
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. Assisti dele a obra-prima “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1981), o ótimo “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), o bom "Meu Amigo Hindu" (2015) e o péssimo "O Passado" (2007). Desta vez vou conferir “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977).
O site Wikipédia nos conta que Lúcio Flávio Vilar Lyrio (Rio de Janeiro, 1944 –1975) foi um criminoso brasileiro que se tornou conhecido em todo o Brasil na década de 1970 em razão de seus inúmeros crimes. De boa aparência, articulado, violento e de inteligência acima da média, iniciou suas atividades criminosas como ladrão de carros, evoluindo para assaltos a bancos e joalherias e cometendo diversos homicídios. Tornou-se muito conhecido pelas constantes fugas de diversas prisões e pelo envolvimento com policiais pertencentes ao Esquadrão da Morte, os quais também denunciou.
Atuou ao lado de alguns dos mais perigosos marginais do período, dentre os quais seu irmão Nijini Renato, seu cunhado Fernando C. O., Liéce de Paula, Armando Arêas Filho (Armandinho) e outros.
Cometeu crimes nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e em Brasília.
Sua vida foi imortalizada em obras literárias, a mais importante foi concebida pelo escritor José Louzeiro, obra essa que foi baseada em um relato dado por Lúcio Flávio a um repórter policial um pouco antes de sua morte. O relato, cheio de detalhes da sua vida no crime, delatava seus comparsas, como por exemplo, um policial que sempre o acobertava em suas investidas no mundo do crime. A obra de José Louzeiro recebeu o nome de “Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia”, nome homônimo do filme.
Ele foi morto com 19 facadas no peito, na cela número sete do presídio Hélio Gomes, no Rio de Janeiro, durante a madrugada, por um companheiro de cela, Mário Pedro da Silva, em 1975, mas há uma forte suspeita de que ele tenha sido morto pelos policiais que formavam o Esquadrão da Morte, e que temiam que Lúcio os denunciasse.
O filme, estrelado por Reginaldo Farias no papel principal, é justamente a adaptação do livro do José Louzeiro. Porém o filme sofreu censura. Na versão final não aparecem fardas nem viaturas, e os policiais envolvidos tiveram seus nomes trocados.
O filme foi vencedor do Prêmio do Público da primeira edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1977.
O que disse a crítica 1: Rodrigo de Oliveira do site Papo de Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Com inflados 118 minutos de duração, 'Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia' abusa um tanto por se estender, mas tem momentos interessantes que conseguem segurar a atenção do espectador. As cenas oníricas, sangrentas, dão um bom molho especial em uma trama policial urbana que retrata um período conturbado da história do nosso Brasil. Pode ter envelhecido mal no todo, mas tem predicados que justificam uma olhada com maior atenção".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP, disse que "O que mais importa nos filmes baseados em fatos reais é sua irrealidade. Tomemos 'Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia'. O filme de Hector Babenco é, mais que um relato da trajetória do marginal, o elogio da marginalidade num momento específico da vida nacional. Isto é, os anos 1970, o governo militar: o bandido é o herói, a polícia é o vilão. Não que certas coisas tenham mudado: o tratamento dado aos pobres pela polícia e pela Justiça é bem diverso do que se dá aos ricos. Mas a visão do momento implicava o engajamento do espectador, jovem sobretudo, da classe média, no combate à ditadura. O filme respondia a esse desejo. Daí ao êxito era um pulo".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de José Louzeiro que era um jornalista respeitado da crônica policial do Rio de Janeiro. Ele trabalhou em jornais como ‘A Luta Democrática’ e conhecia intimamente os meandros do submundo carioca, as gírias das prisões e o modus operandi dos criminosos e da polícia. Louzeiro esteve frente a frente com Lúcio Flávio. O criminoso, sabendo que estava jurado de morte pelo Esquadrão da Morte por ‘saber demais’, decidiu abrir o jogo usando o jornalista como um canal para denunciar que os seus assaltos a bancos eram articulados, protegidos e financiados por policiais do alto escalão. Além da entrevista, o autor realizou uma intensa pesquisa para checar a veracidade das denúncias feitas pelo bandido. O livro foi cirúrgico em expor os bastidores do Esquadrão da Morte. Na adaptação para o cinema feita pelo Babenco temos um elenco de peso com Reginaldo Faria no papel principal, Paulo César Peréio, Ivan Cândido, Milton Gonçalves, Ana Maria Magalhães, Lady Francisco, Grande Otelo, Stepan Nercessian e José Dumont. O longa foca na atuação do criminoso de 1970 até 1975, mas o maior interesse aqui é ver o modus operandi do Esquadrão da Morte. Criado no