13.3.11

"Cartas de Iwo Jima" - Clint Eastwood (EUA, 2006)

Sinopse: Junho de 1944. Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), o tenente-general do exército imperial japonês, chega na ilha de Iwo Jima. Muito respeitado por ser um hábil estrategista, Kuribayashi estudara nos Estados Unidos, onde fizera grandes amigos e conhecia o exército ocidental e sua capacidade tecnológica. Por isso o Japão colocou em suas mãos o destino de Iwo Jima, considerada a última linha defesa do país. Ao contrário dos outros comandantes Kuribayashi moderniza o modo de agir, alterando a estratégia que era usada. Ele supervisiona a construção de uma fortaleza subterrânea, feita de túneis que davam para as suas tropas a estratégia ideal contra as forças americanas, que começam a desembarcar na ilha em 19 de fevereiro de 1945. Os japoneses sabiam que as chances de sair dali vivos eram mínimas. Enquanto isto acontece, Kuribayashi e outros escrevem várias cartas, que dão vozes e rostos para aqueles que ali estavam e o relato dos meses que antecederam a batalha e o combate propriamente dito, sobre a ótica dos japoneses.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "Menina de Ouro" (2004) e "A Conquista da Honra" (2006) e os bons "A Troca" (2008) e "Gran Torino" (2008). Desta vez vou conferir "Cartas de Iwo Jima" (2006).
Tanto este filme como "A Conquista da Honra" (2006), do mesmo diretor, descrevem as perspectivas dos dois exércitos - americano e japonês - sobre uma das batalhas mais cruéis da Segunda Guerra Mundial no Oceano Pacífico, neste conflito inútil que tingiu de sangue as areias desta ilha inóspita.
Nesta versão mostra-se o ponto de vista japonês da batalha que ocorreu entre os dois exércitos em Iwo Jima. 
Segundo Marcelo Janot do site Críticos, "do ponto de vista humanístico, é bastante louvável a iniciativa de um diretor hollywoodiano como Clint Eastwood, mostrando a sangrenta batalha de Iwo Jima do ponto de vista dos combatentes japoneses. Se o americano já não costuma enxergar o estrangeiro como um ser humano igual a ele, ir ao cinema para assistir a um filme com legendas, inteiramente falado em japonês, soa como um sacrifício de outro mundo. Ainda mais quando esse filme é centrado em seus inimigos de guerra e a intenção não é endemonizá-los". 
Do ponto de vista cinematográfico, o projeto "A Conquista da Honra/Cartas de Iwo Jima" também é muito interessante. A possibilidade de trabalhar com um filme-espelho, que reflete visões culturais totalmente distintas, abre um enorme leque de opções, mesmo que as tramas de cada um tomem caminhos diferentes.
O que eu achei: Em “Cartas de Iwo Jima” (2006), Clint Eastwood aprofunda o projeto iniciado em "A Conquista da Honra" (2006), formando com ele uma dupla complementar e rara no cinema de guerra contemporâneo. Se no filme anterior o impacto vinha da reflexão sobre a fotografia como instrumento de mito e propaganda, um tema que me é caro pela minha profissão, aqui o interesse nasce do deslocamento radical do ponto de vista: o mesmo episódio da Segunda Guerra Mundial é narrado pela ótica dos soldados japoneses, humanizando um lado historicamente reduzido a estereótipos. O grande mérito do filme está na empatia silenciosa que constrói. Eastwood abandona qualquer traço de maniqueísmo e aposta em uma encenação contida, sombria, quase claustrofóbica, que reforça a sensação de isolamento e fatalismo vivida pelos defensores da ilha. As cartas que dão título ao filme funcionam como pontes íntimas entre a brutalidade da guerra e a vida civil deixada para trás, revelando medos, afetos e dúvidas que atravessam fronteiras culturais. Ótimo e profundamente respeitoso, “Cartas de Iwo Jima” não apenas complementa "A Conquista da Honra", como a enriquece retrospectivamente. Juntos, os dois filmes oferecem uma visão rara e madura da guerra: múltipla, contraditória e humana. Isoladamente, este se sustenta com força própria; em diálogo com o outro, torna-se ainda mais poderoso.