
Comentário: Mikhail Kalatozov(1903-1973) foi um cineasta, diretor de fotografia e roteirista russo – ele nasceu em Tiflis, URSS, hoje Tbilisi, Republica da Georgia. Ele trabalhou nos estúdios Lenfilm e Mosfilm, foi adido cultural na Embaixada da URSS nos EUA e ocupou o cargo de vice-ministro de Cinematografia. Dentre seus filmes estão “Coragem” (1939), “Valeri Chkalov” (1941), “Os Invencíveis” (1943), “Complô dos Condenados” (1950), “Turbilhões Hostis” (1953), “Três Homens Numa Balsa” (1953), “Soy Cuba” (1964) e “A Tenda Vermelha” (1969). "Quando Voam as Cegonhas" (1957) é o primeiro filme que vejo dele.
Fernando JG do site Plano Crítico publicou: "Até a morte de Stalin, e ainda alguns anos depois, a arte produzida na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) tinha como base o conceito de Realismo Socialista, em que a estética da criação estava minada pelos agentes do Estado, que decidiam o modo que a arte deveria ser produzida, e comumente apresentava o bem-estar soviético, o proletário como força de movimento, as paisagens rurais e o êxito do regime, como 'Lênin em Outubro' (1937), de Mikhail Romm e Dmitri Vasilyev.
Logo após essa centralização artística na URSS – que, convenhamos, não há nada de novo sob o sol de um regime totalitário, ainda que socialista -, a chave vira e Stalin morre, em 1957, e é então o momento em que a produção cinematográfica ganha novos ares e uma maior liberdade no ofício das artes. No ano seguinte da morte de Stalin, 'Quando Voam as Cegonhas' ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes ao retratar amor e guerra em um longa real e sentimental. Diferente da grande idealização de mundo proposta pelo realismo, 'Quando Voam as Cegonhas', ainda que dentro da influência do Partido, mostra também o outro lado da moeda ao filmar os destroços da Grande Guerra. É a partir deste instante que o cinema soviético abre caminho para a transição, cujo grande nome dessa mudança estética é Andrei Tarkovski com seu projeto simbólico e poético.
Particularmente, vejo que esse filme se aproxima de muitos outros que foram lançados mais para frente, como 'A Infância de Ivan' (1964), do Tarkovski, e 'A Russian Youth' (2019), de Alexander Zolotukhin. O traço comum em todos eles é que decidem tratar de um tema tão difícil com sensibilidade e delicadeza, com belos enquadramentos e um descritivismo excelente através da mise-en-scène. Se em Tarkovski e em Zolotukhin a guerra é vista pela ótica de uma criança, em 'Quando Voam as Cegonhas' este mesmo tema é visto por sobre as lentes do amor entre dois jovens, que têm suas vidas mudadas pela tragédia.
Boris (Aleksey Batalov) e Veronika (Tatyana Samoylova) caminham pela avenida, embebidos de paixão um pelo outro em um cenário hollywoodiano onde o amor é possível: É assim que começa o longa. Enquanto isso, no Céu, lá no alto, cegonhas voando, indicando mudança: é amor ou guerra? O diretor apresenta, com uma disposição cênica cheia de poesia, o casal de namorados, que segura um primeiro ato com planos e uma intensa vontade de estarem um ao lado do outro. É uma paixão jovem, avassaladora, que vai sofrer um processo de ruptura doloroso. Boris é proletário em uma fábrica, Veronika, uma enfermeira. Enquanto planejam uma vida juntos, a dois, Boris não deixa de pensar, por outro lado, que a guerra está batendo na porta e ele quer servir como voluntário – novamente esse heroísmo remanescente do realismo socialista aparece -, mas Veronika não concorda com essa ideia, e quando chega a carta de convocação, se desespera. Para ela, não é justo. E então Boris parte para a guerra, deixando Veronika, mas prometendo voltar. É um jovem nacionalista que quer salvar a sua nação do imperialismo nazista. Ao se separarem, ela acaba se casando com o primo de Boris algum tempo depois, enquanto este acaba por falecer no campo de batalha. Ela, em uma esperança quase messiânica, espera que o seu grande amor retorne, mas infelizmente já não é mais possível.