final dos anos 1960, era uma organização paramilitar clandestina, formada majoritariamente por policiais civis e militares, mas que continha também juízes, promotores e até jornalistas. O objetivo era exterminar criminosos comuns e opositores. O contexto da ditadura militar (1964-1985) favoreceu imensamente o surgimento e a expansão desse tipo de grupo pois, sob o pretexto de combater o comunismo e o crime urbano, foram instituídas leis de exceção (como o AI-5) que esvaziaram os direitos humanos, blindando as polícias de investigações. No Rio de Janeiro (antigo estado da Guanabara), o governador e generais criaram um grupo oficial batizado como ‘Os Homens de Ouro’. O detetive Mariel Mariscot (cujo nome foi alterado para Dr. Moretti no filme) fazia parte dele. Sob os aplausos de setores da imprensa e da classe média que adotavam o lema ‘bandido bom é bandido morto’, eles cometiam assassinatos deixando cartazes nos corpos com o desenho de uma caveira. Porém, o que Mariscot menos queria era assassinar Lúcio Flávio. Ele e outros agentes do Esquadrão da Morte monitoravam os passos da quadrilha facilitando suas ações e garantindo que as áreas bancárias ficassem sem patrulhamento policial no momento dos roubos. Claro que o preço dessa proteção era altíssimo. Sempre que a quadrilha realizava um assalto, Mariscot e seus homens apareciam para recolher uma fatia gigantesca do dinheiro. Se Lúcio Flávio se recusasse a pagar, a polícia o prendia ou ameaçava executar seus familiares e comparsas. Quando calhava de Lúcio Flávio ser preso, Mariscot facilitava sua fuga molhando a mão de outras pessoas. A relação implodiu quando a ganância dos policiais sufocou o bando. Lúcio Flávio percebeu que por mais que ele roubasse, ele nunca teria nada. Sabendo que seria morto de qualquer forma foi que ele resolveu desmascarar o policial publicamente. Uma curiosidade é que, dois anos depois de Babenco lançar “Lúcio Flávio” (1977), Antônio Calmon lança “Eu Matei Lúcio Flávio” (1979), um filme estrelado pelo Jece Valadão, que mostra a ótica dos policiais pintando Mariscot como um herói injustiçado. Entretanto, os desmandos de Mariscot já eram tão evidentes na imprensa que não foi possível protegê-lo. Ele foi oficialmente expulso da polícia, preso e mais tarde se tornou segurança do jogo do bicho, acabando assassinado antes mesmo de conseguir ser julgado pelos seus crimes. Obviamente, para lançar o filme, Babenco e o produtor Roberto Farias travaram uma verdadeira guerra com a censura: os nomes dos policiais tiveram que ser trocados e as cenas que mostravam tortura policial explícita e diálogos que faziam ligação direta entre o crime comum e os porões do regime militar tiveram que ser cortados. Mesmo assim ele chegou a ser totalmente proibido em Brasília e só foi liberado no restante do país após forte pressão de setores intelectuais. Imperdível.
O site Wikipédia nos conta que Lúcio Flávio Vilar Lyrio (Rio de Janeiro, 1944 –1975) foi um criminoso brasileiro que se tornou conhecido em todo o Brasil na década de 1970 em razão de seus inúmeros crimes. De boa aparência, articulado, violento e de inteligência acima da média, iniciou suas atividades criminosas como ladrão de carros, evoluindo para assaltos a bancos e joalherias e cometendo diversos homicídios. Tornou-se muito conhecido pelas constantes fugas de diversas prisões e pelo envolvimento com policiais pertencentes ao Esquadrão da Morte, os quais também denunciou.
Atuou ao lado de alguns dos mais perigosos marginais do período, dentre os quais seu irmão Nijini Renato, seu cunhado Fernando C. O., Liéce de Paula, Armando Arêas Filho (Armandinho) e outros.
Cometeu crimes nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e em Brasília.
Sua vida foi imortalizada em obras literárias, a mais importante foi concebida pelo escritor José Louzeiro, obra essa que foi baseada em um relato dado por Lúcio Flávio a um repórter policial um pouco antes de sua morte. O relato, cheio de detalhes da sua vida no crime, delatava seus comparsas, como por exemplo, um policial que sempre o acobertava em suas investidas no mundo do crime. A obra de José Louzeiro recebeu o nome de “Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia”, nome homônimo do filme.
Ele foi morto com 19 facadas no peito, na cela número sete do presídio Hélio Gomes, no Rio de Janeiro, durante a madrugada, por um companheiro de cela, Mário Pedro da Silva, em 1975, mas há uma forte suspeita de que ele tenha sido morto pelos policiais que formavam o Esquadrão da Morte, e que temiam que Lúcio os denunciasse.
O filme, estrelado por Reginaldo Farias no papel principal, é justamente a adaptação do livro do José Louzeiro. Porém o filme sofreu censura. Na versão final não aparecem fardas nem viaturas, e os policiais envolvidos tiveram seus nomes trocados.
O filme foi vencedor do Prêmio do Público da primeira edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1977.
