26.1.26

"O Agente Secreto" - Kleber Mendonça Filho (Brasil/França/Países Baixos/Alemanha, 2025)

Sinopse:
No Brasil de 1977, Marcelo (Wagner Moura) é um professor de tecnologia cuja pesquisa interessa a terceiros. Ameaçado de morte em decorrência de seu trabalho, busca abrigo em um condomínio de refugiados políticos no Recife, mas percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura.
Comentário: Kleber Mendonça Filho (1968) é um diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro. Já assisti dele os ótimos “O Som ao Redor” (2012), "Aquarius" (2016) e “Bacurau” (2019), além do documentário “Retratos Fantasmas” (2023). Desta vez vou conferir "O Agente Secreto" (2025).
Tais Zago do site Café História publicou: "Há filmes que não apenas contam uma história - eles a pressentem, como se o ar estivesse impregnado de lembranças. 'O Agente Secreto', novo longa do diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho, é um desses. Em vez de seguir o caminho padrão do espetáculo ou da denúncia óbvia, o diretor pernambucano prefere o som abafado das portas que rangem, dos passos ecoando pelos corredores de uma cidade onde o tempo parece nunca passar por completo. O filme respira a atmosfera de um Brasil de 1977, mas fala diretamente ao presente, transformando o Recife em palco e, também, personagem de um thriller político sobre vigilância, medo, culpa e esquecimento.
Depois das obras excelentes 'Aquarius' (2016) e 'Bacurau' (2019) (...) Kleber mergulha agora no terreno mais denso dos segredos. Inspirado por pesquisas sobre o período da ditadura militar e por ecos de filmes de espionagem e paranoia dos anos 1970, Kleber nos oferece um protagonista dividido: Marcelo (Wagner Moura), aparentemente um técnico de som que retorna à sua cidade natal durante o Carnaval, acaba enredado em uma teia de vigilância, crimes e memórias abafadas ainda sob a mão da ditadura brasileira.
O diretor escreve o roteiro e dirige com o mesmo pulso firme de quem documenta um sonho febril. 'O Agente Secreto', filme que nos é apresentado como um mosaico incompleto de lembranças, silêncios e suspeitas, é executado com uma precisão que só quem conhece o cheiro, a cor e o ritmo de Recife poderia alcançar.
KMF constrói uma narrativa e nos apresenta em três movimentos, alternando tempos, espaços e tonalidades de luz como recurso para reforçar as diferentes épocas abordadas. O que começa como um reencontro pessoal entre pai e filho se transforma em investigação histórica e termina como fábula política sobre o custo da busca pela verdade.
Aqui entramos de corpo e alma na cultura pernambucana. A fotografia de Evgenia Alexandrova é pura contenção. As lentes anamórficas, populares nos anos 50 – buscando o efeito widescreen na pós-produção – comprimem o quadro, achatam e acentuam a sensação de confinamento. Os filtros em tons ocre e metálicos dominam a tela, sugerindo um país visto sob uma eterna penumbra.
Os interiores são iluminados como memórias — uma estética amarelada que lembra tanto os arquivos esquecidos quanto as lembranças que preferimos não reabrir. Kleber filma o Recife como quem descobre ruínas vivas, uma cidade feita de becos, vozes, rádios e ecos do passado.
Já a trilha sonora de Mateus e Tomaz Alves, que já foram parceiros de KMF em outros de seus filmes, costura o som ambiente com músicas populares e gravações originais de época. É uma colagem sonora que mistura frevo, ruídos e silêncios. O som de uma fita cassete em um gravador antigo pode valer mais que qualquer outra expressão verbal - aqui, o barulho é memória.
O também diretor e ator Wagner Moura nos entrega uma atuação de contenção impressionante. Seu personagem Marcelo é um homem dividido entre a culpa, o amor pelo filho e a necessidade de entender o próprio passado na busca pela identidade da mãe. Sua presença é magnética mesmo (ou principalmente) quando nada diz. Moura faz de seu corpo um campo de batalha: os olhos são cansados, o andar é hesitante, a voz que se quebra ao tentar explicar o inexplicável. Há algo de profundamente humano e melancólico nesse personagem que parece carregar os ruídos do país dentro da cabeça e o peso do mundo em seus ombros.
Ao redor dele, personagens como Elza, interpretada pela sempre competente Maria Fernanda Cândido, surgem como uma figura de lembrança e resistência de um passado recente. Temos aqui a construção do elo entre o afeto e o trauma. Gabriel Leone, Hermila Guedes, Tânia Maria – excepcional como dona Sebastiana – e o ator alemão Udo Kier completam um elenco que parece surgir de diferentes fantasmas do tempo, todos orbitando em torno de questões como o que ainda é possível redimir, o que perdoar e como seguir em frente.
'O Agente Secreto' é menos um filme padrão sobre espionagem e mais um filme sobre o próprio ato de (se) esconder. Kleber Mendonça não oferece respostas fáceis e diretas - ele filma a ditadura como uma névoa que ainda paira sobre a cidade e sobre nós mesmo em sua fase de enfraquecimento durante o governo Geisel. Há uma coragem em fazer cinema político sem precisar de slogans diretos e KMF optou pela tensão das esquinas, o olhar atravessado, o som distante de uma fita que é rebobinada e volta a rodar.
O roteiro, escrito por ele mesmo, tem a delicadeza de quem entende que a verdade não se revela em explosões, mas, muitas vezes, em silêncios. A cada corte, a cada pausa, há uma história maior sendo contada além da imagem. O que importa aqui não é o fato histórico em si ou um intrincado arco entre espiões, mas o que o esquecimento (ou a negação) faz conosco. (...)
Com distribuição internacional pela Neon (...) 'O Agente Secreto' já figura entre os títulos mais elogiados do ano. E Wagner Moura aparece encabeçando listas de indicações pela sua atuação. Há quem diga que é o filme mais contido e, ao mesmo tempo, o mais devastador de Kleber — e há uma certa verdade nisso.
No fim, percebemos que 'O Agente Secreto' é sobre o peso do que não se diz. Sobre o país que arquiva seus papéis amarelados ou enterra os esqueletos de suas dores, mas que continua a ouvi-las ressoando no fundo do peito. Kleber Mendonça Filho faz cinema como quem abre um diário empoeirado e, ao reler, descobre que as páginas ainda sangram verdades. E nesse ponto preciso avisar, o longa de duas horas e meia de duração, não é um filme marcado por grandes explosões ou cenas impactantes de ação, mas, sim, de pequenas rachaduras e infiltrações. E são essas rachaduras que deixam escapar a luz - a mesma que ilumina Wagner Moura caminhando pelas ruas vibrantes de Recife entre seus fantasmas, segredos e memórias".
O longa estreou no Festival de Cannes, foi recebido com entusiasmo e prêmios pela crítica e público - inclusive o de Melhor Ator para Wagner Moura e o Prêmio Especial de Direção para Kleber Mendonça Filho. No Globo de Ouro ganhou Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Wagner Moura levou o prêmio de Melhor Ator de Drama. E agora está concorrendo em quatro categorias ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco.
O que disse a crítica 1: Diego Almeida do site Observatório do Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "A direção aposta em um ritmo deliberadamente lento, o que pode afastar quem busca um thriller mais tradicional. Mas é justamente essa cadência que permite ao filme mergulhar na sensação de paranoia que dominava o país durante a ditadura militar. Kleber não entrega respostas fáceis, preferindo deixar o público desconfortável e, no processo, refletindo sobre a natureza do medo coletivo".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Amarrando a narrativa de modo emocionante ao refletir como um dos legados mais tristes daquela época 'cheia de pirraça' foi a destruição de núcleos familiares e a interrupção de vidas e histórias que tinham muito a contribuir com o país, o filme ecoa neste aspecto obras como o recente 'Ainda Estou Aqui' e ressalta como a preservação da memória (individual e coletiva) é algo fundamental – um tópico que, entre outras coisas, justifica estruturalmente as duas linhas narrativas cronológicas que o longa estabelece".
O que eu achei: Escrever sobre “O Agente Secreto” (2025) é uma tarefa desafiadora, e isso se deve à explosão de qualidade em praticamente todos os seus processos. Kleber Mendonça Filho entrega aqui um filme realmente imenso, daqueles que fazem a gente sair da sessão com a sensação rara de ter visto algo único. O 'agente secreto' do título não está apenas no filme no qual Jean-Paul Belmondo aparece projetado por um instante na tela do cinema São Luiz. Ele é, sobretudo, algo simbólico: o fantasma dos tempos tenebrosos da ditadura, uma presença difusa que contamina o cotidiano, age nas sombras e transforma qualquer gesto banal em potencial ameaça. Embora não seja uma história real, o filme retrata situações surreais verossímeis, comuns para quem viveu no Brasil de 1977. É uma aula de história do Brasil e de quebra, ainda nos apresenta à célebre Perna Cabeluda, alegoria pernambucana explorada pela imprensa da época para driblar a censura e noticiar certos horrores. O roteiro é impecavelmente inteligente: exige atenção e não deixa pontas soltas. As quase 2h40 de duração não pesam, ao contrário, são plenamente compensadas pela densidade dramática e pela riqueza de camadas que se revelam aos poucos. A fotografia é arrebatadora, a trilha sonora é incrível e a edição e a montagem são criativas, inventivas, sempre em diálogo com a instabilidade emocional e política daquele período. As atuações também são um espetáculo à parte. Wagner Moura está em estado de graça, numa composição que justifica plenamente os elogios e a corrida ao Oscar. Mas é impossível não destacar Tânia Maria, como a dona da pensão onde vive um gato com duas caras, figura tão simbólica quanto memorável. Ela faz por merecer cada elogio que vem recebendo. Mais do que um thriller político ou um drama histórico, “O Agente Secreto” fala sobre essa máquina infernal que existia no passado e que ainda nos assombra. Kleber Mendonça Filho demonstra uma maturidade artística impressionante, combinando rigor formal, potência simbólica e um domínio absoluto da linguagem cinematográfica. É, sem exagero, uma obra-prima absoluta, um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Veja sem hesitação.

