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10.8.26

"Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia" - Hector Babenco (Brasil, 1977)

Sinopse:
Nos anos 1960, uma organização clandestina batizada como Esquadrão da Morte passa a combater o crime à margem da lei. Nesse contexto de tensão, vários episódios e personagens marcaram aquele período histórico - o notório assaltante Lúcio Flávio (Reginaldo Faria) é um deles. Na década seguinte, Lúcio monopoliza as manchetes por seus assaltos ousados e fugas espetaculares. Pouco antes de morrer, ele revela a um repórter detalhes sobre o envolvimento da polícia com o mundo do crime.
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. Assisti dele a obra-prima “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1981), o ótimo “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), o bom "Meu Amigo Hindu" (2015) e o péssimo "O Passado" (2007). Desta vez vou conferir “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977).
O site Wikipédia nos conta que Lúcio Flávio Vilar Lyrio (Rio de Janeiro, 1944 –1975) foi um criminoso brasileiro que se tornou conhecido em todo o Brasil na década de 1970 em razão de seus inúmeros crimes. De boa aparência, articulado, violento e de inteligência acima da média, iniciou suas atividades criminosas como ladrão de carros, evoluindo para assaltos a bancos e joalherias e cometendo diversos homicídios. Tornou-se muito conhecido pelas constantes fugas de diversas prisões e pelo envolvimento com policiais pertencentes ao Esquadrão da Morte, os quais também denunciou.
Atuou ao lado de alguns dos mais perigosos marginais do período, dentre os quais seu irmão Nijini Renato, seu cunhado Fernando C. O., Liéce de Paula, Armando Arêas Filho (Armandinho) e outros.
Cometeu crimes nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e em Brasília.
Sua vida foi imortalizada em obras literárias, a mais importante foi concebida pelo escritor José Louzeiro, obra essa que foi baseada em um relato dado por Lúcio Flávio a um repórter policial um pouco antes de sua morte. O relato, cheio de detalhes da sua vida no crime, delatava seus comparsas, como por exemplo, um policial que sempre o acobertava em suas investidas no mundo do crime. A obra de José Louzeiro recebeu o nome de “Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia”, nome homônimo do filme.
Ele foi morto com 19 facadas no peito, na cela número sete do presídio Hélio Gomes, no Rio de Janeiro, durante a madrugada, por um companheiro de cela, Mário Pedro da Silva, em 1975, mas há uma forte suspeita de que ele tenha sido morto pelos policiais que formavam o Esquadrão da Morte, e que temiam que Lúcio os denunciasse.
O filme, estrelado por Reginaldo Farias no papel principal, é justamente a adaptação do livro do José Louzeiro. Porém o filme sofreu censura. Na versão final não aparecem fardas nem viaturas, e os policiais envolvidos tiveram seus nomes trocados. 
O filme foi vencedor do Prêmio do Público da primeira edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1977.
O que disse a crítica 1: Rodrigo de Oliveira do site Papo de Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Com inflados 118 minutos de duração, 'Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia' abusa um tanto por se estender, mas tem momentos interessantes que conseguem segurar a atenção do espectador. As cenas oníricas, sangrentas, dão um bom molho especial em uma trama policial urbana que retrata um período conturbado da história do nosso Brasil. Pode ter envelhecido mal no todo, mas tem predicados que justificam uma olhada com maior atenção".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP, disse que "O que mais importa nos filmes baseados em fatos reais é sua irrealidade. Tomemos 'Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia'. O filme de Hector Babenco é, mais que um relato da trajetória do marginal, o elogio da marginalidade num momento específico da vida nacional. Isto é, os anos 1970, o governo militar: o bandido é o herói, a polícia é o vilão. Não que certas coisas tenham mudado: o tratamento dado aos pobres pela polícia e pela Justiça é bem diverso do que se dá aos ricos. Mas a visão do momento implicava o engajamento do espectador, jovem sobretudo, da classe média, no combate à ditadura. O filme respondia a esse desejo. Daí ao êxito era um pulo".