
Comentário: Josh Safdie (1984) é um cineasta e roteirista norte-americano. Ele começou dirigindo alguns filmes em parceria com seu irmão mais novo Benny Safdie. "Marty Supreme" (2025) é o primeiro filme que vejo dele e o primeiro que ele dirige sozinho.
Luiza Lopes da Revista Super Interessante publicou: "Timothée Chalamet, que está concorrendo a Melhor Ator, interpreta Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa de Nova York que alterna entre torneios e partidas por dinheiro, usando apostas e pequenos esquemas para financiar viagens e disputar competições maiores. O filme é, em parte, inspirado em uma história real: a de Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial e conquistou 22 títulos entre 1946 e 2002. O roteiro também parte da autobiografia do atleta, 'The Money Player', que ajudou a moldar o tom e o universo do longa.
A ligação do diretor Josh Safdie com essa história começou justamente pelo livro. Ele conheceu Reisman depois que sua esposa, Sara, lhe deu um exemplar da autobiografia. Safdie leu e, junto com o roteirista Ronald Bronstein, passou a escrever uma história sobre 'um sonhador provinciano do Lower East Side que conseguiu se projetar no cenário mundial do pós-guerra por pura força de vontade', nas palavras de Bronstein à revista Time. Ele também descreveu o livro como uma porta de entrada para 'uma subcultura esquecida e extremamente vibrante de desajustados, obsessivos, malandros e sonhadores de Nova York'. Mas o que é real e o que foi inventado em Marty Supreme?
O atleta nasceu em 1º de fevereiro de 1930 e começou a jogar tênis de mesa aos 9 anos, depois do que descreveu como um 'colapso nervoso'. Ele dizia que o esporte era uma 'forma de aliviar a ansiedade'. Foi campeão júnior da cidade aos 13 anos. Pouco depois, se mudou para um hotel em que seu pai trabalhava – diferentemente do filme, que o mostra morando com a mãe. (...)
Retratado no filme, foi no salão Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, no lado oeste de Manhattan, que Reisman aprimorou suas habilidades. Em seu livro de memórias, ele narra: 'quando cheguei ao Lawrence’s pela primeira vez, havia muitos jogadores que podiam me vencer. Pela minha experiência em quadras de rua, eu achava que era especial. Aprendi que não era. Por um tempo, fiquei impressionado com essas pessoas, mas logo consegui vencer todas elas'.
Desde cedo, chamava atenção pelo jeito de se comportar nas partidas. Ficou conhecido como 'a Agulha', por ser magro e rápido, e também como o 'Bad Boy do Tênis de Mesa'. Relatos mostram que ele falava o tempo todo, provocando adversários sobre saques, nervos e namoradas, além de cutucar espectadores e árbitros. Essa atitude fazia parte do modo como ganhava dinheiro no jogo. Ele atraía desafiantes, perdendo algumas partidas de propósito antes de dobrar apostas e vencer com facilidade.
Aos 15 anos, por exemplo, em uma competição nacional na cidade de Detroit, Reisman tentou apostar 500 dólares na própria vitória e entregou cinco notas a quem achou que fosse um agiota. Era, na verdade, o presidente da associação nacional de tênis de mesa. A confusão terminou com ele sendo levado sob custódia pela polícia.
Também tinha como hábito medir a altura da rede antes das partidas para garantir a precisão – usando notas de $100.
No fim dos anos 1940, Reisman e o também jogador Doug Cartland fizeram turnês com a equipe de basquetebol Harlem Globetrotters por três anos, como atração do intervalo, batendo bolas com frigideiras e até com solas de tênis enquanto tocava 'Mary Had a Little Lamb'. Essa relação com os Globetrotters aparece no filme (em uma cena hilária, diga-se).
O momento mais decisivo da trajetória esportiva de Reisman – e que o filme transforma em motor da história – aconteceu em 1952. Na ficção, Mauser perde para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi) em um campeonato mundial e passa a perseguir uma revanche. O longa situa o torneio em Londres, mas o evento real daquele ano foi disputado em Mumbai, na Índia, e também marcou uma derrota para o japonês Hiroji Satoh, que chegaria ao título. Satoh apareceu com uma novidade tecnológica, a chamada “raquete sanduíche”, com camadas de espuma e borracha. O equipamento mudou o esporte ao deixar a bola mais rápida, com mais efeito e um quique menos previsível. Até então, com raquetes mais rígidas, o jogo era mais cadenciado, e muitos atletas conseguiam “ler” as jogadas pelo som do impacto e pelo ritmo das trocas. Reisman ficou indignado e se recusou a adotar a novidade. Em entrevista ao New York Times em 1998, disse: 'antes, havia um diálogo entre dois jogadores, no qual uma criança de 6 anos conseguia entender a conversa entre ataque e defesa. Hoje, um ponto é ganho ou perdido com um movimento imperceptível do pulso'. (...)
