8.10.18

"15h17 - Trem para Paris" - Clint Eastwood (EUA, 2018)

Sinopse: Quando um terrorista invade o trem n° 9364 da Thalys a caminho de Paris, três amigos norte-americanos - Anthony Sadler (ele mesmo), Alex Skarlatos (ele mesmo) e o piloto da Força Aérea Spencer Stone (ele mesmo) - se esforçam para imobilizar o extremista Ayoub El Khazzani é interpretado (Ray Corasani), armado com um fuzil AK-47, e evitar uma enorme tragédia.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015) e "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016). Desta vez vou conferir "15h17 - Trem para Paris" (2018).
Segundo Francisco Russo do site Adoro Cinema, "É curioso notar como, em seus três últimos filmes como diretor, Clint Eastwood enveredou de vez para a temática do herói". Ele fez isso em "Sniper Americano" (2015) e em "Sully" (2016).
"Em '15h17 - Trem para Paris', a luta de um homem contra o sistema está de volta, mas sob outro aspecto. Desta vez, Clint não está propriamente interessado em apontar o dedo para agências ou governos, mas sim para a crença geral com base na ciência. Ao adaptar mais uma história verídica, o diretor se apropria dos fatos para se posicionar contra a predeterminação com base em estatísticas e conceitos, de forma a minimizar - ou até menosprezar - pessoas.
É o velho Clint acreditando no potencial humano acima de tudo, capaz de superar adversidades e limitações em momentos cruciais da vida - como ele mesmo tanto fez, nos personagens que interpretou".
O que eu achei: Em "15h17 – Trem para Paris" (2018), Clint Eastwood toma uma decisão radical ao escalar os próprios protagonistas reais para interpretarem a si mesmos, apostando em um realismo quase documental. A intenção é nobre e, em teoria, coerente com o desejo de evitar espetacularização do heroísmo. No entanto, o resultado evidencia um grave descompasso entre proposta e execução: a ausência de domínio dramático dos não-atores compromete a encenação, tornando muitas cenas artificiais, rígidas e desprovidas de tensão narrativa. A estrutura do filme agrava esse problema. Grande parte da duração é ocupada por episódios banais da juventude e das viagens dos personagens, registrados de forma dispersa e pouco significativa, como se o filme hesitasse em encontrar seu próprio foco. Quando o ataque finalmente acontece - evento que justifica a existência do filme -, ele surge quase abruptamente, sem o impacto dramático que se espera, não por recusa consciente ao suspense, mas por uma preparação narrativa ineficaz. O gesto heroico, real e inegavelmente corajoso, acaba diluído por uma construção dramática que não sabe como chegar até ele. Como disse Francisco Russo na sua análise no site Adoro Cinema, é admirável ver um diretor de 87 anos ainda disposto a se arriscar, tanto estética quanto narrativamente, rompendo convenções e testando limites do cinema tradicional. O problema é que, em "15h17 – Trem para Paris", essas escolhas simplesmente não funcionam bem. O experimento resulta em um filme estranho, mal ritmado e emocionalmente inerte, no qual a ousadia formal não se traduz em potência cinematográfica. Eastwood parece confiar demais no peso do fato real, esquecendo que, no cinema, mesmo a verdade precisa ser dramaticamente construída para existir na tela".