
Comentário: Robert Wise (1914-2005) foi um cineasta e produtor norte-americano. Seu primeiro longa foi "A Maldição do Sangue da Pantera" (1944). Outros filmes famosos dele são “O Túmulo Vazio” (1945), “Helena de Tróia” (1955) e “Amor, Sublime Amor” (1961). Assisti dele o clássico "A Noviça Rebelde" (1965) e a obra-prima "O Dia em Que a Terra Parou" (1951).
Desta vez vou conferir “Jornada nas Estrelas: O Filme” (1979), o primeiro longa-metragem feito após o término da série de TV “Jornada nas Estrelas” (Star Trek) que foi ao ar de 1966 a 1969.
O que se conta é que em meados dos anos 1970, o criador da série original Gene Roddenberry estava desenvolvendo para a CBS/Paramount uma segunda fase do seriado que ele chamaria de “Star Trek: Phase 2”. Porém o sucesso de bilheteria do filme “Guerra nas Estrelas” (1977) provou que as space operas poderiam ser mais lucrativas nos cinemas. Com isso, o projeto do seriado prosseguir acabou sendo substituído por investimentos no longa “Star Trek: The Motion Picture” (Jornada Nas Estrelas: O Filme).
O filme recebeu tratamento digno de uma produção cinematográfica de grande orçamento. Começa com uma introdução orquestral antes dos créditos iniciais nos moldes de épicos de Hollywood como “Ben-Hur, onde ouvimos “Ilia’s Theme”, uma das mais belas composições da carreira do falecido Jerry Goldsmith enquanto vemos uma tela preta.
Contando com uma equipe de primeira linha, encabeçada pelo famoso diretor Robert Wise e com o renomado escritor Isaac Asimov como consultor científico, o filme é uma releitura mais cerebral e ampliada de um dos episódios da série clássica chamado “Nômade”. Na trama, uma nuvem de energia de origem desconhecida está se aproximando da Terra. Uma nave Enterprise recém-construída permanece atracada e em montagem, enquanto seu novo capitão, o jovem Willard Decker (Stephen Collins), a prepara para interceptar a nuvem por ordem da Frota Estelar. Vendo isso como uma oportunidade de tomar a cadeira de capitão mais uma vez, o recém-promovido Almirante Kirk (William Shatner) chega a bordo, reduz Decker ao posto de comandante e se torna capitão novamente.
Apesar de terem se passado 10 anos do último episódio da série ter sido exibido, foi possível reunir boa parte do elenco original como William Shatner (Kirk), Leonard Nimoy (Spock) e DeForest Kelley (Dr. McCoy), Nichelle Nichols (Uhura), James Doohan (Scott), George Takei (Sulu), Walter Koenig (Checov) e outros icônicos tripulantes da Enterprise original. Somam-se a eles dois personagens novos: Stephen Collins como o capitão William Decker e Persis Khambatta como Ilia.
Seguindo a cartilha estética do gênero, o longa apresenta design apurado, elementos visuais respeitáveis, artefatos cenográficos de representação tecnológica visionários e lindos grafismos cósmicos, essenciais para situar o ambiente sideral de uma verdadeira viagem espacial. Da mesma forma como Roddenberry idealizou para seu programa de TV, o filme inaugural da saga nas telonas divide-se em dois níveis, sendo um narrativo e outro discursivo: enquanto o primeiro é envolto em aventura, o segundo tem apelo moral. Assim, ao mesmo tempo em que apresenta uma trama de suspense, na qual o perigo espreita não apenas a tripulação da USS Enterprise, mas também todo o planeta Terra, o filme também se desdobra em acepções filosóficas sobre criador e criatura.
O longa foi indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Jerry Goldsmith), Melhor Direção de Arte e Melhores Efeitos Visuais.
Em 2001, o diretor Robert Wise revisitou o filme para refinar a edição e aprimorar os efeitos visuais. Essa versão do diretor estendida foi lançada em DVD em 2001 com definição padrão, mas posteriormente foi restaurada em 4K. Esta edição do diretor ilumina e esclarece os efeitos, enriquece a mixagem de som, adiciona pequenas cenas expositivas e ambientais e enfatiza a grandeza visionária sem pressa que Wise estava almejando.
O que disse a crítica: Brian Eggert do site Deep Focus Review avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Escreveu: “’Jornada nas Estrelas: O Filme’ poderia ter fracassado e encerrado o breve fenômeno que foi a popularidade cult do programa. Em vez disso, os apoiadores da série correram para os cinemas para levar o filme ao triunfo de bilheteria e justificar a decisão da Paramount de fazer um segundo longa. Revisitando o filme hoje, algo não está certo: parece que o elenco e a equipe foram copiados e substituídos por robôs sem vida. Apenas os apologistas mais devotados abraçam esta primeira entrada, que carece de quase todos os atributos alegres carregados pelo programa de televisão, independentemente de seus méritos técnicos”.