Nada indica que Kay Stone tenha existido na vida real. (...) Personagens importantes como Rachel Mizler (Odessa A’zion) e Wally (Tyler, the Creator) também ajudam a 'engordar' o drama, mas não têm correspondentes claros na vida real do jogador. (...)
Reisman passou décadas circulando por um submundo de apostas, exibições e improviso. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. (...)
Do fim dos anos 1950 até o fim dos 1970, administrou seu próprio salão no Upper West Side e também esteve ligado ao Riverside Table Tennis Club. Esses espaços atraíam um público variado e, em alguns momentos, celebridades como o ator Dustin Hoffman, os escritores Kurt Vonnegut e David Mamet e o enxadrista Bobby Fischer.
Reisman também levou seus truques para a TV. Ele apostava que conseguiria partir um cigarro ao meio com uma bola do outro lado da mesa, e fez a façanha no programa de Johnny Carson em 1975 e no de David Letterman em 2008.Faleceu em 2012, aos 82 anos, por complicações pulmonares e cardíacas. Nove meses antes de morrer, reafirmou sua postura competitiva em um perfil do New York Times: 'eu enfrentava as pessoas com espírito de gladiador. Nunca recuei de uma aposta'".
O longa está indicado em nove categorias do Oscar: Filme, Direção, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Original, Edição, Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Escalação de Elenco.
Luiza Lopes da Revista Super Interessante publicou: "Timothée Chalamet, que está concorrendo a Melhor Ator, interpreta Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa de Nova York que alterna entre torneios e partidas por dinheiro, usando apostas e pequenos esquemas para financiar viagens e disputar competições maiores. O filme é, em parte, inspirado em uma história real: a de Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial e conquistou 22 títulos entre 1946 e 2002. O roteiro também parte da autobiografia do atleta, 'The Money Player', que ajudou a moldar o tom e o universo do longa.
A ligação do diretor Josh Safdie com essa história começou justamente pelo livro. Ele conheceu Reisman depois que sua esposa, Sara, lhe deu um exemplar da autobiografia. Safdie leu e, junto com o roteirista Ronald Bronstein, passou a escrever uma história sobre 'um sonhador provinciano do Lower East Side que conseguiu se projetar no cenário mundial do pós-guerra por pura força de vontade', nas palavras de Bronstein à revista Time. Ele também descreveu o livro como uma porta de entrada para 'uma subcultura esquecida e extremamente vibrante de desajustados, obsessivos, malandros e sonhadores de Nova York'. Mas o que é real e o que foi inventado em Marty Supreme?
O atleta nasceu em 1º de fevereiro de 1930 e começou a jogar tênis de mesa aos 9 anos, depois do que descreveu como um 'colapso nervoso'. Ele dizia que o esporte era uma 'forma de aliviar a ansiedade'. Foi campeão júnior da cidade aos 13 anos. Pouco depois, se mudou para um hotel em que seu pai trabalhava – diferentemente do filme, que o mostra morando com a mãe. (...)
Retratado no filme, foi no salão Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, no lado oeste de Manhattan, que Reisman aprimorou suas habilidades. Em seu livro de memórias, ele narra: 'quando cheguei ao Lawrence’s pela primeira vez, havia muitos jogadores que podiam me vencer. Pela minha experiência em quadras de rua, eu achava que era especial. Aprendi que não era. Por um tempo, fiquei impressionado com essas pessoas, mas logo consegui vencer todas elas'.
Desde cedo, chamava atenção pelo jeito de se comportar nas partidas. Ficou conhecido como 'a Agulha', por ser magro e rápido, e também como o 'Bad Boy do Tênis de Mesa'. Relatos mostram que ele falava o tempo todo, provocando adversários sobre saques, nervos e namoradas, além de cutucar espectadores e árbitros. Essa atitude fazia parte do modo como ganhava dinheiro no jogo. Ele atraía desafiantes, perdendo algumas partidas de propósito antes de dobrar apostas e vencer com facilidade.
