
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano de quem já assisti 22 filmes, dentre eles a obra-prima “Os Imperdoáveis” (1992) e os ótimos “O Estranho Sem Nome” (1973), “As Pontes de Madison” (1995), “Sobre Meninos e Lobos” (2003), “Menina de Ouro” (2004), “Cartas de Iwo Jima” (2006) e “A Conquista da Honra” (2006).
“Bird” (1988) conta a história do saxofonista americano de jazz Charlie Parker (1929-2012). O título do filme é o apelido dele. Começou sendo Yardbird e, mais tarde, esse apelido foi encurtado para Bird, que significa pássaro em português.
Marcelo Orozco do site Giz_br nos conta que “Charlie nasceu em Kansas City, uma cidade grande com uma expressiva cena de jazz nos anos 1920 e 1930. Após dominar os rudimentos do saxofone alto, mais agudo que o tenor, o rapaz meteu as caras para tocar em alguma banda ou orquestra. Com 16 anos, já viajava para tocar profissionalmente e ficou baseado em Ozark, no estado do Missouri. Em 1939, mudou-se para Nova York para uma grande aposta em sua carreira. Logo tornou-se músico fixo da banda de Jay McShann, na qual ficaria até 1942. As grandes descobertas viriam na metrópole.
Numa jam session (sessão de improviso de músicos em suas horas vagas), Charlie descobriu que podia desconstruir toda a estrutura de notas da música ‘Cherokee’ – tocava algumas notas ou sequências, deixava outras de fora, acelerava a velocidade com que tocava um jorro de notas e obtinha um resultado que era praticamente outra música. Este era praticamente o método do bebop. Desconstruir para criar algo novo e diferente. Se pensarmos bem, isso segue sendo feito até hoje, só que agora digitalmente através de samplers.
Mas, além de criar em cima de standards, Parker e a turma do bebop também compunham do zero. E, quando falamos em turma, ela inclui o primeiro e maior parceiro de Parker: o trompetista Dizzy Gillespie, igualmente genial e com um visual ímpar, com boina, cavanhaque e bochechas que se inflavam como baiacus quando tocava.
Parker e Gillespie se conheceram numa esquina de Nova York. E descobriram que eram almas gêmeas musicais na criatividade e na ambição de fazer algo importante. Com outros monstros jovens como os pianistas Thelonious Monk e Bud Powell, e o baterista Max Roach, formou-se um núcleo duro de um novo jeito de tocar jazz. Não havia uma banda fixa na maior parte do tempo, mas o estilo ganhou um nome que agregava a todos: bebop.
Por causa de uma greve do sindicato dos músicos em relação às gravadoras entre 1942 e 1944, o bebop só chegou ao vinil com certo atraso. Como líder, Charlie Parker só gravou e lançou seus primeiros discos em 1945.
Dizzy partiu para formar seu próprio grupo em seguida e seu substituto na banda do líder Parker foi um rapazinho de 19 anos chamado Miles Davis. É impressionante a quantidade de gênios que orbitou em torno de Parker. (...)
Criou-se um culto a Parker que chegou a extremos de obsessão. Havia fãs dedicados que levavam gravadores rústicos aos shows para gravar apenas o saxofone de Parker. Isso gerou uma circulação de fitas e discos clandestinos (ou seja, piratas) que não tinha comparação na época.
(...) A célebre velocidade de Parker no saxofone não era pura técnica exibicionista sem alma. Ele era perfeitamente capaz de tocar lentamente e com sentimento, especialmente nas covers de baladas românticas. Charlie também não tinha medo de experimentar. Apreciador de música clássica, persistiu com gravadoras até finalmente conseguir gravar um álbum inteiro com orquestra de cordas, o célebre ‘Charlie Parker With Strings’, gravado em novembro de 1949 e puxado pelo clássico ‘Summertime’.
