
Comentário: Kelly Reichardt (1964) é uma diretora de cinema, montadora e roteirista americana. Seus filmes são caracterizados por narrativas sutis, planos longos e atenção delicada ao cotidiano dos personagens. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas do cinema independente americano. Assisti dela o ótimo “First Cow - A Primeira Vaca da América” (2019). Desta vez vou conferir “The Mastermind” (2025).
O site Wikipédia publicou: “Reichardt nutria um fascínio de longa data por roubos de arte e colecionava recortes de jornais sobre esses roubos há anos. Ela observou que, na década de 1970, era relativamente fácil roubar arte e que o roubo no Museu Isabella Stewart Gardner aconteceu porque havia ‘viciados em ácido trabalhando na segurança’.
Ela foi especificamente inspirada pelo roubo de 1972 no Museu de Arte de Worcester, em Massachusetts, no qual dois Gauguins, um Picasso e um Rembrandt foram roubados. Ela começou a trabalhar no filme depois de ler sobre o 50º aniversário do roubo em Worcester. Ela explicou: ‘Sou fascinada por pessoas que roubam arte e pela ideia de levar algo de um espaço público para apreciar sozinho, como as pessoas que tinham o de Kooning em seu quarto. Em vez de todos apreciarem a pintura, será apenas você atrás da porta do seu quarto’.
Embora muitos filmes de Reichardt sejam filmados no noroeste do Pacífico, Reichardt ambientou o filme em Massachusetts porque ela frequentou a escola de arte no estado e sentiu que o roteiro fazia sentido ambientado por lá.
O cenário do filme destaca o declínio da contracultura dos anos 1960. Reichardt disse que mudou a data do assalto de 1972 para 1970 porque os personagens precisavam descobrir o que vem a seguir como país, porque no final dos anos 1960, com toda essa coisa de liberdade desenfreada não estava funcionando. Além disso, a narrativa do filme faz paralelos com as narrativas não convencionais da Nova Hollywood dos anos 1970 que eram povoadas por anti-heróis excêntricos.
Vivendo em um subúrbio confortável e sem o risco de ser convocado, JB tem o luxo de não estar sintonizado com o clima político, embora a realidade permaneça logo à margem do quadro. Ela observou que JB estava se rebelando contra sua vida de classe média sem uma ideia clara de qual seria a alternativa e sem pensar aproveita-se de seu privilégio sempre que está em apuros ou sempre que precisa.
A rebeldia descontrolada de JB se relaciona a um tema comum em Reichardt, o indivíduo versus a pessoa em uma comunidade. Assim como ‘Pickpocket’ (1959), de Robert Bresson, o filme é estruturado como uma exploração de um pecador, por que ele peca e sofre as consequências desses pecados. Reichardt disse que o filme era em parte sobre o custo da liberdade pessoal, explicando que ser capaz de ser um fora da lei é como se fosse um privilégio e que JB depende das mulheres em sua vida para carregar o peso de suas travessuras. Ela acrescentou que o filme questiona se uma pessoa pode realmente permanecer separada do que está acontecendo ao seu redor.
A escolha de JB sobre quais obras de arte roubar reflete seus gostos pessoais, e não a maximização do lucro. O'Connor disse que há uma espécie de ego envolvido nisso: ‘Vou roubar os artistas que só os verdadeiros artistas conhecem’. No filme, JB rouba quatro pinturas reais de Arthur Dove: ‘Tree Forms’ (1932), ‘Willow Tree’ (1937), ‘Tanks & Snowbanks’ (1938) e ‘Yellow, Blue-Green and Brown’ (1941). No entanto, ele perde a chance de roubar pinturas mais famosas, algumas das quais estão na National Gallery of Art de Washington DC, como ‘Street in Venice’ de John Singer Sargent, ‘Child in a Straw Hat’ de Mary Cassatt, ‘Niagara’ de Frederic Edwin Church e ‘The Voyage of Life: Youth’ de Thomas Cole. A Artnet explicou que, embora Dove fosse ‘um artista respeitado cujas obras estão em alguns dos maiores museus da América, a única maneira de ele virar notícia na imprensa de arte hoje seria se alguém encenasse um roubo de suas obras’. Reichardt observou que mesmo na década de 1970, Dove não era o artista mais popular, e que ela gostou de como o foco de JB em Dove diminui os riscos e era mais adequado para o tamanho do filme e as ambições deste personagem’.”
O que disse a crítica 1: Peter Bradshaw do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O último filme de Kelly Reichardt, por coincidência, também era sobre arte: ‘Showing Up’, com Michelle Williams como uma artista estressada cuja existência cotidiana (o banal ato de ‘aparecer’) se mostra mais real do que o suposto fervor da inspiração artística. Ali, os detalhes do dia a dia eram tão relevantes quanto a arte; em ‘The Mastermind’, os detalhes sombrios da calamidade pós-assalto são tão pertinentes quanto o evento principal. É isso que atrai o olhar observador de Reichardt e torna ‘The Mastermind’ tão silenciosamente envolvente”.
