1.3.26

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" - Chloé Zhao (Reino Unido/EUA, 2025)

Sinopse:
 A história de Agnes (Jessie Buckley) - a esposa de William Shakespeare (Paul Mescal) - enquanto ela luta para lidar com a perda de seu único filho, Hamnet (Jacobi Jupe).
Comentário: Chloé Zhao (1982) é uma diretora, roteirista, produtora e editora chinesa conhecida por seu trabalho em filmes independentes americanos. Seu primeiro filme, "Songs My Brothers Taught Me" (2015), estreou no Festival Sundance de Cinema. Seu segundo longa-metragem, "The Rider" (2017), recebeu indicações ao Independent Spirit Award de Melhor Filme e Melhor Diretor. Assisti dela o excelente "Nomadland" - Chloé Zhao (EUA, 2020) que ganhou o Oscar nas categorias Filme, Direção e Atriz (McDormand), de um total de seis indicações. Desta vez vou conferir "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (2025).
Paula Jacob da Harpers Bazaar publicou: "Conhecida por realizar filmes que misturam elementos de documentário com ficção, Chloé Zhao já amadureceu o seu olhar e formato, mas a essência da sua direção permanece a mesma: conseguir alcançar o âmago, tanto da história quanto do espectador. Em 'Hamnet' não é diferente. O filme tem roteiro adaptado por ela e Maggie O’Farrell, autora do livro de mesmo nome, publicado em 2021, que conta a vida de William Shakespeare antes de estontear a sociedade inglesa com a estreia da peça 'Hamlet'.
A narrativa é uma fabulação, porque pouco ou quase nada sobre a vida pessoal do célebre escritor e dramaturgo resistiu ao tempo – ou aos biógrafos mais interessados em sua genialidade. O que se sabe é de um primeiro casamento com uma mulher mais velha, com quem teve três filhos (uma menina e um casal de gêmeos), sendo um deles morto precocemente por uma questão de saúde. Com essas poucas peças de um imenso quebra-cabeça, Maggie imaginou como era a dinâmica dessa casa, quem era Agnes e como ela e as crianças se relacionavam com Shakespeare.
Na versão para o cinema, Zhao acolhe todas essas intuições e transforma em uma viagem sensorial sobre família, amor, criatividade e luto. Interpretada com o coração na mão por Jessie Buckley, a protagonista é vista como uma bruxa pela pequena comunidade onde vive no interior da Inglaterra. Filha da floresta, como dizem, ela ficou órfã cedo e foi criada por outra família junto com o irmão, mas ninguém a compreendia em sua essência. Alquimista de ervas e conectada profundamente com fauna e flora, Agnes teve um encontro arrebatador com William, daqueles impossíveis de fugir. Casaram-se pela espera da primogênita. Logo depois, tiveram gêmeos.
Apesar de parecer um conto de fadas idealizado de pessoas pouco reconhecidas pelos historiadores, 'Hamnet', na verdade, perfura a imagem perfeita do encontro amoroso para adentrar no instável terreno da arte e da criação. Enquanto o dramaturgo tentava fazer carreira em Londres, ela e as crianças ficavam na casa em Stratford-upon-Avon, mantendo o dia a dia rural de sempre: colheita, costura, comida. As viagens de William passaram a ser mais recorrentes e longas, criando lacunas de sua presença dentro de casa e uma saudade imensa na família.
Durante uma dessas sagas para conseguir espaço no teatro inglês da época, Hamnet adoece. A região estava cada vez mais assolada por surtos de peste bubônica, causando febre incontrolável e fraqueza na população. Inconformada com a situação, Agnes tenta de tudo para fazer a criança melhorar, mas não há mais tempo e o pequeno morre na sala da casa. A partir desse ponto, o filme se divide no processo físico da dor no corpo da mãe, visivelmente abalada pela perda; e no outro processo, introspectivo e soturno do pai. A falta de comunicação entre os dois faz esmaecer as cores do dia, e a rotina se mostra um exercício cruel de se manter sã diante do inominável.
Além de Agnes Shakespeare, 'Hamnet' também é capaz de dar contorno, textura, cheiro para o menino que inspirou o pai a criar uma das obras mais célebres da história. Uma encenação final construída por Zhao e sua equipe de design de produção, encabeçada por Fiona Crombie, que tira o fôlego de qualquer amante da literatura e da dramaturgia. Aliás, o filme inteiro evoca a seriedade da atuação teatral, com um elenco que não teme a vulnerabilidade. E não digo nem só a premiada Jessie Buckley e o já inebriante Paul Mescal, mas o pequeno Jacobi Jupe, que vive Hamnet, com uma performance à altura de seus companheiros adultos de cena. A emoção é inescapável".
O filme concorre às seguintes categorias no Oscar: Filme, Direção (Chloé Zhao), Atriz (Jessie Buckley), Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Figurino, Trilha Sonora (Max Richter) e Escalação de Elenco (Nina Gold).
