
Comentário: Martin Scorsese (1942) é um diretor de cinema norte-americano. Dentre os vários filmes que já assisti deles estão a obra-prima "Os Bons Companheiros" (1990) e os excelentes “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980), “Cabo do Medo” (1991), “Gangues de Nova York” (2002), "Os Infiltrados" (2006), "Ilha do Medo" (2009) e “Assassinos da Lua das Flores” (2023). Vi também três documentários: "No Direction Home: Bob Dylan" (2005), "Rolling Stones - Shine a Light" (2007) e "Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese" (2019). Desta vez vou conferir "O Rei da Comédia" (1982).
Luiz Eduardo Luz do site Canto dos Clássicos nos conta que: "Quando realizou 'O Rei da Comédia' (The King Of Comedy, 1983), o lendário cineasta Martin Scorsese já havia passado por muita coisa em sua vida pessoal e profissional. Em pouco mais de uma década, consolidou-se como um dos expoentes da Nova Hollywood e uma das vozes mais fortes na mudança de paradigma que ocorreu na indústria no início dos anos 70, principalmente no que se refere ao tratamento de temas como violência e sexo, anteriormente tratados como tabus.
Depois de dirigir o aclamado 'Taxi Driver' em 1976, o jovem nova-iorquino, nascido e criado em uma fervorosa família de imigrantes italianos católicos, acabou sucumbindo ao alcoolismo. Durante os anos seguintes, mesmo continuando a produzir, ameaçou parar de trabalhar várias vezes. Em 1980, seu grande amigo Robert De Niro levou o projeto de 'Touro Indomável' (1980) para sua análise. Scorsese concordou em dirigir o filme, e, por muitas vezes, disse que seria seu último. O sucesso do filme levou o artista a largar a bebida e voltar de vez ao mundo do cinema.
Dois anos depois, a dupla se reuniria outra vez em 'O Rei da Comédia'. O filme mostra um Scorsese especialmente tranquilo e descompromissado, em uma divertida e provocante análise sobre o mundo do show business – e seu lado obscuro. De Niro interpreta Rupert Pupkin, um comediante fracassado e totalmente obcecado por seu ídolo, Jerry Langford, interpretado pelo icônico gênio da comédia Jerry Lewis. Pupkin imita Langford no modo de vestir, no jeito de andar e até no estilo que em faz suas piadas. Numa noite, Pupkin dá um jeito de entrar na limusine do astro para lhe pedir ajuda com a carreira.
Depois desse acontecimento, Scorsese estabelece um jogo narrativo com o espectador. Alternando sequências em que Pupkin é apadrinhado e ajudado por Langford com outras em que o jovem é constantemente ignorado e evitado pelo ídolo, o diretor nunca nos dá certeza do que é real e do que é sonho, do que é o que realmente está acontecendo ou do que é sonhado pelo problemático Pupkin. Depois da alternância entre os dois tipos de narrativa, Scorsese, sabendo que tem o espectador na mão, dá-se o direito de brincar com a expectativa criada para as próximas cenas. Quando esperamos uma cena da realidade, vem uma ilusória, e vice versa.
No decorrer do filme, a obsessão de Pupkin pela fama vai se tornando cada vez mais perigosa. A cada nova rejeição de Langford, o protagonista fica mais empenhado em fazer sucesso como comediante. A resiliência de Rupert culmina com o sequestro de Jerry, parte de um elaborado plano que busca colocar Pupkin no topo da comédia nacional.
'O Rei da Comédia' não é o que normalmente vemos da dupla Scorsese/De Niro. Não na superfície, pelo menos, pois a comédia de humor negro traz, no fundo, muitos dos temas recorrentes tratados na filmografia do mestre. Ambição, poder e notoriedade são algumas das temáticas mais importantes de 'O Rei da Comédia', e também podem ser encontrados em inúmeros clássicos do diretor, como 'Os Bons Companheiros' (1990), 'Cassino' (1995) e 'O Lobo de Wall Street' (2013), por exemplo".
