27.7.26

“Sobre Cavalos e Homens” - Benedikt Erlingsson (Islândia/Alemanha/Noruega, 2013)

Sinopse:
 Em um vale isolado da Islândia, a vida da pequena comunidade gira em torno dos cavalos. Por meio de uma série de histórias interligadas, o filme acompanha homens, mulheres e seus animais em situações diversas.
Comentário: Benedikt Erlingsson (1969) é um ator e diretor de teatro e cinema islandês. Ele dirigiu dois longas-metragens - “Sobre Cavalos e Homens” (2013) e “Um Mulher em Guerra” (2018 - ambos vencedores do Prêmio de Cinema do Conselho Nórdico. “Sobre Cavalos e Homens” (2013) é o primeiro filme que vejo dele.
Hernandes Matias Junior do site Românticos Radicais publicou “O cineasta islandês Benedikt Erlingsson nos transporta para as paisagens geladas e grandiosas da Islândia rural, tecendo uma série de vinhetas interligadas que revelam a complexa relação entre o homem e o cavalo. A narrativa se desenrola através de diversos episódios, cada um focado em um morador de uma pequena comunidade e seu vínculo, por vezes terno, por vezes brutal, com os animais que são tanto parceiros de trabalho quanto símbolos de orgulho e status. Desde o drama de um cavaleiro cuja égua o humilha publicamente, até a saga de um homem que busca uma égua perdida cruzando mares, a obra desvela as idiossincrasias e as paixões que movem esses indivíduos em um ambiente onde a natureza dita as regras.
A película de Erlingsson distingue-se por sua capacidade de fundir o sublime e o ridículo, o trágico e o cômico, sem jamais suavizar a crueza da existência. Os cavalos, mais do que simples coadjuvantes, emergem como seres de dignidade própria, suas interações com os humanos muitas vezes refletindo e magnificando a própria condição humana em sua forma mais crua. Há uma observação perspicaz sobre a hierarquia social local, as disputas por território e afeto, e os rituais que cimentam (ou fraturam) a comunidade. A beleza estonteante da paisagem islandesa serve como um pano de fundo implacável, lembrando-nos constantemente da força indomável do ambiente.
A genialidade de ‘Sobre Cavalos e Homens’ reside na sua abordagem direta, quase documental, mas imbuída de uma sensibilidade que capta a essência da vida em sua dimensão mais primordial. Não há floreios narrativos desnecessários; a câmera registra os eventos com uma clareza desarmante, permitindo que a comédia surja do absurdo das situações e que a tragédia se instale sem aviso. A película explora como os impulsos mais básicos – amor, ciúme, fúria, lealdade – se manifestam em um cotidiano moldado pela proximidade com a vida selvagem. É um exame sem julgamento da interdependência entre as espécies, onde a sobrevivência e a honra são guiadas por uma lógica que transcende as convenções urbanas. A obra celebra uma forma de vida em que a natureza selvagem e os instintos animais persistem, definindo as ações e o destino de seus habitantes”.
O que disse a crítica 1: Peter Bradshaw do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Erlingsson se aproxima dos cavalos de uma forma íntima e pessoal, de uma maneira sincera e romântica, em vez de erótica ou irônica; em particular, ele utiliza (...) planos fechados que permitem apreciar a textura e a sensação da pele do animal – claramente o trabalho de um conhecedor. É uma história de amor sobre cavalos, com cavalos, quase como um filme mudo com palavras. Os cavalos são a linguagem que permite aos personagens humanos se comunicarem. Este filme merece seu status de cult”.
O que disse a crítica 2: Camilla Møhring Reestorff do site Lola também gostou. Escreveu: “Isso pode parecer uma narrativa simples, trágica e cômica sobre a preservação da natureza e dos cavalos islandeses, mas é um reflexo mais complexo da conectividade global”.
O que eu achei: Que filme lindo este “Sobre Cavalos e Homens” (2013) do Benedikt Erlingsson! Ele mostra uma pequena comunidade na Islândia que tem uma ligação profunda com os cavalos, contando diferentes histórias dos moradores desse vale que se misturam umas com as outras. Dentre as tramas há um cortejo de um homem que vai visitar uma viúva por quem está interessado e a visita é interrompida por um cavalo que resolve cruzar com uma égua; um alcoólatra que resolve fazer seu cavalo nadar pelo mar congelante apenas para comprar álcool de um marinheiro; uma guerra entre vizinhos por conta da instalação de arames farpados que bloqueia rotas de cavalgada antigas; um turista perdido na nevasca e outras diversas. Todas contadas através de uma observação antropológica, com um humor peculiar e cenas viscerais que retratam amor, morte e a natureza selvagem, muitas vezes através dos olhos dos próprios equinos. Além das histórias gostosas de acompanhar, a fotografia é um deslumbre pois mostra a exuberante paisagem local recheada com esses lindos cavalos islandeses, resultando numa combinação de encher os olhos. A última cena que mostra a reunião do outono é maravilhosa pois retrata o tradicional round-up anual, conhecido na Islândia como Réttir. É o momento em que toda a comunidade se junta para reunir os cavalos que passaram o verão soltos nas montanhas, misturando homens e animais em um grande clímax visual. Li que o diretor, apesar de ter origem urbana – ele nasceu e cresceu em Reykjavík - é um apaixonado criador de cavalos islandeses e frequenta o meio rural desde a infância. Ele próprio define o filme como uma colagem de ‘histórias de bastidores’ que ouviu ou testemunhou ao longo de décadas frequentando fazendas e conversando com fazendeiros locais. Apesar disso, os moradores retratados no filme não são pessoas comuns daquela região, mas sim um elenco composto por atores profissionais, sendo que quase todos já sabiam andar a cavalo perfeitamente, o que é muito comum na cultura do país. O resultado é fruto de uma observação afiada de alguém que conhece intimamente os costumes daquela comunidade, mas que mantém o distanciamento necessário para satirizar suas excentricidades. Quem tiver interesse em ver pode procurar o longa pelo seu título original – “Hross í oss” – ou buscar por nomes como “Horses and Men”, “Cavalos e Homens”, “Sobre Cavalos e Homens” ou mesmo “Corações de Cavalos”. Um filme marcante e digno de aplausos. Excelente.

26.7.26

“A História do Som” - Oliver Hermanus (EUA/Reino Unido/Suécia/Itália, 2025)

Sinopse:
Em 1917, um jovem e talentoso estudante de música chamado Lionel (Paul Mescal) conhece David (Josh O'Connor) no Conservatório de Boston, onde eles se aproximam pelo profundo amor que compartilham pela música folk popular. Anos depois, Lionel recebe uma carta de David, que os leva a uma viagem improvisada pelo interior do Maine para coletar canções folk tradicionais.
Comentário: Oliver Hermanus (1983) é um cineasta e escritor sul-africano. Ele estreou em longas-metragens com “Shirley Adams” (2009). “Beleza” (2011) fez sua première mundial na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes e ganhou a Queer Palm. Assisti dele apenas o mediano “Viver” (2022). Desta vez vou conferir “A História do Som” (2025).
Jonathan Wright do site History Extra publicou: “No início do século XX, munidos de equipamentos de gravação inovadores, folcloristas e etnomusicólogos partiram em expedições de coleta de canções pelos Estados Unidos. Seu trabalho documentou músicas que, de outra forma, poderiam ter se perdido ou se alterado ao longo das gerações. Jonathan Wright analisa esse trabalho e conversa com Oliver Hermanus, diretor de ‘A História do Som’, sobre as inspirações da história real que nortearam o filme.
O romance de época ‘A História do Som’ centra-se na relação entre dois músicos, Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O'Connor). A dupla inicia um caso no Conservatório de Música da Nova Inglaterra em 1917, mas as suas vidas divergem com a entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial. David é convocado para lutar na Frente Ocidental. Lionel, cuja visão deficiente o impede de servir no exército, regressa à modesta quinta da sua família no Kentucky.
Após o conflito, os homens se reencontram para uma viagem pelo Maine, visitando casas rurais para gravar canções folclóricas em cilindros de cera para fonógrafo – às vezes chamados de cilindros Edison, em homenagem ao inventor Thomas Edison (1847–1931). (...) O drama também aborda questões de classe, repressão, oportunidades perdidas, luto e a maneira como todos nós viajamos no tempo através de nossas próprias histórias pessoais, de modo que, para citar o diretor Oliver Hermanus, às vezes nos encontramos ‘tendo conversas do passado em nossas cabeças’.
A veracidade emocional do drama é sustentada pela pesquisa dos cineastas sobre o início do século XX – e, mais especificamente, sobre o trabalho daquelas almas corajosas que se propuseram a documentar a música tradicional que ouviam em barracos, varandas e ao redor de fogueiras.
Mas será que ‘A História do Som’ é baseada em fatos reais? E Lionel e David existiram de verdade?
Não, ‘A História do Som’ não é uma história verídica – é baseada no conto homônimo de Ben Shattuck, de 2018 – no entanto, Lionel, interpretado por Paul Mescal, e David, interpretado por Josh O'Connor, são figuras historicamente plausíveis, apesar de ambos serem personagens fictícios. A partir do século XIX, homens e mulheres de ambos os lados do Atlântico ficaram fascinados pela tradição folclórica e se dedicaram a catalogar canções, primeiro compilando letras e anotando melodias, e mais tarde fazendo gravações.
E quem eram esses pesquisadores da vida real?
No Reino Unido, o nome mais importante na área foi Cecil Sharp (1859–1924). Entre suas muitas realizações, Sharp, entusiasta da dança Morris, foi cofundador da Sociedade Inglesa de Dança Folclórica. Esta, posteriormente, fundiu-se com a Sociedade de Canções Folclóricas para formar a Sociedade Inglesa de Dança e Canções Folclóricas (EFDSS), sediada na Cecil Sharp House em Camden, Londres, que permanece um centro para aqueles que pesquisam música folclórica. Sharp também coletou canções nos Estados Unidos, nas Montanhas Apalaches. No entanto, é a família Lomax que está mais associada à coleta de canções nos EUA. Foi John Lomax (1867–1948) quem trouxe Lead Belly (1889–1949) à atenção do público em geral, após ouvir a lenda do folk-blues durante uma visita à Penitenciária Estadual da Louisiana, uma prisão notória mais conhecida como Angola. Lomax foi uma figura fundamental na criação do Arquivo de Canções Folclóricas Americanas (Airfile of American Folk Song), a primeira coleção nacional de música folclórica do país. Os filhos de John, Alan (1915–2002), John Jr. (1907–74) e Bess Lomax Hawes (1921–2009), também foram folcloristas importantes. Alguns colecionadores americanos se especializaram em locais específicos. Vários nomes estão particularmente associados ao Maine, onde David e Lionel coletam material em ‘A História do Som. Entre eles, Fannie Hardy Eckstorm (1865–1946), que documentou a música e a cultura dos trabalhadores e dos nativos americanos Penobscot, e o pioneiro das gravações de campo Robert Winslow Gordon (1888–1961), nascido em Bangor, Maine, e o primeiro diretor do Arquivo de Canções Folclóricas Americanas.
Por que esse trabalho foi importante?
Gerações de músicos se beneficiaram de seu trabalho. O que ficou conhecido como o Renascimento da Música Folk Americana começou na década de 1940. Além de Lead Belly, figuras importantes do início desse movimento incluem Woody Guthrie (1912–67), que em 1940 escreveu ‘This Land is Your Land’ como uma resposta ao que ele considerava o patriotismo exacerbado de ‘God Bless America’, de Irving Berlin, e o incansável ativista Pete Seeger (1919–2014). Muitas figuras do movimento de revitalização musical estavam associadas à política de esquerda. Os violões de Guthrie, na década de 1940, traziam a inscrição: ‘Esta máquina mata fascistas’. Seeger entrou para a lista negra durante a era McCarthy. Na década de 1960, outra geração assumiu o legado, que havia sido metaforicamente deixado nos cafés de Manhattan. Talvez seja um exagero sugerir que, sem os colecionadores de canções, não teríamos tido Joan Baez ou Bob Dylan, mas as carreiras desses artistas, e nossa história cultural compartilhada, teriam sido muito diferentes”.
O que disse a crítica 1: Diego Souza Carlos do site Adoro Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Ainda que o filme não se decida entre o relacionamento dos garotos, a função deles em meio ao período histórico e as reverberações da música dentro e fora de suas vidas, ‘A História do Som’ fica no caminho dos quereres. A intenção está ali, mas há um sentimento constante de distanciamento entre os objetos temáticos e os personagens. Assim como Lionel parece estar sempre em busca de si mesmo, o longa acompanha o protagonista numa crise com sons tão encantadores quanto passageiros”.
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “Os atores estão muito dedicados aos seus papéis. Existe certo encantamento em encontrar dois dos nomes mais importantes da nova geração, juntos, no ápice de sua forma, em composições avessas ao sentimentalismo fácil. Nenhum dos dois se entrega a ‘cenas de Oscar’: apesar de inúmeros motivos para chorarem, e se fervilharem de amor, eles mantêm uma aparência serena ao longo desta jornada transformadora. (Este foi mais um motivo, aliás, para se alegar indiferença por parte da direção). No único choro digno deste nome, a câmera se afasta, deixando o ator se expressar de maneira quase imperceptível ao espectador. Nunca somos convidados a temer por eles, ou nos apiedar sobre eles. ‘A História do Som’ constitui praticamente o anti-‘O Segredo de Brokeback Mountain’ dos amores campestres entre sujeitos enrustidos. Onde o filme de Ang Lee era pura catarse, Hermanus deixa o grito preso na garganta”.
O que eu achei: O longa conta a história de Lionel (Paul Mescal), um menino que morava com seus pais numa fazenda em Kentucky, nos EUA, cujo pai tinha o hábito de cantar canções tradicionais e folclóricas da região enquanto trabalhava ou cuidava dele. Seu pai foi o primeiro a notar que Lionel tinha um ‘dom de Deus’: a capacidade cinestésica de enxergar os sons em cores, cheiros e formas. Ele incentivou a sensibilidade musical do filho desde cedo fazendo com que, anos mais tarde, Lionel ingressasse no prestigiado Conservatório de Música de Boston para estudar canto. É num bar frequentado pelos alunos que ele conhece David (Josh O'Connor) com quem ele inicia um pequeno romance. Ocorre que anos mais tarde David consegue um emprego em uma universidade e escreve uma carta para Lionel convidando-o para se juntar a ele em um projeto de pesquisa financiado pela instituição. Equipados com um fonógrafo Edison e cilindros de cera, eles partem numa viagem para registrar as vozes e canções tradicionais das comunidades locais. Meu interesse por esse filme veio mais por conta desse projeto do que pela história de amor. Os tais cilindros de cera - desenvolvidos por Thomas Edison - foram a primeira mídia comercial do mundo capaz de registrar e reproduzir o som humano de forma prática. No período em que o filme se passa (1919), era o que existia para fazer gravações de campo. Apesar do filme ser uma história fictícia, podemos ter uma ideia de como se dava essa prática de coleta de canções que deu início à etnomusicologia. Na vida real, pesquisadores faziam justamente isso: levavam o fonógrafo e os cilindros para locais isolados e registravam canções folclóricas de tradição oral. Era uma corrida contra o tempo para salvar a cultura popular e as vozes de comunidades rurais antes que fossem apagadas pela modernidade e pela urbanização pós-Primeira Guerra. Dentre folcloristas de renome podemos citar Cecil Sharp (1859–1924), John Lomax (1867–1948), seus filhos Alan (1915–2002), John Jr. (1907–74) e Bess Lomax Hawes (1921–2009), Fannie Hardy Eckstorm (1865–1946) e Robert Winslow Gordon (1888–1961). Mas não podemos deixar de lembrar do brasileiro Mário de Andrade (1893-1945) que, em 1938, idealizou e enviou a Missão de Pesquisas Folclóricas para o Norte e Nordeste do país, para fazer esse trabalho. Na época, ele era diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. A Missão foi a campo com uma equipe liderada pelo arquiteto e urbanista Luiz Saia. Eles passaram por estados como Pernambuco (onde registraram o frevo, maracatus e cocos), Paraíba (cantorias de viola e rituais locais), Maranhão (Tambor de Crioula e Bumba Meu Boi) e Pará (onde coletaram manifestações amazônicas e indígenas). Ao invés de usar cilindros de cera, como vemos no filme, a Missão utilizou uma pesada máquina de gravação que cravava o som diretamente em discos de acetato e alumínio de 78 RPM, além de fazer filmagens, fotos e anotações. Todo esse importantíssimo trabalho está sob a guarda do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e já foi digitalizado, servindo de base para estudos no mundo inteiro. Com relação ao filme em si, ele é bem arrastado. O que salva, além do tema, é a excelente fotografia, o trabalho de áudio que é genial e o final que redime o filme de qualquer defeito que ele possa ter. Vale ter uma certa paciência e seguir até o fim por conta do ótimo desfecho.

