
Comentário: Este filme faz parte da lista dos 100 essenciais da história do cinema elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A revista diz: “O cinema do dinamarquês Carl Theodor Dreyer é dos mais singulares, inimitável e de difícil definição em razão dos vários procedimentos que ele toma para cada filme, planejando para cada trabalho um desenho de cena, um enquadramento e uma abordagem específicos, em obras menos ou mais narrativas. Ele tinha, também, um processo criativo que desprezava as regras da produção cinematográfica, fazendo o seu próprio tempo de planejamento e preparação para um longa, uma dor de cabeça para os produtores - o que muito explica as várias interrupções em sua filmografia. Apesar de ele enxergar os artistas como iluminados, até sagrados, os atores sofriam o diabo em suas mãos, numa espécie de lavagem cerebral que os fazia assumir completamente a persona do personagem. Para a atriz Maria Falconetti, que encarna a santa guerreira de ‘O Martírio de Joana D’Arc’, esse foi um divisor de águas. Perturbada com a experiência, ela jamais voltaria a atuar no cinema. O filme realmente tem em Falconetti a sua força, pois é a face da atriz, iluminada, sem maquiagem (algo raríssimo no cinema daquela época) e em ângulos inusitados, que toma a tela do cinema. Em vez de corpos se deslocando, é seu rosto que encena a história, contorcendo-se, arregalando olhos, chorando”. Vale a pena abrirmos um espaço aqui para relembrar a história de Joana. Ela era uma camponesa nascida em Domrémy, uma vila no nordeste da França, no ano de 1412. Quando ela nasceu, a França já enfrentava um conflito com os ingleses por conta de um desentendimento que começou em 1328, quando o rei francês Carlos IV faleceu sem deixar herdeiros diretos para assumir o trono. O rei da Inglaterra, Eduardo III, alegou ter direito ao trono francês porque ele possuía descendência com Carlos por via materna. Acontece que a possibilidade de um monarca inglês ser coroado como rei da França não agradou à nobreza francesa, que obviamente temia que isso fosse se transformar em perda de autonomia. Então rejeitaram e deram o trono à Filipe VI, o que provocou um certo desgaste nas relações entre os países. O resultado foi o começo da Guerra dos Cem Anos em 1337. Então quando ela nasceu essa guerra já ocorria e os camponeses já sentiam suas consequências: havia a destruição da terra, a terra destruída produzia menos, a produção reduzida causava fome, a fome enfraquecia a população que adoecia. Fora isso ocorriam também ataques diretos aos camponeses que perdiam suas vidas nesses confrontos. Segundo o site Brasil Escola, “Joana d’Arc alegava que tinha visões e ouvia as vozes do arcanjo Miguel, da Santa Catarina de Alexandria e da Santa Margarida de Antioquia. Nessas aparições sobrenaturais, ela era orientada a tomar parte na guerra contra os ingleses para expulsá-los da França”. Ocorre que, aos 16 anos de idade, ela acabou conseguindo homens, armaduras e comando das tropas com a ajuda da monarquia e foi participar ativamente da Guerra dos Cem Anos. “Alguns historiadores desacreditam que ela tenha lutado no campo de batalhas. De acordo com eles, ela apenas cumpriu papéis que envolviam a montagem da estratégia e preparação das tropas, assim como a motivação dos soldados. Apesar disso, Joana d’Arc foi fundamental para duas vitórias expressivas da França: em Orleans e em Reims. (...) Em 1430, borguinhões capturaram Joana d’Arc durante a Batalha de Compiègne. Ela foi vendida para os ingleses e permaneceu aprisionada, pois seria levada para julgamento” pela Santa Inquisição, que é justamente onde o filme começa. A Revista Bravo! diz: “O tribunal da Inquisição tenta separar sua santidade da carnalidade e, assim, dessacralizada, legitimar sua execução. Dreyer filma os poros, rugas e suor de Joana (e de seus algozes também), acentua o lado físico, mas, com a luz branca e a câmera enquadrando de cima para baixo (como se olhasse do céu), aproxima a dor física do significado metafísico”.
O que eu achei: O resultado é incrível! Além de todo o sofrimento que o Dreyer retrata, vemos a execução de Joana ocorrida em 1431, em praça pública, na França, na cidade de Rouen, onde ela é queimada viva como se fosse uma bruxa. Vários cineastas já contaram essa história, mas o filme de Dreyer ainda é um dos mais importantes por conta de sua complexidade formal e pelo desempenho magistral da atriz. Atenção também para a rara participação do conceituado teatrólogo Antonin Artaud, no papel de um dos bispos inquisidores. Um filme que vale ser visto.