O problema é que a genialidade musical era afetada pelo comportamento errático de Charlie por seu vício pesado em heroína. Numa temporada na Califórnia, botou fogo nos lençóis de seu quarto de hotel e, pelado e chapado, saiu em disparada pelos corredores. Foi detido e internado de julho de 1946 a janeiro de 1947 no hospital psiquiátrico de Camarillo – que inspiraria sua brilhante composição ‘Relaxin’ at Camarillo’, gravada logo após sua saída da internação.
Outros incidentes causados pela droga podem ter sido menos espetaculares ou históricos. Mas não menos danosos à carreira e à saúde de Bird. Por isso seu corpo estava num estado lastimável ao morrer”.
O filme foi uma grande homenagem que Clint Eastwood fez a esse saxofonista mas, segundo Orozco, “dividiu opiniões quando chegou aos cinemas e ainda tem defensores e antipatizantes” pois “estudiosos do jazz questionam um monte de detalhes e incongruências de ‘Bird’. Uma das principais é a cena em que Parker fica revoltado ao ver um velho amigo saxofonista tocando rhythm’n’blues dançante – ou uma versão pioneira de rock’n’roll – num show. O amigo toca poucas notas ruidosas com intensidade puramente rítmica e apela para a tosca ‘buzinada’ (‘Honk!’) para excitar a plateia. Na saída do palco, Parker manifesta sem cerimônia sua contrariedade em relação ao que acabou de ver. Essa cena foi questionada. Charlie era um apaixonado por música, independentemente de estilos, e poderia até ter arriscado alguns experimentos com o rhythm’n’blues ou o rock’n’roll, que estouraria e tomaria conta do mundo uns poucos meses depois de sua morte”.
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Clint Eastwood já dirigira treze filmes antes de ‘Bird’ (1988), quase todos com qualidade acima da média. Mas, foi com a cinebiografia de Charlie ‘Bird’ Parker que Eastwood conquistou respeito como diretor de filmes de prestígio. Para os franceses, representou um presente, o argumento que precisavam para comprovar seu cinema autoral”.
O que disse a crítica 2: Matthew Vilela do site Mais Goiás colocou “Bird” na lista dos 10 melhores filmes feitos por Eastwood. Ele disse: “Eu amo jazz e Charles ‘Bird’ Parker foi um dos grandes artistas norte-americanos do gênero. Esta cinebiografia dirigida por Clint Eastwood e estrelada por Forest Whitaker segue a cartilha básica de cinebiografias no cinema, mas as atuações são tão boas, e a direção de Eastwood valoriza tanto elas, que o resultado é puro prazer”.
O que eu achei: Em "Bird" (1988), Clint Eastwood realiza um verdadeiro trabalho de amor. Escritor, produtor e diretor, o astro durão revela aqui sua face mais sensível: a de um apaixonado por jazz, pianista nas horas vagas e admirador confesso do gênero (anos antes já havia homenageado Thelonious Monk em documentário). O resultado é uma obra-prima que transcende o formato de cinebiografia. O filme mergulha na vida de Charlie Parker, o lendário 'Bird', figura central do bebop, revolucionário na técnica e na linguagem musical. Eastwood conduz a narrativa com delicadeza e precisão, capturando a atmosfera esfumaçada dos clubes, a vibração quase mística das jam sessions e a intensidade criativa que pulsava naquela geração. A trilha sonora autêntica não é mero acompanhamento: é alma, respiração e matéria viva. A estrutura narrativa impressiona. A montagem fragmenta a cronologia de forma tão fluida que o espectador é conduzido por memórias e estados de espírito sem perceber rupturas. Mais do que contar fatos, o filme traduz sensações. O efeito das drogas, o caos emocional, os altos e baixos de uma trajetória marcada por genialidade e autodestruição, tudo é sentido na pele. Não sei até que ponto a biografia é rigorosamente fiel aos fatos, há quem aponte uma ou outra inconsistência, mas isso se torna secundário diante da verdade emocional alcançada. Ao final compreendemos o espírito de Parker: sua dor, sua urgência criativa, sua grandeza. Vale destacar a atuação monumental de Forest Whitaker. Ele não interpreta Parker; ele o incorpora. Sua presença em cena é hipnótica, humanizando o mito sem jamais diminuir sua dimensão histórica. “Bird” é cinema no mais alto nível: sensorial e profundamente comovente. Uma celebração da arte e de um gênio que mudou a música para sempre. Obra-prima.