21.7.26

“Clark” – Jonas Åkerlund (Suécia, 2022)

Sinopse:
Esta é a história de Clark Olofsson (Bill Skarsgård), o criminoso controverso que inspirou o termo "Síndrome de Estocolmo". Baseada nas verdades e mentiras contadas por ele.
Comentário: A minissérie possui 6 episódios. O site Aventuras na História publicou: “Com a ilustre atuação de Bill Skarsgård, o público conhece a história (...) de Clark Olofsson, homem responsável por um sequestro que originou o que identificamos hoje como ‘Síndrome de Estocolmo’, ou seja, quando a vítima desenvolve um vínculo com o sequestrador. Vale destacar, no entanto, que a série é baseada na autobiografia do criminoso, sendo assim marcada por verdades e mentiras, como repercute o Express. Fato é que na década de 1960, Olofsson iniciou uma saga que o tornaria um dos mais insólitos criminosos da Suécia.
Contudo, o que ganha destaque na série da Netflix é o assalto que ele participou em 1970, em Estocolmo, e que não acabou tendo um resultado positivo. Na Praça Norrmalmstorg, foi iniciado o episódio que fez com que Clark fosse tirado da cadeia e levado para o banco, como uma das condições impostas por Jan Olsson, um dos nomes envolvidos no crime, conforme repercutido pela BBC em 2016. Diante dos desdobramentos, os reféns, em um episódio inusitado, acabaram desenvolvendo simpatia pelos sequestradores, o que resultou no que conhecemos hoje como ‘Síndrome de Estocolmo’.
Após a série da Netflix, muitos devem se perguntar onde se encontra Clark Olofsson, 49 anos após o crime que entrou para a História. Bom, o Express repercute que ele tem atualmente 75 anos e mora na Bélgica, seu destino após ser tirado de trás das grades. Antes de voltar a vida normal, o INews relata que Clark foi absolvido por envolvimento no episódio, pois, conseguiu argumentar que fora capaz de atuar na tentativa de manter os reféns com vida. Em seguida, ele foi levado de volta à prisão, pois, teria que cumprir o que sobrou de sua sentença original.
Todavia, se engana quem imagina que o criminoso se arrependeu do passado: ele escapou da prisão de Norrköping, realizou assalto a um banco de Copenhague e fugiu. Conseguiu passar um ano longe da captura das autoridades, contudo, fora detido e precisou encarar oito anos de prisão.
O Express também explica que, até o ano de 2012, Clark se encontrava na prisão de Saltvki, Härnösand, antes de ser transferido para a prisão de Kumla. Uma das tentativas para reverter a condenação se deu em 2013, através da solicitação de um novo julgamento, contudo, não teve sucesso.
Outro desdobramento do caso se deu em 2016, quando foi levado para a prisão de Vorst, na Bélgica. Já em 2018, segundo o Express, tentou negociar a possibilidade da liberdade condicional. No mesmo ano, ele foi libertado e passou a viver na Bélgica”. Ele faleceu em 2025 com a idade de 78 anos.
O que eu achei: A minissérie conta a história do criminoso sueco Clark Olofsson (1947-2025), considerado o primeiro 'gângster celebridade' da Suécia. Intercalando presente e passado, conhecemos sua infância marcada por um pai alcoólatra, uma mãe com graves problemas psiquiátricos e um ambiente de extrema pobreza e violência doméstica, que levou Clark e suas irmãs a serem enviados para lares adotivos. Determinado a fugir dessa realidade, Clark ingressou numa escola de marinheiros e, aos 15 anos, falsificou a assinatura da mãe para embarcar num navio que o levou a conhecer o mundo. Mais tarde, a família voltou a viver reunida em Gotemburgo, mas isso não foi suficiente para afastá-lo da criminalidade. Aos 16 anos já estava num reformatório. Depois vieram roubos, assaltos, condenações e sucessivas fugas, inclusive de presídios de segurança máxima. A fama mundial veio em 1973, durante o assalto ao banco Kreditbanken, em Estocolmo. Cercado pela polícia, o assaltante Jan Erik Olsson fez quatro funcionários reféns e exigiu, além de dinheiro, um carro e a presença de seu amigo Clark, que estava preso. Clark foi solto e levado para o local. Durante seis dias de negociações aconteceu algo inesperado: os reféns passaram a simpatizar com os sequestradores. Foi desse episódio que surgiu o termo Síndrome de Estocolmo. Ao contrário dos criminosos comuns, Clark cultivava a imagem de um anti-herói carismático. Jovem, bem-vestido e consciente do poder da imprensa, dava entrevistas sorrindo e transformou a própria trajetória criminosa em espetáculo. A mídia sueca, por sua vez, alimentou esse mito porque Clark vendia jornais como ninguém. Com classificação indicativa para maiores de 16 anos, com muitas cenas de violência e sexo, a série é bem-feita, anárquica e irreverente. Como foi baseada na autobiografia de Clark e não se pode acreditar que tudo que está no livro é verdade, a série também toma algumas liberdades e mistura realidade e ficção. Se há algum problema aqui ele não está na produção, mas no próprio personagem. É preciso ter um certo estômago para acompanhar um sujeito desprezível, sem escrúpulos, arrogante e abusado sendo tratado como um badboy irresistível, com a mídia e as mulheres aos seus pés. Eu até gostei da série, mas confesso que já não via a hora dela terminar. Ainda bem que só tem seis episódios.

20.7.26

“A Igualdade é Branca” - Krzysztof Kieslowski (França/Suíça/Polônia, 1994)

