
Comentário: Yorgos Lanthimos (1973) é um cineasta, produtor e roteirista grego. Já assisti dele as obras-primas "O Lagosta" (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017), os ótimos “Dente Canino” (2009) e "A Favorita" (2018), os bons “Alpes” (2011) e “Tipos de Gentileza” (2024) e o curioso "Kinetta" (2005). Desta vez vou conferir "Bugonia" (2025).
Alissa Wilkinson (The New York Times) escreveu: "Se há uma coisa que une os filmes de Yorgos Lanthimos, é que todo mundo fala como um alienígena tentando simular a linguagem humana. Talvez a emoção humana, também. A maioria dos personagens dele parece nova no planeta, seres que ainda não entenderam totalmente a coisa da interação interpessoal.
A sua comédia de 2023, 'Pobres Criaturas', apresentava um bebê no corpo de uma mulher solta na sociedade e encantada por cada parte dela. Mas você pode voltar até 'Dente Canino' (2009), seu filme infernal, possivelmente hilário e perturbador, sobre irmãos adultos criados em isolamento do mundo, e ver o mesmo DNA. Ninguém sabe o que está acontecendo em um filme de Lanthimos. Eu mal tenho certeza de que ele saiba.
Então, parece uma espécie de piada interna que 'Bugonia', a mais recente obra do diretor, seja um pouco sobre alienígenas, mas apresente seu diálogo mais humano. É praticamente naturalista, e embora o roteiro de Will Tracy seja baseado no filme de ficção científica 'Save the Green Planet!' (2003), de Jang Joon Hwan, o filme parece mais uma paródia maluca de Spielberg.
Teddy (Jesse Plemons) - que é, de certa forma, nosso herói - anda de bicicleta pelas estradas de terra perto de sua casa, usando uma mochila, e vive com seu primo Don (Aidan Delbis) em uma casa agradavelmente espaçosa cheia de bugigangas e objetos de gerações passadas. A trilha sonora cresce com instrumentos de corda. Você pode sentir a umidade na pele.
Teddy e Don são apicultores e conspiracionistas, uma combinação interessante, e Teddy está obcecado por sua teoria favorita: que Andromedanos - uma raça superior da galáxia vizinha - estão controlando o planeta e também destruindo-o. Seu foco se concentra em Michelle (Emma Stone), a principal executiva da empresa farmacêutica que parece empregar a maior parte da cidade.
Michelle é magra, fabulosamente rica e uma verdadeira 'girlboss', enquanto Teddy é sujo e tem um rabo de cavalo engordurado. Eles não poderiam ser mais diferentes. Teddy e Don estão certos de que, se capturarem Michelle e a destruírem, salvarão a Terra, já que ela e sua empresa estão no centro desse complô andromedano. Ela, obviamente, é uma Deles.
Este não é realmente o filme mais estranho de Lanthimos, e não é o mais engraçado ou mais divertido também. É, mais do que tudo, meio triste. Teddy teve uma vida bem ruim, cujos detalhes são gradualmente revelados à medida que a história avança, e ele é o tipo de cara que você esperaria que se enredasse em uma teoria da conspiração.
Michelle o identifica com bastante precisão como alguém preso em uma câmara de eco da internet, entrando em uma espiral onde cada uma de suas ideias é reforçada por outra. ('Isso é alguma bobagem que você leu no The Times?', ele grita para ela, só que ele não diz bobagem, e na verdade ela provavelmente ouviu o podcast.)
Mas mesmo um Lanthimos menor tem seus prazeres, se você gosta do que ele faz. Há um absurdismo errático em seu estilo: justo quando você acha que sabe do que se trata este filme, ele te sacode para o lado por um segundo, para que você não fique muito confortável. Você precisa continuar assistindo, apenas para saber no que tudo isso vai resultar - e provavelmente você não vai adivinhar o final.
Na verdade, porém, o motivo para assistir 'Bugonia' são seus protagonistas. Esta é a quarta colaboração de Stone com Lanthimos após 'A Favorita', 'Pobres Criaturas' e 'Tipos de Gentileza'. A maior parte do filme gira em torno da insistência de Teddy de que Michelle é uma alienígena e da insistência de Michelle de que ela não é. É um papel ideal para Stone, com seus olhos de anime imensos e sorriso levemente sobrenatural, e sua habilidade de alternar entre expressões impassíveis e vivacidade em um piscar de olhos.