O diretor vê o seu próprio filme através de uma técnica chamada Chiaroscuro, apostando em contrastes tonais de Luz e Sombra para dar conta de uma carga dramática que oscila entre os temas do amor e da guerra. O uso estético diz tanto quanto o diálogo, já que a fotografia conta, por si só, a história. A câmera de mão visita minuciosamente, no primeiro momento, a beleza da cidade de Moscou. As luzes e a clareza da cidade se confundem com esse lirismo dos pombinhos enamorados. Vestida de branco, Veronika vive os seus melhores dias e é por ela que a gente conhece as belezas de uma Rússia pré-guerra. É lindo no ato inicial quando luz e sombra se camuflam e se sobreposicionam, como se uma entrasse dentro da outra, algo parecido com o que o Bergman fez em 'Persona' (1966) quando funde e mescla Alma e Elisabet.
Quando Boris vai para a guerra, predominantemente a sombra toma conta da ambientação, e o que antes era um cenário límpido e de possibilidade, como as ruas de Moscou no início do longa, dá lugar a um cenário de guerra, com trincheiras e barreiras por toda parte. A direção insiste em fazer esse contraste: o antes e o depois, demonstrando desastres por onde passa. É a versão soviética da guerra, abrindo para o público os horrores que a invasão alemã causou. Quando a direção decide retratar o abrigo, lugar que todos vão quando eclode uma guerra, ela o faz de maneira a mostrar o desespero e a desesperança em cada rosto, junto de um sombreamento característico.
A cena da explosão no apartamento, em que ela já está com o primo de Boris – e insatisfeita, óbvio, pois não o ama -, é um ótimo momento para mostrar a força desse expressionismo de luz e sombra, preto e branco, que atuam na construção cênica, como Murnau faz em 'Fausto' (1926). Nesta cena, do segundo ato, Moscou sofre um ataque aéreo, enquanto isso, o casal está dentro de casa tentando se proteger. A sombra toma conta da ambientação, junto com a carga dramática de um piano feroz. Veronika está vestida com uma mescla de cores brancas e pretas, e logo em seguida ela passa o resto do segundo e do terceiro ato vestida de roupas pretas. É a própria figura da sombra, representação da guerra e do luto. Ela passa por uma perda objetal e sofre de melancolia por essa perda causada pela guerra. Mesmo que demore a descobrir que seu amado foi morto, ela sofre pela ausência e as cores do seu vestuário denunciam esse sentimento de falta, bem como a acentuação de luz ou de sombra também indicam os sentimentos do momento.
Ao final do filme tudo retorna em branco: a luz do dia, a roupa de Veronika, as flores brancas. É o fim da guerra. As últimas cenas têm um forte apelo socialista, e é visivelmente influenciado pelos filmes de King Vidor, sobretudo pelo espírito de coletividade em 'O Pão Nosso' (1937). Cada cena parece ser pensada com detalhe, além de ter uma importância única na construção fílmica. Tudo é aproveitado. O plano-sequência de Veronika atravessando a casa indo abrir a porta para a mulher que entrega cartas, ansiosa para ver se tem algum recado para ela, é esteticamente lindo e tecnicamente impecável, com foco em cada movimento de avanço, em cada passo que ela dá. A câmera espiral, no momento em que Boris falece, seguida da alucinação é outro trunfo. Muito semelhante ao que Alejandro Jodorowsky fará em seu 'A Montanha Sagrada' (1973), com movimentos de câmera que se afastam do objeto como em um zoom, levando a quem assiste a um efeito hipnótico, o diretor aposta nesse distanciamento objetal no momento da morte de Boris, construindo um efeito prazeroso de assistir. Bem como a cena de Veronika atravessando os tanques de guerras numa atitude épica. Não surpreende em nada 'Quando Voam as Cegonhas' ter obtido a Palma de Ouro em Cannes.