Sinopse:
Após se divorciar na França de sua amada Dominique (Julie Delpy), um polonês (Zbigniew Zamachowski) volta ao seu país de origem disposto a ganhar muito dinheiro para poder se vingar do grande amor da sua vida.
Comentário: Krzysztof Kieslowski (1941-1996) é um cineasta polonês de quem já assisti aos ótimos “Decálogo” (1989) - composto por 10 filmes inspirados pelos 10 Mandamentos - e “Trilogia das Cores” (1993-1994) - composta pelos filmes “A Liberdade é Azul”, “A Fraternidade é Vermelha” e “A Igualdade é Branca”, além do bom “Sorte Cega” (1981) e do curioso “Calma” (1976). Desta vez vou rever “A Igualdade é Branca” (1994).
Inácio Araujo da Folha SP publicou: “Se ‘A Liberdade É Azul’ era um filme povoado pela morte, mas finalmente dominado pela vida, em ‘A Igualdade É Branca’ – segundo exemplar da trilogia sobre as cores da bandeira francesa – Kieslowski inverte os dados. O amor move os personagens, mas seus impasses é que dominam a cena.
A ação começa no Palácio da Justiça, em Paris, onde se julga o pedido de divórcio que a francesa Dominique (Julie Delpy) move contra seu marido, o polonês Karol (Zamachowski). Dominique alega que o casamento não foi consumado, o que o réu confirma. Antes do casamento eles mantinham relações sexuais; depois, nada aconteceu. Ele pede tempo. O juiz dá o divórcio. Em seguida, Karol volta à Polônia, reconhece seu país (agora toscamente capitalista), envolve-se em negócios um tanto escusos e, graças a eles, enriquece.
Kieslowski (prêmio de Melhor Direção em Berlim-94 pelo filme) leva a trama como um folhetim. A cada situação rocambolesca segue-se outra, mais retorcida, mais absurda. Em todas, a castração (portanto, a impossibilidade física de amar) funda a ficção, tanto quanto a igualdade (de direitos entre homens e mulheres, países capitalistas e ex-socialistas, de acesso ao prazer ou mesmo de vingança).
A exemplo de ‘Azul’ – mais até –, ‘Igualdade’ se estrutura como uma espécie de conto desimportante: tudo se passa como se a história pudesse ser essa ou qualquer outra. Como se ao final o espectador pudesse se perguntar: ‘e daí?’
Essa é uma característica constante dos filmes de Kieslowski: o sentido se organiza ao longo da série que está realizando (como ‘O Decálogo’). O significado vincula-se a algo em princípio óbvio (aqui, o lema que funda a República francesa: ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade’), mas o desenvolvimento de cada filme é desconcertante, explora de maneira inesperada o seu tema.
Em "Igualdade", o mecanismo repete-se: temos uma história sem qualquer transcendência, que se encerra em seu próprio acontecer e parece não interessar senão aos personagens. Mas esse aspecto logo dá lugar a uma sensação de incômodo que o filme transmite cena após cena.
A horas tantas, esse amor – e seus desdobramentos inverossímeis – concretiza-se em um orgasmo: momento único, fugaz, talvez nunca mais repetido. Momento também em que o cinema se manifesta plenamente, como encontro entre real e imaginário.
É a essa beleza delicada, instável, que aspira a ‘Igualdade’, um filme em que, no mais, Kieslowski substitui o registro otimista de ‘Azul’ por uma reflexão mais sombria.
Por um lado, volta à Polônia, agora sem governo comunista, para constatar que a mudança não é uma maravilha. Por outro, fala da igualdade entre homens e mulheres, como a constatar que a convivência entre os sexos é plenamente impossível. Ou, pior ainda, é ao mesmo tempo plena e impossível”.
O que disse a crítica 1: Waldemar Dalenogare avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “A produção mantém o bom nível de ‘Azul’, mas uma coisa me chamou muito a atenção: a música não foi instrumento decisivo para o toque do roteiro. Não me entenda mal: a trilha está no filme, mas ela não é destaque. Talvez a necessidade de contextualizar ao máximo o mundo de Karol e Dominique tenha tirado o sono de Kieslowski, que se afastou um pouco de seu padrão para tentar inovar e adaptar o tema proposto. Sławomir Idziak não participou na construção da fotografia, e sua ausência pode ser facilmente notada. Ao invés do uso de filtros, as tomadas apostaram nos céus cinzentos e no brilho natural para montar bonitas passagens. Um filme bem-feito, mas com uma excessiva preocupação no contexto da história. Talvez fosse melhor manter as dúvidas no espectador”.
O que disse a crítica 2: Leonardo Campos do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “’A Igualdade é Branca’ é um dos mais emocionantes filmes da sua geração. Uma produção que comprova a qualidade do cinema além dos efeitos especiais. A produção recebeu o Urso de Prata em Berlim e foi indicada ao Urso de Ouro, não passou por outras premiações mais badaladas do circuito industrial, mas habita a memória cultural coletiva contemporânea, provavelmente, como um filme tocante e profundamente paradoxal, assim como a obra do diretor, que terminou a trilogia em ‘A Fraternidade é Vermelha’, lançado em 1995, e, concomitantemente, a sua carreira, afinal, como apontado, ‘consegui com o último filme o que queria na posição de cineasta’”.
O que eu achei: Trata-se do segundo longa da trilogia “Trois Couleurs” (Três Cores) do diretor polonês Krzysztof Kieslowski. O primeiro - "A Liberdade é Azul" (1993) – utilizava a cor azul para falar da tristeza, enquanto a liberdade era abordada no vazio do luto vivido por uma mulher chamada Julie (Juliette Binoche) que havia perdido seu marido e filha num acidente. Neste “A Igualdade é Branca” (1994), a cor branca que associamos imediatamente à pureza e à paz é ironicamente utilizada para mostrar a igualdade na guerra das relações afetivas. Conta a história de um casal - Dominique (Julie Delpy) e Karol (Zbigniew Zamachowski) – que se separa porque, segundo ela, o casamento não foi consumado. O sofrimento do marido Karol se transforma então num desejo de vingança que a fará sofrer igualmente. Em comparação com o primeiro longa da trilogia, o Azul me pareceu mais interessante do que este. Mas vistos como partes de uma trilogia, todos acabam merecendo nossa atenção. Apesar dos três filmes contarem histórias independentes, vê-los na sequência em que foram feitos propicia perceber pequenos detalhes que amarram todas as histórias. Observe que a trama de "A Igualdade é Branca" começa no tribunal onde Dominique e Karol estão se separando. Enquanto acompanhamos esse processo de separação vemos ao fundo uma passagem rápida de duas personagens do primeiro longa: Julie (Juliette Binoche) e Sandrine (Florence Pernel). Essas aparições fortuitas estão indicando que as histórias dos três longas acontecem ao mesmo tempo e no mesmo universo. Se você rever o primeiro filme, perceberá que há um momento em que Julie (Binoche) entra no tribunal procurando por seu advogado e é barrada por um guarda. Enquanto Sandrine (Pernel), a amante do falecido, também está nesse mesmo tribunal tratando do processo de herança dele. Tudo isso ocorre enquanto Karol está no banco dos réus. O juiz (Philippe Morier-Genoud) que conduz a audiência do divórcio de Karol e Dominique também é o mesmo magistrado francês que aparece no primeiro longa. Outra curiosidade: nos três filmes uma idosa tenta colocar uma garrafa de vidro em uma lixeira de reciclagem. Em “A Liberdade é Azul” Julie vê a idosa, mas não a ajuda. Ela está tão mergulhada no luto e no isolamento total do mundo que fica indiferente ao sofrimento alheio. Neste segundo longa Karol também a vê e também não a ajuda. Ele está tão humilhado, quebrado e focado em sua própria miséria que a cena apenas reforça sua visão de mundo naquele instante: a vida é injusta para todos, não há igualdade no sofrimento e cada um deve cuidar de si. Enfim, trata-se de outro bom filme na filmografia do polonês que vale ser visto com muita atenção. Boa pedida.

19.7.26

"Ladrões" - Darren Aronofsky (EUA, 2025)

Sinopse:
Quando seu vizinho Russ (Matt Smith) lhe pede para cuidar de seu gato, um ex-prodígio do beisebol chamado Hank Thompson (Austin Butler), agora trabalhando como barman, se vê no meio de gangues sem saber o porquê. Ele precisa usar toda a astúcia para sobreviver e entender o que está acontecendo.
Comentário: Darren Aronofsky (1969) é um cineasta, roteirista, produtor cinematográfico e ambientalista americano. Assisti dele a obra-prima "Mãe!" (2017), os excelentes “Réquiem Para Um Sonho” (2000), "O Lutador" (2008) e "Cisne Negro" (2010), o bom “A Baleia” (2022) e o péssimo "Noé" (2014). Desta vez vou conferir "Ladrões" (2025).
Cesar Soto do G1 publicou: “’Ladrões’, novo filme do renomado cineasta Darren Aronofsky, mostra que alguma coisa mudou dentro do americano de 56 anos. Conhecido por histórias perturbadoras como ‘Réquiem Para Um Sonho’ (2000) - clássico sobre jovens viciados que lançou sua carreira e traumatizou uma geração no processo - e ‘Cisne Negro’ (2010), ele apresenta um dos filmes mais divertidos do ano.
Protagonizado por uma estrela em franca ascensão em Hollywood, Austin Butler, a aventura criminosa (...) conta a história de um ex-jogador de beisebol preso, por acidente, em uma disputa entre gângsteres de Nova York.
Um contraste gritante em relação aos estudos sobre religiosidade, humanidade e obsessão, dentro de ambientes sufocantes e claustrofóbicos como os retratados pelo diretor em ‘Mãe!’ (2017) ou ‘A Baleia’ (2022), seu filme mais recente.
Mas o que levou um dos cineastas americanos mais conhecidos por seu currículo cheio de obras incômodas e sombrias? ‘Há uma certa fome por esse tipo de coisa agora. É difícil chamar a atenção das pessoas. Há tanta distração no mundo’, diz Aronofsky em entrevista ao G1. ‘Se há uma coisa que Hollywood deveria fazer neste momento é calar a boca e dançar’. ‘Então, eu gostaria de fazer apenas algo que fosse divertido e desse às pessoas duas horas de uma ótima jornada. E esse era o filme mais meio que comercial que eu estava desenvolvendo há um tempo’.
Conhecido também por escrever a maior parte de seus filmes, em ‘Ladrões’ o diretor realiza pela segunda vez seguida uma adaptação para o cinema de uma história escrita por outra pessoa. Pela segunda vez, também, convida o autor original para o cargo.
Em ‘A Baleia’, o trabalho tinha ficado com o dramaturgo Samuel D. Hunter, responsável pela peça na qual o filme era baseado. ‘Acho que ele é um dos grandes escritores dos Estados Unidos’, fala Aronofsky. Mesmo assim, em seu primeiro trabalho para o cinema, Hunter precisou de muita atenção do diretor. ‘Mas a natureza de suas palavras era tão linda que eu não queria mexer com elas’, conta. Com Charlie Huston, escritor do livro (‘Caught Stealing’, mesmo título em inglês) adaptado em ‘Ladrões’, a experiência foi bem diferente. Afinal, ele já tinha um rascunho pronto, ‘que definitivamente capturava a energia e parecia um filme’.
‘Olha, escrever um livro é uma situação muito diferente do que escrever um roteiro. Por exemplo, você não pode fazer monólogos internos tão bem. E a voz de Hank (o protagonista) era uma parte grande do livro’, diz Aronofsky. ‘Mas, quero dizer, nesses dois casos tudo deu certo’.
Lançado em 2005, ‘Caught Stealing’ - título que faz referência ao beisebol que o protagonista não joga mais - é na verdade o primeiro de uma trilogia. Por isso, o cineasta faz um paralelo com seus próprios enredos do passado, compostos por discussões complexas e protagonistas perturbados. ‘Você assiste ao desenvolvimento de um personagem em uma história bem mais longa, de uma forma muito mais realista. E o que foi divertido foi me apegar a esse realismo da trama e do personagem, mesmo quando ele está cercado por todos esses acontecimentos absurdos’, afirma o diretor.
Ele sabe que essa vontade sincera de levar puro entretenimento ao público vai de encontro às expectativas que seus fãs - e o público em geral - têm de seu trabalho. Por isso, espera que as pessoas consigam separar a obra do artista, ‘por mais que eu esteja aqui falando sobre o filme’.
‘Isso é engraçado. Eu ando um pouco preocupado com isso - que as pessoas vão ficar chateadas por não estarem mais perturbadas. Então, você meio que está ferrado não importa o que aconteça. Não há como ganhar’."
O que disse a crítica 1: Robledo Milani do site Papo de Cinema avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “Hank é o típico cara ‘na hora errada e no lugar errado’. No decorrer dos próximos dias e horas, tudo vai ficando cada vez pior, e se mostrará ainda mais difícil decidir o que fazer e em quem confiar. A inspiração para o roteiro de Charlie Huston (também autor do livro no qual o filme é uma adaptação), obviamente, é o hoje referencial ‘Depois de Horas’ (1985). Porém, aquilo que Martin Scorsese falava com propriedade sobre uma cidade corrompida, exótica e que existia por meio de vias tortas, Darren Aronofsky se aproxima por meio do estereótipo, do clichê publicitário e fazendo uso de um verniz que aposta mais na pose do que nas motivações. Dessa forma, é fácil acompanhar os desdobramentos pelos quais os personagens se ocupam durante as quase duas horas de ‘Ladrões’. Mas é mais um quebra-cabeças esforçando-se para fazer sentido e menos uma história de desencontros e falsas coincidências que urgia em ser narrada. Por outro lado, também não chega a ser mero veículo para o estrelato de um ou outro astro envelhecido (...). Enfim, entrega o que promete. E nem um passo além disso”.
O que disse a crítica 2: Francisco Carbone do Cenas de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Com um elenco onde se misturam rostos conhecidos com tipos menos testados, é o rosto central que exemplifica todo o amálgama de intenções de ‘Ladrões’. Austin Butler surgiu para o grande público na impressionante corporificação de Elvis, e desde então ele sempre demonstra ter mais potencial que lá. Como o protagonista de Aronofsky, ele encarna as camadas de seu personagem e filme, que dividem as mesmas conotações – (...) seu rosto invade a tela para preencher cada possível dúvida de entendimento narrativo. Seja na angústia atroz que carrega, no sofrimento onde esbarra, na fúria que se aplaca em determinado momento, na saudade de um tempo que ele mesmo foi responsável por encerrar, Butler é um nome da novíssima geração que tem a dizer através da expressividade que seu diretor, como sempre, é hábil em arrancar de seus atores”.
O que eu achei: O título original "Caught Stealing" pode tanto significar “Pego Roubando”, como pode ser entendido como um trocadilho com um termo clássico do beisebol que se refere a uma jogada em que um corredor tenta avançar para a próxima base sem que a bola tenha sido rebatida, mas é ‘pego’ pelo time adversário. A trama se passa na Nova York de 1998. Conta a história de Hank Thompson (Austin Butler), um ex-prodígio do beisebol que atualmente trabalha como barman. Seu vizinho punk viaja e lhe pede para cuidar de seu gato. O que parecia uma tarefa simples vira um inferno já que o vizinho é traficante de drogas e há uma penca de gente do mal atrás do dinheiro obtido com a venda dos entorpecentes. O filme é um thriller gostoso de ver. Me lembrou muito dois filmes do Guy Ritchie: "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" (1998) e "Snatch: Porcos e Diamantes" (2000). O curioso é que o longa é muito diferente dos filmes do próprio Aronofsky, famoso pelos dramas psicológicos intensos, as tragédias, o terror e as histórias de autodestruição que deixam o público angustiado. Este é basicamente um suspense policial de ritmo acelerado com o protagonista passando por apuros, com uma narrativa sendo guiada pelo caos urbano, cheio de adrenalina e gags, que nem parece dele. O roteiro foi escrito pelo Charlie Huston, autor do livro original no qual o filme se baseia. Então prepare-se para ver algo muito diferente do que ele habitualmente faz. Poucos diretores conseguem se reinventar assim, transitando entre universos tão diferentes sem perder a qualidade técnica. Além do filme em si ser bom, o longa se mostrou uma excelente oportunidade para o ator Austin Butler se libertar do fantasma do Elvis. Ele dá um show na pele de um bartender comum, super vulnerável e magnético. Resumindo, é um filme violento na medida certa, divertido de se ver e que tem uma trilha sonora pós-punk incrível que dita o ritmo. Vale o play.

