
Comentário: Walter Salles (1956) é um cineasta brasileiro. Herdeiro do Itaú Unibanco, ele é uma figura importante do Cinema de Retomada no Brasil. Seus filmes ganharam prêmios em Cannes, Veneza, no British Academy Film Awards, ganhou Urso de Ouro, Globo de Ouro e Oscar. Já vi dele os ótimos "Diários de Motocicleta" (2004) e “Ainda Estou Aqui” (2024) e o bom "Na Estrada" (2012). Daniela Thomas (1959) é uma cineasta, diretora teatral, dramaturga, iluminadora, cenógrafa e figurinista brasileira. Ela é filha do desenhista e cartunista Ziraldo e irmã do compositor Antonio Pinto. “Terra Estrangeira” (1995) foi dirigido numa parceria entre ela e Walter Salles.
A ideia do filme surgiu a partir de uma fotografia encontrada na capa de um livro, onde se via um casal à deriva, encalhado numa praia deserta como um navio emborcado na areia. Segundo Walter Salles, "pouco a pouco, foi ficando claro que aquela cena refletia formas distintas de exílio: político, econômico, afetivo”.
Karina Braga do site Culturadoria nos conta que "O filme foi considerado um dos 100 melhores do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Ao lado de 'Carlota Joaquina: Princesa do Brazil' (1995) e 'O Quatrilho' (1995), 'Terra Estrangeira' (1995) foi um marco na reestruturação do cinema nacional porque, naquela época, vivíamos tempos obscuros, marcados pelo corte radical de incentivos à produção cultural, providos pelo então presidente Fernando Collor [que presidiu o Brasil de 1990-1992]. Foi nesse cenário de terra arrasada que nasceu, então, 'Terra Estrangeira'.
Selecionado pelo festival de Roterdã, uma grande vitrine do cinema autoral, o filme era a primeira produção brasileira a participar desta competição em muitos anos. 'Terra Estrangeira' conta a história do jovem Paco (Fernando Alves Pinto) que resolve migrar para Portugal e se encontra com Alex (Fernanda Torres). Juntos se envolvem com pessoas perigosas e tentam uma fuga alucinada para a Espanha.
O filme sintetiza o sentimento de desilusão que tomou conta do país na época, sendo muito bem traduzido pela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho. Essa estética bicolor é, na verdade, também protagonista, porque fala de um Brasil frio e opaco. Um país vivenciando, de fato, o espírito de estar à deriva. O preto-e-branco adotado pelo diretor de fotografia, retira todo os adereços, as distrações, e foca naquilo que é o essencial: a realidade seca dos personagens, párias em terra estrangeira.
O filme foi bem aceito pela crítica e pelo público em geral, marcando o reinício do cinema brasileiro no cenário dos festivais internacionais. Acabou vencedor do Prêmio Golden Rosa Camuna como Melhor Diretor; Grand Prix, Melhor Filme Estrangeiro; Margarida de Prata, Melhor Filme; e troféu APCA, Melhor Roteiro.
Podemos dizer que a imagem de um navio encalhado numa praia, que acabou inspirando o filme 'Terra Estrangeira', era a metáfora ideal para o Brasil em meados de 1990. O momento histórico da criação do filme foi marcado pela completa desilusão nacional. O Brasil, presidido por um falso caçador de marajás, acabou se perdendo em meio à inflação descontrolada e medidas econômicas caóticas, com aumento claro no nível de pobreza da população. O presidente Fernando Collor também opta por atacar a cultura e a educação. Em março de 1990, ao assumir a Presidência da República extinguiu o Ministério da Cultura. Um mês depois, o Programa Nacional de Desestatização deu fim à Embrafilme e, do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema foi desestruturada. Houve, inclusive, o confisco da poupança de todos os brasileiros, que acabou por provocar um aumento na taxa de suicídio e fuga do país, ou seja, a busca por uma maior estabilidade em terra estrangeira. Fica claro, aqui, o sentimento de completa deriva do povo brasileiro, o que justifica a metáfora do barco que deu origem a filme".
O que disse a crítica 1: César Barzine do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "Português é a língua predominante neste filme cartográfico. Há vozes de brasileiros, portugueses e angolanos falando a mesma língua, contudo, apesar de ser um único idioma, a comunicação entre eles parece ser algo ausente. A língua é, na verdade, a peça-chave para acentuar a distância entre esses personagens".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: "Manifestando o embate entre o ímpeto da juventude e as barreiras impostas pela conjuntura sócio-política, seja a do Brasil, antes chamado de país do futuro, ou a da Europa, o Velho Continente decrépito, simbolizado pelo navio encalhado à beira da praia, 'Terra Estrangeira' se apresenta como um filme pungente, bonito em sua abordagem dura e melancólica da realidade. A melodia de ‘Vapor Barato’, um dos grandes clássicos da MPB, acompanha sutilmente boa parte da viagem de Paco e Alex rumo a novas transposições de divisas para, então, tentar a felicidade. Quando tudo se direciona ao terreno da indefinição, com ares de possível tragédia, a voz de Gal Costa substitui a de Fernanda Torres, atriz que até ali cantarolava a música, o que reforça a desesperança e o nó na garganta. Não se trata de ser pessimista. Walter Salles e Daniela Thomas apenas capturam o estado das coisas, contrapondo valores, sendo o humano maior que o das joias ou o do violino raro, segundo suas manifestadas convicções".