A estrela do show, no entanto, é Plemons, que atuou ao lado de Stone em todos os três segmentos do tríptico 'Tipos de Gentileza', mas aqui recebe uma história de longa duração para brincar. Teddy não é um personagem fácil de interpretar. Ele é desagradável, preso em algum estado de desenvolvimento estagnado, absolutamente certo de sua razão e ainda assim totalmente ridículo e quase certamente perigoso. Ele desceu tanto em sua espiral que tem que falar com palavras muito difíceis, encadeadas em frases cuidadosamente ensaiadas, recitando-as apressadamente como se tivesse medo de ser tirado do seu caminho.
Tudo isso resulta em um filme que se assemelha mais a um drama de personagens do que a um filme de ação, embora seja um drama particularmente estranho. O que é mais notável, do ponto de vista de Lanthimos, é que desapareceram as frases rebuscadas e a gramática que soavam como se o diálogo tivesse sido (propositalmente) traduzido pelo Google Tradutor e revertido várias vezes".
"Bugonia" concorre ao Oscar de Melhor Filme, Atriz (Emma Stone), Roteiro Adaptado (Will Tracy) e Trilha Sonora (Jerskin Fendrix).
O que disse a crítica 1: Natalia Bocanera do site Cinema com Crítica avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Se a hierarquização social é manifesta nas relações, 'Bugonia' soa exagerado na representação do oprimido. Lanthimos não se importa em ridicularizar essas figuras, para submetê-las cada vez mais profundamente a uma exploração pelo corporativismo representado pela CEO a ponto de fundir a ignorância à classe trabalhadora. Não há vitimização do oprimido, que vai reproduzir a lógica de violência como resposta à sua realidade, e fica evidente a ideia de imutabilidade do poder. Entretanto, o tom da ridicularização ultrapassa os limites de uma ironia que já ficou por nós bem compreendida, tornando-se expressão incômoda de uma classe".
O que disse a crítica 2: Victor Cierro do site Tangerina UOL avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Bugonia' é, acima de tudo, um retrato afiado do nosso tempo. É sobre o poder da crença, o medo do desconhecido e a facilidade com que a verdade se distorce nas telas. Lanthimos entrega aqui não só o melhor filme de 2025 até agora, mas também um lembrete perturbador de como a ficção pode refletir – e expor – os nossos piores impulsos".
O que eu achei: A palavra grega “bugonia” - que dá título ao filme - remete à ideia de nascimento espontâneo. Etimologicamente, é construída pela junção dos significados de boi e geração, aludindo ao mito segundo o qual especificamente as abelhas podem nascer a partir de um boi ou animal morto em sacrifício. Segundo a crença, um apicultor chamado Aristeu, após perder suas colmeias, recupera-as por meio da bugonia, fazendo emergir novas abelhas da carcaça de um boi. Esse termo vem bem a calhar quando o assunto é teoria da conspiração, algo que afeta pessoas a acreditarem que as ideias mais absurdas - aquelas sem base científica e sem compromisso com a realidade, propagadas pelos chamados 'tios do zap' - podem se tornar reais. No filme, dois conspiracionistas - Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) - estão obcecados com a ideia de que Andromedanos - uma raça superior da galáxia vizinha - estão controlando o planeta Terra e também destruindo-o. Eles são apicultores e estão vendo as abelhas desaparecerem. Teddy viu no YouTube explicações sobre o assunto e está crente que Michelle (Emma Stone) - a principal executiva da empresa farmacêutica local - é uma deles. O plano então é capturá-la e fazer com ela os leve até seu imperador que vive em Andrômeda para tentar resolver esse assunto diretamente com ele. O filme é estranho, bizarro, paranoico, bem no estilo Yorgos Lanthimos de ser. Ele prende a atenção até o final, você mal pisca para poder acompanhar onde isso tudo vai dar. Mas achei o final decepcionante pois, apesar dele mostrar como crenças extremas e ambições pessoais podem deixar uma pessoa insana, ele acaba fazendo isso chancelando justamente esses comportamentos que nos desinformam e nos matam, se perdendo em seu próprio jogo de poder e ironia. Se a ideia era dizer que uma mentira repetida inúmeras vezes se torna verdade (a pós-verdade), o longa atinge seu objetivo. Porém é sabido como um filme influencia a maneira de pensar das pessoas então, por conta do final, que pode acabar fazendo um estrago tão nocivo quanto as próprias teorias da conspiração, acabei não gostando tanto. É um filme que vale ser visto pelo elenco (não sei como Jesse Plemons não está indicado ao Oscar), mas não pela sua conclusão. Mediano, no máximo.
