Gostaria de acrescentar que fiz um filme sobre isso: ‘Funeral de Estado’ (2019). Ele trata do funeral de Stalin. Também está ligado a esse regime totalitário e descreve esse sistema.
Também realizei ‘O Processo’ (2018), sobre os julgamentos de Stalin, em que pessoas se acusavam injustamente de sabotar o poder soviético e o proletariado. Essas autoacusações eram feitas sob pressão na prisão. Esse chamado ‘Partido Industrial’ nunca existiu. Parece uma história de Kafka.
Meu novo filme se insere na mesma linha desses trabalhos. (...) Gostaria de continuar nessa direção e fazer outro filme sobre o período, sobre as pessoas e seus erros. Porque todos, exceto aqueles que sabiam como o sistema funcionava, cometeram erros. Todos partilhavam a ilusão de que a justiça existia e de que poderiam alcançá-la’”.
A trama se passa na União Soviética em 1937. Milhares de cartas de detentos falsamente acusados pelo regime são queimadas em uma cela de prisão. Contra todas as probabilidades, uma delas chega a um recém-nomeado promotor local, Alexander Kornyev. Em busca de justiça, o jovem promotor se mobiliza para denunciar os métodos arbitrários de repressão praticados por agentes da polícia secreta, a NKVD.
O filme chega com um percurso internacional muito forte: estreou na competição oficial do Festival de Cannes de 2025 e, embora não tenha levado a Palma de Ouro (pela qual foi indicado), ele conquistou um reconhecimento paralelo importante: o Prêmio François Chalais, uma honraria dedicada a obras que melhor traduzem a realidade do mundo e defendem o compromisso do jornalismo e do cinema com a verdade. Além da vitória em Cannes, o longa-metragem acumulou indicações de destaque em grandes festivais internacionais pelo mundo ao longo de sua trajetória: no Festival de Cinema de Varsóvia foi indicado na mostra Encounters; no Festival Internacional de Cinema de Valladolid (Seminci) foi indicado ao Golden Spike de Melhor Filme; no Festival de Cinema de Jerusalém foi indicado ao prêmio de Cinema Internacional; no Lithuanian Film Awards teve múltiplas indicações técnicas e artísticas; além der feito passagens por TIFF (Toronto), NYFF (Nova York), Sydney, Hamburgo, e ter sido destaque internacional no Festival do Rio.
O que disse a crítica 1: Victor Russo do site Filmes e Filmes avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “O longa até tenta promover um final impactante, o que seria o golpe final no espectador, mas esse pouco funciona, vira apenas uma engrenagem extremamente antecipável (alguém esperava que o filme acabasse de outra forma?) dentro de um maquinário tão burocrático com uso da imagem e da narrativa cinematográfica quanto a burocracia mortal que o longa tenta denunciar. Não só o roteiro é previsível, a escolha de cada plano que virá a seguir também já é anunciado ao espectador. Acaba por ser apenas um filme morno e bem executado”.
O que disse a crítica 2: Inácio Araújo da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Loznitsa (...) afirma que fez seu filme como se ele fosse os olhos de Georgi Demidov, dono do relato que deu origem à obra. Ao mesmo tempo, lembra que reverenciar a memória não é só se referir ao passado. No período em que o filme se detém, a perseguição principal foi a líderes bolcheviques. Mas, pelo que Loznitsa nos mostra, não era preciso pertencer ao partido para acabar no Gulag. (...) Se o longa ilustra e atualiza essa brutalidade, é porque o mundo atual também é pontuado por violências inomináveis contra inimigos em geral, praticadas por tiranias. A elas responde com imagens rigorosas, retomando a estranha coloração dos filmes da Europa do leste nos tempos em que se rodava com negativo”.
