22.3.26

"A Voz de Hind Rajab" - Kaouther Ben Hania (Tunísia/França/Território Palestino Ocupado/Reino Unido/Arábia Saudita/EUA/Itália/Chipre, 2025)

Sinopse:
 
Voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino (Saja Kilana, Motaz Malhees, Amer Hlehel, Clara Khoury) permanecem ao telefone com uma menina de seis anos (Hind Rajab) que fica presa em um carro na Gaza devastada pela guerra.
Comentário: Kaouther Ben Hania (1977) é uma cineasta e roteirista tunisiana. São dela os filmes "O Agressor de Túnis" (2014), "A Bela e os Cães" (2017) e o documentário "As 4 Filhas de Olfa" (2023) dentre outros. Assisti dela o excelente "O Homem Que Vendeu Sua Pele" (2020). Desta vez vou conferir "A Voz de Hind Rajab" (2025).
Gabriel Gameiro do site Geek Pop News publicou: "Poucos filmes recentes aproximam tanto cinema e realidade quanto 'A Voz de Hind Rajab'. O longa dirigido por Kaouther Ben Hania parte de uma história real ocorrida em janeiro de 2024, durante a guerra em Gaza. A narrativa acompanha a última ligação de Hind Rajab, menina palestina (...) que pediu ajuda por telefone enquanto estava presa em um carro sob fogo cruzado. A gravação real da criança se tornou o elemento central do filme.
Ao mesmo tempo, a história por trás da produção revela um paralelo inesperado. Enquanto o longa era produzido, a família de Hind ainda vivia em Gaza e enfrentava dificuldades para deixar o território. Com o avanço da guerra, integrantes da equipe do filme acabaram envolvidos na operação que permitiu a fuga dos parentes da menina. Assim, a obra indicada ao Oscar não apenas retrata uma tragédia. Ela também se conecta diretamente com os acontecimentos reais que marcaram a vida da família da criança.
Enquanto a história de Hind era transformada em filme, em 2025, sua família ainda enfrentava a realidade da guerra em Gaza. A mãe da menina, Wissam Hamada, vivia com parentes em meio à escassez de alimentos e às dificuldades de comunicação. Em determinado momento, ela chegou a pedir ajuda à equipe do filme para conseguir comida.
Foi nesse contexto que o produtor executivo Amed Khan passou a acompanhar de perto a situação da família. Khan é ativista humanitário e atua em operações de ajuda em zonas de conflito. Inicialmente, sua equipe conseguiu enviar alimentos para a família dentro de Gaza. No entanto, com o agravamento da guerra, a prioridade passou a ser retirar todos do território.  A partir daí, começou uma operação complexa envolvendo contatos diplomáticos, negociações internacionais e autorizações militares.
O plano para retirar a família de Gaza enfrentou diversos desafios, assim como a operação para salvar Hind Rajab. A evacuação dependia de aprovações de diferentes autoridades e de uma logística delicada. Em determinado momento, parentes de Hind precisaram deixar a casa às pressas após relatos de bombardeios na região. Eles se deslocaram até a cidade de Deir al Balah enquanto aguardavam novas instruções.
Mesmo depois de obter autorização para sair do território, a operação continuou complicada. Voos comerciais não eram considerados seguros para esse tipo de evacuação. Assim, foi necessário organizar um avião particular com autorização especial. Após tentativas frustradas, a terceira operação finalmente conseguiu aprovação.
Em setembro de 2025, a família embarcou e conseguiu deixar a região. O destino foi Grécia, onde receberam asilo com apoio de organizações humanitárias.
A indicação de 'A Voz de Hind Rajab' ao Oscar ampliou a visibilidade da história. No entanto, parte das pessoas ligadas ao filme não pôde comparecer à cerimônia. O ator Motaz Malhees anunciou que não poderá viajar aos Estados Unidos. Ele afirma que a restrição ocorre devido à proibição de entrada para portadores de passaporte palestino imposta pelo presidente Donald Trump. A medida também impede a presença da mãe de Hind na premiação.
Nas redes sociais, Malhees afirmou que lamenta a ausência, mas destacou que a história da menina continua sendo ouvida. Segundo ele, 'é possível bloquear um passaporte, mas não uma voz'.
Em 'A Voz de Hind Rajab', a diretora opta por uma abordagem incomum. Em vez de reconstruir visualmente o ataque que matou a menina, o filme coloca no centro da narrativa a gravação original de sua ligação para os serviços de emergência. A voz de Hind aparece frágil e assustada. Durante a chamada, ela pede socorro e pergunta quando a ajuda chegará.
Enquanto isso, a narrativa acompanha o trabalho do centro de atendimento da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino. Operadores tentam localizar a criança e coordenar o envio de ambulâncias. No entanto, a situação se torna cada vez mais complexa. Autorizações militares, protocolos de segurança e a própria dinâmica do conflito dificultam o resgate. Dessa forma, o filme constrói uma tensão constante. O público acompanha uma corrida contra o tempo cujo desfecho já é conhecido.
Para sustentar essa narrativa, o filme apresenta personagens inspirados nos profissionais que participaram do atendimento. A atriz Saja Kilana interpreta Rana, operadora que conversa com a menina ao telefone. Sua atuação transmite calma e empatia, mesmo diante da gravidade da situação. Já Motaz Malhees interpreta Omar, operador que expressa indignação com a lentidão do processo de resgate. O personagem questiona protocolos e insiste em tentar salvar a criança.
Outro papel importante é o de Mahdi, interpretado por Amer Hlehel. Como chefe do centro, ele precisa equilibrar a urgência da situação com a segurança das equipes de socorro. Ao mesmo tempo, a personagem Nasreen, vivida por Clara Khoury, atua como mediadora e tenta manter o funcionamento do atendimento em meio ao caos. Assim, o filme revela o esforço de profissionais que tentam salvar vidas dentro de um cenário marcado por limitações e riscos constantes.
'A Voz de Hind Rajab' se tornou um dos filmes mais discutidos da temporada. Isso ocorre não apenas por sua linguagem cinematográfica, mas também pela conexão direta com acontecimentos reais. Ao contar a história da última ligação de Hind, o longa registra um episódio marcante da guerra em Gaza.
Ao mesmo tempo, a própria produção acabou participando de um capítulo posterior dessa história: a fuga da família da menina para fora do território. Assim, o filme estabelece um paralelo raro entre arte e realidade. A narrativa exibida na tela reflete acontecimentos que continuaram a se desenrolar longe das câmeras, e que ainda ecoam no debate internacional sobre o conflito".
O filme ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e concorreu ao Oscar na categoria Melhor Filme Internacional.
O que disse a crítica 1: Marcos Faria do Cine Set avaliou com 2,5 estrelas, algo entre ruim e regular. Disse: "O que fazemos com nossos mortos? Guardamos seu direito à privacidade respeitosamente? Ou projetamos seus suspiros finais em Dolby 5.1 numa sala de cinema? Qualquer pessoa em sã consciência escolheria a primeira opção; mas e se, ao escancararmos essa que talvez seja a mais íntima e particular das experiências, pudéssemos denunciar um regime genocida? A profanação estaria perdoada? (...) No fundo, trata-se de uma espécie de reconstituição com toda a cara de um episódio de 'Linha Direta' - o que pode trazer alguns questionamentos à tona: onde termina a denúncia corajosa das atrocidades e onde começa a exploração do sofrimento alheio? (...) Depois de um tempo, começa a parecer que a diretora tunisiana Kaouther Ben Hania quer mesmo esfregar nossa cara no sofrimento da menina para emprestar urgência ao seu filme, de forma bastante oportunista".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'A Voz de Hind Rajab' é um filme imprescindível não por sua imensa força dramática (e é uma obra formidável), mas por ser um tributo a Hind e às mais de 20 mil crianças mortas por Israel - além das outras 1.102 que passaram por amputações, dos 420 bebês natimortos e das quase 60 mil que se tornaram órfãs desde outubro de 2023 (e não devemos nos esquecer das mais de 900 mil que estão sendo privadas de educação, já que o cotidiano de fuga, fome e luto dificilmente viabiliza os estudos). Caso a humanidade tenha futuro - e neste momento não creio que tenha -, seremos todos julgados severamente por termos permitido que um genocídio transmitido em cores e em tempo real tenha se tornado parte de nosso cotidiano".
O que eu achei: Na tarde de 29 de janeiro de 2024, operadores de chamadas da organização humanitária Sociedade do Crescente Vermelho Palestino foram conectados a alguém em necessidade urgente de ajuda. Quem ligou foi Sarah, prima de 15 anos da pequena Hind Rajab Hamada. A prima morre já nos primeiros minutos de ligação e a pequena Hind, com apenas 6 anos de idade, assume a chamada. É por uma linha cheia de estalos nos fones de ouvido que a pequena, desesperada e confusa voz de uma criança implora para que alguém venha buscá-la. Ela e seis membros de sua família - tio, tia e quatro primos - estavam dirigindo por Gaza, por conta da ordem de evacuação do bairro Tel Al-Hawa por parte do exército israelense, quando seu carro foi atingido por tiros. Todos no carro já estavam mortos, menos ela. O filme é um soco no estômago. Ele mescla as falas reais da menina com o atendimento encenado por atores. Há pequenos trechos que mostram os reais atendentes falando com ela. A operação de socorro é desesperadora. O Crescente Vermelho Palestino já está basicamente sem equipes para fazer atendimentos. Um painel com as fotos das equipes mortas em atividade ilustram as paredes da sala da organização. Fazer esse resgate é colocar em risco os poucos membros em campo que ainda estão vivos. É preciso instruções de como chegar ao local com segurança bem como obter autorização, algo que chega a demorar horas. Ao final, como já foi amplamente noticiado, nada dá certo. Foi necessário esperar 12 dias até a retirada do exército israelense para descobrirem o fim trágico de todos: equipe e menina. 355 balas atingiram o carro da família Hamada. 355 balas contra um carro com 2 adultos civis e 4 crianças dentro. Devastador, dilacerante, impactante, pesado, necessário são adjetivos que se aplicam a esse longa. Você desliga com a certeza de que falhamos miseravelmente como humanidade.

