
Comentário: Pier Paolo Pasolini (1922-1975) foi um cineasta italiano. Formou-se em Estudos Literários pela Universidade de Bolonha. Foi poeta, editor, pintor, ensaísta, crítico literário e cinematográfico, roteirista, jornalista e agitador cultural. Somente aos 40 anos de idade se rendeu ao cinema, meio pelo qual ganharia projeção mundial. Gay, cristão e marxista, Pasolini era polêmico, controverso e marcou uma época. Intelectual profundamente crítico da sociedade de consumo e do capitalismo, foi uma figura central na vida cultural italiana dos anos 1950 aos 1970. Faleceu assassinado em 1975. Assisti dele os bons “Accattone - Desajuste Social” (1961), "Mamma Roma" (1962) e “Teorema” (1968), o mediano “O Decameron” (1971) e o curioso “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964). Desta vez vou conferir "Gaviões e Passarinhos" (1966).
Rodrigo de Oliveira do site Contracampo escreveu: "Pasolini nunca foi uma unanimidade. Mesmo seus defensores costumam fazer, em algum momento, uma ressalva aqui e ali, atribuir a dúvida sobre algum de seus petardos à sua personalidade 'contraditória' – característica que só é positiva quando utilizada para explicar alguém cujo talento foge de qualquer explicação".
Ele nos conta que os extras do DVD de "Gaviões e Passarinhos" destacam mais as controvérsias do que as qualidades do filme e do Pasolini. Depoimentos de restauradores, transeuntes e intelectuais como Moravia e Zavattini relativizam o valor do cineasta em comparação aos grandes nomes do cinema italiano e apontam tensões entre o escritor e o diretor que coexistem nele. Essa recepção crítica reforça a ideia de que Pasolini permanece uma figura difícil de apreender plenamente: sua obra e sua imagem pública se constroem a partir de contradições, instabilidade e exposição extrema, fazendo da tentativa de compreendê-lo um exercício sempre incompleto, mas profundamente revelador de sua entrega pessoal à arte.
Ele diz: "Daí que 'Gaviões e Passarinhos' talvez seja mesmo uma falha. Como a fábula alegórica que aparenta ser, segue passos muito bem marcados na construção simplificada de uma teoria sobre o que resta do marxismo em tempos de crise moral de seus seguidores, e quais seriam as possíveis saídas para essa crise (religião ou deglutição?). Está tudo inclusive muito bem claro e explicado: há um corvo marxista, catedrático e falastrão, que acompanha o caminho de um pai com seu filho, eles mesmos pequenos burgueses de pouca instrução, e tudo aquilo que as imagens tentam dizer acaba, uma hora ou outra, verbalizado pelo próprio corvo".
Oliveira entende que "o filme apresenta a luta de classes por meio da metáfora dos gaviões e dos passarinhos, mostrando que as relações de dominação e opressão são inevitáveis. Essa lógica se complexifica quando Totò (o pai) e Ninetto (o filho) alternam os papéis de opressor e oprimido: primeiro agem como “gaviões” ao cobrar o aluguel de uma família miserável, depois se tornam “passarinhos” diante de um credor mais poderoso. Ao revelar que essas forças coexistem dentro dos próprios indivíduos, o filme sugere, como possível resposta, a via do cristianismo, entendida como um pensamento que busca harmonizar as diferenças em nome da paz.
O texto aponta que "Gaviões e Passarinhos" perde força justamente por sua imprecisão alegórica: em vez de oferecer um didatismo claro, o filme se organiza de forma caótica e fragmentada, quase episódica, sem progressão narrativa definida. As situações são independentes, os personagens permanecem opacos e sem trajetória discernível, e a própria pergunta inicial sobre o destino da humanidade fica sem resposta. Assim, as experiências não constroem os personagens, mas apenas dão forma a um filme marcado pela indeterminação.
Ele diz: "'Gaviões e Passarinhos' talvez seja o primeiro grande passo de Pasolini na consolidação daquilo que lançara no anterior 'O Evangelho Segundo São Mateus' como o 'cinema de poesia'. Episódio por episódio (ou estrofe por estrofe), vivemos a inteireza da experiência do contato com o mundo – ao menos aquele criado pelo próprio filme –, somos expostos a emoções às vezes até contraditórias entre si mas que, no momento em que surgem, são encarnadas como se fossem a última, e essa urgência exige uma entrega imediata: literalmente um filme em que se ri e se chora, divertido quando quer, melancólico quando preciso. (...) Aproveitando a presença de Totò, Pasolini coloca os protagonistas em uma dúzia de situações de pura comédia física, cheias de caretas e trejeitos típico de um cinema de superfícies (...)".
