6.7.26

“Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” - Abbas Kiarostami (Irã, 1987)

Sinopse:
Ahmad (Babek Ahmed Poor), um garoto de 8 anos de idade, pegou por engano o caderno de Mohammad (Ahmed Ahmed Poor), seu amigo de escola. Após seu amigo ter sido ameaçado de ser expulso se não levasse o dever de casa, Ahmad precisa devolver a ele o seu caderno, mesmo que tenha que desobedecer a mãe (Iran Outari) e procurá-lo no vilarejo distante onde Mohammad mora.
Comentário: Abbas Kiarostami (1940-2016) foi um cineasta, roteirista, produtor, poeta e fotógrafo franco-iraniano. Obteve diversos prêmios internacionais, dentre os quais se destacam a Palma de Ouro de 1997 e o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1999. Assisti dele os ótimos “Close-up” (1990), "Através das Oliveiras" (1994), “Gosto de Cereja” (1997) e "24 Frames" (2017), os bons "Dez" (2002) e "Cópia Fiel" (2010) e o curioso "Um Alguém Apaixonado" (2012). Desta vez vou conferir “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” (1987).
Ruy Gardnier do site Contracampo escreveu resumidamente que o filme provoca um sentimento de anacronismo, já que outras obras do cinema iraniano exibidas no Brasil dialogam com ele, incluindo trabalhos posteriores do próprio diretor e referências em filmes de outros cineastas. Ele acredita que a ideia de uma temática repetitiva, apontada por alguns críticos, se deve mais ao modelo de produção do cinema iraniano - especialmente ao papel do Kanun, que é o Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Adolescentes, o maior patrocinador de cinema no Irã - do que à data da obra. Segundo ele há muita desinformação e equívocos por parte da crítica ao tratar do cinema do Irã.
O filme é uma grande obra em que todos os elementos apresentados em cena ganham importância e acabam sendo utilizados de forma significativa, como ocorre nos melhores trabalhos de Hitchcock e Chaplin. Objetos e situações aparentemente simples - como um caderno ou uma dor nas costas - assumem funções futuras imprevisíveis dentro da narrativa. Ele considera que, à primeira vista, o filme poderia parecer apenas um exemplo de domínio técnico voltado a um cinema mais acessível, semelhante a outras produções iranianas. No entanto, ele argumenta que o diretor já demonstrava pleno controle ao evitar amarrar a narrativa de maneira convencional, acreditando que, como em outras obras-primas de Kiarostami, o objetivo inicial do personagem não é alcançado, mas que, nesse percurso o filme alcança algo muito mais profundo e significativo.
Gardnier salienta que como é comum nos filmes de Kiarostami, a narrativa é desencadeada por um elemento de duplicidade: o caderno de Ahmad é idêntico ao de Mohammad, o que leva o protagonista a pegar ambos por engano. Ele explica que o professor já havia advertido Mohammad de que seria expulso caso esquecesse novamente o caderno, o que motiva Ahmad a tentar devolvê-lo. Com isso, mesmo sabendo pouco sobre o amigo, Ahmad decide atravessar uma parte distante da cidade para encontrá-lo, o que torna a busca difícil. No entanto, ao longo do filme, fica claro que o mais importante não é encontrar o amigo, mas sim o percurso em si e os passos necessários ao longo do caminho, independentemente do desfecho.
Ao final do filme, poucas questões se resolvem de maneira clara, caracterizando a obra como um conto de fadas às avessas. Ahmad percorre um caminho simbólico, como ir à “floresta”, mas não consegue encontrar o destino esperado, pontuando que a figura do guia, embora sábia, não é capaz de levá-lo ao objetivo desejado. O aprendizado central do filme então ocorre fora das instâncias tradicionais de educação e da autoridade. Figuras como o professor, a mãe e o avô acabam oferecendo ensinamentos desconectados das necessidades reais do menino, funcionando mais como agentes de deseducação. Isso transforma o filme numa crítica ao sistema social e educacional estabelecido, sugerindo que os verdadeiros processos de aprendizagem acontecem de forma transversal, nas relações entre iguais ou na experiência individual, apontando para uma espécie de anarquismo educacional ou, ao menos, para uma descrença nos modelos tradicionais de ensino reproduzidos pela sociedade.
Ao final, ele acrescenta que a obra de Kiarostami possui uma poesia seca e que, embora o texto privilegie as escolhas narrativas, isso não significa que o filme seja pobre formalmente - ao contrário, toda a sua força poética está em jogo. Ele destaca o despojamento narrativo como um dos elementos centrais do estilo do diretor; observa que a música, diferente do uso comum no cinema contemporâneo, aparece de forma discreta, servindo basicamente para acompanhar a movimentação de Ahmad em sua busca; e aponta que a fotografia e os enquadramentos seguem uma lógica de simplicidade, evitando qualquer virtuosismo técnico ostensivo, ainda que essa simplicidade exija grande elaboração.
Segundo o autor, o realismo de Kiarostami não é fácil, pois se constrói tanto pelo que é mostrado quanto pelo que é ocultado. O diretor tem um domínio excepcional do fora de campo, sendo um dos grandes cineastas nessa arte de sugerir mais do que exibir. Essa economia expressiva - próxima da ideia de enxugar a poesia - faz com que cada elemento em cena ganhe significado, levando o espectador a perceber o mundo com renovada atenção, considerando que Kiarostami alcança um estatuto semelhante ao de grandes cineastas como Kenji Mizoguchi, sendo capaz de criar uma sensação de realidade quase documental, mesmo através de elaborados artifícios cinematográficos.
O que disse a crítica 1: João Garção Borges da Magazine HD avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “’Onde Fica a Casa Do Meu Amigo?’ apresenta-se como um clássico indiscutível da filmografia de Abbas Kiarostami, rodado numa região que sofreu há uns anos (mais precisamente em 21 de Junho de 1990) um terremoto devastador em que morreram milhares de pessoas. (...) A obra possui mais do que suficientes razões para justificar uma descoberta. Em primeiro lugar, o muito jovem ator protagonista, Babek Ahmadpour, e a sua imperial capacidade de nos fazer sentir as mais profundas emoções. Depois, a direção de fotografia de Farhad Saba, cuja paleta de cores sobressai no restauro digital como se os fotogramas fossem pintados a pastel, cores de uma natureza que se perfila igualmente como personagem. E, sem sombra de dúvida, a realização e o argumento de um nome maior da história do cinema”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Para realizadores talentosos, não existem premissas simples: nas mãos de outra pessoa, um filme inteiro sobre um garotinho que tenta encontrar a casa do amigo para devolver o caderno que este esqueceu (o que despertará a ira do professor) poderia soar vazio; nas de Abbas Kiarostami, contudo, é uma jornada que beira o épico. Primeiro longa da trilogia Koker (vilarejo iraniano que hospeda a narrativa), ‘Onde Fica a Casa do Meu Amigo?’ compreende que, para um menino de 8 anos, a dimensão de uma missão corriqueira é similar à de, digamos, Ethan Hunt tentando encontrar uma bomba atômica. Protagonizado pelo carismático e expressivo garotinho Babek Ahmed Poor, o filme explora a geografia do vilarejo e o cotidiano de seus habitantes para formar um retrato humanista daquela comunidade humilde, de seu modo de vida e suas dificuldades. Sem jamais perder o fio principal. Em essência, porém, o longa deposita sua alma na persistência e na generosidade de seu pequeno protagonista, que através de gestos mínimos (diminuir o ritmo dos passos para acompanhar um velhinho; lavar a perna machucada de um amigo) se torna uma figura irresistível”.
O que eu achei: Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) é uma pequena pérola do cinema iraniano. Sua principal qualidade reside na capacidade de transformar uma premissa simples - a jornada de um menino de oito anos que precisa devolver um caderno - em um épico moral sobre amizade, empatia e ética. O filme contrasta a pureza e a responsabilidade da criança com a rigidez e a incompreensão do mundo adulto. O protagonista Ahmed embarca em uma verdadeira odisseia movido pelo senso de solidariedade, recusando-se a aceitar que o amigo seja punido pelo fato do caderno do colega ter ficado, por engano, com ele. Gravado na região rural de Koker, no interior do Irã, o filme utiliza atores não profissionais. Isso confere ao longa um tom documental, capturando a realidade local sem artificialidades, com um olhar poético e sensível. Kiarostami, que também é poeta, utiliza uma linguagem visual minimalista. Planos estáticos, caminhadas repetitivas pelas colinas e cores contrastantes elevam objetos cotidianos a símbolos de grande peso emocional. O protagonista enfrenta a indiferença de vizinhos e adultos, mas encontra nos mais velhos fragmentos de sabedoria. É uma ode à importância da atenção ao outro nesse mundo apressado em que vivemos, um conto humanista e encantador que encontra a imensidão da alma humana nos menores gestos cotidianos. Super recomendo.

5.7.26

“Luta de Classes” - Spike Lee (EUA/Japão, 2025)