18.7.26

"Como Treinar o Seu Dragão" – Chris Sanders & Dean DeBlois (Reino Unido/França/EUA, 2010)

Sinopse:
Na ilha de Berk, os vikings dedicam a vida a matar dragões. Soluço, filho do chefe Stoico, também sonha em matar um dragão e provar seu valor ao pai, apesar da descrença geral. Um dia ele acerta um dragão chamado Banguela. Soluço percebe que ele perdeu parte da cauda e, com isso, não consegue mais voar. Soluço passa a trabalhar em um artefato que possa substituir a parte perdida e, aos poucos, se aproxima do dragão. Só que, paralelamente, Stoico autoriza que o filho participe do treino para dragões, cuja prova final é justamente matar um dos animais.
Comentário: Isabela Boscov publicou em seu site: "Praticamente não existe ficção infantil ou infantojuvenil cujo tema central não seja o confrontamento com as regras do mundo adulto – porque há pouco, na vida de uma criança, que consuma mais tempo e energia do que entendê-las, ou que cause mais perplexidade e eventual sofrimento do que aprender a lidar com elas. Por boa razão, assim, essa é a base sobre a qual se assenta o roteiro de boa parte dos filmes para crianças que se produzem hoje.
Mas não muitos podem se gabar de compreender tão bem o reverso dessa condição quanto 'Como Treinar o Seu Dragão' (2010). O menino Soluço, magrinho e meio medroso, é um fracasso como viking e uma decepção para seu pai, o chefe do clã. Nunca vai ser um caçador de dragões. E matar dragões é o que de mais essencial se pode fazer na ilha de Berk, assolada por ferocíssimos cuspidores de fogo. Uma coincidência, um momento de compaixão e a curiosidade típica da idade o colocam em um caminho diferente. Soluço vai se transformar, em segredo, em um domador de dragões. E essa é de fato a pedra de toque do filme – o sentimento libertador, inebriante e vertiginoso que uma criança prova quando descobre que, às vezes, há uma alternativa a pôr-se sob as rédeas adultas: pode-se usar a imaginação para inventar regras melhores.
'Como Treinar o Seu Dragão' é adaptado do livro homônimo (publicado aqui no Brasil pela Intrínseca), o primeiro de uma série de oito volumes protagonizados por Soluço e escritos pela inglesa Cressida Cowell. A autora, que passou os verões de sua infância em uma ilha escocesa isolada, sem eletricidade nem telefone, guarda uma lembrança vívida do senso de aventura que experimentou ali, e em especial de como acreditava que, naquela costa escarpada, os dragões existiriam de fato. Essa memória emotiva norteia seus livros e permanece intacta na animação dirigida pela dupla do anárquico 'Lilo & Stitch'.
Os cenários são sempre monumentais, mas ora parecem idílicos, ora têm um quê de assustador, como no mundo interior da infância – sugestões muito bem aproveitadas no trabalho em 3D. A descoberta mútua entre Soluço e o dragão Banguela, que ele salva e 'conserta' (ele perdeu parte da cauda ao ser perseguido), é repleta de humor e sentimento. E o final introduz um dado real de sacrifício físico que é mais comum em desenhos inflexivelmente morais como os do japonês Hayao Miyazaki do que nas animações dos grandes estúdios americanos (no caso, a DreamWorks de 'Shrek'), com sua visão superprotetora da infância: aqui, Soluço perde algo precioso por se manter fiel às suas convicções. Mas ele e toda Berk ganham mais ainda por ter ouvido o menino que compensa o que lhe falta em autoridade com o que lhe sobra em imaginação".
O que disse a crítica 1: André Barcinski crítico da Folha SP avaliou como bom. Disse: "'Como Treinar o seu Dragão' (...), é um raro exemplo de filme infantil que agrada a espectadores de todas as idades. O longa combina imagens deslumbrantes, ótimos efeitos em 3D e uma história instigante sobre o mundo dos vikings".
O que disse a crítica 2: Thiago Siqueira do site Cinema com Rapadura avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Ele elogiou o design dos animais e dos humanos, os efeitos computadorizados e as texturas de cada material, a trilha sonora de John Powell e as cenas de voo e de combates do filme em 3D e finalizou dizendo: "Divertido e marcante, 'Como Treinar o Seu Dragão' é uma aventura incrível, embora eu não a indique para crianças muito pequenas justamente por ser demasiadamente movimentada e até pesada em dados momentos, principalmente em seu clímax. De qualquer modo, digo sem medo de errar que se trata da melhor animação realizada pela Dreamworks/PDI. Recomendo!".
O que eu achei: Trata-se de uma animação baseada no primeiro livro de uma série chamado “Como Treinar o Seu Dragão” da inglesa Cressida Cowell. A trama acompanha Soluço, um jovem viking franzino da ilha de Berk, que tenta provar seu valor. Diferente de sua tribo, que caça dragões, ele acidentalmente captura um raro dragão da raça "Fúria da Noite", batizando-o de Banguela. Ao cuidar da fera, Soluço descobre que ele é dócil como um animal doméstico, unindo-se a ele para salvar a sua vila de uma criatura gigante. Temas como amadurecimento, rejeição familiar, sensação de não pertencimento e deficiência física são abordados no longa. É bonito ver o forte vínculo silencioso que se constrói entre Soluço e Banguela, baseado na empatia e na observação um do outro. Apesar de Banguela ser um dragão, nota-se em sua construção uma inspiração direta em animais como gatos, cães e panteras. A trilha sonora de John Powell, que achei levemente exagerada em alguns poucos pontos, foi indicada ao Oscar por ditar o tom de aventura e emoção. Mesmo as piadas de alívio cômico são divertidas. A única crítica que li é que a animação se distancia demais do livro que lhe deu origem. Dizem que houve uma mudança radical na personalidade dos dragões, que no livro falam e são bem menores. Com relação à classificação etária ser livre, eu não recomendaria para crianças muito pequenas pois há cenas razoavelmente violentas e uma trama não tão simplificada. Em termos de continuações essa animação teve duas até o momento: "Como Treinar o Seu Dragão 2" (2014) e "Como Treinar o Seu Dragão: O Mundo Oculto" (2019). E esse longa de 2010 teve em 2025 uma refilmagem em live action.

13.7.26

“Golpe de Mestre” - George Roy Hill (EUA, 1973)