Ele conclui que embora reconhecido como um filme “todo errado”, "Gaviões e Passarinhos" encontra no risco e na imperfeição a sua força, afirmando o cinema como um gesto de coragem e exposição. Pasolini transforma contradições e falhas em motor criativo, fazendo de um cinema engajado na vida — igualmente caótica e imperfeita — a base de sua obra".
O que disse a crítica 1: Virgílio Jesus do site Magazine HD gostou. Disse: "Um conto alegórico estreado em Cannes e no qual brilha o lendário Totò com um desempenho memorável. Enquanto se deslocam pela estrada afora e através do tempo, com uma incursão à época de São Francisco de Assis, Totò e o seu filho (Ninetto Davoli) encontram um corvo falante (e intelectual de esquerda) que os acompanha na digressão e vai comentando as peripécias que se sucedem de uma forma que o torna insuportável, pelo que os nossos heróis serão forçados a tomar uma medida drástica".
O que disse a crítica 2: Luiz Carlos Merten do Estadão também gostou. Escreveu: "Mais do que em qualquer dos filmes anteriores, Pasolini rompeu com normas e regras narrativas com esse filme que não se assemelha a nenhum outro. (...) Aqui, a fábula converte-se em cinema de poesia. Para quem entra no clima, o episódio de São Francisco, com Totò e o corvo intelectual, beira o sublime".
O que eu achei: O título original do longa, "Uccellacci e Uccellini" traz, em italiano, o aumentativo e o diminutivo da palavra pássaro. Enquanto uccellacci representa as aves grandes, ferozes ou malvadas, uccellini evoca os passarinhos pequenos, frágeis e indefesos. Com essa metáfora, o filme pretende expor as classes sociais e as dinâmicas de poder: de um lado, os poderosos e exploradores que exercem a violência histórica; do outro, os oprimidos e marginalizados. A obra joga luz sobre como as ideologias - seja a opção cristã ou a marxista - tentam mediar e transformar a relação entre essas duas forças. O grande entrave do filme é que ele opera essa premissa de forma episódica e ilustrativa. A narrativa acompanha um pai e um filho caminhando por uma estrada quando encontram um corvo falante. No primeiro momento, a sensação é de que eles não têm rumo fixo e vagam à deriva. O corvo encarna a própria ideologia, mais especificamente a do intelectual marxista de esquerda, refletindo a crise do comunismo na Itália dos anos 1960. Essa jornada é interrompida, vez ou outra, por episódios de maior ou menor relevância. Entre os fragmentos de maior destaque, o primeiro é o encontro com São Francisco de Assis. O corvo faz uma regressão temporal e transporta a dupla para o século XIII, onde pai e filho se transformam em frades franciscanos com a missão de evangelizar as aves e pregar o amor de Deus para alcançar a paz. A evangelização funciona: tanto os gaviões quanto os pardais aceitam a palavra divina e se convertem. Contudo, o episódio termina de forma irônica, com um gavião seguindo sua natureza biológica e devorando um pardal, enquanto São Francisco ordena que eles continuem pregando. Outro momento marcante é o funeral real de Palmiro Togliatti, o mais importante líder histórico do Partido Comunista Italiano (PCI), falecido em agosto de 1964. Esse segmento utiliza imagens reais de arquivo do cortejo fúnebre em Roma que reuniu mais de um milhão de pessoas, simbolizando o fim de uma era. Os episódios secundários são breves e muito ilustrativos, destacando as esquetes sociais de Pasolini de forma direta. A narrativa encadeia a invasão de uma propriedade para um piquenique frustrado, a cobrança de aluguel de uma família miserável, o auxílio a uma trupe de teatro com um parto na estrada e a confissão de insolvência a um credor. O resultado produziu, à época, reações polarizadas. O público geral rejeitou a obra; a presença do comediante Totò gerou a expectativa de uma comédia leve e pastelão, mas o espectador deparou-se com um filme altamente metafórico, repleto de debates intelectuais, saindo frustrado das salas. A esquerda marxista ortodoxa também reagiu com hostilidade: o PCI e seus críticos afiliados não gostaram de ver a ideologia - representada pelo corvo - retratada como pedante e cansativa, considerando a produção excessivamente pessimista em relação ao futuro da revolução. Por outro lado, a crítica de vanguarda e os festivais celebraram a audácia estética, elogiando a capacidade de Pasolini de hibridizar o neorrealismo e a fábula absurda para fundar uma nova linguagem. Particularmente, embora eu tenha considerado a produção excessivamente fragmentada e didática, encantei-me com a trilha sonora assinada por Ennio Morricone e interpretada por Domenico Modugno. Ver o comediante Totò em ação também é um privilégio, especialmente por este ter sido seu último longa-metragem antes de falecer. Com isso, em última análise, o longa acaba sendo uma recomendação indispensável, nem que seja pela curiosidade de encarar uma obra completamente fora dos moldes tradicionais, que desafia as fronteiras do que o cinema pode propor e debater.