Sinopse:
 Um magnata da música chamado David King (Denzel Washington), é alvo de um plano de extorsão que o deixará preso em um dilema moral. Ele é forçado a agir e dar tudo de si depois que o filho de seu amigo e motorista Paul Christopher (Jeffrey Wright) é raptado ao ser confundido com o seu filho Trey (Aubrey Joseph). King precisará descer do topo luxoso e privilegiado que conquistou para o asfalto de Nova York a fim de levar a recompensa em dinheiro para o sequestrador e aspirante a rapper Yung Felony (A$AP Rocky).
Comentário: Spike Lee (1957) é um cineasta, escritor, produtor, ator e professor norte-americano. Seu trabalho explora as relações raciais, o papel da mídia na vida contemporânea, o crime urbano, a pobreza e outras questões políticas. Vi dele a obra-prima “Faça a Coisa Certa” (1989), os ótimos “Malcolm X” (1992), "O Plano Perfeito" (2006) e "Infiltrado na Klan" (2018) e o bom “A Última Noite” (2002), dentre outros. Desta vez vou conferir “Luta de Classes” (2025).
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Spike Lee tem uma relação desafiadora com adaptações de clássicos orientais. Sua versão americana de ‘Oldboy’ (2013) não conseguiu capturar toda a intensidade do thriller sul-coreano de Park Chan-wook. Agora, em ‘Luta de Classes’, o diretor reimagina Akira Kurosawa e finalmente parece ter encontrado o equilíbrio: ele pega os materiais originais - o longa ‘Céu e Inferno’ (1963) e o romance ‘King’s Ransom’, de Ed McBain - e imprime sua própria visão urbana da história, criando um thriller de gênero que só poderia ter saído de sua mente.
A história acompanha David King (Denzel Washington), um magnata da música em Nova York, que enfrenta o dilema moral de pagar um resgate quando o filho de seu motorista é sequestrado por engano. Lee transfere o núcleo do clássico japonês para as ruas da cidade de Nova York, transformando cada esquina, estação de metrô e bairro em parte da narrativa. A tensão não está apenas no resgate, mas também na desigualdade social e na hierarquia que permeia tanto a elite quanto as comunidades unidas que cercam King.
As relações de poder dentro dessas comunidades formam o coração pulsante do filme. Mesmo em ambientes marcados por laços de solidariedade e pertencimento, existem regras que definem quem decide e quem deve obedecer. Spike Lee explora com precisão como desigualdade social, hierarquia e expectativas culturais influenciam cada escolha e cada gesto dos personagens, mostrando que a união aparente não elimina a tensão entre interesses individuais e coletivos. Ao inserir essa análise em um thriller urbano, o diretor reafirma seu olhar atento sobre a vida negra na América, revelando que o poder é sempre relativo e que as estruturas sociais moldam, limitam e até mesmo protegem aqueles que nelas estão inseridos.
Denzel Washington conduz a narrativa com uma presença magnética e inabalável, tornando-se o eixo em torno do qual o filme gira. Diferente de Toshiro Mifune no original, cujo personagem era dilacerado por conflitos morais, seu David King age com convicção e firmeza, movido por fé e segurança em si mesmo, alheio às opiniões ou julgamentos alheios. A interpretação de Denzel combina autoridade natural, gestos intensos e uma energia que só ele poderia trazer, imprimindo ao personagem nuances de sua própria persona. Essa força não apenas sustenta a credibilidade do filme, mesmo em cenas mais exageradas ou cômicas, como também transforma King em um personagem memorável, capaz de equilibrar drama, tensão e carisma em cada cena.
Spike Lee se diverte imprimindo sua marca pessoal na narrativa, americanizando e colorindo o thriller com elementos da cultura de Nova York. O basquete aparece como referência constante - com provocações aos Celtics e menções ao time local -, enquanto a presença de Rosie Perez, sua parceira de ‘Faça a Coisa Certa’, e a eletrizante performance de Eddie Palmieri transformam uma cena de resgate em um verdadeiro espetáculo musical. Ao entrelaçar cidade, música e cultura pop, Lee dá à metrópole vida própria, tornando o filme não apenas tenso e envolvente, mas também vibrante, moderno e inconfundivelmente seu.
Tecnicamente, a trilha sonora sustenta o ritmo do filme, mesmo que em alguns momentos se sobreponha a diálogos importantes, reforçando a intensidade das cenas e a urgência das escolhas dos personagens. O clímax emocional chega com a canção final, ‘Highest 2 Lowest’, que dá nome ao filme no original e ressoa com os temas centrais de poder, ética e família, encerrando o filme com uma sensação de celebração e reflexão.
Em suma, ‘Luta de Classes’ não é apenas uma releitura de Kurosawa: é um thriller urbano completo, carregado de humor, crítica social e estilo autoral. Spike Lee mostra como é possível respeitar o material original e, ao mesmo tempo, transformá-lo, imprimindo sua visão de cidade e cultura nova-iorquina, criando uma obra contemporânea ao seu estilo”.
O que disse a crítica 1: Kevin Rick do site Plano Crítico avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “’Luta de Classes’ é um filme que diverte, que traz boas ideias visuais e que tem coragem de adaptar um clássico para outro contexto, mas que perde muito em consistência narrativa e em impacto dramático. A estrutura em blocos não se integra bem, a tensão se esvai e a performance central de Denzel, ao invés de elevar a obra, a torna mais ruidosa e menos crível. Ainda assim, há vigor em sua dimensão simbólica, há beleza em ver Spike Lee transformar a cidade em palco e há interesse em como o filme dialoga com questões de poder, dinheiro e pertencimento. O resultado é irregular, mas não desprovido de valor: uma obra que fascina no olhar, mas que deixa a desejar no coração”.
O que disse a crítica 2: João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Se Spike foi criticado por essa visão crítica do rap, comprovou mais uma vez que sua linguagem continua cutucando valores consolidados do establishment cultural negro nos EUA. No ambiente carregado de tensões raciais em que navega, não é pouca coisa, é na verdade uma empreitada cheia de riscos. É nesse sentido que Spike Lee é um cineasta eminentemente político, imerso no mundo do entretenimento, mas sempre agudo nas suas proposições. (...) [Além disso há] Denzel Washington em uma atuação impagável, cheia de improvisações, de pequenos gestos e expressões”.
O que eu achei: Trata-se de uma nova versão cinematográfica para o romance americano "King's Ransom" (1959) de Ed McBain. O título do livro é uma expressão idiomática em inglês que significa ‘uma quantia exorbitante de dinheiro’ ou ‘uma fortuna’. Seria o equivalente a dizer em português que algo vai ‘custar os olhos da cara’. O cineasta Akira Kurosawa já havia adaptado esse livro no filme "Céu e Inferno" (1963), cujo título foi traduzido para o inglês como "High and Low" (Alto e Baixo). A adaptação do Kurosawa é mais fiel ao livro pois conta a história de um executivo (Toshiro Mifune), que é designer de sapatos, e hipoteca tudo o que tem na tentativa de assumir a Companhia Nacional de Sapatos onde ele trabalha, mantendo a empresa fora das mãos dos outros executivos gananciosos que não se incomodam em fazer sapatos de baixa qualidade para obter lucros financeiros. Contudo, o dinheiro que ele arrecada pode pagar o resgate do filho de seu motorista que foi sequestrado. O filme envereda, então, nesse dilema moral entre salvar o rapaz ou comprar as ações da empresa. Nesta versão feita por Spike Lee as coisas são um pouco diferentes. Sob o título “Highest 2 Lowest” - que significa "Do Mais Alto ao Mais Baixo" - a trama mostra David King (Denzel Washington), um executivo da indústria fonográfica que é um famoso descobridor de talentos. Ele precisa reunir uma volumosa quantia para voltar a ser o acionista majoritário do selo onde trabalha e assumir o controle das decisões, porém o filho de seu empregado de confiança é sequestrado e ele precisará decidir se compra as ações ou paga o sequestrador. A versão do Kurosawa é mais contida e tem aquele charme dos anos 60, mas a do Spike Lee acaba sendo também interessante pois ele insere na discussão a vida dos negros norte-americanos e o contexto artístico e cultural de Nova York, reforçando o abismo social e o fluxo de influência e poder entre os diferentes extratos da sociedade. Estamos no século XXI, portanto temas como fama instantânea, mercantilização da arte e a relação de desconfiança da polícia para com os negros menos favorecidos são questões pertinentes. Como declarou Spike Lee em entrevistas, não se trata de um remake, mas de uma reinterpretação, marcada pela assinatura visual e sonora característica do cineasta. O resultado não é uma obra-prima como “Faça a Coisa Certa” (1989), “Malcolm X” (1992) ou "Infiltrado na Klan" (2018), mas também não é pouco inspirado como seus longas "Ela Quer Tudo" (1986), "Milagre em Santa Anna" (2008) e "Oldboy - Dias de Vingança" (2013). Este é um bom thriller, quase um blockbuster, gostoso de ver, bom para distrair, mas sem aquele peso político, a centelha subversiva e o frescor inconfundível que transformam seus melhores projetos em marcos do cinema.

4.7.26

“A Vizinha Perfeita” - Geeta Gandbhir (EUA, 2025)

Sinopse:
Documentário que reconta a história do homicídio de Ajike Owens, morta pela vizinha Susan Lorincz após um desentendimento motivado por crianças brincando perto de sua propriedade na Flórida. O filme utiliza imagens de câmaras corporais da polícia e entrevistas para investigar como uma pequena discórdia se transformou num trágico evento, explorando o impacto da controversa lei de autodefesa conhecida como ‘Stand Your Ground’ e o racismo sistêmico nos EUA.
Comentário: O jornal O Globo publicou: “Apesar do que seu título sugere, ‘A Vizinha Perfeita’ não é uma história exatamente sobre uma boa convivência em uma rua ou bairro. O documentário da Netflix (...) conta a história de uma mãe de quatro filhos que foi assassinada por uma idosa que morava bem próximo de sua casa, na Flórida, nos Estados Unidos.
As imagens do documentário são de gravações de câmeras corporais da polícia, dando destaque às conversas entre os agentes e moradores durante a investigação. A produção cria um debate sobre as leis de ‘legítima defesa ampliada’, conhecidas como ‘stand your ground’, que vigoram em várias regiões dos EUA.
Essa legislação permite que uma pessoa use força letal ao acreditar que sua vida corre risco, mesmo que haja a possibilidade de se abrigar em segurança ou que o confronto ocorra fora de sua própria propriedade.
Pois bem, a idosa Susan Lorincz, costumava chamar a polícia em diversas ocasiões para tratar das crianças que brincavam em um campo ao lado de sua casa. Certo dia, a mulher briga com um dos filhos de Ajike ‘AJ’ Owens. Ao saber do ocorrido, a mãe resolver conversar com a vizinha, mas ao bater à porta dela, é atingida por um tiro disparado de dentro da residência. A porta estava fechada.
‘Esse crime chocante deixou minha família e eu mergulhados em dor e confusão’, disse a diretora Geeta Gandbhir, segundo comunicado do Tudum, site publicado pela Netflix. ‘A comunidade de Ajike era muito próxima, baseada em apoio mútuo e confiança. Foi devastador ver como um ambiente tão unido pôde se desintegrar de forma tão catastrófica’.”
O filme concorreu ao Oscar de Melhor Documentário.
O que disse a crítica 1: Vitor Velloso do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “’A Vizinha Perfeita’ estrutura bem parte de seu discurso social por meio das imagens cedidas pelos registros da body cam, inclusive no interrogatório, apresentando o racismo dessa sujeita, a vida de parte das pessoas que sofriam com suas ameaças constantes e conseguindo introduzir o público nesse universo particular que a montagem articula. Mas tem alguma dificuldade de contextualizar a região, os históricos, a motivação pela permanência, questões que estão fora do escopo da representação da obra e que um documentário tradicional (talvez!) pudesse trazer à luz”.
O que disse a crítica 2: Eder Pessoa do site Cinema e Séries avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Depois dos pouco mais de 90 minutos, não temos respostas fáceis – Lorincz pegou 25 anos de prisão. ‘A Vizinha Perfeita’ sugere este debate real e racional, pois a família de Owens não a terá de volta, não poderá abraçá-la, não poderá ter o carinho e o amor dela no dia a dia. E não me entenda mal, não falo de pena de morte, porque isso não funciona, mas, num mundo ideal, não seria possível normalizar este racismo institucional tão abertamente propagado, pois isso só faz com que a sociedade permaneça doente e inconsequente”.
O que eu achei: Trata-se de um documentário difícil de assistir. Por um lado, por conta do tema, pois ele retrata a história real do assassinato de uma dona de casa negra chamada Ajike Owens, uma mulher batalhadora que trabalhava como gerente numa unidade do McDonald’s, enquanto cuidava de seus quatro filhos. Ela foi morta por uma vizinha: uma senhora de 58 anos, branca, que mantinha duas armas em casa e estava cansada de ouvir o barulho das crianças brincando no terreno gramado próximo à sua residência. A dificuldade de ver está no nível de insanidade da intolerância racial. Ele mostra como a hostilidade crônica e a obsessão de uma mulher se transformaram em uma tragédia letal quando o diálogo foi completamente substituído pelo ódio e pelo preconceito. Ele também não é fácil de assistir por conta da estética. Ele é todo contado através das imagens capturadas pelas câmeras corporais da polícia (bodycams), vídeos de celular e de circuitos de segurança e pelas gravações das chamadas de emergência e áudios das salas de interrogatório. Então não espere nenhum visual 4k, mas sim uma estética instável e limitada, que causa uma sensação real de desconforto, vertigem e impotência ao presenciar o conflito se desenrolar. O resultado é perturbador. A diretora Geeta Gandbhir declarou que as imagens chegaram até ela por ser amiga da família de Owens. Os advogados da família Owens haviam solicitado o material à polícia e a família queria saber se havia algo que pudesse manter o caso em evidência na mídia. Foi aí que Gandbhir teve a ideia do documentário. Havia cerca de trinta horas de vídeos sobre o caso. A equipe de produção teve que analisar tudo e organizar transformando o material em filme. O julgamento de Lorincz – que acabou pegando 25 anos de prisão - ganhou manchetes internacionais, especialmente por conta da chamada lei "Stand Your Ground" da Flórida. Essa lei permite o uso de força letal em legítima defesa para que o cidadão possa 'manter sua posição ou manter-se firme', defendendo seu ponto de vista ou território, o que tem um impacto desproporcionalmente negativo sobre afro-americanos, já que ela abre espaço para vieses raciais na interpretação do que constitui uma ‘ameaça iminente’ pois pessoas negras tendem a ser rotuladas de forma desproporcional como ‘suspeitas’ ou ‘perigosas’, aumentando a probabilidade de serem alvo de violência sob o pretexto de defesa pessoal. Como disse o crítico de cinema Justin Chang da revista The New Yorker, o documentário usa as imagens “não para reconstruir um crime, mas sim para trazer à luz o drama oculto de uma vizinhança. O simples espetáculo de crianças brincando, ao que parece, é tudo o que basta para transformar um pedaço da periferia americana em uma ferida aberta e microscópica de racismo, paranoia, agressão, doenças mentais e violência armada”. Veja preparado.

