15.4.20

"Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992)

Sinopse: Bill Munny (Clint Eastwood), um pistoleiro aposentado, volta à ativa quando lhe oferecem 1000 dólares para matar os homens que cortaram o rosto de uma prostituta. Neste serviço dois outros pistoleiros o acompanham e eles precisam se confrontar com um inglês (Richard Harris) que também deseja a recompensa e um xerife (Gene Hackman), que não permite tumulto em sua cidade.
Comentário: Trata-se do filme número 70 da lista do 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "'Os Imperdoáveis' é um western sobre o fim dos westerns. Talvez na última obra-prima do gênero eternizado por John Ford, Howard Hawks e Sergio Leone, Clint Eastwood maquinou, ao mesmo tempo, uma homenagem aos seus mestres (há dedicatórias a Leone e a Don Siegel), um crepúsculo do estilo e uma revisão dos aspectos morais do bom e velho bangue-bangue, da figura do cowboy e do seu universo. Eastwood revisita também a própria carreira, que começou a se destacar na trilogia spaghetti de Leone e se solidificou com a série 'Dirty Harry'. Nela, ele geralmente vive um homem solitário, amargo, bêbado e violento a ponto de não perdoar ninguém. William Munny (interpretado pelo próprio Clint) teve um passado assim. Até que conheceu sua futura esposa, teve filhos e se tornou um humilde criador de porcos. Agora viúvo, ele dedica-se a cuidar das crianças e a administrar sem muito sucesso seu sítio. Para conseguir algum dinheiro, aproveita-se da fama do passado e aceita cumprir uma última missão como pistoleiro: matar os homens que retalharam sem piedade o rosto de uma prostituta da cidade de Big Whisky. Viaja para lá acompanhado do velho parceiro Ned Logan (Morgan Freeman) e do aspirante a cowboy Schofield Kid (Jaimz Woolveltt). Porém, espera por eles o pouco hospitaleiro xerife Little Bill (Gene Hackman). E o antigo matador terá também de enfrentar seus fantasmas pessoais. O filme questiona as características dos antigos westerns, sobretudo o uso da violência. Munny sente culpa pelas crueldades cometidas no passado e vergonha por ter traído a memória da esposa e aceitado voltar a matar (mesmo que seja para sustentar os filhos). Lançado em uma época em que o faroeste já estava fora de moda, 'Os Imperdoáveis' ganhou as duas principais estatuetas do Oscar de 1993, Filme e Direção, além de outras duas (Ator Coadjuvante, para Hackman, e Edição). Livre da figura do macho, Clint Eastwood pôde começar sua fase madura como diretor, que possui títulos excelentes como 'As Pontes de Madison' (1995), 'Sobre Meninos e Lobos' e 'Menina de Ouro' (2004), entre outros".
O que eu achei: Está aqui um filme que não é apenas um grande faroeste, mas uma revisão profunda e definitiva do próprio gênero e também da persona do diretor construída ao longo de décadas. Com roteiro de David Webb Peoples (de "Blade Runner") e fotografia impecável de Jack N. Green, o filme se impõe como uma obra de maturidade rara, à altura dos quatro Oscars que conquistou, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. Aqui, o velho Oeste não é um território de glória, mas de desgaste físico, culpa e memória. Eastwood desmonta a mitologia clássica do western ao evitar qualquer divisão confortável entre mocinhos e bandidos: todos os personagens carregam contradições morais, histórias mal contadas e violências que se acumulam como cicatrizes. A figura do pistoleiro lendário surge em franca decadência, confrontada não apenas pelo tempo, mas pelas consequências reais de seus atos. A violência, quando explode, não é celebrada. Ela pesa, constrange e cobra seu preço. O que faz de "Os Imperdoáveis" (1992) uma obra-prima é justamente essa recusa ao heroísmo fácil e ao romantismo do passado. O filme olha para a história do gênero com lucidez e melancolia, entendendo que toda lenda nasce de distorções e silêncios convenientes. Ao final, Eastwood entrega um clássico incontornável, daqueles que não apenas entram para a história do cinema, mas a reescrevem. Um western crepuscular que encerra um ciclo e, ao mesmo tempo, eleva o gênero a um novo patamar artístico.