25.1.26

"Sonhos de Trem" - Clint Bentley (EUA, 2025)

Sinopse:
Robert Grainier (Joel Edgerton) é um dos muitos madeireiros responsáveis por construir e expandir ferrovias pelos Estados Unidos no início do século XX em meio às vastas paisagens do oeste americano. Quando uma tragédia abala sua família, Robert é forçado a encarar o luto, a solidão e as transformações de um mundo em rápida mudança.
Comentário: Clint Bentley (1985) é um cineasta e roteirista norte-americano. Ele estreou como diretor com "Jockey" (2021), depois, em parceria com o roteirista e produtor Greg Kwedar, ele coescreveu "Sing Sing" (2023). "Sonhos de Trem" (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
Cleide Klock, correspondente da rádio francesa RFI em Los Angeles, publicou uma matéria no UOL onde diz: " Ao entrar no elevador para fazer entrevistas sobre o filme 'Sonhos de Trem' (Netflix), a primeira coisa que ouvi de um jornalista americano foi: 'Qualquer frame do filme dá um quadro maravilhoso'. Ele não sabia que o diretor de fotografia era brasileiro, mas sem perceber, acabou me dando a manchete e resumiu exatamente o que tantos profissionais têm repetido sobre o trabalho de Adolpho Veloso.
O nome de Veloso circula nas principais publicações de Hollywood, entre os favoritos na corrida ao Oscar na categoria de Melhor Fotografia. (...)
Veloso, que mora em Portugal e carrega o Brasil na memória e no olhar, veio a Hollywood para participar do lançamento do filme e das campanhas de premiações. E parece ainda se surpreender com essa repercussão. 'É muito louco. Você nunca imagina, quando está filmando, que isso vai acontecer. Não é uma coisa que faz muito sentido, ao mesmo tempo, é tão surreal que eu prefiro nem pensar tanto. E é um ano extremamente difícil, com muito filme bom, acho que é um dos melhores anos do cinema nos últimos tempos', contou à RFI.
Ele confessa que, como muitos artistas, vive crises profundas durante o processo. 'É incrível ter esse reconhecimento, principalmente pela quantidade de crises profundas durante o processo, filmando, que você acha que nunca mais vai filmar na vida. A primeira vez que assisti esse filme no cinema, pensei: 'Meu Deus, isso está horrível, nunca mais vou conseguir trabalho'. E ver essa reação agora, que é o completo oposto, dá forças para seguir'.
Em 'Sonhos de Trem', dirigido por Clint Bentley e inspirado na novela de Denis Johnson, acompanhamos Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador do início do século XX, que vive longos períodos longe da família. A atmosfera é de recordações borradas, sensações e silêncios, algo que nasceu de forma muito consciente entre Clint e Adolpho. 'A gente queria muito que, ao assistir ao filme, parecesse que você estivesse vendo as memórias de alguém, quase como se encontrasse uma caixa com fotos antigas e tentasse entender a vida daquela pessoa, às vezes meio fora de ordem, e você tenta entender quem foi aquela pessoa por aquelas fotos', explica.
Filmado inteiramente no estado de Washington em apenas 29 dias, um feito raro para um longa de época, o projeto exigiu uma maratona por florestas intocadas, vales, zonas devastadas e cenários naturais extremos. A natureza no filme é praticamente uma personagem. 'Num filme de época, às vezes é difícil para quem o assiste se conectar, porque tudo é tão diferente. Então queríamos trazer mais realidade, mais conexão. Filmamos só com luz natural e uma câmera bem orgânica, como se você estivesse lembrando de algo que viveu'.
Veloso (...) encontrou na história de Grainier uma identificação imediata. 'Quando o diretor me mandou o roteiro, pensei: essa vida é basicamente a minha. Esse cara que fica meses longe de casa, trabalhando com gente que talvez nunca mais vai ver... é assim para quem faz cinema. Voltar para casa sempre é estranho, leva dias para sentir que você pertence de novo. Tem as questões de perda, de imigração, da gente ser estrangeiro numa terra diferente, e isso tem consequências'.
A trajetória até Hollywood foi, como ele mesmo diz, 'aos poucos'. Começou filmando no Brasil, trabalhou com Heitor Dhalia, assinou filmes e documentários, entre eles 'On Yoga', que chamou a atenção de Clint Bentley. Quando Bentley preparava 'Jockey' (2021), buscava justamente alguém que transitasse entre ficção e documentários. Encontrou Veloso e o contactou por e-mail. Anos depois, 'Sonhos de Trem' se tornaria o segundo filme da dupla. (...)
Quando lhe pergunto se leva algo do Brasil para seus filmes, a resposta vem quase antes da pergunta terminar: 'O nosso jeitinho'. Não no sentido estereotipado, mas na criatividade diante do impossível, no drible às burocracias rígidas de sets americanos. 'Aqui tudo é muito engessado e a gente não está acostumado com isso. Aqui, você tem uma ideia e já ouve um não: isso custa tanto, precisa disso, daquilo. E às vezes não precisa de tudo isso. Digo, e se a gente só fizer assim? E funciona'.
Conto a ele que vários jornalistas comentaram comigo espontaneamente sobre a fotografia do filme, sem saber que ele era brasileiro. Veloso abre um sorriso tímido, um pouco surpreso, um pouco orgulhoso. É o tipo de reconhecimento que o Brasil inteiro deveria ouvir. E talvez ouça, quem sabe, no palco do Oscar".
O longa já abocanhou o Critics' Choice Award na categoria Melhor Fotografia e o Prêmio AFI (American Film Institute) na categoria Melhor Filme do Ano. Agora segue rumo ao Oscar onde concorre nas categorias Filme, Roteiro Adaptado, Fotografia e Canção Original (Nick Cave e Bryce Dessner).
O que disse a crítica 1: Vitor Velloso do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "'Sonhos de Trem' é um filme guiado para produzir belas imagens, quadros perfeitos e sequências marcantes, e isso se torna problemático quando vemos cenas inteiras que são mantidas na obra apenas com o intuito de gerar um impacto visual forte, a mise-en-scène estruturada em uma lógica para guiar os personagens para a melhor luz e enquadramento. Enquanto a fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, faz o longa se movimentar junto com seu excelente trabalho (...) o filme funciona em um ritmo mais fluido, mas quando a direção reconfigura suas ideias para construir esse impacto, o longa parece artificial (...). A narração de Will Patton só transforma o filme em algo ainda mais fadado a uma fórmula".
O que disse a crítica 2: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Sonhos de Trem' chega à beira de sugerir um espírito nas árvores por onde Grainier caminha, mas cria um espírito ao passear entre elas. Tanto Robert quanto nós somos transformados em observadores, do tempo, da terra e de nós mesmos. A maior parte dos filmes existem como uma obra de arte na tela, algo que vemos e deixamos. Alguns, como 'Sonhos de Trem', fazem algo ainda mais especial. Eles destroem os limites. Vivem dentro de nós, e nos deixam viver dentro deles".
O que eu achei: Robert Grainier é o personagem chave de "Sonhos de Trem" (2025). Ele é um personagem fictício, criado por Denis Johnson no livro que deu origem ao filme, mas sua trajetória soa profundamente verdadeira porque está enraizada na história americana: a de milhares de trabalhadores anônimos que ajudaram a construir o país no início do século XX. Lenhadores e operários das ferrovias, como o próprio Robert, enfrentavam terrenos hostis, jornadas exaustivas e riscos constantes, numa era de industrialização acelerada, logo após a Guerra Civil. O filme captura esse contexto sem didatismo, deixando que ele emerja dos gestos, dos silêncios e principalmente da paisagem. O roteiro, assinado por Clint Bentley e Greg Kwedar (os mesmos de "Sing Sing") permanece fiel ao espírito poético, estranho e fragmentado do livro. Para alcançar essa autenticidade, os roteiristas viajaram pelo Noroeste do Pacífico, visitando áreas que inspiraram Johnson e ouvindo relatos de famílias ligadas a esses ofícios por gerações. Esse cuidado se traduz numa narrativa que funciona menos como uma biografia e mais como uma meditação sobre perda, passagem do tempo e transformação, como se a vida desses homens anônimos fosse apenas um ponto numa vastidão que só pode ser percebida através de uma visão mais ampla, representada no longa como um voo sobre o país ou uma visão de um astronauta a partir da lua, como sugere a transmissão televisiva de 1969 que Grainier vê na TV. É um filme extremamente delicado. Tinha tudo para escorregar para o melodrama, mas passa longe disso. Em vez de sublinhar emoções, opta por um tom contemplativo, quase silencioso, que transforma a experiência num poema em forma de cinema. É um filme lento que convida à escuta, à observação e à empatia. Um filme para alimentar a alma. A fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso e que concorre ao Oscar, é um dos grandes trunfos. O longa também disputa as estatuetas de Filme, Roteiro Adaptado e Canção Original, com a bela composição de Nick Cave e Bryce Dessner que acompanha os créditos finais. No elenco, Joel Edgerton entrega um protagonista contido e comovente, bem amparado pelos excelentes William H. Macy e Felicity Jones. Uma obra sensível, madura, profundamente humana que, com certeza, vale ser vista.

24.1.26

“Kung Fu Panda 4” – Mike Mitchell (EUA, 2024)

Sinopse:
Po precisa encontrar e treinar um novo Dragão Guerreiro depois de ser escolhido como o Líder Espiritual do Vale da Paz. No entanto, ele sequer imagina que uma feiticeira perversa está tentando trazer todos os vilões-mestres já derrotados por Po diretamente do reino espiritual.
Comentário: A saga “Kung Fu Panda”, gira em torno do atrapalhado Po Ping, um urso panda filho de um ganso, apaixonado por artes marciais, mais especificamente pelo kung fu. Ele quer criar um estilo de luta próprio, mas não parece levar lá muito jeito já que como todo panda ele é gorducho e preguiçoso.
Em “Kung Fu Panda 1” (2008), a primeira animação da série, estamos na China da antiguidade. Po trabalha na loja de macarrão da sua família e sonha em transformar-se em um mestre de kung fu. Seu sonho se torna realidade quando, inesperadamente, deve cumprir uma profecia antiga e estudar a arte marcial com seus ídolos, os Cinco Furiosos: um grupo de mestres composto pelos sábios Macaco, Louva-A-Deus, Víbora, Garça e Tigresa. Po precisa de toda a sabedoria, força e habilidade que conseguir reunir para proteger seu povo de um leopardo da neve malvado.
Na sequência veio “Kung Fu Panda 2” (2011). Po, que já se tornou um Dragão Guerreiro e é um habilidoso lutador de artes marciais, enfrenta um antigo inimigo, agora ainda mais mortal: um pavão misterioso chamado Lorde Shen, que acredita numa profecia que afirma que sua derrocada virá das mãos daquele que combina o preto com o branco, o claro com o escuro. Do lado do panda, além dos quatro furiosos, vão se juntar o Crocodilo, Rino Trovão e Boi Toró. É neste longa que ficamos sabendo que Po é adotado e o que, de fato, aconteceu com seus pais.
A terceira animação, “Kung Fu Panda 3” (2016), mostrou Po reencontrando seu verdadeiro pai, há muito desaparecido. Os dois seguem até um vilarejo paradisíaco habitado apenas por pandas. No entanto, logo são ameaçados pela proximidade do iaque Kai, um vilão sobrenatural que vem cruzando a China e derrotando todos os mestres em kung fu. Po precisou então treinar os amáveis pandas do lugar para se tornarem guerreiros e defenderem-se de Kai, deixando de ocupar a posição de aluno para lecionar.
E agora finalmente temos “Kung Fu Panda 4” (2024), também da DreamWorks Animation e distribuído pela Universal Pictures. A trama é a seguinte: depois de três aventuras arriscando sua própria vida para derrotar os mais poderosos vilões, Po, o Grande Dragão Guerreiro, é escolhido para se tornar o Líder Espiritual do Vale da Paz. A escolha em si já é problemática ao colocar o mestre de kung fu mais improvável do mundo em um cargo como esse e além disso, ele precisa encontrar e treinar um novo Dragão Guerreiro antes de assumir a honrada posição. Enquanto ele tenta compreender que precisará deixar a sua função para dar um novo passo em sua jornada, ele se depara com Zhen, uma raposa com muitas habilidades que parece ser a aposta ideal para ser treinada, mas que não gosta muito desta ideia. Como se os desafios já não fossem o bastante, a Camaleoa, uma feiticeira perversa, tenta trazer de volta todos os vilões derrotados por Po do reino espiritual.
Célio Silva do site G1 nos diz que “Depois que ‘Kung Fu Panda 3’ (...), parecia que a franquia iria terminar. Dava a impressão de que a série não tinha mais o que mostrar para o público. Mas em Hollywood, finais são relativos. Por isso, depois de oito anos, [surge] ‘Kung Fu Panda 4’. Ao contrário dos filmes anteriores, que traziam algo de diferente para a franquia na parte técnica ou no enredo, ‘Kung Fu Panda 4’ quase não tem novidades. Quase tudo já foi visto antes, na série ou em outras animações. O diretor Mike Mitchel, (...) não parece estar preocupado em adicionar elementos para tornar seu filme mais original. Assim, o cineasta e sua equipe de animadores reaproveitam cenas de luta dos personagens que deram certo no passado e que devem agradar aos fãs menos exigentes”.
O longa concorreu à Melhor Animação no Oscar 2025 perdendo para “Flow” (2024).
O que disse a crítica 1: Odie Henderson, do The Boston Globe, não gostou. Ele expressou desapontamento com a vilã e as sequências de ação do filme, concluindo: "Gostei das três primeiras aventuras do Dragão Guerreiro, mas a melhor coisa que ele pode fazer agora é dar a esta série um skadoosh [um fim] muito necessário, enviando-a para descansar no reino espiritual cinematográfico”.
O que disse a crítica 2: Frank Scheck do The Hollywood Reporter gostou. Escreveu: "Com seus novos cenários e personagens, incluindo o vencedor do Oscar Ke Huy Quan como um pangolim líder de um covil de ladrões e Ronnie Chieng como um peixe que vive na boca de um pelicano, ‘Kung Fu Panda 4’ visa claramente revigorar a franquia. Mas é realmente mais do mesmo, o que não é uma coisa tão ruim quando você considera que a série arrecadou cerca de 1,8 bilhão de dólares até agora (e isso sem incluir os projetos spin-off, incluindo várias séries de televisão e vídeos jogos). Seu apelo ainda reside em grande parte na performance vocal hilária de Black, que não perdeu nada de seu charme”.
O que eu achei: “Kung Fu Panda 4” (2024) se apresenta como o mais recente - e quem sabe último - capítulo de uma franquia iniciada em 2008 com uma animação surpreendentemente sensível e espirituosa. Se as continuações já haviam perdido parte do frescor, esta quarta entrada vai além: ela repete fórmulas e é relativamente confusa, como se nem o próprio filme soubesse muito bem para onde quer ir. É difícil não pensar em como isso é comum em franquias cujo primeiro filme dá muito certo - e esse foi, sem dúvida, o caso de “Kung Fu Panda”. A obra original combinava humor, carisma e uma delicada dimensão espiritual, algo raro em animações comerciais. Aqui, essa camada mais reflexiva simplesmente desaparece. Em seu lugar, restam sequências de ação frenéticas, montadas para manter tudo em constante movimento, mas sem verdadeiro impacto dramático. A sensação é de um filme que luta para justificar a própria existência. Falta-lhe a inteligência calorosa e a inventividade visual do primeiro, substituídas por uma narrativa apressada e personagens que parecem cumprir funções mecânicas dentro do roteiro. Nem mesmo as piadas, antes um dos grandes trunfos da série, conseguem funcionar: são previsíveis, pouco inspiradas e raramente arrancam mais do que um sorriso automático. É notória a ausência de entusiasmo por quem desenvolveu o roteiro. Nada aqui soa urgente, criativo ou realmente necessário. Tudo parece protocolar, como se a franquia estivesse apenas cumprindo tabela, sustentada pela ideia de faturar mais um pouco aproveitando-se do reconhecimento da marca e não por uma ideia forte que justificasse um novo capítulo. No fim, “Kung Fu Panda 4” acaba sendo indicado apenas para um público muito pouco exigente. Para quem guarda alguma memória afetiva do primeiro filme, o resultado tende mais à frustração do que à nostalgia.