29.6.26

“O Homem Que Quis Matar Hitler” - Fritz Lang (EUA, 1941)

Sinopse:
 
Alan Thorndike (Walter Pidgeon), um atirador inglês, planeja matar Hitler (Carl Ekberg), mas quando está prestes a atirar no líder nazista é capturado pela Gestapo. Ele então é obrigado a assinar um termo responsabilizando o governo inglês pelo atentado. A ideia é usar o termo como pretexto para começar uma guerra.
Comentário: Fritz Lang (1890-1976) foi um cineasta, realizador, argumentista e produtor nascido na Áustria, mas que dividiu sua carreira entre a Alemanha e Hollywood. É considerado uma das maiores figuras do cinema alemão e o mais notável e proeminente diretor a emergir da escola do expressionismo alemão, juntamente com Friedrich Wilhelm Murnau, muito embora Lang tenha sempre negado qualquer relação com o movimento expressionista. Assisti dele 9 filmes: as obras-primas "Dr. Mabuse – Partes 1 e 2” (1922), "Metrópolis" (1927) e "M, O Vampiro de Dusseldorf" (1931), os ótimos “A Mulher na Lua” (1929), "Vive-se Só Uma Vez" (1937) e "Quando Desceram as Trevas" (1944), o mediano "O Segredo da Porta Fechada" (1947) e o curioso “A Morte Cansada” (1921). Desta vez vou conferir “O Homem Que Quis Matar Hitler”, uma produção americana de 1941.
Segundo o site DW “Nascido em 5 de dezembro de 1890 em Viena, Lang é um dos principais artigos culturais de exportação da Alemanha - embora não seja tão simples definir a nacionalidade do diretor que atuou por longos anos nos Estados Unidos. Além do passaporte da Áustria natal, em 1922, após casar-se com a roteirista e atriz Thea von Harbou, Lang naturalizou-se alemão. E, tendo emigrado para os EUA, recebeu em 1939 também a cidadania americana.
Com o filme mudo ‘A Morte Cansada’, em 1921 Fritz Lang alcançou seu primeiro sucesso na República de Weimar. Seguiram-se produções monumentais, que lhe valeram fama internacional: ‘Os Nibelungos’ (1924), a visionária ficção científica ‘Metrópolis’ (1927), ‘A Mulher na Lua’ (1929) e ‘O Testamento do Dr. Mabuse’ (1933). No entanto, até hoje sua obra mais influente é ‘M, O Vampiro de Düsseldorf’, de 1931. O papel do sinistro assassino de crianças definiria a carreira futura do ator de origem húngara Peter Lorre. (...)
Em 1933, porém, Lang rompeu com a indústria cinematográfica alemã e a produtora Universum Film (futura UFA): Josef Goebbels tentara instrumentalizar o celebrado diretor para fins de propaganda nazista. Admirador de seus filmes, o ministro da Propaganda de Hitler lhe ofereceu o posto de superintendente de Cinema do Terceiro Reich. Mas Lang pediu um tempo para decidir (...), seguiu trabalhando na Alemanha, [e resolveu partir] para o exílio meses mais tarde, no fim de 1933.
Durante sua breve estada na França, Fritz Lang realizou com o produtor Erich Pommer, igualmente emigrado da Alemanha, ‘Coração Vadio’ (...). Em 1934, o cineasta conseguiu dar o salto para Hollywood. Mas, apesar de altamente produtivo no exílio, ele nunca conseguiu lançar raízes nos EUA. Em sua minuciosa biografia, Grob explica que, possuidor de uma personalidade autoritária, Lang era mal adequado a funcionar no rígido sistema dos estúdios americanos, onde quem detinha o poder eram os poderosos produtores e os influentes chefes de estúdio, não o diretor.
Na década de 1940, tendo se empenhado pela criação da Anti-Nazi-League nos EUA, ele fez alguns filmes de cunho político, como este ‘O Homem Que Quis Matar Hitler’, em 1941”, baseado no livro “Rogue Male” de Geoffrey Household. A trama é a seguinte: em Berchtesgaden, próximo à casa de Hitler, o capitão inglês Alan Thorndike (Walter Pidgeon) tem o Führer em sua mira, mas falha no tiro. Ele é capturado pelos nazistas, que desejam que Thorndike assine um documento afirmando que trabalha a serviço da majestade britânica. Como ele se recusa a assinar a confissão falsa, é jogado de um penhasco para simular um acidente, mas sobrevive e consegue fugir recebendo a ajuda do garoto Vaner (Roddy McDowell e da prostituta Jerry (Joan Bennett), uma mulher de origem humilde e pouca educação, que fica absolutamente fascinada pelo cavalheiro.
No livro “Fritz Lang in America” (1969) escrito por Peter Bogdanovich, Fritz Lang conta algumas curiosidades sobre o filme: “Este papel que Joan Bennett interpretava, de uma pequena prostituta que se apaixona por [Walter] Pidgeon - um amor condenado desde o início -, preciso admitir que ele tinha todo o meu coração. (…) Mas, naturalmente, o escritório de Hays insistiu que não poderíamos mostrar ou glamourizar uma prostituta, que isso era impossível. (Disseram que não deveríamos mostrá-la rodando a bolsinha.) Sabe como driblamos isso? Tivemos de mostrar acentuadamente uma máquina de costura em seu apartamento: assim, ela não era uma puta, mas uma costureira. Fale-me agora de autenticidade.
Zanuck [produtor do filme] não acreditava na cena da ponte londrina, que estava no roteiro original. Nesta cena, Pidgeon - que tinha uma cicatriz no rosto e estava sendo procurado pela polícia – tem a última conversa com Joan Bennett, a prostituta. Ela tem o pressentimento de que jamais o verá novamente e de repente um policial se aproxima. Ela tem medo de que o policial reconheça e prenda Pidgeon, então começa a bancar a puta e diz: ‘Venha, querido, suba aqui no meu quarto, eu lhe mostrarei algumas coisas novas.’ (…) Falei com Zanuck e ele me deu uma resposta muito característica: ‘Quando uma puta banca a puta diante do homem que ama, isso não é trágico. Quando uma garota decente banca a puta, aí sim é trágico.’ Eu sequer poderia discutir este tipo de coisa - para mim, é muito bobo - e, de todo modo, não teria convencido Zanuck. Então pensei e falei com Benny Silvi, um cara maravilhoso que era o produtor local do filme (…) e com Arthur Miller, o câmera. ‘Quero filmar esta cena’, disse. E Ben disse: ‘Fritz, você não pode. Eu não posso, por ordens de Zanuck, gastar nem um tostão nesta cena.’ (…) Então eu disse: ‘Ben, eu vi um corrimão por aí que se parece com o de uma ponte.’ Ele disse: ‘Sim.’ Eu disse: ‘Isso custa alguma coisa?’ Ele disse: ‘Não, isso você pode ter.’ (…) Falei com Arthur Miller - que era um gênio como câmera - e ele disse que era possível iluminar de forma que o fundo fosse gradualmente se apagando na fumaça - assim, nem precisaríamos de um fundo. (…) Pusemos sobre a coisa toda um pouco da névoa londrina. (…) Filmei a cena e Zanuck não disse uma palavra. Tudo o que falou foi: ‘onde diabos isso foi filmado?’”
O que disse a crítica 1: Iann Jeliel do site Plano Crítico avaliou o filme com 2 estrelas, ou seja, ruim. Disse: “Mesmo que se encaixe em estruturas que o alemão Fritz Lang estava acostumado desde quando chegou em território americano (a fuga de um protagonista da autoria de um crime que não cometeu, contexto que se transformava em um romance proibido, dentre outras características), ‘O Homem que Quis Matar Hitler’ se caracteriza como muitas outras histórias do início da década de 1940, uma mera propaganda antinazista envelopada em um filme genérico de gêneros populares à época. Nesse caso, ainda se agrava pela inserção de vários numa mistura de espionagem, drama, comédia e suspense que simplesmente não funciona por carecer justamente de uma execução mais particular de Lang, que no papel parecia ser o cineasta ideal para dirigir o longa, uma vez que a fuga do diretor de seu país de origem muito se relacionou a essa crescente do regime autoritário por lá”.
O que disse a crítica 2: Cristian Oliveira Bruno do site Cineplayers avaliou com o equivalente a 3,75 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “’O Homem Que Quis Matar Hitler’ pode não estar no mesmo nível de outras obras grandiosas desse monstro que foi Fritz Lang, mas é um filme que mescla muito bem argumentos inteligentes e interessantes, com um apuro técnico invejável, uma boa dose de suspense, um toque de romance e boas investidas no humor e isso é coisa rara”.
O que eu achei: Após fazer dois filmes muito críticos do que ocorria nos anos 30 na Alemanha – “M, o Vampiro de Dusseldorf” (1931) e “O Testamento do Dr. Mabuse” (1933) -, Josef Goebbels (Ministro da Propaganda e do Esclarecimento Público da Alemanha Nazista) convida Fritz Lang para ser o cineasta oficial do 3º Reich. Resultado: Lang resolve fugir do país, indo primeiro para a França e depois para os EUA. Na década de 1940, tendo se empenhado pela criação da Anti-Nazi-League nos EUA, foi que ele fez “O Homem Que Quis Matar Hitler” (1941). Uma adaptação de um livro chamado “Rogue Male” - uma expressão em inglês que significa ‘macho solitário’ ou ‘macho rebelde’ de autoria de Geoffrey Household. Na trama, um famoso caçador britânico, que está de férias na Alemanha em 1939, tem Adolf Hitler na mira de seu rifle esportivo, mas é capturado antes de puxar o gatilho pelos guardas que fazem a segurança do entorno. Embora a premissa de um homem tentando matar Hitler possa sugerir um filme de ação, Lang está menos interessado na aventura do que na perseguição e na resistência individual diante de um regime totalitário. O resultado é um thriller eficiente, marcado por um clima de tensão e suspense constante e um toque de romance. Ele não alcança a força de suas obras-primas, mas é um bom filme, agradável de assistir tanto por suas qualidades cinematográficas quanto por refletir a posição política de um diretor que conhecia o nazismo por experiência própria.