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 1 estrela, ou seja, sofrível. Disse: "Se há 28 anos 'Shakespeare Apaixonado' tentou imaginar o que inspirou o bardo a escrever não apenas 'Romeu e Julieta', mas 'Noite de Reis', em 2025 a cineasta chinesa Chloé Zhao decidiu conjecturar sobre a jornada emocional que gerou 'Hamlet', juntando-se à escritora Maggie O´Farrell para adaptar o livro publicado por esta e que aqui se transforma em algo que poderia facilmente ser intitulado 'Shakespeare Enlutado'. Infelizmente, se o trabalho que rendeu o Oscar a Harvey Weinstein e a Gwyneth Paltrow já não representava uma obra memorável, aqui o resultado se torna ainda pior graças à mão pesada da diretora, que conduz o longa com a sutileza de alguém que busca acender uma vela de aniversário com um lança-chamas, tratando drama e histrionismo como sinônimos e tentando arrancar a fórceps as lágrimas do espectador".
O que disse a crítica 2: Isabel Wittmann do site Feito Por Elas avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "O que Zhao faz é subverter uma lógica em que a mulher-natureza é obrigatoriamente oprimida pelo homem-cultura. Para a primeira, é possível perceber nesse lugar uma possibilidade de liberdade e expressão, ainda que com suas contradições, ao passo que no segundo se supre as limitações e necessidades. Tudo isso em uma trajetória de uma protagonista histórica (mesmo que ficcionalizada) intensa, mas com um cinema elaborado com um rigor admirável. Esse é um dos aspectos mais fascinantes do filme. [Além disso,] é bonito ver o que mulheres talentosas podem fazer pelo cinema contemporâneo, criando, e é sempre esperançoso que tenham mais espaço. 'Morra, Amor' e 'Hamnet' andam de mãos dadas cutucando questões pertinentes, provocando e, acima de tudo, entregando excelente cinema com tudo isso. Uma história sobre amor em suas diferentes facetas, sobre domesticidade e liberdade, sobre luto e reencontro, 'Hamnet' é a demonstração das qualidades expressivas do cinema de Chloé Zhao. E o resto é silêncio".
O que eu achei: Muito pouco se sabe sobre a vida pessoal do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). Nascido na pequena cidade de Stratford-upon-Avon, ele era filho do subprefeito da cidade, John Shakespeare, e de Mary Arden. Foi agraciado com uma boa educação, manifestando, desde cedo, seu talento artístico. Em 1582 ele casou-se com Anne Hathaway (também conhecida como Agnes) e juntos tiveram três filhos: Susanna (nascida em 1583) e os gêmeos Judith e Hamnet (nascidos em 1585). Hamnet, o único menino, veio a falecer em 1596, com apenas 11 anos de idade, muito provavelmente por conta da peste bubônica que assolava a nação. Alguns historiadores defendem a tese que a morte de Hamnet levou seu pai a escrever "A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca", já que, à época, os nomes Hamlet e Hamnet eram usados de forma intercambiável. Outros defendem que a peça é uma adaptação para o teatro da lenda medieval escandinava de Amleth, nada tendo a ver com a morte da criança. Foi de posse dessas e de outras poucas informações que a escritora Maggie O’Farrell escreveu, em 2021, o livro "Hamnet", preenchendo as lacunas de informações com suposições do que teria acontecido com essa família. O foco do livro e do filme, adaptado pela escritora junto com a diretora Chloé Zhao, é a personagem Agnes (interpretada magistralmente pela atriz Jessie Buckley), apresentada como uma mulher excêntrica e selvagem que costumava caminhar pela propriedade da família com seu falcão pousado na luva e que tinha dons extraordinários como prever o futuro, ler pessoas e curá-las com poções e plantas. Após o casamento, Agnes se torna uma mãe superprotetora e a força centrífuga na vida do marido, que seguira para Londres com o objetivo de se estabelecer como dramaturgo. A vida do casal é severamente abalada com a morte do menino que sucumbe a uma febre repentina. O luto da mãe – que é uma mulher do mundo da natureza – é aquele luto devastador que só quem é mãe e já perdeu um filho saberia explicar. O luto do pai – que é um homem do mundo do intelecto – defende a ideia que a escrita da peça foi a forma que ele encontrou para elaborar essa dor, apresentando a história invertida de um filho que perdeu seu pai, já que na peça o Rei da Dinamarca (o pai) é assassinado pelo seu irmão Claudio que, após matá-lo, casou-se com a então viúva Gertrudes, mãe do príncipe Hamlet (o filho), assumindo o trono. Esse pai morto, interpretado nas primeiras encenações pelo próprio William Shakespeare, é representado pelo personagem de um Fantasma que interage com o garoto, o Príncipe Hamlet, numa representação genial do Fantasma que ele se tornou após perder o menino. Essa não deixa de ser uma especulação interessante já que a obra foi toda escrita entre os anos de 1599 e 1601, logo após o menino falecer em 1596O filme é muito bonito e triste que vale ser visto até por não se tratar de uma cinebiografia óbvia do dramaturgo. Atenção para o jovem Noah Jupe que faz o príncipe no palco nas cenas derradeiras da peça. Este ator é irmão do menino Jacobi Jupe que faz Hamnet-criança. A semelhança entre os dois serve bem à tese do filme.