
Comentário: Marianna Brennand (1980) é uma diretora, roteirista, produtora e documentarista brasileira, sombrinha neta do artista plástico pernambucano Francisco Brennand (1927-2019). Dentre seus filmes estão os documentários "O Coco, A Roda, O Pneu e O Farol" (2007) e "Francisco Brennand" (2012). "Manas" (2024) é o primeiro filme que vejo dela.
Marina Lourenço do site G1 escreveu que "Essa é a primeira vez que Marianna Brennand se dedica a um filme de ficção. Diretora dos documentários 'Francisco Brennand' (2012) e 'Danado de Bom' (2016), ela se inspirou nos casos de exploração sexual infantil da Ilha do Marajó (PA) para produzir 'Manas'.
O filme conta a história de Tielle (Jamilli Correa), garota de 13 anos que vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó. Em uma pequena casa de palafita, vivem ela, seu pai Marcílio (Rômulo Braga), a mãe Danielle (Fátima Macedo) e três irmãos (...). A família sofre com insegurança alimentar e compartilha o quarto para dormir. Com a chegada da puberdade, Tielle é incentivada pela mãe a vender açaí nas balsas da região. Lá, a garota passa a ser explorada sexualmente pelos tripulantes. Violência que não é tão diferente da que sofre em casa, onde seu pai a submete a abusos e assédios.
Com exceção de uma cena de socos e empurrões, 'Manas' dispensa o explícito. Em vez de uma violência gráfica estilizada, o filme causa espanto pela história em si e opta por não expor os corpos das atrizes adolescentes - escolha coerente diante de suas críticas à sexualização infantil. Ao mesmo tempo, toques e beijos maliciosos ganham espaço para enfatizar o lado sutil da violência sexual, que muitas vezes é tratada com tom permissivo, sobretudo quando os assediadores são pessoas próximas à vítima.
Marianna fez questão de tratar do assunto com bastante profundidade. Ao mesmo tempo em que nos leva à perversidade desse tipo de crime, a cineasta rejeita maniqueísmos. Enquanto vemos personagens complexos na tela, somos expostos a diferentes tipos de negligência.
Além do cuidado primoroso que o filme teve no retrato da exploração sexual infantil, suas cenas são altamente sensíveis e emocionantes. 'Manas' nos faz engolir em seco. É um chute no estômago. Muito bem amarrado, o roteiro cresce aos poucos. Com um início arrastado, o enredo engata quando Tielle começa a ser assediada. Dali em diante, um clima de suspense agonizante nos prende às cenas, que oscilam entre o previsível e o inesperado. Intenso, o final foge de clichês e dificulta ainda mais a digestão de tudo o que assistimos até então. É um paradoxo: causa alívio e perturbação.
O brilho de 'Manas' também está em seu elenco impecável. A protagonista Jamilli Correa é a que mais impressiona. A atuação tem um olhar marcado pelo medo, silêncio e revolta hipnotizantes. Surpreendentemente, é sua estreia como atriz. A paraense nunca havia atuado. Agora, aos 16 anos, ela tem um portfólio promissor que deve render a ela um futuro de grandes papéis. Rômulo Braga e Fátima Macedo também estão afiadíssimos em seus papéis. Isso vale para Dira Paes, que interpreta a policial Aretha, personagem inspirada em duas pessoas reais: o delegado Rodrigo Amorim e a ativista Marie Henriqueta, importantíssimos no combate à exploração sexual infantil no Marajó".
Em termos de premiações e apresentação em festivais o filme conta, até o momento, com 12 vitórias e 5 indicações, dentre elas a do Festival de Veneza onde Marianna ganhou o Director’s Award, principal prêmio da mostra Giornate Degli Autori. Na mesma semana do lançamento da produção no Brasil, Brennand embarcou para o Festival de Cannes, onde recebeu o prêmio Women In Motion Emerging Talent, voltado a cineastas promissoras que vêm se destacando na indústria.
O que disse a crítica 1: Marcelo Forlani do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Para não expor seu elenco infantil à mesma violência que estava denunciando, Marianna trabalhou o elenco para demonstrar sentimentos, sem falar de motivos para senti-los. Assim, 'Manas' mostra a exploração sexual sem mostrar sexo, nem sensualizar. Ao contrário, o que se sente ao ver o filme é uma tensão palpável. Chega a lembrar a pescaria com timbó praticada pelos indígenas da região amazônica, em que uma toxina é jogada na água e deixa o peixe temporariamente paralisado".
O que disse a crítica 2: Lúcia Monteiro da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Manas' é um filme exuberante e triste, interpretado por um elenco muito forte - a expressividade de Jamilli Correa não deixa ninguém indiferente. (...) Mais habituada ao documentário, Marianna Brennand investiu na narrativa de ficção em meio a uma pesquisa aprofundada sobre tráfico de menores e abuso na Ilha de Marajó. Meio século depois de 'Iracema' (1974) [filme de Jorge Bodansky e Orlando Senna], porém, sobra o desejo de ver uma adolescência feliz e saudável em meio aos igarapés amazônicos. Ou em que o desejo de ir embora não seja apenas fruto do desespero".