28.6.26

“The Mastermind” – Kelly Reichardt (EUA/Reino Unido, 2025)

Sinopse:
Massachusetts, anos 70. A Guerra do Vietnã e o início do movimento feminista dominam o pano de fundo americano. A vida de JB Mooney (Josh O'Connor), um carpinteiro e chefe de família, está no marasmo. Para fazer dinheiro, ele planeja um grande roubo de obras de arte valiosas num museu. Mas lidar com o produto do roubo se revela inacreditavelmente mais complicado que o assalto em si.
Comentário: Kelly Reichardt (1964) é uma diretora de cinema, montadora e roteirista americana. Seus filmes são caracterizados por narrativas sutis, planos longos e atenção delicada ao cotidiano dos personagens. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas do cinema independente americano. Assisti dela o ótimo “First Cow - A Primeira Vaca da América” (2019). Desta vez vou conferir “The Mastermind” (2025).
O site Wikipédia publicou: “Reichardt nutria um fascínio de longa data por roubos de arte e colecionava recortes de jornais sobre esses roubos há anos. Ela observou que, na década de 1970, era relativamente fácil roubar arte e que o roubo no Museu Isabella Stewart Gardner aconteceu porque havia ‘viciados em ácido trabalhando na segurança’.
Ela foi especificamente inspirada pelo roubo de 1972 no Museu de Arte de Worcester, em Massachusetts, no qual dois Gauguins, um Picasso e um Rembrandt foram roubados. Ela começou a trabalhar no filme depois de ler sobre o 50º aniversário do roubo em Worcester. Ela explicou: ‘Sou fascinada por pessoas que roubam arte e pela ideia de levar algo de um espaço público para apreciar sozinho, como as pessoas que tinham o de Kooning em seu quarto. Em vez de todos apreciarem a pintura, será apenas você atrás da porta do seu quarto’.
Embora muitos filmes de Reichardt sejam filmados no noroeste do Pacífico, Reichardt ambientou o filme em Massachusetts porque ela frequentou a escola de arte no estado e sentiu que o roteiro fazia sentido ambientado por lá.
O cenário do filme destaca o declínio da contracultura dos anos 1960. Reichardt disse que mudou a data do assalto de 1972 para 1970 porque os personagens precisavam descobrir o que vem a seguir como país, porque no final dos anos 1960, com toda essa coisa de liberdade desenfreada não estava funcionando. Além disso, a narrativa do filme faz paralelos com as narrativas não convencionais da Nova Hollywood dos anos 1970 que eram povoadas por anti-heróis excêntricos.
Vivendo em um subúrbio confortável e sem o risco de ser convocado, JB tem o luxo de não estar sintonizado com o clima político, embora a realidade permaneça logo à margem do quadro. Ela observou que JB estava se rebelando contra sua vida de classe média sem uma ideia clara de qual seria a alternativa e sem pensar aproveita-se de seu privilégio sempre que está em apuros ou sempre que precisa.
A rebeldia descontrolada de JB se relaciona a um tema comum em Reichardt, o indivíduo versus a pessoa em uma comunidade. Assim como ‘Pickpocket’ (1959), de Robert Bresson, o filme é estruturado como uma exploração de um pecador, por que ele peca e sofre as consequências desses pecados. Reichardt disse que o filme era em parte sobre o custo da liberdade pessoal, explicando que ser capaz de ser um fora da lei é como se fosse um privilégio e que JB depende das mulheres em sua vida para carregar o peso de suas travessuras. Ela acrescentou que o filme questiona se uma pessoa pode realmente permanecer separada do que está acontecendo ao seu redor.
A escolha de JB sobre quais obras de arte roubar reflete seus gostos pessoais, e não a maximização do lucro. O'Connor disse que há uma espécie de ego envolvido nisso: ‘Vou roubar os artistas que só os verdadeiros artistas conhecem’. No filme, JB rouba quatro pinturas reais de Arthur Dove: ‘Tree Forms’ (1932), ‘Willow Tree’ (1937), ‘Tanks & Snowbanks’ (1938) e ‘Yellow, Blue-Green and Brown’ (1941). No entanto, ele perde a chance de roubar pinturas mais famosas, algumas das quais estão na National Gallery of Art de Washington DC, como ‘Street in Venice’ de John Singer Sargent, ‘Child in a Straw Hat’ de Mary Cassatt, ‘Niagara’ de Frederic Edwin Church e ‘The Voyage of Life: Youth’ de Thomas Cole. A Artnet explicou que, embora Dove fosse ‘um artista respeitado cujas obras estão em alguns dos maiores museus da América, a única maneira de ele virar notícia na imprensa de arte hoje seria se alguém encenasse um roubo de suas obras’. Reichardt observou que mesmo na década de 1970, Dove não era o artista mais popular, e que ela gostou de como o foco de JB em Dove diminui os riscos e era mais adequado para o tamanho do filme e as ambições deste personagem’.”
O que disse a crítica 1: Peter Bradshaw do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O último filme de Kelly Reichardt, por coincidência, também era sobre arte: ‘Showing Up’, com Michelle Williams como uma artista estressada cuja existência cotidiana (o banal ato de ‘aparecer’) se mostra mais real do que o suposto fervor da inspiração artística. Ali, os detalhes do dia a dia eram tão relevantes quanto a arte; em ‘The Mastermind’, os detalhes sombrios da calamidade pós-assalto são tão pertinentes quanto o evento principal. É isso que atrai o olhar observador de Reichardt e torna ‘The Mastermind’ tão silenciosamente envolvente”.
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: O cinema de Kelly Reichardt “coloca-se à margem, para melhor digerir e dispor essas vidas que se passam, também, às bordas da sociedade oficial. Mas é dali mesmo que, efetuando um recuo de mais de 50 anos, descobre um país dividido. Isto é, por outras palavras (ou imagens), Reichardt evoca outro momento de fratura profunda dos Estados Unidos, talvez mais decisiva ainda do que aquela dos tempos do Vietnã. Ou sejamos claros, muito mais consequente e brilhante do que seu pobre anti-herói, Reichardt continua a levar adiante sua obra bela e transgressiva”.
O que eu achei: O filme acompanha JB Mooney, um carpinteiro desempregado e pai de família que decide roubar quatro pinturas abstratas de um museu na Nova Inglaterra, em plena Guerra do Vietnã. O título "The Mastermind" - que na tradução para o português seria "O Mestre da Mente" - atua como uma ironia afiada e uma desconstrução do tradicional filme de assalto, pois ele remete ao 'mentor' do crime, o cérebro que está por trás de tudo, àqueles supergênios dos assaltos do cinema hollywoodiano. O mentor aqui é um ladrão amador sem preparo, incapaz de formular estratégias complexas. A diretora Kelly Reichardt, famosa pelo seu cinema minimalista (slow cinema), utiliza o roubo apenas como um ponto de partida. O foco do longa não é a execução brilhante do crime em si, mas sim um estudo cômico e social sobre a alienação, o individualismo e a mediocridade do personagem, que se vê perdido e em fuga após perceber que roubar a arte foi a parte mais fácil de seu 'plano'. A fotografia sóbria e a reconstituição dos anos 1970 reforçam esse clima de desencanto, enquanto Josh O’Connor - que interpreta o protagonista - entrega uma atuação cheia de hesitações, silêncios e pequenos gestos que revelam um homem comum tentando sustentar uma fantasia de grandeza. Reichardt observa JB sem glamour e sem julgamentos fáceis: ele é ao mesmo tempo ridículo, egoísta, frágil e estranhamente humano. O que mais funciona em “The Mastermind” é justamente essa recusa em transformar o protagonista em um anti-herói carismático. O filme desmonta o mito do criminoso genial e mostra alguém incapaz de compreender as consequências dos próprios atos, cercado por um país em ebulição política e social. O resultado pode frustrar quem espera um thriller de assalto convencional, mas recompensa o espectador disposto a entrar no ritmo particular da cineasta. É um filme contido, inteligente e irônico, que encontra humanidade até mesmo na figura de um criminoso medíocre, mostrando que o verdadeiro desastre não está no roubo das pinturas, mas na ilusão de que um homem comum pode se tornar extraordinário apenas porque decidiu cometer um crime. Há muita atualidade nisso.

26.6.26

"Mussolini: O Filho do Século" – Joe Wright (Itália/França, 2024-2025)

Sinopse:
 
