2.3.26

"Pixote: a Lei do Mais Fraco" - Hector Babenco (Brasil, 1981)

Sinopse:
Pixote (Fernando Ramos da Silva) foi abandonado por seus pais e rouba para viver nas ruas. Ele já esteve internado em reformatórios onde conviveu com todos os tipos de criminosos e jovens delinquentes. Ele sobrevive se tornando um pequeno traficante de drogas, cafetão e assassino, mesmo tendo apenas dez anos.
Comentário: Trata-se do filme número 84 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Duas décadas antes de 'Cidade de Deus', o cinema brasileiro ganhava uma radiografia impiedosa da violência nas ruas e de como ela condenou a juventude das classes miseráveis a buscar o crime como caminho para a sobrevivência. 'Pixote: a Lei do Mais Fraco' conta a história de um garoto de dez anos que é recolhido das ruas de São Paulo para ser internado em um reformatório. Dois de seus amigos são assassinados e, com mais três colegas, ele foge para o Rio de Janeiro, onde entra para o mundo do tráfico de drogas, dos assaltos, assassinatos e da prostituição. Marília Pêra interpreta Sueli, prostituta que acolhe os jovens e os ajuda a cometer os crimes. Em uma cena de forte carga simbólica, Sueli amamenta Pixote, órfão não só dos pais, mas do país que o abandonou. Dirigido pelo argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (de 'Carandiru', de 2003 e 'O Beijo da Mulher Aranha', de 1985), 'Pixote' é baseado no livro-reportagem de Jozé Louzeiro, 'A Infância dos Mortos'. Segundo Babenco, trata-se de um 'momento de realidade do cotidiano'. A produção atingiu grande sucesso no exterior: foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e venceu o prêmio Leopardo de Prata no festival de Locarno. A crítica internacional comparou a obra a 'Os Esquecidos' (1950), de Luis Buñuel, e ressaltou a atuação do protagonista, Fernando Ramos da Silva, um antigo menino de rua que não conseguiu abandonar a marginalidade e acabou morto em 1987, após um tiroteio com a polícia".
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de assistir os 100 filmes essenciais da lista elaborada pela Revista Bravo! em 2007, desta vez conferi "Pixote: a Lei do Mais Fraco" (1981), um clássico incontornável do cinema brasileiro, baseado no livro "Infância dos Mortos" de José Louzeiro. O filme retrata a ausência total de perspectivas para crianças carentes e a brutalidade da 'lei do mais fraco' que rege tanto o reformatório quanto as ruas de São Paulo. A trama acompanha quatro meninos internados em uma instituição marcada por abusos e injustiças. Revoltados, eles fogem e passam a sobreviver ao lado da prostituta Sueli, envolvendo-se com traficantes e pequenos criminosos. Babenco mistura realismo social com um estilo quase documental, há um naturalismo aqui que nenhum outro trabalho seu alcançou. Nada é suavizado: a violência institucional, o abandono e a degradação são expostos sem filtros. O espectador não observa à distância, sente-se dentro daquele universo sufocante. O impacto é ampliado pelo elenco majoritariamente amador. Os meninos, incluindo o protagonista interpretado por Fernando Ramos da Silva, foram escolhidos entre mais de 3 mil candidatos em comunidades carentes. Essa escolha confere uma verdade rara às atuações. Uma das sequências dialoga diretamente com o “Caso Camanducaia”, episódio real de 1974 que simbolizou uma tentativa de limpeza social contra menores de rua. A cena mais célebre envolve Marília Pera como Sueli. O momento em que Pixote, doente, se aninha em seu colo e ela, num gesto improvisado, oferece o peito ao menino, seguido pela rejeição, concentra toda a melancolia do filme. Ali, Fernando Ramos da Silva traduz a dor e o abandono com força devastadora. Premiado no Brasil e no exterior, indicado ao Globo de Ouro e eleito Melhor Filme Estrangeiro por associações de críticos de Los Angeles e Nova York, "Pixote" permanece atual e perturbador. A trágica morte de Fernando Ramos da Silva que não conseguiu seguir carreira como ator ingressando no mundo da criminalidade, apenas reforça o elo cruel entre ficção e realidade. É um filme implacável, cru e absolutamente devastador. Impossível sair ileso.