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31.12.18

"Roma" - Alfonso Cuarón (México/EUA, 2018)

Sinopse: Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.
Comentário: Alfonso Cuarón (1961) é um cineasta, roteirista, diretor de fotografia, editor e produtor mexicano. Assisti dele os bons "Filhos da Esperança" (2006) e "Gravidade" (2013). Desta vez vou conferir "Roma" (2018).
Trata-se de um filme dirigido, roteirizado, fotografado e coproduzido por Alfonso Cuarón, numa coprodução entre México e EUA.
A obra tem caráter semiautobiográfico e é inspirada nas memórias de infância do diretor, especialmente na figura de Libo, a empregada doméstica que trabalhou para sua família durante os anos 1970.
A narrativa se passa na Cidade do México, entre 1970 e 1971, no bairro de Colonia Roma, e acompanha o cotidiano de Cleo, uma jovem empregada doméstica de origem indígena que trabalha para uma família de classe média. Paralelamente à rotina doméstica, o filme retrata transformações sociais e políticas do país, incluindo tensões estudantis e episódios históricos reais, como o Massacre de Corpus Christi, ocorrido em 1971.
O filme foi rodado majoritariamente em locações reais no México, incluindo a casa onde Cuarón viveu na infância, recriada com grande precisão. As filmagens ocorreram principalmente na Cidade do México e em regiões próximas, como o estado de Veracruz.
Roma foi filmado em preto e branco, em formato digital de alta resolução, com som cuidadosamente elaborado para reforçar o realismo da ambientação.
A protagonista Cleo é interpretada por Yalitza Aparicio, em sua estreia como atriz, enquanto Marina de Tavira vive Sofía, a mãe da família. O elenco é composto majoritariamente por atores não profissionais, escolha que reforça o caráter naturalista da produção.
Roma foi produzido e distribuído pela Netflix, marcando um momento importante na presença de plataformas de streaming no circuito de festivais e premiações internacionais. O filme estreou no Festival de Veneza, onde venceu o Leão de Ouro, e posteriormente recebeu amplo reconhecimento, incluindo 10 indicações ao Oscar, vencendo nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Filme Estrangeiro.
O que eu achei: Trata-se de um filme de rara delicadeza, que aposta na observação paciente do cotidiano para construir um retrato profundo, íntimo e socialmente relevante. É uma obra calma, que narra os acontecimentos sem grandes alardes, sem discursos explícitos ou julgamentos diretos, confiando na força da imagem e do tempo para revelar suas camadas. Ambientado no México dos anos 1970, o filme acompanha a rotina de uma família de classe média e, sobretudo, de Cleo, a empregada doméstica que atravessa silenciosamente os dramas alheios enquanto enfrenta os seus próprios. Cuarón filma esses acontecimentos com um distanciamento preciso, permitindo que o espectador observe sem ser conduzido emocionalmente por trilhas excessivas ou conflitos artificialmente dramatizados. Essa escolha confere ao filme um tom quase contemplativo, onde a vida acontece com suas dores, afetos e rupturas. A fotografia em preto e branco é impecável e fundamental para a experiência. Longe de ser um recurso estético gratuito, ela reforça a dimensão memorialística do filme e sublinha a atenção aos detalhes: os espaços, os sons, os gestos mínimos. Cada enquadramento parece cuidadosamente pensado para registrar um mundo em transformação, tanto no plano íntimo quanto no social. O título pode causar estranhamento à primeira vista, já que não se refere à capital italiana, mas ao bairro Roma, na Cidade do México, onde a história se passa. Ainda assim, é difícil ignorar possíveis diálogos simbólicos com o cinema italiano, especialmente com o neorrealismo. A opção pelo preto e branco, o olhar voltado às classes trabalhadoras e a crítica social discreta remetem diretamente a obras como "Roma, Cidade Aberta" (1945) de Roberto Rossellini. Não se trata de uma citação literal, mas de uma herança estética e ética claramente assumida. Ao evitar o melodrama e privilegiar a observação, "Roma" transforma pequenas experiências em algo universal. É um filme que emociona sem manipular, que denuncia sem gritar e que revela sua força justamente na contenção. Uma obra profundamente sensível, construída com rigor formal e humanidade. Excelente.