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: O cinema de Kelly Reichardt “coloca-se à margem, para melhor digerir e dispor essas vidas que se passam, também, às bordas da sociedade oficial. Mas é dali mesmo que, efetuando um recuo de mais de 50 anos, descobre um país dividido. Isto é, por outras palavras (ou imagens), Reichardt evoca outro momento de fratura profunda dos Estados Unidos, talvez mais decisiva ainda do que aquela dos tempos do Vietnã. Ou sejamos claros, muito mais consequente e brilhante do que seu pobre anti-herói, Reichardt continua a levar adiante sua obra bela e transgressiva”.
O que eu achei: O filme acompanha JB Mooney, um carpinteiro desempregado e pai de família que decide roubar quatro pinturas abstratas de um museu na Nova Inglaterra, em plena Guerra do Vietnã. O título "The Mastermind" - que na tradução para o português seria "O Mestre da Mente" - atua como uma ironia afiada e uma desconstrução do tradicional filme de assalto, pois ele remete ao 'mentor' do crime, o cérebro que está por trás de tudo, àqueles supergênios dos assaltos do cinema hollywoodiano. O mentor aqui é um ladrão amador sem preparo, incapaz de formular estratégias complexas. A diretora Kelly Reichardt, famosa pelo seu cinema minimalista (slow cinema), utiliza o roubo apenas como um ponto de partida. O foco do longa não é a execução brilhante do crime em si, mas sim um estudo cômico e social sobre a alienação, o individualismo e a mediocridade do personagem, que se vê perdido e em fuga após perceber que roubar a arte foi a parte mais fácil de seu 'plano'. A fotografia sóbria e a reconstituição dos anos 1970 reforçam esse clima de desencanto, enquanto Josh O’Connor - que interpreta o protagonista - entrega uma atuação cheia de hesitações, silêncios e pequenos gestos que revelam um homem comum tentando sustentar uma fantasia de grandeza. Reichardt observa JB sem glamour e sem julgamentos fáceis: ele é ao mesmo tempo ridículo, egoísta, frágil e estranhamente humano. O que mais funciona em “The Mastermind” é justamente essa recusa em transformar o protagonista em um anti-herói carismático. O filme desmonta o mito do criminoso genial e mostra alguém incapaz de compreender as consequências dos próprios atos, cercado por um país em ebulição política e social. O resultado pode frustrar quem espera um thriller de assalto convencional, mas recompensa o espectador disposto a entrar no ritmo particular da cineasta. É um filme contido, inteligente e irônico, que encontra humanidade até mesmo na figura de um criminoso medíocre, mostrando que o verdadeiro desastre não está no roubo das pinturas, mas na ilusão de que um homem comum pode se tornar extraordinário apenas porque decidiu cometer um crime. Há muita atualidade nisso.
O site Wikipédia publicou: “Reichardt nutria um fascínio de longa data por roubos de arte e colecionava recortes de jornais sobre esses roubos há anos. Ela observou que, na década de 1970, era relativamente fácil roubar arte e que o roubo no Museu Isabella Stewart Gardner aconteceu porque havia ‘viciados em ácido trabalhando na segurança’.
Ela foi especificamente inspirada pelo roubo de 1972 no Museu de Arte de Worcester, em Massachusetts, no qual dois Gauguins, um Picasso e um Rembrandt foram roubados. Ela começou a trabalhar no filme depois de ler sobre o 50º aniversário do roubo em Worcester. Ela explicou: ‘Sou fascinada por pessoas que roubam arte e pela ideia de levar algo de um espaço público para apreciar sozinho, como as pessoas que tinham o de Kooning em seu quarto. Em vez de todos apreciarem a pintura, será apenas você atrás da porta do seu quarto’.
Embora muitos filmes de Reichardt sejam filmados no noroeste do Pacífico, Reichardt ambientou o filme em Massachusetts porque ela frequentou a escola de arte no estado e sentiu que o roteiro fazia sentido ambientado por lá.
O cenário do filme destaca o declínio da contracultura dos anos 1960. Reichardt disse que mudou a data do assalto de 1972 para 1970 porque os personagens precisavam descobrir o que vem a seguir como país, porque no final dos anos 1960, com toda essa coisa de liberdade desenfreada não estava funcionando. Além disso, a narrativa do filme faz paralelos com as narrativas não convencionais da Nova Hollywood dos anos 1970 que eram povoadas por anti-heróis excêntricos.
Vivendo em um subúrbio confortável e sem o risco de ser convocado, JB tem o luxo de não estar sintonizado com o clima político, embora a realidade permaneça logo à margem do quadro. Ela observou que JB estava se rebelando contra sua vida de classe média sem uma ideia clara de qual seria a alternativa e sem pensar aproveita-se de seu privilégio sempre que está em apuros ou sempre que precisa.
A rebeldia descontrolada de JB se relaciona a um tema comum em Reichardt, o indivíduo versus a pessoa em uma comunidade. Assim como ‘Pickpocket’ (1959), de Robert Bresson, o filme é estruturado como uma exploração de um pecador, por que ele peca e sofre as consequências desses pecados. Reichardt disse que o filme era em parte sobre o custo da liberdade pessoal, explicando que ser capaz de ser um fora da lei é como se fosse um privilégio e que JB depende das mulheres em sua vida para carregar o peso de suas travessuras. Ela acrescentou que o filme questiona se uma pessoa pode realmente permanecer separada do que está acontecendo ao seu redor.
