
Comentário: Akira Kurosawa (1910-1998) foi produtor, montador, escritor e pintor japonês mas se destacou como cineasta e roteirista, um dos mais importantes do Japão e seus filmes influenciam até hoje uma grande geração de diretores. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu em torno de 30 filmes. É amplamente considerado um dos cineastas mais importantes da história do cinema, o que lhe rendeu um Oscar em 1989 pelo conjunto de sua obra. Assisti dele as obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985), o ótimo "Céu e Inferno" (1963), os bons “Os Sete Samurais” (1954) e "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), os medianos "Um Domingo Maravilhoso" (1947) e “Viver” (1952) e os curiosos "Sonhos" (1990) e "Madadayo" (1993). Desta vez vou conferir "Kagemusha - A Sombra de Um Samurai" (1980).
Luiz Santiago do site Plano Crítico publicou: "Os dez anos que separaram 'O Barba Ruiva' (1965) de 'Dersu Uzala' (1975) foram de transformações pessoais e também artísticas para Akira Kurosawa. Neste período, muita coisa aconteceu em sua vida, entre dificuldades de encontrar financiamento para seus projetos, a fracasso de bilheteria daquele que seria um empreendimento com outros diretores ('Dodeskaden – O Caminho da Vida', 1970), gerando uma tentativa de suicídio do diretor, com medo de que sua carreira tivesse terminado. E então veio o início de um retorno aos eixos, que trouxe a adaptação da obra literária do explorador russo Vladimir Arseniev.
Abraçado por diretores icônicos da Nova Hollywood (Spielberg, Lucas, Scorsese e Coppola), Kurosawa conheceria um novo momento em sua carreira, já empregando um diferente tipo de abordagem temática que desenvolveu após 'O Barba Ruiva'. Foi neste cenário - e com ajuda de Francis Ford Coppola e George Lucas como produtores de uma versão internacional, ajudando no financiamento do filme - que surgiu o épico 'Kagemusha, a Sombra de um Samurai', em 1980.
Historicamente falando, o filme se passa em um período de grandes mudanças políticas e territoriais no Japão, o Período Sengoku, também chamado de Era dos Estados Beligerantes, com guerras civis assolando clãs através de todo o país.
O roteiro de Kagemusha, escrito por Masato Ide e Kurosawa, se passa, então, em um cenário de inquietações e batalhas, e nos mostra uma jornada de controle geopolítico, colocando em cena um ladrão condenado à pena de crucificação que é salvo de sua sentença por guardar uma absurda semelhança com um dos Senhores de Clã, o que faz desse ladrão o dublê perfeito. Quando o verdadeiro Senhor local morre, as circunstâncias colocam este homem pobre no lugar áureo do Clã, interpretando por um determinado período (a vontade do falecido Senhor era que sua morte fosse oculta por 3 anos) o posto mais alto do local.
A princípio, o roteiro é bastante confuso e parecem faltar elementos sólidos de justificativa para praticamente todos os personagens em cena. A bem da verdade, temos a impressão de que se trata de uma continuação ou da segunda parte de algo a que não tivemos acesso. Kurosawa é corajoso e habilidoso o bastante para começar com essa abordagem incomum de uma narrativa em continuidade e rapidamente nos dar ingredientes dramáticos a partir dos quais podemos entender o que se passa. A guerra é esclarecida. A posição do Senhor Shingen Takeda é apresentada de modo largo e de maneira até um pouco cômica (destaque absoluto para o excelente Tatsuya Nakadai, que interpresa Takeda e, depois, Kagemusha) e a partir de então, seguimos com a preparação para a batalha e uma forma de lidar com as quebras de expectativas de domínio territorial, como se o destino de cada indivíduo aqui (lembrando que o roteiro não se furta em flertar com o místico ou o onírico) estivessem esperando a vez de ser alterado pelos mais banais motivos.
A produção de Kagemusha esteve entre as mais laboriosas da carreira de Kurosawa, mas à parte os esforços de lidar com centenas de figurantes, cavalos e dinâmica cênica funcionando perfeitamente, não houveram grandes contratempos ao longo do processo. O único impasse verdadeiro aconteceu ainda nos primeiros dias de ensaio, quando o então contratado para protagonizar o filme, o ator Shintarô Katsu (da franquia 'Zatoichi'), apareceu com uma câmera no set, dizendo que iria filmar o seu processo de atuação e transformação de Senhor Takeda para Kagemusha. Não deu outra: Kurosawa o demitiu no mesmo dia, contratando rapidamente Tatsuya Nakadai.