4.3.14

"Gravidade" - Alfonso Cuarón (EUA/Reino Unido, 2013)

Sinopse: Matt Kowalski (George Clooney) é um astronauta experiente que está em missão de conserto ao telescópio Hubble juntamente com a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock). Ambos são surpreendidos por uma chuva de destroços decorrente da destruição de um satélite por um míssil russo, que faz com que sejam jogados no espaço sideral. Sem qualquer apoio da base terrestre da NASA, eles precisam encontrar um meio de sobreviver em meio a um ambiente completamente inóspito para a vida humana.
Comentário: Alfonso Cuarón (1961) é um cineasta, roteirista, diretor de fotografia, editor e produtor mexicano. Assisti dele o bom "Filhos da Esperança" (2006). Desta vez vou conferir "Gravidade" (2013).
Érico Borgo do site Omelete disse tratar-se de "Um ensaio milionário sobre solidão, fragilidade e autocontrole. (...)
A ficção científica se passa no espaço, na órbita terrestre, a 600 quilômetros de altura. Nela, uma equipe de astronautas e cientistas instala novas partes no telescópio Hubble quando chega o alerta: uma nuvem de detritos está chegando em alta velocidade à sua posição. Em minutos, toda a segurança da nave se vai - e restam apenas a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e o comandante da missão, Matt Kowalsky (George Clooney), indefesos vagando pelo espaço.
Cuarón faz aqui o tipo de filme que costuma ser visto em baixo orçamento: apenas dois personagens que precisam superar uma situação insuperável. No entanto extrapola essa ideia - normalmente uma solução criativa minimalista para uma verba apertada -, empregando-a de forma grandiloquente.
E tome visuais de tirar o fôlego (especialmente em 3D), explosões em gravidade zero e longos e aflitivos planos sem cortes que passeiam de dentro para fora dos capacetes dos personagens enquanto eles discutem sua situação.
'Gravidade' é um deleite técnico. A alternância entre som e silêncio amplifica o drama e a trilha sonora aflitiva de Steven Price entra apenas em momentos cruciais.
A animação (o filme é quase que todo em computação gráfica) é perfeita e realista e a tensão é absolutamente constante, já que não há momentos de respiro (ainda que o filme encontre um hilário em Clooney, charmoso como nunca).
E Bullock dá um show como a astronauta novata que já perdeu tudo, mas que decide viver. Esteta, Cuarón encontra no espaço e o controle milimétrico de seu set. 
Há cenas de beleza intensa e grande significado, como os "renascimentos" da Dra. Stone, especialmente o primeiro, em que a vemos pela primeira vez como mulher, como humana, indefesa fora da casca protetora do uniforme de astronauta. Nas lágrimas sem gravidade, Cuarón aprecia a beleza da fragilidade humana - e sua tenacidade". 
O filme recebeu 7 Oscars.
O que eu achei: "Gravidade" (2013) é um filme tecnicamente impressionante, o que pode ser uma grande qualidade mas também sua limitação. Não é difícil entender por que levou 7 Oscars: a direção é virtuosa, os efeitos visuais são extraordinários, a fotografia de Emmanuel Lubezki é deslumbrante e o desenho de som cria uma experiência imersiva raramente vista no cinema recente. Como espetáculo audiovisual, é praticamente irretocável. A sensação de isolamento no espaço, a ausência de som no vácuo, a coreografia dos corpos flutuando e a câmera que parece nunca se desprender da ação criam momentos de tensão genuína. Há sequências de tirar o fôlego, especialmente nos primeiros minutos, que colocam o espectador dentro do caos orbital com uma intensidade impressionante. Ainda assim, apesar de todo esse brilhantismo técnico, o filme não atinge plenamente a dimensão de um grande filme. O roteiro é simples, quase minimalista, e por vezes previsível. A trajetória emocional da protagonista, vivida por Sandra Bullock, funciona como fio condutor humano da narrativa, mas carece de maior complexidade dramática. O filme aposta mais na sobrevivência física do que na profundidade psicológica, e isso faz com que, em certos momentos, a experiência pareça mais um exercício de excelência técnica do que um drama verdadeiramente marcante. Há também uma sensação de que o espetáculo visual supera o conteúdo temático. As metáforas sobre renascimento e superação estão presentes, mas são trabalhadas de forma relativamente direta, sem grandes ambiguidades ou camadas interpretativas. No fim, "Gravidade" é um filme bom, muito bem realizado, envolvente e visualmente extraordinário, porém, para além da impressionante engenharia cinematográfica, falta-lhe aquela profundidade emocional ou narrativa que transformaria a experiência em algo verdadeiramente excelente.