21.1.26

“Seinfeld” - Larry David & Jerry Seinfeld (EUA, 1989-1998)

Sinopse:
O comediante Jerry Seinfeld (Jerry Seinfeld), o atrapalhado George Constanza (Jason Alexander), a frustrada Elaine Benes (Julia Louis-Dreyfus) e o excêntrico Cosmo Kramer (Michael Richards) são quatro amigos que lidam com os absurdos do cotidiano em Nova York.
Comentário: O site Wikipédia nos conta que o seriado foi criado por Larry David e Jerry Seinfeld, este último estrelando o programa como uma versão fictícia de si mesmo. Situado predominantemente em um prédio de apartamentos no Upper West Side de Manhattan (mas filmado em grande parte em Los Angeles), “Seinfeld” apresenta um grupo de amigos e parentes de Jerry, entre eles George Costanza, Elaine Benes e Cosmo Kramer.
Jerry Seinfeld, que interpreta a si mesmo, é um humorista de stand-up, frequentemente retratado como a "voz da razão" entre toda a insanidade gerada pelas pessoas que o rodeiam. O personagem é levemente germofóbico e compulsivo, assim como um ávido fã de “Superman” e cereal de café-da-manhã. O apartamento de Jerry é o centro do mundo visitado por seus excêntricos amigos.
George Costanza, interpretado por Jason Alexander, é o melhor amigo de Jerry. É pão-duro, desonesto, mesquinho e invejoso, frequentemente retratado como um perdedor, inseguro quanto a suas capacidades. Costuma reclamar e mentir sobre sua profissão, relacionamentos e praticamente tudo o mais, o que normalmente lhe traz problemas posteriores. Utiliza com frequência o pseudônimo "Art Vandelay" ao mentir ou inventar histórias para justificar um dado comportamento. Apesar desses contratempos, George costuma conseguir encontros com diversas mulheres, alcançando também um cargo de destaque no New York Yankees.
Elaine Benes, interpretada por Julia Louis-Dreyfus, é ex-namorada de Jerry. É inteligente e confiante, apesar de superficial. Tende a ser honesta demais com as pessoas, o que costuma lhe envolver em confusões. Tem como hábito criar problemas com os hábitos de seus namorados, as exigências bizarras de seus patrões e a rudeza de estranhos. Um tema recorrente para Elaine é sua frustração na procura do homem ideal. É a única mulher capaz de conviver com os outros três protagonistas.
Cosmo Kramer, interpretado por Michael Richards, é o vizinho "maluco" de Jerry. Entre suas marcas registradas estão seu humor direto, um penteado espalhafatoso, roupas fora de moda e suas escorregadas frenéticas pela porta do apartamento de Seinfeld. Age às vezes de forma ingênua, quase infantil, ainda que aleatoriamente demonstre um extraordinário conhecimento acerca do comportamento humano. Embora nunca permaneça em um emprego fixo, costuma inventar planos mirabolantes para ganhar dinheiro, que normalmente funcionam no começo mas terminam sempre em fracasso.
Além desse núcleo principal, vários outros personagens aparecem e desaparecem ao longo dos episódios como Newman (Wayne Knight), o vizinho detestável de Jerry; Morty Seinfeld (Phil Bruns/Barney Martin) e Helen Seinfeld (Liz Sheridan), os pais de Jerry; Frank Costanza (John Randolph/Jerry Stiller) e Estelle Costanza (Estelle Harris), os excêntricos pais de George; Susan Ross (Heidi Swedberg), noiva de George e ex-executiva da NBC; George Steinbrenner (Lee Bear), patrão de George e dono do New York Yankees; Jacopo Peterman (John O'Hurley), um dos chefes excêntricos de Elaine; David Puddy (Patrick Warburton), namorado intermitente de Elaine; Jackie Chiles (Phil Morris), advogado de Kramer e Lloyd Braun (Peter Keleghan/Matt McCoy), um amigo de infância de George; dentre outros.
A maioria dos episódios de Seinfeld era focada em incidentes do cotidiano, como permanecer numa fila de cinema, sair para jantar, comprar um terno e, basicamente, lidar com as amargas injustiças da vida. O ponto de vista apresentado na série é consideravelmente consistente com a filosofia do niilismo, a ideia de que a vida não tem sentido, simulando situações e pessoas baseadas em conhecidos de Jerry Seinfeld e Larry David na vida real.
A série teve 9 temporadas, totalizando 180 episódios.
O que eu achei: A série, de fato, é bem engraçada. Na época foi inovadora, mas por ser dos anos 1980-90, há episódios com piadas machistas, gordofóbicas, racistas e tudo mais, algo que era muito comum nos seriados daquele período. Felizmente o mundo avançou e agora estamos todos mais conscientes de tudo isso, então a série pode ser muito divertida de se ver, desde que você considere as décadas em que foi feita. Ela faz piada com as pequenas coisas do dia a dia, é leve, descontraída e, segundo seu autor, é sobre o nada. Inspirou seriados como “Friends” (1994-2004), “Arrested Development” (2003-2006) ou mesmo “The Office” (2005-2013).

19.1.26

“A Balada do Soldado” - Grigory Chukhray (URSS, 1959)

Sinopse:
O soldado do Exército Vermelho, Alyosha Skvortsov (Vladimir Ivashov), destrói dois tanques alemães e, por conta disso, é premiado com uma licença de seis dias para visitar a mãe (Antonina Maksimova). Durante sua jornada enfrenta várias dificuldades e cruza com várias pessoas, entre elas, Shura (Zhanna Prokhorenko), por quem se apaixona.
Comentário: Grigory Chukhray (1921-2001) foi um diretor e roteirista de cinema ucraniano/soviético. Na sua filmografia constam oito longas de ficção e dois documentários. “A Balada do Soldado” (1959) é seu segundo filme e o primeiro filme que vejo dele.
Waldemar Dalenogare nos conta em seu site que "Devido a Guerra Fria, de 1946 até 1963, a União Soviética decidiu não enviar submissões para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Pelas regras da Academia, um filme estrangeiro só poderia ser indicado e premiado com o Oscar após a aprovação do país em que o longa foi realizado. No ano de 1959, os produtores de 'A Balada do Soldado' não conseguiram convencer o comitê cinematográfico da União Soviética a indicar o longa ao Oscar, muito por conta da turbulenta relação entre o presidente americano Dwight D. Eisenhower e Nikita Khrushchev.
A Academia não deixou de perceber a grandiosidade deste filme e lhe indicou ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Caso tivesse recebido nomeação para o Oscar Estrangeiro, 'Balada de Um Soldado' seria um sério candidato para levar o prêmio de 'Através de um Espelho' de Ingmar Bergman, que, para falar a verdade, só venceu esta categoria pois a Academia de Cinema da Itália decidiu submeter 'A Noite' de Michelangelo Antonioni ao invés de "A Doce Vida' de Federico Fellini.
Dirigido por Grigory Chukhray, um veterano soldado da Segunda Guerra Mundial, o longa segue a história de Alexei Skvortsov (Vladimir Ivashov), um jovem soldado que ganha o status de herói de seu batalhão após explodir dois tanques de guerra da Alemanha no front. Ao invés de receber uma promoção e uma condecoração por seu feito heroico, Alexei pede para o general encarregado de sua região apenas alguns dias de folga para poder consertar o telhado de sua mãe, destruído em um ataque aéreo. Boa parte do filme se passa dentro de um vagão de trem, onde acontece a tal balada do soldado. Ao atravessar a Rússia, ele vê fome e doenças. Sem perspectiva para o fim do confronto, ele faz amizade com Shura (Zhanna Prokhorenko), uma mulher que diz estar a caminho do hospital onde seu [noivo] está internado.
Apesar do filme mostrar uma história da Segunda Guerra Mundial com teor melodramático (fechando com a proposta do cinema soviético da época), o diretor deu muita atenção a construção de seu personagem protagonista, explorando sua coragem e seus medos. O jovem é representado como apenas uma das milhares vidas perdidas na guerra. Ele poderia ser um engenheiro, um médico, mas preferiu defender sua pátria e morrer por ela. Esta mensagem, com certo teor de propaganda, garantiu recursos para o diretor financiar seu projeto".
O longa, além de concorrer ao Oscar de Melhor Roteiro Original, foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e ganhou o BAFTA de Melhor Filme.
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "'A Balada de um Soldado' é um filme que provoca reflexões sobre os efeitos da guerra sobre a pureza da juventude, bem como sobre o vazio das mães que veem suas crianças partirem. A trama ganha uma embalagem fácil de alcançar o público, não só da então União Soviética, como de todo o mundo. Afinal, seu cinema clássico é o mesmo praticado por Hollywood".
O que disse a crítica 2: Rubens Ewald Filho também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: Um belo romance, muito bem fotografado e narrado (menos demagógico de que outros filmes contemporâneos, só é preciso suportar um discurso final sobre o heroísmo do soldado russo), com o casal romântico certo. Mas a ênfase está na volta ao lar para ver a mãe. (...) Bastante irônico, humano, e até com senso de humor, foi indicado ao Oscar de Roteiro Original e ganhou o prêmio de Melhor Filme europeu do ano. Ao mesmo tempo que absorve o estilo visual dos antigos mestres do Cinema Soviético, o filme surpreende por sua naturalidade e encanto".
O que eu achei: “A Balada do Soldado” (1959) parte de uma história simples e eficaz: um jovem combatente recebe alguns dias de licença e atravessa um país marcado pela guerra para rever a mãe. No caminho, vive pequenos encontros, gestos de solidariedade e um breve romance, num percurso que tenta condensar a dor e a esperança de um povo em conflito. O problema do filme é que essa trajetória é conduzida por um tom excessivamente melodramático, comum no cinema soviético da época, mas que hoje soa artificial. Tanto os diálogos quanto a trilha sonora adocicada sublinham emoções que já estavam claras na encenação, tornando a experiência mais cansativa do que comovente. Embora se apresente como um drama de guerra poético, o filme carrega também um viés patriótico típico do período, tratando o sacrifício individual como parte de uma engrenagem heroica maior. Seu apelo popular é evidente: a narrativa busca alcançar facilmente o público e, em vários momentos, lembra o cinema clássico de estúdio, quase como um épico romântico à moda de Hollywood, apenas deslocado para o front soviético. Há ainda uma curiosa assepsia na representação da guerra. Corpos de mortos aparecem limpos e idealizados, contrastando com a brutalidade esperada do cenário. Uma cena emblemática mostra uma mulher morta estendida no chão, mas arrumada como se tivesse acabado de sair do cabeleireiro o que reforça a sensação de artificialidade. Por outro lado, é impossível ignorar a beleza da fotografia em preto e branco, com enquadramentos delicados e uso expressivo da luz. No fim, o filme funciona melhor como exercício estético e registro de um estilo de época do que como experiência emocional profunda: há ternura e uma boa história, mas o excesso de sentimentalismo enfraquece seu impacto dramático. Muito bonito esteticamente falando, mas bem mediano como cinema.

