1.4.25

“Jornada nas Estrelas: O Filme” – Robert Wise (EUA,1979)

Sinopse:
Quando uma entidade espacial destrutiva é avistada aproximando-se da Terra, o Almirante James T. Kirk (William Shatner) regressa à nova e transformada nave U.S.S. Enterprise para interceptar, examinar e, principalmente, deter a ameaça. Depois de investigar, ele descobre tratar-se de uma nuvem alienígena que abriga uma inteligência artificial com intenções sinistras. Uma crise acontece quando essa nuvem alienígena manda uma sonda para dentro da Enterprise que ataca a tripulação, sequestrando a tenente-navegadora Ilia (Persis Khambatta).
Comentário: Robert Wise (1914-2005) foi um cineasta e produtor norte-americano. Seu primeiro longa foi "A Maldição do Sangue da Pantera" (1944). Outros filmes famosos dele são “O Túmulo Vazio” (1945), “Helena de Tróia” (1955) e “Amor, Sublime Amor” (1961). Assisti dele o clássico "A Noviça Rebelde" (1965) e a obra-prima "O Dia em Que a Terra Parou" (1951).
Desta vez vou conferir “Jornada nas Estrelas: O Filme” (1979), o primeiro longa-metragem feito após o término da série de TV “Jornada nas Estrelas” (Star Trek) que foi ao ar de 1966 a 1969.
O que se conta é que em meados dos anos 1970, o criador da série original Gene Roddenberry estava desenvolvendo para a CBS/Paramount uma segunda fase do seriado que ele chamaria de “Star Trek: Phase 2”. Porém o sucesso de bilheteria do filme “Guerra nas Estrelas” (1977) provou que as space operas poderiam ser mais lucrativas nos cinemas. Com isso, o projeto do seriado prosseguir acabou sendo substituído por investimentos no longa “Star Trek: The Motion Picture” (Jornada Nas Estrelas: O Filme).
O filme recebeu tratamento digno de uma produção cinematográfica de grande orçamento. Começa com uma introdução orquestral antes dos créditos iniciais nos moldes de épicos de Hollywood como “Ben-Hur, onde ouvimos “Ilia’s Theme”, uma das mais belas composições da carreira do falecido Jerry Goldsmith enquanto vemos uma tela preta.
Contando com uma equipe de primeira linha, encabeçada pelo famoso diretor Robert Wise e com o renomado escritor Isaac Asimov como consultor científico, o filme é uma releitura mais cerebral e ampliada de um dos episódios da série clássica chamado “Nômade”. Na trama, uma nuvem de energia de origem desconhecida está se aproximando da Terra. Uma nave Enterprise recém-construída permanece atracada e em montagem, enquanto seu novo capitão, o jovem Willard Decker (Stephen Collins), a prepara para interceptar a nuvem por ordem da Frota Estelar. Vendo isso como uma oportunidade de tomar a cadeira de capitão mais uma vez, o recém-promovido Almirante Kirk (William Shatner) chega a bordo, reduz Decker ao posto de comandante e se torna capitão novamente.
Apesar de terem se passado 10 anos do último episódio da série ter sido exibido, foi possível reunir boa parte do elenco original como William Shatner (Kirk), Leonard Nimoy (Spock) e DeForest Kelley (Dr. McCoy), Nichelle Nichols (Uhura), James Doohan (Scott), George Takei (Sulu), Walter Koenig (Checov) e outros icônicos tripulantes da Enterprise original. Somam-se a eles dois personagens novos: Stephen Collins como o capitão William Decker e Persis Khambatta como Ilia.
Seguindo a cartilha estética do gênero, o longa apresenta design apurado, elementos visuais respeitáveis, artefatos cenográficos de representação tecnológica visionários e lindos grafismos cósmicos, essenciais para situar o ambiente sideral de uma verdadeira viagem espacial. Da mesma forma como Roddenberry idealizou para seu programa de TV, o filme inaugural da saga nas telonas divide-se em dois níveis, sendo um narrativo e outro discursivo: enquanto o primeiro é envolto em aventura, o segundo tem apelo moral. Assim, ao mesmo tempo em que apresenta uma trama de suspense, na qual o perigo espreita não apenas a tripulação da USS Enterprise, mas também todo o planeta Terra, o filme também se desdobra em acepções filosóficas sobre criador e criatura.
O longa foi indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Jerry Goldsmith), Melhor Direção de Arte e Melhores Efeitos Visuais.
Em 2001, o diretor Robert Wise revisitou o filme para refinar a edição e aprimorar os efeitos visuais. Essa versão do diretor estendida foi lançada em DVD em 2001 com definição padrão, mas posteriormente foi restaurada em 4K. Esta edição do diretor ilumina e esclarece os efeitos, enriquece a mixagem de som, adiciona pequenas cenas expositivas e ambientais e enfatiza a grandeza visionária sem pressa que Wise estava almejando.
O que disse a crítica: Brian Eggert do site Deep Focus Review avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Escreveu: “’Jornada nas Estrelas: O Filme’ poderia ter fracassado e encerrado o breve fenômeno que foi a popularidade cult do programa. Em vez disso, os apoiadores da série correram para os cinemas para levar o filme ao triunfo de bilheteria e justificar a decisão da Paramount de fazer um segundo longa. Revisitando o filme hoje, algo não está certo: parece que o elenco e a equipe foram copiados e substituídos por robôs sem vida. Apenas os apologistas mais devotados abraçam esta primeira entrada, que carece de quase todos os atributos alegres carregados pelo programa de televisão, independentemente de seus méritos técnicos”.
Peter Bradshaw do site The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Com este primeiro filme, o conceito de ‘Jornada nas Estrelas’ evoluiu para algo mais ambicioso e kubrickiano, com muitas sequências andantes do espaço sideral e uma ‘abertura’ inteira antes dos créditos, apenas um espaço estrelado escuro para um tema orquestral abafado. Senti falta do snap narrativo cartunesco do programa de TV e da melodia original, mas as portas ainda fazem fshhhht-fshhhht, as cenas de diálogo entre Kirk (William Shatner), Spock (Leonard Nimoy) e McCoy (DeForest Kelley) ainda têm aquela ressonância maravilhosamente teatral e (...) o jeito dramático de falar de Shatner, muitas vezes fazendo uma corrida de uma respiração até uma grande ênfase ainda é uma alegria”.
O que eu achei: Quando o seriado de tv “Jornada nas Estrelas” foi exibido no Brasil eu tinha algo como 8 ou 9 anos de idade e me recordo apenas vagamente de ter visto um ou outro episódio sendo exibido na tv. Revi a série original completa recentemente e não foi nenhum amor à primeira vista, pelo contrário, achei os episódios um pouco cansativos e até meio repetitivos. Porém, este primeiro longa feito 10 anos após o seriado terminar, eu simplesmente adorei! Foi um tanto emocionante ver boa parte do elenco original reunido, todos obviamente mais velhos e com seus cabelos mais grisalhos. Há quem diga que, no longa, o trio principal perdeu aquele jeito característico de se relacionar. Aqueles debates de instinto impetuoso (Kirk) que encontravam lógica (Spock) e humanismo (McCoy) no seriado, aqui estão praticamente ausentes, como se suas personas estivessem engessadas. Mas temos que ver que 10 anos se passaram, Kirk está lá com seu ar autoritário e tático, porém fora de prática em naves estelares; Spock continua investigativo e solucionador de problemas, mas não vê seus amigos há muito tempo e McCoy estava tranquilo, aposentado e não tinha nenhum interesse em deixar sua vida tranquila e voltar a trabalhar como médico na nave. Então não dá para esperar que a dinâmica entre eles seja a mesma. Além de críticas à relação entre os três, há reclamações sobre os uniformes, a estética, a direção devagar do veterano Robert Wise, mas a meu ver nada disso tirou o brilho da trama, envolvendo descobrir que entidade é essa que está se aproximando da Terra para destruí-la, tocando em questões ligadas à inteligência artificial, como a relação homem x máquina que não deixa de ser, em outras palavras, a relação criador x criatura, daquele que procura seu Deus e seu propósito de existir. Com certeza vai agradar muito mais quem curte a pegada mais cerebral de “Jornada nas Estrelas” do que quem via o seriado apenas pelas aventuras em si. É ficção científica por excelência, com direito à efeitos visuais de primeira linha, surpreendentes para um filme rodado no final dos anos 1970. Para quem gosta de um desafio de lógica e tecnologia, vai amar, especialmente a reviravolta inteligente no final.

30.3.25

“O Banho do Diabo” – Severin Fiala & Veronika Franz (Áustria/Alemanha, 2024)

