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9.8.26

"Nouvelle Vague" - Richard Linklater (França/EUA, 2025)

Sinopse:
Paris, 1959. Um realizador desconhecido (Guillaume Marbeck), um produtor aventureiro (Bruno Dreyfürst), um orçamento irrisório, uma equipe minúscula, e o projeto louco de rodar um primeiro filme em 20 dias com um embrião de roteiro sobre um marginal em fuga (Aubry Dullin) e a sua namorada (Zoey Deutch). Esses são os bastidores das filmagens de "Acossado" (1960) de Jean-Luc Godard, um marco do movimento cinematográfico francês Nouvelle Vague.
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), o ótimo "Blue Moon: Música e Solidão" (2025), os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017) e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou conferir "Nouvelle Vague" (2025).
Katia Kreutz do site AIC – Academia Internacional de Cinema nos explica o que é a Nouvelle Vague, ela publicou: "Reunindo alguns dos grandes representantes do cinema moderno europeu, a Nouvelle Vague francesa foi um dos movimentos mais relevantes da história do cinema. Os diretores daquele período buscavam usar a técnica como uma forma de estilo. Para eles, um cineasta era, antes de mais nada, um autor. O filme deveria desafiar as convenções e desconstruir as bases do cinema, ou seja, a lógica narrativa tradicional e a continuidade do espaço e tempo. É como se o cineasta fosse um ensaísta que 'escrevesse com a luz', usando a câmera como sua caneta – um conceito que foi chamado de 'caméra-stylo'.
O termo Nouvelle Vague (que, em tradução literal, significa 'nova onda'), foi usado inicialmente entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960, na França, por um grupo de críticos cinematográficos da popular revista 'Cahiers du Cinéma'. As bases teóricas mais importantes para os integrantes desse grupo vieram dos escritos de Alexandre Astruc e, sobretudo, de André Bazin, cujas ideias ajudaram a moldar toda uma geração de estudiosos, críticos e cineastas.
O conceito da caméra-stylo via o cinema como uma forma de linguagem audiovisual, fundamentalmente escrita pelo diretor do filme. A Cahiers du Cinéma, fundada por Bazin em 1951, tornou-se o 'quartel general' de um grupo de jovens cinéfilos, amantes da sétima arte: François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Eric Rohmer – que, posteriormente, se tornariam os mais conhecidos diretores da Nouvelle Vague.
Um dos principais argumentos de Bazin consistia na rejeição da estética da montagem, tanto os cortes radicais propostos pelo cineasta russo Sergei Eisenstein quanto o estilo 'invisível' de edição dos filmes hollywoodianos. Ele defendia longos planos e uso da profundidade de campo, no que chamava de mise-en-scène (algo como 'representação da cena'). Os elementos que compunham a estrutura fílmica, de acordo com esse pensamento, eram todos aqueles que precediam a montagem propriamente dita, incluindo posicionamento e movimento de câmera, iluminação e distribuição da ação nos planos.
Os críticos da Cahiers não abraçaram apenas as ideias de Bazin, como também tomaram emprestado de Astruc o conceito de autoria. A chamada politique des auteurs ('política dos autores') sustentava que o filme deveria ser uma forma de expressão artística pessoal e que as melhores obras cinematográficas eram aquelas nas quais estava visível a assinatura de seus autores.
O movimento rejeitava ainda a 'tradition de qualité' – filmes adaptados de obras clássicas da literatura, que dominavam as salas de cinema francesas na época. O ímpeto por novidade que movia os jovens autores ficou evidente em uma espécie de manifesto escrito em 1953 por François Truffaut, 'Une certaine tendance du cinéma français' (Uma certa tendência do cinema francês). No texto, o cineasta denunciava as adaptações literárias para o cinema como uma forma segura de garantir bilheterias, resultando em trabalhos sem imaginação, o que ele chamou de 'cinéma de papa' (cinema de papai).