17.3.26

"Um Domingo Maravilhoso" - Akira Kurosawa (Japão, 1947)

Sinopse:
Após a Segunda Guerra Mundial, o casal de namorados Yuzo (Isao Numasaki) e Masako (Chieko Nakakita) passa um domingo juntos tentando deixá-lo inesquecível. Mesmo com problemas econômicos e preocupações com a era nuclear, o amor deles lhes dá a possibilidade de se iludirem com um futuro melhor.
Comentário: Akira Kurosawa (1910-1998) foi produtor, montador, escritor e pintor japonês mas se destacou como cineasta e roteirista, um dos mais importantes do Japão e seus filmes influenciam até hoje uma grande geração de diretores. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu em torno de 30 filmes. É amplamente considerado um dos cineastas mais importantes da história do cinema, o que lhe rendeu um Oscar em 1989 pelo conjunto de sua obra. Assisti dele as obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985), o ótimo "Céu e Inferno" (1963), os bons “Os Sete Samurais” (1954) e "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), o mediano “Viver” (1952) e os curiosos "Sonhos" (1990) e "Madadayo" (1993). Desta vez vou conferir "Um Domingo Maravilhoso" (1947).
Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta que "Depois de sua visão política sobre o Japão pré, durante e pós Segunda Guerra ('Não Lamento Minha Juventude', 1946), Akira Kurosawa faria uma obra de caráter social e muito próximo ao ideal neorrealista de exposição de conflitos e problemas sociais, com a diferença do uso de atores profissionais e das filmagens em estúdio. A despeito dessas características, 'Um Domingo Maravilhoso' (1947) é uma obra pungente sobre a vida no Japão após a grande guerra, um retrato social e particular de como a sobrevivência em tempos difíceis pode ser diferente para cada grupo de pessoas, especialmente em um país em reconstrução, onde a fiscalização e o olhar para as massas são mínimos ou inexistentes.
Com roteiro de Kurosawa e Keinosuke Uekusa, 'Um Domingo Maravilhoso' acompanha um dia na vida do casal Yuzo e Masako, que mesmo com pouco dinheiro, tentam fazer de seu domingo juntos um dia inesquecível. A motivação sonhadora de Masako e o ceticismo e amargura de Yuzo se chocam já nas primeiras sequências do filme. Ele, um ex-soldado com um emprego de pequena remuneração; ela, uma garota apaixonada que tenta levar adiante o sonho de construir uma vida ao lado do namorado que tinha antes da Guerra e que agora parece ter se esquecido ou perdido a capacidade de sonhar.
Em meio à pobreza, o sonho se eleva como uma possibilidade, uma promessa de dias melhores mesmo que tudo pareça dizer o contrário. É olhando através dessa janela onírica que Masako mantém viva a esperança de construir um Café e uma vida ao lado de Yuzo. Sua representação como proprietária de uma grande casa chega a ser triste e dolorosa, mesmo que percebamos a alegria dela em se imaginar vivendo aquela realidade. Em contraste, Yuzo observa os sapatos gastos e furados da namorada e se recusa e entrar no jogo de representação, mergulhado completamente em pensamentos sobre o futuro pouco animador. Essa oposição entre pessimismo e otimismo será uma constante em todo o filme e passa de um protagonista para outro, alternando a intensidade e os motivos correlatos conforme o filme avança.
O experiente Asakazu Nakai, que voltaria a trabalhar com Kurosawa outras vezes ('Viver', 'Trono Manchado de Sangue', 'Os Sete Samurais' e 'Ran', só para citar algumas) apresenta um belo trabalho de fotografia, com iluminação delicada e tomadas inesquecíveis, como toda a poderosa sequência final, onde Yuzo rege a Sinfonia Inacabada de Franz Schubert em um anfiteatro vazio. A escolha da sinfonia é tão metaforicamente perfeita quanto a representação mimética do ator Isao Numasaki, que apresenta uma ponderada e tocante mudança psicológica do início para o final da obra. Já a atriz Chieko Nakakita, que trabalhara com Kurosawa em 'A Mais Bela' (1944) e 'Não Lamento Minha Juventude' (1946), representa uma Masako dócil, frágil, sonhadora, mas ao mesmo tempo forte e determinada, um contraponto perfeito para a personalidade de Yuzo. Algumas mudanças bruscas de humor quebram um pouco o ritmo de boa representação da atriz, mas nada que diminua assustadoramente a qualidade de seu trabalho".
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "Como costumeiro em sua filmografia, Kurosawa utiliza os fenômenos da natureza para indicar o tom do filme. Por exemplo, a chuva marca os momentos mais tristes de 'Um Domingo Maravilhoso'. Quando o sol reaparece, o rapaz Yuzo se anima para sair à rua, depois da forte briga com Masako. E, finalmente, o vendaval atrapalha a fantasia do rapaz na condução da orquestra. 'Um Domingo Maravilhoso' é outro grande exemplar de drama contemporâneo de Akira Kurosawa. Realista e existencial, retrata com sensibilidade a dureza do pós-guerra no Japão".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Como a 'Sinfonia Inacabada' [música de Franz Schubert que toca durante o filme], a história de 'Um Domingo Maravilhoso' não termina. Por ser apenas a visão de um único dia na vida de Yuzo e Masako, temos a projeção de diversas possibilidades para o futuro, e embora possamos juntar elementos do próprio filme para acreditarmos em algo pleno de realizações, não podemos afirmar com certeza, porque o próprio filme também nos mostra como coisas aparentemente certas podem se tornar impossíveis de se concretizar. Todavia, a mensagem de esperança em meio ao sofrimento e o poder do sonho como fuga de uma realidade dolorosa são elementos que não se dissipam facilmente da mente do espectador e, com certeza, marcam a construção desse drama social poderoso do mestre Kurosawa".
O que eu achei: Um dos cineastas mais famosos do oriente, espécie de embaixador do cinema japonês, Akira Kurosawa iniciou sua carreira nos anos 1940 com um modernismo devedor dos experimentos da década anterior. Alguns estudiosos subdividem seu cinema em fases, começando com trabalhos humanistas do pós-guerra (1943–1946), seguido de um período de transição para a modernidade (1947-1950), iniciado justamente pelo filme "Um Domingo Maravilhoso" (1947), que se passa logo após o término da Segunda Guerra Mundial. O longa mostra um casal de namorados - Yuzo (Isao Numasaki) e Masako (Chieko Nakakita) – que passa um domingo com 35 ienes no bolso, tentando deixá-lo inesquecível, tarefa essa que não será fácil frente aos problemas econômicos e preocupações com a era nuclear e com a falta de perspectivas. Eles até tentam se divertir, mas nada dá certo. O que resta pra eles então é tentarem se iludir e sonhar com um futuro melhor. Apesar da premissa interessante, ele está longe dos melhores de sua carreira. Aliás todos os filmes dessas duas primeiras fases ainda carecem de aprimoramentos que só começaram a aparecer de 1950 em diante, em obras como "Rashomon" (1950), "Os 7 Samurais" (1954) e "Trono Manchado de Sangue" (1957); atingindo seu auge nos anos 1960 que começa com o bom "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), seguindo para o ótimo "Céu e Inferno" (1963) e desembocando nas obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985). É notório como o passar dos anos foi deixando Kurosawa mais afiado. "Um Domingo Maravilhoso" é o sétimo filme do diretor. Está mais para um daqueles trabalhos de um cineasta em lapidação. O filme se passa em um único dia, os cenários são teatrais com filmagens notadamente capturadas em estúdio, mostrando a cidade de Tóquio devastada pela guerra ou um quarto de pensão decadente que Yuzo divide com um colega. Atenção à música que Yuzo rege num anfiteatro vazio. Trata-se da maravilhosa "Sinfonia Inacabada" de Franz Schubert, um dos pontos altos do filme.

16.3.26

"Blue Moon: Música e Solidão" - Richard Linklater (EUA/Irlanda, 2025)