Sinopse:
Áustria, 1750. Em uma época em que as aldeias eram cercadas por florestas densas, uma mulher  profundamente religiosa (Anja Plaschg) casa-se com seu amado (David Scheid), mas sua mente e seu coração logo ficam pesados à medida que sua vida se torna uma longa lista de tarefas e expectativas. Dia após dia, ela fica cada vez mais presa em um caminho obscuro e solitário que a leva a desenvolver pensamentos malignos.
Comentário: Veronika Franz (1965) é uma cineasta austríaca que iniciou a carreira como jornalista de cinema. Desde 1997, trabalha com o diretor e produtor Ulrich Seidl como contribuidora artística e roteirista. Severin Fiala (1985) também é austríaco. Estudou roteiro e direção na Academia de Cinema de Viena. Juntos, a dupla dirigiu o documentário “Kern” (2012), sobre o ator e diretor Peter Kern, apresentado no Festival de San Sebastián; “Boa Noite, Mamãe!” (2014), que estreou no Festival de Veneza e foi premiado no BAFICI; e o filme em língua inglesa “O Chalé” (2019), exibido no Tallinn Black Nights. “O Banho do Diabo” (2024) é o primeiro filme que vejo deles.
O longa teve por base o livro "Suicide by Proxy in Early Modern Germany: Crime, Sin and Salvation" [Suicídio por Procuração na Alemanha Moderna: Crime, Pecado e Salvação] de autoria de Kathy Stuart, escrito em cima de registros judiciais históricos sobre um capítulo chocante e até então inexplorado da história europeia.
Jorge Pereira Rosa do C7nema nos conta que “Já com um certo culto em seu entorno, especialmente depois do sucesso de ‘Boa Noite, Mamãe’ (2014), que teve um remake norte-americano, a dupla de cineastas austríacos Veronika Franz e Severin Fiala apresentou no Festival de Berlim, na luta pelo Urso de Ouro, aquele que talvez seja o seu filme mais potente até agora: ‘O Banho do Diabo’ (2024).
Visitando o século XVIII no seu país, a dupla de cineastas, com o apoio na produção do conceituado Ulrich Seidl, conta-nos a história de Agnes (Anja Plaschg), uma jovem que se casa e passa o calvário de uma vida extremamente aborrecida e limitada à sua condição de mulher. Sem conseguir engravidar, progressivamente o seu estado mental vai se deteriorando, caindo na mais profunda depressão. É a partir desta história individual que Veronika Franz e Severin Fiala nos levam a um drama coletivo historicamente reportado com mais de 700 casos: o de mulheres que, impedidas de se suicidar porque nunca iam adquirir a ‘salvação’ por parte da igreja, cometeram crimes para conseguirem a própria morte e a ‘salvação’”.
Rosa entrevistou a dupla de realizadores e perguntou a eles sobre como se deu essa investigação histórica desses casos que eram frequentes no século XVIII. Fiala respondeu que eles não tiveram que investigar basicamente nada, pois todo o roteiro foi desenvolvido em cima do livro da norte-americana Kathy Stuart citado anteriormente. Ele contou que Stuart mantinha também um podcast onde falava sobre esses homicídios que algumas mulheres cometiam para serem mortas e não terem que se suicidar. O medo, segundo Stuart, é que o suicídio impediria a ‘salvação’ final que a Igreja concedia. Já os assassinos, esses poderiam ter o perdão antes de serem condenados à morte e seguir para o céu. A ideia era de que como suicida você teria que enfrentar o inferno.
Em sua pesquisa, Stuart identificou 700 casos. O pensamento dos diretores foi: - “como pode algo assim acontecer e nunca nos informarem disso nas aulas de história?” Eles então contataram a escritora e ela cedeu a eles todo o material da sua investigação, que incluía interrogatórios às mulheres.
Eles também disseram que “este é um filme sobre pessoas que não se encaixam no estabelecido e do que é esperado delas. A depressão é uma doença que não nasceu agora e este filme, embora reporte ao século XVIII, fala igualmente dos tempos modernos”.
Outra questão abordada por eles é que “‘naqueles tempos [século XVIII], a igreja era mesmo poderosa para aquelas pessoas. Atualmente, temos novos dogmas, mas naqueles tempos a igreja mexia na forma de como as pessoas viviam as suas vidas’. De qualquer forma, ‘olhando para a atualidade, ainda vemos atos terroristas inacreditáveis em nome da religião. E há estudos sobre essas pessoas, em particular os bombistas suicidas, que apontam a estados depressivos. Eles querem morrer sem ofender Deus e fazem-no através do assassinato, em nome de Deus. Assim escapam a uma sentença divina e encontram o paraíso’”.
Outro esclarecimento interessante foi dado a respeito do título do filme. Franz explica que “O Banho do Diabo” era uma expressão que no passado era usada para a melancolia. Segundo ela dizia-se que a pessoa estava “no banho com o Diabo”, refletindo bem o inferno interno que estas pessoas atravessam.
No filme é possível observar como era feito, no século XVIII, o tratamento para a melancolia: fazer uma abertura da pele na parte mais alta das costas, perto da nuca, para que esse veneno chamado melancolia pudesse sair do corpo. Outra crença de época que o filme mostra era a de que beber o sangue dos mortos curaria as pessoas da depressão.
O filme foi a escolha da Áustria para o Oscar 2025, mas não passou pela pré-seleção.
O que disse a crítica: Letícia Alassë do site Cine Pop avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Como experiência aterrorizante, ‘O Banho do Diabo’ está longe de ser ‘A Bruxa’, de Robert Eggers, o longa não tem suspense latente ou reviravoltas. Ele faz um ciclo para explicar a cena inicial através de Agnes e deixa em evidência o começo de um próximo na horripilante sequência final, tão desconfortante quanto ‘Midsommar – O Mal Não Espera a Noite’ (2019), de Ari Aster. (...) ‘O Banho do Diabo’ é a demarcação de uma época violenta às mulheres, onde a suas infelicidades - por conta da repressão - eram julgadas como histeria ou possessão demoníaca”.
Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “É evidente que os autores não defendem os maus-tratos a crianças, nem a flagelação feminina, muito pelo contrário. Em paralelo, a dupla ultrapassa a mera denúncia de uma exploração machista que perdura desde o início dos tempos. O longa-metragem estuda manifestações de distúrbios mentais antes de serem conhecidos por este nome (e, portanto, estudados ou compreendidos). Fazem da saída chocante, encontrada por Agnes e pela sociedade local, um exemplo metafórico das alternativas de independência oferecidas às mulheres em um sistema opressor.”
O que eu achei: A primeira coisa que é necessário saber antes de ver esse filme é que, apesar do título – “O Banho do Diabo”- este não é um filme de terror. Pode até ser um drama terrível, mas filme de terror não é. Na verdade, esse título foi escolhido muito em função do que ele representava no século XVIII, época em que o filme se passa. Quando uma pessoa estava melancólica ou depressiva dizia-se que ela estava “no banho com o Diabo”, expressão essa que caiu em desuso por conta da evolução que se deu na ciência com sua pesquisa e estudo das doenças mentais. A história que o longa conta gira em torno do que fazer quando a vida se torna insuportável. Os tratamentos da época envolviam fazer uma abertura na pele na parte mais alta das costas, perto da nuca, para que esse “veneno” pudesse sair do corpo ou esperar alguém morrer para tomar sangue fresco. Mas e se isso não funcionasse? Foi isso que a norte-americana Kathy Stuart quis descobrir. Baseando sua pesquisa em cima de registros judiciais históricos foi que ela escreveu o livro “Suicide by Proxy in Early Modern Germany: Crime, Sin and Salvation" (Suicídio por Procuração na Alemanha Moderna: Crime, Pecado e Salvação), no qual o filme se baseia, que conta a história de pessoas, especialmente mulheres, que não queriam se suicidar por conta do medo de não serem perdoadas por Deus e condenadas ao Inferno, e que então resolveram cometer algum crime para serem julgadas e condenadas à pena de morte, tendo direito à confissão e ao perdão de um representante da igreja antes de sua execução, garantindo assim um lugar no Céu. Apesar do tema pesado - a cena inicial vai fazer sua alma sair pela boca -, o filme é muito bem feito. Tem aquela fotografia de encher os olhos e atores muito competentes e bem dirigidos que resultam num filme hipnótico, desconfortável e perturbador que nos apresenta um capítulo desconhecido da história europeia e faz pensar em como as mulheres sofrem desde sempre, inseridas num sistema opressor com pouco respiro, o que leva fatalmente a uma rápida deterioração mental. O longa é austríaco, tem como protagonista a excelente atriz austríaca Anja Plaschg que sofreu de grave depressão quando perdeu seu pai e que assina a incrível trilha sonora que embala este drama de época, utilizando em suas músicas o pseudônimo Soup & Skin. O longa é trágico, arrepiante, mas vale cada minuto.

29.3.25

“Kinetta” – Yorgos Lanthimos (Grécia, 2005)

Sinopse:
Em um hotel grego na baixa temporada, uma camareira (Evangelia Randou), um policial obcecado por carros BMW (Costas Xikominos) e um balconista de uma loja de fotografias (Aris Servetalis) tentam se organizar para filmar e fotografar várias encenações de lutas entre um homem e uma mulher. Esse conflito tenta reproduzir uma série de assassinatos que está ocorrendo na região.
Comentário: Yorgos Lanthimos (1973) é um cineasta, produtor e roteirista grego. Já assisti dele 6 filmes: as obras-primas "O Lagosta" (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017), os ótimos “Dente Canino” (2009) e "A Favorita" (2018) e os bons “Alpes” (2011) e “Tipos de Gentileza” (2024).
Desta vez vou conferir “Kinetta” (2005), considerado o primeiro filme do diretor. O título se refere ao local onde a história se passa, uma cidade litorânea situada no município de Mégara na Ática Ocidental, Grécia. Na trama, estamos em um hotel em época de baixa temporada. Nesse local uma camareira, um policial apaixonado por carros BMW e um funcionário de uma loja de fotografias se organizam para tentar encenar e fotografar brigas de casais.
Apesar de “Kinetta” ser considerado o primeiro filme de Lanthimos, antes dessa estreia, quando o cineasta ainda não trabalhava como realizador, um outro longa chamado “Meu Melhor Amigo” (2001) foi feito em colaboração com Lakis Lazopoulos. Cláudio Alves da Revista Magazine HD nos conta que “Infelizmente os realizadores não se entenderam muito bem e o fruto do seu trabalho foi uma tempestade de compromissos transigentes e ressentidos. De fato, tanta foi a infelicidade de Lanthimos com o produto final que, recentemente, ele chegou mesmo a dizer que não considera ‘Meu Melhor Amigo’ como sua obra. Claramente, há uma vaga desconexão entre esta comédia de 2001 e os restantes títulos na filmografia do cineasta grego. Contando a história de dois amigos emaranhados numa relação à base de piadas de mau gosto e brincadeiras perigosas, o filme é uma balbúrdia surreal cheia de sexo, (...) um devaneio frenético que se desenrola em alta-velocidade”. Com isso, “Kinetta” acaba sendo considerado o primeiro de sua filmografia.
Segundo Alves, “Depois dos desafogos e desapontamentos de ‘O Meu Melhor Amigo’, Yorgos Lanthimos demoraria quatro anos até se enveredar novamente pelo mundo dos longas-metragens. Quando o fez, a proeza foi a solo e o resultado é um filme que pode não ser uma obra-prima, mas é certamente uma obra do autor. Aliás, ‘Kinetta’ representa a primeira vez que Lanthimos explorou alguns dos temas principais da sua carreira.
Juntamente com ‘Dente Canino’ (2009) e ‘Alpes’ (2011), ‘Kinetta’ forma uma espécie de trilogia da alienação na Grécia contemporânea. Além disso, os três filmes lidam com questões de performance e atuação anti naturalista. Isso evidencia-se tanto no trabalho dos atores e na construção formal da obra, como na própria narrativa. Nesse sentido, ‘Kinetta’ afigura-se como uma estranha experiência de metacinema, um jogo de fingimento que quase recorda o teatro Brechtiano e seu artifício autorreflexivo”.
O que disse a crítica: A redação do site Universo Cinema considera “Kinetta” (2005) o pior filme da carreira do diretor mas ainda assim assinalaram pontos positivos. Disseram: “O primeiro longa-metragem de Yorgos Lanthimos é também aquele que esconde o espírito mais inocente e empreendedor de um realizador ambicioso e visionário. É um drama contaminado por alguns toques de suspense, profundamente ligado ao cinema grego e europeu do final dos anos 90. Há investigações e assassinatos envolvidos e um trio bizarro de protagonistas que tenta chegar ao fundo do mistério de forma desajeitada, para dizer o mínimo, recriando as cenas dos crimes de forma teatral e superando as fronteiras entre a realidade e a ficção em suas respectivas vidas pessoais. É uma estreia menos deslumbrante que os subsequentes ‘Dente Canino’ e ‘Alpes’, mas já esconde em si sensibilidade e temas caros ao autor, que de fato nunca falharão no seu cinema e se tornarão cada vez mais fortes e decisivos”.
João Miguel Fernandes do site Comunidade, Cultura e Arte gostou, apesar de também considerar o longa seu trabalho mais fraco. Escreveu: “Em ‘Kinetta’ começam a surgir os traços de desconstrução da lógica que o realizador explorou até os dias de hoje. O tom dramático com toques cômicos torna a mensagem por vezes algo confusa, embora sempre interessante. ‘Kinetta’ é, possivelmente, o trabalho mais fraco do realizador, mas ilustra claramente uma visão à frente do seu tempo e uma grande curiosidade sobre a imprevisibilidade das relações humanas e da sociedade estereotipada e previsível em que vivemos. Como seria trocar todas as lógicas racionais? Nomes, ações, estilos de vida?”.
O que eu achei: Considerado o primeiro filme de Yorgos Lanthimos, o filme mostra três amigos - um policial obcecado por BMWs, uma camareira de um hotel local e um funcionário de uma loja de fotografias - unindo forças para levar a cabo um estranho hobby: eles encenam cenas de brigas ou até de homicídios, sempre envolvendo um homem e uma mulher e filmam ou fotografam essas cenas. Para o policial é fácil ter acesso aos registros dos crimes locais, então ele acaba sendo o principal roteirista dessas ações, nas quais ele reveza o papel masculino com o funcionário da loja de fotografias. Ocorre que, intercalando-se com esse ritual metódico e nefasto, Lanthimos vai nos mostrando os desvios de personalidade desses três protagonistas. A camareira parece ter prazer em se machucar nessas cenas, enquanto o funcionário da loja de fotografias cuida dela. Já o policial, além de ter uma obsessão por BMWs, ele também tem um certo fetiche em conhecer mulheres, levar essas mulheres para tirar uma foto 3x4 na loja de fotografias do amigo e depois, levá-las para sua casa para que elas executem ações nas quais ele determina o roteiro. Ao final, ele “ficha” as moças num arquivo pessoal. Não é a toa que alguns críticos de cinema afirmam que nesse longa já podemos observar os traços de desconstrução da lógica que o realizador explora até os dias de hoje. De fato, além de desprovido de lógica, o resultado é algo bem experimental, oras filmado com a câmera estável, oras instável, oras em foco, oras sem foco. Acompanhar chega a ser enfadonho de tão metafórico que é. Até quem está altamente treinado no cinema alternativo vai ter que fazer algum esforço para chegar até o final. É um daqueles títulos indicados apenas para os fãs de carteirinha do grego do que para quem quer ter um primeiro contato. Veja apenas se for seu caso. Caso contrário, fuja para as montanhas.

