22.6.26

"Bye Bye Brasil" - Cacá Diegues (Brasil, 1979)

Sinopse:
 
Salomé (Betty Faria), Lorde Cigano (José Wilker) e Andorinha (Príncipe Nabor) são três artistas ambulantes que cruzam o país juntamente com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. A eles se juntam o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e sua esposa Dasdô (Zaira Zambelli). A Caravana cruza a Amazônia até chegar a Brasília.
Comentário: Cacá Diegues (1940–2025), foi um roteirista, produtor, cineasta e escritor brasileiro. Um dos fundadores do movimento do Cinema Novo, Diegues participou de uma série de momentos distintos da história do cinema brasileiro, com uma obra que atravessou mais de 5 décadas de produção. “Bye Bye Brasil” (1979) é seu oitavo longa-metragem e o primeiro filme que vejo dele.
O site Wikipédia nos conta que “Bye Bye Brasil” narra a história de uma trupe de artistas mambembes, que roda com a Caravana Rolidei pelo interior do Brasil. O mágico Lorde Cigano (José Wilker), a 'rainha da rumba' Salomé (Betty Faria) e o homem-músculo Andorinha (Príncipe Nabor) chegam a uma cidadezinha do interior do Nordeste e encontram o sanfoneiro Ciço (Fábio Júnior) e sua mulher grávida, Dasdô (Zaira Zambelli). Esses se juntam à trupe e partem no caminhão para conhecer o país. Na cidade de Maceió, em Alagoas, Ciço vê o mar pela primeira vez; em um pequeno vilarejo, conhecem Zé da Luz (Jofre Soares), projecionista de filmes como “O Ébrio” (1946). Já no caminho para Altamira, no Pará, encontram índios que querem andar de avião e possuem rádios de pilha; em Altamira, perdem o caminhão em uma aposta, e Salomé tem de se prostituir. Em seguida, vão à zona de Belém, no Pará, brigam, separam-se e, por fim, reencontram-se em Brasília com Salomé e o Lorde Cigano, com novo caminhão, cheio de luzes, em direção a Rondônia.
No enredo, há ainda duas tramas importantes: o amor de Ciço por Salomé e o declínio de espectadores com a chegada da televisão. As antenas de TV, chamadas de 'espinhas de peixe' pela trupe, são o sinal da modernidade homogeneizante, que hipnotiza o público. A cena da população altamirense diante da televisão pública é real: foi vista pelo diretor durante viagem pelo interior de Alagoas, em 1973. Para o grupo de artistas, a sobrevivência é uma corrida contra o tempo, que se traduz em uma fuga pelo espaço. Sobre isso, o crítico de cinema David Neves (1938-1994) fala que “o Brasil é tão grande e desconhecido que o espaço vira tempo”.
A anacronia de índios portando rádios de pilha ou de televisores transmitindo apenas barras de cores em Altamira, pois o sinal televisivo não está presenta na cidade, é reforçada na canção-tema do filme: “Puseram uma usina no mar / Talvez fique ruim pra pescar / (...) No Tocantins / O chefe dos Parintintins / Vidrou na minha calça Lee”. Há uma contraposição constante entre arcaico e moderno, miséria e progresso, natural e artificial. Sobre isso, fala o diretor: “Botamos grua no sertão, traveling na Amazônia”. Além de máquinas importadas, a 'invasão' estrangeira é perceptível no título, no nome da caravana, nos dólares da fábrica flutuante de papel, na neve falsa caindo ao som de “White Christmas”. E também na música da discoteca em Belém, na novela “Dancing Days”, na interpretação do estadunidense Frank Sinatra para “Aquarela do Brasil” e na música-tema: ‘O Som é Que Nem os Bee Gees’; ‘Baby, Bye Bye’; ‘Eu Penso em Vocês Night and Day / Explica Que Tá Tudo Okay’.
Na época, alguns intérpretes do filme cobram do cineasta posicionamento mais crítico sobre o processo de modernização, na medida em que a essência capitalista predatória é avaliada como imutável.
O crítico Jairo Ferreira ataca o filme: “Diegues força a barra dessa esperança: seus personagens se arrumam na vida. Se adaptam ao sistema. ‘Bye bye’ parece um filme institucional”. Raquel Gerber tenta demonstrar a abordagem insuficiente da reação política de agentes sociais: “Diegues documenta o ‘crepúsculo de uma nação’ sem nunca discuti-lo a partir de novas formas vitais (...). O teatro de Diegues encena um encontro entre brancos, índios, um negro e as mulheres e desperdiça esse encontro”.
José Carlos Avellar (1936-2016), em posição conciliadora, admira “o que se passa lá no fundo da imagem”, sem impor-se ao olhar: o brinquedo na mão de um indiozinho, o cartaz da fábrica flutuante, a procissão na cidade seca, o casario à beira do rio, a floresta engolindo a estrada. Essa faceta documental do filme funciona como 'reflexo da realidade', e outro lado, que a ela se sobrepõe, “age como uma ficção, como algo ditado só pela emoção”, quase uma 'estorinha' de telenovela. Na metáfora do analista, o espectador tem a opção de ficar com um olho na TV e o outro na janela.
Avellar aponta o pragmatismo da obra de Diegues: o olho na janela persiste no desejo de captar a realidade brasileira, como o cinema novo, do qual Diegues é representante; o olho na TV assume os compromissos com o mercado, dos quais não se sai ileso. Um dos aparentes paradoxos – ou a 'atitude antropofágica da cultura brasileira', em conformidade com a temática do filme – é que, concomitantemente à crítica à televisão, o filme incorpora artistas e recursos simplificadores da narrativa televisiva. Além disso, é cofinanciado por Walter Clark, executivo da Rede Globo de Televisão, uma das criações do regime militar, segundo afirmação do próprio diretor.
“Bye Bye Brasil” consolida as discussões político-culturais que atravessam a década de 1970. A trilha sonora de Chico Buarque (1944) e Roberto Menescal (1937) também faz referência ao momento político e à contradição entre o moderno e o tradicional na cultura brasileira. Um ano antes da produção do filme, Diegues lança a polêmica sobre 'patrulhas ideológicas'. O diretor acusa alguns setores da esquerda de imporem, na redemocratização do país, 'um novo tipo de censura', uma 'espécie de autoritarismo cultural', em que se procura restaurar os anseios pré-golpe de 1964. O diretor reivindica pluralismo de pensamentos e pede para que enterrem a pedagogia revolucionária e a estética radical do cinema novo.
O longa torna-se o grande lançamento da Embrafilme, conquista vários prêmios em festivais nacionais e internacionais, repercute na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. O sucesso comercial está em sintonia com as declarações de Carlos Diegues: a devoção ao sofrimento, à razão e ao derrotismo deve ser substituída pelo prazer, pelo amor sem opressão e pela esperança no povo brasileiro do século XXI, para o qual o filme é dedicado.
O que disse a crítica 1: Frederico Franco do site Plano Crítico avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: "No final das contas, 'Bye Bye Brasil' torna-se um filme episódico pouco empolgante. As cidades visitadas pela caravana possuem seus próprios arcos narrativos que nascem tortos e terminam sem grandes conclusões. Por mais que a Caravana Rolidei siga seu caminho e veja de passagem as mudanças sociais do Brasil, seus personagens, por outro lado, não buscam deslocamento. Ou sequer são colocados frente a situações limítrofes. A caravana viaja enquanto sua tripulação para no tempo".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Mesmo após a dissolução do Cinema Novo, Cacá Diegues (um dos próceres do movimento) continuou dando voz e rosto aos que padecem à margem do progresso, expondo noutras chaves as mazelas de uma sociedade doente. Musicado pela virtuosa trilha sonora de Chico Buarque de Hollanda e Roberto Menescal, 'Bye Bye Brasil' guarda significâncias densas, extraídas de suas paisagens geográfica, social e afetiva. Possui rara beleza, não apenas por expor (no bom sentido) o sofrido povo tupiniquim, mas, sobretudo por fazê-lo graciosamente, tomado da incorrigível esperança dessa gente que, a despeito de todas as evidências, crê num sol capaz de nunca mais se pôr".
O que eu achei: Trata-se de um retrato singular de um país em transformação. Acompanhamos a Caravana Rolidei, formada por artistas mambembes como Lorde Cigano (José Wilker), Salomé (Betty Faria) e Andorinha (Príncipe Nabor), que cruzam o Brasil oferecendo números de mágica, dança, adivinhação e demonstrações de força enquanto tentam sobreviver em um cenário cada vez menos favorável ao seu ofício. A eles se juntam o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e Dasdô (Zaira Zambelli), casal de retirantes que passa a integrar essa jornada pelo interior do país. O road movie funciona como uma metáfora do choque entre tradição e modernidade. A caravana simboliza formas de entretenimento populares que começam a desaparecer diante do avanço da televisão, das antenas parabólicas e da cultura de massa. O Brasil rural, que durante décadas sustentou circos, cinemas itinerantes e trupes ambulantes, passa a consumir novelas, programas televisivos e música pop, alterando profundamente os hábitos da população. O percurso dos personagens também permite observar as contradições do chamado projeto de integração nacional promovido durante a ditadura militar. Ao atravessar regiões como a Amazônia e Altamira, o filme registra os efeitos da ocupação da fronteira amazônica impulsionada pela abertura da Transamazônica, antecipando discussões que décadas depois reapareceriam com a construção da usina de Belo Monte. O progresso surge como promessa, mas também como força capaz de apagar modos de vida e identidades culturais. A melancolia dessa transformação encontra eco na memorável canção-tema composta por Chico Buarque e Roberto Menescal. Menescal fez a música e Chico escreveu a letra – impecável como sempre - quando o filme já estava praticamente montado, incorporando imagens e situações vistas na moviola, como a chegada da televisão ao sertão e as mudanças provocadas pelas grandes obras de infraestrutura. Pode-se argumentar que falta ao longa uma crítica mais contundente ao contexto político da época. Ainda assim, sua força permanece intacta como documento histórico e cultural. Entre o humor, a aventura e a nostalgia, “Bye Bye Brasil” captura com rara sensibilidade um momento em que um país se despedia de um passado sem saber exatamente o que encontraria pela frente.

21.6.26

“Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola” - Rungano Nyoni (Irlanda/Reino Unido/EUA/Zâmbia, 2025)