O que disse a crítica 1: Rodrigo de Oliveira do site Papo de Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Com inflados 118 minutos de duração, 'Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia' abusa um tanto por se estender, mas tem momentos interessantes que conseguem segurar a atenção do espectador. As cenas oníricas, sangrentas, dão um bom molho especial em uma trama policial urbana que retrata um período conturbado da história do nosso Brasil. Pode ter envelhecido mal no todo, mas tem predicados que justificam uma olhada com maior atenção".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP, disse que "O que mais importa nos filmes baseados em fatos reais é sua irrealidade. Tomemos 'Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia'. O filme de Hector Babenco é, mais que um relato da trajetória do marginal, o elogio da marginalidade num momento específico da vida nacional. Isto é, os anos 1970, o governo militar: o bandido é o herói, a polícia é o vilão. Não que certas coisas tenham mudado: o tratamento dado aos pobres pela polícia e pela Justiça é bem diverso do que se dá aos ricos. Mas a visão do momento implicava o engajamento do espectador, jovem sobretudo, da classe média, no combate à ditadura. O filme respondia a esse desejo. Daí ao êxito era um pulo".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de José Louzeiro que era um jornalista respeitado da crônica policial do Rio de Janeiro. Ele trabalhou em jornais como ‘A Luta Democrática’ e conhecia intimamente os meandros do submundo carioca, as gírias das prisões e o modus operandi dos criminosos e da polícia. Louzeiro esteve frente a frente com Lúcio Flávio. O criminoso, sabendo que estava jurado de morte pelo Esquadrão da Morte por ‘saber demais’, decidiu abrir o jogo usando o jornalista como um canal para denunciar que os seus assaltos a bancos eram articulados, protegidos e financiados por policiais do alto escalão. Além da entrevista, o autor realizou uma intensa pesquisa para checar a veracidade das denúncias feitas pelo bandido. O livro foi cirúrgico em expor os bastidores do Esquadrão da Morte. Na adaptação para o cinema feita pelo Babenco temos um elenco de peso com Reginaldo Faria no papel principal, Paulo César Peréio, Ivan Cândido, Milton Gonçalves, Ana Maria Magalhães, Lady Francisco, Grande Otelo, Stepan Nercessian e José Dumont. O longa foca na atuação do criminoso de 1970 até 1975, mas o maior interesse aqui é ver o modus operandi do Esquadrão da Morte. Criado no final dos anos 1960, era uma organização paramilitar clandestina, formada majoritariamente por policiais civis e militares, mas que continha também juízes, promotores e até jornalistas. O objetivo era exterminar criminosos comuns e opositores. O contexto da ditadura militar (1964-1985) favoreceu imensamente o surgimento e a expansão desse tipo de grupo pois, sob o pretexto de combater o comunismo e o crime urbano, foram instituídas leis de exceção (como o AI-5) que esvaziaram os direitos humanos, blindando as polícias de investigações. No Rio de Janeiro (antigo estado da Guanabara), o governador e generais criaram um grupo oficial batizado como ‘Os Homens de Ouro’. O detetive Mariel Mariscot (cujo nome foi alterado para Dr. Moretti no filme) fazia parte dele. Sob os aplausos de setores da imprensa e da classe média que adotavam o lema ‘bandido bom é bandido morto’, eles cometiam assassinatos deixando cartazes nos corpos com o desenho de uma caveira. Porém, o que Mariscot menos queria era assassinar Lúcio Flávio. Ele e outros agentes do Esquadrão da Morte monitoravam os passos da quadrilha facilitando suas ações e garantindo que as áreas bancárias ficassem sem patrulhamento policial no momento dos roubos. Claro que o preço dessa proteção era altíssimo. Sempre que a quadrilha realizava um assalto, Mariscot e seus homens apareciam para recolher uma fatia gigantesca do dinheiro. Se Lúcio Flávio se recusasse a pagar, a polícia o prendia ou ameaçava executar seus familiares e comparsas. Quando calhava de Lúcio Flávio ser preso, Mariscot facilitava sua fuga molhando a mão de outras pessoas. A relação implodiu quando a ganância dos policiais sufocou o bando. Lúcio Flávio percebeu que por mais que ele roubasse, ele nunca teria nada. Sabendo que seria morto de qualquer forma foi que ele resolveu desmascarar o policial publicamente. Uma curiosidade é que, dois anos depois de Babenco lançar “Lúcio Flávio” (1977), Antônio Calmon lança “Eu Matei Lúcio Flávio” (1979), um filme estrelado pelo Jece Valadão, que mostra a ótica dos policiais pintando Mariscot como um herói injustiçado. Entretanto, os desmandos de Mariscot já eram tão evidentes na imprensa que não foi possível protegê-lo. Ele foi oficialmente expulso da polícia, preso e mais tarde se tornou segurança do jogo do bicho, acabando assassinado antes mesmo de conseguir ser julgado pelos seus crimes. Obviamente, para lançar o filme, Babenco e o produtor Roberto Farias travaram uma verdadeira guerra com a censura: os nomes dos policiais tiveram que ser trocados e as cenas que mostravam tortura policial explícita e diálogos que faziam ligação direta entre o crime comum e os porões do regime militar tiveram que ser cortados. Mesmo assim ele chegou a ser totalmente proibido em Brasília e só foi liberado no restante do país após forte pressão de setores intelectuais. Imperdível.