Sinopse:
Na noite de 31 de março de 1943, o lendário letrista Lorenz Hart (Ethan Hawke) enfrenta sua autoconfiança abalada no bar Sardi's, enquanto seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) comemora a noite de estreia de seu inovador musical "Oklahoma!".
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017) e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou conferir "Blue Moon: Música e Solidão" (2025).
Rodrigo Fonseca publicou no Correio da Manhã: "'Blue Moon' foi rodado em 15 dias, em estúdio, em Dublin, na Irlanda, por uma bagatela, e compensou o orçamento que consumiu para sair do papel com uma sucessão de vitórias, a começar pela indicação ao Urso de Ouro de 2025. Andrew Scott foi premiado na Berlinale (...) com o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante, por seu desempenho no painel histórico da Broadway. Recebeu mais 13 láureas e 68 indicações a troféus de peso, com destaque para o Oscar, [onde] concorre nas categorias de Melhor Ator (para Hawke) e Melhor Roteiro Original (Robert Kaplow). A nomeação em Hollywood deveria lhe abrir salas no Brasil, mas não foi capaz: o streaming foi seu destino. (...)
[No Longa] Linklater e Ethan revisitam a saga do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi's, durante a festa de abertura do novo espetáculo (o fenômeno "Oklahoma!") de seu ex-parceiro Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott. Na noite de 31 de março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos os seus demônios.
Em recente entrevista ao Correio da Manhã, Hawke explicou que 'o álcool, no caso de Lorenz, é apenas o sintoma de um problema profundo ligado ao senso de não pertencimento e a bebida só faz ampliar a sua solidão'. Linklater costuma falar dela com frequência. E o faz por meio do verbo, em narrativas palavrosas. Contam-se nos dedos as vozes autorais da realização capazes de pavimentar integralmente a sua narrativa na palavra, a extrair delas um grau (transcendente) de cinemática, como Linklater consegue. No documentário, ressaltava-se Eduardo Coutinho (1933-2014) por essa façanha (a expandir os limites do plano talking head) e, hoje, na ficção, encontra-se essa destreza na obra de comida e bebida perfumados a cigarros do sul-coreano Hong Sang-Soo (de 'A Mulher Que Fugiu').
Dínamo do modo de produção indie nos EUA, Linklater deu lá suas escapadelas mais cinemáticas, ou seja, fez filmes nos quais o movimento é mais abundante do que o falatório, vide 'Escola do Rock' (2004) ou o recente (e delicioso) 'Hit Man' (aqui chamado 'Assassino Por Acaso', de 2023).
No entanto, retorna ao esquema dos filmes concentrados em parlatórios (sempre num viés de tom confessional e existencialista) com recorrência. Construiu nessa vereda uma espécie de carta de intenções de uma estética investigativa dos desacertos e desatinos do querer e do viver, que se estendeu à animação com 'Waking Life' (2001), um poema em forma de rotoscopia. A forma como explora as fraturas expostas pela fala alcança um novo estágio (e um amadurecimento notável) em 'Blue Moon'. Leva Hawke aos píncaros da excelência consigo.
Passados 17 anos de 'Eu e Orson Welles' (2009), o diretor retorna ao universo do teatro, num namorico com as figuras exponenciais dessa expressão artística milenar, no intuito de entender a ciranda de vaidades e de decepções que circunda o glamour da Broadway. Assume, para isso, a data de estreia do espetáculo 'Oklahoma!', e parte das franjas desse abrir de cortinas para explorar as inquietações de Lorenz Hart. São dele baladas memoráveis como 'The Lady Is a Tramp'; 'Manhattan'; 'My Funny Valentine' e 'Bewitched, Bothered and Bewildered'.
Apesar de retratá-lo na sua fase crepuscular, Linklater jamais se afoga na amargura, embora ela esteja lá, no ciúme e no inconformismo que Lorenz (chamado por amigos e amantes de Larry) sente do projeto teatral da dupla Rodgers e Hammerstein, que reestrutura o entretenimento americano. Parece não haver lugar para ele no que se funda na primeira metade da década de 1940, numa indústria embalada pelas suas canções de amor. Por isso, ele bebe. A certa medida, ao fitar um drink, diz: 'Como pode tanto prazer caber em algo tão pequeno'. A mesma dinâmica se aplicaria por nós, cinéfilos, a uma joiazinha como 'Blue Moon', que merece uma chance em tela grande".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "É possível que 'Blue Moon' soe, de fato, um tanto maçante no segundo terço, quando algum momento de solidão ou recolhimento de Hart seria benéfico, para equilibrar a metralhadora verbal do personagem. Fãs do compositor talvez não apreciem este olhar voltado à decadência, com pouca ênfase no trabalho do artista durante décadas. Focar-se no protagonista no instante exato em que decai, pessoal e artisticamente, talvez soe delicado para alguém de tamanho reconhecimento no meio, até então. Mesmo assim, Linklater evita o caráter laudatório e excessivamente linear dos biopics, propondo fragmentos de uma personalidade complexa, que nunca tenta explicar, nem resumir. O diretor respeita as contradições de Hart - e aí, possivelmente, reside o seu principal trunfo".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "Em 'Blue Moon', não temos apenas as fragilidades de Lorenz Hart reveladas. O filme destaca, é verdade, o seu ponto de vista para as coisas, mas é possível perceber o quanto os outros profissionais em torno dele possuem inseguranças, dúvidas, ansiedade e uma melancolia que muito tem a ver com o momento que vivem (a Segunda Guerra Mundial) e que, talvez por fuga ou por mentirem para si mesmos, tentam deixar de lado e destacar apenas o 'aqui e agora', a beleza de uma letra, de um acorde, de um artigo, de uma fotografia, de um enredo… tudo misturado às mais diversas emoções humanas. Nós saímos de 'Blue Moon' com uma sensação esquisita de 'completude incompleta'. Por um lado, temos a saciedade de bons diálogos de um olhar até mesmo invasivo para Lorenz Hart. Por outro, a fome de mais elementos para além de seu núcleo, de seu olhar viciado e lamentador. Não diria, porém, que é uma armadilha inevitável do filme. É somente parte de nossa curiosidade, nascida da altíssima qualidade com que o diretor projetou a sombra de um artista que tanta beleza trouxe para o mundo, mas que não conseguiu utilizá-la para iluminar o seu próprio caminho".
O que eu achei: Que retrato delicado este sobre compositor americano Lorenz Hart (1895-1943). Foi fazendo par com Richard Rodgers (responsável pelas melodias) por mais de 20 anos, que ele escreveu a letra de 26 musicais da Broadway, incluindo sucessos como “Blue Moon”, “The Lady Is a Tramp”, “Manhattan”, “Bewitched, Bothered and Bewildered” e “My Funny Valentine”. Hart nasceu no Harlem, na cidade de Nova Iorque, e é o mais velho de dois filhos. Seus pais eram imigrantes judeus de origem alemã. Do lado materno, Hart era sobrinho-neto do poeta alemão Heinrich Heine. Seu irmão, Teddy Hart, também se dedicou ao teatro e se tornou um astro da comédia musical. Ele chegou a estudar jornalismo, trabalhou para os irmãos Shubert traduzindo canções de peças alemãs para o inglês, quando em 1919, um amigo o apresentou a Richard Rodgers e os dois se juntaram para compor músicas para uma série de produções teatrais. Eles ganharam muito dinheiro. Em 1938 Lorenz Hart começa a sofrer com o alcoolismo. Mesmo assim, eles continuaram trabalhando juntos até meados de 1942. Em julho de 1942, o New York Times noticiou que Richard Rodgers, Lorenz Hart e Oscar Hammerstein II começariam a trabalhar em uma versão musical de um peça folclórica. Rodgers havia trazido o letrista Oscar Hammerstein II para o projeto devido à piora do estado mental de Hart, que admitiu que tinha dificuldade em escrever um musical para um ambiente rural como Oklahoma e abandonou o projeto. Ocorre que o musical "Oklahoma!" foi um enorme sucesso. O filme vai mostrar justamente uma versão imaginada da noite de 31 de março de 1943, na qual o lendário letrista (interpretado magistralmente por Ethan Hawke, indicado ao Oscar por sua atuação) se encontra dentro do bar Sardi's, esperando a chegada de seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) juntamente com seu novo parceiro Hammerstein (Simon Delaney) para comemorar a noite de estreia do inovador "Oklahoma!". Com um roteiro original inspirado nas cartas que o letrista escreveu para sua musa Elizabeth Weiland, o filme tem uma pegada teatral com poucas mudanças de cenários, poucos personagens e muitos monólogos. A câmera de Linklater trabalha com enquadramentos que transformam o ator Ethan Hawk, que na vida real tem 1,80m de altura, em um homem franzino e decadente com pouco mais de 1,50m. É nesse fatídico dia que Lorenz Hart vai constatar que sua saída da dupla foi a chave do sucesso para a carreira do parceiro decolar, num misto de autocomiseração, inveja, ciúme e desdém. Conta-se que eles ainda trabalharam juntos mais uma vez nesse ano, quando Rogers o chama para compor seis letras de músicas, mas no dia da estreia desse musical, Hart cai bêbado na rua e desaparece, tendo sido encontrado doente dois dias depois e levado ao Doctors Hospital onde morreu em poucos dias. Um filme triste, mas extremamente bem feito que resulta num brilhante estudo de personagem. Tive que procurar imagens do ator Ethan Hawke para me lembrar quem era, tamanha a transformação. O ator não ganhou o Oscar, mas era outro concorrente que se ganhasse, não teria sido uma injustiça. Excelente pedida.

14.3.26

"Sonhos S.A." - Kim Hagen Jensen & Tonni Zinck (Dinamarca/Bélgica/Suécia/Alemanha/EUA/Irlanda, 2019)

Sinopse:
 
Sentindo falta da mãe falecida, Minna fica arrasada quando o pai se casa novamente, formando uma família com a madrasta Helene e a meia-irmã Jenny, obcecada por redes sociais. Minna se refugia então no mundo dos sonhos, onde tudo é possível. Certa noite, enquanto sonha, ela atravessa uma parede e encontra Gaff, uma criatura falante responsável por construir sonhos. Ela implora que ele a ajude a entrar nos sonhos de Jenny para plantar ideias em sua mente, mas quebrar as regras a leva a todo tipo de problema, tanto no mundo dos sonhos quanto na vida real.
Comentário: Trata-se de uma animação também divulgada no Brasil com o título "A Fábrica de Sonhos", que se aproximaria mais do original dinamarquês "Drømmebyggerne" (Os Construtores de Sonhos).
Serena Seghedoni do site Loud and Clear publicou: "Para onde vamos quando adormecemos? O que acontece com nossas mentes quando entramos no reino dos sonhos? Tudo o que vemos e sentimos é apenas produto da nossa imaginação ou também é, de alguma forma, real?
Em 'Sonhos S.A.', as codiretoras Kim Hagen Jensen e Tonni Zinck abordam essas e muitas outras questões, mostrando-nos um mundo oculto que existe dentro de um dos reinos mais fascinantes, misteriosos e privados que já visitamos – aquele que percorremos todas as noites, em nossos próprios sonhos.
Esta envolvente animação dinamarquesa gira em torno de Minna (Emilie Kroyer Koppel), uma jovem que descobre um mundo oculto em seus sonhos, onde pequenas figuras robóticas 'constroem' os sonhos das pessoas em palcos de teatro. Conforme Minna convence seu próprio construtor de sonhos (o adorável Gaff, interpretado por Martin Buch) a lhe dar acesso aos bastidores de seus próprios sonhos, ela descobre que também pode manipular os sonhos de outras pessoas – o que parece ser a maneira perfeita de tentar influenciar sua nova meia-irmã, plantando ideias em sua mente. Mas Minna logo aprende que interferir nos sonhos das pessoas tem consequências e se vê embarcando em uma missão para salvar sua família de um pesadelo criado por ela mesma – e aprendendo algumas coisas sobre si mesma no processo.
A primeira coisa que você notará em 'Sonhos S.A.' é que ele é absolutamente deslumbrante. Animado pela equipe por trás de 'Operação Big Hero' e 'Sherlock Holmes', o filme apresenta tabuleiros de xadrez voadores, cascatas de flocos de milho caindo do céu, criaturas adoráveis ​​– sejam reais ou imaginárias – e cenários magníficos que farão você se apaixonar instantaneamente pelo mundo dos sonhos secreto de Minna. Você ficará cativado por sua imaginação, desenvolverá imediatamente um carinho por seu afetuoso construtor de sonhos e se pegará sorrindo em cada cena com Viggo Mortensen – ou seja, o adorável hamster de Minna. Muito esforço foi investido para tornar 'Sonhos S.A.' mágico, um esforço que realmente transparece na beleza de seus detalhes.
É impossível não notar que essa linda história parece ter algumas semelhanças com 'Divertida Mente', da Pixar, outra animação incrivelmente cativante que gira em torno das criaturas que habitam nossos cérebros. 'Sonhos S.A.' se diferencia da adorada aventura da Pixar por diversos motivos, a começar pelo visual fascinante, a la 'Alice no País das Maravilhas', do mundo imaginário da protagonista, com relógios, peças de xadrez, animais flutuantes e montanhas-russas em tons pastel que certamente te transportarão para o mundo de Minna. (...)
O conflito do filme surge quando a vida de Minna é interrompida por Helene (Ditte Hansen) e Jenny (Caroline Vedel), duas personagens que, de alguma forma, descobrimos mais tarde como a nova noiva do pai de Minna e sua filha viciada em tecnologia e amante de sushi, respectivamente, mas cujos passados ​​sequer são mencionados no filme".
Segundo Seghedoni muito pouco é informado sobre o relacionamento do pai de Minna com Helene. O próprio pai de Minna, John (Rasmus Botoft), parece ser obcecado por uma banda mexicana de nome peculiar e o único desenvolvimento de personagem que ele apresenta ao longo do filme é o gosto por anchovas. Helene, a madrasta, passa quase despercebida e Jenny é retratada como a típica millennial obcecada por selfies.
"No entanto, a maior oportunidade perdida diz respeito à mãe de Minna, (...) uma cantora que, como descobrimos logo, abandonou o marido e a filha para seguir carreira na música, e que aparece no filme apenas em cartões-postais e vídeos do YouTube – uma presença desnecessária que se soma à coleção de personagens subdesenvolvidos na vida de Minna".
O que disse a crítica 1: Lorenna Montenegro do site Cenas de Cinema avaliou com 1 estrela, ou seja, ruim. Disse: "É tudo tão previsível e acabrunhado que chega a irritar a maneira com que paulatinamente Minna vai entrando nos sonhos do pai e da realmente insuportável Jenny para que as coisas corram como ela quer, para que 'tudo volte ao normal'. Os seres que trabalham na fábrica de sonhos são dóceis e submissos, o que torna toda a trama plana e pouco afeita aos picos emocionais presentes no storytelling das produções de uma Pixar, por exemplo. (...) É triste pensar que não faltaram para os animadores dinamarqueses excelentes exemplos dentro da animação europeia - em especial a francesa e inglesa -, onde buscar inspiração para fazer algo bom, ainda que simples, mas autêntico".
O que disse a crítica 2: Rich Cline do site Shadows on the Wall avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "Há ideias surpreendentemente sombrias permeando esta história, com perigos arrepiantes à espreita neste reino fantástico. E, de volta à sua vida real, Minna enfrenta um bullying implacável de todos os lados. Mas sua manipulação de Jenny parece ainda mais cruel e tem sérias repercussões. Assim, no ato final, ela precisa embarcar em uma jornada de redenção que soa um pouco forçada. Mesmo assim, os temas mais profundos são fortes, explorando novas emoções, com a inventividade visual dos cineastas se tornando implacavelmente envolvente".
O que eu achei: "Sonhos S.A." (2019) é uma animação europeia que aposta em uma premissa bastante atraente: um universo onde sonhos são produzidos e administrados por uma espécie de 'empresa especializada'. A ideia imediatamente desperta curiosidade e abre espaço para explorar a imaginação de maneira livre. A história acompanha uma jovem que, sem querer, descobre esse mundo secreto responsável por criar sonhos para as pessoas enquanto dormem. A partir daí, o filme combina aventura, fantasia e um toque de reflexão sobre medo, imaginação e crescimento emocional. O conceito em si é interessante e tem potencial para situações criativas, especialmente ao mostrar como sonhos podem ser manipulados ou transformados. Visualmente, a animação em CGI é colorida, dinâmica, tem cenários que exploram bem o caráter surreal do universo onírico. Há momentos em que a parte visual realmente se destaca, com sequências que brincam com lógica e forma de maneira inventiva. No entanto, embora a premissa seja promissora, o desenvolvimento da história nem sempre acompanha o mesmo nível de inspiração. O roteiro segue caminhos relativamente previsíveis e alguns conflitos se resolvem de maneira rápida demais, o que diminui de alguma forma o impacto dramático de certas situações. Ainda assim, "Sonhos S.A." cumpre bem seu papel como entretenimento familiar. Tem ritmo ágil, personagens simpáticos e uma mensagem positiva sobre enfrentar medos e valorizar a imaginação. Não chega a ser uma animação memorável dentro do gênero, mas também está longe de decepcionar. É um filme agradável, com boas ideias e execução competente. Atenção para o nome dado ao adorável hamster de Minna: Viggo Mortensen, uma homenagem ao ator, músico, poeta e fotógrafo americano-dinamarquês, famoso por atuar em filmes do Cronenberg e na trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001-2003).

