16.2.26

“Bird” - Clint Eastwood (EUA, 1988)

Sinopse:
Cinebiografia do saxofonista de jazz Charlie "Bird" Parker (Forest Whitaker), que morreu aos 34 anos de overdose de heroína. O filme mostra o relacionamento difícil de Parker com sua esposa, Chan Parker (Diane Venora), assim como cenas do saxofonista improvisando no palco iluminado com neon e fumaça de cigarro em clubes antigos de jazz.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano de quem já assisti 22 filmes, dentre eles a obra-prima “Os Imperdoáveis” (1992) e os ótimos “O Estranho Sem Nome” (1973), “As Pontes de Madison” (1995), “Sobre Meninos e Lobos” (2003), “Menina de Ouro” (2004), “Cartas de Iwo Jima” (2006) e “A Conquista da Honra” (2006).
“Bird” (1988) conta a história do saxofonista americano de jazz Charlie Parker (1929-2012). O título do filme é o apelido dele. Começou sendo Yardbird e, mais tarde, esse apelido foi encurtado para Bird, que significa pássaro em português.
Marcelo Orozco do site Giz_br nos conta que “Charlie nasceu em Kansas City, uma cidade grande com uma expressiva cena de jazz nos anos 1920 e 1930. Após dominar os rudimentos do saxofone alto, mais agudo que o tenor, o rapaz meteu as caras para tocar em alguma banda ou orquestra. Com 16 anos, já viajava para tocar profissionalmente e ficou baseado em Ozark, no estado do Missouri. Em 1939, mudou-se para Nova York para uma grande aposta em sua carreira. Logo tornou-se músico fixo da banda de Jay McShann, na qual ficaria até 1942. As grandes descobertas viriam na metrópole.
Numa jam session (sessão de improviso de músicos em suas horas vagas), Charlie descobriu que podia desconstruir toda a estrutura de notas da música ‘Cherokee’ – tocava algumas notas ou sequências, deixava outras de fora, acelerava a velocidade com que tocava um jorro de notas e obtinha um resultado que era praticamente outra música. Este era praticamente o método do bebop. Desconstruir para criar algo novo e diferente. Se pensarmos bem, isso segue sendo feito até hoje, só que agora digitalmente através de samplers.
Mas, além de criar em cima de standards, Parker e a turma do bebop também compunham do zero. E, quando falamos em turma, ela inclui o primeiro e maior parceiro de Parker: o trompetista Dizzy Gillespie, igualmente genial e com um visual ímpar, com boina, cavanhaque e bochechas que se inflavam como baiacus quando tocava.
Parker e Gillespie se conheceram numa esquina de Nova York. E descobriram que eram almas gêmeas musicais na criatividade e na ambição de fazer algo importante. Com outros monstros jovens como os pianistas Thelonious Monk e Bud Powell, e o baterista Max Roach, formou-se um núcleo duro de um novo jeito de tocar jazz. Não havia uma banda fixa na maior parte do tempo, mas o estilo ganhou um nome que agregava a todos: bebop.
Por causa de uma greve do sindicato dos músicos em relação às gravadoras entre 1942 e 1944, o bebop só chegou ao vinil com certo atraso. Como líder, Charlie Parker só gravou e lançou seus primeiros discos em 1945.
Dizzy partiu para formar seu próprio grupo em seguida e seu substituto na banda do líder Parker foi um rapazinho de 19 anos chamado Miles Davis. É impressionante a quantidade de gênios que orbitou em torno de Parker. (...)
Criou-se um culto a Parker que chegou a extremos de obsessão. Havia fãs dedicados que levavam gravadores rústicos aos shows para gravar apenas o saxofone de Parker. Isso gerou uma circulação de fitas e discos clandestinos (ou seja, piratas) que não tinha comparação na época.
(...) A célebre velocidade de Parker no saxofone não era pura técnica exibicionista sem alma. Ele era perfeitamente capaz de tocar lentamente e com sentimento, especialmente nas covers de baladas românticas. Charlie também não tinha medo de experimentar. Apreciador de música clássica, persistiu com gravadoras até finalmente conseguir gravar um álbum inteiro com orquestra de cordas, o célebre ‘Charlie Parker With Strings’, gravado em novembro de 1949 e puxado pelo clássico ‘Summertime’.
O problema é que a genialidade musical era afetada pelo comportamento errático de Charlie por seu vício pesado em heroína. Numa temporada na Califórnia, botou fogo nos lençóis de seu quarto de hotel e, pelado e chapado, saiu em disparada pelos corredores. Foi detido e internado de julho de 1946 a janeiro de 1947 no hospital psiquiátrico de Camarillo – que inspiraria sua brilhante composição ‘Relaxin’ at Camarillo’, gravada logo após sua saída da internação.
Outros incidentes causados pela droga podem ter sido menos espetaculares ou históricos. Mas não menos danosos à carreira e à saúde de Bird. Por isso seu corpo estava num estado lastimável ao morrer”.
O filme foi uma grande homenagem que Clint Eastwood fez a esse saxofonista mas, segundo Orozco, “dividiu opiniões quando chegou aos cinemas e ainda tem defensores e antipatizantes” pois “estudiosos do jazz questionam um monte de detalhes e incongruências de ‘Bird’. Uma das principais é a cena em que Parker fica revoltado ao ver um velho amigo saxofonista tocando rhythm’n’blues dançante – ou uma versão pioneira de rock’n’roll – num show. O amigo toca poucas notas ruidosas com intensidade puramente rítmica e apela para a tosca ‘buzinada’ (‘Honk!’) para excitar a plateia. Na saída do palco, Parker manifesta sem cerimônia sua contrariedade em relação ao que acabou de ver. Essa cena foi questionada. Charlie era um apaixonado por música, independentemente de estilos, e poderia até ter arriscado alguns experimentos com o rhythm’n’blues ou o rock’n’roll, que estouraria e tomaria conta do mundo uns poucos meses depois de sua morte”.
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Clint Eastwood já dirigira treze filmes antes de ‘Bird’ (1988), quase todos com qualidade acima da média. Mas, foi com a cinebiografia de Charlie ‘Bird’ Parker que Eastwood conquistou respeito como diretor de filmes de prestígio. Para os franceses, representou um presente, o argumento que precisavam para comprovar seu cinema autoral”.
O que disse a crítica 2: Matthew Vilela do site Mais Goiás colocou “Bird” na lista dos 10 melhores filmes feitos por Eastwood. Ele disse: “Eu amo jazz e Charles ‘Bird’ Parker foi um dos grandes artistas norte-americanos do gênero. Esta cinebiografia dirigida por Clint Eastwood e estrelada por Forest Whitaker segue a cartilha básica de cinebiografias no cinema, mas as atuações são tão boas, e a direção de Eastwood valoriza tanto elas, que o resultado é puro prazer”.
O que eu achei: Em "Bird" (1988), Clint Eastwood realiza um verdadeiro trabalho de amor. Escritor, produtor e diretor, o astro durão revela aqui sua face mais sensível: a de um apaixonado por jazz, pianista nas horas vagas e admirador confesso do gênero (anos antes já havia homenageado Thelonious Monk em documentário). O resultado é uma obra-prima que transcende o formato de cinebiografia. O filme mergulha na vida de Charlie Parker, o lendário 'Bird', figura central do bebop, revolucionário na técnica e na linguagem musical. Eastwood conduz a narrativa com delicadeza e precisão, capturando a atmosfera esfumaçada dos clubes, a vibração quase mística das jam sessions e a intensidade criativa que pulsava naquela geração. A trilha sonora autêntica não é mero acompanhamento: é alma, respiração e matéria viva. A estrutura narrativa impressiona. A montagem fragmenta a cronologia de forma tão fluida que o espectador é conduzido por memórias e estados de espírito sem perceber rupturas. Mais do que contar fatos, o filme traduz sensações. O efeito das drogas, o caos emocional, os altos e baixos de uma trajetória marcada por genialidade e autodestruição, tudo é sentido na pele. Não sei até que ponto a biografia é rigorosamente fiel aos fatos, há quem aponte uma ou outra inconsistência, mas isso se torna secundário diante da verdade emocional alcançada. Ao final compreendemos o espírito de Parker: sua dor, sua urgência criativa, sua grandeza. Vale destacar a atuação monumental de Forest Whitaker. Ele não interpreta Parker; ele o incorpora. Sua presença em cena é hipnótica, humanizando o mito sem jamais diminuir sua dimensão histórica. “Bird” é cinema no mais alto nível: sensorial e profundamente comovente. Uma celebração da arte e de um gênio que mudou a música para sempre. Obra-prima.

15.2.26

"Sirāt" - Oliver Laxe (Espanha/França, 2025)