O que eu achei: Li na Revista Piauí um texto da própria diretora contando que foi num encontro com a Fafá de Belém que ela soube dos casos de exploração sexual contra crianças e adolescentes que vivem às margens do Rio Tajapuru, situado na Ilha do Marajó, estado do Pará. Esse rio funciona como uma rota estratégica de navegação entre o rio Amazonas e outras partes da região, sendo uma área de trânsito intenso de balsas e navios que sobem para Manaus, Santarém e Porto Velho, abrigando diversas famílias ribeirinhas. Por ser documentarista, o primeiro ímpeto da diretora seria o de fazer um documentário, mas como colocar diante das câmeras mulheres e crianças que haviam sofrido traumas tão profundos? Pedir a elas que recontassem os abusos seria expô-las a mais uma violência. Foi aí que surgiu a opção por fazer uma ficção. Na trama, Marcielle (Jamilli Correa), uma jovem de 13 anos, vive na Ilha do Marajó junto ao pai, Marcílio (Rômulo Braga), à mãe, Danielle (Fátima Macedo) e aos irmãos, incluindo-se aí a 'mana' mais nova, Carol (Emily Pantoja). À medida que Tielle (como ela é chamada) vai amadurecendo, ela se vê presa entre dois ambientes abusivos: sua própria casa - onde ela precisa lidar com os assédios do pai - e a balsa – as embarcações onde a meninas da região vendem produtos e são exploradas sexualmente. Encurralada, ela decide confrontar a situação. Jamilli Correa, que tinha na época das filmagens apenas 13 anos, nunca havia atuado antes. A câmera basicamente não desgruda do seu expressivo rosto que vai-se transformando conforme ela passa a sofrer física e emocionalmente. Os atores profissionais Dira Paes, Fátima Macedo e Rômulo Braga completam o time principal, todos excelentes em suas atuações. A cineasta rejeita maniqueísmos, tudo é muito bem dosado, não há cenas de nudez ou sexo, não há trilha sonora e, apesar das lindas paisagens, o longa nos atinge em cheio, resultando num importante filme-denúncia que lança luz sobre um tema urgente, que não ocorre só lá. Como disse a diretora: "Espero que 'Manas' possa encorajar mulheres a quebrarem os silêncios que cercam todo tipo de violência que lhes é imposta". Excelente pedida.
Marina Lourenço do site G1 escreveu que "Essa é a primeira vez que Marianna Brennand se dedica a um filme de ficção. Diretora dos documentários 'Francisco Brennand' (2012) e 'Danado de Bom' (2016), ela se inspirou nos casos de exploração sexual infantil da Ilha do Marajó (PA) para produzir 'Manas'.
O filme conta a história de Tielle (Jamilli Correa), garota de 13 anos que vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó. Em uma pequena casa de palafita, vivem ela, seu pai Marcílio (Rômulo Braga), a mãe Danielle (Fátima Macedo) e três irmãos (...). A família sofre com insegurança alimentar e compartilha o quarto para dormir. Com a chegada da puberdade, Tielle é incentivada pela mãe a vender açaí nas balsas da região. Lá, a garota passa a ser explorada sexualmente pelos tripulantes. Violência que não é tão diferente da que sofre em casa, onde seu pai a submete a abusos e assédios.
Com exceção de uma cena de socos e empurrões, 'Manas' dispensa o explícito. Em vez de uma violência gráfica estilizada, o filme causa espanto pela história em si e opta por não expor os corpos das atrizes adolescentes - escolha coerente diante de suas críticas à sexualização infantil. Ao mesmo tempo, toques e beijos maliciosos ganham espaço para enfatizar o lado sutil da violência sexual, que muitas vezes é tratada com tom permissivo, sobretudo quando os assediadores são pessoas próximas à vítima.
Marianna fez questão de tratar do assunto com bastante profundidade. Ao mesmo tempo em que nos leva à perversidade desse tipo de crime, a cineasta rejeita maniqueísmos. Enquanto vemos personagens complexos na tela, somos expostos a diferentes tipos de negligência.
Além do cuidado primoroso que o filme teve no retrato da exploração sexual infantil, suas cenas são altamente sensíveis e emocionantes. 'Manas' nos faz engolir em seco. É um chute no estômago. Muito bem amarrado, o roteiro cresce aos poucos. Com um início arrastado, o enredo engata quando Tielle começa a ser assediada. Dali em diante, um clima de suspense agonizante nos prende às cenas, que oscilam entre o previsível e o inesperado. Intenso, o final foge de clichês e dificulta ainda mais a digestão de tudo o que assistimos até então. É um paradoxo: causa alívio e perturbação.