Sinopse:
Dirigindo em uma estrada deserta no meio da noite, Shula (Susan Chardy) encontra um corpo, que acaba por descobrir ser de seu tio Fred (Roy Chisha). Ela parece mais chateada com o inconveniente do que triste com a descoberta. Quando os procedimentos para o funeral começam, com a reunião de todos os parentes, vêm à tona segredos e silêncios misteriosos dessa família de classe média da Zâmbia.
Comentário: Rungano Nyoni (1982) é uma cineasta e roteirista zambiana. São dela os curtas “20 Questions” (2009), “The List” (2009), “Mwansa the Great” (2011) e “Listen” (2014) e o longa “Eu Não Sou uma Bruxa” (2017). “Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola” (2025) é o primeiro filme que vejo dela.
Bedatri D. Choudhury do site Reverse Shot publicou: “Nos países africanos, onde as galinhas-d'angola são endêmicas, elas são frequentemente criadas como animais de estimação. As aves vasculham o esterco e se alimentam de carrapatos, larvas e outros parasitas, ajudando a manter o equilíbrio ecológico entre vida e morte, saúde e doença.
Em ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola’, de Rungano Nyoni - uma história sobre uma família zambiana de mulheres que lamenta a morte de um parente enquanto confronta o legado de abusos que ele deixa - a metáfora é bastante evidente.
A protagonista Shula (Susan Chardy) faz sua aparição vestida como Missy Elliott no videoclipe de ‘The Rain’ - um macacão preto volumoso e um capacete cravejado de joias, combinados com óculos escuros. Quando ela tira os óculos para ligar para o pai, sua sombra dourada brilha no escuro. ‘Encontrei o corpo do tio Fred na Kulu Road’, ela diz a ele com a maior seriedade. Seu pai, visivelmente bêbado, não lhe oferece nenhuma ajuda, o que estabelece o tom da masculinidade inepta, porém tagarela, que veremos ao longo do filme.
As mulheres - todas irmãs do falecido, tias e mães de Shula e suas primas - rapidamente iniciam os rituais de luto, recorrendo a uma tradição secular, seguindo um protocolo rigoroso por um período determinado antes que a vida volte ao normal. Elas se jogam no chão, lamentam, envergonham Shula por não chorar, repreendem a jovem viúva de Fred (interpretada por Norah Mwansa) por não chorar o suficiente, enquanto discutem os assuntos de outras mulheres e navegam pelas fotos do Facebook. Elas cozinham, limpam, preparam-se para o funeral enquanto os homens apenas sentam e fazem os pedidos do jantar: alguém quer mais carne, outro quer mais molho.
Lembro-me do estado de Rajasthan, no oeste da Índia, e da prática de famílias de castas superiores contratarem mulheres para lamentar, chamadas rudaali. Como é considerado inadequado para mulheres de famílias de castas superiores demonstrar luto em voz alta em público, as rudaalis, todas mulheres de castas inferiores, são contratadas para chorar e lamentar em voz alta em nome da família. Representar o luto, em diferentes regiões da diáspora, é essencialmente um trabalho feminino, e sua natureza específica é ditada pela classe social e pela casta. A família de Shula é nitidamente de classe alta e, portanto, todo o luto, praticado por suas mulheres, precisa necessariamente proteger a ‘honra’ da família. A família da viúva, de posição social inferior, nunca pode demonstrar luto ‘corretamente’. Quando ela não chora, é considerada insensível. Quando chora, é comparada a uma vaca e a um mosquito.
Como logo descobrimos, todos na família sabem que o tio Fred era um abusador em série muito odiado, que violentou Shula e suas duas primas, Nsansa (Elizabeth Chisela) e Bupe (Esther Singini), quando eram crianças. Mas essa é uma verdade dificilmente enfrentada. Em meio ao luto performático, Nsansa questiona por que a família continua a lamentá-lo. As práticas de luto das mulheres mais velhas tornam-se menos um meio de mitigar a dor do presente do que uma ferramenta para negar o passado e perpetuar e manter o mito de uma família unida e feliz. A performance do luto se transforma em uma supressão que alimenta a conspiração do silêncio. Com a morte de Fred, a geração mais jovem vivencia um luto devastador e complexo que não pode ser aplacado por rituais. Ao mesmo tempo, elas lamentam uma infância para sempre alterada por um ato de violência, enquanto tentam manter a convenção social que o luto coletivo dita. De certa forma, elas também lamentam por suas mães e por toda uma geração que constantemente e impotente acredita em uma falácia. Shula, Nsansa e Bupe também lamentam a perda de um senso de identidade, pois a morte alterou para sempre suas vidas e a maneira como interagem.
‘Sobre Tornar-se uma Galinha d’Angola’ é um filme complexo, cujas camadas são tão densas que seriam impenetráveis ​​não fosse o talento de Nyoni para o humor negro, as imagens fantásticas e sua raiva fervilhante contra um patriarcado que cooptou as mulheres para serem suas soldados rasas. Nyoni conta a história com uma seriedade constante - o corpo do tio aparece na escuridão sem qualquer preparação. Em outra cena, Shula e Nsansa encontram Bupe desmaiada, aparentemente após uma tentativa de suicídio, em seu quarto no dormitório, e o chão está alagado. O espectador não é levado a saber de onde veio a água; o que importa é que o interior do dormitório parece um útero do qual essas três mulheres reemergem, renascidas para uma nova fase de suas vidas, livres do espectro ameaçador de Fred.
Por mais que os rituais busquem trazer um senso de encerramento à experiência da perda, o próprio ato de luto permanece complexo e doloroso no filme de Nyoni. Ao mesmo tempo sufocante - com a casa se enchendo de multidões em prantos e as mulheres tentando alimentar os convidados - e libertador, a performance do luto finalmente permite que Shula e suas primas tenham o tempo e o espaço para falar sobre antigas feridas.
A estudiosa de gênero e filósofa Judith Butler, escrevendo após a epidemia de AIDS, afirmou ‘sobre minorias de gênero e sexuais’ que ‘nós, como comunidade, estamos sujeitos à violência, mesmo que alguns de nós não a tenham sofrido diretamente’. Em seus trabalhos posteriores, Butler expande essa ideia de comunidade para incluir minorias políticas e questiona o que torna certos tipos de vidas dignos de luto em comparação com as mortes que prontamente aceitamos e superamos.
O que ou quem é lamentado é uma questão que também pode surgir quando olhamos para a família de Shula. É o abusador que é lamentado, e não os anos de trauma que as sobreviventes suportaram. O luto resultante de Shula e suas primas por suas perdas acumuladas é o que, segundo Butler, torna alguém vulnerável, mas de uma forma muito pública – ‘ao mesmo tempo assertiva e visada’. A saída para um luto como esse, onde ‘uma ‘recuperação’ completa é impossível’, é através da formação de uma nova agência política, diz Butler. Essa agência, em ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d’Angola’, surge do parentesco que as primas formam, não influenciado por suas idades ou diferenças em suas personalidades, mas fortalecido pela complexa perda que compartilham.
Shula e suas primas se apropriam da cozinha - o centro da vida doméstica tradicional e da feminilidade - e criam um espaço para sentar, beber, fumar e, principalmente, confraternizar. As mães e tias que povoam o mundo fora desse canto da cozinha mantêm um silêncio sagrado, recusando-se a confrontar o fato de que seu irmão falecido havia abusado sexualmente de suas filhas. Mas o canto da cozinha se torna um espaço onde esse silêncio é rompido, histórias são compartilhadas e conhecimento é adquirido. Esse espaço liminar de parentesco se torna tão perigoso para o status quo que as mães conspiram para chantagear emocionalmente as primas mais novas até que elas quase sucumbam.
A família, unida por um silêncio forçado e pela negação do passado, explode em fúria e raiva apenas quando seus membros encontram os familiares da viúva. A devassidão do falecido é atribuída à falta de amor da viúva; sua família pede desculpas pela vergonha que ela lhes causou. São solicitados a pagar uma indenização para compensar as falhas da viúva - uma quantia que só podem arcar parcialmente. Vestidas de seda e pérolas, as tias de Shula desenterram o trauma para provar que a viúva não merece nada da herança de Fred. As mesmas mulheres que negavam o passado agora o utilizam para alimentar sua disputa mercenária, que atinge o ápice quando ambos os lados começam a brigar por cobertores e outros pertences insignificantes.
Em meio à cacofonia selvagem, ouvimos o grito de uma galinha-d'angola ao longe. Isso me lembra uma cena antiga em que Shula, ainda adolescente, assiste a um episódio de Farm Club, um programa infantil educativo em que os jovens apresentadores ensinavam seus telespectadores sobre a vida selvagem africana. As galinhas-d'angola são criaturas falantes, dizem eles; gritam para alertar os outros membros do bando sobre perigos iminentes. Seus bicos vasculham a sujeira, pescando parasitas que adoecem os humanos, alimentando-se da imundície para purificar o mundo da maldade.
O sobrenatural em ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d’Angola’ é apresentado sem qualquer alarde. Bupe é hospitalizado, mas se recupera em poucos minutos, aparecendo em dois lugares ao mesmo tempo; mulheres se transformam em pássaros e grasnam de raiva; mães irrompem em uma canção em meio ao choro. Embora muitos críticos possam ser tentados a definir o filme como ‘realismo mágico’, devemos reconhecer que o conceito tem sido continuamente mal interpretado e mal utilizado por críticos e jornalistas ocidentais, que por décadas o usaram como um termo genérico para tramas complexas e não lineares que nem sempre se encaixam nas estruturas narrativas de três atos.
Tanto em ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d’Angola’ quanto em ‘Eu Não Sou Uma Bruxa’, filme anterior de Nyoni, as mulheres são incumbidas de trabalhar arduamente e trazer normalidade a um mundo desequilibrado, optando por buscar outros planos de existência para forjar laços e formar comunidades. O ato de equilibrar o pessoal e o sociofamiliar torna-se tão avassalador que os filmes só podem transgredir o reino do humano. Ao rejeitar os limites da sociedade humana e sua crueldade, as mulheres de Nyoni encontram a libertação. Pode parecer mágica, mas é tudo muito real, conquistado através do trabalho árduo e das lágrimas”.
“Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola” lhe rendeu o prêmio de Melhor Direção - Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2024.
O que disse a crítica 1: Marcio Sallem do Cinema com Crítica avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “A narrativa tem a chancela da A24, que, hoje em dia, parece-me uma informação relevante a ser incluída em um texto crítico, e uma abordagem de uma temática até recorrente dentro do cinema contemporâneo, mas realizada por um ângulo original e envolvente. Como disse, é igual à areia movediça, logo quando pisamos, não somos mais capazes de sair sem a ajuda de alguém do lado de fora, e isto fala muito (...) sobre o poder deste drama”.
O que disse a crítica 2: Monica Castillo do site Rober Ebert deu o equivalente a 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “‘Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola’ é um filme desconfortável, mas fascinante, uma homenagem ao rompimento do silêncio em torno de segredos de família e à transgressão da tradição em nome da empatia. Nyoni e o diretor de fotografia David Gallego evocam sonhos e drama com igual facilidade e eficácia. Gallego, que anteriormente filmou obras deslumbrantes como ‘O Abraço da Serpente’, ‘Pássaros de Verão’ e "Eu Não Sou Uma Bruxa’, borra a linha entre realidade e percepção para imergir o público na experiência de Shula. Se cada mulher no filme é forçada a tomar uma decisão com o conhecimento que possui, o público também deve decidir por si mesmo como ‘Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola’ o afetará na próxima vez que presenciar seus familiares em erro”.
O que eu achei: “Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola” é a tradução para o português do título “On Becoming a Guinea Fowl”, um filme que se passa na Zâmbia e é falado em inglês e no idioma local bemba. A trama começa quando uma jovem zambiana retorna de uma festa à fantasia e encontra, no meio da estrada, o corpo de seu tio Fred. A partir daí, iniciam-se os rituais de luto que reúnem seus familiares com presença majoritariamente feminina. Se, por um lado, as mulheres mais velhas lamentam e reverenciam a morte de Fred, por outro, as mais jovens são obrigadas a confrontar o legado de abusos que ele deixa para trás. É nesse contexto que a metáfora presente no título se revela. As galinhas d’angola são aves silvestres endêmicas da África Subsaariana que vivem em bandos e desempenham um papel importante no equilíbrio ecológico. Como passam boa parte do tempo ciscando o chão e o esterco em busca de alimento, ajudam a eliminar larvas, insetos e carrapatos. O filme faz algo semelhante: quanto mais revira esse mar de lama familiar, mais expõe as larvas, insetos e carrapatos que são os atos cometidos por Fred. A diretora investiga os conflitos entre tradição, religião e trauma geracional, revelando a hipocrisia de preservar e homenagear alguém que não merece respeito algum. O que está em jogo não é apenas a violência em si, mas a forma como ela é normalizada, ocultada e perpetuada pelas mesmas pessoas que deveriam combatê-la. O horror do filme nasce justamente dessa indiferença coletiva. Mas existe ainda outra característica das galinhas d’angola que torna o título especialmente preciso. Elas possuem um instinto extremamente vigilante e funcionam como um verdadeiro sistema de alarme natural. Ao perceberem a aproximação de predadores ou invasores, emitem gritos altos e estridentes, alertando todo o grupo. Vivendo em bandos, cercam a ameaça e produzem um alvoroço coletivo capaz de afastar o perigo. “On Becoming a Guinea Fowl” é, em última instância, sobre isso. Sobre mulheres que sofreram abusos em silêncio, sem jamais alertarem umas às outras sobre os perigos que existiam dentro da própria família. E sobre a necessidade urgente de romper esse silêncio. Excelente pedida.