18.1.26

“Misericórdia” - Alain Guiraudie (França/Espanha/Portugal, 2024)

Sinopse:
 
Jérémie (Félix Kysyl) volta à sua cidade natal para o funeral do seu antigo patrão (Serge Richard), o padeiro do vilarejo. Ao chegar, ele decide permanecer por mais algum tempo ao lado de Martine (Catherine Frot), a viúva do homem. Essa presença acaba perturbando o ambiente ao criar uma desavença com o filho da mulher, Vincent (Jean-Baptiste Durand).
Comentário: Alain Guiraudie (1964) é um escritor, cineasta, ator e roteirista francês. Seu quarto longa, "Um Estranho no Lago" (2012), recebeu o prêmio de Melhor Diretor na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. "Na Vertical" (2016) concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes. "Um Herói Anônimo" (2022) foi o filme de abertura da mostra Panorama na Berlinale 2022. “Misericórdia” (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
Jorge Pereira Rosa do site C7nema nos conta que "Começando com um funeral e terminando num cemitério, 'Misericórdia' segue Jérémie, que retorna a Saint-Martial para o funeral de um antigo chefe. Ele fica alojado com Martine, a viúva, por alguns dias, mas entre um desaparecimento misterioso (...) e um abade com intenções estranhas, a sua curta estadia na vila toma um rumo inesperado.
'Os meus filmes são sempre povoados por eventos improváveis, num cinema que faço também improvável', disse o cineasta ao C7nema (...) numa entrevista por ocasião do Rendez-vous d’Unifrance à Paris. 'Se contar a alguém a história do meu filme sem que o vejam, as pessoas vão desconfiar. Mas procuro sempre neles uma fidelidade ao real. O filme tem que ter a sua própria coerência. (…) Os personagens vêm diretamente da minha experiência juvenil no interior rural francês, mas são de alguma forma intemporais [invariável, eterno, perene]'.
Assumindo a importância de Pedro Almodóvar em toda a sua carreira, mas apontando 'o vaudeville, Hitchcock e Fritz Lang' como as principais referências para este 'Misericórdia', Guiraudie relembra que 'morte e desejo são elementos que funcionam bem no cinema' e que o grande motor do seu filme é o mistério. 'E dois dos grandes mistérios da vida são a morte e o desejo', dispara, afastando a ideia de alguns críticos e espectadores que evocaram Pasolini e 'Teorema' (1968) como inspiração para 'Misericórdia': 'Não é uma referência e quando fiz o filme não pensei no 'Teorema', que por acaso nem é o que mais aprecio dos seus filmes', explica o cineasta. 'Depois de lançar o filme e de me falarem da obra do Pasolini, fiz o exercício de procurar no 'Misericórdia' o 'Teorema', chegando à conclusão que é exatamente o contrário dele. O protagonista não dorme com ninguém, enquanto o de Teorema dorme com todos; não temos uma família burguesa, nem tão pouco proletária, mas no campo popular; o jogo do desejo no filme do Pasolini é colocado numa forma teórica que implodirá com a família burguesa, no meu temos um arranjo familiar mais bizarro. Até mesmo o final do meu filme é o contrário do Pasolini. Na verdade, esse filme funciona como uma contrarreferência'.
Félix Kysyl, que o cineasta descobriu há 10 anos através do casting de um filme que não fez, assumiu em 'Misericórdia' o seu primeiro papel como protagonista, sendo acompanhado no elenco por Catherine Frot, que o cineasta pensou imediatamente quando estava escrevendo o roteiro: 'Habitualmente a vemos em comédias descaradas, mas, para mim, é uma das raras estrelas francesas, uma diva, que consegue com autenticidade passar pela trabalhadora de uma padaria numa pequena vila. Não conseguiria pôr a Catherine Deneuve ou a Isabelle Huppert nesse papel, pois transmitem uma ideia mais burguesa. Por causa disso pensei muito rapidamente na Catherine Frot, por este seu lado popular. E isso dá também credibilidade ao filme. Tenho sempre medo das escolhas pois penso sempre se os atores escolhidos funcionam naquele papel e são críveis. Foi muito agradável trabalhar com ela e acho que ela assumiu muito bem a personagem, que às vezes pisa o terreno do maligno, mas também da sinceridade e frontalidade'".
O filme foi eleito pelos críticos e pelos leitores da revista Cahiers du Cinéma como o melhor de 2024.
O que disse a crítica 1: Victor Russo do site Filmes & Filmes avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: "O que torna 'Misericórdia' tão delicioso e inesquecível é como Guiraudie molda essa narrativa hitchcockiana a partir de um personagem que veste várias máscaras, enquanto parece sentir algum remorso por suas atitudes, nos gritos dormindo ou a possibilidade de suicídio (ou seria essa uma outra persona só para nos manipular?), tudo isso dentro de uma dinâmica de humor extremamente saborosa, o riso pelo inesperado e pelo nervoso da improvisação".
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Esta capacidade de provocar o espectador sem recorrer ao choque, nem o espetáculo em modo clickbait [técnica de marketing que utiliza imagens sensacionalistas e exageradas para gerar curiosidade e atrair o maior número possível de cliques em um link] (...) faz de 'Misericórdia' uma obra muito especial, provocadora, embora permaneça simples, linear, acessível em sua compreensão de ações e atividades. Dispensando estripulias de direção e recursos vaidosos de roteiro, Guiraudie propõe um filme discretamente genial".
O que eu achei: Esta frase dita pelo próprio diretor Alain Guiraudie resume bem a experiência: “Os meus filmes são sempre povoados por eventos improváveis, num cinema que faço também improvável”. A premissa é simples e crível: um rapaz volta à sua cidade natal para o funeral do antigo patrão, o padeiro do vilarejo, e decide permanecer por mais alguns dias ao lado da viúva, apesar do claro descontentamento do filho do falecido. O que ocorre durante essa estadia, porém, é altamente improvável, pouco usual e instigante, gerando estranhamento a cada ação e a cada diálogo. Se por um lado isso provoca um certo desconforto no espectador - te fazendo pensar "será que estou gostando disso?" - por outro ele nos faz pensar em como o filme dialoga com a questão da inovação na arte. Pintar hoje como Michelangelo pintava no século XVI é belo e confortável para quem vê, mas o que haveria de novo nesse gesto na atualidade? Não estaria justamente na capacidade de fazer diferente, de deslocar expectativas, o grande trunfo de uma obra de arte contemporânea? É por aí que o filme mostra seu valor. Prepare-se para decodificar um grande volume de diálogos peculiares, que mantêm a atenção do começo ao fim, enquanto tentamos adivinhar até onde esse roteiro fascinante e original vai chegar. Se há algum conforto, ele vem da fotografia, que explora ao máximo as belas paisagens da pequena vila francesa e a natureza outonal ao redor. O resto é desafio.

12.1.26

“Três Homens em Conflito” - Sergio Leone (Itália/Espanha/Alemanha Ocidental/EUA, 1966)