“Bird” (1988) conta a história do saxofonista americano de jazz Charlie Parker (1929-2012). O título do filme é o apelido dele. Começou sendo Yardbird e, mais tarde, esse apelido foi encurtado para Bird, que significa pássaro em português.
Marcelo Orozco do site Giz_br nos conta que “Charlie nasceu em Kansas City, uma cidade grande com uma expressiva cena de jazz nos anos 1920 e 1930. Após dominar os rudimentos do saxofone alto, mais agudo que o tenor, o rapaz meteu as caras para tocar em alguma banda ou orquestra. Com 16 anos, já viajava para tocar profissionalmente e ficou baseado em Ozark, no estado do Missouri. Em 1939, mudou-se para Nova York para uma grande aposta em sua carreira. Logo tornou-se músico fixo da banda de Jay McShann, na qual ficaria até 1942. As grandes descobertas viriam na metrópole.
Numa jam session (sessão de improviso de músicos em suas horas vagas), Charlie descobriu que podia desconstruir toda a estrutura de notas da música ‘Cherokee’ – tocava algumas notas ou sequências, deixava outras de fora, acelerava a velocidade com que tocava um jorro de notas e obtinha um resultado que era praticamente outra música. Este era praticamente o método do bebop. Desconstruir para criar algo novo e diferente. Se pensarmos bem, isso segue sendo feito até hoje, só que agora digitalmente através de samplers.
Mas, além de criar em cima de standards, Parker e a turma do bebop também compunham do zero. E, quando falamos em turma, ela inclui o primeiro e maior parceiro de Parker: o trompetista Dizzy Gillespie, igualmente genial e com um visual ímpar, com boina, cavanhaque e bochechas que se inflavam como baiacus quando tocava.
Parker e Gillespie se conheceram numa esquina de Nova York. E descobriram que eram almas gêmeas musicais na criatividade e na ambição de fazer algo importante. Com outros monstros jovens como os pianistas Thelonious Monk e Bud Powell, e o baterista Max Roach, formou-se um núcleo duro de um novo jeito de tocar jazz. Não havia uma banda fixa na maior parte do tempo, mas o estilo ganhou um nome que agregava a todos: bebop.
Por causa de uma greve do sindicato dos músicos em relação às gravadoras entre 1942 e 1944, o bebop só chegou ao vinil com certo atraso. Como líder, Charlie Parker só gravou e lançou seus primeiros discos em 1945.
Dizzy partiu para formar seu próprio grupo em seguida e seu substituto na banda do líder Parker foi um rapazinho de 19 anos chamado Miles Davis. É impressionante a quantidade de gênios que orbitou em torno de Parker. (...)
Criou-se um culto a Parker que chegou a extremos de obsessão. Havia fãs dedicados que levavam gravadores rústicos aos shows para gravar apenas o saxofone de Parker. Isso gerou uma circulação de fitas e discos clandestinos (ou seja, piratas) que não tinha comparação na época.
(...) A célebre velocidade de Parker no saxofone não era pura técnica exibicionista sem alma. Ele era perfeitamente capaz de tocar lentamente e com sentimento, especialmente nas covers de baladas românticas. Charlie também não tinha medo de experimentar. Apreciador de música clássica, persistiu com gravadoras até finalmente conseguir gravar um álbum inteiro com orquestra de cordas, o célebre ‘Charlie Parker With Strings’, gravado em novembro de 1949 e puxado pelo clássico ‘Summertime’.
O problema é que a genialidade musical era afetada pelo comportamento errático de Charlie por seu vício pesado em heroína. Numa temporada na Califórnia, botou fogo nos lençóis de seu quarto de hotel e, pelado e chapado, saiu em disparada pelos corredores. Foi detido e internado de julho de 1946 a janeiro de 1947 no hospital psiquiátrico de Camarillo – que inspiraria sua brilhante composição ‘Relaxin’ at Camarillo’, gravada logo após sua saída da internação.