Aos 15 anos, por exemplo, em uma competição nacional na cidade de Detroit, Reisman tentou apostar 500 dólares na própria vitória e entregou cinco notas a quem achou que fosse um agiota. Era, na verdade, o presidente da associação nacional de tênis de mesa. A confusão terminou com ele sendo levado sob custódia pela polícia.
Também tinha como hábito medir a altura da rede antes das partidas para garantir a precisão – usando notas de $100.
No fim dos anos 1940, Reisman e o também jogador Doug Cartland fizeram turnês com a equipe de basquetebol Harlem Globetrotters por três anos, como atração do intervalo, batendo bolas com frigideiras e até com solas de tênis enquanto tocava 'Mary Had a Little Lamb'. Essa relação com os Globetrotters aparece no filme (em uma cena hilária, diga-se).
O momento mais decisivo da trajetória esportiva de Reisman – e que o filme transforma em motor da história – aconteceu em 1952. Na ficção, Mauser perde para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi) em um campeonato mundial e passa a perseguir uma revanche. O longa situa o torneio em Londres, mas o evento real daquele ano foi disputado em Mumbai, na Índia, e também marcou uma derrota para o japonês Hiroji Satoh, que chegaria ao título. Satoh apareceu com uma novidade tecnológica, a chamada “raquete sanduíche”, com camadas de espuma e borracha. O equipamento mudou o esporte ao deixar a bola mais rápida, com mais efeito e um quique menos previsível. Até então, com raquetes mais rígidas, o jogo era mais cadenciado, e muitos atletas conseguiam “ler” as jogadas pelo som do impacto e pelo ritmo das trocas. Reisman ficou indignado e se recusou a adotar a novidade. Em entrevista ao New York Times em 1998, disse: 'antes, havia um diálogo entre dois jogadores, no qual uma criança de 6 anos conseguia entender a conversa entre ataque e defesa. Hoje, um ponto é ganho ou perdido com um movimento imperceptível do pulso'. (...)
Nada indica que Kay Stone tenha existido na vida real. (...) Personagens importantes como Rachel Mizler (Odessa A’zion) e Wally (Tyler, the Creator) também ajudam a 'engordar' o drama, mas não têm correspondentes claros na vida real do jogador. (...)
Reisman passou décadas circulando por um submundo de apostas, exibições e improviso. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. (...)
Do fim dos anos 1950 até o fim dos 1970, administrou seu próprio salão no Upper West Side e também esteve ligado ao Riverside Table Tennis Club. Esses espaços atraíam um público variado e, em alguns momentos, celebridades como o ator Dustin Hoffman, os escritores Kurt Vonnegut e David Mamet e o enxadrista Bobby Fischer.
Reisman também levou seus truques para a TV. Ele apostava que conseguiria partir um cigarro ao meio com uma bola do outro lado da mesa, e fez a façanha no programa de Johnny Carson em 1975 e no de David Letterman em 2008.Faleceu em 2012, aos 82 anos, por complicações pulmonares e cardíacas. Nove meses antes de morrer, reafirmou sua postura competitiva em um perfil do New York Times: 'eu enfrentava as pessoas com espírito de gladiador. Nunca recuei de uma aposta'".
O longa está indicado em nove categorias do Oscar: Filme, Direção, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Original, Edição, Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Escalação de Elenco.
O que disse a crítica 1: Hamilton Rosa Jr. publicou em sua rede social que não gostou. Disse: "Esse filme, que concorre a nove Oscars, é um pingue pongue feito pra quem não tem prazer pelo pingue pongue. O esporte pouco interessa, a movimentação visa apenas os efeitos. Tudo decupado como esquetes de um humorístico pro Tik Tok. Daí talvez a razão do seu sucesso. Gera uma identificação com a galera esperta que não larga o celular no cinema. Mas o que incomoda é a convicção inabalável, do individualismo do personagem: o filme vende sua esperteza como vantagem pra fazer os outros de bobo. O pêndulo estético pesa para o lado do ego. Do diretor e do ator. E a Academia aplaude e mostra a divisão da nação até mesmo na Arte. Assim como há a turma que protesta contra o governo atual e abusivo que rege o país, existe também aqueles que aplaudem. Fosse cinéfilo, esse seria o filme de cabeceira do Donald Trump".