15.6.26

"Ben-Hur" - William Wyler (EUA, 1959)

Sinopse:
Ben-Hur (Charlton Heston) é um mercador judeu que, após um desentendimento, é condenado a viver como escravo por um amigo de juventude, Messala (Stephen Boyd), que é o chefe das legiões romanas da cidade. Mas uma surpreendente oportunidade de vingança surge de onde ele menos espera.
Comentário: Trata-se do filme número 83 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "'Ben-Hur' é um filme grande sob todos os aspectos. Além das suas três horas e meia de duração, os números de produção impressionam ainda hoje. O orçamento total foi de US$ 15 milhões (o longa mais caro já feito, até então), e a bilheteria, de mais de US$ 70 milhões só nos Estados Unidos, tirou a MGM do buraco. Foram utilizados 100 mil figurinos e 300 sets construídos. A emblemática cena da corrida de bigas exemplifica o espírito grandioso: sua filmagem durou três meses e exigiu a presença de 8 mil extras em uma arena construída em um ano, ao custo de US$ 1 milhão. Uma meticulosidade típica de William Wyler, por anos tido injustamente como um diretor sem personalidade; um artesão, não um autor. A história da vingança do escravo Ben-Hur (Charlton Heston, que ganhou o papel após recusa de Burt Lancaster e Paul Newman) contra seu traidor e ex-amigo Messala (Stephen Boyd), cheia de referências bíblicas e à vida de Cristo, foi adaptada do romance homônimo do general americano Lew Wallace. Até a versão final, 40 roteiros diferentes foram trabalhados (um dos roteiristas não-creditados é o escritor Gore Vidal). O filme detém até hoje o recorde de 11 estatuetas do Oscar, número só igualado por 'Titanic' (1997) e pela terceira parte da trilogia 'O Senhor dos Anéis' (2003). Entre os prêmios, o de Melhor Ator, Diretor, Fotografia, Montagem e Efeitos Especiais. Fora a influência que exerceu sobre praticamente todos os épicos feitos posteriormente, de 'Spartacus' (1960) a 'Gladiador' (2000)".
O que eu achei: Trata-se da adaptação do livro "Ben-Hur: Uma História dos Tempos de Cristo", escrito pelo general e autor americano Lew Wallace e publicado originalmente em 1880. O filme, com 3h32m de duração, conta a história de Judah Ben-Hur, um príncipe e rico comerciante judeu. Sua vida muda drasticamente com o retorno para a cidade de seu amigo de infância, o romano Messala, que agora é o novo comandante militar da região. Por conta de seu cargo, Messala exige que Ben-Hur denuncie os judeus que se opõem ao Império Romano, mas Ben-Hur se recusa a trair seu povo e a forte amizade logo se transforma em rivalidade. Por conta de um acidente doméstico que quase mata o governador, Ben-Hur, com um empurrãozinho de Messala, é condenado à escravidão nas galés (navios de guerra) e sua mãe e irmã são presas. Mas o mundo dá voltas e Ben-Hur terá a oportunidade de retornar à Judeia e se vingar de Messala numa corrida de bigas. O subtítulo do livro original - Uma História dos Tempos de Cristo - reflete o pano de fundo do filme. Jesus Cristo aparece em momentos cruciais da vida de Ben-Hur, dando água a ele, pregando nos campos, ou mesmo sendo julgado e crucifixado. Mas o personagem Ben-Hur nunca existiu de fato. Ele é 100% fictício, tendo sido inserido num cenário político real que foi o Império Romano, juntamente com figuras históricas que realmente existiram como o próprio Jesus, o governador romano Pôncio Pilatos e o imperador Tibério César. É daqueles filmes grandiosos, não só no tempo de duração como também nos cenários - a arena da corrida de bigas, por exemplo, ocupava 73 hectares, tinha arquibancadas de 5 andares e usou mais de 40 mil toneladas de areia branca trazida do Mediterrâneo -; um mar de figurantes e milhares de figurinos, além do orçamento astronômico. Ganhou 11 Oscars, incluindo Melhor Trilha Sonora para o compositor húngaro Miklós Rózsa, não vencendo justamente na categoria Melhor Roteiro Adaptado. Uma curiosidade é que essa versão clássica de 1959, com direção de William Wyler, estrelada por Charlton Heston, não foi a primeira e nem a última. O livro de Lew Wallace foi adaptado para o cinema mudo em 1907 e 1925, e ainda ganhou um novo remake em 2016. Não é o estilo de filme que eu prefiro ver, mas vale pela curiosidade.

14.6.26

"A Garota Canhota" - Shih-Ching Tsou (Taiwan/França/EUA/Reino Unido, 2025)

Sinopse:
Uma mãe solteira (Janel Tsai) e suas duas filhas (Nina Ye e Ma Shih-Yuan) retornam a Taipei após anos vivendo no interior para abrir uma barraca em um movimentado mercado noturno. Mas quando o avô tradicional (Akio Chen) proíbe sua neta mais nova, canhota, de usar sua “mão do diabo”, segredos de família transmitidos por gerações começam a vir à tona.
Comentário: Shih-Ching Tsou é uma produtora cinematográfica taiwanesa-americana, colaboradora de longa data de Sean Baker. "A Garota Canhota" (2025) é seu primeiro longa como diretora, onde ela também fica responsável pela produção e pelo roteiro. Sean Baker entra como corroteirista, produtor e editor.
Edipo Pereira do site Cosmo Nerd nos conta que "O cinema de Shih-Ching Tsou retorna com força em 'A Garota Canhota' (2025), longa que marca sua estreia solo na direção após anos de colaboração com Sean Baker - vencedor do Oscar por 'Anora'. O novo filme, coescrito por ambos, estreou em festivais internacionais e chega (...) apresentando uma história sobre sobrevivência, afeto e resiliência feminina ambientada nas ruas de Taipei.
A trama acompanha Shu-Fen (Janel Tsai) e suas filhas, I-Ann (Shih-Yuan Ma) e I-Jing (Nina Yeh), enquanto tentam recomeçar a vida na capital taiwanesa. Após se mudar para Taipei, Shu-Fen abre uma barraca de macarrão em um movimentado mercado noturno, mas enfrenta as dificuldades de sustentar duas filhas sozinha e de lidar com os próprios pais, que vivem próximos.
A filha mais velha, I-Ann, abandonou a escola e trabalha vendendo noz de betel, em um ambiente hostil e machista. Já a pequena I-Jing, curiosa e imaginativa, tenta compreender o mundo ao seu redor e desafia as superstições do avô, que considera sua canhotice um sinal negativo.
A rotina dessas três mulheres é atravessada por questões de classe, tradição e independência - temas que Shih-Ching Tsou retrata com sensibilidade e naturalismo.
Desde 'Take Out' (2004), seu primeiro trabalho em parceria com Sean Baker, Tsou vem explorando personagens à margem, retratando a solidariedade e o calor humano que emergem mesmo nas condições mais duras. Em 'A Garota Canhota', essa abordagem reaparece com força. Cada personagem enfrenta obstáculos pessoais, mas a diretora mostra como pequenos gestos de bondade e amor tornam possível suportar as adversidades.
O roteiro alterna as perspectivas das três protagonistas (...), permitindo que cada jornada ganhe peso próprio. Shu-Fen representa a exaustão materna diante da pressão econômica; I-Ann vive o conflito entre liberdade e responsabilidade; e I-Jing, com seu olhar infantil, traduz o espírito de descoberta que permeia o filme. Essa estrutura reforça a ideia de que, apesar das gerações e das diferenças, todas compartilham o mesmo desejo de encontrar um lugar no mundo.
Filmado com iPhone, o longa se destaca pelo impacto visual. Tsou utiliza as luzes de néon de Taipei e as cores vibrantes dos mercados noturnos para compor uma estética que combina realismo e lirismo. A cidade surge como um personagem vivo, repleta de sons, cheiros e movimento, refletindo tanto o caos urbano quanto a ternura dos vínculos familiares".
O que disse a crítica 1: Francisco Carbone do Cenas de Cinema avaliou com 1,5 estrelas, ou seja, sofrível. Segundo ele, tirando o fato da atriz mirim Nina Ye, de 9 anos, ser uma imensa atriz, o filme é basicamente um remake da obra "Projeto Flórida" do Sean Baker. Além disso ele achou "a construção dos personagens adultos carregada de incômodos, estereótipos e idiotices que nos fazem afastar de qualquer maior contato com a obra, por mais saborosa que seja sua forma. Em vários momentos, tudo não se distancia de um dramalhão mexicano dos anos 90, incluindo vários acessos de orgulho inexplicável, e uma condução de maternidade que nunca avança para além do questionável. Egoísmo em doses cavalares não são características pouco ricas para preencher um personagem, mas quando tais amarrações fazem perder o sentido do todo, é que já passou do momento onde a coerência pode ser dispensada. Mais um valor que o filme não consegue abrir mão são dos valores ocidentais de molde cinematográfico, a começar pelo uso estridente de trilha sonora".
O que disse a crítica 1: Giancarlo Galdino da Revista Bula avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "As agruras das três [mãe e filhas] ganham tintas mais ou menos sombrias, que ficam mais evidentes depois que Shu-Fen [recebe uma notícia bombástica sobre seu ex-marido]. As reações da mãe e da filha mais velha I-Ann são diametralmente opostas, ideia que Tsou faz crescer numa cena tão despretensiosa quanto vívida, dando a Janel Tsai e Ma Shih-yuan farto material para garantir o excelente padrão até o desfecho".
O que eu achei: Trata-se de um longa dirigido pela cineasta taiwanesa-americana Shih-Ching Tsou, colaboradora de longa data de Sean Baker que entra aqui como corroteirista, produtor e editor. Há muito de Sean Baker no filme. Em primeiro lugar ele foi filmado com um iPhone, assim como ele fez em Tangerine (2015). Outra semelhança diz respeito à trama que lembra muito seu filme “Projeto Flórida” (2017) no qual uma garotinha de seis anos vive com a mãe numa hospedagem de beira de estrada e as duas contam com a proteção do gerente desse hotel na batalha diária pela sobrevivência com poucos recursos. Neste temos uma garotinha de nove anos que se muda para Taipei com sua mãe e irmã. A mãe abre uma barraca de macarrão no mercado noturno, enquanto a irmã consegue um emprego como vendedora de nozes. Quem vai ajudá-las nessa luta pela sobrevivência é o vizinho de barraca da mãe. Ocorre que a garotinha de nove anos é canhota, algo mal-visto pelo seu avô que logo explicita a superstição de que canhotos carregam a 'mão do diabo'. Uma breve pesquisa mostrou que, de fato, essa superstição existe. Começou no ocidente mas logo foi absorvida por sociedades tradicionais asiáticas. A própria diretora revelou em entrevistas que a cena do avô repreendendo a neta foi baseada em sua própria experiência real de infância já que quando tinha 14 anos seu avô a censurou rigidamente ao vê-la segurar uma faca com a mão esquerda, repetindo o mito de que aquela era a mão do demônio. Claro que essa crença afeta profundamente a criança, que passa a enxergar sua própria mão esquerda como responsável por impulsos que ela não controla, como executar pequenos furtos ou ser responsável pela morte acidental de seu animal de estimação. A menina chega a amarrar a mão com um pano, tentando evitar que ela 'aja sozinha'. Apesar da premissa interessante o filme não consegue desenvolver de forma satisfatória os conflitos que apresenta. A ideia de uma criança que internaliza uma superstição a ponto de atribuir à própria mão esquerda uma espécie de vontade maligna abre espaço para uma investigação psicológica rica, mas o roteiro prefere apenas sugerir essas questões sem aprofundá-las. Também falta unidade narrativa. O filme alterna entre a história da garota, as dificuldades financeiras da mãe, a adaptação da família à vida em Taipei e os problemas da irmã mais velha, mas raramente consegue integrar esses elementos em um conjunto coeso. O resultado é um filme simpático, mas que acaba parecendo uma versão menos inspirada dos trabalhos que claramente o influenciaram.