O que eu achei: “Terra Estrangeira” (1995) foi o terceiro filme feito pelo Walter Salles. O primeiro foi "A Grande Arte" (1991), uma produção de porte considerável, falada em inglês, com casting gringo. O segundo foi um curta-metragem. Então pode-se dizer que o longa é de um cineasta bem em início de carreira. A direção é dividida com Daniela Thomas, que acabara de realizar os cenários e figurinos de "The Flash and the Crash Days", peça dirigida por Gerald Thomas. O roteiro traz as marcas de seu tempo, época em que era possível entrever as contradições de um mundo cada vez mais integrado, mas com pessoas cada vez mais desenraizadas, não somente de uma nacionalidade ou de outra, mas da dignidade, da cidadania, e da relação com o outro. A atriz Fernanda Torres, que na época estava com 30 anos, é uma das protagonistas. Li uma matéria assinada por ela no jornal Folha SP dizendo: "Imagine um país inviável, presidido por um falso caçador de corruptos, que vê a cultura e a educação como inimigas. Imagine que esse mesmo país, com taxa de inflação descontrolada e miséria crescente, se valha de medidas econômicas caóticas, forçando muitos de seus habitantes a optar pelo exílio, párias em terras estrangeiras. Esse era o Brasil do início da década de 1990". O falso caçador de corruptos a que ela se refere é Fernando Collor de Melo, que presidiu o Brasil de 1990 até 1992. Foram apenas 2 anos, mas o estrago foi grande. Assim que ele assumiu o cargo, ele extinguiu o Ministério da Cultura e, um mês depois, deu fim à Embrafilme. Fernanda Torres conta que do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema de pé foi desmantelada. Não havia nem sequer um telefone fixo para atender uma ligação. Ela estava no México quando recebeu a notícia do confisco de Zélia Cardoso de Mello, ou seja, o governo havia se apoderado de todo o dinheiro depositado pelos brasileiros nos bancos. Quem viveu essa época sabe o pesadelo que foi, muita gente se suicidou ao se ver praticamente sem um tostão furado no bolso. O longa está longe do resultado de filmes posteriores do Walter Salles, como "Central do Brasil" (1998) ou "Ainda Estou Aqui" (2025), mas conta com um bom elenco - além da Fernanda, há o Alexandre Borges e a Laura Cardoso – e ótima trilha sonora com destaque para a canção 'Vapor Barato' escrita por Jards Macalé e Waly Salomão e interpretada por Gal Costa. Restaurado em 4K ele está disponível em plataformas de streaming, sendo uma oportunidade de ser visto como um marco dos anos 1990, com sua representação do deslocamento, sua estética marcante e por capturar um momento histórico crucial do Brasil.
A ideia do filme surgiu a partir de uma fotografia encontrada na capa de um livro, onde se via um casal à deriva, encalhado numa praia deserta como um navio emborcado na areia. Segundo Walter Salles, "pouco a pouco, foi ficando claro que aquela cena refletia formas distintas de exílio: político, econômico, afetivo”.
Karina Braga do site Culturadoria nos conta que "O filme foi considerado um dos 100 melhores do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Ao lado de 'Carlota Joaquina: Princesa do Brazil' (1995) e 'O Quatrilho' (1995), 'Terra Estrangeira' (1995) foi um marco na reestruturação do cinema nacional porque, naquela época, vivíamos tempos obscuros, marcados pelo corte radical de incentivos à produção cultural, providos pelo então presidente Fernando Collor [que presidiu o Brasil de 1990-1992]. Foi nesse cenário de terra arrasada que nasceu, então, 'Terra Estrangeira'.
Selecionado pelo festival de Roterdã, uma grande vitrine do cinema autoral, o filme era a primeira produção brasileira a participar desta competição em muitos anos. 'Terra Estrangeira' conta a história do jovem Paco (Fernando Alves Pinto) que resolve migrar para Portugal e se encontra com Alex (Fernanda Torres). Juntos se envolvem com pessoas perigosas e tentam uma fuga alucinada para a Espanha.
O filme sintetiza o sentimento de desilusão que tomou conta do país na época, sendo muito bem traduzido pela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho. Essa estética bicolor é, na verdade, também protagonista, porque fala de um Brasil frio e opaco. Um país vivenciando, de fato, o espírito de estar à deriva. O preto-e-branco adotado pelo diretor de fotografia, retira todo os adereços, as distrações, e foca naquilo que é o essencial: a realidade seca dos personagens, párias em terra estrangeira.
O filme foi bem aceito pela crítica e pelo público em geral, marcando o reinício do cinema brasileiro no cenário dos festivais internacionais. Acabou vencedor do Prêmio Golden Rosa Camuna como Melhor Diretor; Grand Prix, Melhor Filme Estrangeiro; Margarida de Prata, Melhor Filme; e troféu APCA, Melhor Roteiro.