O brilho de 'Manas' também está em seu elenco impecável. A protagonista Jamilli Correa é a que mais impressiona. A atuação tem um olhar marcado pelo medo, silêncio e revolta hipnotizantes. Surpreendentemente, é sua estreia como atriz. A paraense nunca havia atuado. Agora, aos 16 anos, ela tem um portfólio promissor que deve render a ela um futuro de grandes papéis. Rômulo Braga e Fátima Macedo também estão afiadíssimos em seus papéis. Isso vale para Dira Paes, que interpreta a policial Aretha, personagem inspirada em duas pessoas reais: o delegado Rodrigo Amorim e a ativista Marie Henriqueta, importantíssimos no combate à exploração sexual infantil no Marajó".
Em termos de premiações e apresentação em festivais o filme conta, até o momento, com 12 vitórias e 5 indicações, dentre elas a do Festival de Veneza onde Marianna ganhou o Director’s Award, principal prêmio da mostra Giornate Degli Autori. Na mesma semana do lançamento da produção no Brasil, Brennand embarcou para o Festival de Cannes, onde recebeu o prêmio Women In Motion Emerging Talent, voltado a cineastas promissoras que vêm se destacando na indústria.
O que disse a crítica 1: Marcelo Forlani do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Para não expor seu elenco infantil à mesma violência que estava denunciando, Marianna trabalhou o elenco para demonstrar sentimentos, sem falar de motivos para senti-los. Assim, 'Manas' mostra a exploração sexual sem mostrar sexo, nem sensualizar. Ao contrário, o que se sente ao ver o filme é uma tensão palpável. Chega a lembrar a pescaria com timbó praticada pelos indígenas da região amazônica, em que uma toxina é jogada na água e deixa o peixe temporariamente paralisado".
O que disse a crítica 2: Lúcia Monteiro da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Manas' é um filme exuberante e triste, interpretado por um elenco muito forte - a expressividade de Jamilli Correa não deixa ninguém indiferente. (...) Mais habituada ao documentário, Marianna Brennand investiu na narrativa de ficção em meio a uma pesquisa aprofundada sobre tráfico de menores e abuso na Ilha de Marajó. Meio século depois de 'Iracema' (1974) [filme de Jorge Bodansky e Orlando Senna], porém, sobra o desejo de ver uma adolescência feliz e saudável em meio aos igarapés amazônicos. Ou em que o desejo de ir embora não seja apenas fruto do desespero".
O que eu achei: Li na Revista Piauí um texto da própria diretora contando que foi num encontro com a Fafá de Belém que ela soube dos casos de exploração sexual contra crianças e adolescentes que vivem às margens do Rio Tajapuru, situado na Ilha do Marajó, estado do Pará. Esse rio funciona como uma rota estratégica de navegação entre o rio Amazonas e outras partes da região, sendo uma área de trânsito intenso de balsas e navios que sobem para Manaus, Santarém e Porto Velho, abrigando diversas famílias ribeirinhas. Por ser documentarista, o primeiro ímpeto da diretora seria o de fazer um documentário, mas como colocar diante das câmeras mulheres e crianças que haviam sofrido traumas tão profundos? Pedir a elas que recontassem os abusos seria expô-las a mais uma violência. Foi aí que surgiu a opção por fazer uma ficção. Na trama, Marcielle (Jamilli Correa), uma jovem de 13 anos, vive na Ilha do Marajó junto ao pai, Marcílio (Rômulo Braga), à mãe, Danielle (Fátima Macedo) e aos irmãos, incluindo-se aí a 'mana' mais nova, Carol (Emily Pantoja). À medida que Tielle (como ela é chamada) vai amadurecendo, ela se vê presa entre dois ambientes abusivos: sua própria casa - onde ela precisa lidar com os assédios do pai - e a balsa – as embarcações onde a meninas da região vendem produtos e são exploradas sexualmente. Encurralada, ela decide confrontar a situação. Jamilli Correa, que tinha na época das filmagens apenas 13 anos, nunca havia atuado antes. A câmera basicamente não desgruda do seu expressivo rosto que vai-se transformando conforme ela passa a sofrer física e emocionalmente. Os atores profissionais Dira Paes, Fátima Macedo e Rômulo Braga completam o time principal, todos excelentes em suas atuações. A cineasta rejeita maniqueísmos, tudo é muito bem dosado, não há cenas de nudez ou sexo, não há trilha sonora e, apesar das lindas paisagens, o longa nos atinge em cheio, resultando num importante filme-denúncia que lança luz sobre um tema urgente, que não ocorre só lá. Como disse a diretora: "Espero que 'Manas' possa encorajar mulheres a quebrarem os silêncios que cercam todo tipo de violência que lhes é imposta". Excelente pedida.