13.6.26

“Elio” – Adrian Molina, Madeline Sharafian & Domee Shi (EUA, 2025)

Sinopse:
Elio é um menino extremamente sonhador, artístico e criativo. Sua dificuldade em se encaixar o torna um garoto solitário, mas muito imaginativo. Sua fascinação pelo espaço e sua obsessão por aliens e vida fora da Terra acabam o levando por engano para Comuniverso, um reino onde opera uma organização interplanetária que abriga representantes de múltiplas e diferentes galáxias. A aventura dos sonhos de Elio começa e rapidamente ele é confundido pelas criaturas como o embaixador e líder da Terra. A partir daí, o menino precisa superar confusões e crises intergalácticas, formar laços com vidas alienígenas e descobrir quem ele realmente é e qual é o seu verdadeiro destino.
Comentário: Jaume Figa Vaello da Aceprensa publicou na Gazeta do Povo: “Elio tem onze anos, uma imaginação sem limites e uma certeza inabalável: não estamos sozinhos no universo. Incompreendido pelo ambiente que o cerca, seu maior desejo é um dia ser abduzido por alienígenas, pois acredita que nada o fará mais feliz. (...)
A Pixar mais uma vez faz o que sabe fazer de melhor: abordar temas profundos com naturalidade e uma abordagem aparentemente direta, mas que, na verdade, é avassaladora. Elio gira em torno de identidade e pertencimento, do desejo de ser reconhecido e aceito, e também aborda – com toques cativantes – a importância da família, da amizade e do papel insubstituível dos pais. Basta pensar em uma cena-chave do filme em que a reação de um pai malvado diante do filho tem impacto devastador.
O projeto foi iniciado por Adrián Molina (um dos roteiristas de ‘Viva – A Vida É uma Festa’, ao lado de Lee Unkrick), mas acabou nas mãos de Madeline Sharafian (do curta-metragem ‘Burrow’) e Domee Shi (diretora de ‘Red: Crescer É uma Fera’ e do curta-metragem vencedor do Oscar ‘Bao’), que codirigem com o próprio Molina. O resultado, como costuma acontecer com filmes que trocam de diretor no meio da produção, é um quebra-cabeça um tanto desconexo.
A estrutura narrativa lembra ‘Up: Altas Aventuras’ e ‘WALL-E’, com personagens principais bem desenvolvidos. No entanto, os personagens secundários são um tanto confusos, e a história geral não consegue atingir a emoção ou a profundidade das animações já citadas. Visualmente, ‘Elio’ herda a espetacularidade técnica de ‘Lightyear’, e o enredo ecoa a profundidade de ‘Interestelar’. Não faltam referências cinematográficas a filmes dos anos 1980, de ‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’ à série de filmes de terror ‘Alien’, sempre temperadas com um humor terno e envolvente”.
O que disse a crítica 1: Iuri Biagioni Rodrigues do site Desenhando Recordatórios avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Quando a narrativa parece avançar para algo mais interessante e complexo, acaba tropeçando e seguindo o caminho fácil. Assim, surgem situações mais óbvias, como os líderes do Comuniverso descobrindo as mentiras de Elio, Olga percebendo que tem um clone de seu sobrinho e decidindo procurar o verdadeiro sobrinho, Grigon aceitando o desejo de seu filho muito facilmente e Elio fazendo as pazes com sua tia. Faltou coragem e ousadia para os diretores e roteiristas irem além do esperado, entregando um filme mais emotivo e sério. (...) Em síntese, ‘Elio’ é um filme divertido que conta uma história bacana sobre amizade, amadurecimento e aceitação, mas não tem a mesma magia e profundidade dos filmes da Pixar de outrora”.
O que disse a crítica 2: Diego Souza Carlos do site Adoro Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Em determinado trecho do filme, um personagem fala ‘Eu talvez não te entenda, mas eu te amo’, e talvez essa cena seja o suficiente para condensar o poder narrativo da Pixar em ‘Elio’. A grandiosidade visual é, sim, estonteante, mas nada seria impactante se não fosse possível conectar o que vemos ao que sentimos. Por sorte, essa aventura consegue fazer essas pontas se conectarem a partir de um personagem imperfeito, adorável e identificável, pois todos nós já sentimos um vazio insuportável a ponto de procurar respostas nos lugares mais improváveis”.
O que eu achei: Com “Elio” (2025), a Pixar volta a apostar na ficção científica para contar uma história sobre pertencimento, solidão e amizade. A premissa é promissora: um garoto fascinado pelo espaço consegue ser abduzido por alienígenas, mas acaba sendo confundido por uma assembleia interplanetária como representante oficial da Terra. O ponto de partida tem o tipo de imaginação que marcou alguns dos melhores momentos do estúdio, mas o resultado final está longe de atingir o mesmo nível. Visualmente, o filme é impecável. Os cenários alienígenas, as criaturas extraterrestres e a riqueza de cores demonstram mais uma vez o extraordinário domínio técnico da Pixar. Há sequências de grande beleza visual e alguns personagens secundários bastante carismáticos, especialmente entre os habitantes do universo cósmico apresentado pela narrativa. O problema está na construção da história. Como costuma acontecer com produções que passam por mudanças significativas durante o desenvolvimento, “Elio” transmite a sensação de ser um quebra-cabeça montado a partir de peças concebidas em momentos diferentes. O filme teve troca de diretores durante a produção, e isso parece refletir em um roteiro que oscila de tom, introduz ideias interessantes que nem sempre são aprofundadas e apresenta conflitos que por vezes parecem desconectados entre si. A sensação é de que existem vários filmes tentando coexistir dentro de um só: uma aventura espacial, um drama familiar, uma história sobre amadurecimento e uma comédia. Individualmente, muitos desses elementos funcionam; juntos, nem sempre encontram harmonia. Isso não significa que a animação seja completamente ruim. Há emoção, humor e mensagens positivas capazes de envolver o público mais jovem. No entanto, falta aquela magia especial que transformou produções como “Up - Altas Aventuras”, “Divertida Mente” ou “Soul” em experiências memoráveis. Simpática e visualmente encantadora, “Elio” é uma animação irregular que, entre os bons momentos e as oportunidades desperdiçadas, deixa a impressão de um filme agradável, porém distante do que a Pixar já foi capaz de entregar.

8.6.26

“Profissão Repórter” - Michelangelo Antonioni (Itália/França, 1975)

Sinopse:
David Locke (Jack Nicholson) é um jornalista em crise tentando finalizar um documentário sobre a guerra civil no Chade. Para escapar da situação em que se encontra, ele acaba assumindo a identidade de um homem que morreu. Mas a nova vida acaba tomando um rumo inesperado quando Locke descobre que esse homem que ele finge ser era um traficante de armas envolvido em negócios com os combatentes rebeldes do Chade.
Comentário: Michelangelo Antonioni (1912-2007) foi um diretor de cinema italiano. Assisti dele a obra-prima "Blow Up - Depois Daquele Beijo" (1966), o excelente "Zabriskie Point" (1970) e o bom “A Dama sem Camélias” (1953), além de “A Aventura” (1960) e “Deserto Vermelho” (1964). Desta vez vou conferir “Profissão Repórter” (1975).
O site CPC-UMES publicou: “O filme conta a história de David Locke (Jack Nicholson), um jornalista em crise, tentando finalizar um documentário sobre a guerra civil no Chade, mas faz pouco progresso na história. Após ser abandonado pelo seu guia, ele entra em crise, se vendo cansado do trabalho, do casamento e da vida. Locke consegue voltar ao hotel e procura por David Robertson (Charles Mulvehill), que estranhamente é muito parecido fisicamente com ele. Robertson conta um pouco de sua vida, fascinando Locke ao se mostrar como um viajante despreocupado com a vida. Repentinamente Robertson morre no hotel. Buscando livrar-se dos seus problemas e mudar de vida, Locke resolve assumir a identidade do falecido na espera de levar uma vida mais interessante.
Porém, ele logo descobre que o homem era traficante de armas, levando Locke a situações perigosas.
Ajudado por uma bela mulher (Maria Schneider), Locke tenta evitar que a polícia e os criminosos o procurem.
Antonioni considerava ‘Profissão: Repórter’ o seu filme ‘estilisticamente mais maduro’ e também ‘um filme político’, pois foca ‘a integração dramática do indivíduo na sociedade atual’.
‘Profissão: Repórter’ (1975) foi o último filme do contrato de três filmes de Antonioni com o produtor Carlo Ponti, depois de ‘Blow-Up: Depois Daquele Beijo’ (1966) e ‘Zabriskie Point’ (1970).
Durante o lançamento do filme, ele concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes”.
O que disse a crítica 1: Marcos Strecker da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O final do filme tem uma das passagens mais famosas da história do cinema, um plano-sequência de sete minutos com uma câmera móvel que acompanha e depois abandona o personagem num ambiente de perplexidade e desolação. Tudo é mínimo, o tom emocional é de calculada indiferença. A frieza de olhar leva até a cenas registrando a morte de um prisioneiro africano, executado diante de um pelotão de fuzilamento. É uma impressionante imagem verídica, que dura segundos intermináveis. Antonioni considera este, com razão, seu filme mais político. Não à toa Hitchcock soltava palavrões quando via a riqueza de temas e a economia formal dos clássicos de Antonioni. Esta foi sua última grande obra antes do acidente vascular que o deixaria mudo e parcialmente sem movimento”.
O que disse a crítica 2: Fernando Campos do Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Um dos grandes acertos de Antonioni está na escolha dos cenários, optando por cidades com arquitetura cativante ou paisagens vastas, como a Barcelona arquitetada por Gaudi, a imensidão do deserto da Argélia ou os belos campos do interior da Espanha. Para valorizar os cenários que possui, o diretor prioriza planos abertos (...) visando justamente construir imagens repletas de significados. Quando vemos David passeando entre os prédios peculiares e cheios de curvaturas em Barcelona, fica evidente o momento de transformação e redescobrimento do personagem. Antonioni ainda faz algumas transições em plano sequência, ou seja, sem cortes, que transmitem fluidez e a sensação da rápida passagem do tempo da vida”.
O que eu achei: “Profissão Repórter” (1975) não é um filme sobre a rotina ou a técnica do jornalismo, mas sim um estudo existencial sobre identidade, alienação e a busca por uma fuga de si mesmo. A obra acompanha o jornalista David Locke (Jack Nicholson), um correspondente de guerra frustrado e em crise com a profissão, o casamento e a vida de uma maneira geral. Durante uma viagem ao deserto para fazer mais uma de suas matérias, ao deparar-se com o cadáver de um homem que se hospedava no mesmo hotel que ele, Locke toma uma decisão radical: ele falsifica a identidade do homem morto e assume a sua vida. O que ele não sabia era que esse cara trabalhava como traficante de armas. Ao invés de recuar, ele decide continuar com a farsa, assumindo os compromissos do traficante morto. Se num primeiro momento David Locke queria fugir de sua própria vida e existência, agora sua rotina se transforma numa fuga de agentes do governo, de sua própria esposa e dos colegas de trabalho. Está todo mundo atrás dele seja para prendê-lo, seja para tentar entender o que aconteceu. O título em inglês - “The Passenger” (O Passageiro) - define melhor a condição existencial de Locke, esse homem que viaja no banco do carona da vida de outro homem e não comanda mais o próprio destino. Como um passageiro, Locke assiste aos eventos que acontecem ao seu redor sem agir muito. Ele aceita o perigo e os rumos de sua escolha de forma totalmente passiva, com o foco do filme sendo a jornada de isolamento do personagem e não sua profissão inicial, abandonada na troca de identidades. É um filme onde se pode observar muito do estilo Antonioni de filmar: há a crise existencial do personagem e o tédio, há o deserto como cenário psicológico do vazio, do isolamento e da solidão que Locke sente por dentro, há o movimento de câmera que segue o protagonista, mas por vezes o ignora para focar em uma parede ou em um detalhe da arquitetura, mostrando que o indivíduo não é o centro do universo e há, por fim, a presença de personagens sem nome que surgem do nada, como é o caso da personagem da Maria Schneider que surge sem grandes explicações sobre seu passado, reforçando a ideia de que a identidade humana é fluida, misteriosa e frágil. Atenção ao lendário plano sequência final, uma cena de aproximadamente sete minutos na qual a câmera realiza um movimento contínuo e praticamente impossível para a época, começando dentro de um quarto de hotel, passando por uma janela com grades de ferro muito estreitas, flutuando pelo pátio do lado de fora e depois girando 180 graus para nos mostrar o quarto visto de fora. Para realizar esse feito genial, o diretor de fotografia Luciano Tovoli e a equipe técnica usaram uma câmera canadense experimental muito leve (de 16mm) equipada com um sistema inovador de giroscópios (mecanismos que mantêm o equilíbrio e evitam tremores) que Antonioni havia descoberto. Ele mandou modificar completamente a física dessa câmera para que ela pudesse usar um filme de 35mm, que era o padrão do cinema profissional da época.