Alissa Wilkinson (The New York Times) escreveu: "Se há uma coisa que une os filmes de Yorgos Lanthimos, é que todo mundo fala como um alienígena tentando simular a linguagem humana. Talvez a emoção humana, também. A maioria dos personagens dele parece nova no planeta, seres que ainda não entenderam totalmente a coisa da interação interpessoal.
A sua comédia de 2023, 'Pobres Criaturas', apresentava um bebê no corpo de uma mulher solta na sociedade e encantada por cada parte dela. Mas você pode voltar até 'Dente Canino' (2009), seu filme infernal, possivelmente hilário e perturbador, sobre irmãos adultos criados em isolamento do mundo, e ver o mesmo DNA. Ninguém sabe o que está acontecendo em um filme de Lanthimos. Eu mal tenho certeza de que ele saiba.
Então, parece uma espécie de piada interna que 'Bugonia', a mais recente obra do diretor, seja um pouco sobre alienígenas, mas apresente seu diálogo mais humano. É praticamente naturalista, e embora o roteiro de Will Tracy seja baseado no filme de ficção científica 'Save the Green Planet!' (2003), de Jang Joon Hwan, o filme parece mais uma paródia maluca de Spielberg.
Teddy (Jesse Plemons) - que é, de certa forma, nosso herói - anda de bicicleta pelas estradas de terra perto de sua casa, usando uma mochila, e vive com seu primo Don (Aidan Delbis) em uma casa agradavelmente espaçosa cheia de bugigangas e objetos de gerações passadas. A trilha sonora cresce com instrumentos de corda. Você pode sentir a umidade na pele.
Teddy e Don são apicultores e conspiracionistas, uma combinação interessante, e Teddy está obcecado por sua teoria favorita: que Andromedanos - uma raça superior da galáxia vizinha - estão controlando o planeta e também destruindo-o. Seu foco se concentra em Michelle (Emma Stone), a principal executiva da empresa farmacêutica que parece empregar a maior parte da cidade.
Michelle é magra, fabulosamente rica e uma verdadeira 'girlboss', enquanto Teddy é sujo e tem um rabo de cavalo engordurado. Eles não poderiam ser mais diferentes. Teddy e Don estão certos de que, se capturarem Michelle e a destruírem, salvarão a Terra, já que ela e sua empresa estão no centro desse complô andromedano. Ela, obviamente, é uma Deles.
Este não é realmente o filme mais estranho de Lanthimos, e não é o mais engraçado ou mais divertido também. É, mais do que tudo, meio triste. Teddy teve uma vida bem ruim, cujos detalhes são gradualmente revelados à medida que a história avança, e ele é o tipo de cara que você esperaria que se enredasse em uma teoria da conspiração.
Michelle o identifica com bastante precisão como alguém preso em uma câmara de eco da internet, entrando em uma espiral onde cada uma de suas ideias é reforçada por outra. ('Isso é alguma bobagem que você leu no The Times?', ele grita para ela, só que ele não diz bobagem, e na verdade ela provavelmente ouviu o podcast.)
Mas mesmo um Lanthimos menor tem seus prazeres, se você gosta do que ele faz. Há um absurdismo errático em seu estilo: justo quando você acha que sabe do que se trata este filme, ele te sacode para o lado por um segundo, para que você não fique muito confortável. Você precisa continuar assistindo, apenas para saber no que tudo isso vai resultar - e provavelmente você não vai adivinhar o final.
Na verdade, porém, o motivo para assistir 'Bugonia' são seus protagonistas. Esta é a quarta colaboração de Stone com Lanthimos após 'A Favorita', 'Pobres Criaturas' e 'Tipos de Gentileza'. A maior parte do filme gira em torno da insistência de Teddy de que Michelle é uma alienígena e da insistência de Michelle de que ela não é. É um papel ideal para Stone, com seus olhos de anime imensos e sorriso levemente sobrenatural, e sua habilidade de alternar entre expressões impassíveis e vivacidade em um piscar de olhos.