Para falar de amor, o longa é apenas um soco no estômago. A trama da promessa de um amor eterno e do encontro de almas entre Boris e Veronika é de um romantismo ímpar. No entanto, tudo isso rompe com a eclosão da guerra. O tema da ausência e do abandono é o que impulsiona o drama. O diretor deixa a temática muito explícita na cena em que ouvimos o lamentar de um soldado ao descobrir que sua esposa o abandonou, e ele então deseja morrer naquele exato instante em que descobriu que foi trocado. O filme se utiliza da guerra para discutir também o amor. Veronika é, de algum modo, abandonada pelo marido que vai à guerra, e ela, por outro lado, não o espera retornar, casando com seu primo. Isso reverbera na própria situação das milhares de mulheres que perderam seus maridos, ou ficaram a uma eterna espera pelo retorno de alguém que não vai mais voltar. É uma fratura amorosa causada pela guerra. Se de um lado é a história épica dos perrengues e da vitória soviética em relação aos alemães, como numa hino de vitória e exaltação da própria União Soviética, por outro lado, é a narração de um coração partido e de uma mulher que sofre com um estado permanente de ausência e abandono em relação à sua perda amorosa, que se perde duas vezes: a primeira quando ele parte, a segunda quando ele morre. Mais a fundo, o roteiro trabalha de modo excelente a partir do mito do eterno retorno, reatualizando um motivo clássico nas artes e adaptando-o para a realidade soviética".
O que disse a crítica 1: Fernando JG do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: "Um belo filme russo, 'Quando Voam as Cegonhas' trata de uma situação comum no momento de guerra, que é quando o homem precisa partir, deixando família, esposa e filhos. Sem medo de que o melodrama possa atrapalhar a narrativa, a direção aposta justamente nela como fio condutor e obtém um resultado esteticamente impecável e uma narração excelente. Além disso, figura entre os filmes favoritos de Scorsese e do Coppola, o que não é pouca coisa".
O que disse a crítica 2: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica também avaliou com 4,5 estrelas. Escreveu: "'Quando Voam as Cegonhas' impressiona pela sua estética e pela mensagem pacifista". Segundo ele "os planos são belíssimos" e "os sons de bombas e outros ruídos substituem a música". É "uma experiência visualmente deslumbrante que reforça os momentos dramáticos de sua bela estória".
O que eu achei: Produzido pela Mosfilm o longa é um marco do cinema soviético do pós-guerra e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Ambientado em 1941, no momento em que a Alemanha invade a URSS, o filme acompanha Boris (Aleksey Batalov), jovem que se alista no Exército Vermelho pouco antes do aniversário de sua namorada Veronika (Tatyana Samoylova). Disposto a lutar e retornar como herói, ele deixa para trás uma vida que será profundamente transformada pelos efeitos da guerra. Embora ainda dialogue com a tradição patriótica do período, exaltando coragem, bravura e a importância dos heróis, o filme surge poucos anos após a morte de Stalin, em 1953, e já revela um abrandamento do tom propagandístico. O drama humano ganha espaço central. A guerra não é apenas mostrada como cenário épico, mas como uma força devastadora que reverbera no cotidiano das famílias e, sobretudo, na trajetória de Veronika. É a partir dela que o filme constrói seu núcleo moral. Em uma das sequências mais impactantes, Veronika parece ser violentada pelo primo de Boris. Carregando a vergonha e o peso do ocorrido, ela aceita casar-se com ele, mesmo consciente do sofrimento que isso pode causar ao namorado no front. Esse conflito íntimo amplia o debate sobre honra, culpa e sobrevivência emocional em tempos extremos. A célebre cena final simboliza uma espécie de libertação da personagem Veronika sugerindo um certo protagonismo feminino, algo impensável na década anterior. Há traços de melodrama, típicos do período, mas eles nunca ultrapassam o limite do aceitável. Com isso, o resultado é um filme forte, que equilibra contexto histórico e intensidade emocional. Atenção à fotografia de Sergey Urusevskiy. Boa parte da potência do filme se deve aos movimentos de câmera e às soluções expressivas que traduzem emoções de maneira singular. Boa pedida.