Rodrigo de Oliveira do site Contracampo escreveu: "Pasolini nunca foi uma unanimidade. Mesmo seus defensores costumam fazer, em algum momento, uma ressalva aqui e ali, atribuir a dúvida sobre algum de seus petardos à sua personalidade 'contraditória' – característica que só é positiva quando utilizada para explicar alguém cujo talento foge de qualquer explicação".
Ele nos conta que os extras do DVD de "Gaviões e Passarinhos" destacam mais as controvérsias do que as qualidades do filme e do Pasolini. Depoimentos de restauradores, transeuntes e intelectuais como Moravia e Zavattini relativizam o valor do cineasta em comparação aos grandes nomes do cinema italiano e apontam tensões entre o escritor e o diretor que coexistem nele. Essa recepção crítica reforça a ideia de que Pasolini permanece uma figura difícil de apreender plenamente: sua obra e sua imagem pública se constroem a partir de contradições, instabilidade e exposição extrema, fazendo da tentativa de compreendê-lo um exercício sempre incompleto, mas profundamente revelador de sua entrega pessoal à arte.
Ele diz: "Daí que 'Gaviões e Passarinhos' talvez seja mesmo uma falha. Como a fábula alegórica que aparenta ser, segue passos muito bem marcados na construção simplificada de uma teoria sobre o que resta do marxismo em tempos de crise moral de seus seguidores, e quais seriam as possíveis saídas para essa crise (religião ou deglutição?). Está tudo inclusive muito bem claro e explicado: há um corvo marxista, catedrático e falastrão, que acompanha o caminho de um pai com seu filho, eles mesmos pequenos burgueses de pouca instrução, e tudo aquilo que as imagens tentam dizer acaba, uma hora ou outra, verbalizado pelo próprio corvo".
Oliveira entende que "o filme apresenta a luta de classes por meio da metáfora dos gaviões e dos passarinhos, mostrando que as relações de dominação e opressão são inevitáveis. Essa lógica se complexifica quando Totò (o pai) e Ninetto (o filho) alternam os papéis de opressor e oprimido: primeiro agem como “gaviões” ao cobrar o aluguel de uma família miserável, depois se tornam “passarinhos” diante de um credor mais poderoso. Ao revelar que essas forças coexistem dentro dos próprios indivíduos, o filme sugere, como possível resposta, a via do cristianismo, entendida como um pensamento que busca harmonizar as diferenças em nome da paz.
O texto aponta que "Gaviões e Passarinhos" perde força justamente por sua imprecisão alegórica: em vez de oferecer um didatismo claro, o filme se organiza de forma caótica e fragmentada, quase episódica, sem progressão narrativa definida. As situações são independentes, os personagens permanecem opacos e sem trajetória discernível, e a própria pergunta inicial sobre o destino da humanidade fica sem resposta. Assim, as experiências não constroem os personagens, mas apenas dão forma a um filme marcado pela indeterminação.
Ele diz: "'Gaviões e Passarinhos' talvez seja o primeiro grande passo de Pasolini na consolidação daquilo que lançara no anterior 'O Evangelho Segundo São Mateus' como o 'cinema de poesia'. Episódio por episódio (ou estrofe por estrofe), vivemos a inteireza da experiência do contato com o mundo – ao menos aquele criado pelo próprio filme –, somos expostos a emoções às vezes até contraditórias entre si mas que, no momento em que surgem, são encarnadas como se fossem a última, e essa urgência exige uma entrega imediata: literalmente um filme em que se ri e se chora, divertido quando quer, melancólico quando preciso. (...) Aproveitando a presença de Totò, Pasolini coloca os protagonistas em uma dúzia de situações de pura comédia física, cheias de caretas e trejeitos típico de um cinema de superfícies (...)".
Ele conclui que embora reconhecido como um filme “todo errado”, "Gaviões e Passarinhos" encontra no risco e na imperfeição a sua força, afirmando o cinema como um gesto de coragem e exposição. Pasolini transforma contradições e falhas em motor criativo, fazendo de um cinema engajado na vida — igualmente caótica e imperfeita — a base de sua obra".