Sinopse:
Nos Estados Unidos, durante a Guerra de Secessão, um pistoleiro bom e misterioso (Clint Eastwood) tenta trabalhar em conjunto com um bandido mau (Lee Van Cleef) e um caçador de recompensas feio (Eli Wallach) para encontrar um tesouro escondido. Os homens são obrigados a forjar uma difícil aliança visto que cada um conhece apenas uma parte da localização da fortuna. O problema é que nenhum deles tem a intenção de dividir a riqueza.
Comentário: Sergio Leone (1929-1989) foi um cineasta italiano autor de famosos filmes que renovaram o gênero western. Assisti dele a obra-prima "Era Uma Vez na América" (1984) e os excelentes "Por um Punhado de Dólares" (1964) e "Era Uma Vez no Oeste" (1968). Desta vez vou conferir “Três Homens em Conflito”, o terceiro filme da ‘Trilogia dos Dólares’ também conhecida como ‘Trilogia do Homem Sem Nome’, que também inclui “Por um Punhado de Dólares” e “Por uns Dólares a Mais”.
Luke Buckmaster do site BBC Culture nos conta que “O legado do lendário diretor italiano ficou para sempre associado ao western espaguete, um subgênero de filmes produzidos nos anos 60 e 70, inspirado nos tradicionais filmes americanos de bangue-bangue. Eram produções feitas por diretores europeus, trabalhando com orçamentos menores, mas com um bravo espírito inovador.
Mas nenhum western espaguete ficou tão famoso quanto ‘Três Homens em Conflito’. O filme de Leoni conta a história de três foras-da-lei em busca de uma fortuna desaparecida. O filme apareceu em inúmeras listas de melhores produções ao longo dos anos, graças a técnicas revolucionárias de narrativas que foram usadas, ensinadas e roubadas por diretores de todas as partes do mundo.
A famosa cena do enfrentamento no cemitério é considerada por críticos e especialistas como um dos melhores exemplos de edição da história do cinema. E o impacto daqueles momentos é a razão pela qual o filme ainda ressona tão fortemente [mais de] meio século depois: não é apenas o que acontece, mas 'como' algo acontece.
Desde o começo, o filme dá pistas de que vai ser um festival de bravura visual. A primeira cena é uma longa tomada de um vale desértico. Mas tudo dura apenas segundos – Leone usa a paisagem para uma mudança de enfoque, e logo o rosto duro de um cowboy com a barba por fazer aparece em cena, perto o suficiente da câmera para que possamos ver suas narinas. Uma tomada à distância se transforma em um close-up extremo, sem cortes ou mudanças de posição da câmera. O recurso é tão elegante quanto ousado. A vastidão do cenário estabelece o contexto, anunciando uma história que terá um desenvolvimento marcado por guinadas traiçoeiras.
Tão importante quanto a edição é a trilha sonora que acompanha o filme, considerada uma das melhoras da história do cinema. Criada pelo maestro italiano Enio Morricone, a trilha entrou para o hall da fama do Grammy Awards. E um livro inteiro foi escrito sobre sua composição, que ao lado de trilhas como a de ‘Tubarão’ e ‘Star Wars’ está entre as mais rapidamente reconhecíveis da história do cinema.
Mas o clímax é mesmo a cena do cemitério, um momento de bravura cinematográfica em que os três protagonistas (interpretados por Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach) enfrentam-se em uma área coberta de cimento. (...)
‘Três Homens em Conflito’ até hoje tem influência no cinema. Mas nenhum diretor mostrou mais apreciação ao filme que Quentin Tarantino, para quem a produção é o maior feito da história do cinema. E, fiel à cartilha de que grandes artistas ‘roubam’, o diretor americano declara seu amor ao filme de Leone em boa parte de suas produções. (...) O filme inspirou muitos outros diretores, incluindo Martin Scorsese e Robert Zemeckis. E o sucesso [do personagem] ‘pistoleiro sem some’ transformou Clint Eastwood em um astro internacional".
O que disse a crítica 1: Ritter Fan do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “’Três Homens em Conflito’ é uma obra-prima indispensável que merece toda a reverência daqueles que se consideram amantes da Sétima Arte. Mas o melhor é que a carreira de Leone consegue, com suas três únicas obras seguintes que dirigiria por completo, alcançar outros patamares ainda. É quase inacreditável, mas é verdade”.
O que disse a crítica 2: Roberto Siqueira do site Cinema e Debate também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: “Representante maior do estilo western espaguete, ‘Três Homens em Conflito’ encanta pela quantidade enorme de cenas esplendidamente bem filmadas, explorando todo o potencial das paisagens do velho oeste e extraindo o máximo da trama criada, demonstrando toda a competência de Sergio Leone como diretor. Mesmo muitos anos depois de seu lançamento, ainda se mantêm como um dos maiores westerns já lançados no cinema. Com cenas inesquecíveis, momentos de extrema tensão e imagens belíssimas, o filme consegue criar empatia com o espectador e mantê-lo sempre interessado na narrativa, de uma forma absolutamente competente e imperdível”.
O que eu achei: A versão que eu vi - estendida e restaurada - dura 178m pois combina cenas extras e material recuperado. Mas existem outras versões, como a versão italiana original que dura entre 177–182m; a versão internacional criada para exibições de cinema que dura 161m e as versões editadas para a tv que possuem menos de 150m com as cenas mais violentas censuradas. Independentemente do corte, "Três Homens em Conflito" confirma por que Sergio Leone redefiniu o faroeste ao transformá-lo em uma experiência mais operística, cruel e irônica. Aqui, o Velho Oeste deixa de ser território de heróis edificantes para se tornar um campo de sobrevivência moralmente ambíguo, povoado por figuras que agem por interesse, astúcia ou pura necessidade. O trio central - o pragmatismo silencioso do bom Blondie, a brutalidade calculada do mau Angel Eyes e a energia caótica do feio Tuco - funciona como um jogo permanente de forças, no qual alianças são sempre provisórias e a confiança nunca é completa. A encenação é um espetáculo à parte. Os enquadramentos amplos dos desertos, contrastados com closes extremos de olhos e mãos são incríveis. A trilha sonora de Ennio Morricone, com seus temas memoráveis e pulsação quase hipnótica, dialoga com as imagens, ampliando a sensação de mito e grandiosidade, especialmente na célebre sequência final, em que música, montagem e atuação se fundem num clímax inesquecível. Ao mesmo tempo, o filme não perde o senso de humor nem o olhar crítico sobre a violência e a guerra. O pano de fundo da Guerra Civil Americana surge menos como reconstituição histórica e mais como um cenário de absurdo e desperdício humano, diante do qual a busca obsessiva pelo ouro ganha contornos quase trágicos. Por tudo isso, "Três Homens em Conflito" permanece um marco não apenas do faroeste, mas do próprio cinema moderno: um filme que ousa dilatar o tempo, brincar com arquétipos e transformar a violência em espetáculo estilizado, sem perder sua camada de comentário humano e histórico. Uma obra que se impõe pela personalidade e pela invenção formal e que, mesmo revista hoje, mantém intacta sua capacidade de fascinar. Excelente.

11.1.26

"Bird" – Andrea Arnold (Reino Unido/EUA/França/Alemanha, 2024)

Sinopse:
Bailey (Nykiya Adams) vive com seu irmão Hunter (Jason Buda) e seu pai Bug (Barry Keoghan) - que os cria sozinho - em um alojamento no norte de Kent. Bug não tem muito tempo para se dedicar a eles, com isso Bailey procura atenção e aventura em outros lugares. A rotina monótona e marcada pela vulnerabilidade muda quando Bailey conhece Bird (Franz Rogowski), um misterioso jovem com sotaque alemão.
Comentário: Andrea Arnold (1961) é uma cineasta, atriz e apresentadora de TV francesa. Ela ganhou um Oscar pelo seu curta-metragem "Wasp" (2003). Seus longas-metragens "Marcas da Vida" (2006), "Aquário" (2009) e "American Honey" (2016) são todos vencedores do Prêmio do Júri no Festival de Cannes. É dela também o documentário "Cow" (2021). "Bird" (2024) é o primeiro filme que vejo dela.
Domi Valansi do site Festival do Rio nos diz: " Como sentir um sopro de liberdade em meio ao caos cotidiano? No caloroso e sensível 'Bird', escrito e dirigido pela premiada Andrea Arnold, (...) acompanhamos a vida de Bailey (Nikia Adams), uma menina de 12 anos que leva uma vida dura em Gravesend, uma das áreas mais carentes do Reino Unido, com poucas perspectivas de futuro.
Ela vive com seu irmão Hunter (Jason Buda) e seu jovem pai Bug (Barry Kheogan), que não tem muito tempo para se dedicar aos filhos, em uma ocupação. Em paralelo, ela visita a mãe alcoólatra com frequência, para cuidar de seus outros irmãos.
A realizadora mais uma vez opta pelo seu estilo realista, com uma câmera íntima que mostra o ponto de vista dos personagens. E é notável como Bailey percebe e interage com o mundo de uma outra maneira, incomum às pessoas ao seu redor. Em contraponto ao urbano, a natureza e os pássaros, manifestam para ela liberdade e leveza. A menina filma pássaros com seu celular e depois projeta as imagens na parede de seu quarto. Em busca de atenção e novas formas de contato, Bailey passa a fazer parte de uma gangue de amigos mais velhos.
A rotina monótona e marcada pela vulnerabilidade então muda quando Bailey conhece Bird (interpretado por Franz Rogowski), um misterioso jovem com sotaque alemão, que lhe aparece como uma espécie de refúgio. Conectados, todas as noites eles sobem no topo do prédio mais alto da cidade para observar o horizonte.
Destaque na 77ª edição do Festival de Cannes, 'Bird' concorreu à Palma de Ouro, à Queer Palm e venceu o Prêmio da Cidadania".
O que disse a crítica 1: Jorge Pereira do site C7nema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Entre os personagens Bailey e Bird nasce uma relação de cumplicidade peculiar, que derradeiramente vai fluir numa passagem do típico realismo de Arnold para o realismo mágico que se desenvolveu fortemente nas décadas de 1960 e 1970 na América Latina e tem conquistado adeptos em várias formas de arte, da literatura ao cinema. É (mais uma) agradável surpresa, juntamente com a descoberta de mais uma 'atriz' desconhecida, Nykiya Adams. A jovem, que procura aceitação um pouco por todo o lado - pai, mãe, Bird ou na gangue - é a força motriz do filme de Arnold, sendo acompanhada por Franz Rogowski e Barry Koeghan com precisão, extravagância e humor".
O que disse a crítica 2: Caio Coleti do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "No fundo, talvez todos os triunfos de 'Bird' tenham a ver com esse construir tão cuidadoso de subjetividades. Nos jovens atores que dirige para entregar performances carismáticas, mas pulsantemente internalizadas em suas emoções mais significativas; na dosagem criteriosa que faz da inclusão de Keoghan e Rogowski, ambos excelentes em suas próprias idiossincrasias, para que eles não distraiam o espectador da concretude plenamente possível daquela história; na escolha da música, que segue sua própria jornada dentro do filme, a caminho de uma abertura emocional, de um diálogo mais direto e relacionável com o público e entre os personagens… nas mãos de Arnold, tudo é calculado e tudo parece absolutamente natural".
O que eu achei: Trata-se da minha primeira experiência com o cinema de Andrea Arnold, uma cineasta conhecida pelo olhar sensível focado nas juventudes à margem, nos personagens que crescem em ambientes hostis e aprendem a sobreviver mais pela intuição do que por promessas de futuro. Em "Bird" (2024) vamos acompanhar Bailey, uma menina de 12 anos que vive com o pai, prestes a se casar, e com o meio-irmão. A mãe, alcoólatra, está presa a um relacionamento abusivo. Tudo em sua vida soa alienante exceto seu amor por pássaros, símbolo de liberdade e imaginação. É nesse contexto que surge Bird, um rapaz excêntrico e problemático que procura os próprios pais. Bailey decide ajudá-lo e, a partir daí, a narrativa passa a flertar com um certo realismo mágico. Mesmo com a presença desse elemento fantástico, Arnold constrói a encenação de forma tão orgânica que acreditamos que aquilo pode, de fato, estar acontecendo. A fantasia não rompe o realismo, ela nasce da carência afetiva da protagonista, como uma extensão emocional da sua sobrevivência. Como ambientação, seguindo a tradição do realismo social britânico, o filme usa conjuntos habitacionais degradados como cenário e aposta num estilo naturalista, captando a angústia cotidiana de personagens marcados pela exclusão social no Reino Unido. Nykiya Adams, em sua estreia no cinema, sustenta a protagonista Bailey com uma atuação muito verdadeira, equilibrando fragilidade e força. A trilha sonora também é um destaque, com músicas como “Yellow” (Coldplay) e “The Universal” (Blur), ampliando o impacto emocional das cenas. Ainda que o filme não seja totalmente equilibrado em seu ritmo, "Bird" trata com sensibilidade temas como identidade, pertencimento, a dor de não ser visto e a transição da infância para a vida adulta. É um filme capaz de provocar empatia genuína, que toca em feridas sociais e emocionais importantes, e que encontra na mistura entre realismo e magia uma forma honesta de falar sobre crescer e desejar, mesmo nas condições mais adversas, alçar algum tipo de voo. Boa pedida.