Sinopse:
Luis (Sergi López) está viajando pelo sul do Marrocos com seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona). Eles estão à procura de sua filha Mar, que está desaparecida há cinco meses, vista pela última vez em um festival de dança no deserto.
Comentário: Oliver Laxe (1982) é um ator, diretor e roteirista franco-espanhol, de origem galega. Ele foi o vencedor do Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes pelo seu filme "Todos Vós Sodes Capitáns" (2010). Ele também ganhou o Grande Prêmio da Semana Internacional da Crítica de Cannes pelo filme "Mimosas" (2016). Assisti dele o ótimo "O Que Arde" (2019). Desta vez vou conferir "Sirāt" (2025).
Renan Guerra do site Scream & Yell publicou: "Escolhido como representante da Espanha para a categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2026, 'Sirāt' (2025) chega com diferentes credenciais, incluindo a produção assinada por Agustín e Pedro Almodóvar através de sua El Deseo e o Prêmio do Júri no 78º Festival de Cannes, realizado em maio de 2025.
O filme foi exibido na sessão de abertura da 49ª Mostra de Cinema de São Paulo e, tal qual sua passagem por outros festivais de cinema, dividiu opiniões – é bem na linha dos extremos, meio ame ou odeie. E isso tem seus motivos: o filme de Oliver Laxe acompanha a saga de um pai e filho em busca de sua filha/irmã que desapareceu há cinco meses. Para isso, os dois se embrenham em uma rave realizada no meio do deserto no Marrocos. A partir daí eles embarcam numa jornada que, de forma simplificada, pode ser definida como uma descida ao inferno.
As-Sirāt seria, segundo o Islã, a ponte sobre a qual todos devem passar no Yawm al-Qiyamah, o Dia da Ressurreição, trajeto essencial para entrar no Jannah, o Paraíso. A tradição diz que a ponte As-Sirāt é mais fina que um fio de cabelo e tão afiada quanto a mais afiada faca ou espada – informação que é apresentada logo na abertura do filme de Oliver Laxe. Segundo a tradição, abaixo deste caminho estão as chamas do Inferno, que queimam os pecadores para fazê-los cair.
Esse referencial simbólico demarca muito do que veremos em 'Sirāt': Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) viajam pelo Marrocos acompanhados de sua cachorrinha Pipa. Na busca pela filha/irmã desaparecida, eles cruzam um grupo de desgarrados - Stef, Jade, Tonin, Bigui e Josh - que partem de uma rave a outra por dentro do deserto, estes acompanhados de sua cachorrinha Lupita. Nessa jornada, uma série de reviravoltas e plot twits irá modificar para sempre a vida desse grupo e, dito isso, recomendamos que você fuja dos spoilers e evite se aprofundar nos detalhes do enredo do filme, isso é importante para a imersão dentro da história. Por isso, o texto que segue foca nos aspectos técnicos e na construção narrativa tentando ao máximo evitar spoilers centrais.
A narrativa de road movie de horror do filme trafega em um universo que dialoga tanto com o empoeirado mundo de 'Mad Max' quanto com o realismo de tramas mais densas do cinema de arte contemporâneo. Enquanto os personagens principais trafegam pelo deserto marroquino, pequenos lampejos informativos deixam ver que o mundo que os cerca parece ruir: rádios falam sobre um amplo conflito armado, tanto que um dos personagens até menciona uma possível terceira guerra mundial. De todo modo, o filme de Laxe se preocupa apenas com esse microcosmo gerado por esse novo grupo familiar que se formou. Luis, seu filho e os desgarrados da rave.
Nisso, o grande destaque fica por conta de Sergi López, importante nome do cinema europeu (...) , que aqui consegue construir de forma clara as dores desse pai que enfrenta um universo desconhecido em busca de reunir novamente seu pequeno núcleo familiar. Dito isso, o mais interessante do filme talvez sejam realmente esses arranjos familiares: se o protagonista Luis busca reunir novamente sua família consanguínea, durante o filme vemos o desenrolar de uma relação quase familiar entre todos aqueles personagens, sejam os dois novos chegados ou o grupo de nômades que construiu ali, em suas andanças, uma relação de cuidado e zelo muito particular – um microcosmo de corpos díspares e únicos que se encontram em suas particularidades. (...)
Dito tudo isso, é importante frisar que 'Sirāt' se assemelha a uma escola de cinema que busca chocar o espectador, bagunçar os sentidos de quem o assiste, numa linhagem que remete a nomes como Gaspar Noé, por exemplo. Se nos filmes de Noé, a música eletrônica pesada vem acompanhada de cores fortes, no universo de Laxe a música eletrônica vem recheada de poeira; de todo modo, os diretores se assemelham na violência e no derradeiro horror da vida – e talvez no olhar niilista em comum.
'Sirāt' se constrói nessa impossibilidade: por mais que se auxiliem e se irmanem, esse grupo de pessoas está fadado a enfrentar uma jornada de penalidades. Laxe se conecta às crenças islâmicas, mas por um olhar cristão ocidental, podemos até pensar no Livro de Jó e todo o seu calvário que testa repetidas vezes a fé humana. Ainda assim, por mais que parta de símbolos religiosos, algo entre o céu e o inferno, o filme de Laxe não está muito interessado na purificação e na salvação, ele está muito mais interessado na jornada desses personagens. E é essa jornada que pode ser incômoda para uma parcela do público.
O que esse filme busca contar? O que essa jornada de penitências de 'Sirãt' tem a nos dizer? Isso Oliver Laxe não responde de forma clara. Essa não-resposta pode ser vista como uma falha por muitos, mas é uma das riquezas do filme. Ao subir os créditos resta ao espectador a maquinação e a ruminação em torno de tudo aquilo que foi visto. Esse tour de force ao som de muito techno e com muita poeira é uma jornada que nos lembra que o cinema não é apenas sobre afagos, mas também é sobre provações e desconfortos".
Além do longa já ter recebido o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, ele está indicado em duas categorias no Oscar: Filme Internacional e Som (Laia Casanovas).
O que disse a crítica 1: Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone não gostou. Disse: "'Sirāt' é uma travessia rumo ao nada - um exercício de estilo que, ao tentar representar a dor, acaba apenas oferecendo sadismo. O deserto, que parece ser uma espécie de metáfora de purgação ou renascimento, torna-se espelho do próprio filme a partir das escolhas do diretor: vazio. Laxe filma o sofrimento com devoção, mas sem propósito. Ao espectador resta decidir se abandona a viagem - e há quem realmente o faça - ou se se deixa açoitar por essa provação emocional e masoquista".
O que disse a crítica 2: Luiz Zanin do Estadão gostou. Escreveu: "Acho que, como suspense, 'Sirât' é irretocável, de tão bem feito. Restam questões marginais, mas nem por isso menos importantes. (...) Quem são esses personagens que se unem a Luis e seu filho menor? De onde vêm, já que falam diversos idiomas? E essas mutilações que apresentam, como aconteceram, em alguma guerra na qual se engajaram ou em razão desse modo de vida nômade, vida louca, em suma, e sujeita a tudo? Mesmo o desfecho, que para alguns reserva uma sombra de esperança, para mim é desolador, retrato fiel de um mundo insensato, à beira de um colapso climático, com guerras e refugiados aqui e ali, dirigentes delirantes se armando mais e mais, como se preparando para o apocalipse. Na minha visão, 'Sirât' é nada mais nada menos que a justa metáfora para o fim de mundo que se anuncia. Uma reflexão sobre o abismo".
O que eu achei: Não é a primeira vez que vejo um filme do Oliver Laxe. Assisti dele anteriormente o ótimo "O Que Arde" (2019) que, de fato, é um filme excelente. Então mesmo com a fala polêmica do diretor dizendo que há muitos brasileiros na Academia (há apenas uns 70 dentre os mais de 9 mil votantes) e que eles são ultranacionalistas do tipo que se "inscrevessem um sapato no Oscar, todos votariam nele", fiz de conta que não ouvi isso e assisti ao longa – nosso concorrente ao Oscar de Melhor Filme Internacional – com boa vontade. Assim que o filme começa um letreiro explica o título do filme dizendo que Sirāt, na tradição islâmica, é a ponte que liga ao paraíso, tendo o inferno por baixo. Essa ponte é tão estreita quanto um fio de cabelo e tão afiada quanto a lâmina de uma espada. A trama narra a angustiante busca de um pai – interpretado magistralmente pelo ator Sergi López - e seu filho por Mar, filha e irmã que desapareceu meses antes em uma festa rave no sul do Marrocos, extremo noroeste do continente africano. Com a ajuda de um grupo de frequentadores dessas raves, eles vão atravessar paisagens áridas, num calvário misturado com a cena de música eletrônica trance, enquanto tentam encontrá-la. A narrativa assume um tom visceral, explorando o sofrimento humano em situações limite, uma espécie de road movie no inferno. Eu particularmente gostei da experiência. O som – tanto a trilha sonora como o design sonoro – são particularmente envolventes. As imagens também não deixam a desejar. Não mostra um deserto de cartão postal, mas há uma beleza melancólica naquele vazio que retrata metaforicamente os tempos atuais nada promissores, com o fantasma da terceira guerra mundial pairando no ar. Não é um filme que todo mundo vai gostar. É um filme desconfortável. Também não creio que levaria um Oscar de Melhor Filme, mas é uma experiência e tanto. Recomendo ver no cinema em sala com tela grande e som elevado por conta da imersão, mas talvez valha a pena fazer um teste cardíaco antes, caso contrário, o teste vai ser o próprio filme.

14.2.26

"The Other One: The Long Strange Trip of Bob Weir" – Mike Fleiss (EUA, 2014)

Sinopse:
A história do guitarrista Bob Weir começa com sua paixão pela música, a amizade com Jerry Garcia e acompanha os sucessos do icônico Grateful Dead.
Comentário: O site The Hollywood Reporter publicou: "Embora nem sempre retratado de forma elogiosa no filme, os fãs do Grateful Dead encontrarão muito o que apreciar em 'The Other One: The Long Strange Trip of Bob Weir', o revelador documentário de Mike Fleiss sobre o lendário guitarrista rítmico da banda. Com imagens de arquivo fascinantes, inúmeras performances musicais e extensas entrevistas com Weir, seus contemporâneos e muitos dos músicos famosos que ele influenciou (...).
Weir, apelidado de 'galã' da banda - o baterista Mickey Hart descreve como ele e os outros membros costumavam desfrutar dos benefícios da abundância de groupies do belo guitarrista - oferece aqui um relato franco de sua vida e carreira musical. Nascido em 1947 e criado por pais adotivos em Atherton, Califórnia, ele sofreu de dislexia não diagnosticada na infância, o que prejudicou seu desempenho escolar. Sua vida mudou em 1964, quando, aos 16 anos, conheceu Jerry Garcia, com quem formou a banda The Warlocks, que também incluía Phil Lesh, Ron 'Pigpen' McKernan e Bill Kreutzman.
Após abandonar os estudos e se juntar brevemente aos Merry Pranksters de Ken Kesey, Weir aprimorou seu estilo único de guitarra em shows que variavam de festas 'Acid Test' com grandes quantidades de drogas a clubes de strip-tease onde a predileção da banda por longas jams fazia com que as strippers exaustas reclamassem.
Renomeada como Grateful Dead, a banda morou junta em uma casa no número 710 da Rua Ashbury, em São Francisco, onde Weir dividia um quarto com Neal Cassady, que inspirou o famoso romance 'On the Road', de Jack Kerouac. Um dos segmentos mais evocativos do filme mostra Weir revisitando a casa e dando um tour para sua esposa e filhos, descrevendo onde cada um dos membros morava.
Após o lançamento de seus álbuns seminais, 'American Beauty' e 'Workingman's Dead', em 1970, a banda alcançou novos patamares de fama, inspirando as crescentes legiões de fãs que os seguiam em turnê. Weir revela sentimentos ambivalentes em relação a seus seguidores, elogiando-os por sua lealdade fervorosa, ao mesmo tempo em que se pergunta se eles estavam arruinando suas vidas e professando não ter nenhuma simpatia por aqueles que vendiam drogas. 'As pessoas estavam nos celebrando muito além do que parecia razoável', diz ele.
O filme explora profundamente sua relação extremamente próxima com Garcia, a quem ele descreve como um irmão mais velho. Ele confessa abertamente que servia como o 'porta-volumes' do guitarrista, distribuindo suas drogas em doses cuidadosamente controladas. Isso, é claro, não impediu a morte de Garcia aos 53 anos, em 1995, o que efetivamente encerrou a banda. Weir, que afirma que as últimas palavras que Garcia lhe dirigiu foram o comentário casual 'sempre uma farra' após um show, diz que lidou com seu luto voltando quase imediatamente à estrada com seu projeto paralelo, 'RatDog'.
Entre os outros tópicos abordados estão a transição tardia de Weir para a vida de casado e a paternidade, e seu eventual reencontro com seus pais biológicos.
Além de seus companheiros de banda do Grateful Dead, Lesh, Hart e Kreutzman - o filho deste último, Justin, é um dos produtores executivos do filme - aqueles que testemunham o talento musical de Weir incluem músicos como Jorma Kaukonen, Lee Ranaldo, Sammy Hagar, Jerry Harrison e Mike Gordon, do Phish, a banda que indiscutivelmente herdou o legado do Grateful Dead de forma mais fiel.
Apresentando imagens de performances antigas do Grateful Dead, bem como shows acústicos recentes de Weir e uma interpretação da música 'Cassidy' na qual ele é acompanhado por membros do The National, 'The Other One: The Long Strange Trip of Bob Weir' serve como uma homenagem merecida a um músico cuja estatura supera o título do filme".
O que disse a crítica 1: Martin Hafer do site Influx Magazine avaliou com 4,75 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "O que você encontra neste filme é basicamente o que se espera: muitas imagens de arquivo da banda, muitas entrevistas com membros e amigos, além de entrevistas com o próprio Weir. No entanto, o que eu realmente gostei, foi o acesso que o filme proporciona a Weir. Ele narra grande parte do filme e há muitas percepções e observações interessantes sobre si mesmo que tornam este um filme bastante revelador – especialmente quando ele fala sobre sua vida desde o fim do Grateful Death após a morte de Garcia".
O que disse a crítica 2: Craig Jenkins do site Vulture publicou que esse é o documentário definitivo sobre o Grateful Dead. Disse: "O paradoxo central do filme é um que atormentou a banda por décadas: como algo que traz tanta alegria às pessoas pode ter causado tantos problemas para todos os que lhe são próximos? Em suas análises detalhadas de sucessos improváveis ​​e destinos macabros, 'Long Strange Trip' oferece uma resposta: o preço do movimento constante é o desgaste. O corpo humano não foi feito para suportá-lo, embora a mente esteja disposta a tentar. O Grateful Dead passou 30 anos em uma elaborada dança com a morte e o estrelato, e descobriu métodos criativos para evitar ambos por anos. Mas quando os demônios da banda a encurralaram em meados dos anos 90, ela estava lamentavelmente despreparada para fazer a única coisa que poderia salvá-la: deixar de existir".
O que eu achei: Assistir esse documentário me fez perceber o quão pouco eu sabia sobre a famosa banda norte-americana Grateful Dead, que esteve em atividade basicamente de 1965 a 1995. Seu estilo fundia elementos do rock, folk, country, psicodelia, jazz, blues e música experimental, além das performances que se transformavam numa longa sessão de improvisações, caracterizando-os como uma 'jam band'. Só pra se ter uma ideia, os caras eram tão ativos, que fizeram em torno de 6 mil apresentações ao vivo. O foco nesse documentário é Bob Weir (1947–2026). É ele em pessoa que concede os depoimentos contando como foi sua vida e como ele alcançou a fama como guitarrista e vocalista da banda. Há entrevistas também com membros da banda e amigos, incluindo sua esposa Natascha, Mickey Hart, Bill Kreutzmann, Phil Lesh e John Perry Barlow, além de músicos como Mike Gordon, Perry Farrell, Lee Ranaldo, Jorma Kaukonen e Sammy Hagar. O filme ganhou o Prêmio do Público no Festival Internacional de Cinema de São Francisco de 2014 na categoria de Melhor Documentário e é uma excelente oportunidade de conhecer melhor o cara e a banda. Interessantíssimo.