Sinopse:
Na Illinois de 1936, Johnny Hooker (Robert Redford) está acostumado a praticar pequenos golpes com seus parceiros. A situação muda quando a vítima é um capanga do perigoso gângster Doyle Lonnegan (Robert Shaw), e a quantia embolsada é alta. Para se safar, Hooker segue o conselho de Luther Coleman (Robert Earl Jones), seu mentor, e se alia a Henry Gondorff (Paul Newman), um golpista experiente. O plano dos dois é nada menos que enganar Lonnegan mais uma vez e ganhar valores ainda maiores.
Comentário: George Roy Hill (1921-2002) foi um cineasta estadunidense. Assisti dele o ótimo “Butch Cassidy e Sundance Kid” (1969) com Paul Newman e Robert Redford. Desta vez vou conferir “Golpe de Mestre” (1973) com a mesma dupla de atores. Os dois filmes receberam indicações ao Oscar, sendo que este último recebeu 7 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Diretor (George Roy Hill), Melhor Roteiro Original (David S. Ward), Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Montagem e Melhor Trilha Sonora.
Ritter Fan do site Plano Crítico publicou: “Falecido em 2002 em razão de complicações derivadas do Mal de Parkinson, George Roy Hill não é normalmente citado em conversas entre fãs de Cinema. Cineasta americano que começou sua carreira no teatro, migrando para a televisão e, depois, para os longas, ele nunca foi um ‘homem dos holofotes’, mantendo sua vida pessoal consideravelmente privada e, talvez por isso, ele não seja comumente lembrado nem mesmo pelos críticos cinematográficos. No entanto, seu legado imediatamente levanta sobrancelhas de admiração, especialmente a célebre ‘dobradinha’ estrelando Paul Newman e Robert Redford em 1969 e 1973: ‘Butch Cassidy’ e ‘Golpe de Mestre’, com direito a uma adaptação do difícil romance ‘Matadouro Cinco’ entre um e outro.
Além de compartilharem a mesma dupla principal, seus dois mais famosos filmes têm estrutura de obras de época com uma pegada leve, por vezes até cômica, mas com um extremo cuidado narrativo que as tornam atemporais. Mesmo que ‘Butch Cassidy’ tenha um final em tese trágico, o espírito de aventura, de companheirismo e de joie de vivre permanece e isso é algo que é transplantado brilhantemente para ‘Golpe de Mestre’, um filme capaz de atravessar gerações absolutamente incólume, sendo facilmente uma daquelas obras que merecem ser revistas de tempos em tempos não por sua complexidade, mas pelo sentimento gostoso que ela deixa.
O roteiro de David S. Ward, em apenas seu segundo trabalho na indústria cinematográfica, executa maravilhosamente bem uma premissa simples em que uma dupla de golpistas – o veterano Henry Gondorff (Newman) e o mais iniciante Johnny Hooker (Redford) – se junta para aplicar um gigantesco golpe em cima do chefão do crime Doyle Lonnegan (Robert Shaw que se machucou semanas antes da filmagem e teve seu andar manco incorporado ao personagem). Ward baseou-se de longe na vida de dois irmãos golpistas (Fred e Charley Gondorff), conforme a biografia escrita por David Maurer (não creditado, nem autorizado, o que levou a uma ação judicial), mas o que ele extraiu da obra foi só mesmo o sobrenome do personagem de Newman e o conceito de um complicado golpe cheio de partes móveis que seu roteiro torna fluido e muito bem concatenado desde a motivação de vingança que Hooker tem, passando pelo enquadramento de Gondorff com um ex-golpista em fuga do FBI, até as tensas sequências que fazem parte da jogada inacreditável que toma grande parte da projeção.
Um roteiro desse naipe, porém, jamais funcionaria sem um diretor cuidadoso comandando tudo e George Roy Hill mostra-se mais do que competente em colocar nas telonas uma visualmente esplendorosa reconstrução de época que serve de pano de fundo para uma enorme quantidade de reviravoltas, talvez muitas previsíveis para o público cínico de hoje, mas todas – TODAS – perfeitamente concatenadas e lógicas dentro da estrutura proposta e que muito facilmente constroem tensão em sua execução e levam a sorrisos do espectador em seus desdobramentos. Desde os elaborados créditos de abertura e intertítulos para separar os capítulos criados por Jaroslav Gebr, passando pelo uso da belíssima direção de arte de Henry Bumstead (‘Um Corpo que Cai’, ‘O Sol é para Todos’), dos figurinos detalhados e variados de Edith Head (que ganhou nada menos do que seu oitavo e último Oscar por esse filme e foi homenageada em ‘Os Incríveis’ como Edna Mode) e da fotografia de Robert L. Surtees (‘Ben-Hur’, ‘A Primeira Noite de um Homem’), com uma paleta de cores marrom, mas sem nunca parecer pesada, cada fotograma respira anos 30 nos EUA, nos estertores da Grande Depressão.
O único elemento importante da obra que é deslocado temporalmente, apesar de encaixar-se perfeitamente, é o uso das magníficas composições de Scott Joplin, adaptadas por Mavin Hamlisch (que, diga-se de passagem, levou o Oscar de Melhor Trilha Sonora). Considerando que o compositor faleceu em 1917, com a era do ragtime já tendo passado em 1936, ano em que o filme se passa, a presença relevante de, por exemplo, ‘The Entertainer’ na projeção como nada menos do que a música tema, pode causar estranhamentos aos mais atentos, mas a grande verdade é que assim como ‘Golpe de Mestre’ é atemporal, as obras de Joplin também o são, ainda que, muito interessantemente, o filme tenha levado a um revival delas em plenos anos 70 sendo até complicado, hoje, lembrar que as músicas, em sua grande e relevante parte, não foram compostas especialmente para o filme.
Apesar de o elenco ser uniformemente muito azeitado, a grande verdade é que o show é, novamente, oriundo da interação e da química entre Redford e Newman. Curiosamente, o papel de Gondorff no filme era originalmente muito menor, com o personagem escrito como uma pessoa mais preguiçosa e fora de forma, algo que a escalação de Newman forçou uma alteração radical e que, ao que tudo indica, só beneficiou o resultado final. Redford e seu Johnny Hooker continuou sendo o protagonista, para todos os efeitos, mas as fagulhas que saem da cumplicidade entre os dois atores é que funcionam como a cola narrativa final para um filme que é tão agradável e, arrisco dizer, perfeito, que dá uma certa tristeza quando ele acaba. Mas é claro que não é razoável deixar de citar Shaw e sua marcante presença como outro ponto alto dramático, com seu personagem sendo em partes iguais ameaçador e bonachão, em uma atuação temperada desse grande ator.
E, assim, no intervalo de apenas quatro anos, George Roy Hill colocou nas telonas duas obras-primas cinematográficas que até hoje mantem-se intactas e atemporais. Mesmo que seu nome fique esquecido nas sombras de sua recusa em se beneficiar da fama, seu legado é realmente impressionante, com ‘Golpe de Mestre’ sendo, sem dúvida alguma, o ponto alto de sua razoavelmente breve carreira”.
O que disse a crítica 1: Giancarlo Galdino da Revista Bula avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “Boa parte do longa é só de Robert Redford (1936-2025), mas no instante em que ele topa com Henry Gondorf não fica pedra sobre pedra. Esses cavaleiros de um apocalipse composto de delinquência, grana fácil, desejo, sexo e a sobrenatural habilidade de manipular as emoções alheias chegam ao mais fundo dos sentimentos mais ocultos e menos cômodos da alma suja e perdida do espectador. Paul Newman (1925-2008) consegue o impossível e supera Redford, mas o que nasce daí não é uma rixa, e sim uma amizade de mais três décadas. A propósito de tempo e recordes, aos 28 anos, Ward ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original por essa sua visão saborosamente tresloucada de uma ferida americana - Hill levou a estatueta de Melhor Direção; Edith Head (1897-1981), o troféu de Melhor Figurino e ‘Golpe de Mestre’, claro, foi escolhido pela Academia o Melhor Filme de 1973. Que falta faz tudo aquilo que já não pode mais ser…”
O que disse a crítica 2: Roger Ebert em seu próprio site avaliou com o equivalente a 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “O filme tem um estilo sutil e elegante. Hill satiriza delicadamente a década de 1930 com seus leves exageros na moda e no estilo. Ele conta a história em episódios, dividindo o filme nos vários estágios do golpe. E ele é extremamente habilidoso em manter um ritmo um tanto desequilibrado. Nunca conseguimos definir completamente Newman e Redford. Eles sempre estão se insinuando nas cenas, fazendo comentários enigmáticos em voz baixa e permanecendo pelo menos um passo à nossa frente. O estilo visual de Hill é oblíquo; em vez de posicionar seus atores no quadro e registrar a ação, ele parece se aproximar sorrateiramente. Newman e Redford quase parecem estar no caminho de outro filme. Se isso pode parecer uma crítica negativa, não é essa a intenção: o estilo aqui é tão sedutor e espirituoso que é difícil de definir. É diferente de tudo que já vi de Hill e, às vezes, me lembra uma mistura de Jacques Tati com Robert Altman. É ótimo ter um filme policial que se preocupa mais com o humor e os personagens do que com sangue e violência; eis um, como se costuma dizer, para toda a família”.
O que eu achei: Após ter assistido o ótimo “Butch Cassidy e Sundance Kid” (1969) com Paul Newman e Robert Redford, desta vez conferi “Golpe de Mestre” (1973) do mesmo diretor George Roy Hill e com os mesmos atores nos papéis principais. O mesmo clima de companheirismo entre dois ladrões e trapaceiros que havia no filme de 69 é visto neste de 73, bem como a mistura de crime com um humor leve e carismático. O roteiro do filme, apesar de improvável na vida real, é perfeito. O golpe que eles resolvem dar no perigoso gângster Doyle Lonnegan (Robert Shaw) funciona como um relógio suíço. O charme, o cinismo e o carisma natural da dupla de atores fazem você torcer por eles até o fim, o que garante um envolvimento com os personagens durante todo o filme. Não foi a toa que o longa levou 7 estatuetas no Oscar: os atores dispensam palavras, a direção é bem executada, os figurinos são perfeitos, a direção de arte que recria a Chicago dos anos 1930 é extremamente elegante, o roteiro é dinâmico e a divisão da história em capítulos com cartões lindamente ilustrados é a cereja do bolo. A trilha sonora também não fica atrás. A adaptação do ragtime de Scott Joplin por Marvin Hamlisch ditou o tom divertido e nostálgico do filme. Difícil ouvir e não reconhecer. Uma coisa interessante a se observar é que, embora o cinema atual ainda adore filmes de assalto, a pureza com que esses dois filmes retratam a malandragem hoje seria questionada. Os protagonistas enganam pessoas, roubam e operam na ilegalidade absoluta, mas recebem uma roupagem de ‘heróis’ sem grandes dilemas morais ou consequências. Além disso, com as mudanças profundas nas convenções de Hollywood, dificilmente um filme com esse excesso de homens brancos no elenco – em plena Chicago dos anos 30 - e poucas mulheres em cena – as que aparecem são todas frágeis - dificilmente passariam incólumes. De qualquer forma, considerando-se como um produto de época, ele continua sendo um filme espetacular e uma das produções mais divertidas e charmosas da história do cinema, daquelas gostosas de assistir, que prendem a atenção do começo ao fim. Excelente pedida.

12.7.26

"Morra, Amor" - Lynne Ramsay (Reino Unido/Canadá/EUA, 2025)

Sinopse:
Em uma área rural remota e esquecida, uma mãe (Jennifer Lawrence) luta para manter sua sanidade enquanto luta contra a psicose.
Comentário: Lynne Ramsay (1969) é uma cineasta e roteirista escocesa. Ela ganhou reconhecimento internacional com filmes como "O Lixo e o Sonho" (1999), "O Romance de Morvern Callar" (2002) e "Precisamos Falar Sobre Kevin" (2011). Sua obra explora temas complexos como trauma, violência e relações familiares. Assisti dela o excelente "Precisamos Falar Sobre Kevin" (2011) e o mediano "Você Nunca Esteve Realmente Aqui" (2017). Desta vez vou conferir "Morra, Amor" (2025).
Aline Telles da Carta Capital publicou: "Com o renomado diretor Martin Scorsese entre os produtores, o drama psicológico 'Morra, Amor', estrelado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, (...) promete mais do que uma história intensa: o longa reacende discussões urgentes sobre saúde mental materna, isolamento e transtornos pós-parto.
Inspirado no livro da escritora argentina Ariana Harwicz, o filme dirigido pela britânica Lynne Ramsay acompanha Grace, uma mulher que, após se mudar com o marido para uma fazenda isolada, começa a vivenciar sintomas graves de deterioração mental após o nascimento do primeiro filho. A trama reflete os conflitos internos de uma maternidade real, distante do ideal romântico frequentemente retratado pela sociedade.
Para Fernando Tomita, coordenador da psiquiatria do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), a obra de Lynne Ramsay traz à tona uma realidade pouco comum, mas de extrema gravidade, gerando a necessidade de ser mais bem disseminada na população. 'O período pós-parto é um dos momentos mais vulneráveis na vida da mulher. Há mudanças hormonais intensas, privação de sono, inseguranças, ansiedade e, em muitos casos, solidão. O isolamento e a cobrança interna podem contribuir para o risco de desenvolver quadros como a depressão ou a psicose pós-parto', explica.
A psicose pós-parto, aliás, tema central do filme, é um transtorno grave, de evolução rápida, e que exige atenção médica imediata. 'É importante diferenciar a psicose de condições mais leves, como o chamado baby blues, que provoca tristeza e oscilação de humor nos primeiros dias após o parto. A psicose, por outro lado, envolve delírios, alucinações e desconexão com a realidade, podendo colocar em risco a mãe e o bebê', alerta Fernando Tomita.
Segundo o médico, o isolamento é um fator de risco determinante, algo que o filme retrata de forma simbólica e angustiante. 'A personagem se vê sozinha em meio ao campo, sem suporte, cercada pelo silêncio. Esse isolamento é um reflexo potente de muitas mulheres que, mesmo cercadas de pessoas, sentem-se invisíveis ou incompreendidas. Falar sobre isso é essencial para quebrar o tabu e promover empatia', analisa.
Com uma estética visceral e um olhar feminino sobre o sofrimento psicológico, 'Morra, Amor' faz eco à trilogia involuntária de Ariana Harwicz (composta também por 'A Débil Mental' e 'Precoz'), que discute a inadequação às normas sociais e o peso dos papéis tradicionais de gênero. 'A maternidade é frequentemente retratada como um momento de plenitude, mas, para muitas mulheres, ela também pode vir acompanhada de medo, exaustão e culpa. Reconhecer essas emoções é parte do cuidado', adiciona o psiquiatra.
Por isso, o acompanhamento psiquiátrico e psicológico no pós-parto é fundamental. Observar sinais como tristeza persistente, irritabilidade, apatia, pensamentos negativos ou comportamentos confusos, incluindo possível recusa de dar atenção ao bebê, pode fazer toda a diferença para um diagnóstico precoce e uma recuperação segura.
Com uma atuação elogiada e direção sensível, 'Morra, Amor' promete ser um dos filmes mais impactantes de 2025 — tanto pelo retrato cru da maternidade quanto pela reflexão que provoca sobre a saúde mental feminina. 'Quando a sociedade compreende que pedir ajuda é um ato de coragem, e não de fraqueza, damos um passo importante rumo à prevenção. O cinema, nesse sentido, tem um papel valioso: ele sensibiliza, humaniza e amplia o diálogo sobre temas que ainda são silenciados', finaliza Fernando Tomita".
O que disse a crítica 1: Isadora Granato do site Oxente Pipoca avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: "A execução dessa jornada mental é o grande tropeço de 'Morra, Amor'. O filme erra em concentrar todo o seu ímpeto dramático e narrativo nos primeiros 20 minutos. É nesse breve período que o espectador é bombardeado com as tensões, os questionamentos e o prenúncio da espiral psicótica de Grace. A montagem inicial é frenética e desconfortável, cumprindo a função de nos inserir no estado de espírito caótico da protagonista. O problema é que, após essa explosão inicial, o filme mergulha em um marasmo que se estende pela maior parte da sua duração. A promessa de uma desintegração mental constante se transforma em uma repetição tediosa de cenas que não avançam a narrativa nem aprofundam a crise da personagem de forma eficaz. O ritmo arrastado da 1h30min subsequente esgota a paciência, perdendo qualquer interesse gerado no começo".
O que disse a crítica 2: Kevin Rick do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "É um filme difícil em diversos sentidos, devastador e profundamente humano. Não nos pede para julgar Grace, mas para acompanhá-la até o limite daquilo que ela consegue suportar. E, no fim, talvez seja esse o maior horror: perceber que a protagonista poderia ter sido salva, se alguém tivesse realmente escutado antes de apenas olhar. Se 'Morra, Amor' é tão devastador emocionalmente, muito disso vem do modo como sua direção e sua concepção estética moldam a subjetividade de Grace. O filme poderia facilmente cair no melodrama ou na caricatura de 'mulher à beira de um ataque de nervos', mas a cineasta entende que o colapso mental não se expressa em explosões, e sim em gestos mínimos, silêncios, e uma câmera que observa mais do que explica".
O que eu achei: Baseado no romance homônimo de Ariana Harwicz, o drama acompanha uma mulher que vive em uma casa isolada em uma cidade rural no interior dos Estados Unidos, convivendo com uma condição de psicose, batalhando diariamente com sua sanidade enquanto a maternidade e o casamento a enlouquecem. O complicado no longa é que essa condição não fica clara. Não se mostra, em nenhum momento, tratar-se de uma psicose, muito menos que seja uma psicose pós-parto. O casal, desde o início do filme se mostra diferenciado. Não sabemos se ela sofre de algum transtorno mental ou se é apenas um daqueles casais estilo ‘sexo, drogas e rock’n roll’. Há cenas de sexo selvagem, um bebê abandonado na casa enquanto o casal sai de carro com o cachorro, um desleixo com a casa, com a alimentação e com a higiene que você fica se perguntando como a criança não fica doente vivendo com esses dois. Ao mesmo tempo nota-se que ela não está bem nas suas atitudes que oscilam entre a apatia e a agressividade, contra os outros ou contra ela mesma. Por conta do vai-e-vem temporal não se explicita em nenhum momento que a mãe fosse outra antes da criança nascer. Essa montagem confusa - que tenta simular o colapso mental da personagem - falha em estabelecer um fio condutor claro, tornando a experiência confusa, opaca e cansativa ao invés de imersiva. O ritmo também não é dos melhores: o filme começa acelerado e depois mergulha num marasmo repetitivo que não faz a narrativa avançar nem aprofunda a crise da protagonista de maneira eficaz. Fiquei lembrando de outros dois filmes que vi da mesma diretora. Em comparação com o excelente “Precisamos Falar Sobre Kevin” (2011), este não chega nem aos pés. No anterior, também havia a questão da maternidade. Mostrava o sofrimento da ambivalência materna: por um lado a alegria de ser mãe e, por outro, o luto pela perda de liberdade e da falta de conexão biológica com o bebê desde a gestação. Em "Morra, Amor" (2025), o colapso da mãe é predominantemente químico. Ela sofre de uma depressão pós-parto severa que escala para a psicose perinatal. A diferença crucial é que enquanto “Precisamos Falar Sobre Kevin” constrói uma tensão progressiva com um propósito narrativo claro, “Morra, Amor” prioriza a imersão sensorial em detrimento do desenvolvimento da história. A estrutura imersiva deste longa me parece ter mais a ver com o outro longa que vi da diretora, que eu também não gostei, chamado “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” (2017), sobre um veterano de guerra traumatizado. E isso pra mim, assim como não funcionou no filme de 2017, também não me agradou neste. Muitos vão gostar, mas para mim é um filme no máximo mediano.