10.1.26

"Anselm – O Barulho do Tempo" - Wim Wenders (França/Alemanha, 2023)

Sinopse:
Por mais de dois anos, o cineasta Wim Wenders acompanhou o pintor e escultor alemão Anselm Kiefer. O documentário retrata os mais de 50 anos de carreira do artista, além de suas memórias na Alemanha e os seus dias na França, onde vive atualmente. Wenders apresenta uma experiência cinematográfica da obra de Kiefer, que explora a existência humana e o movimento cíclico da história, inspirado pela literatura, pela poesia, pela ciência e pela religião.
Comentário: O site Wikipédia nos conta que Anselm Kiefer (1945) é um pintor e escultor alemão. Estudou com Peter Dreher e Horst Antes no final da década de 1960. Suas obras incorporam materiais como palha, cinzas, argila, chumbo e goma-laca.
Os poemas de Paul Celan influenciaram o desenvolvimento dos temas de Kiefer sobre a história alemã e os horrores do Holocausto, assim como os conceitos espirituais da Cabala.
Quando tinha 18 anos, Kieffer partiu para uma viagem de um ano para visitar lugares na Holanda, Bélgica e França que tinham associações com Van Gogh. Trechos do diário que ele manteve indicam o quão fortemente ele foi influenciado por Van Gogh.
Em toda a sua obra, Kiefer dialoga com o passado e aborda temas tabus e controversos da história recente. Temas relacionados ao regime nazista são particularmente relevantes em seu trabalho; por exemplo, a pintura 'Margarete' (óleo e palha sobre tela) foi inspirada no conhecido poema de Celan "Todesfuge" (Fuga da Morte).
Suas obras são caracterizadas por uma disposição inabalável de confrontar o passado sombrio de sua cultura e o potencial não realizado, em trabalhos que são frequentemente feitos em grande escala, confrontadora e adequada aos temas.
Também é característico de seu trabalho encontrar assinaturas e nomes de pessoas de importância histórica, figuras lendárias ou lugares históricos. Todos esses são sigilos codificados através dos quais Kiefer busca processar o passado, resultando na associação de seu trabalho com os movimentos Novo Simbolismo e Neoexpressionismo.
Kiefer vive e trabalha na França desde 1992. Desde 2008, vive e trabalha principalmente em Paris. Em 2018, ele recebeu a cidadania austríaca.
Carlos Alberto Mattos no seu site Carmattos nos diz: "Se você quer saber detalhes da vida e do pensamento de Anselm Kiefer, é melhor consultar os livros ou a internet. Esse documentário de Wim Wenders não está interessado em explanações didáticas, nem elucubrações de curadoria. 'Anselm – O Som do Tempo' (Anselm – Das Rauschen der Zeit) limita-se, quase sempre, a fazer a câmera passear pela superfície dos quadros imensos, circundar as esculturas impactantes ou deambular pelo seu atual estúdio gigantesco, um antigo complexo fabril no sul da França.
Vemos Kiefer em pleno trabalho, sem nenhum pincel. Suas ferramentas são espátulas de metal, cabos de aço, maçaricos. Os materiais abrangem areia, palha, escombros, chumbo derretido, gesso, fogo, etc. Os processos variam entre artesanais, industriais e alquímicos. A escala das obras requer grandes galpões, guindastes e outros equipamentos de construção civil. O pintor circula por esses espaços, às vezes em bicicleta, geralmente em silêncio. Em certos momentos, não sabemos a diferença entre obra e ambiente circundante. Não vi a versão em 3D [existe uma versão em 3D para ser vista com óculos especiais], mas posso imaginar o efeito da profundidade, que deve tornar tudo aquilo ainda mais intrigante e espetacular.
Wenders insere algumas vinhetas ficcionais com o filho de Kiefer no papel do pai mais jovem e o menino Anton Wenders, seu sobrinho-neto, para evocar a infância de Anselm, envolvido pelos murmúrios do passado alemão. A história da Alemanha – sobretudo os ecos do Holocausto –, assim como mitos germânicos, gregos e judaicos, ecoa profundamente na pintura filosófica de Kiefer. Sua admiração pelo poeta judeu romeno Paul Celan e pelo filósofo alemão Martin Heidegger transparece literalmente em muitos quadros.
Heidegger foi simpatizante do nazismo, e o próprio Kiefer foi acusado de incidir em práticas duvidosas, como fotografar-se fazendo a saudação hitlerista em vários locais da Europa. Sua explicação era de que protestava contra o esquecimento. Wenders aborda essa polêmica retroativamente, incluindo a declaração de Kiefer de que não poderia afirmar o que ele seria em 1939, seis anos antes de nascer. Ou seja, o retrato político do artista fica aberto à especulação de cada um de nós.
Recorrendo a materiais de arquivo e projeções no ateliê, o documentário recupera fases anteriores da carreira de Kiefer, desde a época mais figurativa, passando pelo aprendizado com Joseph Beuys e a consagração nos EUA. A tênue cronologia se conclui com a magnífica exposição no Palácio dos Doges de Veneza em 2022.
Sem a preocupação de explicar Kiefer, 'Anselm' se concentra em expor virtualmente a diversidade, a rusticidade e a dimensão colossal da obra".
O que disse a crítica 1: João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: " O cinema já foi vítima de vários crimes em nome da 'arte imersiva', em particular depois do 3D contemporâneo. O filme de Wenders, com seu foco afiado e uso da estereoscopia – técnica usada para se obter efeito tridimensional, através de duas imagens obtidas em pontos diferentes – quer deslizar para a textura física das obras. É ver para crer".
O que disse a crítica 2: Raissa Ferreira do site Filmes e Filmes avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "Ainda que busque esse resgate ao passado, como entregando a Anselm a chance de se reencontrar com seu eu da infância, passando por como tudo que o formou faz parte de suas obras, não existe uma brecha para uma relação íntima ou empática com esse objeto de estudo, o veremos como parte de uma mitologia criada por Wim Wenders, mas que também é um pedaço concreto da realidade, da história da arte e da Alemanha, tão material quanto suas criações artísticas. O sentir, que não é palpável, fica por conta desse olhar tão fascinante do diretor, que transforma cada peça em algo mágico, as registrando (principalmente no uso do 3D) como quem quer guardar suas impressões mais reais do que é possível enxergar, pois objetos assim tão duros não existem além desse mundo que podemos tocar".
O que eu achei: Em “Anselm - O Som do Tempo” (2023), Wim Wenders realiza mais do que um documentário sobre um grande artista: ele constrói uma experiência sensorial, filosófica e quase hipnótica, capaz de diluir as fronteiras entre cinema, pintura, memória e pensamento. Depois da investigação poética da dança em "Pina" (2011), o cineasta volta a explorar as possibilidades do 3D, agora não como mero efeito tecnológico, mas como ferramenta expressiva para penetrar na densidade física e simbólica da obra de Anselm Kiefer. Mesmo assistindo à versão convencional, é impossível não imaginar o impacto vertiginoso que a projeção tridimensional deve provocar: uma verdadeira vertigem estética, como se o espectador pudesse atravessar as telas e caminhar dentro delas. O filme opera como um ensaio visual, apagando os limites entre representação e criação. Wenders não se contenta em explicar Kiefer; ele nos convida a habitar seu universo. As texturas do aço, do chumbo, do concreto e das superfícies queimadas ganham uma presença quase tátil, enquanto a câmera desliza pelos espaços monumentais como se explorasse um território mental. Há uma imersão profunda no imaginário do artista alemão, cuja obra sempre lidou com o peso da história, da ruína e da memória coletiva. Essa dimensão temporal também se manifesta na delicada encenação das diferentes fases da vida de Kiefer, atualmente com 80 anos de idade. Esse gesto reforça a ideia de continuidade, herança e transmissão, como se o tempo não fosse uma linha reta, mas uma matéria viva atravessada por ecos e reincidências. Um dos momentos mais fascinantes do documentário é a visita à propriedade La Ribaute, onde Kiefer viveu por 15 anos. São cerca de 40 hectares transformados numa espécie de laboratório onírico: torres enigmáticas, cubos colossais, esculturas monumentais e uma intrincada rede de túneis subterrâneos compõem um espaço que parece menos um ateliê e mais um prolongamento do inconsciente. A obra de Kiefer, como o filme deixa claro, é atravessada pelos traumas da história alemã, especialmente os fantasmas do Holocausto, e por um vasto repertório de mitologias germânicas, gregas e judaicas. Sua admiração pelo poeta Paul Celan e pelo filósofo Martin Heidegger emerge de forma quase literal em muitas telas, onde palavras, nomes e referências se incorporam fisicamente à matéria pictórica. O documentário, ao recorrer a imagens de arquivo, revisita também etapas decisivas da carreira do artista: a fase mais figurativa, o aprendizado com Joseph Beuys, a consagração internacional, sobretudo nos EUA, e a grandiosa exposição no Palácio dos Doges, em Veneza. Wenders não evita as zonas de sombra que cercam o artista. A controversa relação de Heidegger com o nazismo e as próprias acusações dirigidas a Kiefer - como no trabalho fotográfico no qual ele mesmo aparece fazendo a saudação nazista - são abordadas com cuidado e sem simplificações. A justificativa do pintor, de que buscava provocar uma reflexão sobre o esquecimento histórico, é apresentada ao lado de uma declaração perturbadora: a impossibilidade de saber que posição ele teria assumido em 1939, antes mesmo de nascer. O filme, sabiamente, não fecha esse debate; deixa o julgamento em aberto, convidando o espectador a elaborar suas próprias interpretações sobre o lugar ético e político da arte. Trata-se de um filme para ser degustado, absorvido lentamente, como quem percorre uma exposição sem mapa. Excelente.

5.1.26

"Scanners - Sua Mente Pode Destruir” - David Cronenberg (Canadá, 1981)