7.6.26

"Levados Pelas Marés" - Jia Zhangke (China/França/Japão, 2024)

Sinopse:
China, início dos anos 2000. Qiaoqiao (Tao Zhao) e Guo Bin (Zhubin Li) têm um caso de amor apaixonado, mas frágil. Quando Bin desaparece para tentar a sorte noutra província, Qiaoqiao decide partir em busca dele.
Comentário: Jia Zhangke (1970) é um cineasta chinês pouco conhecido pelo grande público. Responsável pelos premiados “Em Busca da Vida” (2006) e “Um Toque de Pecado” (2013), seus filmes, na maioria das vezes, ficam restritos ao circuito de festivais, sendo que vários deles não foram exibidos comercialmente no Brasil. Em 2014 o cineasta Walter Salles dirigiu um documentário chamado “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” que conta um pouco de sua trajetória. "Levados Pelas Marés" (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
O site do IMS publicou: “A duradoura e frágil história de amor de Qiaoqiao e Bin, ambientada na China do início dos anos 2000 até os dias atuais. Ligados um ao outro, eles aproveitaram tudo o que a cidade de Datong tinha a oferecer. Até que um dia Bin decide tentar a sorte em um lugar maior. Sem qualquer aviso, o rapaz vai embora. Depois de um tempo, Qiaoqiao parte em uma jornada para encontrá-lo.
Jia Zhangke percorre todos os seus trabalhos anteriores e oferece um olhar épico sobre o destino romântico de sua eterna heroína, Qiaoqiao. Abrangendo 21 anos de um país em profunda transformação, o filme oferece uma nova perspectiva para enxergarmos a China contemporânea, bem como as experiências individuais, sob turbulentas mudanças emocionais e sociais.
‘Este filme abrange os primeiros 21 anos do novo século. Colaborei novamente com o compositor taiwanês Lim Giong, que já havia trabalhado comigo em ‘O Mundo’ (2004), ‘Em Busca da Vida’ (2006) e ‘Um Toque de Pecado’ (2013). Sua música eletrônica traz um tom poético e melancólico à jornada do filme. Além disso, escolhi 19 músicas para o filme, incluindo alguns rocks chineses de diferentes períodos’, comenta o diretor em entrevista a Tony Rayns divulgada com o material de imprensa do filme.
‘O filme cobre um bom número de anos, e você pode encará-lo como uma espécie de revisão da China contemporânea. Só quando olhamos para trás percebemos o quanto foi esquecido nos últimos 20 anos − e os sons, em especial, foram os que mais se apagaram. Se quisermos imaginar a Dinastia Tang, de mais de mil anos atrás, podemos observar seus edifícios e pinturas remanescentes, as montanhas, os rios, os lagos e os mares que permanecem inalterados, e visualizar como viviam os antigos naquela época. Mas é difícil imaginar o som da Dinastia Tang’.
‘A música, no entanto, agora pode ser transmitida. Canções de diferentes épocas podem nos transportar de volta ao seu tempo, como um código ou chave para destrancar o passado. Minhas próprias memórias são frequentemente ativadas pela música. Pegue, por exemplo, a canção pop ‘Genghis Khan’, que me leva de volta aos anos 1980, quando a China iniciou suas reformas econômicas; muitos artistas chineses fizeram versões dessa música alemã naquela época. Na terceira parte do filme, uma celebridade da internet, agora com mais de 70 anos, dança ao som dessa música, e conseguimos imaginar sua juventude como um cantor e dançarino apaixonado, forte e expressivo’.
‘A música das bandas de rock chinesas, em especial, expressa as emoções e os sentimentos daqueles que a ouviam. Essas bandas romperam tabus sociais com sua música, dando voz aos sentimentos e às aspirações de uma maioria silenciosa. No filme, às vezes elas soam como a voz interior de Qiaoqiao’.
‘Levados pelas Marés’ teve sua estreia na competição oficial do Festival de Cannes em 2024”.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Uma obra intrigante, ainda que desigual. Revisitando a si próprio e criando novas cenas, Jia Zhangke busca traçar, numa única obra, a evolução de gerações, entre a China regida pelo princípio da coletividade, e aquela dominada pelo princípio do prazer. Demonstra certa nostalgia pelos tempos antigos, ainda que não o idealize. Sublinha, em especial, a maneira como abandonamos experiências concretas, fraternas e solidárias em prol de uma existência virtual. Os trechos esparsos de ficções, no interior deste panorama, não são dos mais convincentes, mesmo assim, refletem o olhar externo e crítico do diretor. O cineasta talvez mire em tempos e espaços em excesso, porém, ainda sabe muito bem como interpretá-los”.
O que disse a crítica 2: Mattheus Goto da Veja SP também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “É, de fato, um trabalho magnífico do cineasta, que tem um gostinho especial por ter referências a longas anteriores e soar como o projeto de uma vida. Ele juntou ficção e imagens de arquivo de duas décadas, incluindo algumas usadas em seus outros trabalhos, e criou uma nova narrativa. (...) A aventura épica [da protagonista] se entrelaça com os caminhos do próprio país, com as reflexões do cineasta sobre memória, tempo e modernidade. Há um quê esotérico, mas que revela um belo e profundo olhar sobre a vida chinesa contemporânea”.
O que eu achei: Recheado de música chinesa da atualidade, “Levados pelas Marés” (2024) é quase um documentário disfarçado de romance, sendo mais uma obra que mostra a acelerada transformação pela qual passou a China nas últimas décadas do que propriamente uma história de amor. O filme começa no ano 2000 e segue até a pandemia de covid em 2022. A modelo e dançarina Qiaoqiao, enamorada de Guo Bin, vê seu amor desaparecer quando este, sem mais nem menos, resolve partir para outra província em busca de uma vida melhor sem se despedir dela. Eles residem em Datong, no norte da província de Shanxi, que é onde o filme basicamente começa. Com o desaparecimento de Guo Bin, Qiaoqiao resolve viajar para tentar encontrá-lo, percorrendo lugares como o Rio Yangtzé e Fengjie - região das Três Gargantas, área que foi drasticamente alterada pela construção de uma enorme barragem, com milhares de cidades submersas e milhões de pessoas deslocadas – e Chongqing - uma grande metrópole no sudoeste da China. O título em português "Levados Pelas Marés" usa uma metáfora para explicar a jornada dos personagens, com a palavra ‘marés’ simbolizando algo que te arrasta como as rápidas transformações econômicas e sociais da China moderna. O título original em chinês é “Feng Liu Yi Dai” que significa "Uma Geração Romântica" ou "Geração Flutuante", reforçando a ideia de pessoas levadas pelo tempo. No longa o diretor Jia Zhangke utilizou sobras de filmagens que ele já tinha como materiais não utilizados e erros de gravação de seus filmes anteriores. É fácil observar como as imagens mudam de qualidade visual à medida que o tempo passa. Elas transitam de fitas de vídeo de baixa resolução (comuns nos anos 2000) até o formato de alta definição moderno. Os atores principais, Tao Zhao e Zhubin Li, trabalham para o diretor interpretando os mesmos personagens há 20 anos. Em vez de usar maquiagem ou efeitos digitais de rejuvenescimento para mostrar o passado, vemos o envelhecimento real dos atores na tela. Há também gravações recentes - incluindo o período da pandemia de Covid-19 - para dar um desfecho atual à história de amor do casal e amarrar todo o material antigo. O longa foi fortemente aclamado pela crítica. Jia Zhangke é um cineasta chinês pouco conhecido pelo grande público. Seus filmes ficam mais restritos ao circuito de festivais, sendo que vários deles não foram exibidos comercialmente no Brasil. Li que o Walter Salles, fã do cineasta, dirigiu um documentário chamado “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” (2014) que conta um pouco de sua trajetória. Sua importância se deve ao fato dele ter inaugurado a chamada Sexta Geração do Cinema Chinês, focando no realismo urbano e underground. Seus primeiros filmes foram feitos de forma independente, sem autorização do governo, usando atores amadores e capturando a China real, crua e sem maquiagem. Ele é famoso pelo seu estilo marcado por planos longos estáticos (planos-sequência) que observam os personagens em seus ambientes reais enquanto o tempo passa, para que o espectador sinta o tédio, a melancolia. Ele também é hábil em mostrar os cenários, transformando espaços geográficos em estados psicológicos. Outra coisa é que nenhum outro cineasta no mundo misturou ficção e documentário de forma tão persistente. Ele filma a destruição física real de cidades, transformando seus filmes de ficção em arquivos históricos inestimáveis de uma China que não existe mais. E tudo isso sem ser panfletário. Por ser diferente, o filme vai parecer estranho para alguns, mas vale ver para conhecer o trabalho desse cineasta inovador e único.

5.6.26

"A Batalha da Rua Maria Antônia" - Vera Egito (Brasil, 2023)