Os autores dispostos a criar uma 'nova onda' do cinema francês tinham uma coisa em comum: o desejo de gravar em locações reais, abordando temas de cunho social. Muitos dos cineastas do movimento estavam ativamente engajados nas revoltas políticas que aconteciam na França, na década de 1960. Até mesmo suas experimentações radicais com a edição, o estilo visual e a narrativa faziam parte de uma necessidade de quebrar os paradigmas conservadores daquele tempo".
Um dos filmes que fazem parte desse movimento é o longa "Acossado" (1960) de Jean-Luc Godard que conta a história de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) que, após roubar um carro em Marselha, foge para Paris. No caminho ele mata um policial que tentou prendê-lo por excesso de velocidade e, em Paris, persuade a relutante Patricia Franchisi (Jean Seberg), uma estudante americana com quem se envolveu, a escondê-lo até receber o dinheiro que lhe devem.
José Geraldo Couto do site IMS nos conta que "o filme de Richard Linklater retrata os bastidores da produção de 'O Acossado' (1960) (...). Vemos ali, em ação, a personalidade efervescente e imprevisível de Godard (Guillaume Marbeck), às voltas com um produtor duro na queda (Georges de Beauregard, encarnado por Bruno Dreyfürst), uma equipe atarantada e duas estrelas de personalidades díspares (Jean Seberg/Zoey Deutch e Jean-Paul Belmondo/Aubry Dullin). A missão nada modesta da trupe: subverter o cinema convencional e criar uma nova forma (ou novas formas) de expressar o real por meio de som e imagem.
(...) É forçoso dizer que se trata de um filme irresistível para os cinéfilos (entre os quais me incluo), talvez por conta de certo desejo fetichista de estar ali, no epicentro de uma revolução estética, política e moral. E nos deixamos levar prazerosamente por essa onda, que o próprio Godard maduro ironizaria invertendo a frase. 'Une vague nouvelle', disse ele, transformando o adjetivo em substantivo e vice-versa: uma vaga novidade.
Assim, o filme nos leva não apenas aos sets de filmagem, mas também à redação dos 'Cahiers du Cinéma', às conversas com ídolos como Rossellini e Bresson, aos cafés e ruas do Quartier Latin, numa reconstituição cuidadosa expressa num preto e branco que mimetiza a imagem do filme original, cujo frescor, aliás, segue incólume.
Para que não se quebre o encanto, praticamente todos os diálogos são frases de efeito ditas de fato em alguma ocasião, ou expressam de modo didático as transgressões buscadas por Godard. E aqui há um paradoxo: fala-se, por exemplo, do faux-raccord e dos cortes no interior do plano, mas o filme de Linklater não os pratica em nenhum momento, resignando-se a uma decupagem essencialmente convencional, 'invisível'. É um filme clássico celebrando um filme moderno.
(...) Um complemento ou contraponto mais que interessante seria o documentário 'Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague' (2010), de Emmanuel Laurent e Antoine de Baecque, disponível em DVD da Imovision. Ali se investiga mais a fundo essa espinhosa amizade/inimizade criativa que sacudiu a história do cinema".
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 2 estrelas, ou seja, algo entre fraco e regular. Disse: "A produção parece ter sido concebida primariamente para proporcionar a Linklater o prazer pessoal de 'refilmar' 'Acossado' - ou pelo menos o de documentar ficcionalmente sua produção, o que lhe permite reencenar não apenas passagens do original, mas reconstruir ambientes inteiros, como ao recriar em estúdio o apartamento de Patrícia, que originalmente era uma locação (um quarto de hotel). Além disso, o cineasta norte-americano se mostra tão determinado a perpetuar a aura mítica de Godard que, ao abordar a montagem do filme de 1960 (que, sim, foi inovadora no uso dos cortes secos para criar elipses abruptas dentro de planos contínuos), traz o francês articulando esta abordagem formal como se tivesse sido um conceito teoricamente premeditado em vez de um acidente feliz originado da necessidade prática de reduzir significativamente a duração do filme para viabilizar sua distribuição comercial. (...) Podendo se dar ao luxo também de ignorar a falta de caráter de Godard, já que suas ações vis contra Truffaut e Varda ainda estavam no futuro, Linklater acaba por idealizar um homem que simplesmente não existia, ignorando as lições de seu outro longa de 2025, 'Blue Moon', que se enriquecia justamente graças à complexidade moral de seu protagonista".