10.3.26

“Terra Estrangeira” - Walter Salles & Daniela Thomas (Brasil/Portugal, 1995)

Sinopse:
Anos 90. Sem perspectiva de vida num Brasil tomado pelo caos em plena era Collor, Paco (Fernando Alves Pinto) decide viajar para Portugal após a morte da mãe, levando uma misteriosa encomenda. Em Lisboa, ele conhece Alex (Fernanda Torres), brasileira namorada de Miguel (Alexandre Borges), todos envolvidos num esquema de contrabando, que vai tornar suas vidas um pesadelo.
Comentário: Walter Salles (1956) é um cineasta brasileiro. Herdeiro do Itaú Unibanco, ele é uma figura importante do Cinema de Retomada no Brasil. Seus filmes ganharam prêmios em Cannes, Veneza, no British Academy Film Awards, ganhou Urso de Ouro, Globo de Ouro e Oscar. Já vi dele os ótimos "Diários de Motocicleta" (2004) e “Ainda Estou Aqui” (2024) e o bom "Na Estrada" (2012). Daniela Thomas (1959) é uma cineasta, diretora teatral, dramaturga, iluminadora, cenógrafa e figurinista brasileira. Ela é filha do desenhista e cartunista Ziraldo e irmã do compositor Antonio Pinto. “Terra Estrangeira” (1995) foi dirigido numa parceria entre ela e Walter Salles.
A ideia do filme surgiu a partir de uma fotografia encontrada na capa de um livro, onde se via um casal à deriva, encalhado numa praia deserta como um navio emborcado na areia. Segundo Walter Salles, "pouco a pouco, foi ficando claro que aquela cena refletia formas distintas de exílio: político, econômico, afetivo”.
Karina Braga do site Culturadoria nos conta que "O filme foi considerado um dos 100 melhores do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Ao lado de 'Carlota Joaquina: Princesa do Brazil' (1995) e 'O Quatrilho' (1995), 'Terra Estrangeira' (1995) foi um marco na reestruturação do cinema nacional porque, naquela época, vivíamos tempos obscuros, marcados pelo corte radical de incentivos à produção cultural, providos pelo então presidente Fernando Collor [que presidiu o Brasil de 1990-1992]. Foi nesse cenário de terra arrasada que nasceu, então, 'Terra Estrangeira'.
Selecionado pelo festival de Roterdã, uma grande vitrine do cinema autoral, o filme era a primeira produção brasileira a participar desta competição em muitos anos. 'Terra Estrangeira' conta a história do jovem Paco (Fernando Alves Pinto) que resolve migrar para Portugal e se encontra com Alex (Fernanda Torres). Juntos se envolvem com pessoas perigosas e tentam uma fuga alucinada para a Espanha.
O filme sintetiza o sentimento de desilusão que tomou conta do país na época, sendo muito bem traduzido pela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho. Essa estética bicolor é, na verdade, também protagonista, porque fala de um Brasil frio e opaco. Um país vivenciando, de fato, o espírito de estar à deriva. O preto-e-branco adotado pelo diretor de fotografia, retira todo os adereços, as distrações, e foca naquilo que é o essencial: a realidade seca dos personagens, párias em terra estrangeira.
O filme foi bem aceito pela crítica e pelo público em geral, marcando o reinício do cinema brasileiro no cenário dos festivais internacionais. Acabou vencedor do Prêmio Golden Rosa Camuna como Melhor Diretor; Grand Prix, Melhor Filme Estrangeiro; Margarida de Prata, Melhor Filme; e troféu APCA, Melhor Roteiro.
Podemos dizer que a imagem de um navio encalhado numa praia, que acabou inspirando o filme 'Terra Estrangeira', era a metáfora ideal para o Brasil em meados de 1990. O momento histórico da criação do filme foi marcado pela completa desilusão nacional. O Brasil, presidido por um falso caçador de marajás, acabou se perdendo em meio à inflação descontrolada e medidas econômicas caóticas, com aumento claro no nível de pobreza da população. O presidente Fernando Collor também opta por atacar a cultura e a educação. Em março de 1990, ao assumir a Presidência da República extinguiu o Ministério da Cultura. Um mês depois, o Programa Nacional de Desestatização deu fim à Embrafilme e, do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema foi desestruturada. Houve, inclusive, o confisco da poupança de todos os brasileiros, que acabou por provocar um aumento na taxa de suicídio e fuga do país, ou seja, a busca por uma maior estabilidade em terra estrangeira. Fica claro, aqui, o sentimento de completa deriva do povo brasileiro, o que justifica a metáfora do barco que deu origem a filme".
O que disse a crítica 1: César Barzine do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "Português é a língua predominante neste filme cartográfico. Há vozes de brasileiros, portugueses e angolanos falando a mesma língua, contudo, apesar de ser um único idioma, a comunicação entre eles parece ser algo ausente. A língua é, na verdade, a peça-chave para acentuar a distância entre esses personagens".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: "Manifestando o embate entre o ímpeto da juventude e as barreiras impostas pela conjuntura sócio-política, seja a do Brasil, antes chamado de país do futuro, ou a da Europa, o Velho Continente decrépito, simbolizado pelo navio encalhado à beira da praia, 'Terra Estrangeira' se apresenta como um filme pungente, bonito em sua abordagem dura e melancólica da realidade. A melodia de ‘Vapor Barato’, um dos grandes clássicos da MPB, acompanha sutilmente boa parte da viagem de Paco e Alex rumo a novas transposições de divisas para, então, tentar a felicidade. Quando tudo se direciona ao terreno da indefinição, com ares de possível tragédia, a voz de Gal Costa substitui a de Fernanda Torres, atriz que até ali cantarolava a música, o que reforça a desesperança e o nó na garganta. Não se trata de ser pessimista. Walter Salles e Daniela Thomas apenas capturam o estado das coisas, contrapondo valores, sendo o humano maior que o das joias ou o do violino raro, segundo suas manifestadas convicções".
O que eu achei: “Terra Estrangeira” (1995) foi o terceiro filme feito pelo Walter Salles. O primeiro foi "A Grande Arte" (1991), uma produção de porte considerável, falada em inglês, com casting gringo. O segundo foi um curta-metragem. Então pode-se dizer que o longa é de um cineasta bem em início de carreira. A direção é dividida com Daniela Thomas, que acabara de realizar os cenários e figurinos de "The Flash and the Crash Days", peça dirigida por Gerald Thomas. O roteiro traz as marcas de seu tempo, época em que era possível entrever as contradições de um mundo cada vez mais integrado, mas com pessoas cada vez mais desenraizadas, não somente de uma nacionalidade ou de outra, mas da dignidade, da cidadania, e da relação com o outro. A atriz Fernanda Torres, que na época estava com 30 anos, é uma das protagonistas. Li uma matéria assinada por ela no jornal Folha SP dizendo: "Imagine um país inviável, presidido por um falso caçador de corruptos, que vê a cultura e a educação como inimigas. Imagine que esse mesmo país, com taxa de inflação descontrolada e miséria crescente, se valha de medidas econômicas caóticas, forçando muitos de seus habitantes a optar pelo exílio, párias em terras estrangeiras. Esse era o Brasil do início da década de 1990". O falso caçador de corruptos a que ela se refere é Fernando Collor de Melo, que presidiu o Brasil de 1990 até 1992. Foram apenas 2 anos, mas o estrago foi grande. Assim que ele assumiu o cargo, ele extinguiu o Ministério da Cultura e, um mês depois, deu fim à Embrafilme. Fernanda Torres conta que do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema de pé foi desmantelada. Não havia nem sequer um telefone fixo para atender uma ligação. Ela estava no México quando recebeu a notícia do confisco de Zélia Cardoso de Mello, ou seja, o governo havia se apoderado de todo o dinheiro depositado pelos brasileiros nos bancos. Quem viveu essa época sabe o pesadelo que foi, muita gente se suicidou ao se ver praticamente sem um tostão furado no bolso. O longa está longe do resultado de filmes posteriores do Walter Salles, como "Central do Brasil" (1998) ou "Ainda Estou Aqui" (2025), mas conta com um bom elenco - além da Fernanda, há o Alexandre Borges, a Laura Cardoso e o Luís Melo – e ótima trilha sonora com destaque para a canção 'Vapor Barato' escrita por Jards Macalé e Waly Salomão e interpretada por Gal Costa. Restaurado em 4K ele está disponível em plataformas de streaming, sendo uma oportunidade de ser visto como um marco dos anos 1990, com sua representação do deslocamento, sua estética marcante e por capturar um momento histórico crucial do Brasil.