18.3.12

"Filhos da Esperança" - Alfonso Cuarón (EUA/Reino Unido, 2006)

Sinopse: 2027. Não se sabe o motivo, mas as mulheres não conseguem mais engravidar. O mais novo ser humano morreu aos 18 anos e a humanidade discute seriamente a possibilidade de extinção. Theodore Faron (Clive Owen) é um ex-ativista desiludido que se tornou um burocrata e que vive em uma Londres arrasada pela violência e pelas seitas nacionalistas em guerra. Procurado por sua ex-esposa Julian (Julianne Moore), Theodore é apresentado a uma jovem (Clare-Hope Ashitey) que misteriosamente está grávida. Eles passam a protegê-la a qualquer custo, por acreditar que a criança por vir seja a salvação da humanidade.
Comentário: Alfonso Cuarón (1961) é um cineasta, roteirista, diretor de fotografia, editor e produtor mexicano. "Filhos da Esperança" (2006) é o primeiro filme que vejo do diretor.
Baseado no livro "The Children of Men" da escritora P. D. James, "Filhos da Esperança" é uma adaptação bastante livre do livro, preservando a premissa central: um mundo em que a humanidade se tornou infértil, mas alterando personagens, estrutura narrativa e desfecho.
Ambientado no ano de 2027, o longa apresenta uma sociedade global à beira do colapso após quase duas décadas sem o nascimento de crianças. A história acompanha Theo Faron (Clive Owen), um ex-ativista que é encarregado de proteger uma jovem refugiada misteriosamente grávida, em meio a um Reino Unido militarizado e hostil à imigração. A produção enfatiza questões políticas e sociais como autoritarismo, crise migratória, terrorismo e desintegração institucional.
O roteiro foi desenvolvido por Alfonso Cuarón em parceria com Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus e Hawk Ostby. O projeto foi realizado como uma coprodução entre Estados Unidos e Reino Unido, com financiamento e distribuição da Universal Pictures. Cuarón assumiu o filme com o interesse de criar uma ficção científica de forte realismo visual, evitando elementos futuristas exagerados e optando por uma abordagem mais crua e contemporânea.
As filmagens ocorreram majoritariamente na Inglaterra, especialmente em Londres e arredores, incluindo locais como Bexley, Docklands, Hertfordshire e a icônica Battersea Power Station. A escolha do Reino Unido se deve tanto ao fato de que a história se passa ali quanto a incentivos de produção e à infraestrutura cinematográfica britânica já consolidada. A ambientação urbana real contribuiu para a estética quase documental do filme.
A fotografia é assinada por Emmanuel Lubezki, colaborador frequente de Cuarón, e tornou-se um dos aspectos mais reconhecidos da obra, especialmente pelos longos planos-sequência que reforçam a sensação de imersão e urgência. O filme foi amplamente elogiado tecnicamente e recebeu três indicações ao Oscar (Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Roteiro Adaptado).
O que eu achei: Trata-se de um filme que se sustenta menos pela grandiosidade da ficção científica e mais pela força de sua atmosfera. Não se trata de uma obra impecável ou arrebatadora em todos os sentidos, mas é inegável que provoca impacto: comove, assusta e permanece desconfortavelmente atual. A premissa - um mundo à beira do colapso após a infertilidade global - é poderosa e bem explorada como metáfora social e política. Cuarón constrói um futuro próximo que parece assustadoramente reconhecível, evitando efeitos futuristas chamativos e apostando em um realismo sujo, quase documental. Nesse sentido, o filme acerta ao mostrar um mundo exaurido, violento e indiferente, onde a perda da esperança se manifesta tanto no caos explícito quanto na apatia cotidiana. Tecnicamente, "Filhos da Esperança" impressiona. A fotografia de Emmanuel Lubezki e o uso de longos planos-sequência criam uma sensação de imersão intensa, colocando o espectador dentro da ação e reforçando o clima de urgência constante. Esses momentos são, sem dúvida, alguns dos pontos mais fortes do filme, especialmente nas cenas de confronto e deslocamento em espaços urbanos devastados. Ainda assim, em certos trechos, o virtuosismo técnico parece se sobrepor à narrativa, chamando mais atenção para a forma do que para o desenvolvimento dramático. No campo emocional, o filme funciona de maneira irregular, mas eficaz. A jornada do protagonista, vivido por Clive Owen, é conduzida de forma contida, sem grandes arcos de transformação explícitos. Essa escolha torna a experiência menos envolvente em termos de empatia direta, mas contribui para o tom melancólico e desencantado da obra. Quando o filme opta por momentos de silêncio, contemplação ou suspensão da violência, é justamente aí que ele mais comove, revelando sua dimensão humana em meio ao colapso. "Filhos da Esperança" assusta não apenas pelas cenas de violência ou pelo cenário distópico, mas pelo que sugere: a facilidade com que sociedades aceitam regimes autoritários, a normalização da brutalidade e a desumanização dos mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, a esperança que o título anuncia surge de forma frágil, quase tímida, sem promessas grandiosas ou finais reconfortantes. No balanço final, é um filme bom, sólido e provocador, ainda que não alcance plenamente o status de obra-prima para todos os espectadores. Seu maior mérito está em criar uma experiência sensorial e emocional perturbadora, que convida mais à reflexão do que ao entusiasmo.