26.3.25

“Jornada nas Estrelas” - Gene Roddenberry (EUA, 1966-1969)

Sinopse:
Século XXIII. A nave estelar USS Enterprise conduzida pelo Capitão James T. Kirk (William Shatner), junto com o Primeiro Oficial Comandante Spock (Leonard Nimoy), o Oficial Médico Chefe Leonard McCoy (DeForest Kelley) e o restante da tripulação, segue em sua missão para explorar novos mundos, pesquisar novas formas de vida e novas civilizações, indo até onde nenhum homem jamais esteve.
Comentário: O site Wikipédia nos conta que apesar de seu título original ser “Star Trek”, a série adquiriu o retrônimo de “Star Trek: The Original Series” para se diferenciar de suas sequências e do universo ficcional criados posteriormente.
A trama se passa no século XXIII. Segue as aventuras da tripulação da nave estelar USS Enterprise, comandada pelo Capitão James T. Kirk, o Primeiro Oficial Spock e o Oficial Médico Leonard McCoy. O monólogo de introdução - narrado por William Shatner em cada episódio - estabelece o propósito da nave: “O espaço: a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise. Em sua missão de cinco anos, para explorar novos mundos, para pesquisar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve”.
Tudo começou em 1964 quando Gene Roddenberry, um grande fã de ficção científica, esboçou uma proposta de uma série de televisão de ficção científica que se passaria a bordo de uma nave estelar cuja tripulação se dedicaria a exploração de uma parte da Via Láctea. Roddenberry tinha grande experiência em escrever séries sobre o Velho Oeste que eram bastante populares nos anos 1950 e 1960, chamando seu novo programa de um "vagão de trem para as estrelas".
No total, a série teve 3 temporadas, todas lançadas entre 1966 e 1969, somando 79 episódios. Também foram feitos 2 episódios pilotos. Todos esses episódios podem ser assistidos de forma avulsa, pois as histórias se encerram em si mesmas.
Com relação aos subprodutos há inúmeros. 
Em termos de séries tivemos:
- “Star Trek: The Next Generation” (1986), com a ação se passando no século XXIV, cerca de 70 anos após o término das missões finais chefiadas pelo Capitão Kirk na série original.
- “Star Trek: Deep Space Nine” (1993), na qual o comandante Sisko é o líder da eclética Deep Space Nine, uma estação espacial da Federação com uma complexa e arriscada missão.
- “Star Trek: Voyager” (1995) na qual, pela primeira e única vez, uma mulher está no comando de uma frota espacial, a USS Voyager que tem por missão perseguir uma nave inimiga da Federação Unida de Planetas.
- “Star Trek: Enterprise” (2001), na qual o Capitão Archer e sua tripulação exploram o espaço e descobrem tecnologias avançadas enquanto se deparam com novas raças alienígenas.
- “Star Trek: Discovery” (2017), passa-se cerca de dez anos antes dos eventos da série clássica.
- “Star Trek: Short Treks” (2018), uma antologia de curtas.
- “Star Trek: Picard” (2020), se passa décadas depois das aventuras da Nova Geração.
- “Star Trek: Strange New Worlds” (2022), também se passa dez anos antes da original, se utilizando de um gancho da segunda temporada de Discovery, quando a USS Enterprise mais famosa foi introduzida.
Séries em formato de animação:
- “Star Trek: The Animated Series” (1973)
- “Star Trek: Lower Decks” (2020)
- “Star Trek: Prodigy” (2021)
Filmes também foram diversos. Os primeiros foram gerados a partir da série original. São eles:
- “Jornada nas Estrelas: O Filme” (1979)
- “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan” (1982)
- “Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock” (1984)
- “Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa” (1986)
- “Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira” (1989)
- “Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida” (1991)
Outros filmes foram gerados a partir da série “Star Trek: The Next Generation”. São eles:
- “Jornada nas Estrelas: Novas Gerações” (1994)
- “Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato” (1996)
- “Jornada nas Estrelas: Insurreição” (1998)
- “Jornada nas Estrelas: Nêmesis” (2002)
Em 2009, a Paramount resolveu lançar novos filmes para o cinema:
- “Star Trek” (2009)
- “Star Trek: Além da Escuridão” (2012)
- “Star Trek: Sem Fronteiras” (2016)
Ou seja, é muita coisa. Isso considerando que não tenha ficado nada de fora da minha pesquisa e sem considerar livros e outros produtos.
O que eu achei: O episódio piloto "The Cage" (A Jaula) já deu uma ideia do que viria pela frente: uma espécie de “Perdidos no Espaço” (1965-1968), que foi uma série contemporânea à essa, que também se passava no espaço, com a tripulação se envolvendo em situações surreais. Sendo que no “Perdidos” é uma família composta por pai, mãe, filhos e agregados, incluindo um robô, que viaja pelo espaço por estarem perdidos, enquanto nesta o elenco é composto só por adultos treinados que estão viajando com a missão de explorar novos mundos. Mesmo com uma audiência baixa na época em que foi originalmente exibida, “Star Trek” (1966-1969) se tornou, com o tempo, um fenômeno cultural e uma das franquias mais influentes de ficção científica. Dizem que isso se explica pelos fatores inovadores que ela trouxe para aquele período como: a temática progressista dos episódios que abordava questões sociais e políticas relevantes como racismo, Guerra Fria e direitos civis; o elenco diverso que contava com personagens de diferentes etnias e nacionalidades como Uhura (Nichelle Nichols), uma mulher negra em posição de destaque, Sulu (George Takei), um asiático-americano e Chekov (Walter Koenig), um russo em plena Guerra Fria trabalhando numa nave americana; as histórias inteligentes e filosóficas que exploravam dilemas morais e éticos, trazendo uma visão otimista do futuro da humanidade; os efeitos especiais que para os padrões da época eram impressionantes e o carisma do elenco como um todo, especialmente do trio de protagonistas: o astuto capitão James T. Kirk (William Shatner), o lógico Sr. Spock (Leonard Nimoy) que é metade humano e metade vulcano e o fiel e competente médico Dr. McCoy (DeForest Kelley). Claro que vendo à distância, muita coisa atualmente pode não agradar tanto como o ritmo lento dos episódios, hoje substituídos por séries com episódios muito mais ágeis; a estrutura repetitiva com roteiros previsíveis que pareciam seguir uma fórmula; as cenas de luta coreografadas de forma amadora, muito teatrais e pouco convincentes e os conflitos simplistas que reduziam o “mal” a alienígenas caricatos ou civilizações primitivas que precisam da ajuda da Federação, o que pode soar condescendente. Além disso, apesar da Tenente Uhura ser uma mulher negra que ocupa uma posição de destaque, o machismo e seus estereótipos estão ali, com as mulheres geralmente aparecendo em papéis secundários, com maquiagem e cabelos exageradamente arrumados, todas selecionadas pelo casting pelo quesito beleza, usando figurinos que focam mais no sensual do que no sentido de serem práticos para o trabalho e tendo atitudes no geral subservientes. Além disso Kirk, o comandante maior da Enterprise, é um galanteador de carteirinha que não pode ver uma mulher pela frente para tentar uma investida. Na atualidade correria o risco de ser acusado por assédio. Fora isso tem os efeitos especiais datados que, se eram inovadores para os anos 60, atualmente os cenários de papelão, os figurinos exagerados e as criaturas de borracha são extremamente simplistas podendo até parecer engraçados. De qualquer forma, a base de fãs que o seriado conseguiu é tão grande que até hoje ela se mantém viva, levando à criação de inúmeros subprodutos como filmes, séries derivadas e convenções. Curioso, no mínimo.

24.3.25

“Maus Hábitos” - Pedro Almodóvar (Espanha, 1983)

