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6.9.22

“O Martírio de Joana D'Arc” - Carl Theodor Dreyer (França, 1928)

Sinopse:
 
A jovem camponesa Joana D'Arc (Maria Falconetti) é condenada à morte por ter liderado o povo francês contra o exército invasor inglês, dizendo que foi inspirada por Jesus e São Miguel. Ela passa suas últimas horas de vida capturada e torturada pelos ingleses.
Comentário: Este filme faz parte da lista dos 100 essenciais da história do cinema elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A revista diz: “O cinema do dinamarquês Carl Theodor Dreyer é dos mais singulares, inimitável e de difícil definição em razão dos vários procedimentos que ele toma para cada filme, planejando para cada trabalho um desenho de cena, um enquadramento e uma abordagem específicos, em obras menos ou mais narrativas. Ele tinha, também, um processo criativo que desprezava as regras da produção cinematográfica, fazendo o seu próprio tempo de planejamento e preparação para um longa, uma dor de cabeça para os produtores - o que muito explica as várias interrupções em sua filmografia. Apesar de ele enxergar os artistas como iluminados, até sagrados, os atores sofriam o diabo em suas mãos, numa espécie de lavagem cerebral que os fazia assumir completamente a persona do personagem. Para a atriz Maria Falconetti, que encarna a santa guerreira de ‘O Martírio de Joana D’Arc’, esse foi um divisor de águas. Perturbada com a experiência, ela jamais voltaria a atuar no cinema. O filme realmente tem em Falconetti a sua força, pois é a face da atriz, iluminada, sem maquiagem (algo raríssimo no cinema daquela época) e em ângulos inusitados, que toma a tela do cinema. Em vez de corpos se deslocando, é seu rosto que encena a história, contorcendo-se, arregalando olhos, chorando”. Vale a pena abrirmos um espaço aqui para relembrar a história de Joana. Ela era uma camponesa nascida em Domrémy, uma vila no nordeste da França, no ano de 1412. Quando ela nasceu, a França já enfrentava um conflito com os ingleses por conta de um desentendimento que começou em 1328, quando o rei francês Carlos IV faleceu sem deixar herdeiros diretos para assumir o trono. O rei da Inglaterra, Eduardo III, alegou ter direito ao trono francês porque ele possuía descendência com Carlos por via materna. Acontece que a possibilidade de um monarca inglês ser coroado como rei da França não agradou à nobreza francesa, que obviamente temia que isso fosse se transformar em perda de autonomia. Então rejeitaram e deram o trono à Filipe VI, o que provocou um certo desgaste nas relações entre os países. O resultado foi o começo da Guerra dos Cem Anos em 1337. Então quando ela nasceu essa guerra já ocorria e os camponeses já sentiam suas consequências: havia a destruição da terra, a terra destruída produzia menos, a produção reduzida causava fome, a fome enfraquecia a população que adoecia. Fora isso ocorriam também ataques diretos aos camponeses que perdiam suas vidas nesses confrontos. Segundo o site Brasil Escola, “Joana d’Arc alegava que tinha visões e ouvia as vozes do arcanjo Miguel, da Santa Catarina de Alexandria e da Santa Margarida de Antioquia. Nessas aparições sobrenaturais, ela era orientada a tomar parte na guerra contra os ingleses para expulsá-los da França”. Ocorre que, aos 16 anos de idade, ela acabou conseguindo homens, armaduras e comando das tropas com a ajuda da monarquia e foi participar ativamente da Guerra dos Cem Anos. “Alguns historiadores desacreditam que ela tenha lutado no campo de batalhas. De acordo com eles, ela apenas cumpriu papéis que envolviam a montagem da estratégia e preparação das tropas, assim como a motivação dos soldados. Apesar disso, Joana d’Arc foi fundamental para duas vitórias expressivas da França: em Orleans e em Reims. (...) Em 1430, borguinhões capturaram Joana d’Arc durante a Batalha de Compiègne. Ela foi vendida para os ingleses e permaneceu aprisionada, pois seria levada para julgamento” pela Santa Inquisição, que é justamente onde o filme começa. A Revista Bravo! diz: “O tribunal da Inquisição tenta separar sua santidade da carnalidade e, assim, dessacralizada, legitimar sua execução. Dreyer filma os poros, rugas e suor de Joana (e de seus algozes também), acentua o lado físico, mas, com a luz branca e a câmera enquadrando de cima para baixo (como se olhasse do céu), aproxima a dor física do significado metafísico”.
O que eu achei: O resultado é incrível! Além de todo o sofrimento que o Dreyer retrata, vemos a execução de Joana ocorrida em 1431, em praça pública, na França, na cidade de Rouen, onde ela é queimada viva como se fosse uma bruxa. Vários cineastas já contaram essa história, mas o filme de Dreyer ainda é um dos mais importantes por conta de sua complexidade formal e pelo desempenho magistral da atriz. Atenção também para a rara participação do conceituado teatrólogo Antonin Artaud, no papel de um dos bispos inquisidores. Um filme que vale ser visto.