O que disse a crítica 1: Virgílio Jesus do site Magazine HD gostou. Disse: "Um conto alegórico estreado em Cannes e no qual brilha o lendário Totò com um desempenho memorável. Enquanto se deslocam pela estrada afora e através do tempo, com uma incursão à época de São Francisco de Assis, Totò e o seu filho (Ninetto Davoli) encontram um corvo falante (e intelectual de esquerda) que os acompanha na digressão e vai comentando as peripécias que se sucedem de uma forma que o torna insuportável, pelo que os nossos heróis serão forçados a tomar uma medida drástica".
O que disse a crítica 2: Luiz Carlos Merten do Estadão também gostou. Escreveu: "Mais do que em qualquer dos filmes anteriores, Pasolini rompeu com normas e regras narrativas com esse filme que não se assemelha a nenhum outro. (...) Aqui, a fábula converte-se em cinema de poesia. Para quem entra no clima, o episódio de São Francisco, com Totò e o corvo intelectual, beira o sublime".
O que eu achei: O título original do longa, "Uccellacci e Uccellini" traz, em italiano, o aumentativo e o diminutivo da palavra pássaro. Enquanto uccellacci representa as aves grandes, ferozes ou malvadas, uccellini evoca os passarinhos pequenos, frágeis e indefesos. Com essa metáfora, o filme pretende expor as classes sociais e as dinâmicas de poder: de um lado, os poderosos e exploradores que exercem a violência histórica; do outro, os oprimidos e marginalizados. A obra joga luz sobre como as ideologias - seja a opção cristã ou a marxista - tentam mediar e transformar a relação entre essas duas forças. O grande entrave do filme é que ele opera essa premissa de forma episódica e ilustrativa. A narrativa acompanha um pai e um filho caminhando por uma estrada quando encontram um corvo falante. No primeiro momento, a sensação é de que eles não têm rumo fixo e vagam à deriva. O corvo encarna a própria ideologia, mais especificamente a do intelectual marxista de esquerda, refletindo a crise do comunismo na Itália dos anos 1960. Essa jornada é interrompida, vez ou outra, por episódios de maior ou menor relevância. Entre os fragmentos de maior destaque, o primeiro é o encontro com São Francisco de Assis. O corvo faz uma regressão temporal e transporta a dupla para o século XIII, onde pai e filho se transformam em frades franciscanos com a missão de evangelizar as aves e pregar o amor de Deus para alcançar a paz. A evangelização funciona: tanto os gaviões quanto os pardais aceitam a palavra divina e se convertem. Contudo, o episódio termina de forma irônica, com um gavião seguindo sua natureza biológica e devorando um pardal, enquanto São Francisco ordena que eles continuem pregando. Outro momento marcante é o funeral real de Palmiro Togliatti, o mais importante líder histórico do Partido Comunista Italiano (PCI), falecido em agosto de 1964. Esse segmento utiliza imagens reais de arquivo do cortejo fúnebre em Roma que reuniu mais de um milhão de pessoas, simbolizando o fim de uma era. Os episódios secundários são breves e muito ilustrativos, destacando as esquetes sociais de Pasolini de forma direta. A narrativa encadeia a invasão de uma propriedade para um piquenique frustrado, a cobrança de aluguel de uma família miserável, o auxílio a uma trupe de teatro com um parto na estrada e a confissão de insolvência a um credor. O resultado produziu, à época, reações polarizadas. O público geral rejeitou a obra; a presença do comediante Totò gerou a expectativa de uma comédia leve e pastelão, mas o espectador deparou-se com um filme altamente metafórico, repleto de debates intelectuais, saindo frustrado das salas. A esquerda marxista ortodoxa também reagiu com hostilidade: o PCI e seus críticos afiliados não gostaram de ver a ideologia - representada pelo corvo - retratada como pedante e cansativa, considerando a produção excessivamente pessimista em relação ao futuro da revolução. Por outro lado, a crítica de vanguarda e os festivais celebraram a audácia estética, elogiando a capacidade de Pasolini de hibridizar o neorrealismo e a fábula absurda para fundar uma nova linguagem. Particularmente, embora eu tenha considerado a produção excessivamente fragmentada e didática, encantei-me com a trilha sonora assinada por Ennio Morricone e interpretada por Domenico Modugno. Ver o comediante Totò em ação também é um privilégio, especialmente por este ter sido seu último longa-metragem antes de falecer. Com isso, em última análise, o longa acaba sendo uma recomendação indispensável, nem que seja pela curiosidade de encarar uma obra completamente fora dos moldes tradicionais, que desafia as fronteiras do que o cinema pode propor e debater.








