22.2.26

"Bugonia" - Yorgos Lanthimos (Irlanda/Reino Unido/Canadá/Coreia do Sul/EUA, 2025)

Sinopse:
Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) são dois jovens obcecados por conspirações. Eles sequestram a CEO de uma grande empresa, Michelle Fuller (Emma Stone), por acreditar que ela é uma alienígena que quer destruir a Terra. Teddy, Don, Michelle e um policial (Stavros Halkias) se envolvem em uma tensa batalha psicológica.
Comentário: Yorgos Lanthimos (1973) é um cineasta, produtor e roteirista grego. Já assisti dele as obras-primas "O Lagosta" (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017), os ótimos “Dente Canino” (2009) e "A Favorita" (2018), os bons “Alpes” (2011) e “Tipos de Gentileza” (2024) e o curioso "Kinetta" (2005). Desta vez vou conferir "Bugonia" (2025).
Alissa Wilkinson (The New York Times) escreveu: "Se há uma coisa que une os filmes de Yorgos Lanthimos, é que todo mundo fala como um alienígena tentando simular a linguagem humana. Talvez a emoção humana, também. A maioria dos personagens dele parece nova no planeta, seres que ainda não entenderam totalmente a coisa da interação interpessoal.
A sua comédia de 2023, 'Pobres Criaturas', apresentava um bebê no corpo de uma mulher solta na sociedade e encantada por cada parte dela. Mas você pode voltar até 'Dente Canino' (2009), seu filme infernal, possivelmente hilário e perturbador, sobre irmãos adultos criados em isolamento do mundo, e ver o mesmo DNA. Ninguém sabe o que está acontecendo em um filme de Lanthimos. Eu mal tenho certeza de que ele saiba.
Então, parece uma espécie de piada interna que 'Bugonia', a mais recente obra do diretor, seja um pouco sobre alienígenas, mas apresente seu diálogo mais humano. É praticamente naturalista, e embora o roteiro de Will Tracy seja baseado no filme de ficção científica 'Save the Green Planet!' (2003), de Jang Joon Hwan, o filme parece mais uma paródia maluca de Spielberg.
Teddy (Jesse Plemons) - que é, de certa forma, nosso herói - anda de bicicleta pelas estradas de terra perto de sua casa, usando uma mochila, e vive com seu primo Don (Aidan Delbis) em uma casa agradavelmente espaçosa cheia de bugigangas e objetos de gerações passadas. A trilha sonora cresce com instrumentos de corda. Você pode sentir a umidade na pele.
Teddy e Don são apicultores e conspiracionistas, uma combinação interessante, e Teddy está obcecado por sua teoria favorita: que Andromedanos - uma raça superior da galáxia vizinha - estão controlando o planeta e também destruindo-o. Seu foco se concentra em Michelle (Emma Stone), a principal executiva da empresa farmacêutica que parece empregar a maior parte da cidade.
Michelle é magra, fabulosamente rica e uma verdadeira 'girlboss', enquanto Teddy é sujo e tem um rabo de cavalo engordurado. Eles não poderiam ser mais diferentes. Teddy e Don estão certos de que, se capturarem Michelle e a destruírem, salvarão a Terra, já que ela e sua empresa estão no centro desse complô andromedano. Ela, obviamente, é uma Deles.
Este não é realmente o filme mais estranho de Lanthimos, e não é o mais engraçado ou mais divertido também. É, mais do que tudo, meio triste. Teddy teve uma vida bem ruim, cujos detalhes são gradualmente revelados à medida que a história avança, e ele é o tipo de cara que você esperaria que se enredasse em uma teoria da conspiração.
Michelle o identifica com bastante precisão como alguém preso em uma câmara de eco da internet, entrando em uma espiral onde cada uma de suas ideias é reforçada por outra. ('Isso é alguma bobagem que você leu no The Times?', ele grita para ela, só que ele não diz bobagem, e na verdade ela provavelmente ouviu o podcast.)
Mas mesmo um Lanthimos menor tem seus prazeres, se você gosta do que ele faz. Há um absurdismo errático em seu estilo: justo quando você acha que sabe do que se trata este filme, ele te sacode para o lado por um segundo, para que você não fique muito confortável. Você precisa continuar assistindo, apenas para saber no que tudo isso vai resultar - e provavelmente você não vai adivinhar o final.
Na verdade, porém, o motivo para assistir 'Bugonia' são seus protagonistas. Esta é a quarta colaboração de Stone com Lanthimos após 'A Favorita', 'Pobres Criaturas' e 'Tipos de Gentileza'. A maior parte do filme gira em torno da insistência de Teddy de que Michelle é uma alienígena e da insistência de Michelle de que ela não é. É um papel ideal para Stone, com seus olhos de anime imensos e sorriso levemente sobrenatural, e sua habilidade de alternar entre expressões impassíveis e vivacidade em um piscar de olhos.