Sinopse:
Yolanda Bell (Cristina Sánchez Pascual) é uma cantora de boate que se vê em apuros após perder o noivo, morto por utilizar heroína adulterada. Perseguida pela polícia, ela se refugia em um convento. Porém, na companhia das religiosas que a acolhem ela encontra a mesma vida que conhecia no mundo exterior, incluindo uma madre superiora lésbica e viciada em heroína (Julieta Serrano).
Comentário: Pedro Almodóvar (1949) é um cineasta espanhol de quem já assisti 16 filmes, dentre eles os ótimos "A Lei do Desejo" (1986), “Kika” (1993), "A Flor do Meu Segredo" (1995), “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), “Volver” (2006), “Abraços Partidos" (2009), "A Pele que Habito" (2011), "Os Amantes Passageiros" (2013), "Julieta" (2016), o curta “A Voz Humana” (2020) e “Madres Paralelas” (2021). “Maus Hábitos” (1983) é o terceiro filme da carreira do cineasta.
Inácio Araujo, em sua resenha para a Folha SP, nos conta que essa primeira fase do Almodóvar é “mais anárquica, menos madura, mais rebelde, menos intelectual” do que as posteriores. Segundo ele, “é mais visível a influência de Buñuel, não apenas no despojamento da encenação, como no recurso à blasfêmia bem-humorada e ao escândalo como formas de combate ao conservadorismo católico.
Em ‘Maus Hábitos’, estamos no convento das freiras ‘redentoras’ humilhadas, especialistas (...) em reformar mulheres desviadas de todas as espécies. A fascinação pelo mal que as leva a buscar a redenção das mulheres perdidas leva o convento a cultivar, com o tempo, uma espécie muito particular de teologia.
Ali, a experiência de Cristo é vivenciada um pouco à maneira do poeta inglês William Blake. Cristo, sustenta a superiora das religiosas, morreu na cruz para nos libertar do pecado e da culpa. Se foi assim, não existe mais culpa e pecado, o que as leva a um modo de vida em que, com uma fé sincera, convivem drogas, lesbianismo, baladas de amor, livros mundanos.
Quando a intriga começa, o convento encontra-se às moscas, já que, aparentemente, nos dias que correm (o filme é de 1983), há pouca gente buscando a redenção. No mais, a sustentação financeira, que lhes era dada por um homem rico e piedoso, é subitamente retirada, após a sua morte.
A salvação das religiosas surge na pessoa da cantora Yolanda Bell, que ali se refugia após a morte de seu namorado (por uso de heroína misturada a estricnina). A superiora apaixona-se pela cantora no ato.
Em certo sentido, Almodóvar ainda acerta as contas com o período franquista [que ocorreu de 1939 a 1975] e sua carolice, num momento de passagem da Espanha à democracia. Mas, mais do que isso, procura dar conta da sensualidade que existe na experiência católica. Isso pode ser verificado não apenas na cenografia (o quarto que será ocupado pela cantora, em particular), como na modernização da experiência poética e alucinatória de certos místicos do passado (São João da Cruz, Santa Teresa D'Ávila). Agora, a experiência da alucinação é fornecida pelo LSD em pessoa.
Embora a tensão dramática esteja presente - assim como uma evidente simpatia por suas heréticas heroínas -, o que dá o tom é o deboche. (...) O mundo, para Almodóvar, pode ser um inferno ou um paraíso, tanto faz. O certo é que é artificial”.
Uma curiosidade: em 1992, o dramaturgo espanhol Fermín Cabal realizou uma versão teatral do filme. Assim como no filme, a versão teatral mostra um convento onde, mais do que rezas e recolhimento, há sexo, drogas, amor, filhos naturais, mistérios e assassinatos.
O que disse a crítica: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com o equivalente a 2,75 estrelas, ou seja, algo entre o regular e o bom. Ele disse que apesar do filme possuir algumas qualidades, “a história não é consistente e possui pontos não bem amarrados. Por exemplo, o tigre parece mais um elemento surreal do que uma inserção simbólica importante para a trama. Além disso, entre outros senões, não entendemos o motivo de Yolanda trair a Madre e entregar a carta objeto do suborno para a Condessa. Em outras palavras, Almodóvar ainda estava em processo de lapidação”.
Já Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “’Maus Hábitos’ é até hoje uma das principais realizações de Pedro Almodóvar, exemplar de sua mirada debochada, porém contundente. O escracho não se enverga até tornar-se banal, pois, antes de ser o objetivo, é o caminho pelo qual o artista transita para refletir acerca do mundo que o circunda. (...) Embalado por boleros e outras canções sentimentais, valendo-se do kitsch, daquilo que, segundo o convencional, denota mau gosto, Pedro Almodóvar faz uma crítica agridoce aos procedimentos da Igreja Católica, convidando pecadores de várias naturezas a conviverem num espaço onde assumir falhas e desejos é algo bem-vindo. Assim, caem as barreiras que separariam o mundano do pretensamente santificado”.
O que eu achei: Quanto mais filmes eu vejo do Almodóvar, mais eu gosto do diretor. Dos 16 filmes que já vi dele, 12 eu avaliei como muito bons e 4 como bons. E hoje vai mais um para a lista dos que gostei muito: “Maus Hábitos” de 1983, o terceiro filme de sua carreira. Imagine um convento - cuja proposta é abrigar e reformar mulheres desviadas de todas as espécies - no qual a madre superiora é uma homossexual viciada em heroína e, dentre o grupo de freiras, duas usam LSD e uma escreve sob pseudônimo romances mundanos. Não dá pra imaginar, né? Mas Almodóvar imagina. A cantora de boate Yolanda Bell, interpretada por Cristina Sánchez Pascual, após ver seu namorado morrer na sua frente por ter utilizado heroína adulterada, se vê em apuros e acaba se refugiando lá, sem imaginar o ambiente “familiar” com o qual ela vai se deparar. O resultado não poderia ser mais hilário. O sagrado, que por princípio deveria ser reverenciado, se imiscui na vivência diária tida como pecaminosa pelos ditames oficiais da Igreja Católica. Isso poucos anos após o fim do período franquista (1939-1975) e sua carolice. Sensacional.

23.3.25

“No Lugar da Outra” - Maite Alberdi (Chile, 2024)

Sinopse:
Chile, 1955. A escritora María Carolina Geel (Francisca Lewin) assassina seu amante e o caso cativa Mercedes (Elisa Zulueta), a tímida secretária do Ministério Público encarregada de defender o acusado. Após visitar o apartamento da escritora, Mercedes começa a questionar sua vida, identidade e o papel da mulher na sociedade ao encontrar naquele lar um oásis de liberdade.
Comentário: Maite Alberdi (1983) é uma cineasta chilena que dirigiu filmes como “El Salvavidas” (2011), “La Once” (2014), “The Grown-Ups” (2016), “Agente Duplo” (2020) - indicado ao Oscar de Melhor Documentário e “A Memória Infinita” (2023) - também indicado ao Oscar de Melhor Documentário e premiado no Goya e em Sundance. “No Lugar da Outra” (2024) é o primeiro filme que vejo dela.
Carlos Alberto Mattos do blog Carmattos nos conta que “Num fatídico dia de 1955, a escritora chilena María Carolina Geel (pseudônimo de Georgina Silva Giménez, 1913-1996) levantou-se diante do [namorado] numa mesa do hotel Crillón, em Santiago, e o matou com cinco tiros à queima-roupa. O crime e o julgamento ocuparam os tabloides por meses, repetindo o que já acontecera antes com outra escritora chilena, María Luisa Bombal”.
Esta história de fato ocorreu, mas o filme – que é uma adaptação do romance ‘Las Homicidas’, de Alia Trabucco Zerán – vai se focar numa outra pessoa: a tímida secretária Mercedes, uma funcionária do tribunal designada pela equipe judicial para investigar o cotidiano da escritora assassina. Ao ser confrontada com a vida da ré, Mercedes começa a questionar a realidade opressiva à sua volta, seu casamento e sua identidade.
Segundo Helena Oliveira da Revista Bula, a diretora “se aventura em uma narrativa que mistura romance policial e biografia, trazendo à tona a vida cheia de nuances da escritora María Carolina Geel. (...) O foco nas histórias de mulheres não é por acaso: sem cair em discursos panfletários, Alberdi e suas co-roteiristas, Inés Bortagaray e Paloma Salas, tecem uma crítica sutil à sociedade patriarcal, onde os homens, historicamente, têm a licença para cometer atos extremos em nome da honra, enquanto as mulheres são julgadas quando reagem de forma semelhante. É uma análise que expõe as contradições persistentes. (...)
Alberdi utiliza o tom dramático e envolvente de ‘No Lugar da Outra’ para criar um clima de tango andino distorcido, com toques de surrealismo. Ela ainda incorpora passagens que sugerem a interferência da poetisa Gabriela Mistral, laureada com o Nobel em 1945, junto ao presidente Carlos Ibáñez del Campo. A história ganha ares ainda mais intrigantes quando se lembra que, em 1941, a poetisa María Luisa Bombal também recorreu à violência contra um parceiro, no mesmo Hotel Crillón, mas com um desfecho mais favorável ao homem.
Na segunda parte, Alberdi deixa de lado o drama do triângulo amoroso para se concentrar em Mercedes, a secretária do juiz que acompanha o caso. Nessa virada, ‘No Lugar da Outra’ transforma-se em um estudo profundo de personagens, revelando a ironia contida em seu título. Antes submissa à monotonia de seu cotidiano, Mercedes aproveita seu acesso ao processo judicial para se aproximar da vida de Geel, passando a visitar o apartamento da escritora enquanto diz ao marido que está no tribunal. (...)
A interação entre as duas personagens [Mercedes e María Carolina Geel] cria um embate moral que enriquece a narrativa, fazendo emergir reflexões filosóficas inesperadas. Com isso, Alberdi oferece um filme repleto de sutileza e beleza, características que têm sido escassas em outras produções sul-americanas”.
O filme foi a indicação do Chile para uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, mas acabou não selecionado para competir.
O que disse a crítica: Cardoso Júnior do site Academia de Cinema avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Escreveu: “Tecnicamente bem feito com primorosa reconstituição de época, cenografia minuciosa e figurinos impecáveis assim como as atuações, ‘No Lugar da Outra’ nunca atinge seu potencial dramático por conta do seu roteiro imobilizado por uma ótica errônea. Ainda que o parco arco dramático da protagonista tenha seus bons momentos, são nas infinitas possibilidades de aproveitamento mais profundo da história verídica e nas motivações para o crime que, ao final, percebemos que é o que nos manteve muito mais interessados”.
Ivanildo Pereira do site Cineset avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “’No Lugar da Outra’ não é um filme ruim, e é perfeitamente satisfatório. No entanto, também falta algo para torná-lo de fato memorável. Parece que a diretora acabou resolvendo contar a história errada: talvez a narrativa da escritora bem sucedida que matou seu namorado, pelas razões apresentadas por ela, e toda a repercussão posterior do crime, fosse a mais interessante. A montagem de várias cenas ao final, com recortes de jornal da época, acaba apontando para isso. E ficamos com mais curiosidade para saber sobre essa figura do que sobre a dócil personagem que acompanhamos até então”.
O que eu achei: Quando você começa a assistir ao filme tudo o que você espera é saber porque a escritora chilena María Carolina Geel matou seu namorado à queima-roupa. Mas isso não será contado, até porque até hoje essa história real, ocorrida em 1955 no Chile, não ficou muito bem esclarecida, indicando que talvez tenha sido um crime passional motivado pela infidelidade do parceiro. No filme Geel está sendo julgada, testemunhas são interrogadas diariamente e a secretária do juiz do caso, Mercedes, acompanha toda essa história com um interesse além do habitual. Bendita a hora que ela é designada para ir até o apartamento de Geel investigar como era sua vida, pois é lá que Mercedes vai perceber como a vida de Geel é diferente da dela. Ao longo da trama observamos os opostos dessas duas mulheres. Mercedes é casada, Geel é uma solteira convicta. Mercedes mora numa casa minúscula com seu marido e filhos que a desprezam sacrificando-se em sua dupla jornada de secretária e dona de casa, Geel mora sozinha num apartamento amplo, organizado e silencioso onde ela passa os dias escrevendo romances. Mercedes tropeça todos os dias numa enceradeira quebrada cujo marido adia incessantemente o conserto, enquanto Geel, ao ganhar uma enceradeira do namorado, se dirige ao parque mais próximo e joga a enceradeira de uma ponte. Mercedes usa a máquina de escrever para datilografar processos, enquanto Geel usa a máquina de escrever para inventar histórias e publicar livros. Se por um lado o filme frustra expectativas em não esclarecer praticamente nada do crime, por outro ele traz a oportunidade de viajarmos nos questionamentos existenciais de Mercedes, se debruçando no papel da mulher na sociedade da época. O resultado não é a última bolacha do pacote, há problemas com a artificialidade dos cenários e com uma ou outra interpretação, mas tem seus méritos ao transmitir uma mensagem de empoderamento feminino. Dá pra encarar sem arrependimentos.