A estrela do show, no entanto, é Plemons, que atuou ao lado de Stone em todos os três segmentos do tríptico 'Tipos de Gentileza', mas aqui recebe uma história de longa duração para brincar. Teddy não é um personagem fácil de interpretar. Ele é desagradável, preso em algum estado de desenvolvimento estagnado, absolutamente certo de sua razão e ainda assim totalmente ridículo e quase certamente perigoso. Ele desceu tanto em sua espiral que tem que falar com palavras muito difíceis, encadeadas em frases cuidadosamente ensaiadas, recitando-as apressadamente como se tivesse medo de ser tirado do seu caminho.
Tudo isso resulta em um filme que se assemelha mais a um drama de personagens do que a um filme de ação, embora seja um drama particularmente estranho. O que é mais notável, do ponto de vista de Lanthimos, é que desapareceram as frases rebuscadas e a gramática que soavam como se o diálogo tivesse sido (propositalmente) traduzido pelo Google Tradutor e revertido várias vezes".
"Bugonia" concorre ao Oscar de Melhor Filme, Atriz (Emma Stone), Roteiro Adaptado (Will Tracy) e Trilha Sonora (Jerskin Fendrix).
O que disse a crítica 1: Natalia Bocanera do site Cinema com Crítica avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Se a hierarquização social é manifesta nas relações, 'Bugonia' soa exagerado na representação do oprimido. Lanthimos não se importa em ridicularizar essas figuras, para submetê-las cada vez mais profundamente a uma exploração pelo corporativismo representado pela CEO a ponto de fundir a ignorância à classe trabalhadora. Não há vitimização do oprimido, que vai reproduzir a lógica de violência como resposta à sua realidade, e fica evidente a ideia de imutabilidade do poder. Entretanto, o tom da ridicularização ultrapassa os limites de uma ironia que já ficou por nós bem compreendida, tornando-se expressão incômoda de uma classe".
O que disse a crítica 2: Victor Cierro do site Tangerina UOL avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Bugonia' é, acima de tudo, um retrato afiado do nosso tempo. É sobre o poder da crença, o medo do desconhecido e a facilidade com que a verdade se distorce nas telas. Lanthimos entrega aqui não só o melhor filme de 2025 até agora, mas também um lembrete perturbador de como a ficção pode refletir – e expor – os nossos piores impulsos".
O que eu achei: A palavra grega “bugonia” - que dá título ao filme - remete à ideia de nascimento espontâneo. Etimologicamente, é construída pela junção dos significados de boi e geração, aludindo ao mito segundo o qual especificamente as abelhas podem nascer a partir de um boi ou animal morto em sacrifício. Segundo a crença, um apicultor chamado Aristeu, após perder suas colmeias, recupera-as por meio da bugonia, fazendo emergir novas abelhas da carcaça de um boi. Esse termo vem bem a calhar quando o assunto é teoria da conspiração, algo que afeta pessoas a acreditarem que as ideias mais absurdas - aquelas sem base científica e sem compromisso com a realidade, propagadas pelos chamados 'tios do zap' - podem se tornar reais. No filme, dois conspiracionistas - Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) - estão obcecados com a ideia de que Andromedanos - uma raça superior da galáxia vizinha - estão controlando o planeta Terra e também destruindo-o. Eles são apicultores e estão vendo as abelhas desaparecerem. Teddy viu no YouTube explicações sobre o assunto e está crente que Michelle (Emma Stone) - a principal executiva da empresa farmacêutica local - é uma deles. O plano então é capturá-la e fazer com ela os leve até seu imperador que vive em Andrômeda para tentar resolver esse assunto diretamente com ele. O filme é estranho, bizarro, paranoico, bem no estilo Yorgos Lanthimos de ser. Ele prende a atenção até o final, você mal pisca para poder acompanhar onde isso tudo vai dar. Mas achei o final decepcionante pois, apesar dele mostrar como crenças extremas e ambições pessoais podem deixar uma pessoa insana, ele acaba fazendo isso chancelando justamente esses comportamentos que nos desinformam e nos matam, se perdendo em seu próprio jogo de poder e ironia. Se a ideia era dizer que uma mentira repetida inúmeras vezes se torna verdade (a pós-verdade), o longa atinge seu objetivo. Porém é sabido como um filme influencia a maneira de pensar das pessoas então, por conta do final, que pode acabar fazendo um estrago tão nocivo quanto as próprias teorias da conspiração, acabei não gostando tanto. É um filme que vale ser visto pelo elenco (não sei como Jesse Plemons não está indicado ao Oscar), mas não pela sua conclusão. Mediano, no máximo.