O que disse a crítica 2: Inácio Araujo da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "De Linklater pode-se dizer o que for (eu, em particular, nunca me entusiasmei demais com seus filmes), mas sempre esteve combatendo à sua maneira esse modo de ser da indústria. Por exemplo, quando filmou por dez anos a evolução de seu filho [referindo-se ao longa 'Boyhood - Da Infância à Juventude' (2014)]. Não é o único caso: o seriado inglês 'Adolescência' mostrou há pouco que é possível usar a tecnologia moderna para transmitir ao público sensações originais, uma aventura, de certa forma. O que 'Nouvelle Vague' sugere não é olhar para a nouvelle vague com uma lágrima nos olhos por conta de um passado tão rico, mas reencontrar um espírito capaz de novamente engajar o cinema na aventura da arte. Arte amadora, isto é, feita por amor. Não é tarefa fácil, mas também não é impossível".
O que eu achei: Quem gosta de cinema com certeza gostará de "Nouvelle Vague" (2025), uma produção franco-americana com direção de Richard Linklater. Todo filmado em P&B em escala 3:4, o filme nos conta a história do movimento cinematográfico Nouvelle Vague, que surgiu na França no final da década de 1950, impulsionado por jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma que decidiram virar diretores para romper com o cinema tradicional. Essa revista começou a ser publicada em 1951 e ainda existe. Quem a fundou foi o lendário teórico André Bazin junto com três sócios. Na redação figuravam nomes como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Éric Rohmer, que cansaram de apenas escrever sobre como o cinema deveria ser feito e decidiram provar na prática as suas próprias teorias. Essa transição de críticos para diretores foi um dos fenômenos mais fascinantes da história do cinema e aconteceu de forma muito natural e estratégica. Eles odiavam o ‘Cinéma de Papa’ (cinema dos pais), que eram produções francesas caras, cheias de diálogos literários e feitas dentro de estúdios fechados. Para eles, se um diretor de verdade era o dono da obra, eles precisavam assumir o controle total das câmeras. Como eram jovens e não tinham o apoio dos grandes estúdios, eles transformaram a falta de recursos em estilo e inovação utilizando câmeras leves nas ruas, luz do dia, equipes pequenas com poucos técnicos e atores amadores ou iniciantes e, em geral, fazendo capturas de imagem sem áudio que eram dubladas posteriormente. O primeiro deles que se aventurou foi Claude Chabrol, que usou uma herança de família para financiar “Nas Garras do Vício” (1958). Na sequência veio François Truffaut que pegou dinheiro emprestado do sogro e fez “Os Incompreendidos” (1959), um sucesso de bilheteria e crítica que trouxe o prestígio que o grupo precisava. Daí veio o Jean-Luc Godard que usou as sobras de rolos de filme de Truffaut para rodar “Acossado” (1960), quebrando todas as regras de montagem do cinema tradicional. O filme se debruça basicamente sobre os bastidores da produção de “Acossado” mostrando o jovem Godard improvisando os diálogos no próprio dia da gravação, usando carrinhos de supermercado ou cadeiras de rodas para fazer os travellings com a câmera ou tentando esconder o câmera man dentro de caixas para não chamar a atenção nas ruas e preservar a naturalidade das cenas. Vale a pena assistir “Acossado” antes de ver “Nouvelle Vague” pois vai ficar mais interessante ver Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg decorando as falas minutos antes das filmagens, bem como observar Jean Seberg desesperada, detestando a falta de organização e o estilo improvisado de Godard. Ela chegou a ligar para o marido dizendo que o filme seria um desastre completo e que a carreira dela estaria arruinada. Hoje sabemos que o resultado foi o contrário disso. Além do filme ser uma delícia de ver, vale prestar atenção na semelhança entre os atores escalados e os verdadeiros personagens da época. Com exceção da atriz norte-americana Zoey Deutch, que interpreta Jean Seberg, quase todo o elenco principal é composto por atores franceses jovens e praticamente desconhecidos do grande público. Super recomendo.