O que disse a crítica 1: Roger Ebert em seu site avaliou com o equivalente a 3,75, ou seja, ficou entre o muito bom e o ótimo. Escreveu: "'O Rei da Comédia' não é, como você já deve ter adivinhado, um filme divertido. Também não é um filme ruim. É frustrante de assistir, desagradável de lembrar e, à sua maneira, bastante eficaz".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Em mãos menos hábeis, 'O Rei da Comédia' poderia ter virado uma comédia de humor negro, sempre procurando o riso fácil através do incomum. Aqui isto não acontece. Há algumas risadas, é claro, mas é só. E mesmo assim elas vêm durante os 'delírios' de Pupkin, sempre exageradamente narcisistas. Scorsese não quer fazer rir. Ele procura a reflexão".
O que eu achei: Dirigido por Martin Scorsese, o filme é uma sátira afiada e desconcertante sobre o desejo de fama e as ilusões do show business, temas que, décadas depois, permanecem assustadoramente atuais. A trama acompanha Rupert Pupkin, interpretado pelo sempre excelente Robert De Niro, um aspirante a comediante que vive à margem do sucesso, alimentando fantasias de reconhecimento e prestígio. Convencido de seu talento, ele acredita que só precisa de uma chance para conquistar o público, ainda que essa ‘chance’ precise ser obtida a qualquer custo. O alvo de sua obsessão é um famoso apresentador de talk show vivido por Jerry Lewis, em um raro e surpreendente papel dramático. Lewis entrega uma atuação contida e melancólica, funcionando como contraponto perfeito à energia inquietante de De Niro. Scorsese conduz a narrativa com precisão, equilibrando humor e desconforto. O riso aqui é sempre ambíguo: ao mesmo tempo em que algumas situações são genuinamente engraçadas, há um incômodo crescente ao perceber o abismo entre a percepção de Rupert e a realidade. O filme expõe, com ironia cruel, a linha tênue entre ambição e delírio, talento e compulsão. Além de criticar o mundo do entretenimento, “O Rei da Comédia” é um estudo perturbador sobre a necessidade de validação e os perigos de confundir notoriedade com realização pessoal. Sem excessos, sem falhas aparentes e com atuações impecáveis, o filme me pareceu um dos trabalhos mais refinados e inquietantes da filmografia de Scorsese. Uma obra que, de tão precisa, beira a perfeição. Atenção à rápida aparição de membros da banda The Clash na cena em que os personagens Rupert Pupkin (Robert De Niro) e Masha (Sandra Bernhard) discutem na rua. É possível ver Joe Strummer, Mick Jones e Paul Simonon, junto com seu empresário Kosmo Vinyl.
Depois de dirigir o aclamado 'Taxi Driver' em 1976, o jovem nova-iorquino, nascido e criado em uma fervorosa família de imigrantes italianos católicos, acabou sucumbindo ao alcoolismo. Durante os anos seguintes, mesmo continuando a produzir, ameaçou parar de trabalhar várias vezes. Em 1980, seu grande amigo Robert De Niro levou o projeto de 'Touro Indomável' (1980) para sua análise. Scorsese concordou em dirigir o filme, e, por muitas vezes, disse que seria seu último. O sucesso do filme levou o artista a largar a bebida e voltar de vez ao mundo do cinema.
Dois anos depois, a dupla se reuniria outra vez em 'O Rei da Comédia'. O filme mostra um Scorsese especialmente tranquilo e descompromissado, em uma divertida e provocante análise sobre o mundo do show business – e seu lado obscuro. De Niro interpreta Rupert Pupkin, um comediante fracassado e totalmente obcecado por seu ídolo, Jerry Langford, interpretado pelo icônico gênio da comédia Jerry Lewis. Pupkin imita Langford no modo de vestir, no jeito de andar e até no estilo que em faz suas piadas. Numa noite, Pupkin dá um jeito de entrar na limusine do astro para lhe pedir ajuda com a carreira.