A escolha de JB sobre quais obras de arte roubar reflete seus gostos pessoais, e não a maximização do lucro. O'Connor disse que há uma espécie de ego envolvido nisso: ‘Vou roubar os artistas que só os verdadeiros artistas conhecem’. No filme, JB rouba quatro pinturas reais de Arthur Dove: ‘Tree Forms’ (1932), ‘Willow Tree’ (1937), ‘Tanks & Snowbanks’ (1938) e ‘Yellow, Blue-Green and Brown’ (1941). No entanto, ele perde a chance de roubar pinturas mais famosas, algumas das quais estão na National Gallery of Art de Washington DC, como ‘Street in Venice’ de John Singer Sargent, ‘Child in a Straw Hat’ de Mary Cassatt, ‘Niagara’ de Frederic Edwin Church e ‘The Voyage of Life: Youth’ de Thomas Cole. A Artnet explicou que, embora Dove fosse ‘um artista respeitado cujas obras estão em alguns dos maiores museus da América, a única maneira de ele virar notícia na imprensa de arte hoje seria se alguém encenasse um roubo de suas obras’. Reichardt observou que mesmo na década de 1970, Dove não era o artista mais popular, e que ela gostou de como o foco de JB em Dove diminui os riscos e era mais adequado para o tamanho do filme e as ambições deste personagem’.”
O que disse a crítica 1: Peter Bradshaw do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O último filme de Kelly Reichardt, por coincidência, também era sobre arte: ‘Showing Up’, com Michelle Williams como uma artista estressada cuja existência cotidiana (o banal ato de ‘aparecer’) se mostra mais real do que o suposto fervor da inspiração artística. Ali, os detalhes do dia a dia eram tão relevantes quanto a arte; em ‘The Mastermind’, os detalhes sombrios da calamidade pós-assalto são tão pertinentes quanto o evento principal. É isso que atrai o olhar observador de Reichardt e torna ‘The Mastermind’ tão silenciosamente envolvente”.
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: O cinema de Kelly Reichardt “coloca-se à margem, para melhor digerir e dispor essas vidas que se passam, também, às bordas da sociedade oficial. Mas é dali mesmo que, efetuando um recuo de mais de 50 anos, descobre um país dividido. Isto é, por outras palavras (ou imagens), Reichardt evoca outro momento de fratura profunda dos Estados Unidos, talvez mais decisiva ainda do que aquela dos tempos do Vietnã. Ou sejamos claros, muito mais consequente e brilhante do que seu pobre anti-herói, Reichardt continua a levar adiante sua obra bela e transgressiva”.
O que eu achei: O filme acompanha JB Mooney, um carpinteiro desempregado e pai de família que decide roubar quatro pinturas abstratas de um museu na Nova Inglaterra, em plena Guerra do Vietnã. O título "The Mastermind" - que na tradução para o português seria "O Mestre da Mente" - atua como uma ironia afiada e uma desconstrução do tradicional filme de assalto, pois ele remete ao 'mentor' do crime, o cérebro que está por trás de tudo, àqueles supergênios dos assaltos do cinema hollywoodiano. O mentor aqui é um ladrão amador sem preparo, incapaz de formular estratégias complexas. A diretora Kelly Reichardt, famosa pelo seu cinema minimalista (slow cinema), utiliza o roubo apenas como um ponto de partida. O foco do longa não é a execução brilhante do crime em si, mas sim um estudo cômico e social sobre a alienação, o individualismo e a mediocridade do personagem, que se vê perdido e em fuga após perceber que roubar a arte foi a parte mais fácil de seu 'plano'. A fotografia sóbria e a reconstituição dos anos 1970 reforçam esse clima de desencanto, enquanto Josh O’Connor - que interpreta o protagonista - entrega uma atuação cheia de hesitações, silêncios e pequenos gestos que revelam um homem comum tentando sustentar uma fantasia de grandeza. Reichardt observa JB sem glamour e sem julgamentos fáceis: ele é ao mesmo tempo ridículo, egoísta, frágil e estranhamente humano. O que mais funciona em “The Mastermind” é justamente essa recusa em transformar o protagonista em um anti-herói carismático. O filme desmonta o mito do criminoso genial e mostra alguém incapaz de compreender as consequências dos próprios atos, cercado por um país em ebulição política e social. O resultado pode frustrar quem espera um thriller de assalto convencional, mas recompensa o espectador disposto a entrar no ritmo particular da cineasta. É um filme contido, inteligente e irônico, que encontra humanidade até mesmo na figura de um criminoso medíocre, mostrando que o verdadeiro desastre não está no roubo das pinturas, mas na ilusão de que um homem comum pode se tornar extraordinário apenas porque decidiu cometer um crime. Há muita atualidade nisso.