Sinopse:
Outubro de 1968. Durante a ditadura brasileira, estudantes e professores do Movimento Estudantil da Universidade de São Paulo (USP) enfrentam ataques do Comando de Caça Comunista vindos do outro lado da rua, da Universidade Mackenzie, num evento que ficou conhecido como "A Batalha dos Estudantes".
Comentário: Vera Egito (1982) é roteirista e diretora. Graduou-se na Escola de Cinema da Universidade de São Paulo e estudou roteiro em Cuba. Realizou os curtas-metragens “Espalhadas pelo Ar” (2007) e “Elo” (2008), ambos exibidos na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Também dirigiu o longa-metragem “Amores Urbanos” (2016). “A Batalha da Rua Maria Antônia” é seu segundo longa e o primeiro filme que vejo dela.
O longa-metragem retrata um conflito ocorrido nos dias 2 e 3 de outubro de 1968 entre estudantes da Universidade de São Paulo (USP), que lutavam pela democracia, e estudantes do Mackenzie com pessoas ligadas ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que eram a favor da ditadura.
Fabio Previdelli do site Aventuras na História nos conta que "O Golpe de 1964 polarizou o país. Apesar de muitas pessoas apoiarem a derrubada do presidente João Goulart, elas esperavam que os generais não demorassem muito para reestabelecer a democracia. Não foi o que aconteceu.
Assim, cada vez mais, ganhavam espaços manifestações populares contrárias ao regime, que passava a se tornar mais autoritário e violento. Quatro anos após o golpe, o movimento estudantil se tornou ainda mais ferrenho apoiador do reestabelecimento da democracia.
Em março daquele ano (1964), um ato no centro do Rio de Janeiro culminou com a morte do secundarista Edson Luís, de apenas 18 anos. Sua perda serviu como estopim para grandes manifestações populares, como a Passeata dos Cem Mil. Mas a insatisfação contra o governo passou a ser repudiada. Em 2 de outubro de 1968, por exemplo, ocorreu a chamada Batalha da Rua Maria Antônia, quando se enfrentaram estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. As instituições ficavam na Rua Maria Antônia, na região central de São Paulo.
'O movimento estudantil era e é o ambiente onde muitos de nossos quadros políticos são forjados', explica Vera Egito, diretora do filme ‘A Batalha da Rua Maria Antônia’, em entrevista ao site Aventuras na História. 'Acho que durante a ditadura e até hoje os estudantes representam a fé de que a estrutura social pode mudar, pode evoluir. Sinto que o tempo traz um cinismo a todos nós. O movimento estudantil com sua juventude acredita e luta por mudança como nenhum outro setor social faz'.
A Batalha da Maria Antônia começou quando os alunos da USP e secundaristas fizeram um ‘pedágio’ para arrecadar dinheiro e organizar o Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes). O ato irritou os estudantes do Mackenzie - muitos eram membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) -, que fecharam a rua para impedir a passagem de automóveis e também começaram a atirar pedras, ovos e outros objetos nos manifestantes. Apesar do episódio colocar frente-a-frente grupos estudantis com divergências em suas opiniões políticas, Vera Egito aponta que é difícil afirmar que havia consenso na visão de que a USP era palco da ‘esquerda’ e o Mackenzie da ‘direita’.
'Imagino que nunca há [consenso], pelo menos não absoluto. Mas a escola de filosofia estava ocupada pelos estudantes já havia tempo. Ali aconteciam as reuniões da UNE, já clandestina naquele momento. Havia muitos estudantes de esquerda no Mackenzie também, como há até hoje. A batalha se deu contra membros do CCC, o comando de caça aos comunistas, composto por agentes da ditadura treinados e infiltrados entre os estudantes mackenzistas', contextualiza. A diretora acredita que a USP ‘abraçou’ os movimentos estudantis, pelo fato das universidades públicas, naturalmente, serem a casa do livre pensar. 'É onde o país gesta suas melhores mentes, ou ao menos deveria ser, livre do compromisso com marcas ou interesses privados. No ensino superior público, a prioridade são os interesses da nação, do povo, da sociedade contribuinte. Historicamente, quem se dedica a reflexão, estudo e pensamento social, majoritariamente, desenvolve uma postura de esquerda. E isso não é à toa, obviamente. A maioria das pessoas que se aprofunda na lógica que rege a sociedade percebe o quão injusta e violenta ela é e se coloca em direção à mudança'.
Durante dois dias, a Batalha da Rua Maria Antônia ficou marcada por agressões, ataques com paus, pedras, coquetéis molotovs e bombas. Durante os atos, o secundarista José Carlos Guimarães, de apenas 20 anos, foi atingido na cabeça por um tiro vindo do Mackenzie e acabou morrendo. O conflito se estendeu até a Praça da Sé, onde estudantes incendiaram um carro do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Enquanto isso, a polícia interveio de forma truculenta e prendeu mais de 30 estudantes. O prédio da USP foi incendiado e depredado, o que motivou sua transferência para a cidade universitária no Butantã - cuja obra já estava em andamento. A mudança desagregou o núcleo do movimento estudantil e desestabilizou o local, que também abrigava outros movimentos contrários à ditadura.
'O AI-5 foi decretado logo após a batalha', explica Vera Egito. 'O Brasil inteiro mudou e caiu nos anos de chumbo. O prédio da filosofia foi fechado. As escolas foram deslocadas para o campus do Butantã, longe do centro urbano, longe das atividades sociais. Os movimentos foram desmembrados e desestruturados com desaparecimentos, mortes e torturas. Tudo mudou depois da Rua Maria Antônia'.
A diretora aponta que o conflito foi o último respiro de institucionalidade que vivemos durante o período. 'O AI-5 foi o golpe dentro do golpe. Até ali ainda havia uma crença nos mecanismos institucionais, no devido processo legal. Depois, a definitiva noite se instalou e demorou mais de uma década para terminar'."
O que disse a crítica 1: Vinicius Olieira do site Oxente Pipoca avaliou com 2 estrelas, ou seja, algo como fraco ou ruim. Disse: "Não ajuda o fato de que, mesmo com todo esse apelo com que o filme quer nos atrair através da imagem, o seu texto cai em lugares-comuns de obras ambientadas na ditadura que chega a ser vergonhoso. As atuações em gerais mecânicas do elenco prejudicam ainda mais a entrega do texto, de modo que, ainda que o objetivo geral do longa seja nos fazer simpatizar pelos estudantes da USP, há pouco pelo que simpatizar aqui, já que parte deles são repetições de estereótipos já batidos".
O que disse a crítica 2: Francisco Carbone do site Cenas de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Egito intercala nos capítulos diferentes investigações, dando ênfase ao espírito do tempo (...) de um lado, e do outro se aprofundando nas relações pessoais entre aqueles personagens, alunos ou professores que se integram em um momento partido. Assim como se sobressai a obviedade lírica do ‘Roda Viva’ circular, também enche a tela que a câmera nervosa de William Etchebehere siga seus personagens por esquinas que constituem cada curva do cenário, ininterruptamente descobrindo novas paredes ou novas paixões. Aliás, esse é um elemento que sobra a 'A Batalha da Rua Maria Antônia': paixão. Tesão. Está nos olhos de cada célula arrepiada de ação, está na pele dos muitos amantes, está na maior parte dos frames desse filme especialíssimo, que denuncia tanto quanto fascina. É a mensagem lado a lado com o maravilhamento deslocado enfim do foco real, e saltando com energia na nossa direção".
O que eu achei: Se você espera ver um documentário sobre os acontecimentos do conflito ocorrido nos dias 2 e 3 de outubro de 1968 entre estudantes da USP, que lutavam pela democracia, e estudantes do Mackenzie com pessoas ligadas ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que eram a favor da ditadura, esquece. O filme de Vera Egito é uma ficção que retrata o relacionamento entre a estudante de filosofia Lilian (Pâmela Germano) e sua melhor amiga Angela (Isamara Castilho). Enquanto Lilian se mantém afastada das tensões políticas da época, Angela é peça chave no movimento estudantil da universidade cujo líder é Benjamin (Caio Horowicz), personagem inspirado no político José Dirceu, que na vida real era o presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP) quando a batalha se deu. Além de José Dirceu, Angela Davies é referenciada através da personagem Maria Elena (Julianna Gerais), já que em 1968 Davies já despontava como um dos maiores símbolos mundiais da luta antirracista, do feminismo negro e do pensamento crítico. Também não espere ver a locação real da batalha que foi a rua Maria Antônia, em São Paulo. A prefeitura não autorizou o fechamento da rua pelo tempo que a equipe necessitava e houve grande dificuldade para obter permissões de filmagem com o Mackenzie. Com isso as gravações acabaram acontecendo nos arredores do Pátio do Colégio, nas ruas Floriano Peixoto e Roberto Simonsen, com o prédio da USP sendo representado pelo Palácio dos Campos Elíseos, onde hoje funciona o Museu das Favelas. O pano de fundo dessa história fictícia é que é a batalha. Ela foi toda filmada em P&B de 16mm, em 21 planos-sequência, cuja numeração aparece na tela em contagem regressiva. Aí sim há diversas passagens fiéis aos acontecimentos reais como a cronologia dos fatos, começando no amanhecer do dia 02/OUT/1968 até a manhã seguinte, respeitando a escalada real da violência; o uso de pedras, tijolos, coquetéis molotovs e rojões disparados de um lado para o outro da rua; os detalhes cotidianos da militância da USP daquela semana, como o roubo das urnas de um plebiscito estudantil que estava ocorrendo naquele momento; o desfecho trágico mostrando a presença da polícia cercando o prédio e o anúncio da morte de um estudante alvejado por um tiro vindo do lado do Mackenzie; além da atuação do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) que operava de forma paramilitar infiltrado no Mackenzie, funcionando como um braço armado e violento da ditadura. Após o término da batalha o prédio da USP se apresentou destruído. Li que num primeiro momento ele foi fechado e ocupado pelas forças policiais. Como estratégia da ditadura militar para descentralizar o movimento estudantil e esvaziar o polo de militância do centro da cidade, todos os cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) foram transferidos às pressas e permanentemente para a Cidade Universitária. Sem utilidade acadêmica, o conjunto de edifícios foi vendido pela universidade para a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, abrigando repartições burocráticas e ligadas ao sistema prisional. Em 1985 o prédio foi oficialmente tombado pelo CONDEPHAAT por seu imenso valor e significado como patrimônio histórico e cultural da resistência política em São Paulo. Em 1993, com a redemocratização, o prédio foi devolvido à USP, abrigando o que é hoje o Centro Universitário Maria Antônia. Com o filme se configurando como um mix entre ficção e realidade, alguns críticos não gostaram. Eu particularmente achei válido pois nunca é demais mostrar os estragos provocados pela ditadura militar, especialmente num ano eleitoral. Então creio que vale ver: é bem feito, bem fiel à batalha em si, funciona como memória e é bastante elucidativo. Boa pedida.

4.6.26

“Stranger Things” – The Duffer Brothers (EUA, 2016-2025)

Sinopse:
Estamos em 1983 na tranquila cidade de Hawkins, Indiana. Tudo ia muito bem, até Will Byers (Noah Schnapp), filho de Joyce (Winona Ryder), sumir misteriosamente. Paralelamente às buscas da polícia, os garotos Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo) decidem fazer uma investigação particular e acabam se deparando com experimentos ultrassecretos do governo, forças sobrenaturais e uma garotinha muito estranha (Millie Bobby Brown), que possui uma tatuagem com o número onze no pulso.
Comentário: O seriado é composto por 5 temporadas, totalizando 42 episódios. Ele começa contando a história do estudante Will Byers que é abduzido por uma criatura de uma realidade alternativa chamada "Mundo Invertido" – uma espécie de cópia sombria, tóxica e alternativa da própria cidade onde ele mora chamada Hawkins (Indiana) - causando mistério e pavor aos habitantes locais.
Sua mãe, Joyce Byers, tenta encontrar seu paradeiro com a ajuda do xerife Jim Hopper, enquanto os amigos de Will, os jovens Mike Wheeler, Dustin Henderson e Lucas Sinclair fazem uma investigação em paralelo para encontrá-lo, porém são surpreendidos quando uma estranha garota com poderes telecinéticos chamada Onze aparece na cidade. 
Onze é uma fugitiva do Laboratório Nacional de Hawkins, localizado nas proximidades, que faz ostensivamente pesquisas científicas para o Departamento de Energia dos Estados Unidos e realiza secretamente experimentos paranormais e sobrenaturais em humanos.
Ocorre que Onze, devido ao pavor provocado por um experimento científico do qual ela foi obrigada a participar, abre acidentalmente o portal para o Mundo Invertido – esse onde Will foi capturado e desapareceu. Então ela será uma peça-chave para localizar Will e enfrentar as criaturas que ali se abrigam como o Demogorgon, o Devorador de Mentes (Mind Flayer) e o Vecna, todos batizados pelos protagonistas com nomes de criaturas do jogo Dungeons & Dragons.
Conforme o seriado avança, novos mistérios vão surgindo enquanto outras pessoas são capturadas.
O site Wikipédia nos conta que “Os Irmãos Duffer [os gêmeos idênticos Matt e Ross Duffer] desenvolveram a premissa da série em meados de 2015, e no roteiro original, o projeto se chamaria ‘Montauk’ e seria ambientado na cidade de mesmo nome localizada em Nova Iorque, abordando as teorias da conspiração envolvendo os experimentos secretos do governo americano em uma base militar na cidade no início da década de 1980.
Após a definição do roteiro, os Irmãos Duffer incluíram várias referências aos elementos culturais daquela década, como filmes de ficção científica, terror sobrenatural e ação e aventura, bem como videogames, animes e música, além de inúmeras referências a obras de Steven Spielberg, John Carpenter e Stephen King, considerados as grandes inspirações dos Irmãos Duffer para a realização do projeto. Eles também se inspiraram em estranhos experimentos que aconteceram durante a Guerra Fria e em teorias da conspiração do mundo real envolvendo experimentos secretos do governo.
(...) ‘Stranger Things’ recebeu aclamação do público e da crítica especializada, que elogiaram a caracterização, ritmo, atmosfera, atuações, trilha sonora, direção, roteiro e homenagens a filmes do gênero da década de 1980. Devido a sua popularidade, a série acabou gerando alguns produtos, como livros, brinquedos, videogames e histórias em quadrinhos.
A série também recebeu vários prêmios e indicações em premiações, como Emmy Awards, Globo de Ouro, British Academy Television Award, entre outros”.
O que eu achei: Trata-se de uma série de ficção científica que se passa na cidade fictícia de Hawkins, Indiana (EUA), cujo ponto de partida é o desaparecimento de um menino chamado Will Byers após uma partida do RPG “Dungeons & Dragons” com os amigos. A investigação por parte da mãe de Will (Joyce, interpretada pela Winona Ryder), do xerife Hopper e dos amigos de Will (Mike, Dustin, Lucas) leva ao descobrimento de experimentos secretos do governo que vinha se apoderando de crianças para transformá-las em armas psíquicas na Guerra Fria, especialmente contra a União Soviética. Essas crianças eram escolhidas a dedo já que esses poderes faziam parte da biologia delas desde o nascimento. O objetivo principal era treiná-las e posteriormente usá-las para espionagem remota e para missões de assassinato usando apenas a mente. É nesse contexto que os amigos de Will vão conhecer a menina Onze (Eleven), uma garota com poderes mentais fugitiva do laboratório de Hawkins, que vai ajudar a encontrá-lo dentro do “Mundo Invertido”, uma dimensão paralela e sombria que abriga criaturas perigosas. A série se passa entre os anos de 1983 e 1986, o que a caracteriza com uma atmosfera nostálgica que mistura ficção científica, terror e aventura com um forte elenco infantil e adolescente. Quem viveu os anos 1980 vai gostar de ver as inúmeras referências à cultura pop da época como as roupas, a presença de objetos de época e especialmente a trilha sonora. Mas para gostar do seriado também é necessário gostar de filmes fantasiosos, cheio de situações surreais e, às vezes, um pouco confusas, especialmente no final da temporada 4 quando o seriado explica a origem do tal mundo paralelo e da criatura Vecna. Confesso que tive que pesquisar alguns episódios no Google para compreender melhor o que se passava. Mas valeu a pena, apesar de toda a complexidade, a série prende a atenção e você se conecta emocionalmente aos personagens. Com relação à classificação indicativa, ele não é recomendado para menores de 16 anos pois, conforme a série avança, os monstros encontrados nesse tal mundo invertido vão-se tornando mais violentos. Então, apesar do elenco principal ser composto por crianças que vão crescendo ao longo dos 9 anos das temporadas, os elementos visuais chocantes e os temas psicológicos pesados - sangue em excesso, tortura infantil, mortes – tornam o material impróprio para menores.