Fernando JG do site Plano Crítico publicou: "Até a morte de Stalin, e ainda alguns anos depois, a arte produzida na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) tinha como base o conceito de Realismo Socialista, em que a estética da criação estava minada pelos agentes do Estado, que decidiam o modo que a arte deveria ser produzida, e comumente apresentava o bem-estar soviético, o proletário como força de movimento, as paisagens rurais e o êxito do regime, como 'Lênin em Outubro' (1937), de Mikhail Romm e Dmitri Vasilyev.
Logo após essa centralização artística na URSS – que, convenhamos, não há nada de novo sob o sol de um regime totalitário, ainda que socialista -, a chave vira e Stalin morre, em 1957, e é então o momento em que a produção cinematográfica ganha novos ares e uma maior liberdade no ofício das artes. No ano seguinte da morte de Stalin, 'Quando Voam as Cegonhas' ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes ao retratar amor e guerra em um longa real e sentimental. Diferente da grande idealização de mundo proposta pelo realismo, 'Quando Voam as Cegonhas', ainda que dentro da influência do Partido, mostra também o outro lado da moeda ao filmar os destroços da Grande Guerra. É a partir deste instante que o cinema soviético abre caminho para a transição, cujo grande nome dessa mudança estética é Andrei Tarkovski com seu projeto simbólico e poético.
Particularmente, vejo que esse filme se aproxima de muitos outros que foram lançados mais para frente, como 'A Infância de Ivan' (1964), do Tarkovski, e 'A Russian Youth' (2019), de Alexander Zolotukhin. O traço comum em todos eles é que decidem tratar de um tema tão difícil com sensibilidade e delicadeza, com belos enquadramentos e um descritivismo excelente através da mise-en-scène. Se em Tarkovski e em Zolotukhin a guerra é vista pela ótica de uma criança, em 'Quando Voam as Cegonhas' este mesmo tema é visto por sobre as lentes do amor entre dois jovens, que têm suas vidas mudadas pela tragédia.
Boris (Aleksey Batalov) e Veronika (Tatyana Samoylova) caminham pela avenida, embebidos de paixão um pelo outro em um cenário hollywoodiano onde o amor é possível: É assim que começa o longa. Enquanto isso, no Céu, lá no alto, cegonhas voando, indicando mudança: é amor ou guerra? O diretor apresenta, com uma disposição cênica cheia de poesia, o casal de namorados, que segura um primeiro ato com planos e uma intensa vontade de estarem um ao lado do outro. É uma paixão jovem, avassaladora, que vai sofrer um processo de ruptura doloroso. Boris é proletário em uma fábrica, Veronika, uma enfermeira. Enquanto planejam uma vida juntos, a dois, Boris não deixa de pensar, por outro lado, que a guerra está batendo na porta e ele quer servir como voluntário – novamente esse heroísmo remanescente do realismo socialista aparece -, mas Veronika não concorda com essa ideia, e quando chega a carta de convocação, se desespera. Para ela, não é justo. E então Boris parte para a guerra, deixando Veronika, mas prometendo voltar. É um jovem nacionalista que quer salvar a sua nação do imperialismo nazista. Ao se separarem, ela acaba se casando com o primo de Boris algum tempo depois, enquanto este acaba por falecer no campo de batalha. Ela, em uma esperança quase messiânica, espera que o seu grande amor retorne, mas infelizmente já não é mais possível.