Sinopse:
 Darryl (Michael Ironside) e Cameron (Stephen Lack) são scanners, frutos de uma experiência de laboratório que os dotou com a capacidade de ler e explodir mentes. Darryl decide criar um exército para conquistar o mundo e Cameron é o único com poderes para detê-lo.
Comentário: David Cronenberg (1943) é um cineasta canadense que capturou em seus filmes, por meio de um estilo único, as paranoias sociais e relacionadas ao corpo dos nossos tempos. Assisti dele os excelentes "Marcas da Violência" (2005), "Senhores do Crime" (2007), "Mapa para as Estrelas" (2014) e "Crimes do Futuro" (2022), os bons "A Hora da Zona Morta" (1983), "Crash - Estranhos Prazeres" (1996), "eXistenZ" (1999), "Um Método Perigoso" (2011) e "Cosmópolis" (2012) e o mediano "O Senhor dos Mortos" (2025). Desta vez vou conferir "Scanners - Sua Mente Pode Destruir" (1981).
Leonardo Campos do site Plano Crítico escreveu: "Em 1981, David Cronenberg já possuía mais prestígio dentro do espaço de produção cinematográfica. Os seus filmes respeitavam determinadas convenções narrativas 'autorais', originados de uma postura realizadora que buscou fazer diferente em um campo similar ao de produção hollywoodiana, mostrando-se refratário aos cânones impostos pela indústria, com produções que trafegavam na contramão do tradicional, numa atitude que lhe permitiu conquistar uma dimensão mais vasta de público, além de não ser unanimidade e permitir uma vasta abertura na recepção de suas obras, ainda reinterpretadas décadas depois de lançadas.
Desde 'Stereo', veiculado em 1969, o cineasta se empenhou em apresentar reflexões sobre a subjetividade das relações entre tecnologia e o corpo humano, tema que podemos observar em 'Calafrios', 'Enraivecida na Fúria do Sexo' e 'Filhos do Medo', as suas produções até 1981, temática expandida que percorre toda a sua carreira, em nuances diferenciadas, mas convergentes, sendo o frenético 'Scanners – Sua Mente Pode Destruir', uma das reflexões que representam esse campo de interação conflitante, isto é, a aproximação e a repulsa entre o homem e a máquina, o 'tradicional' e a 'nova ordem'.
Mas, afinal, quem e o que são os scanners? Capazes de interagir por telepatia e ocasionar o controle mental alheio, as figuras em questão possuem capacidades extra-sensoriais. Podem ler a mente, comandar atos alheios e até mesmo destruir pessoas fisicamente. Criados após uma experiência laboratorial que perde o controle, conflito dramático que embase boa parte dos filmes na carreira de Cronenberg, os scanners se unificam como uma organização terrorista, tendo como foco a quintessência da ficção cientifica: a dominação e o poder.
Também responsável pelo roteiro, David Cronenberg nos apresenta o mundo dos scanners em detalhes, 'criaturas' que conforme (…) mencionado, detém poderes telecinéticos e telepáticos incomuns. Uma corporação intitulada CONSEC busca incessantemente pessoas para as suas experiências e vai encontrar em Darryl Revok (Michael Ironside) uma espécie de 'herói da resistência maligna'. Renegado, Revok também é scanner, mas promove uma guerra contra as investidas da empresa. Para detê-lo, a CONSEC envia outro scanner, Cameron Vale (Stephen Lack), personagem que chega para estabelecer a 'guerra de titãs' ao longo dos 103 minutos de vastas cenas de ação, explosão e morte.
Ao acompanhar essa jornada que sai do discurso visceral direto para a o conflito mental no que tange aos processos de transformação dos indivíduos, somos informados que o Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan) desenvolveu experiências com ephemerol, um medicamento altamente perigoso injetado em mulheres grávidas. Tal como esperado, o procedimento traz terríveis efeitos colaterais, pois essa substância permite o surgimento de novos scanners, algo que faz aumentar as chances das estratégias de dominação organizadas por Revok, o 'malvado', contrário ao bondoso e ético Cameron, o scanner comandado a 'fazer a coisa certa'.
Aqui, a mutação da identidade não está exatamente na transformação do corpo de um ou mais indivíduos, mas na projeção no 'outro'. Numa leitura que faz o nariz do objeto de análise sangrar, os 'monstros' de 'Scanners – Sua Mente Pode Destruir' trafegam pela hibridização dos corpos pela via mental. O cérebro é o foco da narrativa, seu ponto nevrálgico. Dentre tantas cenas, a passagem com a virtualização da mente quando um scanner lê o conteúdo de uma ligação é deveras interessante e condizente com a panorâmica temática do filme focado na relação entre corpo, mente e máquinas. A personagem Kim (Jennifer O’Neill) cumpre a missão de interagir com o 'mocinho' no combate com o 'monstro', elo comercial para permitir maior adesão das plateias, nem sempre interessadas em tramas herméticas demais.
Esse espetáculo que promove o corpo e a mente como partes integrantes de uma guerra muito além do simbólico é orquestrado por um cineasta que flerta de maneira eficiente com a linguagem do vídeo, afinal, 'Scanners – A Sua Mente Pode Destruir' é um filme sobre a era do vídeo, bem como antecipação de questões abordadas em 'Videodrome – A Síndrome do Vídeo', sua realização subsequente, igualmente polêmica, complexa e com debates ainda muito atuais. Em suma: pertinente".
O design de som é de Peter Burgess, a edição é de Ronald Sanders, a supervisão de maquiagem e efeitos especiais é de Dick Smith, o design de produção é de Carol Spier e a direção de fotografia de Mark Irwin.
O que disse a crítica 1: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "Como um filme ruim pode ser tão bom? É possível algo rudimentar e simplista ser, de fato, instigante e delicioso de assistir? (...) Quando há extremado talento, como no caso de David Cronenberg, até mesmo em realizações tortas abundam lampejos magistrais que teimam em contradizer chavões e obviedades. Alguns momentos geralmente não salvam o todo, mas em se tratando de 'Scanners: Sua Mente Pode Destruir', como ficar alheio, por exemplo, à visceralidade da ligação psíquica homem/máquina (premonição?) ocorrida em dado momento, e mesmo ao bloco final que, a despeito de sua inocuidade enquanto manifestação (e fraco justamente pela revelação 'sem peso'), traz inesquecível duelo psíquico, cujas maiores vítimas são, vejam só, os corpos?"
O que disse a crítica 2: Gabriel Paixão do site Boca do Inferno avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "O que torna 'Scanners' um grande filme é a complexidade dos personagens: nenhum deles é totalmente bom ou ruim, eles apenas têm motivações diferentes para seus atos, bem próximo da realidade. As interpretações são convincentes, com destaque para Michael Ironside, perfeito para o papel de Darryl Ravok, ficando difícil imaginar como seria outro em seu lugar. E a atmosfera de tensão criada por Cronenberg causada pela ameaça iminente de uma conspiração é outro grande feito do filme".
O que eu achei: David Cronenberg sempre demonstrou pouco interesse pelo horror como algo externo ou sobrenatural. Seus filmes preferem investigar o medo que nasce do cotidiano e da própria condição humana: a televisão, os automóveis, a ciência que corrompe a carne.  Em "Scanners – Sua Mente Pode Destruir" (1981), esse terror emerge da mente, mais especificamente de poderes parapsicológicos induzidos por medicamentos, transformando o inconsciente em uma arma imprevisível. A premissa é direta e perturbadora: indivíduos conhecidos como 'scanners' possuem a capacidade de invadir, manipular e literalmente destruir outras pessoas. Cronenberg trata essa habilidade não como dom, mas como maldição, uma força difícil de controlar e potencialmente devastadora. A famosa cena da explosão da cabeça, que se tornou ícone do cinema de horror dos anos 1980, funciona como uma síntese do que o filme propõe: a ideia de que o pensamento, quando levado ao limite, pode ser tão violento quanto qualquer arma física. No entanto, "Scanners" também revela algumas fragilidades. Apesar do sucesso comercial e do status cult adquirido ao longo dos anos, o próprio Cronenberg reconheceu problemas na narrativa. Isso fica evidente na condução do roteiro, que por vezes parece irregular no desenvolvimento dos personagens. A mitologia envolvendo corporações, experimentos médicos e conflitos ideológicos entre scanners é instigante, mas nem sempre bem articulada, dando a sensação de que o filme lança ideias mais interessantes do que consegue aprofundar. Ainda assim, há mérito na forma como Cronenberg articula temas recorrentes de sua filmografia: o medo da ciência fora de controle, a invasão do corpo e da mente, e a fragilidade das fronteiras entre o humano e aquilo que ele próprio cria. "Scanners" talvez não tenha a coesão narrativa de obras posteriores do diretor, mas já aponta com clareza sua obsessão pelo horror que nasce de dentro, um horror silencioso, cotidiano e inevitável. O filme fez tanto sucesso que ganhou duas continuações: "Scanners II: The New Order" (1991) e "Scanners III: The Takeover" (1992), ambas dirigidas por Christian Duguay sem o envolvimento criativo de Cronenberg. Quem viu, disse que ambas tem um apelo mais comercial, não chegando nem aos pés da do Cronenberg. Boa pedida.

4.1.26

"A Hora do Mal" - Zach Cregger (EUA, 2025)

Sinopse:
Numa noite qualquer, exatamente às 2h17 da madrugada, todos os alunos da sala da professora Gandy (Julia Garner) acordaram, fugiram de suas casas e sumiram, com exceção de um único jovem: o tímido Alex Lilly (Cary Christopher). Sem nenhum sinal de arrombamento, violência ou sequestro, a cidade inteira passa a exigir respostas – especialmente da professora - sobre o que pode ter acontecido.
Comentário: Zach Cregger (1981) é um comediante, ator e cineasta americano. Ele é membro fundador do grupo de comédia The Whitest Kids U' Know e estrelou as sitcoms "Friends with Benefits" (2011), "Guys with Kids" (2012-2013) e "Wrecked" (2016-2018). Ele escreveu e dirigiu dois filmes de terror: "Noites Brutais" (2022) e "A Hora do Mal" (2025), o primeiro filme que vejo dele.
Célio Silva do site G1 nos conta que " Alguns filmes de terror recentes como 'Longlegs', 'Fale Comigo' e até mesmo 'Pecadores' têm chamado a atenção pela boa mistura de gêneros, o que deixa o público intrigado e, ao mesmo tempo, fascinado com suas propostas. 'A Hora do Mal' (...) é mais um bom exemplo de que o gênero está numa fase bastante frutífera e não tão limitado a dar apenas sustos baratos. (...)
Ambientada na pequena cidade de Maybrook, a trama mostra o impacto causado entre os moradores quando 17 alunos de uma mesma sala de aula acordam numa noite ao mesmo tempo, saem de suas casas correndo e desaparecem misteriosamente. Inconformados, os pais passam a culpar Justine Gancy (Julia Garner), professora das crianças, pelo sumiço de seus filhos.
Em busca de respostas, ela começa a investigar o que está acontecendo na comunidade e o que estaria por trás do estranho desaparecimento. No caminho, ela busca pistas com Archer Graff (Josh Brolin), pai de um dos meninos desaparecidos, e Alex Lilly (Cary Christopher), a única criança que estudava na sala de Justine e que não sumiu no meio da noite, como seus colegas. Só que, durante sua procura pela verdade, ela vai descobrir coisas sinistras que estão muito além do que podia imaginar.
Uma das coisas que mais chama a atenção em 'A Hora do Mal' é a forma como o diretor e roteirista Zach Cregger, que ganhou bastante popularidade com o seu filme anterior, 'Noites Brutais' (2022), conduz seu mais recente projeto. Com uma estrutura que lembra bastante 'Rashomon' (1950), de Akira Kurosawa, e 'Magnólia' (1996), de Paul Thomas Anderson (algo que o próprio diretor confirmou em entrevistas), o longa conta a história do desaparecimento a partir de seis personagens. Assim, a trama começa pelo ponto de vista de Justine, passa para o de Archer, vai para o de Paul (Alden Ehrenreich), um policial que se envolve meio que sem querer nas investigações, e por aí vai. Contar mais pode estragar algumas das ótimas surpresas que o filme revela. (...)
Além da ótima direção e do roteiro exemplar de Cregger (que também co-assina a incrível trilha sonora junto com Hays Holladay e Ryan Holladay), 'A Hora do Mal' também se beneficia de um bom elenco, cujos maiores destaques vão para os protagonistas interpretados por Josh Brolin e Julia Garner. O ator Josh Brolin, mais conhecido do público jovem por suas participações em filmes da Marvel, como 'Vingadores: Ultimato' e 'Deadpool 2', transmite bem a revolta e o desespero pelo desaparecimento misterioso das crianças. Sem cair na caricatura, Brolin mostra a evolução de seu personagem, que sai de uma inércia nos primeiros minutos do filme para alguém disposto a tudo para descobrir o paradeiro de seu filho, mesmo que tenha que lidar com forças que não compreende totalmente. Já Garner tem um trabalho um pouco mais difícil porque sua Justine demonstra ter várias camadas à medida que a trama avança, tornando-a mais tridimensional. A atriz, que também entrou para o time da Marvel como a Surfista Prateada de 'Quarteto Fantástico: Primeiros Passos', convence em seus momentos de tristeza e dor por ser responsabilizada pelo sumiço de seus alunos e que, por isso, deixa alguns de seus demônios internos possuírem sua alma. Ao lado do personagem Brolin, numa parceria inusitada, ela também torna plausível sua busca pela verdade (e por sua inocência).
Outro destaque do elenco é o ator mirim Cary Christopher, que tem uma forte transição de uma criança alegre para melancólica após o misterioso evento em sua sala de aula. Ele tem diversas cenas em que precisa dar conta sozinho em momentos-chave da trama e se sai muito bem.
Vale ressaltar também a ótima participação da atriz veterana Amy Maddigan, que rouba todas as cenas em que aparece. Bennedict Wong como Marcus, chefe de Justine, marca presença por protagonizar um dos momentos mais perturbadores do filme".
O que disse a crítica 1: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "O segundo maior mérito de 'A Hora do Mal' é construir essa atmosfera sem se tornar pedante ou apelar para imagens chocantes feitas para emular a realidade, mas apostando no clima de tensão e incerteza para cumprir o objetivo. E digo o segundo maior mérito, porque não há como não celebrar o final deste filme como seu grande feito. Cregger encerra 'A Hora do Mal' com um espetáculo violento, uma sequência imprevisível que imediatamente se anuncia como essencial ao ser encenada, em que o fator surpresa se transforma numa satisfação visceral. É um tiro no alvo, na hora certa".
O que disse a crítica 2: Bruno Botelho dos Santos do site Adoro Cinema avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "'A Hora do Mal' é um exame de nossa sociedade e o que acontece quando perdemos o controle. As 'Armas' – tradução do título original 'Weapons' – são aqueles problemas enraizados e que nos ferem coletivamente, sendo que as maiores vítimas são justamente as crianças. Estamos todos marcados e reféns".
O que eu achei: O filme começa mostrando o que a sinopse já adianta: são 2h17 da madrugada e 17 crianças saem de suas casas como se fossem sonâmbulas, seus braços estão abertos como se estivessem brincando de voar, a trilha sonora que embala a cena é Beware of Darkness do George Harrison. Apesar de trágica, a cena é lindíssima. Essas crianças desaparecem e a cidade vai precisar se mobilizar pra descobrir o que houve. Todas essas crianças são da sala de aula da professora Gandy interpretada por Julia Garner, num papel difícil que transita entre a linha tênue de uma jovem mulher frágil e delicada, mas que também é alcoólatra e sai com homens comprometidos. O filme é puro entretenimento. Dividido em capítulos que mostram como cada morador da cidade viveu aquele dia, vamos construindo um quebra-cabeça que vai chegar ao final com uma explicação plausível e bem amarrada, dentro de seu universo fantasioso onde o sobrenatural existe. Apesar de algumas especulações e até críticas, eu pessoalmente achei o longa zero planfetário. Ele até chega a mostrar uma cena no qual o pai de uma dessas crianças vê no céu, em sonho, a imagem de uma arma - "Weapons", o título original do longa, significa "Armas" - nos lembrando os frequentes ataques que acontecem em escolas nos EUA, mas isso é apenas um devaneio paterno de alguém que dorme preocupado sobre o que teria ocorrido com seu filho. Então não espere nenhuma mensagem para a humanidade pois não é um filme com pretensões elevadas. Trata-se apenas e tão somente de um filme de terror bem executado, candidato a blockbuster, com um roteiro muito habilidoso, que vai te deixar 2hs intrigado ao mesmo tempo que tem passagens hilárias. Mais um bom filme de terror para se juntar à safra de 2025 e que poderá levar a atriz Amy Madigan a disputar o Oscar de Melhor Coadjuvante. A conferir.