11.2.26

"Adolescência" – Stephen Graham & Jack Thorne (Reino Unido, 2025)

Sinopse:
Um garoto de 13 anos chamado Jamie Miller (Owen Cooper) é acusado de assassinar uma colega de escola, levando a família – pai (Stephen Graham), mãe (Christine Tremarco) e irmã (Amelie Pease) -, a terapeuta Briony Ariston (Erin Doherty) e os investigadores do caso Luke Bascombe (Ashley Walters) e Misha Frank (Faye Marsay) a se perguntarem: o que realmente aconteceu.
Comentário: Trata-se de uma minissérie em 4 episódios filmados, cada um deles, num único plano-sequência com cerca de 50 a 60 minutos cada.
O site da TV Cultura nos conta que "A história segue Jamie Miller, um adolescente de 13 anos da Inglaterra, acusado de matar uma colega de escola a facadas. Ao longo de quatro episódios filmados em tomadas contínuas, sem cortes, o espectador acompanha os eventos de um dia após o crime, três dias depois, sete meses e, finalmente, 13 meses após o ocorrido.
A narrativa explora o impacto desse evento na vida da família Miller, especialmente de seus pais, enquanto tentam entender as razões que levaram o filho a cometer um ato tão brutal. Apesar de não ser baseada em um caso real específico, a série é inspirada em incidentes semelhantes que geraram comoção pública.
"Houve um incidente em que um menino [supostamente] esfaqueou uma garota, e isso me chocou. Fiquei pensando: o que está acontecendo na sociedade para que um menino faça isso? Qual foi o estopim disso?" disse Stephen Graham, criador da série ao site Tudum (...). Ele ressaltou que o objetivo da produção não é apenas retratar um drama sobre violência juvenil, mas provocar uma reflexão profunda sobre os fatores sociais e familiares que contribuem para esses atos.
O roteiro, escrito por Graham e Jack Thorne, também discute a masculinidade tóxica e o papel das redes sociais na formação da identidade dos jovens. Thorne, que coescreveu a história, revelou que a série provocou nele e em Graham uma reflexão sobre a raiva masculina e como ela se manifesta na sociedade contemporânea. 'Essa é uma jornada que nunca fiz como escritor antes, e isso me assustou e me empolgou', afirmou Thorne, destacando a necessidade de debater esse tema".
Jacqui Wakefield da Unidade Global Contra a Desinformação da BBC analisa que um dos motivos que poderia levar um menino de 13 anos a cometer um ato tão bárbaro pode estar na chamada "machosfera". Ela disse: "Cunhado pela primeira vez em 2009, este termo descreve uma rede de comunidades de interesse masculino online. Inclui grupos com um variado espectro de ideologias - desde acreditar que os homens não têm poder institucional até visões mais extremas e misóginas. Mas agora a machosfera ultrapassou os limites da internet, com seu conteúdo extremo sendo recompensado por algoritmos de rede social e alcançando uma audiência que antes não era possível. Influenciadores de masculinidade, como Andrew Tate, agora são famosos no mundo todo".
O roteirista de "Adolescência", Jack Thorne, mergulhou a fundo na internet para pesquisar a machosfera para a série. Ele declarou: "Não se trata apenas de Andrew Tate. Essas ideias estão por toda parte".
De forma resumida, o texto de Wakefield descreve a origem e a evolução da chamada machosfera como uma reação ao feminismo, especialmente a partir da década de 1970, quando parte do Movimento de Libertação dos Homens passou a ver as mulheres e o feminismo como responsáveis pelas dificuldades enfrentadas pelos homens. Nos anos 1990, essas ideias ganharam força em fóruns online, onde surgiram comunidades como incels (abreviação de involuntary celibates que, em português seriam 'celibatários involuntários', referindo-se a homens que dizem querer ter relações afetivas e sexuais, mas afirmam não conseguir apesar de tentarem) e grupos de “profissionais da sedução”, que gradualmente adotaram discursos misóginos e passaram a culpar as mulheres pela solidão masculina.
Segundo ela, com as redes sociais, essas comunidades se expandiram, unificaram ideologias e difundiram conceitos como a “regra 80/20” (que defende a ideia de que 80% das mulheres se interessariam apenas por 20% dos homens, geralmente os mais bonitos, ricos ou 'dominantes', deixando os outros 80% dos homens sem chances no mercado afetivo) e a metáfora da “pílula vermelha” (conhecida como 'red pill', oriunda do filme "Matrix" de 1999, que mostra as opções de se tomar uma pílula azul, caso se queira viver iludido, ingênuo, numa mentira conveniente ou tomar a vermelha e acordar para a verdade, enxergando a realidade), transformando o ressentimento em uma forma de ativismo antifeminista.
Esse ambiente virtual também estimulou campanhas de assédio e, em casos extremos, atos de violência no mundo real, como o ataque cometido por Elliot Rodger em 2014, um jovem de 22 anos que se autodenominava incel, e que matou seis pessoas e feriu 14 em uma tentativa de "punir" as mulheres que o rejeitaram.
Mais recentemente, influenciadores populares passaram a difundir versões “amenizadas” dessas ideias, misturando misoginia com discursos de autoajuda, sucesso financeiro e condicionamento físico, o que torna as mensagens mais aceitáveis ao grande público. Ao mesmo tempo, esses conteúdos atraem jovens que buscam pertencimento e respostas para frustrações pessoais, explorando inseguranças ligadas à solidão, ansiedade e às pressões sobre a masculinidade.
Ou seja, na série, o adolescente é fruto dessa cultura. É uma família comum, vivendo num mundo comum, que mostra como é preocupante tudo o que é possível neste momento.
Há especulações de que a minissérie terá uma segunda temporada.
O que eu achei: Com o Brasil apresentando em 2025 um número recorde de feminicídios no país e com a pergunta "como matar uma mulher sem deixar rastros" atingindo o número de 163 milhões de buscas no Google em 2025, resolvi conferir a minissérie "Adolescência" (2025). Composta por 4 episódios, ela nos conta a história de um menino de 13 anos que assassinou a facadas uma colega de escola, abordando o impacto das redes sociais, a pressão dos colegas, o bullying e os desafios da parentalidade moderna. O primeiro episódio – que se passa 1 dia após o ocorrido - é hipnotizante: ele mostra a chegada da polícia na casa do garoto que nega ter feito isso e a condução do menino para a delegacia onde começarão os primeiros procedimentos de acusação e investigação. Os pais e a irmã obviamente não acreditam que isso possa ter ocorrido. O segundo se passa três dias depois. Ele se atém basicamente à presença dos detetives na escola, na tentativa de interrogar alunos, buscar coautores, tentar achar a faca utilizada no crime e encontrar alguma explicação para o ocorrido. O terceiro, e talvez melhor de todos, se passa sete meses depois. Ele se concentra basicamente na entrevista conduzida pela psicóloga forense que precisa avaliar a saúde mental do menino e elaborar um laudo pericial que tente explicar os sentimentos complicados do garoto pela menina assassinada. O quarto e último episódio se passa treze meses depois do ocorrido, mostrando o aniversário do pai do menino (interpretado por Stephen Graham que também é um dos criadores da série) cuja família ainda lida com as sequelas do fato. A minissérie é excepcionalmente boa. Dá para se entender, na prática, conceitos cruciais da machosfera (nome que se dá a essa rede online de comunidades de interesse masculino), abordando temas como os incels (celibatários involuntários, homens que não se relacionam por não encontrarem mulheres que os queiram), a regra 80/20 (que defende a ideia que as mulheres se interessam por apenas 20% dos homens existentes no planeta) e as red pills (termo oriundo do filme "Matrix" sobre a opção de se viver iludido ou conhecer a verdade). Apesar da minissérie parecer estar encerrada, há especulações que ela venha a ter uma segunda temporada. Doloroso de assistir, mas muito necessário.

9.2.26

"Suspeita" - Alfred Hitchcock (EUA, 1941)