O que eu achei: Se dermos uma olhada na história da Rússia, em 1917, a ruína do império czarista, sufocado pela insatisfação popular e pela guerra, abriu caminho para os bolcheviques de Lênin. Sob a promessa de 'paz, pão e terra', nascia um projeto que teoricamente abriria espaço para uma sociedade socialista sem classes. Para consolidar o regime contra forças contrarrevolucionárias, criou-se a Tcheka, a primeira polícia secreta soviética. Havia violência nesse início, mas a liderança do partido ainda funcionava sob uma lógica de debates intelectuais e apaixonados. É nesse cenário de disputas teóricas que surge Josef Stálin. Ao contrário de rivais como Leon Trotsky, um orador brilhante e general carismático, Stálin usou o poder administrativo de forma silenciosa. Nomeado Secretário-Geral em 1922, percebeu que controlar a burocracia significava dominar as nomeações de cargos em todo o país. Passo a passo, preencheu a máquina pública com funcionários leais. Antes de morrer em 1924, o próprio Lênin advertiu que Stálin era ‘grosseiro demais’ e sugeriu sua remoção, mas o documento foi engavetado. Nos anos seguintes, Stálin aliou-se estrategicamente a diferentes alas para destruir um adversário por vez, consolidando o poder absoluto no final da década. O filme “Dois Procuradores” (2025) captura justamente o desfecho trágico desse processo ao se ambientar no fatídico ano de 1937. Baseada no livro homônimo de Georgi Demidov - físico que transpôs para a literatura sua vivência de 14 anos nos gulags -, a trama segue o jovem e idealista promotor Kornyev. Recém-nomeado, chega às suas mãos a carta de um detento idoso que clama por assistência jurídica contra agentes corruptos da NKVD, a nova polícia secreta. Em sua busca por justiça, o rapaz mergulha cegamente nos corredores burocráticos do regime, sem perceber que se transformará na próxima engrenagem a ser triturada. O longa é impecável em sua composição técnica e estética. A fotografia do mestre romeno Oleg Mutu adota o formato clássico 4:3 que, deliberadamente, enclausura os personagens, gerando uma sensação claustrofóbica que mimetiza a própria burocracia estatal. A paleta de cores é econômica e fria, dominada por tons cinzentos, cáquis e marrons desbotados. Essa escolha cromática reconstrói um clima permanentemente nebuloso e paranoico que evoca o universo sombrio e estático do diretor Roy Andersson. Em entrevistas, o cineasta ucraniano revelou que vê na engrenagem stalinista de 1937 um reflexo direto da Rússia contemporânea. Para Loznitsa, o filme serve como um alerta sobre a fragilidade das instituições e sobre como a busca cega por justiça dentro de um sistema corrompido pode se transformar em uma trágica ilusão.
O site do IMS publicou: “‘Dois Procuradores’ é inspirado em um romance do físico, escritor e prisioneiro político Georgy Demidov.
Em entrevista a Lida Bach para o portal Dirty Movies, Loznitsa conta: ‘Ele escreveu seu romance em 1968, a partir de sua experiência de vida. Foi preso em 1938 e passou 14 anos em um campo de concentração da União Soviética, o Gulag. Anos depois, quando finalmente foi libertado, escreveu o romance. Na década de 1980, a KGB confiscou todos os seus manuscritos. Ele nunca viu uma única linha de seus textos ser publicada. Morreu em 1987. Após o colapso da União Soviética, sua filha lutou para recuperar as obras do pai. Finalmente, conseguiu. Em 2008, este livro foi publicado como parte de uma coleção baseada nas memórias de pessoas que estiveram no Gulag. Comprei todos os livros dessa coleção. Li este em 2010 e decidi fazer o filme. Essa história esteve dentro de mim por muito tempo. Finalmente, escrevi o roteiro em 2022. Filmamos no outono do ano passado, em outubro’”.
Mas o que seria o Gulag?
A palavra Gulag vem do russo Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-Trudovykh Lagerey, que significa Diretoria Principal dos Campos de Trabalho Corretivo. Era o sistema de campos de trabalho forçado da União Soviética, administrado pela polícia secreta (como a NKVD). Funcionou com maior intensidade da década de 1920 até meados da década de 1950, durante o regime de Josef Stalin. Dentre os presos estavam tanto criminosos comuns quanto milhões de prisioneiros políticos, opositores do regime, intelectuais, artistas e pessoas acusadas falsamente de traição ou de serem inimigos do Estado (especialmente durante o período dos Grandes Expurgo nos anos 1930). Os detentos eram submetidos a jornadas exaustivas de trabalho físico como mineração e construção de ferrovias, fome, frio extremo e violência, resultando na morte de centenas de milhares a milhões de pessoas.
Loznitsa prossegue: “‘Procuro fazer filmes sobre partes da nossa história que são chamadas de desconhecidas, não escritas ou ‘não mostradas’, porque a nossa história é imprevisível. Nos tempos soviéticos, as autoridades reescreviam a história de acordo com a direção proposta por Stalin. Gostaria de acrescentar que fiz um filme sobre isso: ‘Funeral de Estado’ (2019). Ele trata do funeral de Stalin. Também está ligado a esse regime totalitário e descreve esse sistema.
Também realizei ‘O Processo’ (2018), sobre os julgamentos de Stalin, em que pessoas se acusavam injustamente de sabotar o poder soviético e o proletariado. Essas autoacusações eram feitas sob pressão na prisão. Esse chamado ‘Partido Industrial’ nunca existiu. Parece uma história de Kafka.
Meu novo filme se insere na mesma linha desses trabalhos. (...) Gostaria de continuar nessa direção e fazer outro filme sobre o período, sobre as pessoas e seus erros. Porque todos, exceto aqueles que sabiam como o sistema funcionava, cometeram erros. Todos partilhavam a ilusão de que a justiça existia e de que poderiam alcançá-la’”.
A trama se passa na União Soviética em 1937. Milhares de cartas de detentos falsamente acusados pelo regime são queimadas em uma cela de prisão. Contra todas as probabilidades, uma delas chega a um recém-nomeado promotor local, Alexander Kornyev. Em busca de justiça, o jovem promotor se mobiliza para denunciar os métodos arbitrários de repressão praticados por agentes da polícia secreta, a NKVD.