30.5.22

"A Palavra" - Carl Theodor Dreyer (Dinamarca, 1955)

Sinopse:
 
O velho fazendeiro Morten Borgen (Henrik Malberg) sofre com as crises de insanidade do filho Johaness (Preben Lerdorff Rye), com a falta de fé do filho mais velho Mikkel (Emil Hass Christensen) e com o desejo do filho mais jovem Anders (Cay Kristiansen) de casar com a filha (Gerda Nielsen) de seu rival Peter Petersen (Ejner Federspiel). Porém, quando sabe que o filho Anders é rejeitado por Peter para casar com sua filha, vai até sua casa tomar satisfações.
Comentário: Este é o segundo filme que eu vejo do Carl Dreyer. O primeiro foi “O Vampiro” (Vampyr, 1932) que, segundo nos diz João Bénard da Costa no site Foco Revista de Cinema, foi “o mais humilhante fracasso comercial da sua vida”. Este – “A Palavra” – é uma adaptação para o cinema da peça “Ordet” do pastor Kaj Munk (1898 - 1944), que Dreyer teria assistido num teatro de Copenhague. Não é difícil observar o quanto de teatral há no filme: tanto nas locações, quanto na postura dos atores, no excesso de diálogos e nos longos planos-sequência. Entretanto, a fotografia em P&B é cinematográfica, daquelas de tirar o chapéu com seu rigor visual impecável. A história tem seu foco na religiosidade. Os personagens são um velho fazendeiro chamado Morten Borgen que sofre com as crises de insanidade do filho Johaness que acha que é Jesus Cristo, enquanto seu filho mais velho é um ateu materialista. Em paralelo seu filho mais novo quer se casar justamente com a filha de Peter Petersen, que não o aceita por conta das famílias pertencerem a religiões diferentes. Como filme, difícil dizer que não é bom. Muitos, com razão, consideram uma obra-prima. Entretanto o culto excessivo à religiosidade incomoda. Esse é o grande calcanhar de Aquiles do filme.

14.8.10

"O Vampiro" - Carl Theodor Dreyer (Alemanha/França, 1932)

Sinopse: David Gray (Julian West) é um viajante que chega a um vilarejo onde uma vampira vem atacando pessoas. Ele se hospeda num castelo onde coisas estranhas acontecem: uma sombra se move independente de sua dona, um esqueleto parece observar o que acontece a seu redor, sonhos estranhos o acometem, como o de seu próprio funeral visto de dentro do caixão.
Comentário: Primeiro filme sonorizado de Carl T. Dreyer, um clássico do cinema de terror baseado na obra de Sheridan Le Fanu. O filme é considerado um marco por sua fotografia e pelo clima sombrio. Hipnótico, demasiado universal para conceder protagonismo ao par amoroso na resolução da sua narrativa, o principal tema é, como sempre em Dreyer, a Palavra. O realizador obriga o seu espectador a passar parte do tempo da projeção a "ler um livro", como se ele filmasse o verbo. Toda a salvação narrada depende, aliás, dessa leitura. A liberdade da sombra perante o corpo que a produz, que deu origem a pelo menos uma das cenas mais belas da história do cinema (o baile de sombras), é por Dreyer associada ao pacto com o diabo. Ora, o autor pretende uma igual libertação do espírito perante o seu cárcere carnal, mas pela via do Bem (a favor de Deus, com Deus). Assim, quando o protagonista se separa de si mesmo, o seu espírito não toma a forma de sombra, mas de transparência. A partir dela, o diretor dinamarquês premia-nos com a câmara subjetiva feita a partir do olhar de um cadáver. O que se torna inquietante nesse momento antológico é que tal câmara subjetiva é radicalmente objetiva: nenhuma emoção, nenhum pensamento, nenhuma psicologia vem deformar aquilo que é dado a ver. Será que a vida após a morte é a total objetividade, a visão pura, a serenidade da transparência? Ou mostrará Dreyer a sua dúvida ao tornar patente o vazio dessa visão? Se do pó vieste e ao pó voltarás, talvez essa condição esteja apenas reservada aos ajudantes de vampiro: o vicioso médico morre sufocado sob o pó do moinho. Para os outros, existe a fé na Palavra.