12.5.19

"O Passado" - Hector Babenco (Argentina/Brasil, 2007)

Sinopse: Rímini (Gael García Bernal) é um jovem tradutor que, após terminar um casamento de 12 anos de forma aparentemente tranquila, é perseguido por sua ex-esposa (Analía Couceyro) que só causa tragédias na vida do antigo marido.
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. Assisti dele o bom "Meu Amigo Hindu" (2015). Desta vez vou conferir "O Passado" (2007).
Trata-se de uma adaptação do livro homônimo do escritor argentino Alan Pauls. A obra literária é muito prestigiada e venceu o Prêmio Herralde de Novela em 2003, um dos reconhecimentos mais importantes da literatura em língua espanhola.
O filme e o livro tratam da obsessão e do fim do amor. A trama central gira em torno de Rímini (vivido no cinema por Gael García Bernal) e Sofía (Analía Couceyro), que decidem terminar de forma amigável um relacionamento que durou 12 anos. Rímini tenta reconstruir sua vida com outras mulheres e focar em sua carreira de tradutor. No entanto, Sofía reaparece constantemente em sua vida como um verdadeiro "fantasma vivo", sabotando seus novos relacionamentos de forma minuciosa e doentia.
O roteiro foi adaptado pelo próprio Hector Babenco em parceria com a roteirista Marta Góes. O livro de Alan Pauls é conhecido por sua prosa suntuosa, detalhista e reflexiva, quase psicológica. Transpor isso para o cinema foi um desafio complexo, e Babenco optou por transformar esse fluxo de consciência em um clima que beira o suspense psicológico e o melodrama. 
Como o livro se passa em Buenos Aires e o autor é argentino, o filme foi realizado como uma parceria entre Brasil e Argentina, mantendo o idioma espanhol na maior parte da projeção.
O filme marca a última aparição nos cinemas de um dos maiores nomes do teatro e da dramaturgia brasileira: Paulo Autran. Ele faz uma participação curta, porém marcante e elogiada, como o excêntrico Professor Poussière.
O que disse a crítica 1: Inácio Araújo da Folha de SP disse: "'O Passado' (...) tem situações de dramaturgia mal armadas".
O que disse a crítica 2: Thomas Boeira do site Papo de Cinema, escreveu que, apesar do bom roteiro, "a narrativa em si, vai-se tornando pouco envolvente depois de um tempo. É algo que se deve em parte pelo desenvolvimento corriqueiro da trama. Em uma cena, por exemplo, vemos Riminí presenciando um momento trágico envolvendo sua namorada, Nancy (Mimí Ardú), apenas para que na cena seguinte ele já apareça casado com a colega de profissão Carmen (Ana Celentano), que logo depois aparece grávida. Com as coisas ocorrendo tão rapidamente, Hector Babenco não consegue impedir que o filme tenha sérios problemas de ritmo, e a história infelizmente perde muito do peso que exibia inicialmente".
O que eu achei: "O Passado" (2007) trazia altas expectativas por unir o prestigiado romance do argentino Alan Pauls ao peso da direção de Hector Babenco e ao carisma do astro mexicano Gael García Bernal. No entanto, o resultado final na tela justifica plenamente a rejeição de grande parte do público, resultando em uma experiência cinematográfica arrastada, fria e emocionalmente estéril. O principal problema do longa reside na transição da literatura para o cinema. A prosa de Pauls baseia-se em fluxos de consciência e minúcias psicológicas sobre o fim de um casamento de doze anos. Ao tentar materializar essa obsessão interna, Babenco constrói uma narrativa episódica que perde completamente o ritmo. Acompanhar a derrocada do tradutor Rímini, perseguido pela ex-esposa Sofía, transforma-se em um exercício de masoquismo para o espectador. Os personagens carecem de carisma ou de uma humanidade que gere empatia; tornam-se figuras patéticas presas a um jogo de autodestruição que cansa rapidamente. Gael García Bernal parece perdido em cena, entregando uma atuação apática e sem a energia habitual, incapaz de segurar o peso dramático do protagonista. Visualmente, o filme adota uma estética cinzenta e melancólica que, em vez de sufocante, soa apenas monótona e artificial. A química entre o elenco é inexistente, fazendo com que os sucessivos relacionamentos fracassados de Rímini pareçam meros dispositivos burocráticos do roteiro para esticar a projeção. Até mesmo a participação afetiva do mestre Paulo Autran, em seu último papel no cinema, surge deslocada dentro de um universo tão gélido e sem vida. Ao tentar filmar o intangível peso das memórias e a toxicidade do amor que se recusa a morrer, Babenco entregou uma obra pretensiosa, em que o melodrama erra o tom e a tragédia vira tédio. O Passado falha gravemente como adaptação e como entretenimento, deixando a incômoda sensação de que o espectador desperdiçou seu próprio tempo assistindo a um fantasma de filme que nunca chega a assombrar de verdade.