16.3.26

"Blue Moon: Música e Solidão" - Richard Linklater (EUA/Irlanda, 2025)

Sinopse:
Na noite de 31 de março de 1943, o lendário letrista Lorenz Hart (Ethan Hawke) enfrenta sua autoconfiança abalada no bar Sardi's, enquanto seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) comemora a noite de estreia de seu inovador musical "Oklahoma!".
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017) e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou conferir "Blue Moon: Música e Solidão" (2025).
Rodrigo Fonseca publicou no Correio da Manhã: "'Blue Moon' foi rodado em 15 dias, em estúdio, em Dublin, na Irlanda, por uma bagatela, e compensou o orçamento que consumiu para sair do papel com uma sucessão de vitórias, a começar pela indicação ao Urso de Ouro de 2025. Andrew Scott foi premiado na Berlinale (...) com o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante, por seu desempenho no painel histórico da Broadway. Recebeu mais 13 láureas e 68 indicações a troféus de peso, com destaque para o Oscar, [onde] concorre nas categorias de Melhor Ator (para Hawke) e Melhor Roteiro Original (Robert Kaplow). A nomeação em Hollywood deveria lhe abrir salas no Brasil, mas não foi capaz: o streaming foi seu destino. (...)
[No Longa] Linklater e Ethan revisitam a saga do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi's, durante a festa de abertura do novo espetáculo (o fenômeno "Oklahoma!") de seu ex-parceiro Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott. Na noite de 31 de março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos os seus demônios.
Em recente entrevista ao Correio da Manhã, Hawke explicou que 'o álcool, no caso de Lorenz, é apenas o sintoma de um problema profundo ligado ao senso de não pertencimento e a bebida só faz ampliar a sua solidão'. Linklater costuma falar dela com frequência. E o faz por meio do verbo, em narrativas palavrosas. Contam-se nos dedos as vozes autorais da realização capazes de pavimentar integralmente a sua narrativa na palavra, a extrair delas um grau (transcendente) de cinemática, como Linklater consegue. No documentário, ressaltava-se Eduardo Coutinho (1933-2014) por essa façanha (a expandir os limites do plano talking head) e, hoje, na ficção, encontra-se essa destreza na obra de comida e bebida perfumados a cigarros do sul-coreano Hong Sang-Soo (de 'A Mulher Que Fugiu').
Dínamo do modo de produção indie nos EUA, Linklater deu lá suas escapadelas mais cinemáticas, ou seja, fez filmes nos quais o movimento é mais abundante do que o falatório, vide 'Escola do Rock' (2004) ou o recente (e delicioso) 'Hit Man' (aqui chamado 'Assassino Por Acaso', de 2023).
No entanto, retorna ao esquema dos filmes concentrados em parlatórios (sempre num viés de tom confessional e existencialista) com recorrência. Construiu nessa vereda uma espécie de carta de intenções de uma estética investigativa dos desacertos e desatinos do querer e do viver, que se estendeu à animação com 'Waking Life' (2001), um poema em forma de rotoscopia. A forma como explora as fraturas expostas pela fala alcança um novo estágio (e um amadurecimento notável) em 'Blue Moon'. Leva Hawke aos píncaros da excelência consigo.
Passados 17 anos de 'Eu e Orson Welles' (2009), o diretor retorna ao universo do teatro, num namorico com as figuras exponenciais dessa expressão artística milenar, no intuito de entender a ciranda de vaidades e de decepções que circunda o glamour da Broadway. Assume, para isso, a data de estreia do espetáculo 'Oklahoma!', e parte das franjas desse abrir de cortinas para explorar as inquietações de Lorenz Hart. São dele baladas memoráveis como 'The Lady Is a Tramp'; 'Manhattan'; 'My Funny Valentine' e 'Bewitched, Bothered and Bewildered'.