10.7.26

“Malês” - Antônio Pitanga (Brasil, 2024)

Sinopse:
Dassalu (Rocco Pitanga) e Abayome (Samira Carvalho) estão prestes a se casar quando são sequestrados de sua terra natal na África e trazidos para o Brasil como escravos. Separados pelo destino, ambos lutam para sobreviver aos horrores da escravidão. Em meio a essa luta, se envolvem na Revolta dos Malês, a maior insurreição de escravizados da história do Brasil, buscando reencontrar-se e reafirmar suas identidades e liberdade.
Comentário: Antônio Pitanga (1939) é um ator e cineasta brasileiro. Ele foi casado com a atriz Vera Manhães, com quem teve dois filhos que também são atores: Camila Pitanga e Rocco Pitanga. Atualmente ele está casado com Benedita da Silva, ex-governadora do Rio de Janeiro. No cinema ele atuou nos filmes “O Homem que Desafiou o Diabo” (2007), “Zuzu Angel” (2006), “Vila Lobos, Uma Vida de Paixão” (2000) e mais 54 filmes. Na televisão participou de novelas e séries como “O Clone” (2001), “Celebridade” (2003), “A Próxima Vítima” (1995) e mais 32 trabalhos. No teatro participou da primeira montagem da peça “Após a Chuva” (2007/2008), dentre outros. Como diretor ele fez dois longas-metragens: “Na Boca do Mundo” (1979) e “Malês” (2024) que é o primeiro filme que vejo dele.
O site IMDB publicou: “A Revolta Malê, também conhecida como Revolta Escrava de 1835 na Bahia, foi uma das rebeliões mais importantes de pessoas escravizadas na história do Brasil. Aconteceu durante a noite de 24/25 de janeiro de 1835, em Salvador, e foi organizado principalmente por muçulmanos africanos escravizados e libertos conhecidos como Malês - termo derivado da palavra iorubá imalê, que significa “muçulmano”.
No início do século XIX, Salvador tinha uma forte presença africana: cerca de 40% de sua população era escravizada e muitos eram africanos trazidos diretamente do continente. Entre eles, grupos muçulmanos (principalmente de origem iorubá e hausa) eram altamente organizados, alfabetizados em árabe e mantinham uma forte identidade cultural e religiosa. Esses fatores, combinados com duras condições de vida, repressão religiosa e desejo de liberdade, criaram um terreno fértil para uma revolta.
A conspiração foi cuidadosamente planejada e programada para coincidir com o fim do Ramadã. Os rebeldes pretendiam derrubar o governo provincial, libertar pessoas escravizadas e estabelecer uma sociedade islâmica na Bahia. Estima-se que 300 a 600 pessoas participaram diretamente da revolta. Nas primeiras horas de 24 de janeiro de 1835, os insurgentes lançaram sua revolta em várias partes de Salvador, atacando quartéis, casas e tentando libertar outras pessoas escravizadas. Muitos usavam roupas brancas, carregavam armas brancas e alguns recitavam versículos do Alcorão.
Apesar de sua organização, a revolta foi rapidamente esmagada pelas forças do governo e pelas milícias locais. Em poucas horas, dezenas de rebeldes foram mortos e muitos outros capturados. Cerca de 70 a 100 pessoas foram mortas nos combates. Mais de 200 foram presos, com muitos condenados a açoitamento, prisão ou deportação de volta para a África. Líderes importantes, como Pacífico Licutan, foram executados ou severamente punidos. Após a revolta, as autoridades reforçaram a vigilância da população africana e impuseram proibições mais rígidas às práticas islâmicas e à educação entre os escravos, temendo futuras revoltas.
A Revolta Malê é lembrada por vários motivos: foi a maior rebelião de escravos urbanos no Brasil. Demonstrou a capacidade política, religiosa e organizacional dos africanos no Brasil. Expôs as profundas tensões sociais da escravidão e influenciou debates posteriores sobre a abolição. Hoje, a revolta se destaca como um poderoso símbolo da resistência negra e da liberdade religiosa na história do Brasil”.
Com argumento de Orlando Senna (codiretor de “Iracema, Uma Transa Amazônica” e “Gitirana”) e roteiro de Manuela Dias (autora das novelas “Amor de Mãe” e do remake de “Vale Tudo”), Pitanga contracena no filme com seus filhos, Camila Pitanga e Rocco Pitanga.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “Infelizmente, o resultado fica aquém de tantos afetos e convicções. O drama histórico soa como um filme possível, ao invés de um filme desejado - no sentido de ter sido feito como se pôde, após tanta espera, apesar das dificuldades de produção. Logo, os problemas são evidentes: há diálogos dublados sem nenhuma sincronia com a boca dos atores, deficiências de montagem e continuidade e, em especial, ferramentas questionáveis de roteiro. ‘Malês’ aposta numa estrutura coral, sem protagonista definido, algo que se torna um desafio na hora de equilibrar as narrativas. (...) ‘Malês’ carrega mais valor por sua iniciativa e existência do que pelo resultado exibido nas telas”.
O que disse a crítica 2: Janda Montenegro do site Cine POP avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “É palpável a delicadeza e a firmeza de Antonio Pitanga na direção de ‘Malês’, e mais palpável ainda o profundo respeito que o elenco tem em sua presença, o que torna o filme ainda mais especial. Sem dúvidas, ‘Malês’ era um filme que precisava ser feito, e é extremamente correto que o projeto tenha sido comandado por Antonio Pitanga e vivido por esse elenco que ouviu o chamado ancestral para dar vida e voz a esses bravos guerreiros. Intenso, ‘Malês’ é um filme para o Brasil ver e nunca mais esquecer daqueles que lutaram pela liberdade”.
O que eu achei: Trata-se de um filme brasileiro que narra a Revolta dos Malês (imalê significa muçulmano) de 1835 na Bahia, retratando o maior levante de escravizados no Brasil. O filme começa na África de 1830, no Reino de Oyo, quando um casal muçulmano é sequestrado, separado e trazido à força para o Brasil para ser escravo. Enquanto sobrevivem aos horrores da escravidão na Bahia, eles se envolvem no levante organizado de 1835. O livro “A Rebelião Escrava no Brasil: A História do Levante dos Malês em 1835” de João José Reis, serve como referência e o autor é um dos consultores do projeto, o que faz com que a parte histórica e de reconstituição de época seja confiável. Antonio Pitanga, além de assumir a direção do filme, interpreta Pacífico Licutan, um homem escravizado que trabalhava alugado como enrolador de fumo e morava no Cruzeiro de São Francisco com seu senhor, um médico. Entre os malês, Pacífico era considerado uma espécie de mestre, pois ensinava a religião aos demais, pregava e recrutava novos adeptos ao islamismo. Durante a Revolta dos Malês, Licutan estava preso por causa de seu senhor que estava cheio de dívidas com os frades carmelitas. Sem dinheiro para confiscar, o governo levou o escravo e o prendeu na Câmara Municipal para ser levado a leilão, de modo que fosse pago o débito. A rebelião foi marcada para o dia 25 de janeiro, data que celebrava o fim do Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos. Licutan foi informado que seria libertado. O plano era, após começar a revolta em Salvador, conseguir novos recrutas (entre escravizados e alforriados) e seguir para os engenhos, o epicentro da escravidão baiana. No dia 24, cerca de 60 revoltosos se reuniram no porão de um sobrado na Ladeira da Praça. No entanto, logo se viram cercados por oficiais. Segundo os registros históricos, uma negra liberta chamada Guilhermina de Roza Souza traiu a revolta e denunciou seus líderes. No filme essa traição é atribuída a Sabina da Cruz. Letreiros finais do filme informam que mesmo com a delação de Sabina da Cruz, o levante reuniu em torno de 600 escravos e libertos nas ruas de Salvador, sendo que 100 foram mortos pela polícia e 120 foram presos. Depois desse levante o governo deu início a um sistema de deportações em massa para a África, tendo como destino Uidá e Lagos, onde até hoje existe uma forte colônia de descendentes de brasileiros. O filme infelizmente não é tão bem executado. Em entrevista, Pitanga conta que fizeram diversas versões de roteiros nos quase 30 anos que o filme demorou para ficar pronto. Com isso, roteiro e edição acabaram confusos, o filme termina e você acaba tendo que recorrer a uma pesquisa para entender melhor o que houve. O destaque fica para o bom elenco e para o mérito de retratar uma parte oculta da história brasileira.