Sinopse:
Johnny Aysgarth (Cary Grant) é um charmoso playboy e inveterado jogador que vive pedindo dinheiro emprestado. Ele casa com a tímida Lina McLaidlaw (Joan Fontaine), uma rica herdeira. Após a lua-de-mel ela começa a desconfiar do caráter do rapaz, quando o parceiro e amigo de Johnny é morto misteriosamente. Ela suspeita do marido e teme que possa ser a próxima vítima.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele 37 filmes, dentre eles: as obras-primas: "Os Pássaros" (1936), "Festim Diabólico" (1948), "Janela Indiscreta" (1954), "Um Corpo Que Cai" (1958) e "Psicose" (1960) e os ótimos: "O Inquilino" (1927), "Chantagem e Confissão" (1929), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), “Rebecca, a Mulher Inesquecível” (1940), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), "Interlúdio" (1946), "Pacto Sinistro" (1951), "Disque M para Matar" (1954), "O Homem Que Sabia Demais" (1956), “Intriga Internacional” (1959) e "Frenesi" (1972). Desta vez vou conferir "Suspeita" (1941).
João Bénard da Costa da Cinemateca Portuguesa nos conta que "Após os créditos iniciais, a tela fica por uns momentos totalmente preta. Ouve-se o apito de um trem e, segundos depois, vozes. Quando se 'faz luz' encontramo-nos numa carruagem, com Joan Fontaine num banco e Cary Grant no outro. Frente a frente. O espectador apercebe-se, então, que a escuridão provinha da travessia de um túnel. No escuro, um homem e uma mulher, sentados frente a frente, viajam juntos, com um apito como fundo sonoro.
Assim começa 'Suspeita', o quarto filme americano de Hitchcock. Quando começamos a ver, a câmara subjetiva-se (como ao longo de todo o filme será uma constante) no olhar de Joan Fontaine, de óculos, chapéu, ar assustado, lendo um livro sobre psicologia infantil. É pelos olhos dela que vemos Cary Grant, extremamente à vontade (...).
De que escuridão provém Joan Fontaine? Ao longo das primeiras sequências vão nos sendo dadas informações: o peso puritano da família (repare na onipresença do pai, perpetuada, depois da morte, pelo retrato), a fixação no estágio infantil (a psicologia das crianças tanto se aplica a ela, como ela a aplica a Cary Grant que tende a ver como uma 'criança grande', chegando a perguntar-lhe se não será tempo de ele crescer), o medo do amor físico (o fabuloso plano do primeiro beijo-luta, visto de tão longe), a timidez, o desequilíbrio interior e exterior (o plano dela a cavalo).
'Monkey face' chama-lhe Cary Grant, enquanto a ela vão sendo associadas imagens tutelares das grandes instituições: igreja, polícia, família. Tudo, no seu modo de vestir e de andar, insinua um mal-estar, um medo, uma aflição que provém de um background mais insinuado do que explicitado mas de que não são dados os elementos suficientes (...).
A sequência do baile (primeira sequência plenamente iluminada, primeira sequência em que Joan Fontaine abandona os óculos) parece preparar-nos para outra claridade que rima com a rápida passagem pela lua de mel e pela primeira casa do casal. Mas a rápida descoberta de que o marido não tem um vintém e a suspeita de que terá casado com ela por dinheiro, lançam-na outra vez na mesma obscuridade.
Daí para diante, o filme prossegue com a alternância de momentos claros (aqueles em que Joan Fontaine acredita ou volta a acreditar) e de momentos escuros (aqueles em que totalmente suspeita). E os elementos iniciais vão-se conjugando como num quebra-cabeça para reforçar esse sentimento de escuridão". 
O roteiro foi baseado no livro "Before the Fact" de Anthony Berkeley. Uma das autoras do roteiro foi Alma Reville, mulher de Alfred Hitchcock e sua mais chegada colaboradora. Ela contribuiu em muitos filmes do marido, mas geralmente não foi creditada. "Suspeita" é o primeiro longa no qual Hitchcock atuou como diretor e produtor.
O filme venceu um Oscar na categoria de Melhor Atriz pelo desempenho cerebral de Joan Fontaine.
O que disse a crítica 1: Rubens Ewald Filho do UOL avaliou o filme com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "A atriz Joan Fontaine foi premiada com o Oscar por sua atuação (...), mas foi uma espécie de 'prêmio de consolação' por ela não ter levado a estatueta pelo papel em 'Rebecca' (1939), também do Alfred Hitchcock, que a tinha transformado em estrela. Esta produção da RKO, feita logo a seguir (1941), ou seja no começo da presença do diretor nos EUA, é hitchcockiana típica porque está cheia de subentendidos e meias-verdades. O filme também foi indicado para o Oscar de Melhor Filme e de Trilha Sonora (mas, estranhamente, não para o de Diretor). Joan realmente funciona em papéis de vítima, como a mulher apaixonada, frágil e desorientada que não sabe como lidar com a suspeita de que o marido (Cary Grant) seja um assassino (...). Cary Grant também está bastante bem como o marido, mas a escolha dele como protagonista, com sua persona de galã leve e romântico, impediu Hitchcock de tornar o filme mais sinistro e sombrio e também explica o artificial final feliz, diferente do livro em que o filme se baseia. Ainda que não se inclua entre as obras-primas de Hitchcock, funciona muito bem hoje e merece atenção".
O que disse a crítica 2: Ritter Fan do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Hitchcock (...) mesmo com um material fonte interessante para trabalhar e que ele torna ainda mais interessante em filme, acaba errando com a utilização de Isobel. Apesar da personagem ser introduzida razoavelmente cedo na estrutura da obra, ela ganha uma desproporcional atenção no terço final, algo que não é nem esperado e muito menos orgânico para o desfecho, ainda que importante. Parece até que algo foi 'perdido' na mesa de montagem, assim como acontece com a brusquidão do início da fita, que nos joga os personagens no colo de forma pouco ortodoxa. Mas 'Suspeita' funciona muito bem apesar de seus problemas aqui e ali. A manutenção do suspense por Hitchcock literalmente até os segundos finais do filme e as excelentes atuações do atores principais fazem da quarta empreitada do diretor em solo americano uma delícia de diversão, com um charme irresistível".
O que eu achei: "Suspeita" (1941) é um daqueles filmes que, já nos primeiros minutos, se impõe como uma obra tipicamente hitchcockiana. Estão lá os elegantes cenários pintados, as casas cuidadosamente decoradas, os figurinos impecáveis e os personagens minuciosamente caracterizados. Tudo é visualmente atraente e tecnicamente bem acabado, confirmando o domínio de Alfred Hitchcock sobre a forma e a atmosfera. Na trama, Joan Fontaine - em uma interpretação delicada e intensa que lhe rendeu o Oscar - vive uma mulher ingênua que se casa com um charmoso bom vivant. Aos poucos, a felicidade conjugal dá lugar à inquietação, e a suspeita do título se instala: estaria o marido planejando assassiná-la? O filme se constrói justamente sobre essa dúvida, explorando o medo, a ambiguidade e a fragilidade psicológica da protagonista, algo que Hitchcock sempre soube fazer de forma eficaz. Havia, portanto, todos os ingredientes para que "Suspeita" se tornasse mais uma obra-prima na filmografia do diretor. No entanto, alguns problemas impedem que o filme alcance esse patamar. O principal deles parece estar na edição. Há cortes abruptos que, em determinados momentos, interrompem a fluidez da narrativa e quebram a tensão cuidadosamente construída, prejudicando a fruição do espectador. O final também deixa a desejar. Sabe-se que diferentes versões foram escritas e que a escolha da conclusão exibida partiu do estúdio, contrariando o desejo de Hitchcock, então não se pode culpá-lo. Dizem, inclusive, que esse final não segue nem o livro "Before the Fact" de Anthony Berkeley em que o filme se baseia. A sensação é de uma resolução pouco convincente, que acaba enfraquecendo o impacto psicológico do conjunto. É uma pena, pois praticamente qualquer outra alternativa soaria mais coerente e ousada do que a que foi levada às telas. Entretanto, apesar do longa não estar a altura dos filmes mais excelentes de Hitchcock, ele ainda assim permanece como um bom longa-metragem: é agradável, bem interpretado e interessante em suas intenções.

8.2.26

"Foi Apenas Um Acidente" - Jafar Panahi (Irã/França/Luxemburgo, 2025)

Sinopse:
Quando o mecânico Vahid (Vahid Mobasseri) encontra por acaso o homem que acredita ter sido seu torturador na prisão, ele o sequestra decidido a se vingar. Mas a única pista sobre a identidade de Eghbal (Ebrahim Azizi) é o som peculiar de sua perna protética. Vahid então recorre a um grupo de outras vítimas libertas - Shiva (Mariam Afshari), Goli (Hadis Pakbaten) e Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr) - em busca de confirmação. Enquanto enfrentam o passado e suas visões de mundo divergentes, o grupo precisa decidir: será realmente ele, sem dúvida alguma? E o que significaria, na prática, se vingar?
Comentário: Jafar Panahi (1960) é um cineasta iraniano que desde 2010 está proibido pela justiça iraniana de filmar sob a acusação de estar mostrando o regime de repressão que o povo iraniano vive, algo que o governo chama de “fazer propaganda contra o governo iraniano". Ele já foi preso duas vezes e, no momento, está com prisão decretada. Mesmo assim Panahi está dando um jeito de filmar. Assisti dele os excelentes "O Balão Branco" (1995), "O Espelho" (1997), "Taxi Teerã" (2015), "3 Faces" (2018) e "Sem Ursos" (2022), além dos documentários "Isto Não É Um Filme" (2011) e “Escondida” (2020). Desta vez vou conferir "Foi Apenas Um Acidente" (2025).
Neusa Barbosa do site Cineweb publicou: "Por 15 anos, o diretor iraniano Jafar Panahi esteve proibido de viajar ao exterior, uma das muitas restrições de quem, nesse período, foi condenado à prisão, esteve em solitária, fez greve de fome e foi proibido de filmar - o que não impediu que continuasse realizando filmes como 'Isto Não é Um Filme', 'Táxi Teerã', 'Três Faces' e 'Sem Ursos', colhendo prêmios em festivais internacionais como Cannes e Berlim.
A proibição foi suspensa em 2025 e Panahi pôde, em maio último, estar presente na concorrida sessão oficial de seu novo filme em Cannes, 'Foi Apenas Um Acidente', que terminou vencendo a Palma de Ouro, concedida por um júri presidido pela atriz Juliette Binoche. Em 2010, quando o cineasta foi preso no Irã e por isso impedido de ir a Cannes para integrar o júri, a atriz francesa ergueu um cartaz com o nome dele ao receber o próprio prêmio de interpretação, por outro filme iraniano, 'Cópia Fiel', de Abbas Kiarostami. Toda essa circunstância trabalhou a favor do filme, mas nada disso deve obscurecer o fato de que a obra fala por si só, em sua complexidade política e força dramática.
No enredo, um homem, Vahid (Vahid Mobasseri), julga reconhecer um antigo algoz que o torturou na prisão - que se deu também por motivos políticos. A partir daí, fica obcecado com a captura do suposto agente, Eghbal (Ebrahim Azizi), recorrendo a outros ex-presos que sofreram em suas mãos, como a fotógrafa Shiva (Mariam Ashfari), uma noiva em seu vestido de casamento, Gol (Hadis Pakbaten), e outro homem, Hamid (Mohammed Ali Elyasmehr), para assegurar-se de sua identidade, sobre a qual restam dúvidas.
Numa trama que se desenvolve entre uma caminhonete, as ruas da cidade e alguns lugares ermos, Panahi constrói seu drama ético, que suscita todo tipo de questão. Se de um lado é um thriller - este homem é ou não o agente Eghbal? -, também é um relato moral. Até que ponto é legítimo que vítimas exercitem o olho por olho, dente por dente, contra aqueles que, contra elas, impuseram agressões, execuções encenadas e ameaças, inclusive de estupro?
O cineasta dá voz às vítimas, que carregam cicatrizes profundas, porque os efeitos da tortura, de algum modo, nunca se dissipam completamente, especialmente os psíquicos. E cada uma tem seu entendimento sobre a vingança. Mas também, a certa altura, se dá voz a este agente do Estado, que perdeu uma perna lutando na Síria e tem uma noção bastante pessoal do que é servir ao governo.
No auge da sua forma como roteirista e diretor, Panahi cria um filme denso, cheio de camadas, inclusive de humor - a noiva e a passagem pelo hospital são dois desses momentos exemplares, sem nunca comprometer o grande arco de valores sendo colocados em primeiro plano.
A própria filmagem de 'Foi Apenas um Acidente' ocorreu cheia de percalços. Mesmo filmando em parte dentro de uma caminhonete, também para atrair menos atenção, a equipe recebeu a visita de fiscais e se mobilizou para esconder o filme, prevenindo a hipótese de que fosse confiscado - conforme relatou o diretor na coletiva em Cannes.
Depois do anúncio de que o filme iria a Cannes, sobretudo nas duas semanas anteriores, vários membros da equipe, como as atrizes Hadis e Mariam, foram intimadas para interrogatórios e pressionadas. Ebrahim Azizi contou que recebeu telefonemas estranhos de números desconhecidos. Um corroteirista do filme foi preso.
As restrições do regime iraniano contra os artistas, no entanto, continuam. Na semana que o filme estreou no Brasil, chegou a notícia de que o diretor foi novamente condenado a um ano de prisão, proibido por dois anos de viajar para fora do Irã e também de associar-se a grupos políticos e sociais.
No entanto, como afirmou Panahi em Cannes: 'É um absurdo e até surrealista que se coloquem artistas na prisão. Ao fazer isso, lhes damos ideias, lhes abrimos um mundo novo'. Seu próprio filme, segundo ele, nasceu de inúmeras conversas com pessoas que conheceu na prisão. 'Na verdade, não fomos nós que criamos o filme, foi a República Islâmica. Então, eles devem saber que, quando prendem um artista, devem assumir as consequências'".
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Ele criticou o fato das discussões entre os personagens se repetirem demasiadamente e disse que "na segunda metade do filme os personagens tomam uma decisão (...) impossível de aceitar por julgá-la absurda, artificial e inverossímil (...). Ainda assim, a força de 'Foi Apenas um Acidente' se mantém graças à história do próprio Panahi, não sendo difícil imaginar como várias das discussões presentes na obra refletem debates que ele provavelmente testemunhou ou das quais participou tanto durante seu período na prisão quanto em conversas com antigos companheiros de ativismo quando se encontrava em liberdade. E neste caso o contexto extra filme faz toda a diferença".
O que disse a crítica 2: Wallace Andrioli do site Plano Aberto avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: No encerramento, o filme "confirma sua implicação consequente na situação sócio-política do Irã, escapando de qualquer possibilidade de equivalência das ações, entre o que os ex-prisioneiros sofreram no passado e sua vingança presente. A última cena, ainda que atravessada por ironia e até certa crueldade com o protagonista, não extrai disso propriamente prazer narrativo, ao menos não a ponto de se sobrepor ao reconhecimento lamentoso da necessidade de abandonar qualquer ingenuidade no confronto com o autoritarismo. O que reforça uma característica do cinema de Panahi que, fase após fase, nunca deixou de existir: a forte indexação na realidade do mundo filmado, manifesta na encenação naturalista, na recorrente presença de atores não profissionais e das paisagens urbanas e rurais de seu país e, claro, na interminável disposição para comentar criticamente a opressão de um regime teocrático".
O que eu achei: Considerar o contexto de vida do próprio cineasta é um bom ponto de partida para se começar a ver esse filme que conta a história de Vahid, um mecânico que, por acaso, encontra o homem que acredita ter sido seu torturador na prisão. Ele o sequestra decidido a se vingar, mas a única pista sobre a identidade dele é o som peculiar de sua perna protética. A ideia, a princípio, é enterrá-lo vivo, mas como ter certeza de que é ele mesmo? Vahid então sai em busca de outras vítimas libertas em busca de confirmação. O filme foi feito no Irã, filmado às escondidas, já que Jafar Panahi já foi preso duas vezes acusado de "fazer propaganda negativa contra o governo". Toda sua equipe teve que trabalhar dessa forma, procurando evitar locais muito movimentados e produzindo boa parte do material dentro de uma van. Mesmo assim eles receberam a visita de fiscais. Foi necessário esconder o filme para conseguir tirá-lo do país e fazer a edição na França. Depois do anúncio de que o filme iria ser exibido em Cannes, vários membros da equipe, como as atrizes Hadis (a noiva) e Mariam (a fotógrafa), foram intimadas para interrogatórios e pressionadas. Ebrahim Azizi (que interpreta o torturador) contou que recebeu telefonemas estranhos de números desconhecidos. Recentemente, um dos roteiristas chamado Mehdi Mahmoudian, foi preso em Teerã por ter assinado uma carta aberta que acusa o líder supremo do Irã de crimes contra a humanidade, dentro de uma série de protestos que o regime insiste em enquadrar como ameaça à ordem. Sabendo de tudo isso, o filme adquire ainda mais relevância transformando-se num ato de resistência, mostrando uma sociedade que tenta lidar com memórias traumáticas e uma extrema falta de liberdade, discutindo ética, justiça, vingança e moral, dentre outras coisas. O final é surpreendentemente engenhoso. Me lembrou um outro filme chamado "A Morte e a Donzela" (1994) do Polanski, adaptado de uma peça de teatro escrita por um chileno exilado que escapou do regime de Pinochet chamado Ariel Dorfman, que conta a história de uma mulher casada com um advogado, que recebe em sua casa o suposto homem que a torturou e a estuprou quando ela fazia militância política. O tempo passa e o tema permanece atual. O filme foi indicado ao Oscar como um representante da França e está concorrendo nas categorias Roteiro Original e Filme Internacional. Boa pedida.