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de José Louzeiro que era um jornalista respeitado da crônica policial do Rio de Janeiro. Ele conhecia intimamente os meandros do submundo carioca, as gírias das prisões e o modus operandi dos criminosos e da polícia. Louzeiro esteve frente a frente com Lúcio Flávio. O criminoso, sabendo que estava jurado de morte pelo Esquadrão da Morte por ‘saber demais’, decidiu abrir o jogo usando o jornalista como um canal para denunciar que os seus assaltos a bancos eram articulados, protegidos e financiados por policiais do alto escalão. Além da entrevista, o autor realizou uma intensa pesquisa para checar a veracidade dessas denúncias. O livro foi cirúrgico em expor os bastidores do Esquadrão da Morte. Na adaptação para o cinema feita pelo Babenco temos um elenco de peso com Reginaldo Faria no papel principal, Paulo César Peréio, Ivan Cândido, Milton Gonçalves, Ana Maria Magalhães, Lady Francisco, Grande Otelo, Stepan Nercessian e José Dumont. O longa foca na atuação do criminoso de 1970 até 1975, mas o maior interesse aqui é ver o modus operandi do Esquadrão da Morte. Criado no final dos anos 1960, era uma organização paramilitar clandestina, formada majoritariamente por policiais civis e militares, mas que continha também juízes, promotores e até jornalistas. O objetivo era exterminar criminosos comuns e opositores. O contexto da ditadura militar (1964-1985) favoreceu imensamente o surgimento e a expansão desse tipo de grupo pois, sob o pretexto de combater o comunismo e o crime urbano, foram instituídas leis de exceção (como o AI-5) que esvaziaram os direitos humanos, blindando as polícias de investigações. No Rio de Janeiro, o governador e generais criaram um grupo oficial batizado como ‘Os Homens de Ouro’. O detetive Mariel Mariscot (cujo nome foi alterado para Dr. Moretti no filme) fazia parte dele. Sob os aplausos de setores da imprensa e da classe média que adotavam o lema ‘bandido bom é bandido morto’, eles cometiam assassinatos deixando cartazes nos corpos com o desenho de uma caveira. Porém, o que Mariscot menos queria era assassinar Lúcio Flávio. Ele e outros agentes do Esquadrão da Morte monitoravam os passos da quadrilha facilitando suas ações e garantindo que as áreas bancárias ficassem sem patrulhamento policial no momento dos roubos. Claro que o preço dessa proteção era altíssimo. Sempre que a quadrilha realizava um assalto, Mariscot e seus homens apareciam para recolher uma fatia gigantesca do dinheiro. Se Lúcio Flávio se recusasse a pagar, a polícia o prendia ou ameaçava executar seus familiares e comparsas. Quando calhava de Lúcio Flávio ser preso, Mariscot facilitava sua fuga molhando a mão de outras pessoas. A relação implodiu quando a ganância dos policiais sufocou o bando. Lúcio Flávio percebeu que por mais que ele roubasse, ele nunca teria nada. Sabendo que seria morto de qualquer forma foi que ele resolveu desmascarar o policial publicamente. Uma curiosidade é que, dois anos depois de Babenco lançar “Lúcio Flávio” (1977), Antônio Calmon lança “Eu Matei Lúcio Flávio” (1979), um filme estrelado pelo Jece Valadão, que mostra a ótica dos policiais pintando Mariscot como um herói injustiçado. Entretanto, os desmandos de Mariscot já eram tão evidentes na imprensa que não foi possível protegê-lo. Ele foi oficialmente expulso da polícia, preso e mais tarde se tornou segurança do jogo do bicho, acabando assassinado antes mesmo de conseguir ser julgado pelos seus crimes. Obviamente, para lançar o filme, Babenco e o produtor Roberto Farias travaram uma verdadeira guerra com a censura: os nomes dos policiais tiveram que ser trocados e as cenas que mostravam tortura policial explícita e diálogos que faziam ligação direta entre o crime comum e os porões do regime militar tiveram que ser cortados. Mesmo assim ele chegou a ser totalmente proibido em Brasília e só foi liberado no restante do país após forte pressão de setores intelectuais. Imperdível.