Ao longo de todo o processo, o cineasta não encontraria mais empecilhos além dos já esperados para uma produção deste tamanho, especialmente quando falamos de uma obra que mantém o rigor e perfeccionismo estético de seu diretor, vide as vestimentas históricas, a representação dos interiores dos castelos, o sistema de estratégias para a batalha e a dinâmica hierárquica daquele período da História do país, filmado com precisão.
Assinada por Takao Saitô (que estreou como fotógrafo ao lado de Kurosawa, em 'Sanjuro') e Shôji Ueda (em sua primeira parceria com o Mestre), a fotografia de 'Kagemusha' está entre as mais belas construções do cinema, tendo a capacidade de colocar na tela clãs de diferentes bandeiras, sequências de diferentes forças dramáticas atrelada a cores e ângulos próprios, jamais repetidos em contraste a outros Clãs; distintas aberturas e movimentos de ligação entre inimigos; e ainda as construções específicas que mais nos chamam a atenção, como as estonteantes cenas em que o ladrão descobre o corpo do Senhor dentro da jarra; a sequência do sonho em todo o seu mergulho plástico, fortemente colorido e a soberba batalha noturna, momento do filme com um dos mais marcantes trabalhos de edição na criação do suspense diante do público.
Nessas condições estéticas tão imensas, o espectador fica esperando que o roteiro vá expandir a premissa, mas a única preocupação aqui é a exploração da dualidade entre sósia e Senhor mais o possível impacto que isso tem nos chefes de Clãs inimigos".
O que disse a crítica 1: Cássio Starling Carlos crítico da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Como em tantos filmes anteriores do mestre, 'Kagemusha' é uma ópera, uma sequência admirável de quadros encenados mas também um genuíno conto filosófico, e é este o aspecto que mantém o filme nas alturas (...). Nesta troca, em que a potência deixa um espaço em branco que será ocupada por um fantasma, Kurosawa realiza uma reflexão sobre o poder e sua natureza, a guerra e suas desrazões, sobre a qual a natureza impera soberana e os homens vagam pelo mundo apenas como sombras de si mesmos".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do Plano Crítico também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: "a abordagem do roteiro impede que o fortalecimento de uma investigação mais próxima do Kagemusha seja feita, ao mesmo tempo que impede que as ambições de guerra sejam plenamente exploradas, ficando no meio um grande peso de ordem quase filosófica, onde um ladrão se vê perfeitamente tomado pelas ideias e postura de seu falecido Senhor - dedicando-se com afinco a assumir seu papel -, embora saiba que esta 'sombra' deverá sair de cena algum dia. No entanto, essa disposição textual tem peso negativo bastante limitado. A despeito dela (e da forma como o diretor filma o ciclo de ações durante a batalha final, com os chefes dos Clãs aliados praticamente entregando-se à morte), 'Kagemusha' está entre um dos mais incríveis contos históricos sobre este intenso período da história do Japão. Um grande filme sobre o poder de uma figura política, sua representação e as consequências que a sua saída de cena pode trazer para todos. Um épico sobre personalidade, sobre a arte da guerra e sobre o legado de alguém".