7.2.26

"Apocalipse nos Trópicos" – Petra Costa (Brasil, 2025)

Sinopse:
Quando uma democracia termina e uma teocracia começa? O documentário investiga a crescente influência que líderes evangélicos exercem sobre a política brasileira. Entrelaçando passado e presente, apresenta um espelho inquietante para o resto do mundo.
Comentário: Petra Costa (1983) é uma cineasta, roteirista, produtora e narradora brasileira, cofundadora da produtora Busca Vida Filmes e membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Assisti dela os documentários "Elena" (2012) e “Democracia em Vertigem” (2019). Desta vez vou conferir "Apocalipse nos Trópicos" (2025).
O documentário investiga a crescente influência de lideranças evangélicas na política brasileira e como uma teologia de viés apocalíptico passou a moldar discursos e estratégias do bolsonarismo e da extrema-direita. O filme discute a tensão entre democracia e projetos de poder de caráter teocrático, situando essa disputa no centro da crise política recente do país.
A narrativa adota um formato de ensaio pessoal, característica recorrente na filmografia da diretora, que parte de inquietações próprias para tentar compreender os grupos e líderes com os quais discorda. A partir de imagens de arquivo, registros de manifestações públicas e entrevistas, o documentário reconstrói episódios-chave do cenário político brasileiro contemporâneo, relacionando religião, mobilização popular e projetos de poder.
Um dos eixos centrais é a ascensão de Jair Bolsonaro e a importância estratégica do apoio evangélico para a consolidação de seu governo. O filme destaca a atuação de figuras influentes como o pastor Silas Malafaia, com quem a diretora obtém acesso direto, além de apresentar entrevistas com o próprio Bolsonaro e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, oferecendo visões contrastantes sobre o papel da religião na política nacional.
Ao abordar a instrumentalização da fé para fins políticos, o documentário questiona os limites entre convicção religiosa e manipulação ideológica, levantando preocupações sobre o impacto do fundamentalismo no funcionamento das instituições democráticas. Ao mesmo tempo, sua abordagem pessoal e declaradamente crítica gerou debates sobre o alcance de sua análise e sobre o fato de dialogar sobretudo com um público já alinhado a posições progressistas.
O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Veneza, foi bem recebido em vários circuitos internacionais, chegou à lista dos pré-selecionados ao Oscar e está indicado ao BAFTA.
O que disse a crítica 1: Gilberto Nascimento do site Intercept Brasil não gostou. Ele disse que o filme relata bem a tragédia no Brasil com a eleição de Bolsonaro em 2018, mas que o pastor Silas Malafaia ganhou uma proporção muito maior do que, de fato, ele tem no segmento. Disse que apesar de midiático, sua igreja (a Assembleia Vitória em Cristo) é apenas um ramo, entre os menores, da Assembleia de Deus. Os ramos do Belém, em São Paulo, e Madureira são os maiores e os que mais elegem políticos no Brasil, exercendo assim mais influência. Mas que só Malafaia e seu grupo falam no filme de Petra Costa.
O que disse a crítica 2: Caio Coletti do site Omelete avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: "Na onipresente narração em off - marca registrada de todos os seus filmes (...) -, Petra Costa admite que, devido a uma criação laica, leu a Bíblia essencialmente pela primeira vez enquanto preparava 'Apocalipse nos Trópicos'. (...) É claro que o filme não passa incólume de certas miopias, consequência direta do cinema rigidamente autocentrado que Costa clamou para si desde o começo da filmografia. É assim que escapam pelas rachaduras de uma investigação sincera algumas presunções que só poderiam vir de alguém em certa posição social, cercada de certos elementos culturais".
O que eu achei: Li tantas críticas negativas sobre o documentário indicado ao Oscar e que agora concorre ao BAFTA, que pensei até em não ver, mas o resultado para mim foi, ao contrário, uma surpresa extremamente positiva. Quem acompanhou o mínimo de noticiário na época sabe como o inelegível foi eleito e o que se deu na sequência com o envolvimento de membros do exército. O recorte que Petra faz nesse documentário sobre o livro do Apocalipse pode não cobrir todos os motivos que levaram o Brasil a esse estado de coisas, pode até ser considerado simplista, mas não deixa de ser muito elucidativo pois ele entra na alma do evangélico ortodoxo, explicando as crenças que norteiam pessoas que acreditam piamente num fim do mundo decretado por Deus, com a derrota de Satanás e de todos os seus representantes e a salvação dos crentes em Jesus. Eu nunca havia me atentado na forma como essa crença era uma porta aberta para manipular milhares de pessoas a acreditar que juntas - totalizando com outras subdivisões de evangélicos 30% do eleitorado brasileiro - elas poderiam ajudar Deus a cumprir com 'aquilo que já estava escrito'. Para ajudar Deus nesse seu projeto seria preciso eleger um tolo, uma espécie de marionete manipulável sem muita capacidade de raciocínio para que Ele pudesse agir. No filme há uma passagem que mostra o inelegível já eleito na igreja de Malafaia – o grande protagonista do documentário – dizendo: "Deus escolheu as coisas vis, de pouco valor, as desprezíveis, que podem ser descartadas, as que ninguém dá importância, para confundir, para que nenhuma carne se vanglorie diante dele. Foi por isso que Deus te escolheu. Deus escolheu as coisas loucas, fracas, vis e desprezíveis". Ou seja, o candidato B preenchia todos os requisitos. A presença do coronavírus que devastou o mundo com tantas mortes também veio muito a calhar para alimentar esse raciocínio. Se no livro do Apocalipse é mencionada a abertura do quarto selo, onde é dado poder para matar a quarta parte da Terra por meio da peste além da espada (armamentos), fome e feras; se mais adiante no livro, durante o toque das trombetas, é descrito que um terço da humanidade seria morto, como não acreditar que esse momento havia mesmo chegado e abraçar essa causa divina ajudando o Criador a acabar com tudo para que a Terra pudesse renascer num novo tempo no qual a morte não existiria mais, 'nem o luto, nem o pranto, nem a dor'. Enfim, uma aula sobre os perigos da teocracia. Obrigatório.

2.2.26

“A Praga” – José Mojica Marins (Brasil, 1980/2021)

Sinopse:
 