8.3.26

"Marty Supreme" - Josh Safdie (EUA/Finlândia, 2025)

Sinopse:
Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem com uma ambição desmedida, está pronto para tudo para realizar seu sonho e provar ao mundo inteiro que nada é impossível para ele.
Comentário: Josh Safdie (1984) é um cineasta e roteirista norte-americano. Ele começou dirigindo alguns filmes em parceria com seu irmão mais novo Benny Safdie. "Marty Supreme" (2025) é o primeiro filme que vejo dele e o primeiro que ele dirige sozinho.
Luiza Lopes da Revista Super Interessante publicou: "Timothée Chalamet, que está concorrendo a Melhor Ator, interpreta Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa de Nova York que alterna entre torneios e partidas por dinheiro, usando apostas e pequenos esquemas para financiar viagens e disputar competições maiores. O filme é, em parte, inspirado em uma história real: a de Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial e conquistou 22 títulos entre 1946 e 2002. O roteiro também parte da autobiografia do atleta, 'The Money Player', que ajudou a moldar o tom e o universo do longa.
A ligação do diretor Josh Safdie com essa história começou justamente pelo livro. Ele conheceu Reisman depois que sua esposa, Sara, lhe deu um exemplar da autobiografia. Safdie leu e, junto com o roteirista Ronald Bronstein, passou a escrever uma história sobre 'um sonhador provinciano do Lower East Side que conseguiu se projetar no cenário mundial do pós-guerra por pura força de vontade', nas palavras de Bronstein à revista Time. Ele também descreveu o livro como uma porta de entrada para 'uma subcultura esquecida e extremamente vibrante de desajustados, obsessivos, malandros e sonhadores de Nova York'. Mas o que é real e o que foi inventado em Marty Supreme?
O atleta nasceu em 1º de fevereiro de 1930 e começou a jogar tênis de mesa aos 9 anos, depois do que descreveu como um 'colapso nervoso'. Ele dizia que o esporte era uma 'forma de aliviar a ansiedade'. Foi campeão júnior da cidade aos 13 anos. Pouco depois, se mudou para um hotel em que seu pai trabalhava – diferentemente do filme, que o mostra morando com a mãe. (...)
Retratado no filme, foi no salão Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, no lado oeste de Manhattan, que Reisman aprimorou suas habilidades. Em seu livro de memórias, ele narra: 'quando cheguei ao Lawrence’s pela primeira vez, havia muitos jogadores que podiam me vencer. Pela minha experiência em quadras de rua, eu achava que era especial. Aprendi que não era. Por um tempo, fiquei impressionado com essas pessoas, mas logo consegui vencer todas elas'.
Desde cedo, chamava atenção pelo jeito de se comportar nas partidas. Ficou conhecido como 'a Agulha', por ser magro e rápido, e também como o 'Bad Boy do Tênis de Mesa'. Relatos mostram que ele falava o tempo todo, provocando adversários sobre saques, nervos e namoradas, além de cutucar espectadores e árbitros. Essa atitude fazia parte do modo como ganhava dinheiro no jogo. Ele atraía desafiantes, perdendo algumas partidas de propósito antes de dobrar apostas e vencer com facilidade.
Aos 15 anos, por exemplo, em uma competição nacional na cidade de Detroit, Reisman tentou apostar 500 dólares na própria vitória e entregou cinco notas a quem achou que fosse um agiota. Era, na verdade, o presidente da associação nacional de tênis de mesa. A confusão terminou com ele sendo levado sob custódia pela polícia.
Também tinha como hábito medir a altura da rede antes das partidas para garantir a precisão – usando notas de $100.
No fim dos anos 1940, Reisman e o também jogador Doug Cartland fizeram turnês com a equipe de basquetebol Harlem Globetrotters por três anos, como atração do intervalo, batendo bolas com frigideiras e até com solas de tênis enquanto tocava 'Mary Had a Little Lamb'. Essa relação com os Globetrotters aparece no filme (em uma cena hilária, diga-se).
O momento mais decisivo da trajetória esportiva de Reisman – e que o filme transforma em motor da história – aconteceu em 1952. Na ficção, Mauser perde para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi) em um campeonato mundial e passa a perseguir uma revanche. O longa situa o torneio em Londres, mas o evento real daquele ano foi disputado em Mumbai, na Índia, e também marcou uma derrota para o japonês Hiroji Satoh, que chegaria ao título. Satoh apareceu com uma novidade tecnológica, a chamada “raquete sanduíche”, com camadas de espuma e borracha. O equipamento mudou o esporte ao deixar a bola mais rápida, com mais efeito e um quique menos previsível. Até então, com raquetes mais rígidas, o jogo era mais cadenciado, e muitos atletas conseguiam “ler” as jogadas pelo som do impacto e pelo ritmo das trocas. Reisman ficou indignado e se recusou a adotar a novidade. Em entrevista ao New York Times em 1998, disse: 'antes, havia um diálogo entre dois jogadores, no qual uma criança de 6 anos conseguia entender a conversa entre ataque e defesa. Hoje, um ponto é ganho ou perdido com um movimento imperceptível do pulso'. (...)
Nada indica que Kay Stone tenha existido na vida real. (...) Personagens importantes como Rachel Mizler (Odessa A’zion) e Wally (Tyler, the Creator) também ajudam a 'engordar' o drama, mas não têm correspondentes claros na vida real do jogador. (...)
Reisman passou décadas circulando por um submundo de apostas, exibições e improviso. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. (...)
Do fim dos anos 1950 até o fim dos 1970, administrou seu próprio salão no Upper West Side e também esteve ligado ao Riverside Table Tennis Club. Esses espaços atraíam um público variado e, em alguns momentos, celebridades como o ator Dustin Hoffman, os escritores Kurt Vonnegut e David Mamet e o enxadrista Bobby Fischer.
Reisman também levou seus truques para a TV. Ele apostava que conseguiria partir um cigarro ao meio com uma bola do outro lado da mesa, e fez a façanha no programa de Johnny Carson em 1975 e no de David Letterman em 2008.Faleceu em 2012, aos 82 anos, por complicações pulmonares e cardíacas. Nove meses antes de morrer, reafirmou sua postura competitiva em um perfil do New York Times: 'eu enfrentava as pessoas com espírito de gladiador. Nunca recuei de uma aposta'".
O longa está indicado em nove categorias do Oscar: Filme, Direção, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Original, Edição, Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Escalação de Elenco.
O que disse a crítica 1: Hamilton Rosa Jr. publicou em sua rede social que não gostou. Disse: "Esse filme, que concorre a nove Oscars, é um pingue pongue feito pra quem não tem prazer pelo pingue pongue. O esporte pouco interessa, a movimentação visa apenas os efeitos. Tudo decupado como esquetes de um humorístico pro Tik Tok. Daí talvez a razão do seu sucesso. Gera uma identificação com a galera esperta que não larga o celular no cinema. Mas o que incomoda é a convicção inabalável, do individualismo do personagem: o filme vende sua esperteza como vantagem pra fazer os outros de bobo. O pêndulo estético pesa para o lado do ego. Do diretor e do ator. E a Academia aplaude e mostra a divisão da nação até mesmo na Arte. Assim como há a turma que protesta contra o governo atual e abusivo que rege o país, existe também aqueles que aplaudem. Fosse cinéfilo, esse seria o filme de cabeceira do Donald Trump".
O que disse a crítica 2: Marcelo Hessel do site Omelete classificou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Ao final de 'O Brutalista', ouvimos um discurso que inverte o ditado famoso e diz que o importante é o destino, sim, e não a viagem. À luz de Gaza em 2025, como se interpreta essa fala? Independente da resposta, do seu lado o que Marty Supreme oferece é restabelecer o foco na jornada. Quando o vilão diz para Marty Mauser que não há segundas chances na vida, obviamente o filme se compromete a contradizê-lo em seguida, mas Safdie o faz sem deixar de lembrar que as vitórias, assim como as chances, nunca são definitivas. O movimento não cessa, nem seu acúmulo, e, depois de nove meses, é todo o ciclo geracional que recomeça. A bola viaja de um lado a outro da mesa".
O que eu achei: Achei que poderia gostar de ver retratada no cinema a história de Marty Reisman, um nova-iorquino que foi um dos grandes nomes do tênis de mesa mundial, mas acabei achando o resultado menos do que mediano. O problema central foi a dificuldade que tive de me ligar ao protagonista: um cara repulsivo, que se comporta de maneira abertamente canalha ao longo da narrativa, manipulando pessoas, agindo com oportunismo e demonstrando zero empatia pelos que o cercam, incluindo-se aqui a mãe e a namorada grávida. Diferentemente de anti-heróis clássicos, suas atitudes raramente são compensadas por algum traço de humanidade que permita ao espectador criar algum tipo de identificação. Personagens moralmente questionáveis até podem funcionar quando existe autocrítica, culpa ou possibilidade de redenção. Aqui, porém, o protagonista parece atravessar a história sem qualquer processo real de reflexão sobre suas próprias atitudes. Isso cria a sensação de estagnação dramática: ele começa mal e não evolui ao longo das 2h30m de filme. Não espere ver algum resquício de consciência moral. O cinema frequentemente constrói personagens problemáticos, mas ainda assim interessantes ou fascinantes. Neste caso, o protagonista parece mais desagradável do que complexo. É aquela figura que quer porque quer jogar tênis de mesa profissionalmente e vai conseguir isso custe o que custar. É golpe em cima de golpe, trapaça em cima de trapaça, independente dos estragos, dos sofrimentos imputados às pessoas que o cercam, o importante é chegar lá. Então fica muito difícil torcer por ele ou se interessar pelo seu destino. O comportamento do personagem ao longo da trama sugere traços psicológicos problemáticos como narcisismo extremo, impulsividade e ausência de remorso. O filme também não explora essas características como estudo psicológico, o que faz com que elas pareçam mais um conjunto de atitudes naturais de um ser humano obstinado do que um retrato consistente de alguém doente que precisa de tratamento. Também não fica claro se o filme está criticando ou celebrando esse comportamento já que as ações do protagonista são tratadas com certo fascínio ou glamour, o que indica que o filme está mais interessado em exibir o personagem do que em questioná-lo. Nem é preciso dizer que a família do verdadeiro Marty Reisman desaprovou o resultado. Não que o cara fosse um santo: não era. Um perfil publicado pela revista Time em 1974 o definiu como um 'golpista de longa data', envolvido com 'grandes e pequenos furtos'. Mas eles disseram que o filme deturpa quem ele foi na vida real, afirmam que a versão mostrada não tem relação com o homem. Eles consideraram o retrato humilhante, pois transformou o atleta em uma figura degradante, exagerando os comportamentos negativos e construindo um personagem egoísta e mesquinho distante da realidade. Como filme também não achei a oitava maravilha: o ritmo é frenético e cansativo, deixando pouco espaço para o espectador respirar ou assimilar o que está acontecendo; a montagem é excessivamente fragmentada: são cortes rápidos e cenas curtas que nem sempre se desenvolvem plenamente, parecendo um aglomerado de episódios, tipo esquetes, que dão a sensação de uma grande colagem de momentos ao invés de uma narrativa orgânica. As músicas, apesar de boas, chamam mais atenção para si mesmas do que para a narrativa. É como se música, montagem e câmera quisessem competir entre si por atenção. O tom é instável, oscilando entre comédia, drama e caricatura sem encontrar um equilíbrio claro. Não me perguntem como mas o longa está indicado em nove categorias do Oscar, dentre elas Ator (apesar da caricatura moralmente degradante do personagem, Timothée Chalamet está ótimo no papel), Roteiro Original (com certeza original e não adaptado, já que usou o nome e a fama do tenista mas deturpou toda a autobiografia) e Edição (fãs de TikTok vão gostar). Se eu fosse votante, levaria no máximo Melhor Ator. E olhe lá.