O que eu achei: "Kagemusha - A Sombra de Um Samurai" (1980) é um desses épicos que se passam no Japão feudal, mais precisamente no turbulento período Sengoku (1467-1603). Estamos em 1573, o país estava dividido entre dezenas de senhores feudais (daimyos). O implacável senhor feudal Oda Nobunaga havia marchado até a capital Quioto e destronado o último Xogum Ashikaga, destruindo o antigo sistema político. Nobunaga queria unificar o Japão sob o seu punho de ferro e usava táticas brutalmente modernas, incluindo o uso de armas de fogo trazidas por comerciantes europeus. O único rival militar com força para barrar Nobunaga era Takeda Shingen, o líder do clã Takeda, famoso por ter a cavalaria mais temida do Japão. Em 1572, Shingen já havia esmagado as forças de Tokugawa na Batalha de Mikatagahara e, no início de 1573, avançava em direção a Quioto. No auge da campanha, em maio de 1573, Shingen morre subitamente. Historiadores debatem se foi por pneumonia, câncer ou devido a um tiro de sniper. Seu clã esconde sua morte por um tempo para evitar que os inimigos os ataquem. Kurosawa usa exatamente essa brecha histórica real para criar a sua ficção. No filme, com a morte de Shingen, seus homens resolvem omitir essa informação dos inimigos substituindo o líder por um kagemusha (o sósia). No papel principal está o ator Tatsuya Nakadai. Ele interpreta de forma magistral os dois personagens principais: tanto o imponente senhor feudal Takeda Shingen quanto o ladrão sem nome que é obrigado a ocupar seu lugar. Embora tenha sido superado cinco anos mais tarde pela obra-prima "Ran" (1985), “Kagemusha” não perde o seu brilho. Ele funcionou como um ‘ensaio de luxo’ para o que viria a ser feito. O próprio Kurosawa admitiu que usou o longa como um teste de figurinos, cores, coreografias e locações para preparar “Ran”, que era o projeto dos seus sonhos. Se em “Ran” testemunhamos o caos absoluto provocado pela vaidade e pela decadência de um líder, em “Kagemusha” o foco é a sustentação artificial desse poder por meio de uma farsa. Ambos se completam. Um dos momentos mais fascinantes do filme ocorre quando mergulhamos no subconsciente do ladrão através de seus pesadelos. Visualmente arrebatadoras, essas cenas abandonam o realismo histórico para adotar uma estética expressionista e quase psicodélica, com cores saturadas e cenários distorcidos. Nelas, o sósia é assombrado pelo fantasma do verdadeiro Shingen e pelo peso esmagador da identidade que foi obrigado a assumir. Outro destaque fica para a sequência final, que reconstitui a histórica Batalha de Nagashino (1575). Em uma quebra de expectativa, Kurosawa opta por não filmar o choque direto do combate, mas sim nos mostrar apenas os disparos das armas e a reação horrorizada dos generais. O verdadeiro impacto vem logo em seguida, quando a câmera revela a devastação: um exército dizimado onde homens e cavalos perdem a vida em meio ao sangue e à lama. A presença dos cavalos morrendo é perturbadora. Filmados sem uso de efeitos digitais, dezenas de animais reais cobrem o chão em posições agonizantes. Vale saber que nenhum animal foi ferido: Kurosawa recorreu a veterinários para sedá-los e sua equipe teve apenas 30 minutos para capturar as imagens antes que eles acordassem. O longa é imperdível. Ao equilibrar o drama íntimo de um homem comum com o colapso de uma era, Kurosawa entrega um espetáculo que vai muito além do entretenimento. É um filme belo, cruel e profundamente reflexivo. Uma recomendação obrigatória não apenas para os entusiastas da cultura japonesa, mas para qualquer um que deseje testemunhar a genialidade de um dos maiores cineastas da história. Excelente.
Luiz Santiago do site Plano Crítico publicou: "Os dez anos que separaram 'O Barba Ruiva' (1965) de 'Dersu Uzala' (1975) foram de transformações pessoais e também artísticas para Akira Kurosawa. Neste período, muita coisa aconteceu em sua vida, entre dificuldades de encontrar financiamento para seus projetos, a fracasso de bilheteria daquele que seria um empreendimento com outros diretores ('Dodeskaden – O Caminho da Vida', 1970), gerando uma tentativa de suicídio do diretor, com medo de que sua carreira tivesse terminado. E então veio o início de um retorno aos eixos, que trouxe a adaptação da obra literária do explorador russo Vladimir Arseniev.
Abraçado por diretores icônicos da Nova Hollywood (Spielberg, Lucas, Scorsese e Coppola), Kurosawa conheceria um novo momento em sua carreira, já empregando um diferente tipo de abordagem temática que desenvolveu após 'O Barba Ruiva'. Foi neste cenário - e com ajuda de Francis Ford Coppola e George Lucas como produtores de uma versão internacional, ajudando no financiamento do filme - que surgiu o épico 'Kagemusha, a Sombra de um Samurai', em 1980.
Historicamente falando, o filme se passa em um período de grandes mudanças políticas e territoriais no Japão, o Período Sengoku, também chamado de Era dos Estados Beligerantes, com guerras civis assolando clãs através de todo o país.
O roteiro de Kagemusha, escrito por Masato Ide e Kurosawa, se passa, então, em um cenário de inquietações e batalhas, e nos mostra uma jornada de controle geopolítico, colocando em cena um ladrão condenado à pena de crucificação que é salvo de sua sentença por guardar uma absurda semelhança com um dos Senhores de Clã, o que faz desse ladrão o dublê perfeito. Quando o verdadeiro Senhor local morre, as circunstâncias colocam este homem pobre no lugar áureo do Clã, interpretando por um determinado período (a vontade do falecido Senhor era que sua morte fosse oculta por 3 anos) o posto mais alto do local.