O diretor vê o seu próprio filme através de uma técnica chamada Chiaroscuro, apostando em contrastes tonais de Luz e Sombra para dar conta de uma carga dramática que oscila entre os temas do amor e da guerra. O uso estético diz tanto quanto o diálogo, já que a fotografia conta, por si só, a história. A câmera de mão visita minuciosamente, no primeiro momento, a beleza da cidade de Moscou. As luzes e a clareza da cidade se confundem com esse lirismo dos pombinhos enamorados. Vestida de branco, Veronika vive os seus melhores dias e é por ela que a gente conhece as belezas de uma Rússia pré-guerra. É lindo no ato inicial quando luz e sombra se camuflam e se sobreposicionam, como se uma entrasse dentro da outra, algo parecido com o que o Bergman fez em 'Persona' (1966) quando funde e mescla Alma e Elisabet.
Quando Boris vai para a guerra, predominantemente a sombra toma conta da ambientação, e o que antes era um cenário límpido e de possibilidade, como as ruas de Moscou no início do longa, dá lugar a um cenário de guerra, com trincheiras e barreiras por toda parte. A direção insiste em fazer esse contraste: o antes e o depois, demonstrando desastres por onde passa. É a versão soviética da guerra, abrindo para o público os horrores que a invasão alemã causou. Quando a direção decide retratar o abrigo, lugar que todos vão quando eclode uma guerra, ela o faz de maneira a mostrar o desespero e a desesperança em cada rosto, junto de um sombreamento característico.
A cena da explosão no apartamento, em que ela já está com o primo de Boris – e insatisfeita, óbvio, pois não o ama -, é um ótimo momento para mostrar a força desse expressionismo de luz e sombra, preto e branco, que atuam na construção cênica, como Murnau faz em 'Fausto' (1926). Nesta cena, do segundo ato, Moscou sofre um ataque aéreo, enquanto isso, o casal está dentro de casa tentando se proteger. A sombra toma conta da ambientação, junto com a carga dramática de um piano feroz. Veronika está vestida com uma mescla de cores brancas e pretas, e logo em seguida ela passa o resto do segundo e do terceiro ato vestida de roupas pretas. É a própria figura da sombra, representação da guerra e do luto. Ela passa por uma perda objetal e sofre de melancolia por essa perda causada pela guerra. Mesmo que demore a descobrir que seu amado foi morto, ela sofre pela ausência e as cores do seu vestuário denunciam esse sentimento de falta, bem como a acentuação de luz ou de sombra também indicam os sentimentos do momento.
Ao final do filme tudo retorna em branco: a luz do dia, a roupa de Veronika, as flores brancas. É o fim da guerra. As últimas cenas têm um forte apelo socialista, e é visivelmente influenciado pelos filmes de King Vidor, sobretudo pelo espírito de coletividade em 'O Pão Nosso' (1937). Cada cena parece ser pensada com detalhe, além de ter uma importância única na construção fílmica. Tudo é aproveitado. O plano-sequência de Veronika atravessando a casa indo abrir a porta para a mulher que entrega cartas, ansiosa para ver se tem algum recado para ela, é esteticamente lindo e tecnicamente impecável, com foco em cada movimento de avanço, em cada passo que ela dá. A câmera espiral, no momento em que Boris falece, seguida da alucinação é outro trunfo. Muito semelhante ao que Alejandro Jodorowsky fará em seu 'A Montanha Sagrada' (1973), com movimentos de câmera que se afastam do objeto como em um zoom, levando a quem assiste a um efeito hipnótico, o diretor aposta nesse distanciamento objetal no momento da morte de Boris, construindo um efeito prazeroso de assistir. Bem como a cena de Veronika atravessando os tanques de guerras numa atitude épica. Não surpreende em nada 'Quando Voam as Cegonhas' ter obtido a Palma de Ouro em Cannes.