22.3.25

“Robô Selvagem” – Chris Sanders (EUA/Japão, 2024)

Sinopse:
 
A robô Rozzum da unidade 7134 naufraga em uma ilha desabitada e deve se adaptar ao ambiente hostil, estabelecendo gradualmente relações com os animais da ilha e se tornando mãe adotiva de um ganso órfão.
Comentário: Trata-se da adaptação feita pela DreamWorks Animation do primeiro livro de uma trilogia escrita por Peter Brown chamado “The Wild Robot” (Robô Selvagem). Esse livro ganhou as sequências: "The Wild Robot Escapes" (O Robô Selvagem Escapa) e "The Wild Robot Protects" (O Robô Selvagem Protege).
Juliana Almirante colaboradora do Guia de Compras UOL que leu esse primeiro livro nos diz: “Não é de hoje que robôs da ficção nos emocionam. Wall-E (do filme homônimo), C-3PO (‘Star Wars’), Andrew Martin (‘O Homem Bicentenário’) são alguns dos nomes de androides que estrelaram filmes icônicos. E uma robô (sim, no feminino) com origem no universo literário acaba de chegar às telonas: Rozzum. (...)
Depois de ler o primeiro livro da trilogia e assistir à adaptação no cinema, posso dizer que encontrei uma história tocante não só para crianças - o livro tem indicação acima de oito anos - mas para o público de todas as idades. O título surpreende ao unir temas que parecem opostos entre si: a tecnologia e a natureza. Mas como será que esses assuntos se misturam?
Roz [apelido da robô] é a única robô que não foi destruída com o naufrágio de um navio cargueiro. Movida a energia solar, ela vai parar em uma ilha e inicia, junto com o leitor, uma exploração na natureza. Apesar da semelhança física com humanos (com cabeça, braços e pernas), ela não foi programada para sentir emoções. Mas, com o decorrer da história, parece não ter como fugir delas. Ela sente curiosidade, medo e até amor.
Por outro lado, Roz percebe que, enquanto os animais da ilha são especialistas em sobrevivência, ela não tinha conhecimento sobre como viver ali. E é na observação do comportamento dos bichos que a robô vai aprendendo a sobreviver no ambiente selvagem. Com o bicho-pau, por exemplo, ela entende a importância de se camuflar para sobreviver. Então, se mistura em meio à floresta para entender melhor os animais e aprender a língua deles.
Quando tenta se aproximar dos bichos, no entanto, eles têm medo daquela máquina desconhecida e receio de que ela os devore. Até que Roz se envolve em um acidente que deixa um filhote de ganso órfão. A partir daí, ela começa a cuidar do animalzinho e inicia a sua jornada de mãe-robô, despertando também a solidariedade dos bichos da ilha.
Tenho algo em comum com o autor Peter Brown: sou fascinada por robôs e pela natureza. E a história que ele conta no livro ‘Robô Selvagem’ nos leva a reflexões importantes sobre essa forma artificial de inteligência. Um robô pode ser considerado uma forma de ‘vida’, mesmo que artificial? Como conviver com essas criaturas que podem se parecer tanto com nós, humanos?
Não tenho respostas exatas para essas perguntas. Mas posso dizer que Roz é uma robô capaz de derreter até os corações mais gelados. Desde Wall-E, não tinha me emocionado tanto com um robô da ficção. Rozz nos faz sentir alegria, encantamento e compaixão. Difícil mesmo é não ter empatia por essa máquina inteligente.
Além de emocionar, a história criada por Peter Brown também nos faz pensar sobre a relação do homem com a natureza. Como podemos preservá-la para garantir a nossa própria sobrevivência? Diante da preocupação com os desastres climáticos, é cada vez mais pertinente desenvolver esse tipo de reflexão.
Depois, quando Roz vira mãe de um ganso, o livro nos leva a pensar sobre o que significa a maternidade. Ainda que não seja biológica, ela usa os conhecimentos do seu cérebro computadorizado para cuidar do filhote e aprende outras lições com a experiência prática. Depois, quando conta com a ajuda da comunidade de bichos, tudo fica mais fácil”.
A animação ganhou prêmios importantes e concorreu ao Oscar 2025, perdendo para “Flow” (2024).
O que disse a crítica: Diego Souza Carlos do site Adoro Cinema avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “’Robô Selvagem’ oferece uma das melhores experiências cinematográficas da temporada. Com seu estilo gráfico inovador, que atualiza a linguagem com imagens grandiosas, o filme consegue equilibrar contrastes a partir do que é incomum e inesperado, seja pelo humor ácido ou por ver uma robô se tornar uma mãe, uma amiga e uma protetora. Nos minutos finais, em meio a potenciais lágrimas, a maior parte do público vai acreditar não apenas que a protagonista pode ter sentimentos reais, como muitos acreditarão que se trata de uma forma genuína de amor”.
Roberto Honorato do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “Há um melodrama muito bem construído através dos vários dilemas que o longa está constantemente nos apresentando, e mesmo que isoladamente alguns elementos sejam batidos, eles estão em completa harmonia quando entram em choque com personagens tão bem caracterizadas e uma direção confiante que mostra como premissas são irrelevantes se o desenvolvimento for feito com coração; isso é um tremendo acerto considerando a importância desse contraste entre natureza e máquina que já foi feito várias vezes, mas raramente é tão impressionante quando aqui”.
O que eu achei: Gostei de quase tudo na animação. A história, além do visual incrível que aparece em tudo o que a DreamWorks faz, é inteligente, sincera e comovente, possuindo uma profundidade emocional capaz de cativar o público com uma narrativa sensível e complexa. O único porém, a meu ver, é a trilha sonora que não se alinha com o tom da animação. Ao invés de realçar a emoção e a atmosfera da trama, a música se sobressai, criando uma sensação desconexa em relação às cenas. Em momentos de contemplação e imersão na natureza, ela soa excessivamente grandiosa, fora de sintonia com a delicadeza da narrativa. Uma pena, pois esse descompasso acaba prejudicando a imersão do público, tornando a experiência menos envolvente e impactante do que poderia ser. De qualquer forma é uma boa animação que pode ser vista por pessoas de todas as idades, das crianças aos mais velhos, tratando de temas como a relação máquina x natureza e a maternidade. Vale ver.

17.3.25

“O Céu de Suely” - Karim Aïnouz (Brasil/Alemanha/Portugal/França, 2006)

Sinopse:
Hermila (Hermila Guedes) é uma jovem de 21 anos que está de volta à sua cidade-natal, a pequena Iguatu, localizada no interior do Ceará. Ela volta juntamente com seu filho Mateuzinho (Matheus Vieira e Gerkson Carlos) e aguarda a chegada de Mateus, pai da criança, que ficou em São Paulo para finalizar alguns assuntos. Porém o tempo passa e Mateus simplesmente não aparece. Querendo deixar o lugar de qualquer forma, Hermila tem uma ideia inusitada: rifar seu próprio corpo e conseguir dinheiro suficiente para comprar passagens de ônibus para longe e iniciar uma nova vida.
Comentário: Karim Aïnouz (1966) é um diretor de cinema, roteirista e artista visual brasileiro, nascido em Fortaleza, Ceará. Assisti dele os bons "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009) e “Motel Destino” (2024) e o ótimo "A Vida Invisível" (2019).
Desta vez vou conferir “O Céu de Suely” (2006), fruto de uma coprodução entre Brasil, Alemanha, França e Portugal, que retoma o argumento do curta ‘Rifa-me’ (2000), em que uma mulher se coloca como objeto de uma rifa.
Com fotografia de Walter Carvalho, o filme trata de questões constantes na obra de Aïnouz: o não-pertencimento, a tentação do deslocamento e a subversão da própria identidade.
“O Céu de Suely” estreou na Mostra Orizzonti do Festival de Veneza, em 2006 e foi premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) como Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz (Hermila Guedes). O mesmo ocorreu no Festival do Rio. No Festival Internacional de Salônica, na Grécia, o longa conquistou o Prêmio da Fipresci de Melhor Filme. Nascida em Cabrobó, Pernambuco, Hermila Guedes também leva os troféus de Melhor Atriz no Cine Goiânia e no Festival de Havana, entre outros.
O que disse a crítica: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Escrito por Aïnouz, Felipe Bragança e Maurício Zacharias, ‘O Céu de Suely’ não deixa muitas promessas de felicidade para sua protagonista – e nem poderia. Em certo instante, Hermila diz que o dinheiro a ajudará a se manter enquanto ‘descobre o que fazer’. Infelizmente, o fato é que não há grandes probabilidades de que ela realmente descubra seu lugar no mundo: limitada por uma Sociedade que não lhe abre muitas alternativas, Hermila pode buscar seu céu e sua liberdade eternamente; para onde quer que vá, é mais do que provável que seu futuro seja tão opressor e insatisfatório quanto seu passado”.
Rodrigo Pereira do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Tornando a tênue linha entre realidade e ficção mais fina do que o comum, ‘O Céu de Suely’ é uma obra crua e retrata a realidade de uma considerável parcela da população brasileira com grande maestria. Com uma talentosa equipe em frente e atrás das câmeras, Aïnouz criou uma obra que deveria ter muito mais espaço midiático devido a sua grande qualidade, entretanto enriquece como poucas a já rica cultura brasileira, seja cinematográfica ou num aspecto geral”.
O que eu achei: Interessante o quanto de semelhança há entre o novo filme de Karim Aïnouz - “Motel Destino” (2024) – e “O Céu de Suely” de 2006. Em primeiro lugar, ambos utilizam o nordeste brasileiro como cenário, com as histórias se passando em pequenas cidades do Ceará, com uma ambientação que mescla aridez e uma certa melancolia, reforçando a atmosfera de isolamento e desejo de fuga de seus protagonistas que tentam escapar de suas realidades sufocantes em busca de uma vida melhor. Nos dois filmes temos personagens femininas similares: “O Céu de Suely” tem Hermila como protagonista, enquanto “Motel Destino” foca em Dayana, ambas mulheres jovens que enfrentam dificuldades econômicas e sociais e tomam decisões ousadas para tentar mudar suas vidas. O erotismo e o uso do corpo como ferramenta de autonomia também aparecem nos dois filmes mostrando relações afetivas e sexuais marcadas por grande intensidade emocional, alinhavadas pelo desejo, pela sensação de urgência e pela fragilidade dos personagens. Na parte estética, “Motel Destino” é mais radical, mas há semelhanças, seja no uso de cores quentes, seja na pegada sensorial que a luz imprime, enfatizando texturas e temperaturas que tornam a jornada dos personagens quase palpável para quem assiste. Parece que encontrei nessas duas obras um denominador comum para o trabalho de Aïnouz, um cearense por nascimento que aparentemente tem nesse perfil de filme algum tipo de “lugar de fala”, tratando de algo que lhe deve ser próximo. Eu, que já havia gostado muito de "A Vida Invisível" (2019), encontrei em “O Céu de Suely” outro exemplar de excelência na filmografia do diretor que se mostra um perito na representação de mulheres sofridas vivendo relações intensamente humanas, permeadas por desajustes e dificuldades. Terminei de ver pensando no quanto o cinema brasileiro tem de talentos para mostrar ao mundo. Atenção à atriz Hermila Guedes que nos convence da veracidade da trama, à trilha sonora com a versão brasileira, gravada por Diana na época da Jovem Guarda, da canção “Everything I Own” e da rápida aparição da atriz paraibana Marcélia Cartaxo, aquela que ganhou notoriedade no filme “A Hora da Estrela”. Gostei demais.