2.3.26

"Pixote: a Lei do Mais Fraco" - Hector Babenco (Brasil, 1981)

Sinopse:
Pixote (Fernando Ramos da Silva) foi abandonado por seus pais e rouba para viver nas ruas. Ele já esteve internado em reformatórios onde conviveu com todos os tipos de criminosos e jovens delinquentes. Ele sobrevive se tornando um pequeno traficante de drogas, cafetão e assassino, mesmo tendo apenas dez anos.
Comentário: Trata-se do filme número 84 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Duas décadas antes de 'Cidade de Deus', o cinema brasileiro ganhava uma radiografia impiedosa da violência nas ruas e de como ela condenou a juventude das classes miseráveis a buscar o crime como caminho para a sobrevivência. 'Pixote: a Lei do Mais Fraco' conta a história de um garoto de dez anos que é recolhido das ruas de São Paulo para ser internado em um reformatório. Dois de seus amigos são assassinados e, com mais três colegas, ele foge para o Rio de Janeiro, onde entra para o mundo do tráfico de drogas, dos assaltos, assassinatos e da prostituição. Marília Pêra interpreta Sueli, prostituta que acolhe os jovens e os ajuda a cometer os crimes. Em uma cena de forte carga simbólica, Sueli amamenta Pixote, órfão não só dos pais, mas do país que o abandonou. Dirigido pelo argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (de 'Carandiru', de 2003 e 'O Beijo da Mulher Aranha', de 1985), 'Pixote' é baseado no livro-reportagem de Jozé Louzeiro, 'A Infância dos Mortos'. Segundo Babenco, trata-se de um 'momento de realidade do cotidiano'. A produção atingiu grande sucesso no exterior: foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e venceu o prêmio Leopardo de Prata no festival de Locarno. A crítica internacional comparou a obra a 'Os Esquecidos' (1950), de Luis Buñuel, e ressaltou a atuação do protagonista, Fernando Ramos da Silva, um antigo menino de rua que não conseguiu abandonar a marginalidade e acabou morto em 1987, após um tiroteio com a polícia".
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de assistir os 100 filmes essenciais da lista elaborada pela Revista Bravo! em 2007, desta vez conferi "Pixote: a Lei do Mais Fraco" (1981), um clássico incontornável do cinema brasileiro, baseado no livro "Infância dos Mortos" de José Louzeiro. O filme retrata a ausência total de perspectivas para crianças carentes e a brutalidade da 'lei do mais fraco' que rege tanto o reformatório quanto as ruas de São Paulo. A trama acompanha quatro meninos internados em uma instituição marcada por abusos e injustiças. Revoltados, eles fogem e passam a sobreviver ao lado da prostituta Sueli, envolvendo-se com traficantes e pequenos criminosos. Babenco mistura realismo social com um estilo quase documental, há um naturalismo aqui que nenhum outro trabalho seu alcançou. Nada é suavizado: a violência institucional, o abandono e a degradação são expostos sem filtros. O espectador não observa à distância, sente-se dentro daquele universo sufocante. O impacto é ampliado pelo elenco majoritariamente amador. Os meninos, incluindo o protagonista interpretado por Fernando Ramos da Silva, foram escolhidos entre mais de 3 mil candidatos em comunidades carentes. Essa escolha confere uma verdade rara às atuações. Uma das sequências dialoga diretamente com o “Caso Camanducaia”, episódio real de 1974 que simbolizou uma tentativa de limpeza social contra menores de rua. A cena mais célebre envolve Marília Pera como Sueli. O momento em que Pixote, doente, se aninha em seu colo e ela, num gesto improvisado, oferece o peito ao menino, seguido pela rejeição, concentra toda a melancolia do filme. Ali, Fernando Ramos da Silva traduz a dor e o abandono com força devastadora. Premiado no Brasil e no exterior, indicado ao Globo de Ouro e eleito Melhor Filme Estrangeiro por associações de críticos de Los Angeles e Nova York, "Pixote" permanece atual e perturbador. A trágica morte de Fernando Ramos da Silva que não conseguiu seguir carreira como ator ingressando no mundo da criminalidade, apenas reforça o elo cruel entre ficção e realidade. É um filme implacável, cru e absolutamente devastador. Impossível sair ileso.