7.7.26

“Brasil 70: A Saga do Tri” - Naná Xavier, Rafael Dornellas (Brasil, 2026)

Sinopse:
Nesta série dramática, o time brasileiro disputa a Copa do Mundo no México e entra em campo com grandes sonhos e um desafio: se tornar tricampeão mundial.
Comentário: “Brasil 70: A Saga do Tri” é uma minissérie com 5 episódios que mostra os bastidores da campanha da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970, no México, quando o Brasil conquistou o tricampeonato mundial.
A produção é brasileira, realizada pela Netflix em parceria com a O2 Filmes, e chega com a proposta de recriar a caminhada da Seleção Brasileira até o título mundial de 1970. Para quem gosta de futebol, estamos falando do time de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gérson, Carlos Alberto Torres e Félix, comandado por Zagallo na fase final da campanha, em uma Copa que entrou para a história. A criação é de Naná Xavier e do Rafael Dornellas e a direção geral dos episódios de Paulo Morelli e Pedro Morelli.
João Belarmindo do site Observatório de Cinema nos conta o que é real e o que é ficção na série. Veja o que ele diz: “A série é bonita, emocionante e tecnicamente impressionante. Mas, desde o primeiro episódio, ela deixa claro que não é um documentário. É ficção baseada em fatos, e a linha entre esses dois territórios é mais tênue do que parece.
Um dos pilares da minissérie é mostrar um Pelé cheio de dúvida, e isso é fato. Depois do trauma de 1966, na Copa da Inglaterra, ele foi literalmente chutado para fora do torneio e saiu do Goodison Park carregado, em lágrimas, dizendo publicamente que não jogaria mais uma Copa. Não era papo de vestiário. Ele repetiu isso várias vezes em entrevistas. A ESPN recuperou uma declaração direta do rei: ‘O motivo pelo qual eu disse que não ia jogar [pela seleção] foi por causa da minha lesão na Copa de 1966’. A série captura esse peso com precisão. Lucas Agrícola entrega um Pelé que o público nunca viu: não o monumento, mas o homem que precisava decidir se ainda valia a pena.
Rodrigo Santoro interpreta um treinador que era jornalista de profissão, comunista declarado e nunca escondeu nada disso, mesmo durante a fase mais dura do regime militar. Saldanha foi nomeado técnico da Seleção em 1969, classificou o Brasil para a Copa com seis vitórias em seis jogos. Saldanha enfrenta Médici pela convocação de Dadá Maravilha e diz a frase famosa: ‘O presidente escolhe os ministros, eu escolho os jogadores’, sendo demitido menos de três meses antes de a Copa começar. O que a série adiciona é o que acontecia nos bastidores dessas tensões, onde esses trechos foram recriados. O conflito com o regime militar, a recusa em escalar Dadá Maravilha por pressão presidencial, a incompatibilidade entre um comunista e um governo de direita que tentava usar a Copa como vitrine, tudo isso é verdade.
Bruno Mazzeo tem um dos trabalhos mais delicados da série: interpretar Mário Zagallo, o homem que herdou uma equipe pronta e levantou a taça. A minissérie não o trata como vilão, mas também não o poupa da pergunta que o perseguiu por décadas: quanto daquela conquista era mesmo dele?
Historicamente, Zagallo foi um profissional competente que chegou numa situação impossível e entregou o resultado. Ele manteve o esqueleto da equipe montada por Saldanha, fez ajustes táticos inteligentes e não tentou reinventar o que já funcionava. O que a série explora: a insegurança, a pressão de suceder alguém que havia sido afastado, a necessidade de ganhar a confiança de jogadores.
A série também mostra militares armados em cena de fundo no México, Importante destacar que não há registro histórico de soldados brasileiros circulando pela concentração no México dessa forma.
Nas partidas, a série opera num terreno mais seguro. Os resultados são fatos históricos: o Brasil chegou à final e venceu a Itália por 4 a 1. Os gols, as jogadas clássicas, a escalação, tudo registrado. O que os Morelli fizeram foi oferecer algo diferente: em vez de reproduzir as imagens de arquivo com câmeras distantes e qualidade dos anos 70, eles optaram pelo ponto de vista dos jogadores em campo. A decisão foi explicada pelo próprio Paulo Morelli: as câmeras de 1970 eram muito distantes e a imagem, muito ruim. A solução foi criar uma perspectiva imersiva, quase em primeira pessoa, que o arquivo jamais poderia oferecer.
O regime de Médici como pano de fundo não é dramatização, é história documentada. O governo militar investiu pesado na Copa de 1970 como instrumento de propaganda, construiu estádios, encheu o noticiário e usou a conquista como narrativa de unidade nacional num período de censura, prisões e tortura. A ironia que a série captura com cuidado, um time montado por um comunista sendo apropriado pela ditadura, é real. O que Saldanha disse ao jornal francês Le Monde sobre as prisões e torturas no Brasil, ainda com o torneio em andamento, está documentado.
Na véspera da semifinal contra o Uruguai, a série mostra como o trauma da Copa de 1950 ainda pesava sobre a Seleção. Félix passa a ver o ‘fantasma’ de Barbosa nos treinos e no vestiário, enquanto outros sinais de azar surgem ao longo do episódio. O tratamento é bastante exagerado e aposta em elementos quase sobrenaturais, como os espelhos quebrados e Zagallo deixando a concentração para consertar a imagem de seu santo de estimação. Essas cenas funcionam como uma metáfora para a pressão psicológica enfrentada pelo elenco, mas não têm base nos registros históricos. É o episódio em que a série mais se afasta dos fatos para reforçar o drama”.
A produção também conta com Marcelo Adnet, Ravel Andrade, Val Perré, Lara Tremouroux e José Beltrão no elenco, dentre outros.
O que eu achei: Eu tinha apenas dez anos quando o Brasil conquistou o tricampeonato da Copa do Mundo, e foi impossível assistir a esta série sem reviver lembranças de infância: a vila ao lado da minha casa toda enfeitada, os rádios ligados, a expectativa antes dos jogos e a família reunida vendo diversos desses jogos. Como eu era muito criança, não guardo praticamente nenhuma lembrança do contexto político da época, e a série acabou me fazendo recordar não só dessa face festiva da conquista do tri, como me mostrou a maneira como o regime militar se apropriou daquele feito esportivo para reforçar sua propaganda. Creio que o que essa minissérie tem de interessante é justamente equilibrar essas duas facetas: a emoção daquele futebol extraordinário jogado por craques eternizados como Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto e a reflexão sobre o país que vivia um dos períodos mais duros de sua história. Os depoimentos ajudam a humanizar personagens já transformados em lendas, enquanto o material de época reforça como esporte e política sempre estiveram profundamente entrelaçados. Misturando imagens de arquivo com uma narrativa fluida, a produção revisita a campanha da Seleção de 1970 sem transformar tudo em mera celebração nostálgica. A série até tem um certo excesso de tratamento de imagem que, a princípio, me pareceu exagerado. As falas, em geral, também são bastante simplificadas. Porém não achei que isso comprometeu a qualidade informativa do conjunto que, no meu caso, veio justamente desse encontro entre memória e descoberta. Revivi a felicidade de uma criança de dez anos vendo seu país ganhar a Copa, mas, agora como adulta, pude compreender muito do que acontecia fora dos gramados. Nesse clima de Copa do Mundo, com nossa atual Seleção formada por jogadores cuja grande maioria joga no estrangeiro ganhando salários altíssimos, com pouco envolvimento com seu próprio país, sem personalidade para decidir partidas cruciais que dependem de um funcionamento em equipe, um técnico que recebe interferência de patrocinadores em suas decisões de escalação e uma CBF (Confederação Brasileira de Futebol) com uma gestão fraudulenta, nada como ver a história de uma Seleção Brasileira raiz, dessas que nunca mais veremos pela frente. Não que aquela época fosse perfeita, longe disso, já que os técnicos sofriam interferência política e a CBD (antiga CBF) também possuía uma gestão fraudulenta. Mas creio que era um grupo de jogadores empenhados a trabalhar em equipe, bem diferente do que se vê hoje onde o individualismo prepondera. É uma série que emociona, informa e convida a revisitar um capítulo fundamental da nossa história.

6.7.26

“Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” - Abbas Kiarostami (Irã, 1987)

Sinopse:
Ahmad (Babek Ahmed Poor), um garoto de 8 anos de idade, pegou por engano o caderno de Mohammad (Ahmed Ahmed Poor), seu amigo de escola. Após seu amigo ter sido ameaçado de ser expulso se não levasse o dever de casa, Ahmad precisa devolver a ele o seu caderno, mesmo que tenha que desobedecer a mãe (Iran Outari) e procurá-lo no vilarejo distante onde Mohammad mora.
Comentário: Abbas Kiarostami (1940-2016) foi um cineasta, roteirista, produtor, poeta e fotógrafo franco-iraniano. Obteve diversos prêmios internacionais, dentre os quais se destacam a Palma de Ouro de 1997 e o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1999. Assisti dele os ótimos “Close-up” (1990), "Através das Oliveiras" (1994), “Gosto de Cereja” (1997) e "24 Frames" (2017), os bons "Dez" (2002) e "Cópia Fiel" (2010) e o curioso "Um Alguém Apaixonado" (2012). Desta vez vou conferir “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” (1987).
Ruy Gardnier do site Contracampo escreveu resumidamente que o filme provoca um sentimento de anacronismo, já que outras obras do cinema iraniano exibidas no Brasil dialogam com ele, incluindo trabalhos posteriores do próprio diretor e referências em filmes de outros cineastas. Ele acredita que a ideia de uma temática repetitiva, apontada por alguns críticos, se deve mais ao modelo de produção do cinema iraniano - especialmente ao papel do Kanun, que é o Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Adolescentes, o maior patrocinador de cinema no Irã - do que à data da obra. Segundo ele há muita desinformação e equívocos por parte da crítica ao tratar do cinema do Irã.
O filme é uma grande obra em que todos os elementos apresentados em cena ganham importância e acabam sendo utilizados de forma significativa, como ocorre nos melhores trabalhos de Hitchcock e Chaplin. Objetos e situações aparentemente simples - como um caderno ou uma dor nas costas - assumem funções futuras imprevisíveis dentro da narrativa. Ele considera que, à primeira vista, o filme poderia parecer apenas um exemplo de domínio técnico voltado a um cinema mais acessível, semelhante a outras produções iranianas. No entanto, ele argumenta que o diretor já demonstrava pleno controle ao evitar amarrar a narrativa de maneira convencional, acreditando que, como em outras obras-primas de Kiarostami, o objetivo inicial do personagem não é alcançado, mas que, nesse percurso o filme alcança algo muito mais profundo e significativo.
Gardnier salienta que como é comum nos filmes de Kiarostami, a narrativa é desencadeada por um elemento de duplicidade: o caderno de Ahmad é idêntico ao de Mohammad, o que leva o protagonista a pegar ambos por engano. Ele explica que o professor já havia advertido Mohammad de que seria expulso caso esquecesse novamente o caderno, o que motiva Ahmad a tentar devolvê-lo. Com isso, mesmo sabendo pouco sobre o amigo, Ahmad decide atravessar uma parte distante da cidade para encontrá-lo, o que torna a busca difícil. No entanto, ao longo do filme, fica claro que o mais importante não é encontrar o amigo, mas sim o percurso em si e os passos necessários ao longo do caminho, independentemente do desfecho.
Ao final do filme, poucas questões se resolvem de maneira clara, caracterizando a obra como um conto de fadas às avessas. Ahmad percorre um caminho simbólico, como ir à “floresta”, mas não consegue encontrar o destino esperado, pontuando que a figura do guia, embora sábia, não é capaz de levá-lo ao objetivo desejado. O aprendizado central do filme então ocorre fora das instâncias tradicionais de educação e da autoridade. Figuras como o professor, a mãe e o avô acabam oferecendo ensinamentos desconectados das necessidades reais do menino, funcionando mais como agentes de deseducação. Isso transforma o filme numa crítica ao sistema social e educacional estabelecido, sugerindo que os verdadeiros processos de aprendizagem acontecem de forma transversal, nas relações entre iguais ou na experiência individual, apontando para uma espécie de anarquismo educacional ou, ao menos, para uma descrença nos modelos tradicionais de ensino reproduzidos pela sociedade.
Ao final, ele acrescenta que a obra de Kiarostami possui uma poesia seca e que, embora o texto privilegie as escolhas narrativas, isso não significa que o filme seja pobre formalmente - ao contrário, toda a sua força poética está em jogo. Ele destaca o despojamento narrativo como um dos elementos centrais do estilo do diretor; observa que a música, diferente do uso comum no cinema contemporâneo, aparece de forma discreta, servindo basicamente para acompanhar a movimentação de Ahmad em sua busca; e aponta que a fotografia e os enquadramentos seguem uma lógica de simplicidade, evitando qualquer virtuosismo técnico ostensivo, ainda que essa simplicidade exija grande elaboração.
Segundo o autor, o realismo de Kiarostami não é fácil, pois se constrói tanto pelo que é mostrado quanto pelo que é ocultado. O diretor tem um domínio excepcional do fora de campo, sendo um dos grandes cineastas nessa arte de sugerir mais do que exibir. Essa economia expressiva - próxima da ideia de enxugar a poesia - faz com que cada elemento em cena ganhe significado, levando o espectador a perceber o mundo com renovada atenção, considerando que Kiarostami alcança um estatuto semelhante ao de grandes cineastas como Kenji Mizoguchi, sendo capaz de criar uma sensação de realidade quase documental, mesmo através de elaborados artifícios cinematográficos.
O que disse a crítica 1: João Garção Borges da Magazine HD avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “’Onde Fica a Casa Do Meu Amigo?’ apresenta-se como um clássico indiscutível da filmografia de Abbas Kiarostami, rodado numa região que sofreu há uns anos (mais precisamente em 21 de Junho de 1990) um terremoto devastador em que morreram milhares de pessoas. (...) A obra possui mais do que suficientes razões para justificar uma descoberta. Em primeiro lugar, o muito jovem ator protagonista, Babek Ahmadpour, e a sua imperial capacidade de nos fazer sentir as mais profundas emoções. Depois, a direção de fotografia de Farhad Saba, cuja paleta de cores sobressai no restauro digital como se os fotogramas fossem pintados a pastel, cores de uma natureza que se perfila igualmente como personagem. E, sem sombra de dúvida, a realização e o argumento de um nome maior da história do cinema”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Para realizadores talentosos, não existem premissas simples: nas mãos de outra pessoa, um filme inteiro sobre um garotinho que tenta encontrar a casa do amigo para devolver o caderno que este esqueceu (o que despertará a ira do professor) poderia soar vazio; nas de Abbas Kiarostami, contudo, é uma jornada que beira o épico. Primeiro longa da trilogia Koker (vilarejo iraniano que hospeda a narrativa), ‘Onde Fica a Casa do Meu Amigo?’ compreende que, para um menino de 8 anos, a dimensão de uma missão corriqueira é similar à de, digamos, Ethan Hunt tentando encontrar uma bomba atômica. Protagonizado pelo carismático e expressivo garotinho Babek Ahmed Poor, o filme explora a geografia do vilarejo e o cotidiano de seus habitantes para formar um retrato humanista daquela comunidade humilde, de seu modo de vida e suas dificuldades. Sem jamais perder o fio principal. Em essência, porém, o longa deposita sua alma na persistência e na generosidade de seu pequeno protagonista, que através de gestos mínimos (diminuir o ritmo dos passos para acompanhar um velhinho; lavar a perna machucada de um amigo) se torna uma figura irresistível”.
O que eu achei: Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) é uma pequena pérola do cinema iraniano. Sua principal qualidade reside na capacidade de transformar uma premissa simples - a jornada de um menino de oito anos que precisa devolver um caderno - em um épico moral sobre amizade, empatia e ética. O filme contrasta a pureza e a responsabilidade da criança com a rigidez e a incompreensão do mundo adulto. O protagonista Ahmed embarca em uma verdadeira odisseia movido pelo senso de solidariedade, recusando-se a aceitar que o amigo seja punido pelo fato do caderno do colega ter ficado, por engano, com ele. Gravado na região rural de Koker, no interior do Irã, o filme utiliza atores não profissionais. Isso confere ao longa um tom documental, capturando a realidade local sem artificialidades, com um olhar poético e sensível. Kiarostami, que também é poeta, utiliza uma linguagem visual minimalista. Planos estáticos, caminhadas repetitivas pelas colinas e cores contrastantes elevam objetos cotidianos a símbolos de grande peso emocional. O protagonista enfrenta a indiferença de vizinhos e adultos, mas encontra nos mais velhos fragmentos de sabedoria. É uma ode à importância da atenção ao outro nesse mundo apressado em que vivemos, um conto humanista e encantador que encontra a imensidão da alma humana nos menores gestos cotidianos. Super recomendo.