Podemos dizer que a imagem de um navio encalhado numa praia, que acabou inspirando o filme 'Terra Estrangeira', era a metáfora ideal para o Brasil em meados de 1990. O momento histórico da criação do filme foi marcado pela completa desilusão nacional. O Brasil, presidido por um falso caçador de marajás, acabou se perdendo em meio à inflação descontrolada e medidas econômicas caóticas, com aumento claro no nível de pobreza da população. O presidente Fernando Collor também opta por atacar a cultura e a educação. Em março de 1990, ao assumir a Presidência da República extinguiu o Ministério da Cultura. Um mês depois, o Programa Nacional de Desestatização deu fim à Embrafilme e, do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema foi desestruturada. Houve, inclusive, o confisco da poupança de todos os brasileiros, que acabou por provocar um aumento na taxa de suicídio e fuga do país, ou seja, a busca por uma maior estabilidade em terra estrangeira. Fica claro, aqui, o sentimento de completa deriva do povo brasileiro, o que justifica a metáfora do barco que deu origem a filme".
O que disse a crítica 1: César Barzine do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: "Português é a língua predominante neste filme cartográfico. Há vozes de brasileiros, portugueses e angolanos falando a mesma língua, contudo, apesar de ser um único idioma, a comunicação entre eles parece ser algo ausente. A língua é, na verdade, a peça-chave para acentuar a distância entre esses personagens".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: "Manifestando o embate entre o ímpeto da juventude e as barreiras impostas pela conjuntura sócio-política, seja a do Brasil, antes chamado de país do futuro, ou a da Europa, o Velho Continente decrépito, simbolizado pelo navio encalhado à beira da praia, 'Terra Estrangeira' se apresenta como um filme pungente, bonito em sua abordagem dura e melancólica da realidade. A melodia de ‘Vapor Barato’, um dos grandes clássicos da MPB, acompanha sutilmente boa parte da viagem de Paco e Alex rumo a novas transposições de divisas para, então, tentar a felicidade. Quando tudo se direciona ao terreno da indefinição, com ares de possível tragédia, a voz de Gal Costa substitui a de Fernanda Torres, atriz que até ali cantarolava a música, o que reforça a desesperança e o nó na garganta. Não se trata de ser pessimista. Walter Salles e Daniela Thomas apenas capturam o estado das coisas, contrapondo valores, sendo o humano maior que o das joias ou o do violino raro, segundo suas manifestadas convicções".
O que eu achei: “Terra Estrangeira” (1995) foi o terceiro filme feito pelo Walter Salles. O primeiro foi "A Grande Arte" (1991), uma produção de porte considerável, falada em inglês, com casting gringo. O segundo foi um curta-metragem. Então pode-se dizer que o longa é de um cineasta bem em início de carreira. A direção é dividida com Daniela Thomas, que acabara de realizar os cenários e figurinos de "The Flash and the Crash Days", peça dirigida por Gerald Thomas. O roteiro traz as marcas de seu tempo, época em que era possível entrever as contradições de um mundo cada vez mais integrado, mas com pessoas cada vez mais desenraizadas, não somente de uma nacionalidade ou de outra, mas da dignidade, da cidadania, e da relação com o outro. A atriz Fernanda Torres, que na época estava com 30 anos, é uma das protagonistas. Li uma matéria assinada por ela no jornal Folha SP dizendo: "Imagine um país inviável, presidido por um falso caçador de corruptos, que vê a cultura e a educação como inimigas. Imagine que esse mesmo país, com taxa de inflação descontrolada e miséria crescente, se valha de medidas econômicas caóticas, forçando muitos de seus habitantes a optar pelo exílio, párias em terras estrangeiras. Esse era o Brasil do início da década de 1990". O falso caçador de corruptos a que ela se refere é Fernando Collor de Melo, que presidiu o Brasil de 1990 até 1992. Foram apenas 2 anos, mas o estrago foi grande. Assim que ele assumiu o cargo, ele extinguiu o Ministério da Cultura e, um mês depois, deu fim à Embrafilme. Fernanda Torres conta que do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema de pé foi desmantelada. Não havia nem sequer um telefone fixo para atender uma ligação. Ela estava no México quando recebeu a notícia do confisco de Zélia Cardoso de Mello, ou seja, o governo havia se apoderado de todo o dinheiro depositado pelos brasileiros nos bancos. Quem viveu essa época sabe o pesadelo que foi, muita gente se suicidou ao se ver praticamente sem um tostão furado no bolso. O longa está longe do resultado de filmes posteriores do Walter Salles, como "Central do Brasil" (1998) ou "Ainda Estou Aqui" (2025), mas conta com um bom elenco - além da Fernanda, há o Alexandre Borges e a Laura Cardoso – e ótima trilha sonora com destaque para a canção 'Vapor Barato' escrita por Jards Macalé e Waly Salomão e interpretada por Gal Costa. Restaurado em 4K ele está disponível em plataformas de streaming, sendo uma oportunidade de ser visto como um marco dos anos 1990, com sua representação do deslocamento, sua estética marcante e por capturar um momento histórico crucial do Brasil.