Durante uma viagem, Juvenal (Felipe Von Rhein) e Mariana (Silvia Glass) fazem algumas fotos de uma estranha idosa (Wanda Kosmo). Mas a mulher é uma bruxa que lança uma maldição em Juvenal. Uma ferida sinistra nasce em sua barriga, um machucado medonho que precisa ser alimentado com carne crua.
Comentário: José Mojica Marins (1936-2020) foi um cineasta, ator, apresentador e roteirista de cinema e televisão brasileiro. É considerado o pai do terror nacional, tendo sua obra grande importância para o gênero e influenciando várias gerações. Seu icônico personagem Zé do Caixão, interpretado pelo próprio Mojica, está presente em diversos de seus filmes e é responsável por tê-lo tornado mundialmente conhecido. Assisti dele 12 filmes, todos trash, sendo que os que eu mais gostei foram: "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964), "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1967), "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" (1968), "Ritual dos Sádicos / O Despertar da Besta" (1969), "Finis Hominis (O Fim do Homem)" (1971), “Exorcismo Negro” (1974), "Delírios de Um Anormal" (1978) e "Encarnação do Demônio" (2007). Desta vez vou conferir "A Praga" (1980/2021).
O site do IMS nos conta que “’A Praga’ é o último filme inédito dirigido pelo mestre do horror José Mojica Marins (...). No filme, o casal Marina e Juvenal passeia pelo campo e para em frente à casa de uma estranha idosa para tirar fotos. Irritada, a mulher se revela uma bruxa e joga uma maldição em Juvenal: uma perseguição psíquica horrorizante, provocando uma ferida que se abre em seu corpo de forma descontrolada. O ferimento leva Juvenal a uma fome insaciável por carne crua.
Inicialmente, ‘A Praga’ foi concebido como um episódio do programa ‘Além, Muito Além do Além’, escrito por Rubens Francisco Lucchetti e exibido pela TV Bandeirantes entre 1967 e 1968. Essa primeira versão da história se perdeu em um incêndio na emissora e, em 1980, Mojica decidiu refilmá-la, mas não conseguiu concluir o trabalho. Após mais de 15 anos empenhado na recuperação das obras de Mojica, Eugênio Puppo encontrou os rolos de filme originais do projeto, que eram considerados perdidos. Sabendo da grande afeição do mestre pela obra, o produtor trabalhou na correção de cores, remasterização sonora, trilha musical e até na inclusão de dublagem, já que as gravações das vozes originais não foram encontradas. A história desse processo de restauro em 4k foi registrada no curta-metragem documental ‘A Última Praga de Mojica’, que antecede a exibição do filme.
‘Todo o cuidado que tivemos com a recuperação do filme foi importante para não deixar que ele se perdesse através da história’, conta Puppo em depoimento disponível no material de imprensa do filme. ‘Fizemos de tudo para manter a autenticidade, oferecer ao público algo muito próximo do que tínhamos encontrado, com a veracidade de um autêntico filme de Mojica. Quando me contava sobre os vários trabalhos que não conseguiu concluir, ele sempre fazia referências a ‘A Praga’. Agora, finalmente, o filme terá um lançamento à altura de sua importância’.”
A versão "definitiva" da obra com nova montagem e efeitos, teve estreia mundial no Festival de Sitges, na Espanha, em outubro de 2021. Depois, correu o mundo em dezenas de festivais, em mostras e em exibições especiais. O diretor não chegou a ver o lançamento da obra, pois morreu em 2020.
Zé do Caixão, o personagem mais famoso de Mojica, não aparece na trama, mas serve como uma espécie de mestre de cerimônia, um narrador da história.
O que disse a crítica 1: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: “’A Praga’ é um filme marcado pela penúria, carregando em seus fotogramas as marcas do descaso de um país com o seu legado cultural. O aspecto formal mais interessante resultante do processo de resgate é a preservação de certas manchas de deterioração na película original para conferir um aspecto tétrico aos pesadelos de Juvenal. Quanto ao desenrolar da trama propriamente dita, ela ocorre num crescendo moderado de tensão e angústia, desenvolvimento prejudicado pela interpretação do casal protagonista. (...) O filme tem algumas transições abruptas, como quando José Mojica Marins pula de uma cena tensa para outra de conteúdo gratuitamente erótico. Nunca saberemos se essas mudanças bruscas de direção foram fruto de um desejo consciente de romper inesperadamente um fluxo narrativo ou se resquício da arqueologia possível que não encontrou peças faltantes. De toda forma, a existência desse média-metragem resultante dos enormes esforços da geração que cresceu amando Mojica deve ser comemorada”.
O que disse a crítica 2: Bruno Ghetti da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Em seu excelente trabalho de pós-produção, ‘A Praga’ se revela uma pequena joia do cinema fantástico brasileiro. Há o esdrúxulo, o tosco, e todo o prazer mundano que lhes são peculiares. Mas há também o espírito de descumprimento de regras de um dos nossos maiores artistas instintivos, cujo cinema ia costumeiramente muito além das módicas pretensões iniciais do diretor”.
O que eu achei: Quem esperava, a esta altura do campeonato, poder ver um filme "novo" do José Mojica Marins (1936-2020)? O longa "A Praga" (1980/2021) era considerado como perdido por muito tempo. Foi pensado para ser exibido no programa "Além, Muito Além do Além" que ia ao ar na TV Bandeirantes nos anos 1967-1968, mas praticamente ficou no projeto, só começando a ser rodado de fato em 1980, quando o programa nem existia mais. Porém Mojica não conseguiu concluir a edição e acabou deixando de lado. Foi o cineasta e pesquisador Eugênio Puppo que encontrou o material bruto gravado em super-8 e se dedicou, junto com sua equipe, a fazer a edição, acrescentando cenas adicionais faltantes no projeto e colocando uma dublagem nas falas não capturadas. Por sorte o roteiro de Mojica escrito em parceria com Rubens Francisco Lucchetti havia sido lançado na forma de quadrinhos nos anos 60, então toda a trama estava lá. Ainda deu tempo de, em 2020, filmar o próprio Mojica, em seu último ano de vida, vestido com as roupas de Zé do Caixão, funcionando como um apresentador da história, uma espécie de mestre de cerimônias, tal qual ele fazia costumeiramente em várias de suas obras mais antigas. Uma pena a versão finalizada da obra só ter ficado pronta em 2021, com Mojica já falecido, então ele próprio não conseguiu assistir. O resultado – pra quem como eu gosta do estilo trash do diretor – é ótimo, dura em torno de 50 minutos e vale ser visto juntamente com o documentário "A Última Praga de Mojica" (2021) que conta toda essa história do restauro. Atenção para o elenco que conta com a excelente Wanda Kosmo (1930-2007). Que achado!

1.2.26

"Um Cão Andaluz" - Luis Buñuel (França, 1928)

Sinopse:
Buñuel e Dalí exploram o inconsciente humano, numa sequência de cenas oníricas, incluindo o célebre momento em que um homem, interpretado pelo próprio diretor, corta, com uma navalha, o olho de uma mulher.
Comentário: Trata-se do filme número 82 da lista de filmes essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “A carreira do espanhol Luis Buñuel passou por várias fases distintas – a mexicana, do realismo brutal de 'Os Esquecidos' (1950), a espanhola, de 'Viridiana' (1961), e a francesa, de impiedosas sátiras sobre a burguesia. Nenhuma delas, entretanto, sintetiza tão bem sua obra quanto a surrealista, que compreende os curtas 'Um Cão Andaluz' (1929) e 'A Era do Ouro' (1930). É neles que aparecem as características que levariam o espanhol a ser considerado por Alfred Hitchcock o melhor diretor de todos os tempos: o humor provocador, algo grotesco, e a ironia destilada contra a hipocrisia da igreja católica. 'Um Cão Andaluz', escrito em parceria com o artista plástico Salvador Dalí e inspirado em sonhos dos dois, é o exemplo máximo da adaptação para as telas do movimento criado por André Breton. Não existe uma trama definida conduzindo o filme, apenas mergulhos no inconsciente, uma compilação não-linear de imagens aparentemente desconexas (o próprio diretor dizia que não significavam nada), oníricas, fragmentárias e violentas. Um piano coberto por cavalos mortos, livros que se transformam em revólveres, formigas que cobrem uma mão e, na cena mais famosa, um homem que corta o olho de uma mulher com uma navalha. Reza a lenda que Buñuel (ele, assim como Dalí, faz ponta no filme) tinha tanto medo de ser atacado pela plateia que foi à estreia munido de pedras nos bolsos. Não poderia estar mais equivocado: com 16 minutos de duração, 'Um Cão Andaluz' é considerado por vários críticos o mais importante curta-metragem da história".
O que eu achei: Com apenas 16 minutos de duração, "Um Cão Andaluz" (1928) permanece, quase um século depois, como uma das experiências mais radicais e perturbadoras da história do cinema. Realizado por Luis Buñuel em parceria com Salvador Dalí, o curta não apenas inaugura uma estética surrealista no audiovisual como rompe deliberadamente com qualquer expectativa de narrativa lógica, psicológica ou simbólica. Sua proposta é clara e extrema: rejeitar toda imagem que possa ser explicada racionalmente, abrindo espaço para o fluxo do inconsciente, do sonho e do choque. A célebre cena inicial do olho sendo cortado funciona como manifesto: o filme exige que o espectador abandone a busca por sentido convencional e aceite a experiência sensorial e afetiva do absurdo. Não há personagens estáveis, causalidade ou progressão dramática. O tempo se embaralha, os corpos se fragmentam, os desejos surgem de forma violenta e desconexa. Buñuel ataca frontalmente a moral burguesa, o conforto narrativo e a ideia de cinema como ilustração de histórias compreensíveis. Exibido pela primeira vez em 1929 para a elite artística surrealista de Paris, o curta provocou escândalo e fascínio na mesma medida. Seu impacto foi imediato: mais do que um filme, "Um Cão Andaluz" consolidou o cinema como território legítimo da vanguarda artística, capaz de dialogar de igual para igual com a pintura, a poesia e o pensamento experimental da época. A razão dele figurar entre os 100 filmes essenciais da história do cinema, segundo a Revista Bravo!, está menos em sua forma “agradável” - que ele nunca pretendeu ser - e mais em seu gesto inaugural. Buñuel prova que o cinema pode ser um ato de ruptura, um ataque ao olhar domesticado, um espaço onde o irracional não precisa ser domado. Poucos filmes influenciaram tanto, com tão pouco tempo de projeção.

"Valor Sentimental" - Joachim Trier (Noruega/Alemanha/Dinamarca/França/Suécia/Reino Unido/Turquia, 2025)