Abrangendo o caos político da Itália dos anos 1920, Benito Mussolini (Luca Marinelli) passa de jornalista socialista a ditador brutal do país, começando com sua milícia dos Camisas Negras até o estabelecimento de um governo autoritário que viria a incendiar a Europa.
Comentário: Joe Wright (1972) é um cineasta britânico. Ele começou sua carreira trabalhando no teatro de fantoches dos seus pais, além de ter interesse pela pintura, pelo cinema e pela atuação. Assisti dele os ótimos "Desejo e Reparação" (2007), "Anna Karenina" (2012) e “O Destino de uma Nação” (2017) e os bons "Orgulho & Preconceito" (2005) e “Hanna” (2010). Desta vez vou conferir a minissérie em 8 episódios "Mussolini: O Filho do Século" (2024-2025).
Alexandre Freitas Campos do site Vermelho publicou: "A série 'Mussolini, O Filho do Século' expõe as raízes do fascismo na Itália do pós Primeira Guerra Mundial, com a ascensão de Benito Mussolini ao poder, em uma trajetória de jornalista a ditador.
Dirigida por Joe Wright (vencedor do Bafta por 'Orgulho e Preconceito'), com o ator Luca Marinelli dando vida ao personagem principal, a série não faz nenhuma questão de ser sutil ao explorar semelhanças entre aquelas ideias disseminadas por Mussolini no início do século 20 e a de grupos políticos atuais. Pelo contrário, ela é explícita, jogando na cara do espectador o quanto a extrema direita atual é sobrevida do fascismo italiano.
Jogar na cara aqui não é só força de expressão. Desde a primeira sequência do primeiro episódio, Mussolini deixa claro que irá falar com o espectador de 2025, cara a cara. Ele começa a série afirmando que sua morte e exposição de seu cadáver em praça pública foram em vão, pois, suas ideias (um tanto confusas, a propósito) estão por aí até hoje. Mussolini quebra a quarta parede a todo momento para dizer coisas na nossa cara, de forma explícita. Como, por exemplo, quando para de falar italiano do nada, olha para a câmera e diz, em inglês: 'Make Italy great again'. Uma clara referência ao MAGA, de Donald Trump nos EUA.
Na estreia da série no Festival de Veneza de 2024, o diretor Joe Wright afirmou que a concebeu por estar 'muito preocupado com a ascensão da extrema direita populista'. Então a proposta desde o começo era clara! E ficou clara mesmo ao longo dos episódios. Assim, pouco a pouco, a obra vai construindo uma genealogia política, um fio que liga Trump, Bolsonaro e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni aos camisas negras fascistas da década de 1920. Não espere sutileza de 'Mussolini, O Filho do Século'. Também não espere um tom sóbrio. Apesar da seriedade do tema, a narrativa tem boas doses de humor e muita extravagância. A começar pela fotografia e cenografia de cores vibrantes. Mussolini é retratado como um bufão astuto. Oportunista e covarde, prestes a dar no pé caso a épica marcha sobre Roma desse errado, porém eloquente, com grande capacidade retórica.
O antissocialismo, a violência como estratégia fascista (e as cenas de violência são boas e impactantes), o supremacismo de gênero, tudo é esfregado na cara do espectador. Inclusive as costuras políticas entre fascistas, católicos e liberais, todos preocupados com a ascensão dos socialistas e com a defesa da elite burguesa e aristocrata. Em conversa com um clérigo da Igreja Católica, Mussolini fala com todas as letras sobre 'Deus, pátria e família'. Isso lembra algo?
Os Camisas Negras fascistas, movidos por impetuosidade, ódio e maletas de dinheiro entregues pela elite, prestavam-se a cães de guarda do capital (alegoria que explica muito do que o fascismo é, em essência) contra o socialismo e o proletariado e eram difíceis de se controlar, até para o próprio Mussolini.
Com essa narrativa, a série contraria uma recorrente tentativa, que encontra solo fértil na desordem informacional das redes sociais, de classificar o nazifascismo como de esquerda, associando-o ao socialismo e a ideias marxistas. Ainda que Mussolini tenha sido socialista na juventude antes de se tornar fascista, a série desautoriza essa distorção. Essa ideia de que nazifascismo e socialismo seriam 'lados de uma mesma moeda', que fique claro, não tem amparo acadêmico, não tem amparo na série e nem nas mais destacadas obras audiovisuais que tratam do nazifascismo.
'Mussolini, O Filho do Século' é baseado no livro best-seller de Antônio Scurati, que fez uma ampla pesquisa histórica para reconstruir a trajetória política do ditador que serviu de inspiração para Hitler, desde a formação da milícia irregular Fasci di Combattimento até a imposição da ditadura mais feroz que a Itália já viveu.
Apesar de a série ser explícita em muitos aspectos, fascismo é um tema complicado, um conceito que gera ampla discussão e uma palavra que tem sido banalizada nos últimos anos. Por isso, a dica é não ficar somente na série (para não se tornar refém de seus excessos), mas intercalar seus episódios com alguns bons materiais de divulgação do conhecimento histórico que explicam o que é o fascismo, o contexto da Itália de Mussolini e suas influências no Brasil. (...)
'A democracia é linda. Ela nos dá liberdade até para destruí-la. Afinal, vai ser abolida', diz Mussolini, olhando para a câmera, falando comigo e com você, dando um spoiler para nós sobre o que viria a ocorrer na Itália na década de 1920. Ou seria sobre o que está para acontecer na década atual?"
Resumo dos episódios:
01: Estamos em Milão, Benito Mussolini é um jornalista e ex-professor que rompeu com os socialistas. Em 23 de março de 1919, na Piazza San Sepolcro, ele reúne cerca de cem pessoas - a maioria veteranos de guerra desiludidos e trabalhadores empobrecidos - para fundar o movimento fascista Fasci Italiani di Combattimento. Nesse momento inicial, o grupo é pequeno e marginalizado, mas carrega o rancor e o embrutecimento da I Guerra Mundial (1914-1918). O estilo de governo que ele deseja para a Itália vai precisar enfrentar obstáculos como a monarquia, a Igreja Católica, o Estado liberal e os processos eleitorais. Contudo, o seu principal inimigo prático são os socialistas. Usando de extrema violência, Mussolini passa a liderar capangas – os Camisas Negras - que agridem opositores e atacam sedes de jornais de esquerda. É nesse contexto que o poeta e nacionalista radical Gabriele D'Annunzio lidera uma milícia para ocupar a cidade de Fiume. Embora Mussolini inveje o protagonismo e o magnetismo do poeta, ele rapidamente planeja capitalizar politicamente seu feito. Ele usa o golpe do escritor no campo para inflamar a retórica nacionalista e atrair o apoio das elites financeiras e latifundiárias locais, que temem uma revolução comunista na Itália.
02: O episódio foca nas eleições parlamentares italianas de novembro de 1919, que resultam em uma vitória absoluta dos socialistas. O recém-criado grupo fascista de Mussolini não consegue votos suficientes para ser eleito e chega a ser ridicularizado e brevemente detido pelos opositores. Amargurado e isolado, Mussolini cogita seriamente abandonar a carreira política. O retrato do protagonista atinge um ponto de profunda degradação humana. A sorte política de Mussolini muda drasticamente com a eclosão do chamado Biênio Vermelho (Biennio Rosso). Uma onda massiva de greves, ocupações de fábricas e revoltas camponesas lideradas por socialistas que paralisa e assusta a Itália. Diante do pânico de uma revolução comunista inspirada no modelo soviético, grandes latifundiários e industriais ricos recorrem a Mussolini. Eles passam a financiar e dar cobertura aos fascistas para que seu grupo aja como uma milícia privada encarregada de esmagar as greves por meio da força brutal. O fechamento do episódio consolida a grande contradição do fascismo original. O movimento, que havia nascido meses antes com promessas de apelo popular e defesa dos trabalhadores menos favorecidos, muda completamente de lado. Mussolini abraça de vez a causa da burguesia tradicional e do patronato financeiro, descobrindo que o caminho mais rápido para o poder seria o de servir de braço armado para as elites conservadoras.
03: Após conseguir uma vaga no Parlamento, Mussolini tenta mudar de postura e adotar um perfil mais estratégico, diplomático e de estadista. No entanto, seus planos são frustrados quando os membros das milícias armadas Camisas Negras ignoram tal postura e mantém suas ações violentas em curso.
04: Após uma onda de greves e protestos contínuos, o Rei da Itália, Vítor Emanuel III, ao invés de chamar seu Exército para colocar ordem no país, covardemente decide excluir os socialistas do governo. Frente a isso, Mussolini ganha terreno, abandona a ideia da via diplomática e organiza uma insurreição armada. Ele aproveita o pânico das instituições diante do caos e se arrisca a organizar a famosa Marcha sobre Roma (1922) que poderia facilmente ter sido combatida e ter fracassado. Porém, para surpresa do próprio Mussolini, a pressão funciona surpreendentemente bem: o rei Vítor, apavorado com a possibilidade de uma guerra civil, cede e nomeia Mussolini chefe de governo, ou seja, ele vira Primeiro-Ministro da Itália, que era quem de fato mandava no país já que, na época, a Itália era uma monarquia absolutista no papel, mas parlamentar na prática. O rei, aliás, continuou no trono durante todo esse período posterior de ditadura fascista, agindo como uma figura decorativa sem poder real.
05: No quinto episódio Mussolini tenta aprovar uma nova lei eleitoral que garanta ao seu partido a maioria absoluta no Parlamento. Claro que seus opositores tentarão resistir, especialmente o líder católico antifascista Dom Luigi Sturzo. Mas Mussolini apela para um cardeal influente do Vaticano, vende a ele a ideia de que o fascismo protegeria os interesses católicos e a ordem social no país, e consegue fazer com que o próprio Vaticano retire Sturzo de cena.
06: Para obter maioria parlamentar, Mussolini toma a decisão de abrir as listas de seu partido para políticos oportunistas vindos de outras correntes. Essa manobra gera forte oposição interna, fazendo com que Cesare Forni, um dos primeiros líderes fascistas, se posicione contra ele já que isso faria o movimento fascista perder sua ‘pureza revolucionária original’. Nem é preciso dizer que essa oposição custa caro e Forni acaba sendo duramente espancado e isolado politicamente.
07: O episódio começa após as eleições gerais de 1924. O Partido Nacional Fascista conquista uma vitória esmagadora nas urnas. Porém, em 30 de maio de 1924, desafiando o clima de intimidação, o líder socialista Giacomo Matteotti faz um discurso histórico e feroz no Parlamento, denunciando formalmente as fraudes, as violências e os abusos cometidos pelos fascistas para garantir o resultado eleitoral, exigindo a anulação do pleito. Profundamente irritado com a audácia de Matteotti e temendo vazamentos sobre um grande esquema de corrupção corporativa, Mussolini decide ‘dar uma lição’ no opositor. Sob as ordens da polícia secreta do regime, as squadracce realizam uma operação violenta em plena luz do dia. Matteotti é sequestrado e, após resistir bravamente dentro de um veículo, ele é assassinado a facadas. Seu corpo é ocultado na tentativa de abafar o caso. Embora o público testemunhe o crime, para sua esposa e toda a sociedade da época o deputado está apenas desaparecido. Começa então a circular um clima de forte suspeita que deixará o governo de Mussolini à beira do colapso.
08: No último episódio o corpo enterrado do deputado socialista Giacomo Matteotti é encontrado por um cidadão comum e toda a população fica sabendo que ele havia sido assassinado e que teve seu cadáver ocultado. Diante da indignação pública e da oposição, o regime balança e quase desmorona. Mussolini fica acuado pela iminência do escândalo e pelo vazamento do "Memorial Rossi", documento que o ligava diretamente ao crime. A narrativa expõe a decadência interna do líder e o distanciamento de figuras que o moldaram. Mussolini então vai à Câmara dos Deputados e profere o pronunciamento mais emblemático de sua carreira. Em uma encenação teatral impactante, ele desafia o parlamento e assume toda a responsabilidade política, moral e histórica pelo que aconteceu, confrontando os deputados com o artigo legal que permitia tirá-lo do poder, sabendo que ninguém ali teria a coragem de enfrentá-lo, como de fato ocorre. O seriado se encerra assim mostrando o chamado marco zero da ditadura italiana. O silêncio covarde do parlamento sela o destino do país, as leis fascistas começam a ser rascunhadas imediatamente após o discurso, extinguindo a democracia liberal e iniciando oficialmente os 20 anos de controle absoluto e totalitário do fascismo na Itália.
O que eu achei: Trata-se de uma minissérie de 8 episódios que mostra a ascensão de Benito Mussolini ao poder, entre 1919 e 1925. Mais precisamente, entre o dia em que o fascismo foi fundado até o discurso de Mussolini no Parlamento, em janeiro de 1925, que estabeleceu oficialmente a ditadura fascista na Itália. Para contar essa história, o diretor britânico Joe Wright utilizou como base o livro “M, O Filho do Século” (2018) escrito pelo italiano Antonio Scurati. Esse escritor fez uma pesquisa histórica rigorosa e escreveu seu livro em formato de romance. O seriado aproveita esse formato, mas também estabelece um tom provocativo, quebrando a quarta parede ao colocar Mussolini – interpretado por Luca Marinelli - dialogando diretamente com o público. Mesmo que você não saiba nada sobre o assunto é possível acompanhar e compreender cada um desses episódios, que são verdadeiras aulas de História. Terminei de ver me perguntando o que, afinal, seria o fascismo. Utilizamos tanto essa palavra – fulano é fascista – que não sabemos mais se isso de fato corresponde ao seu verdadeiro sentido ou se virou apenas uma forma de xingamento. Uma breve pesquisa me levou a um texto que o filósofo Rodrigo S. Manzano publicou na Revista Filosofia, Ciência e Vida, em 2019. Ele diz: “De uma forma bem simples, o fascismo pode ser definido como uma teoria política autoritária, paradoxalmente excludente e inclusiva. Inclusiva pois prega um forte coletivismo, porém, de cunho diferente do que prega o marxismo. Não se trata de um coletivismo que tem por base atender às necessidades de todos, superando a desigualdade e a exploração de classes, mas um coletivismo que nega a luta de classes, pois para o bem de um povo, as diferenças devem ser deixadas de lado, inclusive as diferenças sociais, tendo por base um intenso conformismo ante a desigualdade social. E excludente pois historicamente os regimes fascistas elegem inimigos comuns, grupos considerados párias na sociedade, geralmente porque são sustentados pelo Estado. Ou usam o regime a seu favor, somente para os seus interesses e não para o bem da coletividade. Trata-se de uma teoria conservadora, no sentido de não propor mudanças estruturais voltadas ao desenvolvimento da sociedade”. É importante dizer que, apesar de sua pregação coletivista, o fascismo nada tem a ver com o socialismo ou o marxismo, uma vez que hoje difunde-se a ideia de o fascismo ser ‘de esquerda’. Na verdade, o fascismo surge justamente como um movimento radical de direita para conter o possível sucesso socialista de revoluções após a Revolução Russa de 1917, principalmente em uma Europa fragilizada pelo pós Primeira Guerra. Para quem quer se aprofundar nessa pesquisa, vi várias recomendações de leitura do livro “Fascismo Eterno” de Umberto Eco que trabalha o conceito de ‘Ur-fascismo’, que é mais elástico e abrangente para a caracterização do termo. Quanto ao seriado, li que o escritor do livro aqui retratado - Antonio Scurati - já escreveu e publicou mais três volumes sobre a vida de Mussolini: “M, O Homem da Providência” que cobre os anos de 1925 a 1932, explorando a consolidação do poder absoluto, a transformação da Itália em um Estado totalitário e o declínio físico do ditador; “M, Os Últimos Dias da Europa” que narra o período de 1938, abordando a aliança crescente entre Mussolini e Hitler, o antissemitismo do regime e a entrada catastrófica da Itália na Segunda Guerra Mundial; e, por fim, “M, A Hora do Destino” que retrata o envolvimento e as derrotas da Itália nas diversas frentes da Segunda Guerra. Então não é difícil que essa série venha a ter novas temporadas. Excelente.