16.3.25

“Motel Destino” - Karim Aïnouz (Brasil/França/Alemanha/Reino Unido, 2024)

Sinopse:
Heraldo (Iago Xavier) se refugia no Motel Destino para fugir da perseguição da chefona do crime para quem trabalha, após um trabalho que deu errado e custou a vida de seu irmão. O motel é um lugar perfeito para servir de esconderijo e é onde ele conhece Dayana (Nataly Rocha) e Elias (Fábio Assunção), casal que administra o local.
Comentário: Karim Aïnouz (1966) é um cineasta brasileiro, filho de mãe brasileira e pai argelino. Após estudar arquitetura, ele foi estudar cinema nos EUA. Seu primeiro longa foi “Madame Satã” (2002). Até o momento assisti três filmes do diretor: os bons "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009) e “O Jogo da Rainha” (2023) e o excelente "A Vida Invisível" (2019). Desta vez vou conferir “Motel Destino” (2024).
José Geraldo Couto do IMS nos conta que “Desde as primeiras imagens duas coisas chamam a atenção do espectador de ‘Motel Destino’, de Karim Aïnouz: os corpos e as cores. Para além de sua trama, e das profundezas psicológicas e morais que o filme chega a sondar, é nesses dois elementos – e nas relações entre eles – que reside sua força.
O entrecho, reduzido a suas linhas básicas, é o mesmo de tantos clássicos da literatura e do cinema noir, em especial de ‘O Destino Bate à Sua Porta’, de James M. Cain, que teve nada menos que seis versões cinematográficas: um tenso triângulo amoroso entre uma mulher, seu amante mais jovem e seu marido mais velho, levando inexoravelmente ao crime.
No caso aqui, o terceiro vértice, aquele que vem trazer o desequilíbrio e o suspense, é Heraldo (Iago Xavier), rapaz de vinte anos que, em fuga de uma gangue de traficantes, refugia-se no motel do título, de propriedade do casal Dayana (Nataly Rocha) e Elias (Fábio Assunção).
A primeira novidade em relação ao esquema noir citado é que tudo se passa num trecho de litoral paradisíaco do Ceará, com suas praias, dunas e falésias. A segunda novidade é que boa parte da ação fica confinada num motel de beira de estrada, do qual o filme extrai seu título. Mas a grande originalidade dessa aclimatação tropical de um mote dramático clássico e universal está na forma: corpos e cores, como já foi dito.
A opção pela filmagem em película de 16 milímetros, com uma fotografia excepcional de Hélène Louvart, e a forte predominância de cores quentes na direção de arte conferem aos seres e ambientes uma pulsação quase palpável, realçada, nas cenas internas, pela iluminação feérica do motel. É um verdadeiro assalto ao sentido da visão, a ponto de um letreiro inicial alertar para o perigo de perturbação aos organismos mais sensíveis.
A par disso, há na relação entre os personagens a ênfase no físico, no carnal, sublinhada pela sonoplastia de suspiros e gemidos no motel e pela presença frequente e significativa de animais em cena: jumento, cobra, gato, bode, cavalo, pássaro, invadindo por vezes o espaço dos humanos. A certa altura, observando uma cópula entre jumentos no terreno atrás do motel, Elias comenta com Heraldo: ‘Que bom seria se a vida fosse só isso’. E no momento de clímax dramático, na ‘hora da verdade’, os personagens estão nus, à noite, no meio do nada, reduzidos a sua dimensão animal.
Claro que existe uma atenção à circunstância social em que se dá esse jogo entre pulsões de vida e de morte. O poder do dinheiro e das armas limita a movimentação dos corpos. Heraldo, rapaz negro e pobre, sabe disso como ninguém. Quando interrogado por um policial, ele resume: ‘Eu nasci. Desde então eu luto a cada dia pra não morrer’.
Mas o que impera é a lei do desejo. Nesse aspecto, a originalidade de ‘Motel Destino’ em face do triângulo clássico do noir está, a meu ver, na introdução de uma certa ambiguidade sexual, e não apenas na insinuação de uma atração do marido pelo amante de sua esposa. Desde a primeira cena, em que dois rapazes seminus brincam de lutar entre dunas desertas (...), todos os embates corpo a corpo do filme se dão no limiar entre o jogo – sobretudo sexual – e a agressão”.
O filme estreou na mostra competitiva do Festival de Cannes. Em entrevista ao portal DW, por ocasião da estreia, o diretor comentou: “O motel é um lugar onde tudo é permitido. É uma arena dramatúrgica muito brasileira. Sim, é algo que só tem no Brasil. Acho que só tem uns na Colômbia, em Tóquio. Mas o motel como instituição, com essa arquitetura toda especial, isso é uma coisa nossa. Uma verdadeira invenção brasileira. E que me permitiu usar muita fantasia neste filme”.
Outra declaração interessante do diretor foi: “Eu acho que sexo e comédia têm a ver com a vida. Não são questões morais, são sinais de vida. Depois desses quatro anos de tanto terror e energia de morte, cheguei no set querendo mostrar cor e vida. É um filme onde explode cor, explode tesão, explode humor. É um filme muito inspirado em pornochanchadas e naqueles programas policiais que passam na TV tipo meio dia. É um policial erótico”.
O que disse a crítica: Alexandre Figueirôa da Revista O Grito! avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: Quando o filme terminou “fiquei com a impressão de que se Aïnouz tivesse feito uma obra mais próxima ao estilo do que fez em ‘O Céu de Suely’ talvez o resultado fosse mais consistente. É muito válido um cineasta explorar novos caminhos e devemos respeitar suas escolhas estéticas como a opção de enveredar pelo nem sempre tão fácil cinema de gênero. Essa trilha, todavia, necessita talvez de um olhar e uma linguagem enraizada numa descoberta mais interior, inerente ao objeto narrado de modo a preservar sua originalidade”.
Caio Coletti do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “’Motel Destino’ não chega a se entregar ao fatalismo, até porque encontra vivacidade de sobra em seus personagens e performances, perversões de chavões do noir para uma realidade contemporânea muito mais complicada, e por vezes mais patética, do que Hollywood seria capaz de aceitar. O bom humor do filme está em contrastar seus momentos mundanos e suas jogadas mais teatrais - a dança desajeitada de Fábio Assunção se transformando na carranca ameaçadora, de olhos sombrios e cabelo bagunçado, de um vilão operático”.
O que eu achei: Impressionante o quanto Karim Aïnouz é versátil. Assisti dele três filmes. "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009) foi o primeiro que eu vi. Era uma espécie de vídeo-arte que vai mostrando paisagens e personagens de um trajeto mesclando imagens de duas câmeras 16mm (Bolex), uma câmera super-8, uma mini-DV VX1000 (Sony) e uma câmera tcheca (Minockner) com um ator narrando a história e construindo a narrativa, configurando um filme que poderia ser exibido em galerias de arte. Daí assisti "A Vida Invisível" (2019), um drama familiar que se passa no Rio de Janeiro na década de 40 e conta a história de Eurídice Gusmão e sua irmã Guida, separadas pela violência que existia dentro de sua própria família, na figura de seu pai. E, por fim, vi “O Jogo da Rainha” (2023), um filme encomendado, de época, falado em inglês, sobre Catarina Parr, a sexta e última esposa do rei Henrique VIII. Daí vem “Motel Destino” (2024) com algo totalmente diferente dos anteriores: um filme bem contemporâneo, que abusa das cores saturadas do sol escaldante do Ceará e das luzes artificiais do motel, numa espécie de filme policial com pitadas de pornochanchada. A primeira metade, que apresenta os personagens e suas vidas, começa bem mas alcança a metade do filme já levemente desgastada, dando a impressão que nada mais vai ocorrer de relevante. Só que não, da metade pra frente os conflitos começam a surgir e aquilo que vinha se desenhando como um possível marasmo engrena virando um bom thriller, que acaba compensando seguir até o final. Terminei de ver pensando no quanto Fábio Assunção trabalha bem. Era um rosto na tv brasileira praticamente fadado a ser o eterno galã de novela ou o vilão de família bem sucedida como se apresenta atualmente na novela “Garota do Momento”. Mas que nada, aqui ele mostra sua competência reunindo em seus gestos, falas e olhares o típico macho brasileiro, violento e ao mesmo tempo inseguro com relação à sua própria sexualidade. Dos quatro filmes que vi ainda gostei mais de “A Vida Invisível”, mas este também é um bom longa com qualidades que valem o tempo dispendido retratando algo genuinamente brasileiro. Atenção à fotografia super bem executada de Hélène Louvart.

15.3.25

“Irmãos no Futebol: A História dos Dois Corinthians” ou “Unidos pelo Futebol” – Chris Watney (Reino Unido, 2018)

Sinopse:
O documentário conta a história do Corinthian-Casuals, um dos maiores times não profissionais da Inglaterra. De início modesto, o clube foi o responsável direto pelo surgimento do time brasileiro Corinthians Paulista.
Comentário: Numa breve pesquisa no site do Corinthians e da Nike, li que se formos pesquisar a origem do futebol, há evidências de que sociedades gregas e chinesas jogavam algo parecido há mais de 2.000 anos. Entretanto, a versão que parece mais próxima do futebol conhecido atualmente é a que se praticava na Inglaterra do século XIX chamada futebol escolar, ou folk football, em inglês. Essa versão antiga era violenta e incluía até socos nos oponentes como prática comum. Por esse motivo, foi rapidamente proibida pela realeza britânica, medida que se manteve por mais de um século.
Aos poucos, as regras foram sendo criadas, especialmente a partir do momento que as universidades inglesas começaram a jogar entre si e a necessidade de um regulamento comum surgiu. Aos poucos o esporte foi tomando conta da Europa, chegando na América do Sul através dos imigrantes ingleses.
É aí que entra a figura de Charles Miller (1874-1953), o homem que introduziu o esporte no Brasil, um nome muito conhecido pelos paulistanos por nomear a praça onde fica o Estádio do Pacaembú.
Apesar do nome estrangeiro, Miller nasceu em São Paulo, mas era filho de pai escocês e mãe brasileira de ascendência inglesa. Em 1884, quando ele tinha 10 anos de idade, ele fez um intercâmbio para a Inglaterra, onde conheceu o futebol jogando no time amador inglês Corinthian Football Club, localizado em Tolworth, na região suburbana de Londres. Miller voltou de lá com 20 anos trazendo 2 bolas, 1 bomba de ar, 1 par de chuteiras, 2 camisas de futebol e 1 livro de regras. A partir daí, o Brasil e o esporte se tornaram um.
Segundo a Agência Corinthians, foi esse time que inspirou em 1910 a fundação de um clube no Brasil - o Corinthians Paulista - além de ter inspirado o Real Madri a utilizar um uniforme branco.
Ocorre que após visitar o Brasil em 1910, o time retornou em 1914 com o intuito de participar de um jogo amistoso contra o Corinthians Paulista, mas notícias sobre a eclosão da Primeira Guerra Mundial fizeram a delegação voltar às pressas à Europa, diretamente para a luta nos campos de batalha da França, perdendo mais homens do que qualquer outro clube na história.
O tempo passou, em 1939, o Corinthian Football Club se fundiu com outro time mudando seu nome para Corinthian-Casuals, e apenas em 2015 o retorno deles para cá se concretizou para finalmente jogar a partida que fora cancelada na antessala da Primeira Guerra. 
O foco do documentário é justamente mostrar como se deu essa viagem e toda a emoção do jogo amistoso que ocorreu na Arena Corinthians entre eles e o Corinthians Paulista.
Aparecem no documentário grandes nomes do futebol, como Michael Owen, Steve McManaman, Edu Gaspar, Danilo, Roberto Rivellino, Martin Tyler, Sid Lowe, o técnico Tite e Tim Vickery, um jornalista especialista em futebol sul-americano.
O que disse a crítica: João Ricardo do site Fut Pop Clube gostou. Disse tratar-se de um “excelente documentário [voltado] para todos os interessados em história do futebol inglês e brasileiro, especialmente para o lado alvinegro da arquibancada”. Ele diz que se alguém gostaria de saber qual é o time inglês mais popular no Brasil, agora a resposta ficou fácil. Não é United, Liverpool, City nem Arsenal. Agora é o time amador Corinthian-Casuals.
No site IMDB há diversas críticas, todas muito positivas, uma delas diz: “Um conto extraordinário cheio de emoção, encontrando raízes e honrando a herança cultural inglesa de jogo limpo, espírito esportivo e expansionismo esportivo. Uma história de honra, dignidade e valor, com um olho no passado glorioso e outro em um futuro inseguro para o Corinthian-Casuals”.
O que eu achei: O documentário é sensacional. Ele conta um pouco a história do futebol, passando pela figura do Charles Miller, ex-jogador do time de futebol amador inglês Corinthian-Casuals, salientando sua importância em trazer para o Brasil esse esporte que hoje faz parte do DNA do brasileiro. Ficamos sabendo que o Corinthian veio para o Brasil duas vezes: a primeira em 1910 e a segunda, em 1914, para jogar uma partida amistosa com o time Corinthians Paulista, cujo nome foi inspirado por eles. Ocorre que o jogo, na época, acabou não ocorrendo pois assim que eles chegaram, notícias sobre a eclosão da Primeira Guerra Mundial fizeram a delegação voltar às pressas para a Europa. Segundo o documentário, somente 100 anos depois, em 2015, é que o time amador Corinthian-Casuals, hoje na sétima divisão da Inglaterra, sem grandes recursos financeiros nem nada, consegue chegar ao Brasil e finalmente jogar esse histórico amistoso na Arena Corinthians, virando uma espécie de tributo àqueles heróis que morreram na guerra, além de uma celebração. Não sei porquê razão omitiram no documentário a vinda do Corinthian-Casuals em 1988 quando ocorreu um jogo entre eles e o Corinthians Paulista no estádio do Pacaembú. De qualquer forma, seja você corintiano ou apenas um apaixonado por futebol, se jogue: o resultado, além de instrutivo, é muito emocionante.