4.9.23

“Brincando nos Campos do Senhor” – Hector Babenco (EUA/Brasil, 1991)

Sinopse:
 Um casal de missionários (Aidan Quinn e Kathy Bates) e seu filho pequeno (Niilo Kivirinta) embrenham-se na selva amazônica brasileira para catequizar índios ainda arredios à noção de Deus. Martin Quarrier (Aidan Quinn) é sociólogo e termina sendo motivado pelas experiências de outro casal, os Huben (John Lithgow e Daryl Hannah). As intenções religiosas e a harmonia entre brancos e índios no local ficam instáveis devido à presença de Lewis Moon (Tom Berenger), um mercenário descendente dos índios americanos.
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. Assisti dele o bom "Meu Amigo Hindu" (2015) e o péssimo "O Passado" (2007). Desta vez vou conferir “Brincando nos Campos do Senhor” (1991).
José Geraldo Couto da Folha de SP nos conta que esse filme é “um dos preferidos do livreiro Pedro Corrêa do Lago, é um bom exemplo de filme que, mal recebido quando exibido nos cinemas, mereceu uma revisão em vídeo que lhe foi amplamente favorável. Não apenas o público procurou em peso a fita, garantindo sua permanência por várias semanas nas listas dos mais alugados, como a própria crítica, antes reticente (ou perplexa?), acabou dando o braço a torcer. A explicação para esse efeito retardado talvez seja esta: o filme trata dos problemas da Amazônia de modo muito mais sensível a sua intrincada complexidade que as usuais produções exóticas e/ou militantes a respeito do tema. Em vez de encenar os conflitos amazônicos como um simples bangue-bangue entre bons selvagens e maus civilizados, ou entre ecologistas puros e exploradores canalhas, Babenco preferiu mostrar de modo mais sutil e matizado a fragilidade do indivíduo frente aos mecanismos da história e aos imperativos do sangue. Para isso, foi buscar material no extraordinário romance de Peter Matthiessen, que ele adaptou em parceria com o experiente Jean-Claude Carrière. Em seu painel amazônico, há dois casais de missionários protestantes (Aidan Quinn/Kathy Bates e John Lithgow/Daryl Hannah), um mestiço mercenário contratado para exterminar índios (Tom Berenger), um militar corrupto (José Dumont) e um sem-número de pobres diabos vivendo na corda bamba entre a natureza e a cultura. Nada está dado para sempre nesse caldeirão de interesses e conflitos - os indivíduos se transformam, ora se chocando com seu destino (caso do casal novato de missionários), ora buscando-o febrilmente (caso do mestiço). Assustados ou embriagados, todos se movem num território movediço, hostil e ameaçador, fotografado de modo preciso por Lauro Escorel. Não há nada de idílico na Amazônia de Babenco. Assentada a poeira das críticas apressadas, que só souberam apontar o dedo para o pretenso gigantismo da produção (que teria custado quase US$ 40 milhões) e para a preponderância ianque no elenco, foi possível