22.6.26

"Bye Bye Brasil" - Cacá Diegues (Brasil, 1979)

Sinopse:
 
Salomé (Betty Faria), Lorde Cigano (José Wilker) e Andorinha (Príncipe Nabor) são três artistas ambulantes que cruzam o país juntamente com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. A eles se juntam o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e sua esposa Dasdô (Zaira Zambelli). A Caravana cruza a Amazônia até chegar a Brasília.
Comentário: Cacá Diegues (1940–2025), foi um roteirista, produtor, cineasta e escritor brasileiro. Um dos fundadores do movimento do Cinema Novo, Diegues participou de uma série de momentos distintos da história do cinema brasileiro, com uma obra que atravessou mais de 5 décadas de produção. “Bye Bye Brasil” (1979) é seu oitavo longa-metragem e o primeiro filme que vejo dele.
O site Wikipédia nos conta que “Bye Bye Brasil” narra a história de uma trupe de artistas mambembes, que roda com a Caravana Rolidei pelo interior do Brasil. O mágico Lorde Cigano (José Wilker), a 'rainha da rumba' Salomé (Betty Faria) e o homem-músculo Andorinha (Príncipe Nabor) chegam a uma cidadezinha do interior do Nordeste e encontram o sanfoneiro Ciço (Fábio Júnior) e sua mulher grávida, Dasdô (Zaira Zambelli). Esses se juntam à trupe e partem no caminhão para conhecer o país. Na cidade de Maceió, em Alagoas, Ciço vê o mar pela primeira vez; em um pequeno vilarejo, conhecem Zé da Luz (Jofre Soares), projecionista de filmes como “O Ébrio” (1946). Já no caminho para Altamira, no Pará, encontram índios que querem andar de avião e possuem rádios de pilha; em Altamira, perdem o caminhão em uma aposta, e Salomé tem de se prostituir. Em seguida, vão à zona de Belém, no Pará, brigam, separam-se e, por fim, reencontram-se em Brasília com Salomé e o Lorde Cigano, com novo caminhão, cheio de luzes, em direção a Rondônia.
No enredo, há ainda duas tramas importantes: o amor de Ciço por Salomé e o declínio de espectadores com a chegada da televisão. As antenas de TV, chamadas de 'espinhas de peixe' pela trupe, são o sinal da modernidade homogeneizante, que hipnotiza o público. A cena da população altamirense diante da televisão pública é real: foi vista pelo diretor durante viagem pelo interior de Alagoas, em 1973. Para o grupo de artistas, a sobrevivência é uma corrida contra o tempo, que se traduz em uma fuga pelo espaço. Sobre isso, o crítico de cinema David Neves (1938-1994) fala que “o Brasil é tão grande e desconhecido que o espaço vira tempo”.
A anacronia de índios portando rádios de pilha ou de televisores transmitindo apenas barras de cores em Altamira, pois o sinal televisivo não está presenta na cidade, é reforçada na canção-tema do filme: “Puseram uma usina no mar / Talvez fique ruim pra pescar / (...) No Tocantins / O chefe dos Parintintins / Vidrou na minha calça Lee”. Há uma contraposição constante entre arcaico e moderno, miséria e progresso, natural e artificial. Sobre isso, fala o diretor: “Botamos grua no sertão, traveling na Amazônia”. Além de máquinas importadas, a 'invasão' estrangeira é perceptível no título, no nome da caravana, nos dólares da fábrica flutuante de papel, na neve falsa caindo ao som de “White Christmas”. E também na música da discoteca em Belém, na novela “Dancing Days”, na interpretação do estadunidense Frank Sinatra para “Aquarela do Brasil” e na música-tema: ‘O Som é Que Nem os Bee Gees’; ‘Baby, Bye Bye’; ‘Eu Penso em Vocês Night and Day / Explica Que Tá Tudo Okay’.
Na época, alguns intérpretes do filme cobram do cineasta posicionamento mais crítico sobre o processo de modernização, na medida em que a essência capitalista predatória é avaliada como imutável.
O crítico Jairo Ferreira ataca o filme: “Diegues força a barra dessa esperança: seus personagens se arrumam na vida. Se adaptam ao sistema. ‘Bye bye’ parece um filme institucional”. Raquel Gerber tenta demonstrar a abordagem insuficiente da reação política de agentes sociais: “Diegues documenta o ‘crepúsculo de uma nação’ sem nunca discuti-lo a partir de novas formas vitais (...). O teatro de Diegues encena um encontro entre brancos, índios, um negro e as mulheres e desperdiça esse encontro”.
José Carlos Avellar (1936-2016), em posição conciliadora, admira “o que se passa lá no fundo da imagem”, sem impor-se ao olhar: o brinquedo na mão de um indiozinho, o cartaz da fábrica flutuante, a procissão na cidade seca, o casario à beira do rio, a floresta engolindo a estrada. Essa faceta documental do filme funciona como 'reflexo da realidade', e outro lado, que a ela se sobrepõe, “age como uma ficção, como algo ditado só pela emoção”, quase uma 'estorinha' de telenovela. Na metáfora do analista, o espectador tem a opção de ficar com um olho na TV e o outro na janela.
Avellar aponta o pragmatismo da obra de Diegues: o olho na janela persiste no desejo de captar a realidade brasileira, como o cinema novo, do qual Diegues é representante; o olho na TV assume os compromissos com o mercado, dos quais não se sai ileso. Um dos aparentes paradoxos – ou a 'atitude antropofágica da cultura brasileira', em conformidade com a temática do filme – é que, concomitantemente à crítica à televisão, o filme incorpora artistas e recursos simplificadores da narrativa televisiva. Além disso, é cofinanciado por Walter Clark, executivo da Rede Globo de Televisão, uma das criações do regime militar, segundo afirmação do próprio diretor.
“Bye Bye Brasil” consolida as discussões político-culturais que atravessam a década de 1970. A trilha sonora de Chico Buarque (1944) e Roberto Menescal (1937) também faz referência ao momento político e à contradição entre o moderno e o tradicional na cultura brasileira. Um ano antes da produção do filme, Diegues lança a polêmica sobre 'patrulhas ideológicas'. O diretor acusa alguns setores da esquerda de imporem, na redemocratização do país, 'um novo tipo de censura', uma 'espécie de autoritarismo cultural', em que se procura restaurar os anseios pré-golpe de 1964. O diretor reivindica pluralismo de pensamentos e pede para que enterrem a pedagogia revolucionária e a estética radical do cinema novo.
O longa torna-se o grande lançamento da Embrafilme, conquista vários prêmios em festivais nacionais e internacionais, repercute na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. O sucesso comercial está em sintonia com as declarações de Carlos Diegues: a devoção ao sofrimento, à razão e ao derrotismo deve ser substituída pelo prazer, pelo amor sem opressão e pela esperança no povo brasileiro do século XXI, para o qual o filme é dedicado.
O que disse a crítica 1: Frederico Franco do site Plano Crítico avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: "No final das contas, 'Bye Bye Brasil' torna-se um filme episódico pouco empolgante. As cidades visitadas pela caravana possuem seus próprios arcos narrativos que nascem tortos e terminam sem grandes conclusões. Por mais que a Caravana Rolidei siga seu caminho e veja de passagem as mudanças sociais do Brasil, seus personagens, por outro lado, não buscam deslocamento. Ou sequer são colocados frente a situações limítrofes. A caravana viaja enquanto sua tripulação para no tempo".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Mesmo após a dissolução do Cinema Novo, Cacá Diegues (um dos próceres do movimento) continuou dando voz e rosto aos que padecem à margem do progresso, expondo noutras chaves as mazelas de uma sociedade doente. Musicado pela virtuosa trilha sonora de Chico Buarque de Hollanda e Roberto Menescal, 'Bye Bye Brasil' guarda significâncias densas, extraídas de suas paisagens geográfica, social e afetiva. Possui rara beleza, não apenas por expor (no bom sentido) o sofrido povo tupiniquim, mas, sobretudo por fazê-lo graciosamente, tomado da incorrigível esperança dessa gente que, a despeito de todas as evidências, crê num sol capaz de nunca mais se pôr".
O que eu achei: Trata-se de um retrato singular de um país em transformação. Acompanhamos a Caravana Rolidei, formada por artistas mambembes como Lorde Cigano (José Wilker), Salomé (Betty Faria) e Andorinha (Príncipe Nabor), que cruzam o Brasil oferecendo números de mágica, dança, adivinhação e demonstrações de força enquanto tentam sobreviver em um cenário cada vez menos favorável ao seu ofício. A eles se juntam o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e Dasdô (Zaira Zambelli), casal de retirantes que passa a integrar essa jornada pelo interior do país. O road movie funciona como uma metáfora do choque entre tradição e modernidade. A caravana simboliza formas de entretenimento populares que começam a desaparecer diante do avanço da televisão, das antenas parabólicas e da cultura de massa. O Brasil rural, que durante décadas sustentou circos, cinemas itinerantes e trupes ambulantes, passa a consumir novelas, programas televisivos e música pop, alterando profundamente os hábitos da população. O percurso dos personagens também permite observar as contradições do chamado projeto de integração nacional promovido durante a ditadura militar. Ao atravessar regiões como a Amazônia e Altamira, o filme registra os efeitos da ocupação da fronteira amazônica impulsionada pela abertura da Transamazônica, antecipando discussões que décadas depois reapareceriam com a construção da usina de Belo Monte. O progresso surge como promessa, mas também como força capaz de apagar modos de vida e identidades culturais. A melancolia dessa transformação encontra eco na memorável canção-tema composta por Chico Buarque e Roberto Menescal. Menescal fez a música e Chico escreveu a letra – impecável como sempre - quando o filme já estava praticamente montado, incorporando imagens e situações vistas na moviola, como a chegada da televisão ao sertão e as mudanças provocadas pelas grandes obras de infraestrutura. Pode-se argumentar que falta ao longa uma crítica mais contundente ao contexto político da época. Ainda assim, sua força permanece intacta como documento histórico e cultural. Entre o humor, a aventura e a nostalgia, “Bye Bye Brasil” captura com rara sensibilidade um momento em que um país se despedia de um passado sem saber exatamente o que encontraria pela frente.

21.6.26

“Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola” - Rungano Nyoni (Irlanda/Reino Unido/EUA/Zâmbia, 2025)