Sinopse:
As irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) se reencontram com seu excêntrico pai, Gustav (Stellan Skarsgård), um famoso diretor de cinema que desapareceu há muito tempo. Ele oferece a Nora o papel principal em seu novo filme, mas ela recusa. Então ele escala uma estrela americana (Elle Fanning) para protagonizar seu novo e provável último filme.
Comentário: Joachim Trier (1974) é um cineasta dinamarquês-norueguês. Ele é neto do diretor, roteirista e músico Erik Løchen e primo distante do diretor Lars von Trier. São dele filmes como "Oslo, 31 de Agosto" (2014), "Mais Forte Que Bombas" (2016) e "Thelma" (2017). Assisti dele o longa "A Pior Pessoa do Mundo" (2021). Desta vez vou conferir "Valor Sentimental" (2025).
Cesar Soto do site G1 publicou: "'Valor Sentimental' é daqueles filmes raros, que espalham por conta própria inúmeras armadilhas apenas para desviar delas – e que, no processo de evitar um melodrama barato, encontra beleza na humanidade real por trás de complicações familiares.
Ou pode ser que seja o contrário, e que a obra norueguesa (...) tenha encontrado tal beleza e então evitado o melodrama. É difícil dizer. Seja como for, é fácil ver como um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Internacional (...) se apresenta como uma evolução natural do trabalho e da sensibilidade do cineasta dinamarquês Joachim Trier.
No filme, ele se reencontra com a atriz Renate Reinsve para expandir a exploração que fizeram sobre o lado humano de tragédias corriqueiras no incrível 'A Pior Pessoa do Mundo' (2022).
Com o trabalho sutil e doído em 'Valor Sentimental', a norueguesa se eleva de vez à elite da atuação mundial – apoiada por interpretações impecáveis de um elenco que mistura nomes conhecidos, como Stellan Skarsgård e Elle Fanning, e revelações, como Inga Ibsdotter Lilleaas.
O roteiro escrito por Trier e Eskil Vogt, parceiro do diretor durante toda a sua carreira, à primeira vista conta a história de um diretor veterano egocêntrico (Skarsgård) que escala uma estrela americana (Fanning) para protagonizar seu novo – e provável último – filme, após sua filha atriz (Reinsve) rejeitar o papel. Este é o resumo mais sexy e comercial. Aos poucos, 'Valor Sentimental' se desdobra no efeito cascata de traumas familiares que definem suas diferentes gerações. Ao adotar diferentes pontos de vista, a obra destrincha relações e momentos definidores de cada um – e faz com que episódios particulares de seus personagens ressoem particularmente universais.
O mais notável, contudo, é que o faz sem apelar para o melodrama. Graças em especial ao elenco, o filme comove ao mesmo tempo em que sustenta uma leveza surreal. Menos operático do que o indicado ao Oscar 'A Pior Pessoa do Mundo', 'Valor Sentimental' depende quase que integralmente do peso de suas atuações. Reinsve já tinha provado possuir um talento único para dar vida a pessoas cheias de defeitos mas profundamente magnéticas no trabalho anterior de Trier, que a lançou para o mundo. Ao invés de ficar presa, a atriz se apoia no estereótipo para superar um desafio ainda maior – e equilibrar uma balança que conta com Skarsgård do outro lado.
Aos 74 anos, o sueco líder do clã Skarsgård (ele é pai dos também atores Alexander, Bill e Gustaf) tem tudo para ganhar o Oscar em sua primeira indicação – o que, por si só, já é inacreditável. Um reconhecimento tardio, mas mais que justo para alguém que apresenta excelência há décadas. No lugar de se apequenar ao lado da dupla, a norueguesa Lilleaas se aproveita. Com calma e frieza, ela se esgueira pelo tamanho dos personagens e das atuações dos companheiros para se esconder em plena vista e se tornar a responsável pela maior pancada da trama – e apresentar a verdadeira história ao público. Porque se os conflitos de um grande diretor com o próprio ego e com a filha com medo de compromissos é a narrativa mais sexy, ela carrega de forma troiana a relação entre duas irmãs que precisaram contar uma com a outra a vida inteira. Em especial, com a distância do pai narcisista e com a compreensão do motivo pelo qual ele é como é".
O longa recebeu diversas indicações e já ganhou inúmeros prêmios, dentre eles: o Grande Prêmio do Júri em Cannes. No Globo de Ouro, Stellan Skarsgård ganhou o Prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. No Oscar o longa irá concorrer em 8 categorias: Filme, Direção (Joachim Trier), Atriz (Renata Reinsve), Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgård), Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning), Roteiro Original, Filme Internacional e Edição.
O que disse a crítica 1: Daniel Oliveira do site Cinematório avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "O veterano Skarsgård entrega a melhor performance de sua carreira (...). Reinsve (...) captura com perfeição a dualidade de uma protagonista que consegue dominar e expressar todas as emoções no palco, mas é incapaz de lidar com as suas próprias fora dele (...). Mas o grande destaque e revelação é Ibsdotter Lilleaas como Agnes, a única integrante do clã disfuncional (...) que não buscou afogar suas mágoas na arte, optando por enfrentar a vida sem subterfúgios, com todos os seus problemas e imperfeições. É com ela que Trier mostra que, se um artista deve ser admirado pela coragem de explorar suas tretas pessoais em suas obras, quem tem coragem de resolvê-las de verdade é que faz o mundo girar e andar pra frente".
O que disse a crítica 2: Inácio Araújo da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Não é perguntar se a existência faz sentido, o fim deste filme. É afirmar o quanto a existência pode ser amarga, embora esse sabor também possa ser transitório. Isso faz lembrar outro grande cineasta, o japonês Ozu, que quase ao fim da vida concluiu que 'a vida é um pouco decepcionante'. Perto da visada bergmaniana (que Trier, em parte, retoma), a vida não é apenas muito decepcionante. É espécie de catástrofe incontornável".
O que eu achei: Aqui está um filme que, assim como os do Bergman, vai fazer psicólogos, psicanalistas e psiquiatras se deleitarem. Se como eu você, além de psicólogo, for cinéfilo, aí o deleite ficará completo, pois o filme aborda, de forma muito sensível, os perrengues da vida através das tretas familiares. Mas aqui, ao invés delas serem resolvidas no divã, elas se elaboram através da arte, mais especificamente, do fazer cinematográfico. A casa centenária da família em Oslo é, talvez, o personagem principal. Ela vem sendo ocupada há gerações pelo mesmo clã. Lá residiram os avós das irmãs Nora e Agnes; foi lá que nasceu o pai delas, Gustav, que se casou e ali permaneceu; e foi lá que as meninas nasceram e passaram a infância. Como Gustav se separou da mãe delas e desapareceu por muitos anos, foi uma surpresa ele ressurgir justamente no dia em que as filhas organizam uma reunião de luto na antiga casa, após o falecimento da mãe. Como lidar agora com esse homem tão importante, mas que deixou um buraco imenso, gerando traumas aparentemente intransponíveis, especialmente para a filha mais velha? A casa, assim como a relação entre eles, possui uma rachadura que vem se formando ao longo dos anos, exigindo reformas profundas para não desmoronar. É aí que o filme, ao meu ver, toca numa questão crucial que o emocional nem sempre nos deixa enxergar: o que levou nossos antepassados a serem tão ausentes, cruéis ou problemáticos? Em que contexto social e político suas personalidades se formaram? No filme, a avó - mãe de Gustav - foi uma antinazista torturada. Gustav, por sua vez, perdeu a mãe de forma inesperada dentro da casa. Já Nora e Agnes cresceram com um pai ausente vítima dos que vieram antes dele. E assim olhamos para os nossos e nos perguntamos: teriam sido eles frutos de uma guerra mundial, de um nazismo, de uma ditadura militar, de uma sexualidade reprimida, de um abandono? É nesse ponto que percebemos a importância não só do cuidado com a saúde mental, mas também da preservação da memória histórica. Afinal, nem todo mundo é filho de cineasta. A nós mortais restam os filmes - especialmente os bons, como "Valor Sentimental" - um longa que equilibra a ficção com algo profundamente pessoal mostrando como a criatividade pode se tornar um mecanismo de enfrentamento quando a comunicação normal falha. Excelente.

26.1.26

"O Agente Secreto" - Kleber Mendonça Filho (Brasil/França/Países Baixos/Alemanha, 2025)

Sinopse:
No Brasil de 1977, Marcelo (Wagner Moura) é um professor de tecnologia cuja pesquisa interessa a terceiros. Ameaçado de morte em decorrência de seu trabalho, busca abrigo em um condomínio de refugiados políticos no Recife, mas percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura.
Comentário: Kleber Mendonça Filho (1968) é um diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro. Já assisti dele os ótimos “O Som ao Redor” (2012), "Aquarius" (2016) e “Bacurau” (2019), além do documentário “Retratos Fantasmas” (2023). Desta vez vou conferir "O Agente Secreto" (2025).
Tais Zago do site Café História publicou: "Há filmes que não apenas contam uma história - eles a pressentem, como se o ar estivesse impregnado de lembranças. 'O Agente Secreto', novo longa do diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho, é um desses. Em vez de seguir o caminho padrão do espetáculo ou da denúncia óbvia, o diretor pernambucano prefere o som abafado das portas que rangem, dos passos ecoando pelos corredores de uma cidade onde o tempo parece nunca passar por completo. O filme respira a atmosfera de um Brasil de 1977, mas fala diretamente ao presente, transformando o Recife em palco e, também, personagem de um thriller político sobre vigilância, medo, culpa e esquecimento.
Depois das obras excelentes 'Aquarius' (2016) e 'Bacurau' (2019) (...) Kleber mergulha agora no terreno mais denso dos segredos. Inspirado por pesquisas sobre o período da ditadura militar e por ecos de filmes de espionagem e paranoia dos anos 1970, Kleber nos oferece um protagonista dividido: Marcelo (Wagner Moura), aparentemente um técnico de som que retorna à sua cidade natal durante o Carnaval, acaba enredado em uma teia de vigilância, crimes e memórias abafadas ainda sob a mão da ditadura brasileira.
O diretor escreve o roteiro e dirige com o mesmo pulso firme de quem documenta um sonho febril. 'O Agente Secreto', filme que nos é apresentado como um mosaico incompleto de lembranças, silêncios e suspeitas, é executado com uma precisão que só quem conhece o cheiro, a cor e o ritmo de Recife poderia alcançar.
KMF constrói uma narrativa e nos apresenta em três movimentos, alternando tempos, espaços e tonalidades de luz como recurso para reforçar as diferentes épocas abordadas. O que começa como um reencontro pessoal entre pai e filho se transforma em investigação histórica e termina como fábula política sobre o custo da busca pela verdade.
Aqui entramos de corpo e alma na cultura pernambucana. A fotografia de Evgenia Alexandrova é pura contenção. As lentes anamórficas, populares nos anos 50 – buscando o efeito widescreen na pós-produção – comprimem o quadro, achatam e acentuam a sensação de confinamento. Os filtros em tons ocre e metálicos dominam a tela, sugerindo um país visto sob uma eterna penumbra.
Os interiores são iluminados como memórias — uma estética amarelada que lembra tanto os arquivos esquecidos quanto as lembranças que preferimos não reabrir. Kleber filma o Recife como quem descobre ruínas vivas, uma cidade feita de becos, vozes, rádios e ecos do passado.
Já a trilha sonora de Mateus e Tomaz Alves, que já foram parceiros de KMF em outros de seus filmes, costura o som ambiente com músicas populares e gravações originais de época. É uma colagem sonora que mistura frevo, ruídos e silêncios. O som de uma fita cassete em um gravador antigo pode valer mais que qualquer outra expressão verbal - aqui, o barulho é memória.
O também diretor e ator Wagner Moura nos entrega uma atuação de contenção impressionante. Seu personagem Marcelo é um homem dividido entre a culpa, o amor pelo filho e a necessidade de entender o próprio passado na busca pela identidade da mãe. Sua presença é magnética mesmo (ou principalmente) quando nada diz. Moura faz de seu corpo um campo de batalha: os olhos são cansados, o andar é hesitante, a voz que se quebra ao tentar explicar o inexplicável. Há algo de profundamente humano e melancólico nesse personagem que parece carregar os ruídos do país dentro da cabeça e o peso do mundo em seus ombros.
Ao redor dele, personagens como Elza, interpretada pela sempre competente Maria Fernanda Cândido, surgem como uma figura de lembrança e resistência de um passado recente. Temos aqui a construção do elo entre o afeto e o trauma. Gabriel Leone, Hermila Guedes, Tânia Maria – excepcional como dona Sebastiana – e o ator alemão Udo Kier completam um elenco que parece surgir de diferentes fantasmas do tempo, todos orbitando em torno de questões como o que ainda é possível redimir, o que perdoar e como seguir em frente.
'O Agente Secreto' é menos um filme padrão sobre espionagem e mais um filme sobre o próprio ato de (se) esconder. Kleber Mendonça não oferece respostas fáceis e diretas - ele filma a ditadura como uma névoa que ainda paira sobre a cidade e sobre nós mesmo em sua fase de enfraquecimento durante o governo Geisel. Há uma coragem em fazer cinema político sem precisar de slogans diretos e KMF optou pela tensão das esquinas, o olhar atravessado, o som distante de uma fita que é rebobinada e volta a rodar.
O roteiro, escrito por ele mesmo, tem a delicadeza de quem entende que a verdade não se revela em explosões, mas, muitas vezes, em silêncios. A cada corte, a cada pausa, há uma história maior sendo contada além da imagem. O que importa aqui não é o fato histórico em si ou um intrincado arco entre espiões, mas o que o esquecimento (ou a negação) faz conosco. (...)
Com distribuição internacional pela Neon (...) 'O Agente Secreto' já figura entre os títulos mais elogiados do ano. E Wagner Moura aparece encabeçando listas de indicações pela sua atuação. Há quem diga que é o filme mais contido e, ao mesmo tempo, o mais devastador de Kleber — e há uma certa verdade nisso.
No fim, percebemos que 'O Agente Secreto' é sobre o peso do que não se diz. Sobre o país que arquiva seus papéis amarelados ou enterra os esqueletos de suas dores, mas que continua a ouvi-las ressoando no fundo do peito. Kleber Mendonça Filho faz cinema como quem abre um diário empoeirado e, ao reler, descobre que as páginas ainda sangram verdades. E nesse ponto preciso avisar, o longa de duas horas e meia de duração, não é um filme marcado por grandes explosões ou cenas impactantes de ação, mas, sim, de pequenas rachaduras e infiltrações. E são essas rachaduras que deixam escapar a luz - a mesma que ilumina Wagner Moura caminhando pelas ruas vibrantes de Recife entre seus fantasmas, segredos e memórias".
O longa estreou no Festival de Cannes, foi recebido com entusiasmo e prêmios pela crítica e público - inclusive o de Melhor Ator para Wagner Moura e o Prêmio Especial de Direção para Kleber Mendonça Filho. No Globo de Ouro ganhou Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Wagner Moura levou o prêmio de Melhor Ator de Drama. E agora está concorrendo em quatro categorias ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco.
O que disse a crítica 1: Diego Almeida do site Observatório do Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "A direção aposta em um ritmo deliberadamente lento, o que pode afastar quem busca um thriller mais tradicional. Mas é justamente essa cadência que permite ao filme mergulhar na sensação de paranoia que dominava o país durante a ditadura militar. Kleber não entrega respostas fáceis, preferindo deixar o público desconfortável e, no processo, refletindo sobre a natureza do medo coletivo".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Amarrando a narrativa de modo emocionante ao refletir como um dos legados mais tristes daquela época 'cheia de pirraça' foi a destruição de núcleos familiares e a interrupção de vidas e histórias que tinham muito a contribuir com o país, o filme ecoa neste aspecto obras como o recente 'Ainda Estou Aqui' e ressalta como a preservação da memória (individual e coletiva) é algo fundamental – um tópico que, entre outras coisas, justifica estruturalmente as duas linhas narrativas cronológicas que o longa estabelece".
O que eu achei: Escrever sobre “O Agente Secreto” (2025) é uma tarefa desafiadora, e isso se deve à explosão de qualidade em praticamente todos os quesitos. Kleber Mendonça Filho entrega aqui um filme realmente imenso, daqueles que fazem a gente sair da sessão com a sensação rara de ter visto algo único. O 'agente secreto' do título não está apenas no filme no qual Jean-Paul Belmondo aparece projetado por um instante na tela do cinema São Luiz. Ele é, sobretudo, algo simbólico: o fantasma dos tempos tenebrosos da ditadura, uma presença difusa que contamina o cotidiano, age nas sombras e transforma qualquer gesto banal em potencial ameaça. Embora não seja uma história real, o filme retrata situações surreais porém verossímeis, comuns para quem viveu no Brasil de 1977. É uma aula de história do Brasil e de quebra, ainda nos apresenta à célebre Perna Cabeluda, alegoria pernambucana explorada pela imprensa da época para driblar a censura e noticiar certos horrores. O roteiro é impecavelmente inteligente: exige atenção e não deixa pontas soltas. As quase 2h40 de duração não pesam, ao contrário, são plenamente compensadas pela densidade dramática e pela riqueza de camadas que se revelam aos poucos. A fotografia é arrebatadora, a trilha sonora é incrível e a edição e a montagem são criativas, inventivas, sempre em diálogo com a instabilidade emocional e política daquele período. As atuações também são um espetáculo à parte. Wagner Moura está em estado de graça, numa composição que justifica plenamente os elogios e a corrida ao Oscar. Mas é impossível não destacar Tânia Maria, como a dona da pensão onde vive um gato com duas caras, figura tão simbólica quanto memorável. Ela faz por merecer cada elogio que vem recebendo. Mais do que um thriller político ou um drama histórico, “O Agente Secreto” fala sobre essa máquina infernal que existia no passado e que ainda nos assombra. Kleber Mendonça Filho demonstra uma maturidade artística impressionante, combinando rigor formal, potência simbólica e um domínio absoluto da linguagem. É, sem exagero, uma obra-prima, um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Veja sem hesitação.