rever o filme com olhos menos preconceituosos. O resultado, se não foi uma consagração, foi pelo menos a reparação de uma injustiça. E a descoberta de um grande filme. Os massacres de índios e as polêmicas amazônicas que aconteceram nos últimos anos só tornaram mais atual o apocalipse de Hector Babenco, que encena um dos mais terríveis genocídios que o cinema já mostrou. Afinal, complexidades sociais, morais e políticas à parte, todo mundo sabe que, quando os campos do senhor se conflagram, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco - o do índio”.
O que disse a crítica 1: Robledo Milani do site Papo de Cinema achou o filme mediano. Disse: “Se a direção de Babenco é bastante problemática – ele parece não saber o que fazer com os planos abertos da floresta, ao mesmo tempo em que permite que cada ator atue em um registro muito particular (...) – talvez o mais complicado mesmo seja o roteiro – escrito em parceria com o grande Jean-Claude Carrière, o mesmo de ‘A Bela da Tarde’ (1967) e ‘A Insustentável Leveza do Ser’ (1988). Há muitos textos paralelos, intervenções sem sentido (...) e o argumento do homem branco contaminando e destruindo o indivíduo puro já era clichê na época, que dirá agora. Ainda que tenha inspirado James Cameron a realizar ‘Avatar’ (2009), ‘Brincando nos Campos do Senhor’ é uma promessa que não se cumpre em nenhum dos seus aspectos. E basta assisti-lo uma única vez para entender como foi capaz de soterrar a carreira deste cineasta nos Estados Unidos, obrigando-o a retornar à sua terra natal após esse retumbante fracasso de público e de crítica”.
O que disse a crítica 2: Márcio Ferrari do site UOL gostou muito. Escreveu que o filme possui uma “densidade dramática”. Em comparação com "Avatar" (2009), ele diz que “ambos partem de um conflito semelhante, mas vão em direções opostas. Enquanto ‘Avatar’ adota um tom poético e alegórico, ‘Brincando nos Campos do Senhor’ retém as características múltiplas de um romance”.
O que eu achei: Que odisseia deve ter sido fazer esse filme! Todo rodado na Amazônia – os créditos não especificam se eles estão o tempo todo no Brasil ou não – pode-se imaginar o quão complicado deve ter sido lidar com a floresta e com o clima local. Os personagens transitam entre a cidade fictícia de Mãe de Deus e a aldeia, também fictícia, dos índios niarunas. No elenco estão Aidan Quinn e Kathy Bates – ambos impecáveis – mas tem também John Lithgow, Daryl Hannah e Tom Berenger, além dos brasileiros José Dumont, Nelson Xavier e Stênio Garcia, dentre outros. O tema é a malfadada ideia de que índios precisam ser catequizados, tudo isso em meio a uma disputa de terras. Eu gostei demais do resultado, apesar das mais de 3hs de duração. A trilha sonora é de Zbigniew Preisner e Marlui Miranda. Atenção à presença do músico Tom Waits no papel de Wolf. Muito bom, vale a pena encarar.