A princípio, o roteiro é bastante confuso e parecem faltar elementos sólidos de justificativa para praticamente todos os personagens em cena. A bem da verdade, temos a impressão de que se trata de uma continuação ou da segunda parte de algo a que não tivemos acesso. Kurosawa é corajoso e habilidoso o bastante para começar com essa abordagem incomum de uma narrativa em continuidade e rapidamente nos dar ingredientes dramáticos a partir dos quais podemos entender o que se passa. A guerra é esclarecida. A posição do Senhor Shingen Takeda é apresentada de modo largo e de maneira até um pouco cômica (destaque absoluto para o excelente Tatsuya Nakadai, que interpresa Takeda e, depois, Kagemusha) e a partir de então, seguimos com a preparação para a batalha e uma forma de lidar com as quebras de expectativas de domínio territorial, como se o destino de cada indivíduo aqui (lembrando que o roteiro não se furta em flertar com o místico ou o onírico) estivessem esperando a vez de ser alterado pelos mais banais motivos.
A produção de Kagemusha esteve entre as mais laboriosas da carreira de Kurosawa, mas à parte os esforços de lidar com centenas de figurantes, cavalos e dinâmica cênica funcionando perfeitamente, não houveram grandes contratempos ao longo do processo. O único impasse verdadeiro aconteceu ainda nos primeiros dias de ensaio, quando o então contratado para protagonizar o filme, o ator Shintarô Katsu (da franquia 'Zatoichi'), apareceu com uma câmera no set, dizendo que iria filmar o seu processo de atuação e transformação de Senhor Takeda para Kagemusha. Não deu outra: Kurosawa o demitiu no mesmo dia, contratando rapidamente Tatsuya Nakadai.
Ao longo de todo o processo, o cineasta não encontraria mais empecilhos além dos já esperados para uma produção deste tamanho, especialmente quando falamos de uma obra que mantém o rigor e perfeccionismo estético de seu diretor, vide as vestimentas históricas, a representação dos interiores dos castelos, o sistema de estratégias para a batalha e a dinâmica hierárquica daquele período da História do país, filmado com precisão.
Assinada por Takao Saitô (que estreou como fotógrafo ao lado de Kurosawa, em 'Sanjuro') e Shôji Ueda (em sua primeira parceria com o Mestre), a fotografia de 'Kagemusha' está entre as mais belas construções do cinema, tendo a capacidade de colocar na tela clãs de diferentes bandeiras, sequências de diferentes forças dramáticas atrelada a cores e ângulos próprios, jamais repetidos em contraste a outros Clãs; distintas aberturas e movimentos de ligação entre inimigos; e ainda as construções específicas que mais nos chamam a atenção, como as estonteantes cenas em que o ladrão descobre o corpo do Senhor dentro da jarra; a sequência do sonho em todo o seu mergulho plástico, fortemente colorido e a soberba batalha noturna, momento do filme com um dos mais marcantes trabalhos de edição na criação do suspense diante do público.
Nessas condições estéticas tão imensas, o espectador fica esperando que o roteiro vá expandir a premissa, mas a única preocupação aqui é a exploração da dualidade entre sósia e Senhor mais o possível impacto que isso tem nos chefes de Clãs inimigos".
O que disse a crítica 1: Cássio Starling Carlos crítico da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Como em tantos filmes anteriores do mestre, 'Kagemusha' é uma ópera, uma sequência admirável de quadros encenados mas também um genuíno conto filosófico, e é este o aspecto que mantém o filme nas alturas (...). Nesta troca, em que a potência deixa um espaço em branco que será ocupada por um fantasma, Kurosawa realiza uma reflexão sobre o poder e sua natureza, a guerra e suas desrazões, sobre a qual a natureza impera soberana e os homens vagam pelo mundo apenas como sombras de si mesmos".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do Plano Crítico também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: "a abordagem do roteiro impede que o fortalecimento de uma investigação mais próxima do Kagemusha seja feita, ao mesmo tempo que impede que as ambições de guerra sejam plenamente exploradas, ficando no meio um grande peso de ordem quase filosófica, onde um ladrão se vê perfeitamente tomado pelas ideias e postura de seu falecido Senhor - dedicando-se com afinco a assumir seu papel -, embora saiba que esta 'sombra' deverá sair de cena algum dia. No entanto, essa disposição textual tem peso negativo bastante limitado. A despeito dela (e da forma como o diretor filma o ciclo de ações durante a batalha final, com os chefes dos Clãs aliados praticamente entregando-se à morte), 'Kagemusha' está entre um dos mais incríveis contos históricos sobre este intenso período da história do Japão. Um grande filme sobre o poder de uma figura política, sua representação e as consequências que a sua saída de cena pode trazer para todos. Um épico sobre personalidade, sobre a arte da guerra e sobre o legado de alguém".