11.3.25

“A Flauta Mágica” - Ingmar Bergman (Suécia, 1975)

Sinopse:
A Rainha da Noite (Birgit Nordin) oferece sua filha Pamina (Irma Urrila) a Tamino (Josef Köstlinger), um jovem andarilho encontrado na floresta pelo servo da rainha Papageno (Håkan Hagegård). Porém, para isso, Tamino precisa trazê-la de volta de Sarastro (Ulrik Cold), um sacerdote que só pratica o bem, alegando que ele a sequestrou. Ambicionando o poder de Sarastro, a Rainha da Noite oferece uma flauta mágica a Tamino e sinos mágicos a Papageno, enviando os dois nessa jornada.
Comentário: Ingmar Bergman é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Já assisti dele 21 filmes, mas sua produção engloba em torno de uns 60. Desta vez vou conferir “A Flauta Mágica” (1974), uma versão fílmica da ópera homônima de Wolfgang Amadeus Mozart.
Originalmente, essa ópera estreou em 1791 no Theater auf der Wieden em Viena. Dividida em dois atos, ela teve seu libreto (texto da ópera) assinado por Emanuel Schikaneder, companheiro de uma loja maçônica de Mozart. À época, por influência da Revolução Francesa (1789-1799), a maçonaria adquiria simpatizantes ao mesmo tempo que era perseguida. A ópera mostra a filosofia do Iluminismo, com os conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa transparecendo em vários momentos. Resumidamente, a ópera funciona como uma alegoria para as provações pelas quais o homem precisa passar para sair das trevas do pensamento medieval em direção à luz iluminista.
Essa ópera já teve inúmeras adaptações e uma delas foi essa versão fílmica feita em 1974 pelo Bergman.
Em uma resenha escrita por Tiago Mata Machado para o jornal Folha SP, o crítico chama a atenção para o fato de que Bergman tinha em torno de 12 anos quando viu essa ópera em Estocolmo pela primeira vez. Ele diz que “o projeto de montagem de ‘A Flauta Mágica’ começou nesse dia, quando, de volta a casa, o pequeno Bergman tentou recriar, com os amigos, no seu teatro de títeres, uma versão da ópera mozartiana. Sem dinheiro para comprar as gravações completas das músicas, abandonaram a ideia. Mais tarde, como assistente de encenador da ópera de Estocolmo, depois como diretor do Teatro Municipal de Malmö, Bergman voltou à carga, tentando, inutilmente, reeditar seu sonho de infância. Foi só no final dos anos 60 que o cineasta conseguiu impor o seu projeto à TV sueca (…)”.
Segundo Luiz Santiago do site Plano Crítico, “Apesar de ser mais uma variação interessante na filmografia de Bergman, essa filmagem de ‘A Flauta Mágica’ não causou espanto por si mesma. O diretor sempre foi amplamente conhecido como um ‘homem de teatro que fazia cinema’ e a própria década de 1970 marcaria um retorno cada vez maior do cineasta às suas atividades teatrais, tornando-se, inclusive, a tônica da maioria de seus filmes daí em diante. (...) Com algumas mudanças no libreto original de Emanuel Schikaneder, o diretor criou um dos mais bem-sucedidos filmes operísticos já feitos, tendo recebido uma indicação ao Oscar (Melhor Figurino), ao Globo de Ouro e ao César (Filme Estrangeiro) e vencido o BAFTA de Programa Estrangeiro (porque originalmente trata-se de um telefilme).
Bergman realiza uma adaptação que faz questão de chamar atenção para si mesma como um híbrido na forma, ou seja, uma ópera filmada em um teatro, mas estruturada e visualmente concebida para exibição na TV e depois no cinema. Desde a Abertura, vemos rostos na plateia antes de entrarmos na cena inicial da ópera, onde o príncipe Tamino (Josef Köstlinger) está em uma floresta, fugindo de um dragão, quando cai nas garras da criatura e é salvo pelas damas da Rainha da Noite (Birgit Nordin). (...)
A montagem abraça a fantasia e cria momentos de enorme conexão com o público, principalmente nos blocos engraçados e muito simpáticos com Papageno (Håkan Hagegård), tendo destaque o seu fantástico e icônico dueto com a amada Papagena (Elisabeth Erikson). O humor, o horror, a história de amor e a colocação da Fraternidade fazem o público caminhar pelos mais diversos sentimentos e expectativas para esses indivíduos, tendo aqui uma coisa muito importante que o próprio Bergman comentou em entrevista sobre a escolha dos atores: ele não buscou as vozes imensamente potentes dentro de cada grupo, mas focou na exigência dramática de cada um dos cantores”.
Na direção de fotografia está Sven Nykvist, parceiro recorrente de Bergman.
O que disse a crítica: Tiago Mata Machado, colaborador da Folha de SP, avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Bergman não deixa de surpreender aqui pela modéstia. Sua obra é uma pequena ópera filmada: à montagem ele acrescenta só aquilo que ele considera a originalidade primeira e distintiva do cinema, a possibilidade de se aproximar do rosto humano. No fundo, Bergman só nos pede para reservar, ao seu pequeno espetáculo, um olhar (novo) de criança. Esse ‘espírito da infância’ ele compartilha com Mozart. Na sequência de abertura confundindo-se com o rosto da criança, surgiam, ligeiros, o rosto de Bergman e o retrato de Mozart. Dois artistas que pertenciam, como diria o cineasta, à categoria das ‘crianças crescidas’. Do encontro dos dois, em ‘A Flauta Mágica’, resulta uma mistura de conto de fadas mambembe e oratório maçônico”.
Cassio Starling Carlos, crítico da Folha SP, avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “A maioria dos diretores [que resolvem adaptar óperas para o cinema] pensam em libertar os intérpretes e o canto do espaço cênico confinado os levando a cenários cinematográficos. Num golpe de gênio, Bergman faz o contrário. Encena quase todo o filme num palco e reduz o desconforto da teatralidade abolindo a distância que, no teatro, isola o espectador do drama. E faz isso recorrendo a um elemento que só o cinema possui: o primeiro plano. Assim, realiza um filme híbrido que em nenhum momento renega sua origem teatral e, ao mesmo tempo, ganha a clarividência das emoções que só o primeiro plano de cinema é capaz de proporcionar. Até mesmo o tradicional intervalo entre atos é recriado sem provocar estranheza. Em vez de o público sair para uma taça de vinho, pode observar os bastidores, onde uma intérprete fuma, outro ajeita o figurino. Ao voltar para o segundo ato, o ponto-de-vista é do fundo do palco, mais um lugar onde nenhum espectador se encontra. Como artista que respeita a grande obra alheia, Bergman guarda de Mozart o que a ópera tem de maior - a música - e metamorfoseia o resto em visões que expressam os mais frequentes temas de seu universo pessoal: a necessidade do amor, o desespero da solidão, o sentimento ambíguo em relação aos pais e o medo da morte”.
O que eu achei: Estava bem em dúvida se iria gostar ou não de assistir essa ópera de Mozart, originalmente cantada em alemão, numa versão sueca feita para a tv, na qual Bergman resolve filmar não só a apresentação em si - organizada e dirigida por ele mesmo -, mas também os rostos da plateia e os bastidores no intervalo com os atores-cantores descansando, lendo ou fumando, mas o resultado é tudo de bom. A história em si e as canções são muito agradáveis de acompanhar, pois na trama a rainha convoca dois rapazes – Tamino e Papageno – para saírem em busca de sua filha, sequestrada por Sarastro, um sacerdote do bem, que quer que a menina passe a morar com ele. Tudo com muita fantasia envolvida já que Tamino vai à luta levando uma flauta mágica enquanto Papageno utiliza sinos mágicos. Terminei de ver com aquela sensação de relaxamento na mente. O filme dura pouco mais de 2hs e é interessante de ser visto naquele dia estressante que você só quer se desligar do mundo ao redor. Um projeto único, totalmente diferente dos filmes habituais do Bergman. Vale ver.