A estrela do show, no entanto, é Plemons, que atuou ao lado de Stone em todos os três segmentos do tríptico 'Tipos de Gentileza', mas aqui recebe uma história de longa duração para brincar. Teddy não é um personagem fácil de interpretar. Ele é desagradável, preso em algum estado de desenvolvimento estagnado, absolutamente certo de sua razão e ainda assim totalmente ridículo e quase certamente perigoso. Ele desceu tanto em sua espiral que tem que falar com palavras muito difíceis, encadeadas em frases cuidadosamente ensaiadas, recitando-as apressadamente como se tivesse medo de ser tirado do seu caminho.
Tudo isso resulta em um filme que se assemelha mais a um drama de personagens do que a um filme de ação, embora seja um drama particularmente estranho. O que é mais notável, do ponto de vista de Lanthimos, é que desapareceram as frases rebuscadas e a gramática que soavam como se o diálogo tivesse sido (propositalmente) traduzido pelo Google Tradutor e revertido várias vezes".
"Bugonia" concorre ao Oscar de Melhor Filme, Atriz (Emma Stone), Roteiro Adaptado (Will Tracy) e Trilha Sonora (Jerskin Fendrix).
O que disse a crítica 1: Natalia Bocanera do site Cinema com Crítica avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Se a hierarquização social é manifesta nas relações, 'Bugonia' soa exagerado na representação do oprimido. Lanthimos não se importa em ridicularizar essas figuras, para submetê-las cada vez mais profundamente a uma exploração pelo corporativismo representado pela CEO a ponto de fundir a ignorância à classe trabalhadora. Não há vitimização do oprimido, que vai reproduzir a lógica de violência como resposta à sua realidade, e fica evidente a ideia de imutabilidade do poder. Entretanto, o tom da ridicularização ultrapassa os limites de uma ironia que já ficou por nós bem compreendida, tornando-se expressão incômoda de uma classe".
O que disse a crítica 2: Victor Cierro do site Tangerina UOL avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Bugonia' é, acima de tudo, um retrato afiado do nosso tempo. É sobre o poder da crença, o medo do desconhecido e a facilidade com que a verdade se distorce nas telas. Lanthimos entrega aqui não só o melhor filme de 2025 até agora, mas também um lembrete perturbador de como a ficção pode refletir – e expor – os nossos piores impulsos".
O que eu achei: A palavra grega “bugonia” - que dá título ao filme - remete à ideia de nascimento espontâneo. Etimologicamente, é construída pela junção dos significados de boi e geração, aludindo ao mito segundo o qual especificamente as abelhas podem nascer a partir de um boi ou animal morto em sacrifício. Segundo a crença, um apicultor chamado Aristeu, após perder suas colmeias, recupera-as por meio da bugonia, fazendo emergir novas abelhas da carcaça de um boi. Esse termo vem bem a calhar quando o assunto é teoria da conspiração, algo que afeta pessoas a acreditarem que as ideias mais absurdas - aquelas sem base científica e sem compromisso com a realidade, propagadas pelos chamados 'tios do zap' - podem se tornar reais. No filme, dois conspiracionistas - Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) - estão obcecados com a ideia de que Andromedanos - uma raça superior da galáxia vizinha - estão controlando o planeta Terra e também destruindo-o. Eles são apicultores e estão vendo as abelhas desaparecerem. Teddy viu no YouTube explicações sobre o assunto e está crente que Michelle (Emma Stone) - a principal executiva da empresa farmacêutica local - é uma deles. O plano então é capturá-la e fazer com ela os leve até seu imperador que vive em Andrômeda para tentar resolver esse assunto diretamente com ele. O filme é estranho, bizarro, paranoico, bem no estilo Yorgos Lanthimos de ser. Ele prende a atenção até o final, você mal pisca para poder acompanhar onde isso tudo vai dar. Mas achei o final decepcionante pois, apesar dele mostrar como crenças extremas e ambições pessoais podem deixar uma pessoa insana, ele acaba fazendo isso chancelando justamente esses comportamentos que nos desinformam e nos matam, se perdendo em seu próprio jogo de poder e ironia. Se a ideia era dizer que uma mentira repetida inúmeras vezes se torna verdade (a pós-verdade), o longa atinge seu objetivo. Porém é sabido como um filme influencia a maneira de pensar das pessoas então, por conta do final, que pode acabar fazendo um estrago tão nocivo quanto as próprias teorias da conspiração, acabei não gostando tanto. É um filme que vale ser visto pelo elenco (não sei como Jesse Plemons não está indicado ao Oscar), mas não pela sua conclusão. Mediano, no máximo.