2.1.26

“Malu” - Pedro Freire (Brasil, 2024)

Sinopse:
Malu (Yara de Novaes), uma mulher de meia idade com um passado glorioso, se vê presa em um caos existencial. A complexa relação com sua mãe conservadora (Juliana Carneiro da Cunha) e com sua filha adulta (Carol Duarte) torna a crise ainda mais aguda, em meio a momentos de carinho e alegria entre as três. Um retrato de uma mulher em busca da melhor versão de si mesma.
Comentário: Pedro Freire (1980) é um cineasta brasileiro, filho dos atores Malu Rocha e Herson Capri. Ele dirigiu 5 curtas-metragens além de 7 telenovelas e seriados. “Malu” (2024) é seu primeiro longa.
O site do IMS nos conta que “Malu é uma mulher com um passado glorioso na atuação, mas cuja carreira chegou ao ostracismo. Em um casarão em construção, afastado dos centros urbanos, vive com sua mãe conservadora e seu amigo Tibira. Eventualmente recebe visitas da filha. A complexa relação entre as três mulheres oscila entre momentos de carinho e ternura e rompantes de ressentimento e agressividade. No terraço de sua casa, Malu quer construir um teatro.
Livremente inspirado na vida da atriz paulista Malu Rocha, mãe do diretor Pedro Freire, Malu faz um agudo e nuançado retrato de relações familiares e de uma atriz afastada da profissão. (...)
Para seu primeiro longa-metragem, conta ao Jornal do Brasil: ‘Eu queria que meu primeiro longa fosse um filme inevitável para mim. (...) Então ali por 2017, aos 36 anos, eu decidi que tinha chegado a hora de tomar uma decisão: que primeiro longa seria esse? Então me conectei com as coisas mais importantes para mim, busquei o que seria tão profundo que só eu poderia fazer, e me encontrei com a pessoa mais importante e transformadora da minha vida, minha mãe, Malu Rocha. Digo com nome e sobrenome porque ela foi além de uma mãe, ela era mãe e ao mesmo tempo tinha uma persona, ‘a atriz Malu Rocha’, que ela levava para dentro de casa o tempo todo. E aquela personagem dentro da minha casa não era simples, porque ao mesmo tempo era difícil a distância – imagina que a sua mãe está sempre atuando – e também era fascinante, porque era uma personagem maravilhosa, inteligentíssima, humana, corajosa, culta. Enfim decidi que tinha que contar a história dela e entendi que a parte de sua história que mais me marcou foi o momento em que ela ficou mais isolada do mundo, dos amigos, morando com a mãe numa casa semiconstruída numa favela do Rio de Janeiro, sempre dizendo que queria voltar para São Paulo’”.
Mas quem foi Malu Rocha (1947-2013)?
1969 - Ela fez sua estreia nos palcos no Teatro Oficina, com a peça "Don Juan" de Molière, dirigida por Fernando Peixoto. O espetáculo seguia a linha diretiva de José Celso Martinez Corrêa.
Outros papéis no teatro:
1969 - "Hair", dirigido por Adhemar Guerra;
1971 – "Balbina de Iansã", dirigida por Plínio Marcos;
1972 - "Abelardo e Heloísa" dirigida por Flávio Rangel;
1979 - Ao lado do ator Herson Capri, à época seu companheiro, fundou a companhia de teatro Viagem Produções Artísticas, com a qual montou "Sob o Signo da Discotèque" (1979), de Plínio Marcos;
1982 – "Pegue e Não Pague" (1982) de Dario Fo;
1984 – " Um Casal Aberto Ma Non Troppo" de Dario Fo;
1988 – "Ladrão Que Rouba Ladrão";
1990 – "Boca Molhada de Paixão Calada" de Leilah Assunção;
2002 – "A Mancha Roxa" de Plínio Marcos, com direção de Roberto Lage, quando contracenou pela primeira vez com sua filha, Isadora Ferrite;
2010 – "O Interrogatório" dirigida por Eduardo Wotzik, com texto de Peter Weiss. O espetáculo narra o Julgamento de Frankfurt, o qual condenou nazistas pelos crimes de Auschwitz, e foi definido como ‘vigília cênica’ pelo grupo carioca Centro de Investigação Teatral, tendo sido apresentado em formatos de 24, 12 e 6 horas de duração.
No cinema:
1972 – "Geração em Fuga", dirigido por Mauricio Nabuco;
1977 – "O Crime do Zé Bigorna", dirigido por Anselmo Duarte;
1977 – "Mágoa de Boiadeiro";
1979 – "Bandido, Fúria do Sexo";
1984 – "Como Salvar Meu Casamento".
Na TV, Malu Rocha fez diversas novelas, entre as quais:
1975 – "Pecado Capital" (1975)
1977 – "Um Sol Maior";
1982 – "O Pátio das Donzelas";
1982 – "O Homem Proibido"
1983 – "Eu Prometo";
2007 – "Paraíso Tropical" (2007)
2008 – "Sete Pecados".
Malu faleceu em 7 de junho de 2013, aos 65 anos, por complicações em decorrência do mal de Príon - doença que atinge o cérebro. Seu velório foi realizado no Teatro Oficina.
O longa conta com as interpretações de Yara de Novaes, Carol Duarte, Juliana Carneiro da Cunha e Átila Bee. Depois de passar pelo Festival de Sundance, em janeiro deste ano, ‘Malu’ fez sua estreia brasileira no Festival do Rio, no qual recebeu os prêmios de Melhor Longa de Ficção, Roteiro, Atriz (para Novaes) e Atriz Coadjuvante (dividido entre Carneiro e Duarte).
O que disse a crítica 1: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Chamar Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha de coadjuvantes é um desrespeito às atuações, e também ao interesse central de ‘Malu’. Duarte e Carneiro da Cunha são extremos de uma mesma linha, na qual Yara de Novaes é o centro, mas o filme de Pedro Rocha funciona porque entende cada uma dessas mulheres como pessoas reais, e encontra em cada relacionamento o combustível para tratar das diferenças e semelhanças entre as três. O que se perde de uma geração para a outra? O que acontece quando a anterior se decepciona com a geração seguinte, e vice-versa? Na família de Malu, temos as respostas”.
O que disse a crítica 2: Laura Machado do site Cinematório também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “A ficção criada por Pedro Freire como forma de homenagear a história de sua mãe é pessoal e repleta de singularidades. Porém, é também extremamente fácil para o espectador se conectar com a obra e enxergar sua própria vivência naquelas personagens. ‘Malu’ é um extravasamento que escorre do seio familiar e explode diante do mundo. É um retrato ficcional daquilo que é real”.
O que eu achei: "Malu" (2024), primeiro longa de Pedro Freire, é um filme profundamente íntimo e ao mesmo tempo universal, que transforma a experiência pessoal do diretor em matéria cinematográfica de rara sensibilidade. Livremente inspirado na vida de sua mãe, a atriz paulista Malu Rocha, o filme escolhe não fazer uma biografia tradicional, mas sim um recorte emocional: o período em que ela é obrigada a se isolar do mundo por problemas financeiros e já às voltas com os primeiros sinais de uma doença neurodegenerativa que mais tarde seria diagnosticada como Mal de Príon. Freire concentra a narrativa nesse momento de suspensão da vida, quando o tempo parece desacelerar e a existência passa a ser atravessada por perdas, impasses e silêncios. A personagem de Malu, interpretada com impressionante entrega por Yara de Novaes, vive em uma casa inacabada, sem reboco, numa comunidade do Rio de Janeiro. Esse espaço físico funciona como extensão de seu estado emocional: um lugar em permanente construção, instável, precário, mas ainda pulsante de desejo criativo. Ali, ela tenta manter vivo o sonho de transformar sua casa em um centro cultural, insistindo na arte como forma de resistência ao esquecimento e à marginalização. O roteiro evita explicações fáceis ou didatismos sobre essa doença rara, fatal e ainda pouco compreendida, e opta por sugerir seus efeitos por meio de lapsos de memória e mudanças de comportamento. Malu é retratada como uma mulher intensa, impulsiva, por vezes difícil, mas absolutamente magnética. Uma figura que vive no limite entre a lucidez e o excesso, entre o afeto e a explosão. A relação com a mãe conservadora e religiosa, vivida por uma extraordinária Juliana Carneiro da Cunha, revela camadas profundas de afeto, ressentimento e dependência, enquanto a presença da filha Joana, interpretada por Carol Duarte, introduz um contraponto mais jovem, afetivo e observador. Não a toa, o diretor já afirmou que essa personagem é uma amálgama dele próprio com sua meia-irmã Isadora Ferrite (roteirista, assistente de direção e realizadora), o que confere ao filme um tom ainda mais confessional. Chama atenção o cuidado em não transformar a trajetória de Malu em melodrama. Mesmo diante de uma doença devastadora, o filme aposta na contenção, no humor ocasional, na vitalidade contraditória de uma mulher que se recusa a desaparecer em silêncio. Também é significativa a decisão de nunca citar explicitamente os nomes reais de seus ex-maridos, entre eles figuras conhecidas como Zanoni Ferrite e Herson Capri (ambos atores, diretores e produtores teatrais), reforçando o caráter ficcional e subjetivo da obra. Para quem, como eu, guarda apenas uma lembrança vaga de Malu Rocha, o filme funciona como um reencontro tardio, uma espécie de reparação poética. "Malu" não tenta reconstruir uma carreira, mas compreender uma presença. E faz isso com delicadeza, rigor e uma profunda empatia. Ao final o que fica é a impressão de ter assistido a um retrato raro de uma mulher complexa, artista até o fim, capturada com respeito e amor pelo olhar do próprio filho. Um filme tocante, maduro e humano. Grande estreia de Pedro Freire na direção de um longa! Super recomendo.