Sinopse:
Dirigindo em uma estrada deserta no meio da noite, Shula (Susan Chardy) encontra um corpo, que acaba por descobrir ser de seu tio Fred (Roy Chisha). Ela parece mais chateada com o inconveniente do que triste com a descoberta. Quando os procedimentos para o funeral começam, com a reunião de todos os parentes, vêm à tona segredos e silêncios misteriosos dessa família de classe média da Zâmbia.
Comentário: Rungano Nyoni (1982) é uma cineasta e roteirista zambiana. São dela os curtas “20 Questions” (2009), “The List” (2009), “Mwansa the Great” (2011) e “Listen” (2014) e o longa “Eu Não Sou uma Bruxa” (2017). “Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola” (2025) é o primeiro filme que vejo dela.
Bedatri D. Choudhury do site Reverse Shot publicou: “Nos países africanos, onde as galinhas-d'angola são endêmicas, elas são frequentemente criadas como animais de estimação. As aves vasculham o esterco e se alimentam de carrapatos, larvas e outros parasitas, ajudando a manter o equilíbrio ecológico entre vida e morte, saúde e doença.
Em ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola’, de Rungano Nyoni - uma história sobre uma família zambiana de mulheres que lamenta a morte de um parente enquanto confronta o legado de abusos que ele deixa - a metáfora é bastante evidente.
A protagonista Shula (Susan Chardy) faz sua aparição vestida como Missy Elliott no videoclipe de ‘The Rain’ - um macacão preto volumoso e um capacete cravejado de joias, combinados com óculos escuros. Quando ela tira os óculos para ligar para o pai, sua sombra dourada brilha no escuro. ‘Encontrei o corpo do tio Fred na Kulu Road’, ela diz a ele com a maior seriedade. Seu pai, visivelmente bêbado, não lhe oferece nenhuma ajuda, o que estabelece o tom da masculinidade inepta, porém tagarela, que veremos ao longo do filme.
As mulheres - todas irmãs do falecido, tias e mães de Shula e suas primas - rapidamente iniciam os rituais de luto, recorrendo a uma tradição secular, seguindo um protocolo rigoroso por um período determinado antes que a vida volte ao normal. Elas se jogam no chão, lamentam, envergonham Shula por não chorar, repreendem a jovem viúva de Fred (interpretada por Norah Mwansa) por não chorar o suficiente, enquanto discutem os assuntos de outras mulheres e navegam pelas fotos do Facebook. Elas cozinham, limpam, preparam-se para o funeral enquanto os homens apenas sentam e fazem os pedidos do jantar: alguém quer mais carne, outro quer mais molho.
Lembro-me do estado de Rajasthan, no oeste da Índia, e da prática de famílias de castas superiores contratarem mulheres para lamentar, chamadas rudaali. Como é considerado inadequado para mulheres de famílias de castas superiores demonstrar luto em voz alta em público, as rudaalis, todas mulheres de castas inferiores, são contratadas para chorar e lamentar em voz alta em nome da família. Representar o luto, em diferentes regiões da diáspora, é essencialmente um trabalho feminino, e sua natureza específica é ditada pela classe social e pela casta. A família de Shula é nitidamente de classe alta e, portanto, todo o luto, praticado por suas mulheres, precisa necessariamente proteger a ‘honra’ da família. A família da viúva, de posição social inferior, nunca pode demonstrar luto ‘corretamente’. Quando ela não chora, é considerada insensível. Quando chora, é comparada a uma vaca e a um mosquito.
Como logo descobrimos, todos na família sabem que o tio Fred era um abusador em série muito odiado, que violentou Shula e suas duas primas, Nsansa (Elizabeth Chisela) e Bupe (Esther Singini), quando eram crianças. Mas essa é uma verdade dificilmente enfrentada. Em meio ao luto performático, Nsansa questiona por que a família continua a lamentá-lo. As práticas de luto das mulheres mais velhas tornam-se menos um meio de mitigar a dor do presente do que uma ferramenta para negar o passado e perpetuar e manter o mito de uma família unida e feliz. A performance do luto se transforma em uma supressão que alimenta a conspiração do silêncio. Com a morte de Fred, a geração mais jovem vivencia um luto devastador e complexo que não pode ser aplacado por rituais. Ao mesmo tempo, elas lamentam uma infância para sempre alterada por um ato de violência, enquanto tentam manter a convenção social que o luto coletivo dita. De certa forma, elas também lamentam por suas mães e por toda uma geração que constantemente e impotente acredita em uma falácia. Shula, Nsansa e Bupe também lamentam a perda de um senso de identidade, pois a morte alterou para sempre suas vidas e a maneira como interagem.
‘Sobre Tornar-se uma Galinha d’Angola’ é um filme complexo, cujas camadas são tão densas que seriam impenetráveis ​​não fosse o talento de Nyoni para o humor negro, as imagens fantásticas e sua raiva fervilhante contra um patriarcado que cooptou as mulheres para serem suas soldados rasas. Nyoni conta a história com uma seriedade constante - o corpo do tio aparece na escuridão sem qualquer preparação. Em outra cena, Shula e Nsansa encontram Bupe desmaiada, aparentemente após uma tentativa de suicídio, em seu quarto no dormitório, e o chão está alagado. O espectador não é levado a saber de onde veio a água; o que importa é que o interior do dormitório parece um útero do qual essas três mulheres reemergem, renascidas para uma nova fase de suas vidas, livres do espectro ameaçador de Fred.
Por mais que os rituais busquem trazer um senso de encerramento à experiência da perda, o próprio ato de luto permanece complexo e doloroso no filme de Nyoni. Ao mesmo tempo sufocante - com a casa se enchendo de multidões em prantos e as mulheres tentando alimentar os convidados - e libertador, a performance do luto finalmente permite que Shula e suas primas tenham o tempo e o espaço para falar sobre antigas feridas.
A estudiosa de gênero e filósofa Judith Butler, escrevendo após a epidemia de AIDS, afirmou ‘sobre minorias de gênero e sexuais’ que ‘nós, como comunidade, estamos sujeitos à violência, mesmo que alguns de nós não a tenham sofrido diretamente’. Em seus trabalhos posteriores, Butler expande essa ideia de comunidade para incluir minorias políticas e questiona o que torna certos tipos de vidas dignos de luto em comparação com as mortes que prontamente aceitamos e superamos.
O que ou quem é lamentado é uma questão que também pode surgir quando olhamos para a família de Shula. É o abusador que é lamentado, e não os anos de trauma que as sobreviventes suportaram. O luto resultante de Shula e suas primas por suas perdas acumuladas é o que, segundo Butler, torna alguém vulnerável, mas de uma forma muito pública – ‘ao mesmo tempo assertiva e visada’. A saída para um luto como esse, onde ‘uma ‘recuperação’ completa é impossível’, é através da formação de uma nova agência política, diz Butler. Essa agência, em ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d’Angola’, surge do parentesco que as primas formam, não influenciado por suas idades ou diferenças em suas personalidades, mas fortalecido pela complexa perda que compartilham.
Shula e suas primas se apropriam da cozinha - o centro da vida doméstica tradicional e da feminilidade - e criam um espaço para sentar, beber, fumar e, principalmente, confraternizar. As mães e tias que povoam o mundo fora desse canto da cozinha mantêm um silêncio sagrado, recusando-se a confrontar o fato de que seu irmão falecido havia abusado sexualmente de suas filhas. Mas o canto da cozinha se torna um espaço onde esse silêncio é rompido, histórias são compartilhadas e conhecimento é adquirido. Esse espaço liminar de parentesco se torna tão perigoso para o status quo que as mães conspiram para chantagear emocionalmente as primas mais novas até que elas quase sucumbam.
A família, unida por um silêncio forçado e pela negação do passado, explode em fúria e raiva apenas quando seus membros encontram os familiares da viúva. A devassidão do falecido é atribuída à falta de amor da viúva; sua família pede desculpas pela vergonha que ela lhes causou. São solicitados a pagar uma indenização para compensar as falhas da viúva - uma quantia que só podem arcar parcialmente. Vestidas de seda e pérolas, as tias de Shula desenterram o trauma para provar que a viúva não merece nada da herança de Fred. As mesmas mulheres que negavam o passado agora o utilizam para alimentar sua disputa mercenária, que atinge o ápice quando ambos os lados começam a brigar por cobertores e outros pertences insignificantes.
Em meio à cacofonia selvagem, ouvimos o grito de uma galinha-d'angola ao longe. Isso me lembra uma cena antiga em que Shula, ainda adolescente, assiste a um episódio de Farm Club, um programa infantil educativo em que os jovens apresentadores ensinavam seus telespectadores sobre a vida selvagem africana. As galinhas-d'angola são criaturas falantes, dizem eles; gritam para alertar os outros membros do bando sobre perigos iminentes. Seus bicos vasculham a sujeira, pescando parasitas que adoecem os humanos, alimentando-se da imundície para purificar o mundo da maldade.
O sobrenatural em ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d’Angola’ é apresentado sem qualquer alarde. Bupe é hospitalizado, mas se recupera em poucos minutos, aparecendo em dois lugares ao mesmo tempo; mulheres se transformam em pássaros e grasnam de raiva; mães irrompem em uma canção em meio ao choro. Embora muitos críticos possam ser tentados a definir o filme como ‘realismo mágico’, devemos reconhecer que o conceito tem sido continuamente mal interpretado e mal utilizado por críticos e jornalistas ocidentais, que por décadas o usaram como um termo genérico para tramas complexas e não lineares que nem sempre se encaixam nas estruturas narrativas de três atos.
Tanto em ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d’Angola’ quanto em ‘Eu Não Sou Uma Bruxa’, filme anterior de Nyoni, as mulheres são incumbidas de trabalhar arduamente e trazer normalidade a um mundo desequilibrado, optando por buscar outros planos de existência para forjar laços e formar comunidades. O ato de equilibrar o pessoal e o sociofamiliar torna-se tão avassalador que os filmes só podem transgredir o reino do humano. Ao rejeitar os limites da sociedade humana e sua crueldade, as mulheres de Nyoni encontram a libertação. Pode parecer mágica, mas é tudo muito real, conquistado através do trabalho árduo e das lágrimas”.
“Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola” lhe rendeu o prêmio de Melhor Direção - Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2024.
O que disse a crítica 1: Marcio Sallem do Cinema com Crítica avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “A narrativa tem a chancela da A24, que, hoje em dia, parece-me uma informação relevante a ser incluída em um texto crítico, e uma abordagem de uma temática até recorrente dentro do cinema contemporâneo, mas realizada por um ângulo original e envolvente. Como disse, é igual à areia movediça, logo quando pisamos, não somos mais capazes de sair sem a ajuda de alguém do lado de fora, e isto fala muito (...) sobre o poder deste drama”.
O que disse a crítica 2: Monica Castillo do site Rober Ebert deu o equivalente a 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “‘Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola’ é um filme desconfortável, mas fascinante, uma homenagem ao rompimento do silêncio em torno de segredos de família e à transgressão da tradição em nome da empatia. Nyoni e o diretor de fotografia David Gallego evocam sonhos e drama com igual facilidade e eficácia. Gallego, que anteriormente filmou obras deslumbrantes como ‘O Abraço da Serpente’, ‘Pássaros de Verão’ e "Eu Não Sou Uma Bruxa’, borra a linha entre realidade e percepção para imergir o público na experiência de Shula. Se cada mulher no filme é forçada a tomar uma decisão com o conhecimento que possui, o público também deve decidir por si mesmo como ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola’ o afetará na próxima vez que presenciar seus familiares em erro”.
O que eu achei: “Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola” é a tradução para o português do título “On Becoming a Guinea Fowl”, um filme que se passa na Zâmbia e é falado em inglês e no idioma local bemba. A trama começa quando uma jovem zambiana retorna de uma festa à fantasia e encontra, no meio da estrada, o corpo de seu tio Fred. A partir daí, iniciam-se os rituais de luto que reúnem seus familiares com presença majoritariamente feminina. Se, por um lado, as mulheres mais velhas lamentam e reverenciam a morte de Fred, por outro, as mais jovens são obrigadas a confrontar o legado de abusos que ele deixa para trás. É nesse contexto que a metáfora presente no título se revela. As galinhas d’angola são aves silvestres endêmicas da África Subsaariana que vivem em bandos e desempenham um papel importante no equilíbrio ecológico. Como passam boa parte do tempo ciscando o chão e o esterco em busca de alimento, ajudam a eliminar larvas, insetos e carrapatos. O filme faz algo semelhante: quanto mais revira esse mar de lama familiar, mais expõe as larvas, insetos e carrapatos que são os atos cometidos por Fred. A diretora investiga os conflitos entre tradição, religião e trauma geracional, revelando a hipocrisia de preservar e homenagear alguém que não merece respeito algum. O que está em jogo não é apenas a violência em si, mas a forma como ela é normalizada, ocultada e perpetuada pelas mesmas pessoas que deveriam combatê-la. O horror do filme nasce justamente dessa indiferença coletiva. Mas existe ainda outra característica das galinhas d’angola que torna o título especialmente preciso. Elas possuem um instinto extremamente vigilante e funcionam como um verdadeiro sistema de alarme natural. Ao perceberem a aproximação de predadores ou invasores, emitem gritos altos e estridentes, alertando todo o grupo. Vivendo em bandos, cercam a ameaça e produzem um alvoroço coletivo capaz de afastar o perigo. “On Becoming a Guinea Fowl” é, em última instância, sobre isso. Sobre mulheres que sofreram abusos em silêncio, sem jamais alertarem umas às outras sobre os perigos que existiam dentro da própria família. E sobre a necessidade urgente de romper esse silêncio. Excelente pedida.