Peter Bradshaw do site The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Com este primeiro filme, o conceito de ‘Jornada nas Estrelas’ evoluiu para algo mais ambicioso e kubrickiano, com muitas sequências andantes do espaço sideral e uma ‘abertura’ inteira antes dos créditos, apenas um espaço estrelado escuro para um tema orquestral abafado. Senti falta do snap narrativo cartunesco do programa de TV e da melodia original, mas as portas ainda fazem fshhhht-fshhhht, as cenas de diálogo entre Kirk (William Shatner), Spock (Leonard Nimoy) e McCoy (DeForest Kelley) ainda têm aquela ressonância maravilhosamente teatral e (...) o jeito dramático de falar de Shatner, muitas vezes fazendo uma corrida de uma respiração até uma grande ênfase ainda é uma alegria”.
O que eu achei: Quando o seriado de tv “Jornada nas Estrelas” foi exibido no Brasil eu tinha algo como 8 ou 9 anos de idade e me recordo apenas vagamente de ter visto um ou outro episódio sendo exibido na tv. Revi a série original completa recentemente e não foi nenhum amor à primeira vista, pelo contrário, achei os episódios um pouco cansativos e até meio repetitivos. Porém, este primeiro longa feito 10 anos após o seriado terminar, eu simplesmente adorei! Foi um tanto emocionante ver boa parte do elenco original reunido, todos obviamente mais velhos e com seus cabelos mais grisalhos. Há quem diga que, no longa, o trio principal perdeu aquele jeito característico de se relacionar. Aqueles debates de instinto impetuoso (Kirk) que encontravam lógica (Spock) e humanismo (McCoy) no seriado, aqui estão praticamente ausentes, como se suas personas estivessem engessadas. Mas temos que ver que 10 anos se passaram, Kirk está lá com seu ar autoritário e tático, porém fora de prática em naves estelares; Spock continua investigativo e solucionador de problemas, mas não vê seus amigos há muito tempo e McCoy estava tranquilo, aposentado e não tinha nenhum interesse em deixar sua vida tranquila e voltar a trabalhar como médico na nave. Então não dá para esperar que a dinâmica entre eles seja a mesma. Além de críticas à relação entre os três, há reclamações sobre os uniformes, a estética, a direção devagar do veterano Robert Wise, mas a meu ver nada disso tirou o brilho da trama, envolvendo descobrir que entidade é essa que está se aproximando da Terra para destruí-la, tocando em questões ligadas à inteligência artificial, como a relação homem x máquina que não deixa de ser, em outras palavras, a relação criador x criatura, daquele que procura seu Deus e seu propósito de existir. Com certeza vai agradar muito mais quem curte a pegada mais cerebral de “Jornada nas Estrelas” do que quem via o seriado apenas pelas aventuras em si. É ficção científica por excelência, com direito à efeitos visuais de primeira linha, surpreendentes para um filme rodado no final dos anos 1970. Para quem gosta de um desafio de lógica e tecnologia, vai amar, especialmente a reviravolta inteligente no final.
Desta vez vou conferir “Jornada nas Estrelas: O Filme” (1979), o primeiro longa-metragem feito após o término da série de TV “Jornada nas Estrelas” (Star Trek) que foi ao ar de 1966 a 1969.
O que se conta é que em meados dos anos 1970, o criador da série original Gene Roddenberry estava desenvolvendo para a CBS/Paramount uma segunda fase do seriado que ele chamaria de “Star Trek: Phase 2”. Porém o sucesso de bilheteria do filme “Guerra nas Estrelas” (1977) provou que as space operas poderiam ser mais lucrativas nos cinemas. Com isso, o projeto do seriado prosseguir acabou sendo substituído por investimentos no longa “Star Trek: The Motion Picture” (Jornada Nas Estrelas: O Filme).
O filme recebeu tratamento digno de uma produção cinematográfica de grande orçamento. Começa com uma introdução orquestral antes dos créditos iniciais nos moldes de épicos de Hollywood como “Ben-Hur, onde ouvimos “Ilia’s Theme”, uma das mais belas composições da carreira do falecido Jerry Goldsmith enquanto vemos uma tela preta.
Contando com uma equipe de primeira linha, encabeçada pelo famoso diretor Robert Wise e com o renomado escritor Isaac Asimov como consultor científico, o filme é uma releitura mais cerebral e ampliada de um dos episódios da série clássica chamado “Nômade”. Na trama, uma nuvem de energia de origem desconhecida está se aproximando da Terra. Uma nave Enterprise recém-construída permanece atracada e em montagem, enquanto seu novo capitão, o jovem Willard Decker (Stephen Collins), a prepara para interceptar a nuvem por ordem da Frota Estelar. Vendo isso como uma oportunidade de tomar a cadeira de capitão mais uma vez, o recém-promovido Almirante Kirk (William Shatner) chega a bordo, reduz Decker ao posto de comandante e se torna capitão novamente.
Apesar de terem se passado 10 anos do último episódio da série ter sido exibido, foi possível reunir boa parte do elenco original como William Shatner (Kirk), Leonard Nimoy (Spock) e DeForest Kelley (Dr. McCoy), Nichelle Nichols (Uhura), James Doohan (Scott), George Takei (Sulu), Walter Koenig (Checov) e outros icônicos tripulantes da Enterprise original. Somam-se a eles dois personagens novos: Stephen Collins como o capitão William Decker e Persis Khambatta como Ilia.