O que disse a crítica 2: Marcelo Hessel do site Omelete classificou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Ao final de 'O Brutalista', ouvimos um discurso que inverte o ditado famoso e diz que o importante é o destino, sim, e não a viagem. À luz de Gaza em 2025, como se interpreta essa fala? Independente da resposta, do seu lado o que Marty Supreme oferece é restabelecer o foco na jornada. Quando o vilão diz para Marty Mauser que não há segundas chances na vida, obviamente o filme se compromete a contradizê-lo em seguida, mas Safdie o faz sem deixar de lembrar que as vitórias, assim como as chances, nunca são definitivas. O movimento não cessa, nem seu acúmulo, e, depois de nove meses, é todo o ciclo geracional que recomeça. A bola viaja de um lado a outro da mesa".
O que eu achei: Achei que poderia gostar de ver retratada no cinema a história Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial, mas acabei achando o resultado menos do que mediano. O problema central foi a dificuldade que tive de me ligar ao protagonista: um cara repulsivo, que se comporta de maneira abertamente canalha ao longo da narrativa, manipulando pessoas, agindo com oportunismo e demonstrando zero empatia pelos que o cercam, incluindo-se aqui a mãe e a namorada grávida. Diferentemente de anti-heróis clássicos, suas atitudes raramente são compensadas por algum traço de humanidade que permita ao espectador criar algum tipo de identificação. Personagens moralmente questionáveis até podem funcionar quando existe autocrítica, culpa ou possibilidade de redenção. Aqui, porém, o protagonista parece atravessar a história sem qualquer processo real de reflexão sobre suas próprias atitudes. Isso cria a sensação de estagnação dramática: ele começa mal e não evolui ao longo das 2h30m de filme. Não espere ver algum resquício de consciência moral. O cinema frequentemente constrói personagens problemáticos, mas ainda assim interessantes ou fascinantes. Neste caso, o protagonista parece mais desagradável do que complexo. É aquela figura que quer porque quer jogar tênis de mesa profissionalmente e vai conseguir isso custe o que custar. É golpe em cima de golpe, trapaça em cima de trapaça, independente dos estragos, dos sofrimentos imputados às pessoas que o cercam, o importante é chegar lá. Então fica muito difícil torcer por ele ou se interessar pelo seu destino. O comportamento do personagem ao longo da trama sugere traços psicológicos problemáticos como narcisismo extremo, impulsividade e ausência de remorso. O filme também não explora essas características como estudo psicológico, o que faz com que elas pareçam mais um conjunto de atitudes naturais de um ser humano obstinado do que um retrato consistente de alguém doente que precisa de tratamento. Também não fica claro se o filme está criticando ou celebrando esse comportamento já que as ações do protagonista são tratadas com certo fascínio ou glamour, o que indica que o filme está mais interessado em exibir o personagem do que em questioná-lo. Nem é preciso dizer que a família do verdadeiro Marty Reisman desaprovou o resultado. Não que o cara fosse um santo: não era. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. Mas eles disseram que o filme deturpa quem ele foi na vida real, afirmam que a versão mostrada não tem relação com o homem. Eles consideraram o retrato humilhante, pois transformou o atleta em uma figura degradante, exagerando os comportamentos negativos e construindo um personagem egoísta e mesquinho distante da realidade. Como filme também não achei a oitava maravilha: o ritmo é frenético e cansativo, deixando pouco espaço para o espectador respirar ou assimilar o que está acontecendo; a montagem é excessivamente fragmentada: são cortes rápidos e cenas curtas que nem sempre se desenvolvem plenamente, parecendo um aglomerado de episódios, tipo esquetes, que dão a sensação de uma grande colagem de momentos ao invés de uma narrativa orgânica. As músicas, apesar de boas, chamam mais atenção para si mesmas do que para a narrativa. É como se música, montagem e câmera quisessem competir entre si por atenção. O tom é instável, oscilando entre comédia, drama e caricatura sem encontrar um equilíbrio claro. Não me perguntem como mas o longa está indicado em nove categorias do Oscar, dentre elas Ator (apesar da caricatura moralmente degradante do personagem, Timothée Chalamet está ótimo no papel), Roteiro Original (com certeza original e não adaptado, já que usou o nome e a fama do tenista mas deturpou toda a autobiografia) e Edição (fãs de TikTok vão gostar). Se eu fosse votante, levaria no máximo Melhor Ator. E olhe lá.