Depois desse acontecimento, Scorsese estabelece um jogo narrativo com o espectador. Alternando sequências em que Pupkin é apadrinhado e ajudado por Langford com outras em que o jovem é constantemente ignorado e evitado pelo ídolo, o diretor nunca nos dá certeza do que é real e do que é sonho, do que é o que realmente está acontecendo ou do que é sonhado pelo problemático Pupkin. Depois da alternância entre os dois tipos de narrativa, Scorsese, sabendo que tem o espectador na mão, dá-se o direito de brincar com a expectativa criada para as próximas cenas. Quando esperamos uma cena da realidade, vem uma ilusória, e vice versa.
No decorrer do filme, a obsessão de Pupkin pela fama vai se tornando cada vez mais perigosa. A cada nova rejeição de Langford, o protagonista fica mais empenhado em fazer sucesso como comediante. A resiliência de Rupert culmina com o sequestro de Jerry, parte de um elaborado plano que busca colocar Pupkin no topo da comédia nacional.
'O Rei da Comédia' não é o que normalmente vemos da dupla Scorsese/De Niro. Não na superfície, pelo menos, pois a comédia de humor negro traz, no fundo, muitos dos temas recorrentes tratados na filmografia do mestre. Ambição, poder e notoriedade são algumas das temáticas mais importantes de 'O Rei da Comédia', e também podem ser encontrados em inúmeros clássicos do diretor, como 'Os Bons Companheiros' (1990), 'Cassino' (1995) e 'O Lobo de Wall Street' (2013), por exemplo".
O que disse a crítica 1: Roger Ebert em seu site avaliou com o equivalente a 3,75, ou seja, ficou entre o muito bom e o ótimo. Escreveu: "'O Rei da Comédia' não é, como você já deve ter adivinhado, um filme divertido. Também não é um filme ruim. É frustrante de assistir, desagradável de lembrar e, à sua maneira, bastante eficaz".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Em mãos menos hábeis, 'O Rei da Comédia' poderia ter virado uma comédia de humor negro, sempre procurando o riso fácil através do incomum. Aqui isto não acontece. Há algumas risadas, é claro, mas é só. E mesmo assim elas vêm durante os 'delírios' de Pupkin, sempre exageradamente narcisistas. Scorsese não quer fazer rir. Ele procura a reflexão".
O que eu achei: Dirigido por Martin Scorsese, o filme é uma sátira afiada e desconcertante sobre o desejo de fama e as ilusões do show business, temas que, décadas depois, permanecem assustadoramente atuais. A trama acompanha Rupert Pupkin, interpretado pelo sempre excelente Robert De Niro, um aspirante a comediante que vive à margem do sucesso, alimentando fantasias de reconhecimento e prestígio. Convencido de seu talento, ele acredita que só precisa de uma chance para conquistar o público, ainda que essa ‘chance’ precise ser obtida a qualquer custo. O alvo de sua obsessão é um famoso apresentador de talk show vivido por Jerry Lewis, em um raro e surpreendente papel dramático. Lewis entrega uma atuação contida e melancólica, funcionando como contraponto perfeito à energia inquietante de De Niro. Scorsese conduz a narrativa com precisão, equilibrando humor e desconforto. O riso aqui é sempre ambíguo: ao mesmo tempo em que algumas situações são genuinamente engraçadas, há um incômodo crescente ao perceber o abismo entre a percepção de Rupert e a realidade. O filme expõe, com ironia cruel, a linha tênue entre ambição e delírio, talento e compulsão. Além de criticar o mundo do entretenimento, “O Rei da Comédia” é um estudo perturbador sobre a necessidade de validação e os perigos de confundir notoriedade com realização pessoal. Sem excessos, sem falhas aparentes e com atuações impecáveis, o filme me pareceu um dos trabalhos mais refinados e inquietantes da filmografia de Scorsese. Uma obra que, de tão precisa, beira a perfeição. Atenção à rápida aparição de membros da banda The Clash na cena em que os personagens Rupert Pupkin (Robert De Niro) e Masha (Sandra Bernhard) discutem na rua. É possível ver Joe Strummer, Mick Jones e Paul Simonon, junto com seu empresário Kosmo Vinyl.