10.3.25

“Amor à Flor da Pele” - Wong Kar-Wai (Hong Kong/França, 2000)

Sinopse:
Hong Kong, começo da década de 1960. A secretária Su Li-zhen (Maggie Cheung Man-yuk), casada, aluga um quarto numa pensão. O quarto ao lado, que também está vago, é alugado pelo também casado senhor Chow (Tony Leung), editor-chefe de um jornal local. Como ambos os cônjuges estão sempre viajando, eles compartilham uma solidão e uma desconfiança em comum: será que eles estão sendo traídos?
Comentário: Trata-se do filme número 75 da lista dos 100 Essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz “Da invasão de filmes orientais que se concentrou desde meados dos anos 1990, aqueles que trazem a assinatura de Wong Kar-Wai estão entre os que mais chamaram a atenção para o fenomenal cinema produzido nas três Chinas (a China continental, a ex-colônia inglesa Hong Kong e Taiwan). Distinto de muitos de seus colegas e ao mesmo tempo compartilhando com eles um gosto refinado pelo estetismo visual, os filmes de Wong também se destacam por um forte apelo emocional. Desde ‘Amores Expressos’ (1994), o diretor seduziu as plateias com sua visão romântica e ultra contemporânea dos desencontros amorosos. ‘Amor à Flor da Pele’ é o filme onde essa temática encontra uma forma que lhe encaixa à perfeição. Ambientada em 1962, a obra narra os encontros de um homem e uma mulher, ambos casados, que se conhecem num hotel quando seus respectivos parceiros estão longe. Entre os dois, tece-se uma teia de pequenos sentimentos, cumplicidade e erotismo sublimado, até que a história de amor esbarra nas convenções sociais e nunca chega a se efetivar. A nostalgia em tom amargo é reiterada pelo uso recorrente de duas canções na voz de Nat King Cole, ‘Aquellos Ojos Verdes’ e ‘Quizás, Quizás, Quizás’, que, por sua vez, repercutem os estados afetivos dos personagens. O passar do tempo capturado em suas mínimas modificações, uma das obsessões do diretor (fortemente influenciado pelos primeiros trabalhos do francês Alain Resnais), é tornado visível aqui sob a forma de uma troca incessante dos vestidos usados pela protagonista, num total de 46. O figurino segue sempre o mesmo modelo, mas o tecido das roupas nunca se repete de uma cena para outra. O perfeccionismo do diretor se reflete também no tempo que demorou para completar as filmagens: 15 meses. Em seu trabalho seguinte, ‘2046’ (2004), Wong recupera e desenvolve elementos de ‘Amor à Flor da Pele’, como o personagem do escritor e o número do seu quarto de hotel neste título anterior, numa espécie de retomada quase musical do tema. O filme, no Festival de Cannes de 2000, ganhou os prêmios de Melhor Ator (Tony Leung) e de Melhor Contribuição Técnica, para a fotografia assinada por Christopher Doyle, Pin Bing Lee e William Chang”.
O que eu achei: Continuando minha saga de ver todos os 100 filmes listados como essenciais pela Revista Bravo!, desta vez assisti “Amor à Flor da Pele” (2000) de Wong Kar-Wai, um diretor famoso e bastante cultuado de quem eu já havia assistido dois filmes - "2046 - Os Segredos do Amor" (2004) e "Cinzas do Passado Redux" (2008) – e, pasmem, eu não havia gostado de nenhum. Porém “Amor à Flor da Pele” foi uma grata surpresa. Não há o que apontar de problemas neste filme. A fotografia já famosa do diretor está lá em todo seu resplendor. A trilha sonora é um arraso pois além da incrível música tema composta por Umebayashi Shigeru, há diversos boleros cantados por Nat King Cole, elevando a potência melancólica da trama à enésima potência. Os figurinos são de uma elegância ímpar: a personagem principal troca de roupa 46 vezes, usando sempre o mesmo modelo de vestido, mas alternando o tecido e a estampa cada vez que ela entra em cena. A trama é de uma delicadeza atroz. Cada movimento, cada simples acontecimento, é filmado quase em câmera lenta, nos transportando para uma situação semelhante a uma flutuação. Foi um verdadeiro transe hipnótico ver esta pequena obra-prima restaurada em 4K. Aliás, mais do que ver, é um filme para se sentir. Simplesmente sensacional!

9.3.25

“O Bastardo” - Nikolaj Arcel (Dinamarca/Suécia/Noruega/Alemanha, 2024)

Sinopse:
 
Ludvig Kahlen (Mads Mikkelsen) é um soldado e explorador dinamarquês do século XVIII que resolve explorar e transformar uma vasta região da Dinamarca chamada Jutlândia. Em meio a desafios imensos e confrontos com as forças da natureza, Kahlen se empenha em cultivar e colonizar esta terra inóspita.
Comentário: Nikolaj Arcel (1972) é um roteirista e cineasta dinamarquês. Dirigiu filmes como “King’s Game” (2004), “Island of Lost Souls” (2007), “Truth About Man” (2010), “O Amante da Rainha” (2012) que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional e “A Torre Negra” (2017). “O Bastardo” (2024) - em alguns lugares aparece como "A Terra Prometida" - é o primeiro filme que vejo dele.
Trata-se de uma adaptação do romance “The Captain and Ann Barbara”, da autora dinamarquesa Ida Jessen, lançado em 2022.
Uma breve pesquisa me mostrou que o dinamarquês Ludvig Kahlen (1700-1774) realmente existiu. Viveu no século XVIII, assim como é mostrado no filme, e ficou conhecido por suas tentativas de colonizar e desenvolver áreas inóspitas da Dinamarca, especialmente as terras áridas de Jutlândia. Kahlen é frequentemente lembrado por seu papel na tentativa de transformar essas terras inférteis em áreas cultiváveis, um esforço que enfrentou muitos desafios devido às condições climáticas e ao solo difícil. Mas pouco se sabe sobre ele e o livro, no qual o filme se baseia, tomou diversas liberdades para recriar essa história.
Fernando Machado do Grupo Cinema Paradiso nos conta que o filme pretende mostrar a “busca incansável de um indivíduo mal nascido por realização e um lugar de destaque na Dinamarca ainda feudal do século XVIII”. Ele diz: “A princípio, nada indicaria que o Capitão Ludvig Kahlen (interpretado por Mads Mikkelsen) aposentado após 25 anos de serviços ao exército alemão e com mais de cinquenta anos de idade, seria um desbravador capaz de estabelecer com sucesso uma colônia em uma terra inóspita e perigosa. Isso é o que os funcionários do rei tentam lhe dizer em 1755 quando, relutantemente, lhe garantem a autorização oficial para o que parece ser uma verdadeira tentativa de suicídio. E só autorizam após saber que não haverá qualquer custo à Coroa, e que esse ‘ninguém’ poderia lhes ser útil caso o rei viesse a perguntar sobre os esforços de colonização que planejou para aquela parte quase esquecida do país. Em troca, aceitam a solicitação do capitão referente a um título de nobreza e o envio de colonos, no improvável caso desse duvidoso empreendimento ser bem sucedido no futuro. 
E assim começa a aventura de se fazer uma colônia agrícola no ‘Urzal’, uma gigantesca charneca [terreno difícil onde nascem arbustos e plantas herbáceas resistentes], na parte continental da Dinamarca, um lugar infestado de bandidos e tão desolado que, com seus ventos gelados, aridez e solo ruim, seria um terrível pesadelo até mesmo para um grupo de agricultores jovens e experientes. Mas não para o capitão Kahlen, que diligentemente procura e encontra um local propício para a instalação da sua futura colônia, sem se abater pela paisagem lúgubre, por lobos ferozes e pelas constantes investidas dos salteadores. Nessa incrível empreitada, ele toma a seu serviço um casal de servos foragidos do senhor feudal e magistrado local, o terrível Frederik Schinkel, além de Anmai Mus, uma menina cigana que já o havia furtado algumas vezes e que é considerada por muitos ‘um mau agouro’ devido a sua pele escura e modos exóticos. Curiosamente, o maior desafio para o capitão Kahlen não será a natureza inclemente ou a geografia precária, mas sim o elemento humano: o senhor feudal e magistrado Schinkel (...), ciente da ameaça da nova colônia a ‘suas’ terras e ao seu poder quase ilimitado sobre a população local, fará de tudo para tentar destruí-la”.
Machado nos conta que “o site Kunst.dk disponibilizou uma amostra em inglês, de 33 páginas, do livro de Ida Jensen que inspirou o filme, a qual ele leu com atenção. Ele notou que “a figura de Ann Barbara foi retratada de modo diferente no filme em relação ao livro, pois na película ela é apresentada como sendo casada e tendo seu marido capturado, torturado e cruelmente assassinado pelo cruel (de) Schinkel, enquanto no livro ela é mostrada como uma mulher supersticiosa que vai trabalhar sozinha na colônia apenas após a chegada da menina cigana, com a qual é obrigada contra a sua vontade a dividir a cama.
Devemos ter em mente a época retratada no filme e no livro, ou seja, um período anterior à Revolução Francesa, em que a origem de uma pessoa representava quase tudo num contexto de pouquíssima mobilidade social. Quem nascia na nobreza ali ficava, enquanto que quem nascia fora da nobreza provavelmente também viveria e morreria assim. E mudanças nessa ordem tradicional não eram nada bem vistas... Esse aparente início de mudança na ordem das coisas significava uma oportunidade de ouro para o capitão Kahlen mostrar seu valor e mérito ao rei dinamarquês, inovando ao cultivar batatas naquela terra árida e até então infértil”.
O filme foi escolhido pela Dinamarca para representar o país no Oscar, mas acabou não passando pela pré-seleção.
O que disse a crítica: Alvaro Goulart do site Cinema com Crítica avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “’O Bastardo’ se mostra um filme promissor. Apesar das interpretações e personagens femininas marcantes, o filme não traz nada de novo. Sim, é uma história que nos prende. É de se imaginar que nos encontremos torcendo pelo sucesso do protagonista, visto as injustiças que sofreu na vida e que vem sofrendo ao longo de sua empreitada. É como se sua vitória representasse uma vitória muito mais ampla, transcendendo terras e continentes, a respeito de um grupo oprimido contra um indivíduo opressor. Mas é mais uma narrativa igual a várias outras que já vimos por aí, e longe de ser um ‘clássico’ dentro do gênero”.
Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “É possível dizer que vez por outra a direção de Nikolaj Arcel pesa a mão e constrói um Kahlen até mesmo um tanto masoquista (numa simetria pouco desejável com Schinkel), mas no geral consegue transmitir seu ponto de vista numa aventura, o resultado final importa muito, mas não é tudo: os valores que alguém consegue impor (e transmitir ao espectador) são, de certa forma, o objetivo final. Embora aceitando as mil e uma intervenções do acaso (algumas felizes, outras, não) Kahlen evita que a vida se entregue à ausência de sentido (o caos). Num mundo em que o dinheiro se torna cada vez mais o valor único e final (...), uma voz discordante é algo a saudar”.
O que eu achei: Interessada que sou pelo cinema nórdico, fiquei muito curiosa em ver o filme que a Dinamarca enviou como representante do país para concorrer ao Oscar, especialmente por ter Mads Mikkelsen no papel principal, um ator que já me encantou em filmes do Vinterberg como “A Caça” (2012) e “Druk – Mais Uma Rodada” (2020). Neste ele não decepciona, encarnando o papel de Ludvig Kahlen, um capitão já aposentado do exército alemão, com mais de cinquenta anos de idade, que resolve sair da condição de bastardo – um cara que não pertence à nobreza – tentando colonizar uma região inóspita da Dinamarca chamada Jutlândia, cujo terreno é descrito no filme como sendo um “urzal”, ou seja, um lugar composto por pedra e areia onde só nasce urze, que é um tipo de arbusto da família das ericáceas. Além do problema do tipo de terreno, há também a questão das condições climáticas, por ser um local que tem geadas e neve. Mesmo assim, ele vai pra lá tentar cultivar batatas e colonizar a região, numa negociação com o rei que lhe promete em troca um título de barão caso tudo dê certo. Apesar de ser um desses filmes épicos e grandiosos, ele dura 2h08m, então não chega a cansar. A fotografia é linda, tem drama, romance, conflitos diversos, é uma oportunidade de se conhecer um personagem do século XVIII que realmente existiu, mas ele não seria páreo para filmes com os quais concorreria ao Oscar, não por conta da execução do filme que é ótima, mas por conta do tema mais batido e sem grandes novidades. De qualquer forma vale ver pela aula de história que ele pode representar, pelo prazer de ver um filme bem feito com um ator cheio de expressividade e pela reflexão que ele nos traz sobre a inutilidade de tentarmos controlar nosso destino.