12.5.19

"O Passado" - Hector Babenco (Argentina/Brasil, 2007)

Sinopse: Rímini (Gael García Bernal) é um jovem tradutor que, após terminar um casamento de 12 anos de forma aparentemente tranquila, é perseguido por sua ex-esposa (Analía Couceyro) que só causa tragédias na vida do antigo marido.
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. Assisti dele o bom "Meu Amigo Hindu" (2015). Desta vez vou conferir "O Passado" (2007).
Trata-se de uma adaptação do livro homônimo do escritor argentino Alan Pauls. A obra literária é muito prestigiada e venceu o Prêmio Herralde de Novela em 2003, um dos reconhecimentos mais importantes da literatura em língua espanhola.
O filme e o livro tratam da obsessão e do fim do amor. A trama central gira em torno de Rímini (vivido no cinema por Gael García Bernal) e Sofía (Analía Couceyro), que decidem terminar de forma amigável um relacionamento que durou 12 anos. Rímini tenta reconstruir sua vida com outras mulheres e focar em sua carreira de tradutor. No entanto, Sofía reaparece constantemente em sua vida como um verdadeiro "fantasma vivo", sabotando seus novos relacionamentos de forma minuciosa e doentia.
O roteiro foi adaptado pelo próprio Hector Babenco em parceria com a roteirista Marta Góes. O livro de Alan Pauls é conhecido por sua prosa suntuosa, detalhista e reflexiva, quase psicológica. Transpor isso para o cinema foi um desafio complexo, e Babenco optou por transformar esse fluxo de consciência em um clima que beira o suspense psicológico e o melodrama. 
Como o livro se passa em Buenos Aires e o autor é argentino, o filme foi realizado como uma parceria entre Brasil e Argentina, mantendo o idioma espanhol na maior parte da projeção.
O filme marca a última aparição nos cinemas de um dos maiores nomes do teatro e da dramaturgia brasileira: Paulo Autran. Ele faz uma participação curta, porém marcante e elogiada, como o excêntrico Professor Poussière.
O que disse a crítica 1: Inácio Araújo da Folha de SP disse: "'O Passado' (...) tem situações de dramaturgia mal armadas".
O que disse a crítica 2: Thomas Boeira do site Papo de Cinema, escreveu que, apesar do bom roteiro, "a narrativa em si, vai-se tornando pouco envolvente depois de um tempo. É algo que se deve em parte pelo desenvolvimento corriqueiro da trama. Em uma cena, por exemplo, vemos Riminí presenciando um momento trágico envolvendo sua namorada, Nancy (Mimí Ardú), apenas para que na cena seguinte ele já apareça casado com a colega de profissão Carmen (Ana Celentano), que logo depois aparece grávida. Com as coisas ocorrendo tão rapidamente, Hector Babenco não consegue impedir que o filme tenha sérios problemas de ritmo, e a história infelizmente perde muito do peso que exibia inicialmente".
O que eu achei: "O Passado" (2007) trazia altas expectativas por unir o prestigiado romance do argentino Alan Pauls ao peso da direção de Hector Babenco e ao carisma do astro mexicano Gael García Bernal. No entanto, o resultado final na tela justifica plenamente a rejeição de grande parte do público, resultando em uma experiência cinematográfica arrastada, fria e emocionalmente estéril. O principal problema do longa reside na transição da literatura para o cinema. A prosa de Pauls baseia-se em fluxos de consciência e minúcias psicológicas sobre o fim de um casamento de doze anos. Ao tentar materializar essa obsessão interna, Babenco constrói uma narrativa episódica que perde completamente o ritmo. Acompanhar a derrocada do tradutor Rímini, perseguido pela ex-esposa Sofía, transforma-se em um exercício de masoquismo para o espectador. Os personagens carecem de carisma ou de uma humanidade que gere empatia; tornam-se figuras patéticas presas a um jogo de autodestruição que cansa rapidamente. Gael García Bernal parece perdido em cena, entregando uma atuação apática e sem a energia habitual, incapaz de segurar o peso dramático do protagonista. Visualmente, o filme adota uma estética cinzenta e melancólica que, em vez de sufocante, soa apenas monótona e artificial. A química entre o elenco é inexistente, fazendo com que os sucessivos relacionamentos fracassados de Rímini pareçam meros dispositivos burocráticos do roteiro para esticar a projeção. Até mesmo a participação afetiva do mestre Paulo Autran, em seu último papel no cinema, surge deslocada dentro de um universo tão gélido e sem vida. Ao tentar filmar o intangível peso das memórias e a toxicidade do amor que se recusa a morrer, Babenco entregou uma obra pretensiosa, em que o melodrama erra o tom e a tragédia vira tédio. O Passado falha gravemente como adaptação e como entretenimento, deixando a incômoda sensação de que o espectador desperdiçou seu próprio tempo assistindo a um fantasma de filme que nunca chega a assombrar de verdade.