Para falar de amor, o longa é apenas um soco no estômago. A trama da promessa de um amor eterno e do encontro de almas entre Boris e Veronika é de um romantismo ímpar. No entanto, tudo isso rompe com a eclosão da guerra. O tema da ausência e do abandono é o que impulsiona o drama. O diretor deixa a temática muito explícita na cena em que ouvimos o lamentar de um soldado ao descobrir que sua esposa o abandonou, e ele então deseja morrer naquele exato instante em que descobriu que foi trocado. O filme se utiliza da guerra para discutir também o amor. Veronika é, de algum modo, abandonada pelo marido que vai à guerra, e ela, por outro lado, não o espera retornar, casando com seu primo. Isso reverbera na própria situação das milhares de mulheres que perderam seus maridos, ou ficaram a uma eterna espera pelo retorno de alguém que não vai mais voltar. É uma fratura amorosa causada pela guerra. Se de um lado é a história épica dos perrengues e da vitória soviética em relação aos alemães, como numa hino de vitória e exaltação da própria União Soviética, por outro lado, é a narração de um coração partido e de uma mulher que sofre com um estado permanente de ausência e abandono em relação à sua perda amorosa, que se perde duas vezes: a primeira quando ele parte, a segunda quando ele morre. Mais a fundo, o roteiro trabalha de modo excelente a partir do mito do eterno retorno, reatualizando um motivo clássico nas artes e adaptando-o para a realidade soviética".
O que disse a crítica 1: Fernando JG do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: "Um belo filme russo, 'Quando Voam as Cegonhas' trata de uma situação comum no momento de guerra, que é quando o homem precisa partir, deixando família, esposa e filhos. Sem medo de que o melodrama possa atrapalhar a narrativa, a direção aposta justamente nela como fio condutor e obtém um resultado esteticamente impecável e uma narração excelente. Além disso, figura entre os filmes favoritos de Scorsese e do Coppola, o que não é pouca coisa".
O que disse a crítica 2: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica também avaliou com 4,5 estrelas. Escreveu: "'Quando Voam as Cegonhas' impressiona pela sua estética e pela mensagem pacifista". Segundo ele "os planos são belíssimos" e "os sons de bombas e outros ruídos substituem a música". É "uma experiência visualmente deslumbrante que reforça os momentos dramáticos de sua bela estória".
O que eu achei: Produzido pela Mosfilm o longa é um marco do cinema soviético do pós-guerra e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Ambientado em 1941, no momento em que a Alemanha invade a URSS, o filme acompanha Boris (Aleksey Batalov), jovem que se alista no Exército Vermelho pouco antes do aniversário de sua namorada Veronika (Tatyana Samoylova). Disposto a lutar e retornar como herói, ele deixa para trás uma vida que será profundamente transformada pelos efeitos da guerra. Embora ainda dialogue com a tradição patriótica do período, exaltando coragem, bravura e a importância dos heróis, o filme surge poucos anos após a morte de Stalin, em 1953, e já revela um abrandamento do tom propagandístico. O drama humano ganha espaço central. A guerra não é apenas mostrada como cenário épico, mas como uma força devastadora que reverbera no cotidiano das famílias e, sobretudo, na trajetória de Veronika. É a partir dela que o filme constrói seu núcleo moral. Em uma das sequências mais impactantes, Veronika parece ser violentada pelo primo de Boris. Carregando a vergonha e o peso do ocorrido, ela aceita casar-se com ele, mesmo consciente do sofrimento que isso pode causar ao namorado no front. Esse conflito íntimo amplia o debate sobre honra, culpa e sobrevivência emocional em tempos extremos. A célebre cena final simboliza uma espécie de libertação da personagem Veronika sugerindo um certo protagonismo feminino, algo impensável na década anterior. Há traços de melodrama, típicos do período, mas eles nunca ultrapassam o limite do aceitável. Com isso, o resultado é um filme forte, que equilibra contexto histórico e intensidade emocional. Atenção à fotografia de Sergey Urusevskiy. Boa parte da potência do filme se deve aos movimentos de câmera e às soluções expressivas que traduzem emoções de maneira singular. Boa pedida.