Mostrando postagens com marcador Adolfo Aristarain. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adolfo Aristarain. Mostrar todas as postagens

9.5.22

“Um Lugar no Mundo” - Adolfo Aristarain (Argentina/Espanha/Uruguai, 1992)

Sinopse:
 
Mario (Federico Luppi) e Ana (Cecilia Roth) vivem em um remoto vale argentino com seu filho Ernesto (Gaston Batyi), de 12 anos. Mario dirige uma escola e uma cooperativa de lã. Ana, médica, dirige uma clínica com Nelda (Leonor Benedetto), uma freira progressista. Enquanto Ernesto lida com os sentimentos e os hormônios do início da adolescência, a população local lida com a chegada de uma empresa que quer fazer obras na cidade.
Comentário: Adolfo Aristarain (1943) é um cineasta, ator, roteirista e produtor de cinema argentino, conhecido por sua análise sutil de questões ligadas à opressão política. Assisti dele o ótimo “Lugares Comuns" (2002). Desta vez vou conferir "Um Lugar no Mundo" (1992).
Matheus Bonez do site Papo de Cinema nos diz: "Narrado a partir do olhar de Ernesto, um rapaz de doze anos, acompanhamos seu amadurecimento a partir de sua vivência com seus pais em uma região isolada da periferia Argentina.
Mario, o patriarca, administra uma escola local onde ensina crianças carentes e organiza uma cooperativa. Sua mulher, Ana, é médica e dirige uma clínica. 
Em cena, mais um personagem que, fosse um filme clichê, seria 'o vilão' da história: Hans, um geólogo que trabalha para uma grande empresa que quer se aproveitar da pobreza local, mas o próprio se interessa em ajudar aquele vilarejo.
Enquanto isso, Ernesto se apaixona por uma menina e precisa lidar com a profusão de sentimentos e hormônios de início da adolescência.
Sensível, o longa desenvolve seus personagens e sua relação com aquele lugar ao mesmo tempo em que acompanhamos que aquele 'lugar no mundo' também serve como meta de vida para muitos que se dedicam a causas em prol dos outros".
O longa venceu o Kikito de Melhor Filme Latino e foi  indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
O que eu achei: Nos últimos anos passamos a associar o cinema argentino à qualidade, o que naturalmente eleva nossas expectativas diante de cada novo título vindo de lá. “Um Lugar no Mundo” (1992) de Adolfo Aristarain, confirma parte dessa fama ao entregar uma narrativa envolvente e bem construída, ainda que não alcance o patamar das grandes obras do país. Com uma temática política de viés humanista, o filme constrói uma conexão direta entre o espectador e seus personagens, aproximando-nos de seus dilemas e convicções. Essa abordagem torna fácil acompanhar a trama e querer seguir adiante, já que as motivações dos protagonistas se ancoram em questões universais como ética, idealismo, pertencimento e o confronto entre o individual e o coletivo. A direção de Aristarain é segura e a ambientação rural reforça o contraste entre o sonho e a realidade, entre o desejo de um mundo mais justo e a dureza da vida prática. No entanto, a trilha sonora, em alguns momentos excessivamente emotiva, pesa um pouco na balança, inclinando a narrativa para o melodrama e reduzindo parte da força natural das cenas. Mesmo com essa ressalva, “Um Lugar no Mundo” é um bom filme, sincero em suas intenções e honesto na execução. Vale a pena ser visto, especialmente por quem se interessa por dramas sociais e histórias em que a política e a humanidade caminham lado a lado.

2.1.18

"Lugares Comuns" - Adolfo Aristarain (Argentina, 2002)

Sinopse: A vida do professor universitário argentino Fernando Robles (Federico Luppi) muda radicalmente depois que ele é obrigado - por decreto - a se aposentar. Ao lado de sua mulher (Mercedes Sampietro) - com quem forma um casal apaixonado e dedicado - viaja para a Espanha. Na volta, procura uma nova ocupação mudando-se para uma fazenda.
Comentário: Adolfo Aristarain (1943) é um cineasta, ator, roteirista e produtor de cinema argentino, conhecido por sua análise sutil de questões ligadas à opressão política. “Lugares Comuns" (2002) é o primeiro filme que vejo dele.
Sylvia Colombo da Folha SP nos conta que “O cineasta veterano argentino Adolfo Aristarain não esconde. Seu filme é um amontoado de clichês. Lugares-comuns que surgem quando as convicções de cada um esvaziam-se de significado. Quando valores que pareciam reger a sociedade desconstroem-se por conta do empobrecimento material. Dar-se conta desse processo é ao mesmo tempo dádiva e tragédia. E o preço a pagar pela lucidez é o tema deste ‘Lugares Comuns’.
Fernando é um professor de literatura sexagenário obrigado a aposentar-se por causa da crise e por suas convicções políticas. Com a mulher, tem de se acostumar a uma nova vida e ao fato de que, apesar de sua erudição, é agora um inútil para a sociedade.
Vendem o apartamento em Buenos Aires e mudam-se para o campo, abrindo mão de hábitos e convivência urbanos. Tentam ainda outra forma de sustento - produzir perfumes -, mas logo percebem a nulidade de seus atos. O que se segue é um mergulho do casal em suas antigas convicções, primeiro políticas, depois emocionais, sem que a redenção pareça - e não é - possível.
Aristarain é um veterano do cinema argentino, espécie de patriarca da hoje celebrada ‘buena onda’. Seus filmes têm a sempre turbulenta Argentina dos últimos 30 anos como pano de fundo.
Em ‘Lugares Comuns’, porém, a instabilidade nacional mostra-se mais sutil do que no restante da atual produção do país vizinho.
Convencional na forma e cuidadoso na elaboração da narrativa e dos diálogos, o diretor centra sua atenção nas reações dos personagens diante das adversidades e do desmoronamento de suas ilusões.
Apoiado num texto quase literário - o monólogo de abertura e a conversa do protagonista com uma estranha sobre amor e sexo são dignos das páginas de um bom romance -, o filme soa antiquado e dispensa ousadias estilísticas. Seu mérito está na obsessão - bem-sucedida - por construir uma bela história”.
O que eu achei: “Lugares Comuns” (2002 de Adolfo Aristarain, é mais uma bela prova da força do cinema argentino. O diretor constrói um retrato sensível e lúcido da ruína econômica e moral de um país em crise, mas o faz através de um olhar profundamente humano, o de um homem de meia-idade que enfrenta o amor, a perda e a desilusão. Aristarain transforma o drama individual em espelho coletivo: as frustrações e incertezas do protagonista refletem a descrença e a angústia de uma sociedade inteira que tenta sobreviver ao colapso econômico. O filme evita o discurso fácil e aposta na sutileza dos sentimentos, na força dos diálogos e nas interpretações maduras de seu elenco. A fotografia e o ritmo contemplativo reforçam o tom melancólico da narrativa, sem nunca cair no pessimismo gratuito. Há um senso de dignidade e de resistência que atravessa o filme como se, mesmo diante da falência das instituições e dos sonhos, ainda restasse um lugar comum onde o amor e a esperança pudessem resistir. “Lugares Comuns” é, portanto, um filme muito bom: honesto, emotivo e inteligente. Uma obra que reafirma o talento de Aristarain e a potência do cinema argentino em traduzir o íntimo e o social com a mesma sensibilidade.