29.1.18

"Meu Amigo Hindu" - Hector Babenco (Brasil, 2015)

Sinopse: O cineasta Diego (Willem Dafoe) sofre de um câncer terminal. Se interna em um hospital e, após a alta passa a ir lá apenas para manutenção do tratamento e acaba por dividir esses atendimentos com um menino hindu (Rio Adlakha), com quem faz amizade. As chances de Diego sobreviver são mínimas, mas, caso ele vença a doença, terá um desafio: reaprender a viver.
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. "Meu Amigo Hindu" (2015) é o primeiro filme que vejo dele.
O filme retrata Diego (Willem Dafoe), um diretor de cinema com câncer avançado que viaja para os Estados Unidos para um transplante de medula e faz amizade com um garoto indiano na ala oncológica. 
Trata-se de um drama de ficção fortemente baseado nas memórias do próprio diretor. Babenco filmou a obra como um acerto de contas com a própria mortalidade e uma declaração de amor ao cinema, declarando que o filme era seu único pedido à morte para poder realizar mais uma obra antes do fim, já que o cineasta enfrentou um grave câncer linfático na década de 1990 e precisou passar por um transplante de medula óssea, vindo falecer em 2016. Ele, de fato, dividia a sala de quimioterapia com um garoto estrangeiro. O longa funcionou como o testamento artístico e pessoal do cineasta, que dizia ser esse o filme que a morte lhe permitiu fazer.
O elenco mistura grandes astros de Hollywood com nomes consagrados do cinema e da TV no Brasil. O filme foi rodado em inglês para facilitar a distribuição internacional e a atuação do protagonista. Willem Dafoe interpreta Diego, o alter ego de Hector Babenco. O ator aceitou o papel por ser amigo de longa data do diretor e entregou uma atuação intensa sobre a dor e a sobrevivência. No núcleo brasileiro estão Maria Fernanda Cândido que vive Lívia, a esposa de Diego, inspirada em parte na última companheira de Babenco, a atriz Bárbara Paz. Bárbara Paz interpreta Guerra, uma atriz que se envolve com Diego após sua recuperação; Selton Mello faz uma participação especial e lúdica como o "Homem Comum", que personifica a própria Morte e joga xadrez com o protagonista; Reynaldo Gianecchini interpreta o médico de Diego no Brasil, responsável por cuidar do cineasta antes de sua viagem e Dalton Vigh vive o irmão do protagonista, trazendo o peso dos conflitos familiares durante a doença. Rio Adlakha é o ator mirim indiano que interpreta o "menino Hindu" do título, dividindo as cenas mais emocionantes do hospital com Willem Dafoe.
O que eu achei: O longa tem pós e contras. Um dos pontos altos é a atuação do Willem Dafoe, que entrega aqui uma atuação magnética, crua, carregando o filme nas costas, fazendo o espectador sentir a dor física do personagem. As cenas hospitalares são tocantes por conta dos momentos lúdicos de Diego com o menino hindu e o jogo de xadrez com a Morte. Outro pró é a coragem temática: a honestidade de Babenco ao se retratar como um homem difícil, egoísta e arrogante e não como uma vítima. Isso dá muita força ao roteiro. Por outro lado, ver atores brasileiros consagrados atuando em inglês gera diálogos engessados, sotaques artificiais e uma perda nítida de espontaneidade. Além disso, o filme muda drasticamente na segunda metade. A primeira parte - a luta contra o câncer - é tensa e focada; a segunda parte - a vida após a cura - perde o ritmo e vira uma crônica de relacionamentos amorosos um pouco dispersa. Por ser um filme-testamento, Babenco quis colocar todas as suas memórias na tela, o que deixou o terço final longo e cansativo. Colocando tudo na balança, o filme resulta bom. Não é a última bolacha do pacote, nem muito menos desprezível.