7.3.26

"Paul McCartney: Homem em Fuga" - Morgan Neville (Reino Unido/EUA, 2025)

Sinopse:
Um retrato íntimo da jornada de Paul McCartney após o fim dos Beatles, quando ele e a esposa, Linda, formam os Wings.
Comentário: Julinho Bittencourt da Revista Fórum publicou: "O título pode parecer irônico – e é mesmo – mas, tudo na vida é referência. Após fazer parte desde a adolescência daquela que é considerada até hoje a 'maior banda do planeta', ou seja, os Beatles, o músico Paul McCartney cai em depressão com a dissolução do grupo, no final da década de 60. Milionário, autor de inúmeros sucessos e com a vida ganha com menos de trinta anos de idade, o personagem se vê desolado.
Ao leitor, que assim como a maioria de nós, aposta corrida com os boletos mês a mês, a reação de Paul McCartney pode parecer ultrajante. Não há, afinal, do que reclamar, não é mesmo? O fato é que nenhum de nós é Paul McCartney, objeto de milhares (ou até mesmo milhões) de reportagens, filmes, especulações, triunfos e, por fim, fracassos também.
E é justamente a visão de uma celebridade que chega ao topo e, quando tudo acaba, fica sem saber o que fazer da vida, que trata o excelente documentário 'Paul McCartney: Man on the Run', de Morgan Neville.
O longa tem duas importâncias vitais. A primeira delas bastante óbvia, é o acervo enorme de imagens inéditas, depoimentos e registros sobre o ex-beatle, o casamento com Linda – e sua enorme importância na reconstrução de sua vida – e a sinceridade com que tudo é tratado.
A segunda é que, todos nós, sobretudo os que viveram um pouco mais, temos um momento na vida que nos parece ser o auge, o melhor e que jamais será superado. E é justamente aí que Paul McCartney nos ensina uma lição imprescindível neste documentário: o que fomos sempre vai existir em nós.
Ao afirmar, atônito, que jamais seria capaz de superar o que os Beatles fizeram, nenhum espectador em sã consciência é capaz de discordar. Apesar da obviedade, McCartney junta todos os seus preciosos cacos sem deixar nada para trás e se recompõe. Abre mão da pirraça de nunca mais tocar canções do antigo grupo, monta uma banda digna de respeito e, mais uma vez, se reinventa em um astro de primeira grandeza da canção mundial.
As imagens são o que todos os fãs adoram assistir. Cenas íntimas no meio de excursões, os músicos se divertindo no ônibus, as crianças e, sobretudo, Linda McCartney sempre presente, enfrentando falatório da imprensa e toda a sorte de maldades.
Paul afirmou que o que mais o comoveu na realização do documentário foi rever as imagens da sua ex-esposa, morta em decorrência de um câncer em 1998. O filme deixa a impressão nítida que, não fosse ela e ele jamais teria atravessado este rubicão em sua vida.
O filme termina em 1980, com o assassinato de John Lennon e a constatação final de que os Beatles jamais voltariam a se juntar. As cenas da primeira entrevista de McCartney ao falar sobre a morte do parceiro comentadas pelo filho mais novo de Lennon, Sean Ono Lennon, são comoventes.
O resto da história a gente conhece. Paul McCartney prossegue, aos 83 anos, fazendo shows mundo afora. E nós, da plateia ou não, seguimos assim como ele perseguindo a reconstrução do que fomos em nós mesmos.
O que disse a crítica 1: Matt Zoller Seitz do site Roger Ebbert avaliou com o equivalente a 3,1 estrelas, ou seja, bom Disse: A Fazenda High Park é "um santuário mental para o qual Paul escapa regularmente porque agora o reconhece como o local do período mais feliz de sua vida. Seu amor por Linda e o amor de Linda por Paul são reiterados inúmeras vezes, em palavras e imagens. O mesmo acontece com o laço fraternal entre John e Paul, que transcendeu suas disputas e se tornou mais caloroso e afetuoso quando eles não precisavam mais competir pelo controle dos Beatles. É comovente ouvir um homem de 83 anos ainda lamentando a perda de seus companheiros de vida mais importantes, John e Linda, nenhum dos quais ele esperava que morressem tão jovens".
O que disse a crítica 2: Jake Sokolsky do site Punch Drunk Critics avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Um dos aspectos mais marcantes de 'Paul McCartney: Homem em Fuga' são os vídeos caseiros e as fotos que Paul e sua esposa Linda guardavam meticulosamente. A família e o relacionamento de Paul com Linda são elementos centrais do filme. 'Paul McCartney: Homem em Fuga' foca nas transições que ocorreram na vida de McCartney, não apenas musicalmente, mas também pessoalmente. De certa forma, é uma história de amadurecimento, uma história de crescimento. Todos os elementos do filme se unem de forma primorosa. Neville e sua equipe conseguem apresentar um olhar envolvente sobre um dos maiores ícones da música. O filme definitivamente vale a pena ser assistido por pessoas de todos, não apenas pelos fãs dos Beatles".
O que eu achei: Nascida nos anos 60, sempre fui fã dos Beatles e sempre me surpreendo com a informação, que não me entra na cabeça, de que essa banda só esteve em atividade por meros 10 anos: de 1960 até 1970. Parece muito mais. Estou com 65 anos e, sempre que ouço uma música deles elas me soam empolgantes como soaria uma boa grande novidade. É difícil assimilar o tanto que eles produziram em apenas uma década. O documentário "Paul McCartney: Man on the Run" (2025) – traduzido para o português literalmente como "Paul McCartney: Homem em Fuga" -, se atém à vida do Paul McCartney após o fim dos Beatles. Ele tinha apenas 27 anos, já estava milionário, dinheiro não era problema, mas ele literalmente 'não sabia para onde correr', afinal ser um ex-beatle não é algo tão fácil de assimilar e, muito menos, de reconstruir. Nascido em Liverpool no Reino Unido, pode-se dizer que a paixão pela nova-iorquina Linda Eastman foi seu grande bote salva-vidas. Seu casamento com ela, ainda em 1969 - ano turbulento na relação entre Paul e John Lennon e também do fim dos Beatles - levou o casal a buscar uma vida pacata na fazenda High Park, na costa oeste da Escócia, onde puderam se isolar do mundo da fama e do assédio para respirar, acalmar a mente e refletir sobre novos rumos. Apesar de Linda ser do mundo da fotografia e não da música, foi com ela nos vocais que ele lançou seu primeiro álbum solo. No segundo, já houve a participação de outros músicos. E assim é que a banda Wings foi entrando em atividade, sendo o foco do documentário. Assim como The Beatles, a banda Wings durou 10 anos: de 1971 a 1981. A discografia completa começa com "Wild Life" (1971), passa por "Red Rose Speedway" (1973), "Band on the Run" (1973), "Venus and Mars" (1975), "Wings at the Speed of Sound" (1976), "Wings Over America" (1976), "London Town" (1978), "Wings Greatest" (1978), "Back to the Egg" (1979) e finaliza com "Concerts for the People of Kampuchea" (1981). No documentário é possível perceber como as tretas com John Lennon nunca deixaram Paul realmente em paz. Amigos de longa data que eram, felizmente conseguiram uma reaproximação das famílias antes de John ser assassinado em 1980, aos 40 anos, em frente ao edifício The Dakota, onde ele morava, na cidade de Nova Iorque. O documentário termina em 1980-1981 com o fim da banda Wings, não chegando a mostrar a morte de Linda por câncer em 1998, mas é possível ver tanto a adoção que Paul fez da filha que Linda já tinha antes de conhecê-lo - Heather McCartney Potter – bem como o nascimento de Mary (1969), Stella (1971) e James Louis (1977). Bem interessante. Com certeza quem é fã vai gostar de ver. Desliguei com aquela sensação agradável de ver um gênio se reconstruindo. Boa pedida.

2.3.26

"Pixote: a Lei do Mais Fraco" - Hector Babenco (Brasil, 1981)

Sinopse:
Pixote (Fernando Ramos da Silva) foi abandonado por seus pais e rouba para viver nas ruas. Ele já esteve internado em reformatórios onde conviveu com todos os tipos de criminosos e jovens delinquentes. Ele sobrevive se tornando um pequeno traficante de drogas, cafetão e assassino, mesmo tendo apenas dez anos.
Comentário: Trata-se do filme número 84 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Duas décadas antes de 'Cidade de Deus', o cinema brasileiro ganhava uma radiografia impiedosa da violência nas ruas e de como ela condenou a juventude das classes miseráveis a buscar o crime como caminho para a sobrevivência. 'Pixote: a Lei do Mais Fraco' conta a história de um garoto de dez anos que é recolhido das ruas de São Paulo para ser internado em um reformatório. Dois de seus amigos são assassinados e, com mais três colegas, ele foge para o Rio de Janeiro, onde entra para o mundo do tráfico de drogas, dos assaltos, assassinatos e da prostituição. Marília Pêra interpreta Sueli, prostituta que acolhe os jovens e os ajuda a cometer os crimes. Em uma cena de forte carga simbólica, Sueli amamenta Pixote, órfão não só dos pais, mas do país que o abandonou. Dirigido pelo argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (de 'Carandiru', de 2003 e 'O Beijo da Mulher Aranha', de 1985), 'Pixote' é baseado no livro-reportagem de Jozé Louzeiro, 'A Infância dos Mortos'. Segundo Babenco, trata-se de um 'momento de realidade do cotidiano'. A produção atingiu grande sucesso no exterior: foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e venceu o prêmio Leopardo de Prata no festival de Locarno. A crítica internacional comparou a obra a 'Os Esquecidos' (1950), de Luis Buñuel, e ressaltou a atuação do protagonista, Fernando Ramos da Silva, um antigo menino de rua que não conseguiu abandonar a marginalidade e acabou morto em 1987, após um tiroteio com a polícia".
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de assistir os 100 filmes essenciais da lista elaborada pela Revista Bravo! em 2007, desta vez conferi "Pixote: a Lei do Mais Fraco" (1981), um clássico incontornável do cinema brasileiro, baseado no livro "Infância dos Mortos" de José Louzeiro. O filme retrata a ausência total de perspectivas para crianças carentes e a brutalidade da 'lei do mais fraco' que rege tanto o reformatório quanto as ruas de São Paulo. A trama acompanha quatro meninos internados em uma instituição marcada por abusos e injustiças. Revoltados, eles fogem e passam a sobreviver ao lado da prostituta Sueli, envolvendo-se com traficantes e pequenos criminosos. Babenco mistura realismo social com um estilo quase documental, há um naturalismo aqui que nenhum outro trabalho seu alcançou. Nada é suavizado: a violência institucional, o abandono e a degradação são expostos sem filtros. O espectador não observa à distância, sente-se dentro daquele universo sufocante. O impacto é ampliado pelo elenco majoritariamente amador. Os meninos, incluindo o protagonista interpretado por Fernando Ramos da Silva, foram escolhidos entre mais de 3 mil candidatos em comunidades carentes. Essa escolha confere uma verdade rara às atuações. Uma das sequências dialoga diretamente com o “Caso Camanducaia”, episódio real de 1974 que simbolizou uma tentativa de limpeza social contra menores de rua. A cena mais célebre envolve Marília Pera como Sueli. O momento em que Pixote, doente, se aninha em seu colo e ela, num gesto improvisado, oferece o peito ao menino, seguido pela rejeição, concentra toda a melancolia do filme. Ali, Fernando Ramos da Silva traduz a dor e o abandono com força devastadora. Premiado no Brasil e no exterior, indicado ao Globo de Ouro e eleito Melhor Filme Estrangeiro por associações de críticos de Los Angeles e Nova York, "Pixote" permanece atual e perturbador. A trágica morte de Fernando Ramos da Silva que não conseguiu seguir carreira como ator ingressando no mundo da criminalidade, apenas reforça o elo cruel entre ficção e realidade. É um filme implacável, cru e absolutamente devastador. Impossível sair ileso.