1.6.26

"A Liberdade é Azul" - Krzysztof Kieslowski (França/Polônia/Suíça, 1993)

Sinopse:
Traumatizada pela morte trágica do marido (Hugues Quester) e da filha, Julie (Juliette Binoche) se afasta das pessoas, mas evitar o contato humano na vibrante Paris parece impossível. Ela acaba reencontrando o assistente de seu ex-marido, chamado Olivier (Benoít Régent), que a ama em segredo e que pode trazê-la de volta à vida.
Comentário: Krzysztof Kieslowski (1941-1996) foi um cineasta polonês de quem já assisti aos ótimos “Decálogo” (1989) - composto por 10 filmes inspirados pelos 10 Mandamentos - e “Trilogia das Cores” (1993-1994) - composta pelos filmes “A Liberdade é Azul”, “A Fraternidade é Vermelha” e “A Igualdade é Branca”, além do bom “Sorte Cega” (1981) e do curioso “Calma” (1976). Desta vez vou rever “A Liberdade é Azul” (1993).
O caderno Ilustrada da Folha SP publicou: "Juliette Binoche seria legitimada como a maior atriz francesa daquele momento, 1993, graças a esse filme. Seu diretor, o polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996), teria nele seu trabalho mais popular e cultuado. (...)
Quando rodou o longa, Kieslowski já tinha uma rica carreira como cineasta em seu país, sobretudo em documentários sobre o cotidiano de trabalhadores. Já era, também, um artista reconhecido nos grandes festivais internacionais, graças ao seu ótimo 'Decálogo', série televisiva exibida entre 1988 e 1990.
Após rodar a produção francesa 'A Dupla Vida de Véronique' (1991), Kieslowski continuou a trabalhar no país e, com 'A Liberdade É Azul', iniciou a célebre Trilogia das Cores - que fala, com o azul, o branco e o vermelho da bandeira francesa, sobre liberdade, igualdade e fraternidade.
No 'Azul', Binoche é Julie, que sobrevive, mas perde marido e filha num acidente. Primeiramente afunda numa depressão e, aos poucos, vai superando a perda. Mais tarde, assume o trabalho interrompido do marido músico e finaliza uma composição.
Kieslowski destila, aqui, sua visão ácida sobre a vida, mas com muita candura e esperança. Com mais recursos, solta-se às potencialidades estéticas do cinema e compõe um marcante jogo entre imagens e sons, utilizando a música de Zbigniew Preisner para ilustrar os estados de espírito da personagem.
O Festival de Veneza reconheceu tais méritos, e 'A Liberdade É Azul' recebeu os prêmios de Melhor Filme, Direção, Fotografia e Atriz".
O que disse a crítica 1: Roberto Siqueira do site Cinema & Debate avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "Kieslowski entrega um filme diferente, tocante e reflexivo neste 'A Liberdade é Azul', que com muita sensibilidade e um visual marcante, questiona a eterna busca do ser humano pela liberdade através da trágica história de Julie, que descobriu da pior maneira o quanto esta sensação pode também ser dolorida. Até que ponto queremos ser realmente livres? Que cada um encontre sua resposta sem a necessidade de sofrer como ela".
O que disse a crítica 2: Eduardo Escorel da Revista Piauí também avaliou como obra-prima. Escreveu: "Ter resistido à passagem do tempo e se mantido deslumbrante é prova da rara qualidade de 'A Liberdade é Azul' que, ao estrear, recebeu diversos prêmios, entre eles o de Melhor Filme e Melhor Atriz, atribuído a Juliette Binoche, no Festival de Veneza, em 1993. Passados mais de trinta anos, o filme permanece exemplar – do roteiro à decupagem, das locações à fotografia e às atrizes e atores, da montagem à música de Zbigniew Preisner – contribuições variadas, todas em harmonia, a serviço de tornar a liberdade um tema pessoal intrincado".
O que eu achei: Trata-se do primeiro longa-metragem da trilogia “Trois Couleurs” (Três Cores), roteirizado e dirigido pelo premiado diretor polonês Krzysztof Kieslowski. Em uma perspectiva alegórica, o roteiro dessa trilogia recontextualiza as cores e os ideais da Revolução Francesa, em uma produção francesa, polonesa e suíça, começando pela cor Azul e seguindo para o Branco e o Vermelho. É possível assistir à trilogia em qualquer ordem, pois cada filme tem sua própria história independente, no entanto, assistir na ordem de lançamento acaba sendo mais interessante para captar as conexões temáticas sutis e o aprofundamento filosófico que as une. Em “A Liberdade é Azul” (1993), Binoche interpreta Julie, a esposa de um renomado maestro e compositor francês que fica sozinha após um acidente de carro. Seu marido morre juntamente com a filha do casal, de cinco anos de idade. Como única sobrevivente da tragédia, ela se vê na situação de ter que lidar com essas perdas e seguir vivendo, lidando com a introspecção inicial e com a negação à vida. O estilo cinematográfico de Kieslowski, como já é de esperar, se apresenta com seu ritmo vagaroso para explorar o mundo interno, o luto e a psicologia dos personagens, portanto não é um filme recomendado para os mais apressados. As cenas longas e os silêncios refletem o tempo interno de Julie, enquanto a cor azul domina a iluminação e os objetos de cena para simbolizar a tristeza. Finaliza como um ensaio sobre o luto e a força exigida frente à descoberta de uma liberdade não prevista e nem desejada. Atenção especial à música de Zbigniew Preisner que embala praticamente todo o filme. Zbigniew Preisner é um dos maiores compositores de trilhas sonoras da história do cinema europeu. O mais curioso sobre ele é que ele é totalmente autodidata, aprendeu música apenas ouvindo e transcrevendo discos. Sua parceria com Kieslowski durou mais de uma década (de 1984 até a morte do diretor em 1996) e definiu a identidade sonora de seus filmes. Neste longa em especial, a música é um elemento chave já que ela é a própria obra inacabada do falecido marido da protagonista, servindo como um gatilho emocional que esmaga Julie a cada audição. Boa pedida.

31.5.26

"Santosh – Vozes da Hierarquia" - Sandhya Suri (Reino Unido/Alemanha/Índia/França, 2024)

Sinopse:
 
Um esquema do governo faz com que Santosh (Shahana Goswami), uma recém-viúva, herde o trabalho de seu marido como policial na Índia. Quando uma menina de casta inferior é assassinada, Santosh é puxada para a investigação e começa a explorar seu novo poder.
Comentário: Sandhya Suri (1970) é uma cineasta britânica-indiana. São dela os documentários "I for India" (2005) que conta as experiências de seu pai como imigrante indiano no Reino Unido e o documentário mudo "Around India with a Movie Camera" (2018) que explora a vida na Índia britânica através de imagens de arquivo do British Film Institute. É dela também o curta-metragem "The Field" (2018). "Santosh" (2024) é seu primeiro longa de ficção e o primeiro filme que vejo dela. 
Peter Bradshaw do The Guardian publicou "A roteirista e diretora Sandhya Suri criou um tenso, violento e politicamente perspicaz drama policial ambientado na Índia: um filme sobre sexismo, intolerância de castas e islamofobia que também funciona como um estudo da complexa relação entre duas policiais, uma veterana cínica e uma novata ingênua. Elas são interpretadas de forma magnífica por Sunita Rajwar e Shahana Goswami, em uma espécie de versão indiana com inversão de gênero de 'Dia de Treinamento'.
Suri é uma cineasta que, há 20 anos, nos presenteou com o extraordinário filme-ensaio pessoal 'I for India', e este é seu primeiro longa-metragem de ficção, que, segundo consta, começou como um projeto de documentário inspirado pelas manifestações públicas contra o estupro coletivo e assassinato de Jyoti Singh.
O filme gira em torno da convenção indiana de 'nomeação por compaixão': a viúva dependente de um funcionário público pode se candidatar ao mesmo cargo. Goswami interpreta Santosh, cujo marido policial foi morto em um tumulto; há rumores sombrios sobre a identidade muçulmana do culpado desconhecido. Sem filhos e sem dinheiro, ela se candidata com sucesso ao cargo do falecido marido e se vê envolvida em um caso controverso: o corpo de uma jovem Dalit, estuprada e assassinada, foi encontrado em um poço de uma aldeia – e a comunidade está revoltada com o evidente preconceito de casta da polícia por não ter feito nada a respeito.
A inspetora veterana Geeta Sharma assume o caso para acalmar a mídia e se interessa pela nova policial, Santosh. Goswami mostra como Santosh é inteligente e trabalhadora, porém submissa, e como ela consegue lidar com o problema que os policiais homens são meticulosos demais para resolver: um cadáver feminino.
Mesmo antes da duvidosa mentoria de Sharma, Santosh já demonstrava aptidão natural para o trabalho (...). Apesar de sua evidente nobreza de espírito, Santosh está longe de ser avessa às artes de ameaçar, intimidar, mentir e torturar suspeitos, num mundo onde encontrar o culpado exato não é tão importante quanto punir brutalmente alguém para dissuadir outros.
De uma forma complexa e disfuncional que ela mesma não compreende, Santosh está em uma missão pessoal para obter justiça ou vingança pela morte do marido. Goswami nos permite ver seu orgulho discreto e até mesmo uma euforia reprimida em seu uniforme: como mulher, ela foi uma cidadã de segunda classe a vida toda e agora, embora naturalmente subordinada aos policiais arrogantes e negligentes, seu uniforme lhe permite caminhar pelas ruas com uma nova confiança.
Como era seu relacionamento com o marido? Era um 'casamento por amor', diz ela, e aconteceu apesar da oposição da família dele, que se ressentia do dote irrisório. Mas será que agora ela ama o marido mais por sua ausência, seu sacrifício, por tê-la recriado como Santosh, a policial, a detetive, a vingadora?".
O que disse a crítica 1: Ayaan Paul Chowdhury do site The Hindu gostou. Disse: "Um dos triunfos mais impressionantes do filme é o uso de não-atores, que se inserem na tela com naturalidade e nos fazem questionar onde termina a atuação e começa a realidade. (...) A grande sacada do longa é apresentar o poder como algo que (...) se infiltra sorrateiramente, oferecendo pequenas transgressões justificáveis ​​como regras ligeiramente flexibilizadas até que essa flexibilização se torne um hábito. Santosh, como tantas outras antes dela, começa apenas tentando sobreviver. Mas sobreviver na polícia indiana (ou em qualquer força policial, aliás) dificilmente é um ato neutro. O uniforme não concede autoridade; exige cumplicidade. E assim, sem perceber, Santosh absorve as hierarquias de casta que ditam quem merece ser protegido e quem é descartável, a política comunitária que torna certos suspeitos mais 'culpados' do que outros, e a misoginia institucionalizada que garante que seu poder seja sempre provisório".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Este é um feito fenomenal: a estreia na direção de longas-metragens da ex-documentarista britânica-indiana Sandhya Suri é um policial contundente e vigoroso em hindi, ambientado na zona rural do norte da Índia. Com roteiro elegante de Suri, 'Santosh' combina uma narrativa envolvente e crua com um reconhecimento perspicaz de alguns dos aspectos mais obscuros da Índia moderna: a corrupção e a brutalidade policial, o sexismo enraizado, o preconceito de casta e o sentimento anti-muçulmano. O filme encontra um equilíbrio delicado entre uma produção cinematográfica perspicaz e focada em questões sociais e um entretenimento dinâmico".
O que eu achei: Falar sobre os aspectos mais obscuros da polícia indiana, retratando a misoginia profundamente enraizada, a discriminação contra os Dalits (a casta mais baixa da Índia considerada intocável, não por serem divindades, mas por serem a casta dos trabalhadores da limpeza), a normalização de maus-tratos e tortura por policiais, a violência sexual contra mulheres e a crescente onda de preconceito antimuçulmano no país era uma missão que a documentarista Sandhya Suri queria abraçar, mas logo percebeu que o gênero documentário não seria adequado. Primeiro por expor as vítimas e segundo porque se infiltrar - especialmente como mulher - nas engrenagens internas da polícia na Índia seria praticamente impossível, além de perigoso. Então a opção foi criar um retrato ficcional a partir da personagem Santosh, uma mulher que fica viúva de um policial e acaba, por lei, herdando seu cargo. Acostumada a ficar em casa, trabalhando como professora particular, ela sofrerá um choque de realidade quando tiver que investigar o caso de uma jovem adolescente Dalit morta, encontrada dentro de um poço, cujo suspeito é um muçulmano. O longa foi todo gravado nos arredores da cidade de Lucknow, na região de Uttar Pradesh, Índia. Porém, ele acabou se tornando a indicação oficial do Reino Unido ao Oscar, já que em seu país ele sofreu censura por conta dos temas ali expostos. Os censores indianos exigiram mudanças drásticas que não foram atendidas pela produção. Assim, o filme acabou vetado definitivamente pelo Conselho Central de Certificação de Filmes do governo indiano e está impedido de ser exibido não só nos cinemas locais, mas também no streaming. Acabou estreando em Cannes na mostra competitiva Un Certain Regard, onde foi bem acolhido pela crítica e, posteriormente, pelo público internacional. É uma oportunidade ímpar para conhecer os meandros dessa sociedade num filme implacável que captura o fascínio sombrio do poder através da perspectiva daqueles que o exercem expondo com maestria todos os temas propostos. Boa pedida.

