15.6.20

"A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018)

Sinopse: Earl Stone (Clint Eastwood) é um homem de quase 90 anos com problemas econômicos que aceita trabalhar no transporte de drogas para um cartel mexicano em Illinois. Com o dinheiro fácil que consegue, ele tenta ajudar seus parentes e amigos, mas um agente da Narcóticos (Bradley Cooper) o acompanha.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele a obra-prima "Os Imperdoáveis" - Clint Eastwood (EUA, 1992); os ótimos "As Pontes de Madison" (1995), "Menina de Ouro" (2004), "A Conquista da Honra" (2006) e "Cartas de Iwo Jima" (2006); os bons "A Troca" (2008), "Gran Torino" (2008), "Invictus" (2009) e "J. Edgar" (2011) e os não tão bons "Além da Vida" (2010), "Jersey Boys: Em Busca da Música" (2014), "Sniper Americano" (2015), "Sully - O Herói do Rio Hudson" (2016) e "15h17 - Trem para Paris" (2018). Desta vez vou conferir "A Mula" - Clint Eastwood (EUA, 2018).
O personagem Earl Stone tem base em uma pessoa real. Ele é inspirado livremente em Leo Sharp, um veterano da Segunda Guerra Mundial que se tornou traficante de drogas já em idade avançada.
Ele era um horticultor renomado, especialista em orquídeas, mas atuou como “mula” do cartel de Sinaloa, uma das maiores e mais poderosas organizações criminosas do México que atuava principalmente no tráfico internacional de drogas.
Esse local - Sinaloa - é um estado do noroeste do México, na costa do oceano Pacífico, fazendo fronteira com Sonora, Chihuahua, Durango e Nayarit. Sua capital é Culiacán, cidade frequentemente associada ao cartel por ter sido um de seus principais centros de operação.
O Cartel de Sinaloa surgiu a partir de redes de contrabando dos anos 1980 e se consolidou como uma organização altamente estruturada, responsável por rotas de distribuição de drogas como cocaína, heroína, maconha, metanfetamina e fentanil, sobretudo para os Estados Unidos e outros mercados internacionais. Ao longo dos anos, ficou conhecido por sua capacidade logística, corrupção institucional e disputas violentas com cartéis rivais.
O roteiro do filme se baseia em um artigo jornalístico publicado na New York Times Magazine em 2014, intitulado “The Sinaloa Cartel’s 90-Year-Old Drug Mule” (A Mula de Drogas de 90 Anos do Cartel de Sinaloa), que relata a história de Sharp, preso aos 89 anos.
Vale destacar que o filme toma várias liberdades dramáticas: simplifica relações familiares, reorganiza eventos e constrói um arco emocional típico do cinema de Eastwood, mais interessado em temas como envelhecimento, culpa e redenção do que em uma reconstituição fiel do caso. Portanto, Earl Stone não existiu, mas Leo Sharp, sim.
O que eu achei: O longa parte de uma história real curiosa e potente: a de Leo Sharp, cidadão americano condecorado por seus feitos como paisagista, horticultor e veterano da Segunda Guerra Mundial, que aos 89 anos foi preso transportando o equivalente a três milhões de dólares em cocaína no porta-malas de uma velha picape, no Michigan. O material de origem é, por si só, intrigante, mas o filme opta por uma abordagem previsível, transformando o caso em mais uma variação do drama individual centrado na figura de um homem idoso às voltas com suas escolhas tardias. Como direção, nada surpreende - nem para o bem, nem para o mal. Eastwood, então com 88 anos, conduz o filme de maneira clássica, segura e funcional, sem qualquer intenção de inovação formal ou narrativa. Tudo é contado de forma direta, quase protocolar, reforçando a sensação de um cinema feito “à moda antiga”, que confia mais na clareza do relato do que na complexidade dos conflitos. Isso faz com que "A Mula" (2018) seja correto do ponto de vista técnico, mas dramaticamente limitado, incapaz de ir além do anedótico. O que realmente pesa contra o filme é um traço recorrente na filmografia tardia de Eastwood: a insistência em amenizar moralmente protagonistas de conduta questionável, geralmente interpretados por ele próprio. Earl Stone é apresentado como um sujeito falho, ausente e egoísta, mas o roteiro se esforça continuamente para nos convencer de que, no fundo, ele é “gente boa”, alguém que merece compreensão e indulgência. Hoje, essa operação dramática soa problemática e pouco convincente. O resultado é um filme bem mediano, que não chega a comprometer, mas tampouco provoca reflexão real. Um projeto confortável, ancorado mais na mitologia do autor do que na complexidade ética da história que escolhe contar.