O que eu achei: "Kagemusha - A Sombra de Um Samurai" (1980) é um desses épicos que se passam no Japão feudal, mais precisamente no turbulento período Sengoku (1467-1603). Estamos em 1573, o país estava dividido entre dezenas de senhores feudais (daimyos). O implacável senhor feudal Oda Nobunaga havia marchado até a capital Quioto e destronado o último Xogum Ashikaga, destruindo o antigo sistema político. Nobunaga queria unificar o Japão sob o seu punho de ferro e usava táticas brutalmente modernas, incluindo o uso de armas de fogo trazidas por comerciantes europeus. O único rival militar com força para barrar Nobunaga era Takeda Shingen, o líder do clã Takeda, famoso por ter a cavalaria mais temida do Japão. Em 1572, Shingen já havia esmagado as forças de Tokugawa na Batalha de Mikatagahara e, no início de 1573, avançava em direção a Quioto. No auge da campanha, em maio de 1573, Shingen morre subitamente. Historiadores debatem se foi por pneumonia, câncer ou devido a um tiro de sniper. Seu clã esconde sua morte por um tempo para evitar que os inimigos os ataquem. Kurosawa usa exatamente essa brecha histórica real para criar a sua ficção. No filme, com a morte de Shingen, seus homens resolvem omitir essa informação dos inimigos substituindo o líder por um kagemusha (o sósia). No papel principal está o ator Tatsuya Nakadai. Ele interpreta de forma magistral os dois personagens principais: tanto o imponente senhor feudal Takeda Shingen quanto o ladrão sem nome que é obrigado a ocupar seu lugar. Embora tenha sido superado cinco anos mais tarde pela obra-prima "Ran" (1985), “Kagemusha” não perde o seu brilho. Ele funcionou como um ‘ensaio de luxo’ para o que viria a ser feito. O próprio Kurosawa admitiu que usou o longa como um teste de figurinos, cores, coreografias e locações para preparar “Ran”, que era o projeto dos seus sonhos. Se em “Ran” testemunhamos o caos absoluto provocado pela vaidade e pela decadência de um líder, em “Kagemusha” o foco é a sustentação artificial desse poder por meio de uma farsa. Ambos se completam. Um dos momentos mais fascinantes do filme ocorre quando mergulhamos no subconsciente do ladrão através de seus pesadelos. Visualmente arrebatadoras, essas cenas abandonam o realismo histórico para adotar uma estética expressionista e quase psicodélica, com cores saturadas e cenários distorcidos. Nelas, o sósia é assombrado pelo fantasma do verdadeiro Shingen e pelo peso esmagador da identidade que foi obrigado a assumir. Outro destaque fica para a sequência final, que reconstitui a histórica Batalha de Nagashino (1575). Em uma quebra de expectativa, Kurosawa opta por não filmar o choque direto do combate, mas sim nos mostrar apenas os disparos das armas e a reação horrorizada dos generais. O verdadeiro impacto vem logo em seguida, quando a câmera revela a devastação: um exército dizimado onde homens e cavalos perdem a vida em meio ao sangue e à lama. A presença dos cavalos morrendo é perturbadora. Filmados sem uso de efeitos digitais, dezenas de animais reais cobrem o chão em posições agonizantes. Vale saber que nenhum animal foi ferido: Kurosawa recorreu a veterinários para sedá-los e sua equipe teve apenas 30 minutos para capturar as imagens antes que eles acordassem. O longa é imperdível. Ao equilibrar o drama íntimo de um homem comum com o colapso de uma era, Kurosawa entrega um espetáculo que vai muito além do entretenimento. É um filme belo, cruel e profundamente reflexivo. Uma recomendação obrigatória não apenas para os entusiastas da cultura japonesa, mas para qualquer um que deseje testemunhar a genialidade de um dos maiores cineastas da história. Excelente.