Seguindo a cartilha estética do gênero, o longa apresenta design apurado, elementos visuais respeitáveis, artefatos cenográficos de representação tecnológica visionários e lindos grafismos cósmicos, essenciais para situar o ambiente sideral de uma verdadeira viagem espacial. Da mesma forma como Roddenberry idealizou para seu programa de TV, o filme inaugural da saga nas telonas divide-se em dois níveis, sendo um narrativo e outro discursivo: enquanto o primeiro é envolto em aventura, o segundo tem apelo moral. Assim, ao mesmo tempo em que apresenta uma trama de suspense, na qual o perigo espreita não apenas a tripulação da USS Enterprise, mas também todo o planeta Terra, o filme também se desdobra em acepções filosóficas sobre criador e criatura.
O longa foi indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Jerry Goldsmith), Melhor Direção de Arte e Melhores Efeitos Visuais.
Em 2001, o diretor Robert Wise revisitou o filme para refinar a edição e aprimorar os efeitos visuais. Essa versão do diretor estendida foi lançada em DVD em 2001 com definição padrão, mas posteriormente foi restaurada em 4K. Esta edição do diretor ilumina e esclarece os efeitos, enriquece a mixagem de som, adiciona pequenas cenas expositivas e ambientais e enfatiza a grandeza visionária sem pressa que Wise estava almejando.
O que disse a crítica: Brian Eggert do site Deep Focus Review avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Escreveu: “’Jornada nas Estrelas: O Filme’ poderia ter fracassado e encerrado o breve fenômeno que foi a popularidade cult do programa. Em vez disso, os apoiadores da série correram para os cinemas para levar o filme ao triunfo de bilheteria e justificar a decisão da Paramount de fazer um segundo longa. Revisitando o filme hoje, algo não está certo: parece que o elenco e a equipe foram copiados e substituídos por robôs sem vida. Apenas os apologistas mais devotados abraçam esta primeira entrada, que carece de quase todos os atributos alegres carregados pelo programa de televisão, independentemente de seus méritos técnicos”.
Peter Bradshaw do site The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Com este primeiro filme, o conceito de ‘Jornada nas Estrelas’ evoluiu para algo mais ambicioso e kubrickiano, com muitas sequências andantes do espaço sideral e uma ‘abertura’ inteira antes dos créditos, apenas um espaço estrelado escuro para um tema orquestral abafado. Senti falta do snap narrativo cartunesco do programa de TV e da melodia original, mas as portas ainda fazem fshhhht-fshhhht, as cenas de diálogo entre Kirk (William Shatner), Spock (Leonard Nimoy) e McCoy (DeForest Kelley) ainda têm aquela ressonância maravilhosamente teatral e (...) o jeito dramático de falar de Shatner, muitas vezes fazendo uma corrida de uma respiração até uma grande ênfase ainda é uma alegria”.
O que eu achei: Quando o seriado de tv “Jornada nas Estrelas” foi exibido no Brasil eu tinha algo como 8 ou 9 anos de idade e me recordo apenas vagamente de ter visto um ou outro episódio sendo exibido na tv. Revi a série original completa recentemente e não foi nenhum amor à primeira vista, pelo contrário, achei os episódios um pouco cansativos e até meio repetitivos. Porém, este primeiro longa feito 10 anos após o seriado terminar, eu simplesmente adorei! Foi um tanto emocionante ver boa parte do elenco original reunido, todos obviamente mais velhos e com seus cabelos mais grisalhos. Há quem diga que, no longa, o trio principal perdeu aquele jeito característico de se relacionar. Aqueles debates de instinto impetuoso (Kirk) que encontravam lógica (Spock) e humanismo (McCoy) no seriado, aqui estão praticamente ausentes, como se suas personas estivessem engessadas. Mas temos que ver que 10 anos se passaram, Kirk está lá com seu ar autoritário e tático, porém fora de prática em naves estelares; Spock continua investigativo e solucionador de problemas, mas não vê seus amigos há muito tempo e McCoy estava tranquilo, aposentado e não tinha nenhum interesse em deixar sua vida tranquila e voltar a trabalhar como médico na nave. Então não dá para esperar que a dinâmica entre eles seja a mesma. Além de críticas à relação entre os três, há reclamações sobre os uniformes, a estética, a direção devagar do veterano Robert Wise, mas a meu ver nada disso tirou o brilho da trama, envolvendo descobrir que entidade é essa que está se aproximando da Terra para destruí-la, tocando em questões ligadas à inteligência artificial, como a relação homem x máquina que não deixa de ser, em outras palavras, a relação criador x criatura, daquele que procura seu Deus e seu propósito de existir. Com certeza vai agradar muito mais quem curte a pegada mais cerebral de “Jornada nas Estrelas” do que quem via o seriado apenas pelas aventuras em si. É ficção científica por excelência, com direito à efeitos visuais de primeira linha, surpreendentes para um filme rodado no final dos anos 1970. Para quem gosta de um desafio de lógica e tecnologia, vai amar, especialmente a reviravolta inteligente no final.