25.1.26

"Sonhos de Trem" - Clint Bentley (EUA, 2025)

Sinopse:
Robert Grainier (Joel Edgerton) é um dos muitos madeireiros responsáveis por construir e expandir ferrovias pelos Estados Unidos no início do século XX em meio às vastas paisagens do oeste americano. Quando uma tragédia abala sua família, Robert é forçado a encarar o luto, a solidão e as transformações de um mundo em rápida mudança.
Comentário: Clint Bentley (1985) é um cineasta e roteirista norte-americano. Ele estreou como diretor com "Jockey" (2021), depois, em parceria com o roteirista e produtor Greg Kwedar, ele coescreveu "Sing Sing" (2023). "Sonhos de Trem" (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
Cleide Klock, correspondente da rádio francesa RFI em Los Angeles, publicou uma matéria no UOL onde diz: " Ao entrar no elevador para fazer entrevistas sobre o filme 'Sonhos de Trem' (Netflix), a primeira coisa que ouvi de um jornalista americano foi: 'Qualquer frame do filme dá um quadro maravilhoso'. Ele não sabia que o diretor de fotografia era brasileiro, mas sem perceber, acabou me dando a manchete e resumiu exatamente o que tantos profissionais têm repetido sobre o trabalho de Adolpho Veloso.
O nome de Veloso circula nas principais publicações de Hollywood, entre os favoritos na corrida ao Oscar na categoria de Melhor Fotografia. (...)
Veloso, que mora em Portugal e carrega o Brasil na memória e no olhar, veio a Hollywood para participar do lançamento do filme e das campanhas de premiações. E parece ainda se surpreender com essa repercussão. 'É muito louco. Você nunca imagina, quando está filmando, que isso vai acontecer. Não é uma coisa que faz muito sentido, ao mesmo tempo, é tão surreal que eu prefiro nem pensar tanto. E é um ano extremamente difícil, com muito filme bom, acho que é um dos melhores anos do cinema nos últimos tempos', contou à RFI.
Ele confessa que, como muitos artistas, vive crises profundas durante o processo. 'É incrível ter esse reconhecimento, principalmente pela quantidade de crises profundas durante o processo, filmando, que você acha que nunca mais vai filmar na vida. A primeira vez que assisti esse filme no cinema, pensei: 'Meu Deus, isso está horrível, nunca mais vou conseguir trabalho'. E ver essa reação agora, que é o completo oposto, dá forças para seguir'.
Em 'Sonhos de Trem', dirigido por Clint Bentley e inspirado na novela de Denis Johnson, acompanhamos Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador do início do século XX, que vive longos períodos longe da família. A atmosfera é de recordações borradas, sensações e silêncios, algo que nasceu de forma muito consciente entre Clint e Adolpho. 'A gente queria muito que, ao assistir ao filme, parecesse que você estivesse vendo as memórias de alguém, quase como se encontrasse uma caixa com fotos antigas e tentasse entender a vida daquela pessoa, às vezes meio fora de ordem, e você tenta entender quem foi aquela pessoa por aquelas fotos', explica.
Filmado inteiramente no estado de Washington em apenas 29 dias, um feito raro para um longa de época, o projeto exigiu uma maratona por florestas intocadas, vales, zonas devastadas e cenários naturais extremos. A natureza no filme é praticamente uma personagem. 'Num filme de época, às vezes é difícil para quem o assiste se conectar, porque tudo é tão diferente. Então queríamos trazer mais realidade, mais conexão. Filmamos só com luz natural e uma câmera bem orgânica, como se você estivesse lembrando de algo que viveu'.
Veloso (...) encontrou na história de Grainier uma identificação imediata. 'Quando o diretor me mandou o roteiro, pensei: essa vida é basicamente a minha. Esse cara que fica meses longe de casa, trabalhando com gente que talvez nunca mais vai ver... é assim para quem faz cinema. Voltar para casa sempre é estranho, leva dias para sentir que você pertence de novo. Tem as questões de perda, de imigração, da gente ser estrangeiro numa terra diferente, e isso tem consequências'.
A trajetória até Hollywood foi, como ele mesmo diz, 'aos poucos'. Começou filmando no Brasil, trabalhou com Heitor Dhalia, assinou filmes e documentários, entre eles 'On Yoga', que chamou a atenção de Clint Bentley. Quando Bentley preparava 'Jockey' (2021), buscava justamente alguém que transitasse entre ficção e documentários. Encontrou Veloso e o contactou por e-mail. Anos depois, 'Sonhos de Trem' se tornaria o segundo filme da dupla. (...)
Quando lhe pergunto se leva algo do Brasil para seus filmes, a resposta vem quase antes da pergunta terminar: 'O nosso jeitinho'. Não no sentido estereotipado, mas na criatividade diante do impossível, no drible às burocracias rígidas de sets americanos. 'Aqui tudo é muito engessado e a gente não está acostumado com isso. Aqui, você tem uma ideia e já ouve um não: isso custa tanto, precisa disso, daquilo. E às vezes não precisa de tudo isso. Digo, e se a gente só fizer assim? E funciona'.
Conto a ele que vários jornalistas comentaram comigo espontaneamente sobre a fotografia do filme, sem saber que ele era brasileiro. Veloso abre um sorriso tímido, um pouco surpreso, um pouco orgulhoso. É o tipo de reconhecimento que o Brasil inteiro deveria ouvir. E talvez ouça, quem sabe, no palco do Oscar".
O longa já abocanhou o Critics' Choice Award na categoria Melhor Fotografia e o Prêmio AFI (American Film Institute) na categoria Melhor Filme do Ano. Agora segue rumo ao Oscar onde concorre nas categorias Filme, Roteiro Adaptado, Fotografia e Canção Original (Nick Cave e Bryce Dessner).
O que disse a crítica 1: Vitor Velloso do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "'Sonhos de Trem' é um filme guiado para produzir belas imagens, quadros perfeitos e sequências marcantes, e isso se torna problemático quando vemos cenas inteiras que são mantidas na obra apenas com o intuito de gerar um impacto visual forte, a mise-en-scène estruturada em uma lógica para guiar os personagens para a melhor luz e enquadramento. Enquanto a fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, faz o longa se movimentar junto com seu excelente trabalho (...) o filme funciona em um ritmo mais fluido, mas quando a direção reconfigura suas ideias para construir esse impacto, o longa parece artificial (...). A narração de Will Patton só transforma o filme em algo ainda mais fadado a uma fórmula".
O que disse a crítica 2: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Sonhos de Trem' chega à beira de sugerir um espírito nas árvores por onde Grainier caminha, mas cria um espírito ao passear entre elas. Tanto Robert quanto nós somos transformados em observadores, do tempo, da terra e de nós mesmos. A maior parte dos filmes existem como uma obra de arte na tela, algo que vemos e deixamos. Alguns, como 'Sonhos de Trem', fazem algo ainda mais especial. Eles destroem os limites. Vivem dentro de nós, e nos deixam viver dentro deles".
O que eu achei: Robert Grainier é o personagem chave de "Sonhos de Trem" (2025). Ele é um personagem fictício, criado por Denis Johnson no livro que deu origem ao filme, mas sua trajetória soa profundamente verdadeira porque está enraizada na história americana: a de milhares de trabalhadores anônimos que ajudaram a construir o país no início do século XX. Lenhadores e operários das ferrovias, como o próprio Robert, enfrentavam terrenos hostis, jornadas exaustivas e riscos constantes, numa era de industrialização acelerada, logo após a Guerra Civil. O filme captura esse contexto sem didatismo, deixando que ele emerja dos gestos, dos silêncios e principalmente da paisagem. O roteiro, assinado por Clint Bentley e Greg Kwedar (os mesmos de "Sing Sing") permanece fiel ao espírito poético, estranho e fragmentado do livro. Para alcançar autenticidade, os roteiristas viajaram pelo noroeste do Pacífico, visitando áreas que inspiraram Johnson e ouvindo relatos de famílias ligadas a esses ofícios por gerações. Esse cuidado se traduz numa narrativa que funciona menos como uma biografia e mais como uma meditação sobre perda, passagem do tempo e transformação, como se a vida desses homens anônimos fosse apenas um ponto numa vastidão que só pode ser percebida através de uma visão mais ampla, representada no longa como um voo sobre o país ou uma visão de um astronauta a partir da lua, como sugere a transmissão televisiva de 1969 que Grainier vê na TV. É um filme extremamente delicado. Tinha tudo para escorregar para o melodrama, mas passa longe disso. Em vez de sublinhar emoções, opta por um tom contemplativo, quase silencioso, que transforma a experiência num poema em forma de cinema. É um filme lento que convida à escuta, à observação e à empatia. Um filme para alimentar a alma. A fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso e que concorre ao Oscar, é um dos grandes trunfos. O longa também disputa as estatuetas de Filme, Roteiro Adaptado e Canção Original, com a bela composição de Nick Cave e Bryce Dessner que acompanha os créditos finais. No elenco, Joel Edgerton entrega um protagonista contido e comovente, bem amparado pelos excelentes William H. Macy e Felicity Jones. Uma obra sensível, madura e profundamente humana.