1.3.26

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" - Chloé Zhao (Reino Unido/EUA, 2025)

Sinopse:
 A história de Agnes (Jessie Buckley) - a esposa de William Shakespeare (Paul Mescal) - enquanto ela luta para lidar com a perda de seu único filho, Hamnet (Jacobi Jupe).
Comentário: Chloé Zhao (1982) é uma diretora, roteirista, produtora e editora chinesa conhecida por seu trabalho em filmes independentes americanos. Seu primeiro filme, "Songs My Brothers Taught Me" (2015), estreou no Festival Sundance de Cinema. Seu segundo longa-metragem, "The Rider" (2017), recebeu indicações ao Independent Spirit Award de Melhor Filme e Melhor Diretor. Assisti dela o excelente "Nomadland" - Chloé Zhao (EUA, 2020) que ganhou o Oscar nas categorias Filme, Direção e Atriz (McDormand), de um total de seis indicações. Desta vez vou conferir "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (2025).
Paula Jacob da Harpers Bazaar publicou: "Conhecida por realizar filmes que misturam elementos de documentário com ficção, Chloé Zhao já amadureceu o seu olhar e formato, mas a essência da sua direção permanece a mesma: conseguir alcançar o âmago, tanto da história quanto do espectador. Em 'Hamnet' não é diferente. O filme tem roteiro adaptado por ela e Maggie O’Farrell, autora do livro de mesmo nome, publicado em 2021, que conta a vida de William Shakespeare antes de estontear a sociedade inglesa com a estreia da peça 'Hamlet'.
A narrativa é uma fabulação, porque pouco ou quase nada sobre a vida pessoal do célebre escritor e dramaturgo resistiu ao tempo – ou aos biógrafos mais interessados em sua genialidade. O que se sabe é de um primeiro casamento com uma mulher mais velha, com quem teve três filhos (uma menina e um casal de gêmeos), sendo um deles morto precocemente por uma questão de saúde. Com essas poucas peças de um imenso quebra-cabeça, Maggie imaginou como era a dinâmica dessa casa, quem era Agnes e como ela e as crianças se relacionavam com Shakespeare.
Na versão para o cinema, Zhao acolhe todas essas intuições e transforma em uma viagem sensorial sobre família, amor, criatividade e luto. Interpretada com o coração na mão por Jessie Buckley, a protagonista é vista como uma bruxa pela pequena comunidade onde vive no interior da Inglaterra. Filha da floresta, como dizem, ela ficou órfã cedo e foi criada por outra família junto com o irmão, mas ninguém a compreendia em sua essência. Alquimista de ervas e conectada profundamente com fauna e flora, Agnes teve um encontro arrebatador com William, daqueles impossíveis de fugir. Casaram-se pela espera da primogênita. Logo depois, tiveram gêmeos.
Apesar de parecer um conto de fadas idealizado de pessoas pouco reconhecidas pelos historiadores, 'Hamnet', na verdade, perfura a imagem perfeita do encontro amoroso para adentrar no instável terreno da arte e da criação. Enquanto o dramaturgo tentava fazer carreira em Londres, ela e as crianças ficavam na casa em Stratford-upon-Avon, mantendo o dia a dia rural de sempre: colheita, costura, comida. As viagens de William passaram a ser mais recorrentes e longas, criando lacunas de sua presença dentro de casa e uma saudade imensa na família.
Durante uma dessas sagas para conseguir espaço no teatro inglês da época, Hamnet adoece. A região estava cada vez mais assolada por surtos de peste bubônica, causando febre incontrolável e fraqueza na população. Inconformada com a situação, Agnes tenta de tudo para fazer a criança melhorar, mas não há mais tempo e o pequeno morre na sala da casa. A partir desse ponto, o filme se divide no processo físico da dor no corpo da mãe, visivelmente abalada pela perda; e no outro processo, introspectivo e soturno do pai. A falta de comunicação entre os dois faz esmaecer as cores do dia, e a rotina se mostra um exercício cruel de se manter sã diante do inominável.
Além de Agnes Shakespeare, 'Hamnet' também é capaz de dar contorno, textura, cheiro para o menino que inspirou o pai a criar uma das obras mais célebres da história. Uma encenação final construída por Zhao e sua equipe de design de produção, encabeçada por Fiona Crombie, que tira o fôlego de qualquer amante da literatura e da dramaturgia. Aliás, o filme inteiro evoca a seriedade da atuação teatral, com um elenco que não teme a vulnerabilidade. E não digo nem só a premiada Jessie Buckley e o já inebriante Paul Mescal, mas o pequeno Jacobi Jupe, que vive Hamnet, com uma performance à altura de seus companheiros adultos de cena. A emoção é inescapável".
O filme concorre às seguintes categorias no Oscar: Filme, Direção (Chloé Zhao), Atriz (Jessie Buckley), Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Figurino, Trilha Sonora (Max Richter) e Escalação de Elenco (Nina Gold).
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 1 estrela, ou seja, sofrível. Disse: "Se há 28 anos 'Shakespeare Apaixonado' tentou imaginar o que inspirou o bardo a escrever não apenas 'Romeu e Julieta', mas 'Noite de Reis', em 2025 a cineasta chinesa Chloé Zhao decidiu conjecturar sobre a jornada emocional que gerou 'Hamlet', juntando-se à escritora Maggie O´Farrell para adaptar o livro publicado por esta e que aqui se transforma em algo que poderia facilmente ser intitulado 'Shakespeare Enlutado'. Infelizmente, se o trabalho que rendeu o Oscar a Harvey Weinstein e a Gwyneth Paltrow já não representava uma obra memorável, aqui o resultado se torna ainda pior graças à mão pesada da diretora, que conduz o longa com a sutileza de alguém que busca acender uma vela de aniversário com um lança-chamas, tratando drama e histrionismo como sinônimos e tentando arrancar a fórceps as lágrimas do espectador".
O que disse a crítica 2: Isabel Wittmann do site Feito Por Elas avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "O que Zhao faz é subverter uma lógica em que a mulher-natureza é obrigatoriamente oprimida pelo homem-cultura. Para a primeira, é possível perceber nesse lugar uma possibilidade de liberdade e expressão, ainda que com suas contradições, ao passo que no segundo se supre as limitações e necessidades. Tudo isso em uma trajetória de uma protagonista histórica (mesmo que ficcionalizada) intensa, mas com um cinema elaborado com um rigor admirável. Esse é um dos aspectos mais fascinantes do filme. [Além disso,] é bonito ver o que mulheres talentosas podem fazer pelo cinema contemporâneo, criando, e é sempre esperançoso que tenham mais espaço. 'Morra, Amor' e 'Hamnet' andam de mãos dadas cutucando questões pertinentes, provocando e, acima de tudo, entregando excelente cinema com tudo isso. Uma história sobre amor em suas diferentes facetas, sobre domesticidade e liberdade, sobre luto e reencontro, 'Hamnet' é a demonstração das qualidades expressivas do cinema de Chloé Zhao. E o resto é silêncio".
O que eu achei: Muito pouco se sabe sobre a vida pessoal do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). Nascido na pequena cidade de Stratford-upon-Avon, ele era filho do subprefeito da cidade, John Shakespeare, e de Mary Arden. Foi agraciado com uma boa educação, manifestando, desde cedo, seu talento artístico. Em 1582 ele casou-se com Anne Hathaway (também conhecida como Agnes) e juntos tiveram três filhos: Susanna (nascida em 1583) e os gêmeos Judith e Hamnet (nascidos em 1585). Hamnet, o único menino, veio a falecer em 1596, com apenas 11 anos de idade, muito provavelmente por conta da peste bubônica que assolava a nação. Alguns historiadores defendem a tese que a morte de Hamnet levou seu pai a escrever "A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca", já que, à época, os nomes Hamlet e Hamnet eram usados de forma intercambiável. Outros defendem que a peça é uma adaptação para o teatro da lenda medieval escandinava de Amleth, nada tendo a ver com a morte da criança. Foi de posse dessas e de outras poucas informações que a escritora Maggie O’Farrell escreveu, em 2021, o livro "Hamnet", preenchendo as lacunas de informações com suposições do que teria acontecido com essa família. O foco do livro e do filme, adaptado pela escritora junto com a diretora Chloé Zhao, é a personagem Agnes (interpretada magistralmente pela atriz Jessie Buckley), apresentada como uma mulher excêntrica e selvagem que costumava caminhar pela propriedade da família com seu falcão pousado na luva e que tinha dons extraordinários como prever o futuro, ler pessoas e curá-las com poções e plantas. Após o casamento, Agnes se torna uma mãe superprotetora e a força centrífuga na vida do marido, que seguira para Londres com o objetivo de se estabelecer como dramaturgo. A vida do casal é severamente abalada com a morte do menino que sucumbe a uma febre repentina. O luto da mãe – que é uma mulher do mundo da natureza – é aquele luto devastador que só quem é mãe e já perdeu um filho saberia explicar. O luto do pai – que é um homem do mundo do intelecto – defende a ideia que a escrita da peça foi a forma que ele encontrou para elaborar essa dor, apresentando a história invertida de um filho que perdeu seu pai, já que na peça o Rei da Dinamarca (o pai) é assassinado pelo seu irmão Claudio que, após matá-lo, casou-se com a então viúva Gertrudes, mãe do príncipe Hamlet (o filho), assumindo o trono. Esse pai morto, interpretado nas primeiras encenações pelo próprio William Shakespeare, é representado pelo personagem de um Fantasma que interage com o garoto, o Príncipe Hamlet, numa representação genial do fantasma que ele se tornou após perder o menino. Essa não deixa de ser uma especulação interessante já que a obra foi toda escrita entre os anos de 1599 e 1601, logo após o menino falecer em 1596O filme é muito bonito e triste que vale ser visto até por não se tratar de uma cinebiografia óbvia do dramaturgo. Atenção para o jovem Noah Jupe que faz o príncipe no palco nas cenas derradeiras da peça. Este ator é irmão do menino Jacobi Jupe que faz Hamnet-criança. A semelhança entre os dois serve bem à tese do filme.