15.6.26

"Ben-Hur" - William Wyler (EUA, 1959)

Sinopse:
Ben-Hur (Charlton Heston) é um mercador judeu que, após um desentendimento, é condenado a viver como escravo por um amigo de juventude, Messala (Stephen Boyd), que é o chefe das legiões romanas da cidade. Mas uma surpreendente oportunidade de vingança surge de onde ele menos espera.
Comentário: Trata-se do filme número 83 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "'Ben-Hur' é um filme grande sob todos os aspectos. Além das suas três horas e meia de duração, os números de produção impressionam ainda hoje. O orçamento total foi de US$ 15 milhões (o longa mais caro já feito, até então), e a bilheteria, de mais de US$ 70 milhões só nos Estados Unidos, tirou a MGM do buraco. Foram utilizados 100 mil figurinos e 300 sets construídos. A emblemática cena da corrida de bigas exemplifica o espírito grandioso: sua filmagem durou três meses e exigiu a presença de 8 mil extras em uma arena construída em um ano, ao custo de US$ 1 milhão. Uma meticulosidade típica de William Wyler, por anos tido injustamente como um diretor sem personalidade; um artesão, não um autor. A história da vingança do escravo Ben-Hur (Charlton Heston, que ganhou o papel após recusa de Burt Lancaster e Paul Newman) contra seu traidor e ex-amigo Messala (Stephen Boyd), cheia de referências bíblicas e à vida de Cristo, foi adaptada do romance homônimo do general americano Lew Wallace. Até a versão final, 40 roteiros diferentes foram trabalhados (um dos roteiristas não-creditados é o escritor Gore Vidal). O filme detém até hoje o recorde de 11 estatuetas do Oscar, número só igualado por 'Titanic' (1997) e pela terceira parte da trilogia 'O Senhor dos Anéis' (2003). Entre os prêmios, o de Melhor Ator, Diretor, Fotografia, Montagem e Efeitos Especiais. Fora a influência que exerceu sobre praticamente todos os épicos feitos posteriormente, de 'Spartacus' (1960) a 'Gladiador' (2000)".
O que eu achei: Trata-se da adaptação do livro "Ben-Hur: Uma História dos Tempos de Cristo", escrito pelo general e autor americano Lew Wallace e publicado originalmente em 1880. O filme, com 3h32m de duração, conta a história de Judah Ben-Hur, um príncipe e rico comerciante judeu. Sua vida muda drasticamente com o retorno para a cidade de seu amigo de infância, o romano Messala, que agora é o novo comandante militar da região. Por conta de seu cargo, Messala exige que Ben-Hur denuncie os judeus que se opõem ao Império Romano, mas Ben-Hur se recusa a trair seu povo e a forte amizade logo se transforma em rivalidade. Por conta de um acidente doméstico que quase mata o governador, Ben-Hur, com um empurrãozinho de Messala, é condenado à escravidão nas galés (navios de guerra) e sua mãe e irmã são presas. Mas o mundo dá voltas e Ben-Hur terá a oportunidade de retornar à Judeia e se vingar de Messala numa corrida de bigas. O subtítulo do livro original - Uma História dos Tempos de Cristo - reflete o pano de fundo do filme. Jesus Cristo aparece em momentos cruciais da vida de Ben-Hur, dando água a ele, pregando nos campos, ou mesmo sendo julgado e crucifixado. Mas o personagem Ben-Hur nunca existiu de fato. Ele é 100% fictício, tendo sido inserido num cenário político real que foi o Império Romano, juntamente com figuras históricas que realmente existiram como o próprio Jesus, o governador romano Pôncio Pilatos e o imperador Tibério César. É daqueles filmes grandiosos, não só no tempo de duração como também nos cenários - a arena da corrida de bigas, por exemplo, ocupava 73 hectares, tinha arquibancadas de 5 andares e usou mais de 40 mil toneladas de areia branca trazida do Mediterrâneo -; um mar de figurantes e milhares de figurinos, além do orçamento astronômico. Ganhou 11 Oscars, incluindo Melhor Trilha Sonora para o compositor húngaro Miklós Rózsa, não vencendo justamente na categoria Melhor Roteiro Adaptado. Uma curiosidade é que essa versão clássica de 1959, com direção de William Wyler, estrelada por Charlton Heston, não foi a primeira e nem a última. O livro de Lew Wallace foi adaptado para o cinema mudo em 1907 e 1925, e ainda ganhou um novo remake em 2016. Não é o estilo de filme que eu prefiro ver, mas vale pela curiosidade.

14.6.26

"A Garota Canhota" - Shih-Ching Tsou (Taiwan/França/EUA/Reino Unido, 2025)

Sinopse:
Uma mãe solteira (Janel Tsai) e suas duas filhas (Nina Ye e Ma Shih-Yuan) retornam a Taipei após anos vivendo no interior para abrir uma barraca em um movimentado mercado noturno. Mas quando o avô tradicional (Akio Chen) proíbe sua neta mais nova, canhota, de usar sua “mão do diabo”, segredos de família transmitidos por gerações começam a vir à tona.
Comentário: Shih-Ching Tsou é uma produtora cinematográfica taiwanesa-americana, colaboradora de longa data de Sean Baker. "A Garota Canhota" (2025) é seu primeiro longa como diretora, onde ela também fica responsável pela produção e pelo roteiro. Sean Baker entra como corroteirista, produtor e editor.
Edipo Pereira do site Cosmo Nerd nos conta que "O cinema de Shih-Ching Tsou retorna com força em 'A Garota Canhota' (2025), longa que marca sua estreia solo na direção após anos de colaboração com Sean Baker - vencedor do Oscar por 'Anora'. O novo filme, coescrito por ambos, estreou em festivais internacionais e chega (...) apresentando uma história sobre sobrevivência, afeto e resiliência feminina ambientada nas ruas de Taipei.
A trama acompanha Shu-Fen (Janel Tsai) e suas filhas, I-Ann (Shih-Yuan Ma) e I-Jing (Nina Yeh), enquanto tentam recomeçar a vida na capital taiwanesa. Após se mudar para Taipei, Shu-Fen abre uma barraca de macarrão em um movimentado mercado noturno, mas enfrenta as dificuldades de sustentar duas filhas sozinha e de lidar com os próprios pais, que vivem próximos.
A filha mais velha, I-Ann, abandonou a escola e trabalha vendendo noz de betel, em um ambiente hostil e machista. Já a pequena I-Jing, curiosa e imaginativa, tenta compreender o mundo ao seu redor e desafia as superstições do avô, que considera sua canhotice um sinal negativo.
A rotina dessas três mulheres é atravessada por questões de classe, tradição e independência - temas que Shih-Ching Tsou retrata com sensibilidade e naturalismo.
Desde 'Take Out' (2004), seu primeiro trabalho em parceria com Sean Baker, Tsou vem explorando personagens à margem, retratando a solidariedade e o calor humano que emergem mesmo nas condições mais duras. Em 'A Garota Canhota', essa abordagem reaparece com força. Cada personagem enfrenta obstáculos pessoais, mas a diretora mostra como pequenos gestos de bondade e amor tornam possível suportar as adversidades.
O roteiro alterna as perspectivas das três protagonistas (...), permitindo que cada jornada ganhe peso próprio. Shu-Fen representa a exaustão materna diante da pressão econômica; I-Ann vive o conflito entre liberdade e responsabilidade; e I-Jing, com seu olhar infantil, traduz o espírito de descoberta que permeia o filme. Essa estrutura reforça a ideia de que, apesar das gerações e das diferenças, todas compartilham o mesmo desejo de encontrar um lugar no mundo.
Filmado com iPhone, o longa se destaca pelo impacto visual. Tsou utiliza as luzes de néon de Taipei e as cores vibrantes dos mercados noturnos para compor uma estética que combina realismo e lirismo. A cidade surge como um personagem vivo, repleta de sons, cheiros e movimento, refletindo tanto o caos urbano quanto a ternura dos vínculos familiares".
O que disse a crítica 1: Francisco Carbone do Cenas de Cinema avaliou com 1,5 estrelas, ou seja, sofrível. Segundo ele, tirando o fato da atriz mirim Nina Ye, de 9 anos, ser uma imensa atriz, o filme é basicamente um remake da obra "Projeto Flórida" do Sean Baker. Além disso ele achou "a construção dos personagens adultos carregada de incômodos, estereótipos e idiotices que nos fazem afastar de qualquer maior contato com a obra, por mais saborosa que seja sua forma. Em vários momentos, tudo não se distancia de um dramalhão mexicano dos anos 90, incluindo vários acessos de orgulho inexplicável, e uma condução de maternidade que nunca avança para além do questionável. Egoísmo em doses cavalares não são características pouco ricas para preencher um personagem, mas quando tais amarrações fazem perder o sentido do todo, é que já passou do momento onde a coerência pode ser dispensada. Mais um valor que o filme não consegue abrir mão são dos valores ocidentais de molde cinematográfico, a começar pelo uso estridente de trilha sonora".
O que disse a crítica 1: Giancarlo Galdino da Revista Bula avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "As agruras das três [mãe e filhas] ganham tintas mais ou menos sombrias, que ficam mais evidentes depois que Shu-Fen [recebe uma notícia bombástica sobre seu ex-marido]. As reações da mãe e da filha mais velha I-Ann são diametralmente opostas, ideia que Tsou faz crescer numa cena tão despretensiosa quanto vívida, dando a Janel Tsai e Ma Shih-yuan farto material para garantir o excelente padrão até o desfecho".
O que eu achei: Trata-se de um longa dirigido pela cineasta taiwanesa-americana Shih-Ching Tsou, colaboradora de longa data de Sean Baker que entra aqui como corroteirista, produtor e editor. Há muito de Sean Baker no filme. Em primeiro lugar ele foi filmado com um iPhone, assim como ele fez em Tangerine (2015). Outra semelhança diz respeito à trama que lembra muito seu filme “Projeto Flórida” (2017) no qual uma garotinha de seis anos vive com a mãe numa hospedagem de beira de estrada e as duas contam com a proteção do gerente desse hotel na batalha diária pela sobrevivência com poucos recursos. Neste temos uma garotinha de nove anos que se muda para Taipei com sua mãe e irmã. A mãe abre uma barraca de macarrão no mercado noturno, enquanto a irmã consegue um emprego como vendedora de nozes. Quem vai ajudá-las nessa luta pela sobrevivência é o vizinho de barraca da mãe. Ocorre que a garotinha de nove anos é canhota, algo mal-visto pelo seu avô que logo explicita a superstição de que canhotos carregam a 'mão do diabo'. Uma breve pesquisa mostrou que, de fato, essa superstição existe. Começou no ocidente mas logo foi absorvida por sociedades tradicionais asiáticas. A própria diretora revelou em entrevistas que a cena do avô repreendendo a neta foi baseada em sua própria experiência real de infância já que quando tinha 14 anos seu avô a censurou rigidamente ao vê-la segurar uma faca com a mão esquerda, repetindo o mito de que aquela era a mão do demônio. Claro que essa crença afeta profundamente a criança, que passa a enxergar sua própria mão esquerda como responsável por impulsos que ela não controla, como executar pequenos furtos ou ser responsável pela morte acidental de seu animal de estimação. A menina chega a amarrar a mão com um pano, tentando evitar que ela 'aja sozinha'. Apesar da premissa interessante o filme não consegue desenvolver de forma satisfatória os conflitos que apresenta. A ideia de uma criança que internaliza uma superstição a ponto de atribuir à própria mão esquerda uma espécie de vontade maligna abre espaço para uma investigação psicológica rica, mas o roteiro prefere apenas sugerir essas questões sem aprofundá-las. Também falta unidade narrativa. O filme alterna entre a história da garota, as dificuldades financeiras da mãe, a adaptação da família à vida em Taipei e os problemas da irmã mais velha, mas raramente consegue integrar esses elementos em um conjunto coeso. O resultado é um filme simpático, mas que acaba parecendo uma versão menos inspirada dos trabalhos que claramente o influenciaram.