Outros incidentes causados pela droga podem ter sido menos espetaculares ou históricos. Mas não menos danosos à carreira e à saúde de Bird. Por isso seu corpo estava num estado lastimável ao morrer”.
O filme foi uma grande homenagem que Clint Eastwood fez a esse saxofonista mas, segundo Orozco, “dividiu opiniões quando chegou aos cinemas e ainda tem defensores e antipatizantes” pois “estudiosos do jazz questionam um monte de detalhes e incongruências de ‘Bird’. Uma das principais é a cena em que Parker fica revoltado ao ver um velho amigo saxofonista tocando rhythm’n’blues dançante – ou uma versão pioneira de rock’n’roll – num show. O amigo toca poucas notas ruidosas com intensidade puramente rítmica e apela para a tosca ‘buzinada’ (‘Honk!’) para excitar a plateia. Na saída do palco, Parker manifesta sem cerimônia sua contrariedade em relação ao que acabou de ver. Essa cena foi questionada. Charlie era um apaixonado por música, independentemente de estilos, e poderia até ter arriscado alguns experimentos com o rhythm’n’blues ou o rock’n’roll, que estouraria e tomaria conta do mundo uns poucos meses depois de sua morte”.
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Clint Eastwood já dirigira treze filmes antes de ‘Bird’ (1988), quase todos com qualidade acima da média. Mas, foi com a cinebiografia de Charlie ‘Bird’ Parker que Eastwood conquistou respeito como diretor de filmes de prestígio. Para os franceses, representou um presente, o argumento que precisavam para comprovar seu cinema autoral”.
O que disse a crítica 2: Matthew Vilela do site Mais Goiás colocou “Bird” na lista dos 10 melhores filmes feitos por Eastwood. Ele disse: “Eu amo jazz e Charles ‘Bird’ Parker foi um dos grandes artistas norte-americanos do gênero. Esta cinebiografia dirigida por Clint Eastwood e estrelada por Forest Whitaker segue a cartilha básica de cinebiografias no cinema, mas as atuações são tão boas, e a direção de Eastwood valoriza tanto elas, que o resultado é puro prazer”.
O que eu achei: Em "Bird" (1988), Clint Eastwood realiza um verdadeiro trabalho de amor. Escritor, produtor e diretor, o astro durão revela aqui sua face mais sensível: a de um apaixonado por jazz, pianista nas horas vagas e admirador confesso do gênero (anos antes já havia homenageado Thelonious Monk em documentário). O resultado é uma obra-prima que transcende o formato de cinebiografia. O filme mergulha na vida de Charlie Parker, o lendário 'Bird', figura central do bebop, revolucionário na técnica e na linguagem musical. Eastwood conduz a narrativa com delicadeza e precisão, capturando a atmosfera esfumaçada dos clubes, a vibração quase mística das jam sessions e a intensidade criativa que pulsava naquela geração. A trilha sonora autêntica não é mero acompanhamento: é alma, respiração e matéria viva. A estrutura narrativa impressiona. A montagem fragmenta a cronologia de forma tão fluida que o espectador é conduzido por memórias e estados de espírito sem perceber rupturas. Mais do que contar fatos, o filme traduz sensações. O efeito das drogas, o caos emocional, os altos e baixos de uma trajetória marcada por genialidade e autodestruição, tudo é sentido na pele. Não sei até que ponto a biografia é rigorosamente fiel aos fatos, há quem aponte uma ou outra inconsistência, mas isso se torna secundário diante da verdade emocional alcançada. Ao final compreendemos o espírito de Parker: sua dor, sua urgência criativa, sua grandeza. Vale destacar a atuação monumental de Forest Whitaker. Ele não interpreta Parker; ele o incorpora. Sua presença em cena é hipnótica, humanizando o mito sem jamais diminuir sua dimensão histórica. “Bird” é cinema no mais alto nível: sensorial e profundamente comovente. Uma celebração da arte e de um gênio que mudou a música para sempre. Obra-prima.