28.2.26

"Sugarcane: Sombras de um Colégio Interno" - Emily Kassie & Julian Brave NoiseCat (Canadá/EUA, 2024)

Sinopse:
Túmulos sem identificação em escola indígena canadense causam indignação. Comunidade indígena inicia investigação e os sobreviventes confrontam o passado, desenterram verdades e buscam romper ciclos de trauma, enfrentando atrocidades históricas.
Comentário: O site do próprio filme nos conta que "'Sugarcane' é o primeiro longa-metragem documental de Julian Brave NoiseCat (descendente da Nação Lil'Wat de Mount Currie) e Emily Kassie. Ele é um retrato cinematográfico de uma comunidade durante um momento de reflexão internacional.
Ambientado em meio a uma investigação inovadora sobre abusos e mortes em um internato indígena, o filme capacita os participantes a romperem ciclos de trauma intergeracional, testemunhando verdades dolorosas e há muito ignoradas – e o amor que perdura em suas famílias, apesar da revelação do genocídio.
Em 2021, a descoberta de sepulturas não identificadas perto de um internato indígena administrado pela Igreja Católica no Canadá provocou uma onda de indignação nacional sobre a separação forçada, a assimilação forçada e os abusos sofridos por muitas crianças nessa rede de internatos segregados, concebida para destruir gradualmente a cultura e o tecido social das comunidades indígenas.
Quando Kassie, jornalista e cineasta, pediu a seu antigo amigo e colega, NoiseCat, que dirigisse um filme documentando a investigação da Primeira Nação de Williams Lake sobre a Missão de São José, ela jamais imaginou o quão próxima essa história estava da própria família dele.
Conforme a investigação prosseguia, Emily e Julian viajaram de volta aos rios, florestas e montanhas de suas terras ancestrais para ouvir as inúmeras histórias dos sobreviventes.
Durante a produção, a própria história de Julian tornou-se parte integrante deste belo e multifacetado retrato de uma comunidade. Ao oferecer espaço, tempo e profunda empatia, os diretores revelaram o que estava oculto. Kassie e NoiseCat se depararam tanto com a dor extraordinária que esses indivíduos precisavam suprimir como forma de sobrevivência, quanto com a beleza singular de um grupo de pessoas que encontrava forças para perseverar".
O que disse a crítica 1: André Barcinski da Folha SP avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Nem toda grande história rende um grande documentário. É o caso de 'Sugarcane', (...) um dos filmes documentais mais premiados de 2024, mas que parece estar sendo celebrado mais pela força de sua incrível história do que por seus méritos cinematográficos. (...) O filme tenta abarcar muitas histórias, e talvez esse seja o seu problema central. Há tantos personagens e tantas subtramas que o espectador acaba se perdendo na narrativa, e a força dramática da história se perde. (...) Merece ser visto, mas fica aquém da força de sua história".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "É assim que se manifesta o trauma geracional. Este documentário impactante e multifacetado entrelaça uma investigação obstinada sobre os crimes horríveis perpetrados contra gerações de crianças indígenas em um internato administrado pela Igreja Católica no Canadá, com relatos do efeito cascata do trauma, de avós a pais e filhos. É uma obra notavelmente corajosa e reveladora, especialmente para o codiretor Julian Brave NoiseCat e seu pai, Ed Archie NoiseCat, cuja dolorosa jornada em busca de cura é a espinha dorsal do filme. Os fatos repugnantes do caso são apresentados com uma contenção respeitosa, mas é impossível assistir a este filme sem sentir uma raiva fria e implacável em nome das vítimas".
O que eu achei: As origens do passado canadense confundem-se com as teorias que visam explicar o processo de ocupação do território americano. Segundo alguns indícios, acredita-se que populações de aborígenes tenham chegado a essa região há cerca de 30.000 anos. Em seguida vieram os vikings, que há cerca de 1.000 anos promoveram um curto período de ocupação da Ilha de Terra Nova, já inaugurando uma série de conflitos entre eles e os nativos. Passados seis séculos, o navegador italiano Giovani Caboto, a serviço dos membros da Coroa Britânica, reivindicou o domínio europeu no ano de 1497. Logo em seguida, os franceses também se fixaram na região. As tentativas de assimilar os povos indígenas estavam enraizadas no colonialismo imperial, motivadas pelo conceito de propriedade de terra e pela crença de que os colonizadores, por conta de sua suposta superioridade racial e cultural, estavam trazendo civilização a povos selvagens que jamais poderiam se civilizar por si mesmos. Nesse sentido, esforços de assimilação tiveram início já no século XVII, com a chegada de missionários franceses e, posteriormente, de missionários anglicanos, que abriram inúmeras escolas para difundir o Cristianismo. A princípio essas escolas funcionavam por períodos curtos, depois se transformaram em internatos. A partir de 1894 – segundo informa o documentário - o governo canadense forçou crianças indígenas a frequentar esses colégios. O estrago foi grande. A divulgação do estereótipo de que a população indígena seria preguiçosa e pouco inteligente, e que só a educação religiosa severa seria capaz de "salvar" os jovens indígenas, fez essas instituições prosperarem e crescerem em números. Estima-se que chegaram a existir cerca de 139 escolas federais desse tipo no Canadá e 408 nos EUA, sendo que a última só foi fechada em 1997. Ocorre que em maio de 2021, o Canadá foi abalado pela descoberta de que mais de 200 crianças indígenas desaparecidas estavam enterradas clandestinamente nos arredores de um desses internatos (localizado em Kamloops, província de Colúmbia Britânica), um fato que os povos indígenas do país já desconfiavam há décadas já que, ao longo da história canadense, “educação” sempre significou apagamento cultural e “integração” sempre significou genocídio – tal qual aconteceu em todas as Américas. O foco do documentário se fixa então em uma dessas escolas: a antiga Escola Residencial da Missão de Saint Joseph que funcionava na reserva indígena Sugarcane. O próprio povo indígena local está investigando essa unidade já que nos terrenos do colégio suspeita-se que se encontram os restos mortais de outros alunos indígenas secretamente sepultados. Protagonizado pelo próprio diretor Julian Brave NoiseCat, jovem indígena da Primeira Nação, o filme acompanha sua jornada em busca de respostas. Seu pai, Ed Archie NoiseCat, fora obrigado, como tantas outras crianças de Sugarcane, a frequentar esse internato onde sofreram todo tipo de agressão por parte dos padres que dirigiam o estabelecimento. Então ele tinha em seu próprio pai um ponto de partida para a execução do documentário. As entrevistas com os sobreviventes indicam que essas agressões envolviam cruéis sessões de tortura, que iam desde obrigá-las a suportarem o peso de calhamaços carregados com os braços estendidos acima da cabeça até a açoitá-las repetidamente. Havia a violência psicológica de fundo religioso e a violência física envolvendo estupros e abusos sexuais diversos. Crianças morriam na tentativa de fuga desses locais. Bebês, filhos de meninas com padres, eram incinerados deliberadamente. Apesar da investigação na Missão de Saint Joseph não apresentar respostas a todas as suas perguntas, ela acabou por desvendar um padrão de infanticídio, ao qual centenas de milhares de crianças foram submetidas por todo Canadá e EUA, demonstrando que os que sobreviveram alimentam ainda hoje as estatísticas que mostram que os indígenas locais são os maiores em número de casos de depressão, alcoolismo, pobreza extrema e suicídios. O documentário é chocante. Uma verdadeira aula de História que finaliza com a ideia que, se quisermos reparar as violências passadas e presentes do colonialismo, não há outra escolha senão agir. Imperdível.

27.2.26

"Mr. Bean - O Filme" - Mel Smith (Reino Unido/EUA, 1997)

Sinopse:
 
Uma galeria americana decide comprar, através da dádiva de um milionário, o importante quadro "A Mãe de Whistler" do artista James McNeill Whistler, que estava em Paris. Para reforçar a importância do acontecimento a galeria pediu à Royal National Gallery da Inglaterra que enviasse o seu mais ilustre conhecedor de arte para fazer o discurso de apresentação. O escolhido para a tarefa foi o empregado mais detestável que possuíam, Mr. Bean (Rowan Atkinson), pois era a única forma que encontraram para se verem livres dele temporariamente.
Comentário: Mel Smith (1952-2013) é um cineasta, ator e comediante inglês. São dele os seriados "Not the Nine O'Clock News" (1979-1982) e "Alas Smith and Jones" (1984-1998), dentre outros. Ele dirigiu cinco longas-metragens. "Mr. Bean - O Filme" (1997) é o primeiro filme que vejo dele.
Com o título original "Bean: The Ultimate Disaster Movie" (1997), o filme é baseado na série de televisão britânica "Mr. Bean" (1990-1995). Dirigido por Mel Smith e escrito por Robin Driscoll e Richard Curtis - ambos veteranos escritores do seriado original -, o filme é estrelado por Rowan Atkinson.
Na trama Mr. Bean trabalha como vigia de segurança no museu Royal National Gallery, em Londres. Apesar de ser bem-intencionado, o sujeito inadvertidamente comete atitudes desastrosas e destrutivas. Os membros do conselho de administração do museu passam a cogitar a demissão de Bean por ele dormir excessivamente durante a sua função no local, mas são impedidos pelo presidente do museu, que confia firmemente no trabalho de Bean. O conselho então sugere ao presidente que Bean seja enviado à Galeria de Arte Grierson, em Los Angeles, como representante do museu durante a cerimônia de apresentação do quadro "A Mãe de Whistler" (1871), comprado pelo filantropo General Newton por cinquenta milhões de dólares. Ao chegar nos Estados Unidos, Bean é recebido pelo curador local, David Langley, que está impressionado com o perfil falso do "Dr. Bean", e que planeja acomodá-lo em sua casa por dois meses, para desgosto de sua esposa Alison, seu filho Kevin e sua filha Jennifer. Claro que, daí em diante, tudo dará errado.
O que disse a crítica 1: Arthur Barbosa do site Plano Crítico avaliou com 2 estrelas, ou seja, ruim. Disse: "Embora a maioria das cenas tivesse a intenção de arrancar gargalhadas dos telespectadores, já que o personagem é adorado pelo mundo afora, o filme causa vergonha alheia. Bizarro, exagerado, maluco: não fez sentido algum ele atravessar o Oceano Atlântico, pois a história poderia se passar tranquilamente em Londres, na Inglaterra, terra original do Mr. Bean. Não teve cenas dele dirigindo o seu carro, incluindo, por exemplo, a participação especial do seu fiel amigo e companheiro, o ursinho Teddy, o qual apareceu somente na última cena. Além disso, apesar de a produção ser datada de 1997, as piadas são ultrapassadas, gerando, assim, um humor extremamente sem graça".
O que disse a crítica 2: Michael Dequina do site The Movie Report avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: "O roteiro de Richard Curtis, roteirista de 'Quatro Casamentos e um Funeral' (que 'criou' o personagem Mr. Bean com Atkinson), e Robin Driscoll não oferece muito em termos de enredo (...). Além disso, a direção de Smith rapidamente se acomoda em um ritmo previsível de preparação e desenrolar (Bean é deixado sozinho; Bean se mete em todo tipo de confusão absurda; as pessoas reagem). Mas as piadas são hilárias, graças em grande parte a Atkinson, que é um comediante mudo verdadeiramente talentoso. Mr. Bean quase não fala, e Atkinson consegue extrair o máximo de humor através de grunhidos, gestos, movimentos corporais e, principalmente, expressões faciais. Mas isso não significa que as coisas não sejam engraçadas nas raras ocasiões em que ele profere uma palavra; algumas das maiores gargalhadas acontecem durante um discurso culminante que ele é forçado a fazer".
O que eu achei: "Mr. Bean – O Filme" (1997) leva para o cinema o personagem criado e interpretado por Rowan Atkinson. A trama coloca o atrapalhado Bean em Los Angeles, onde é enviado como “especialista” para acompanhar a apresentação de uma famosa obra de arte em um museu. A principal virtude do longa é preservar o humor físico e quase mudo que consagrou o seriado. Algumas sequências - especialmente as envolvendo o famoso quadro "A Mãe de Whistler" (1871) do artista James McNeill Whistler - exploram bem o constrangimento crescente e a escalada do caos, marcas registradas do personagem. Por outro lado, a transposição para o formato de longa exige uma narrativa mais estruturada e nem todas as situações sustentam o mesmo frescor dos episódios curtos da TV. Ainda assim, o filme entrega boas risadas e funciona como entretenimento leve, mantendo o espírito do personagem. Atenção para a subida dos créditos, não desligue sem ver pois há gratas surpresas ali que não devem ser perdidas.