5.7.26

“Luta de Classes” - Spike Lee (EUA/Japão, 2025)

Sinopse:
 Um magnata da música chamado David King (Denzel Washington), é alvo de um plano de extorsão que o deixará preso em um dilema moral. Ele é forçado a agir e dar tudo de si depois que o filho de seu amigo e motorista Paul Christopher (Jeffrey Wright) é raptado ao ser confundido com o seu filho Trey (Aubrey Joseph). King precisará descer do topo luxoso e privilegiado que conquistou para o asfalto de Nova York a fim de levar a recompensa em dinheiro para o sequestrador e aspirante a rapper Yung Felony (A$AP Rocky).
Comentário: Spike Lee (1957) é um cineasta, escritor, produtor, ator e professor norte-americano. Seu trabalho explora as relações raciais, o papel da mídia na vida contemporânea, o crime urbano, a pobreza e outras questões políticas. Vi dele a obra-prima “Faça a Coisa Certa” (1989), os ótimos “Malcolm X” (1992), "O Plano Perfeito" (2006) e "Infiltrado na Klan" (2018) e o bom “A Última Noite” (2002), dentre outros. Desta vez vou conferir “Luta de Classes” (2025).
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “Spike Lee tem uma relação desafiadora com adaptações de clássicos orientais. Sua versão americana de ‘Oldboy’ (2013) não conseguiu capturar toda a intensidade do thriller sul-coreano de Park Chan-wook. Agora, em ‘Luta de Classes’, o diretor reimagina Akira Kurosawa e finalmente parece ter encontrado o equilíbrio: ele pega os materiais originais - o longa ‘Céu e Inferno’ (1963) e o romance ‘King’s Ransom’, de Ed McBain - e imprime sua própria visão urbana da história, criando um thriller de gênero que só poderia ter saído de sua mente.
A história acompanha David King (Denzel Washington), um magnata da música em Nova York, que enfrenta o dilema moral de pagar um resgate quando o filho de seu motorista é sequestrado por engano. Lee transfere o núcleo do clássico japonês para as ruas da cidade de Nova York, transformando cada esquina, estação de metrô e bairro em parte da narrativa. A tensão não está apenas no resgate, mas também na desigualdade social e na hierarquia que permeia tanto a elite quanto as comunidades unidas que cercam King.
As relações de poder dentro dessas comunidades formam o coração pulsante do filme. Mesmo em ambientes marcados por laços de solidariedade e pertencimento, existem regras que definem quem decide e quem deve obedecer. Spike Lee explora com precisão como desigualdade social, hierarquia e expectativas culturais influenciam cada escolha e cada gesto dos personagens, mostrando que a união aparente não elimina a tensão entre interesses individuais e coletivos. Ao inserir essa análise em um thriller urbano, o diretor reafirma seu olhar atento sobre a vida negra na América, revelando que o poder é sempre relativo e que as estruturas sociais moldam, limitam e até mesmo protegem aqueles que nelas estão inseridos.
Denzel Washington conduz a narrativa com uma presença magnética e inabalável, tornando-se o eixo em torno do qual o filme gira. Diferente de Toshiro Mifune no original, cujo personagem era dilacerado por conflitos morais, seu David King age com convicção e firmeza, movido por fé e segurança em si mesmo, alheio às opiniões ou julgamentos alheios. A interpretação de Denzel combina autoridade natural, gestos intensos e uma energia que só ele poderia trazer, imprimindo ao personagem nuances de sua própria persona. Essa força não apenas sustenta a credibilidade do filme, mesmo em cenas mais exageradas ou cômicas, como também transforma King em um personagem memorável, capaz de equilibrar drama, tensão e carisma em cada cena.
Spike Lee se diverte imprimindo sua marca pessoal na narrativa, americanizando e colorindo o thriller com elementos da cultura de Nova York. O basquete aparece como referência constante - com provocações aos Celtics e menções ao time local -, enquanto a presença de Rosie Perez, sua parceira de ‘Faça a Coisa Certa’, e a eletrizante performance de Eddie Palmieri transformam uma cena de resgate em um verdadeiro espetáculo musical. Ao entrelaçar cidade, música e cultura pop, Lee dá à metrópole vida própria, tornando o filme não apenas tenso e envolvente, mas também vibrante, moderno e inconfundivelmente seu.
Tecnicamente, a trilha sonora sustenta o ritmo do filme, mesmo que em alguns momentos se sobreponha a diálogos importantes, reforçando a intensidade das cenas e a urgência das escolhas dos personagens. O clímax emocional chega com a canção final, ‘Highest 2 Lowest’, que dá nome ao filme no original e ressoa com os temas centrais de poder, ética e família, encerrando o filme com uma sensação de celebração e reflexão.
Em suma, ‘Luta de Classes’ não é apenas uma releitura de Kurosawa: é um thriller urbano completo, carregado de humor, crítica social e estilo autoral. Spike Lee mostra como é possível respeitar o material original e, ao mesmo tempo, transformá-lo, imprimindo sua visão de cidade e cultura nova-iorquina, criando uma obra contemporânea ao seu estilo”.
O que disse a crítica 1: Kevin Rick do site Plano Crítico avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “’Luta de Classes’ é um filme que diverte, que traz boas ideias visuais e que tem coragem de adaptar um clássico para outro contexto, mas que perde muito em consistência narrativa e em impacto dramático. A estrutura em blocos não se integra bem, a tensão se esvai e a performance central de Denzel, ao invés de elevar a obra, a torna mais ruidosa e menos crível. Ainda assim, há vigor em sua dimensão simbólica, há beleza em ver Spike Lee transformar a cidade em palco e há interesse em como o filme dialoga com questões de poder, dinheiro e pertencimento. O resultado é irregular, mas não desprovido de valor: uma obra que fascina no olhar, mas que deixa a desejar no coração”.
O que disse a crítica 2: João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Se Spike foi criticado por essa visão crítica do rap, comprovou mais uma vez que sua linguagem continua cutucando valores consolidados do establishment cultural negro nos EUA. No ambiente carregado de tensões raciais em que navega, não é pouca coisa, é na verdade uma empreitada cheia de riscos. É nesse sentido que Spike Lee é um cineasta eminentemente político, imerso no mundo do entretenimento, mas sempre agudo nas suas proposições. (...) [Além disso há] Denzel Washington em uma atuação impagável, cheia de improvisações, de pequenos gestos e expressões”.
O que eu achei: Trata-se de uma nova versão cinematográfica para o romance americano "King's Ransom" (1959) de Ed McBain. O título do livro é uma expressão idiomática em inglês que significa ‘uma quantia exorbitante de dinheiro’ ou ‘uma fortuna’. Seria o equivalente a dizer em português que algo vai ‘custar os olhos da cara’. O cineasta Akira Kurosawa já havia adaptado esse livro no filme "Céu e Inferno" (1963), cujo título foi traduzido para o inglês como "High and Low" (Alto e Baixo). A adaptação do Kurosawa é mais fiel ao livro pois conta a história de um executivo (Toshiro Mifune), que é designer de sapatos, e hipoteca tudo o que tem na tentativa de assumir a Companhia Nacional de Sapatos onde ele trabalha, mantendo a empresa fora das mãos dos outros executivos gananciosos que não se incomodam em fazer sapatos de baixa qualidade para obter lucros financeiros. Contudo, o dinheiro que ele arrecada pode pagar o resgate do filho de seu motorista que foi sequestrado. O filme envereda, então, nesse dilema moral entre salvar o rapaz ou comprar as ações da empresa. Nesta versão feita por Spike Lee as coisas são um pouco diferentes. Sob o título “Highest 2 Lowest” - que significa "Do Mais Alto ao Mais Baixo" - a trama mostra David King (Denzel Washington), um executivo da indústria fonográfica que é um famoso descobridor de talentos. Ele precisa reunir uma volumosa quantia para voltar a ser o acionista majoritário do selo onde trabalha e assumir o controle das decisões, porém o filho de seu empregado de confiança é sequestrado e ele precisará decidir se compra as ações ou paga o sequestrador. A versão do Kurosawa é mais contida e tem aquele charme dos anos 60, mas a do Spike Lee acaba sendo também interessante pois ele insere na discussão a vida dos negros norte-americanos e o contexto artístico e cultural de Nova York, reforçando o abismo social e o fluxo de influência e poder entre os diferentes extratos da sociedade. Estamos no século XXI, portanto temas como fama instantânea, mercantilização da arte e a relação de desconfiança da polícia para com os negros menos favorecidos são questões pertinentes. Como declarou Spike Lee em entrevistas, não se trata de um remake, mas de uma reinterpretação, marcada pela assinatura visual e sonora característica do cineasta. O resultado não é uma obra-prima como “Faça a Coisa Certa” (1989), “Malcolm X” (1992) ou "Infiltrado na Klan" (2018), mas também não é pouco inspirado como seus longas "Ela Quer Tudo" (1986), "Milagre em Santa Anna" (2008) e "Oldboy - Dias de Vingança" (2013). Este é um bom thriller, quase um blockbuster, gostoso de ver, bom para distrair, mas sem aquele peso político, a centelha subversiva e o frescor inconfundível que transformam seus melhores projetos em marcos do cinema.