O filme chega com um percurso internacional muito forte: estreou na competição oficial do Festival de Cannes de 2025 e, embora não tenha levado a Palma de Ouro (pela qual foi indicado), ele conquistou um reconhecimento paralelo importante: o Prêmio François Chalais, uma honraria dedicada a obras que melhor traduzem a realidade do mundo e defendem o compromisso do jornalismo e do cinema com a verdade. Além da vitória em Cannes, o longa-metragem acumulou indicações de destaque em grandes festivais internacionais pelo mundo ao longo de sua trajetória: no Festival de Cinema de Varsóvia foi indicado na mostra Encounters; no Festival Internacional de Cinema de Valladolid (Seminci) foi indicado ao Golden Spike de Melhor Filme; no Festival de Cinema de Jerusalém foi indicado ao prêmio de Cinema Internacional; no Lithuanian Film Awards teve múltiplas indicações técnicas e artísticas; além der feito passagens por TIFF (Toronto), NYFF (Nova York), Sydney, Hamburgo, e ter sido destaque internacional no Festival do Rio.
O que disse a crítica 1: Victor Russo do site Filmes e Filmes avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “O longa até tenta promover um final impactante, o que seria o golpe final no espectador, mas esse pouco funciona, vira apenas uma engrenagem extremamente antecipável (alguém esperava que o filme acabasse de outra forma?) dentro de um maquinário tão burocrático com uso da imagem e da narrativa cinematográfica quanto a burocracia mortal que o longa tenta denunciar. Não só o roteiro é previsível, a escolha de cada plano que virá a seguir também já é anunciado ao espectador. Acaba por ser apenas um filme morno e bem executado”.
O que disse a crítica 2: Inácio Araújo da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Loznitsa (...) afirma que fez seu filme como se ele fosse os olhos de Georgi Demidov, dono do relato que deu origem à obra. Ao mesmo tempo, lembra que reverenciar a memória não é só se referir ao passado. No período em que o filme se detém, a perseguição principal foi a líderes bolcheviques. Mas, pelo que Loznitsa nos mostra, não era preciso pertencer ao partido para acabar no Gulag. (...) Se o longa ilustra e atualiza essa brutalidade, é porque o mundo atual também é pontuado por violências inomináveis contra inimigos em geral, praticadas por tiranias. A elas responde com imagens rigorosas, retomando a estranha coloração dos filmes da Europa do leste nos tempos em que se rodava com negativo”.
O que eu achei: Se dermos uma olhada na história da Rússia, em 1917, a ruína do império czarista, sufocado pela insatisfação popular e pela guerra, abriu caminho para os bolcheviques de Lênin. Sob a promessa de 'paz, pão e terra', nascia um projeto que teoricamente abriria espaço para uma sociedade socialista sem classes. Para consolidar o regime contra forças contrarrevolucionárias, criou-se a Tcheka, a primeira polícia secreta soviética. Havia violência nesse início, mas a liderança do partido ainda funcionava sob uma lógica de debates intelectuais e apaixonados. É nesse cenário de disputas teóricas que surge Josef Stálin. Ao contrário de rivais como Leon Trotsky, um orador brilhante e general carismático, Stálin usou o poder administrativo de forma silenciosa. Nomeado Secretário-Geral em 1922, percebeu que controlar a burocracia significava dominar as nomeações de cargos em todo o país. Passo a passo, preencheu a máquina pública com funcionários leais. Antes de morrer em 1924, o próprio Lênin advertiu que Stálin era ‘grosseiro demais’ e sugeriu sua remoção, mas o documento foi engavetado. Nos anos seguintes, Stálin aliou-se estrategicamente a diferentes alas para destruir um adversário por vez, consolidando o poder absoluto no final da década. O filme “Dois Procuradores” (2025) captura justamente o desfecho trágico desse processo ao se ambientar no fatídico ano de 1937. Baseada no livro homônimo de Georgi Demidov - físico que transpôs para a literatura sua vivência de 14 anos nos gulags -, a trama segue o jovem e idealista promotor Kornyev. Recém-nomeado, chega às suas mãos a carta de um detento idoso que clama por assistência jurídica contra agentes corruptos da NKVD, a nova polícia secreta. Em sua busca por justiça, o rapaz mergulha cegamente nos corredores burocráticos do regime, sem perceber que se transformará na próxima engrenagem a ser triturada. O longa é impecável em sua composição técnica e estética. A fotografia do mestre romeno Oleg Mutu adota o formato clássico 4:3 que, deliberadamente, enclausura os personagens, gerando uma sensação claustrofóbica que mimetiza a própria burocracia estatal. A paleta de cores é econômica e fria, dominada por tons cinzentos, cáquis e marrons desbotados. Essa escolha cromática reconstrói um clima permanentemente nebuloso e paranoico que evoca o universo sombrio e estático do diretor Roy Andersson. Em entrevistas, o cineasta ucraniano revelou que vê na engrenagem stalinista de 1937 um reflexo direto da Rússia contemporânea. Para Loznitsa, o filme serve como um alerta sobre a fragilidade das instituições e sobre como a busca cega por justiça dentro de um sistema corrompido pode se transformar em uma trágica ilusão.