O que disse a crítica 2: Marcelo Hessel do site Omelete classificou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Ao final de 'O Brutalista', ouvimos um discurso que inverte o ditado famoso e diz que o importante é o destino, sim, e não a viagem. À luz de Gaza em 2025, como se interpreta essa fala? Independente da resposta, do seu lado o que Marty Supreme oferece é restabelecer o foco na jornada. Quando o vilão diz para Marty Mauser que não há segundas chances na vida, obviamente o filme se compromete a contradizê-lo em seguida, mas Safdie o faz sem deixar de lembrar que as vitórias, assim como as chances, nunca são definitivas. O movimento não cessa, nem seu acúmulo, e, depois de nove meses, é todo o ciclo geracional que recomeça. A bola viaja de um lado a outro da mesa".
O que eu achei: Achei que poderia gostar de ver retratada no cinema a história Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial, mas acabei achando o resultado menos do que mediano. O problema central foi a dificuldade que tive de me ligar ao protagonista: um cara repulsivo, que se comporta de maneira abertamente canalha ao longo da narrativa, manipulando pessoas, agindo com oportunismo e demonstrando zero empatia pelos que o cercam, incluindo-se aqui a mãe e a namorada grávida. Diferentemente de anti-heróis clássicos, suas atitudes raramente são compensadas por algum traço de humanidade que permita ao espectador criar algum tipo de identificação. Personagens moralmente questionáveis até podem funcionar quando existe autocrítica, culpa ou possibilidade de redenção. Aqui, porém, o protagonista parece atravessar a história sem qualquer processo real de reflexão sobre suas próprias atitudes. Isso cria a sensação de estagnação dramática: ele começa mal e não evolui ao longo das 2h30m de filme. Não espere ver algum resquício de consciência moral. O cinema frequentemente constrói personagens problemáticos, mas ainda assim interessantes ou fascinantes. Neste caso, o protagonista parece mais desagradável do que complexo. É aquela figura que quer porque quer jogar tênis de mesa profissionalmente e vai conseguir isso custe o que custar. É golpe em cima de golpe, trapaça em cima de trapaça, independente dos estragos, dos sofrimentos imputados às pessoas que o cercam, o importante é chegar lá. Então fica muito difícil torcer por ele ou se interessar pelo seu destino. O comportamento do personagem ao longo da trama sugere traços psicológicos problemáticos como narcisismo extremo, impulsividade e ausência de remorso. O filme também não explora essas características como estudo psicológico, o que faz com que elas pareçam mais um conjunto de atitudes naturais de um ser humano obstinado do que um retrato consistente de alguém doente que precisa de tratamento. Também não fica claro se o filme está criticando ou celebrando esse comportamento já que as ações do protagonista são tratadas com certo fascínio ou glamour, o que indica que o filme está mais interessado em exibir o personagem do que em questioná-lo. Nem é preciso dizer que a família do verdadeiro Marty Reisman desaprovou o resultado. Não que o cara fosse um santo: não era. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. Mas eles disseram que o filme deturpa quem ele foi na vida real, afirmam que a versão mostrada não tem relação com o homem. Eles consideraram o retrato humilhante, pois transformou o atleta em uma figura degradante, exagerando os comportamentos negativos e construindo um personagem egoísta e mesquinho distante da realidade. Como filme também não achei a oitava maravilha: o ritmo é frenético e cansativo, deixando pouco espaço para o espectador respirar ou assimilar o que está acontecendo; a montagem é excessivamente fragmentada: são cortes rápidos e cenas curtas que nem sempre se desenvolvem plenamente, parecendo um aglomerado de episódios, tipo esquetes, que dão a sensação de uma grande colagem de momentos ao invés de uma narrativa orgânica. As músicas, apesar de boas, chamam mais atenção para si mesmas do que para a narrativa. É como se música, montagem e câmera quisessem competir entre si por atenção. O tom é instável, oscilando entre comédia, drama e caricatura sem encontrar um equilíbrio claro. Não me perguntem como mas o longa está indicado em nove categorias do Oscar, dentre elas Ator (apesar da caricatura moralmente degradante do personagem, Timothée Chalamet está ótimo no papel), Roteiro Original (com certeza original e não adaptado, já que usou o nome e a fama do tenista mas deturpou toda a autobiografia) e Edição (fãs de TikTok vão gostar). Se eu fosse votante, levaria no máximo Melhor Ator. E olhe lá.