30.5.26

“Jane B. por Agnès V.” - Agnès Varda (França, 1988)

Sinopse:
A célebre diretora Agnès Varda cria, através de sua estética autoral, um retrato poético e intimista sobre a carreira, a vida, a obra, a trajetória e os múltiplos talentos da atriz Jane Birkin.
Comentário: Agnès Varda (1928-2019) foi uma fotógrafa e cineasta belga que se radicou na França. É considerada uma das precursoras da Nouvelle Vague. Seus filmes se notabilizam pela produção caseira e pela pesquisa de uma linguagem extremamente pessoal. Assisti dela o bom “Cléo das 5 às 7” (1962) e os documentários “Daguerreótipos” (1975), "Ulysse" (1982), "Os Catadores e Eu" (2000), "As Praias de Agnès" (2008) e "Visages, Villages" (2016) em parceria com o fotógrafo JR. Desta vez vou conferir o documentário “Jane B. por Agnès V.” (1988).
Bárbara Janicas do site À Pala de Walsh publicou: “A mais fotogênica das vozes, ‘a mais francesa das inglesas’, Jane Birkin (1946-2023), tinha apenas vinte anos quando obteve o seu primeiro papel de figurante em ‘A Bossa da Conquista’ (1965) de Richard Lester, um dos filmes emblemáticos da Swinging London, logo seguido de uma aparição – escandalosamente nua’ – em ‘Blow-up – Depois Daquele Beijo’ (1966) de Michelangelo Antonioni. O arranque da sua carreira de atriz na França foi impulsionado pelo mítico encontro com Serge Gainsbourg, durante as filmagens de ‘Slogan’ (1968) de Pierre Grimblat, e o resto é história: rapidamente, Jane Birkin tornou-se a musa e companheira do cantor e compositor, que lhe prestou homenagem em ‘História de Melody Nelson’ (1971) e a dirigiu na sua primeira realização, o polêmico ‘Paixão Selvagem’ (1976).
O que são cinco décadas de cinema na vida de uma mulher? Figura icônica na paisagem cultural francesa da segunda metade do século XX, Jane Birkin desdobra-se em campanhas de moda, tournées musicais e papéis ecléticos na grande e na pequena tela, atravessando simultaneamente o cinema popular (ao lado de Pierre Richard em várias comédias de Claude Zidi) e o cinema de autor pós-Nouvelle Vague - tendo sido várias vezes dirigida por Jacques Doillon, com quem foi casada - ‘A Filha Pródiga’ (1980), ‘A Pirata’ (1984), ‘Comédie!’ (1987) - e por Jacques Rivette – ‘O Amor Por Terra’ (1983); ‘A Bela Intrigante’ (1991), ‘36 Vistas do Monte Saint-Loup’ (2009). Mesmo após uma vida de excessos, o diagnóstico de uma leucemia, no final dos anos 90, e a tragédia da morte da sua filha mais velha, a fotógrafa Kate Barry, em 2013, a aura sedutora e irreverente da it-girl manteve-se intocável ao longo dos anos.
Obviamente, Jane Birkin não é imune à passagem do tempo, e sabe-o bem. A questão do envelhecimento, e do modo como este a afeta, ocupa um lugar central em dois documentários singulares que lhe foram consagrados, com trinta anos de intervalo. O primeiro, ‘Jane B. por Agnès V.’ (1988), trata-se de um retrato cinematográfico, assim o define Agnès Varda, realizado por ocasião do 40° aniversário de Birkin, data particularmente receada pela própria; o segundo, ‘Jane por Charlotte’ (2021), constitui uma espécie de testamento invertido de uma filha (a atriz Charlotte Gainsbourg) para a sua mãe, então com cerca de setenta anos, e cuja saúde começa a dar os primeiros sinais de alerta.
Estes dois filmes constituem um excelente double bill para assinalar a nossa impossível despedida a Jane Birkin, falecida, aos 76 anos (...): o retrato caleidoscópico ‘Jane B. por Agnès V.’ celebra o paradoxo da mulher-atriz que sempre admitiu gostar de posar para as câmaras, mas que ao mesmo tempo desejava ser uma ‘anônima célebre’; já o dueto intimista ‘Jane por Charlotte’ celebra menos o ícone Birkin dos palcos e das capas de revista, do que a plenitude de Jane enquanto mãe imperfeita e mulher madura.
Exceções na carreira de uma artista, musa e modelo, tantas vezes fetichizada pelos homens que a dirigiram, filmaram, amaram e idolatraram, os filmes realizados por Agnès e Charlotte são provavelmente os únicos em que Jane – autorizo-me a tratá-las pelo nome próprio –, não sem pudor e humildade, concebe despir-se da imagem de sex symbol que se lhe colou à pele durante várias décadas e, alma enfim posta a nu diante das objetivas carinhosas da amiga e da filha, se revela infinita e inigualavelmente outra(s).
Com efeito, em ‘Jane B. por Agnès V.’, Varda pretende menos capturar a essência de Birkin tal como ela foi cristalizada pelo male gaze dominante, do que estilhaçar a sua persona através de uma miríade de retratos cinematográficos que sublinham a sua natureza inefável e camaleônica: nas palavras certeiras da cineasta, Birkin oscila entre um androgyne tonic e uma Eva de plasticina; e o poder da câmara é precisamente o de moldar, através da luz, a presença irradiante da atriz na tela, mesmo que isso implique deformar ou refratar a sua imagem. Diante da objetiva de Varda, Birkin encarna assim, sucessivamente, Joana d’Arc, Calamity Jane, Jane/Mogli ao lado de Tarzan (e de Serge), Laurel ao lado de Hardy, Marilyn Monroe rodeada por espelhos a cantar a sua devoção ao seu pai (My Heart Belongs to Daddy), uma mãe rodeada pelas filhas (Kate, Charlotte e Lou) e por retratos de família, Ariane no labirinto perseguida por um monstro (a câmara), femme fatale num filme noir a cores, odalisca, serva ou ninfa numa pintura flamenga ou renascentista… ou simplesmente uma mulher banal em confidências com uma amiga, numa qualquer esplanada parisiense.
Entre as várias microficções que parasitam ‘Jane B. por Agnès V.’, é a dada altura mencionada a história de uma mulher apaixonada por um adolescente, uma ideia da autoria de Jane Birkin, que Agnès Varda se apressa a realizar: o resultado é ‘Kung-Fu Master’ (1988), um longa-metragem de ficção, menos autobiográfico do que proustiano, na medida em que, para Birkin, a intriga amorosa não passa de um pretexto para evocar a sua infância na Inglaterra. De certo modo, ‘Jane B. por Agnès V.’ documenta igualmente a gênese de ‘Kung-Fu Master’, que por sua vez assume contornos de um filme de família, já que Birkin contracena não só com Mathieu Demy, o filho de Agnès Varda e Jacques Demy, como com as suas próprias filhas, Charlotte e Lou. O mesmo desejo de regressar a um passado familiar envolto por uma aura de nostalgia estará na origem do único filme realizado por Jane Birkin, ‘Boxes’ (2007), com Geraldine Chaplin e Michel Piccoli nos papéis dos pais fictícios da protagonista, interpretada pela própria”.
O que disse a crítica 1: Mayukh Sem do site Reverse Shot achou bom. Disse: “Os detratores de ‘Jane B. por Agnès V.’ reclamam que o filme é pesado e divagante, e aqueles que não consideram Birkin uma personagem tão fascinante podem concordar. Reimagine o filme, então, como um em que Varda pede a ajuda de Birkin para criar um autorretrato, observando incessantemente essa outra mulher para dar sentido aos seus próprios desejos incipientes como cineasta. Aqui, emerge um retrato nítido de Varda: como uma diretora generosa e altruísta, como uma artista que não se desculpa por levar suas obsessões para o cinema, como uma mulher atenta às inseguranças que outras mulheres enfrentam porque as conhece muito bem. Varda observa Birkin atentamente para revelar algo que outros cineastas lutaram para desenterrar. Mas o espelho também está sempre lá”.
O que disse a crítica 2: Jake Cole do site Slant avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “O filme leva o conceito de vitrine para um ator a extremos pós-modernos e vanguardistas, dispensando a narrativa em favor de confissões e performances espontâneas. A abertura estabelece o tom descontraído, colocando Birkin em um quadro vivo de uma pintura do século XVI, antes de quebrar o clima clássico ao mostrar a atriz falando sobre ter vomitado no set de filmagem em seu aniversário de 30 anos”.
O que eu achei: Difícil classificar esse filme. No MUBI aparece como ‘documentário, fantasia’, termos aparentemente antagônicos. Eu diria que está mais para fantasia do que para documentário, ou seja, é menos um retrato da atriz, cantora e modelo inglesa Jane Birkin (1946-2023) e mais um filme experimental e bastante fantasioso da cineasta belga Agnès Varda. Em comparação com o longa posterior “Jane por Charlotte” (2021) – feito pela filha Charlotte Gainsbourg quando a mãe estava com 70 anos -, o de Varda é bem menos informativo. Nesse aspecto o de Charlotte é melhor. O de Varda foi feito quando a atriz estava completando 40 anos. Birkin havia confidenciado a Varda seu medo de completar 40. Foi aí que o filme nasceu. Ele até mostra um pouco de sua biografia: alguns filmes dos quais ela participou, seus pais e irmão, sua casa na infância, marido e filhas, desconstruindo em parte a imagem da femme fatale volúvel e distraída que a marcou. Mas esses aspectos são poucos e mostrados de maneira fugaz. A maior parte do filme é sobre a onipresente Varda e suas divagações, mostrando Birkin como Joana d'Arc, Calamity Jane (a famosa heroína do oeste americano), Jane de Tarzan, o Magro da dupla o Gordo e o Magro, Ariadne da mitologia grega, como uma musa clássica ou em retratos renascentistas. É como se Varda tivesse pedido a ajuda de Birkin para criar um autorretrato, observando incessantemente essa outra mulher para dar sentido aos seus próprios desejos como cineasta. Poderia se chamar: “Agnès V. por Jane B.”. Fantasioso sim, documentário jamais.