Apesar de retratá-lo na sua fase crepuscular, Linklater jamais se afoga na amargura, embora ela esteja lá, no ciúme e no inconformismo que Lorenz (chamado por amigos e amantes de Larry) sente do projeto teatral da dupla Rodgers e Hammerstein, que reestrutura o entretenimento americano. Parece não haver lugar para ele no que se funda na primeira metade da década de 1940, numa indústria embalada pelas suas canções de amor. Por isso, ele bebe. A certa medida, ao fitar um drink, diz: 'Como pode tanto prazer caber em algo tão pequeno'. A mesma dinâmica se aplicaria por nós, cinéfilos, a uma joiazinha como 'Blue Moon', que merece uma chance em tela grande".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "É possível que 'Blue Moon' soe, de fato, um tanto maçante no segundo terço, quando algum momento de solidão ou recolhimento de Hart seria benéfico, para equilibrar a metralhadora verbal do personagem. Fãs do compositor talvez não apreciem este olhar voltado à decadência, com pouca ênfase no trabalho do artista durante décadas. Focar-se no protagonista no instante exato em que decai, pessoal e artisticamente, talvez soe delicado para alguém de tamanho reconhecimento no meio, até então. Mesmo assim, Linklater evita o caráter laudatório e excessivamente linear dos biopics, propondo fragmentos de uma personalidade complexa, que nunca tenta explicar, nem resumir. O diretor respeita as contradições de Hart - e aí, possivelmente, reside o seu principal trunfo".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "Em 'Blue Moon', não temos apenas as fragilidades de Lorenz Hart reveladas. O filme destaca, é verdade, o seu ponto de vista para as coisas, mas é possível perceber o quanto os outros profissionais em torno dele possuem inseguranças, dúvidas, ansiedade e uma melancolia que muito tem a ver com o momento que vivem (a Segunda Guerra Mundial) e que, talvez por fuga ou por mentirem para si mesmos, tentam deixar de lado e destacar apenas o 'aqui e agora', a beleza de uma letra, de um acorde, de um artigo, de uma fotografia, de um enredo… tudo misturado às mais diversas emoções humanas. Nós saímos de 'Blue Moon' com uma sensação esquisita de 'completude incompleta'. Por um lado, temos a saciedade de bons diálogos de um olhar até mesmo invasivo para Lorenz Hart. Por outro, a fome de mais elementos para além de seu núcleo, de seu olhar viciado e lamentador. Não diria, porém, que é uma armadilha inevitável do filme. É somente parte de nossa curiosidade, nascida da altíssima qualidade com que o diretor projetou a sombra de um artista que tanta beleza trouxe para o mundo, mas que não conseguiu utilizá-la para iluminar o seu próprio caminho".
O que eu achei: Que retrato delicado este sobre compositor americano Lorenz Hart (1895-1943). Foi fazendo par com Richard Rodgers (responsável pelas melodias) por mais de 20 anos, que ele escreveu a letra de 26 musicais da Broadway, incluindo sucessos como “Blue Moon”, “The Lady Is a Tramp”, “Manhattan”, “Bewitched, Bothered and Bewildered” e “My Funny Valentine”. Hart nasceu no Harlem, na cidade de Nova Iorque, e é o mais velho de dois filhos. Seus pais eram imigrantes judeus de origem alemã. Do lado materno, Hart era sobrinho-neto do poeta alemão Heinrich Heine. Seu irmão, Teddy Hart, também se dedicou ao teatro e se tornou um astro da comédia musical. Ele chegou a estudar jornalismo, trabalhou para os irmãos Shubert traduzindo canções de peças alemãs para o inglês, quando em 1919, um amigo o apresentou a Richard Rodgers e os dois se juntaram para compor músicas para uma série de produções teatrais. Eles ganharam muito dinheiro. Em 1938 Lorenz Hart começa a sofrer com o alcoolismo. Mesmo assim, eles continuaram trabalhando juntos até meados de 1942. Em julho de 1942, o New York Times noticiou que Richard Rodgers, Lorenz Hart e Oscar Hammerstein II começariam a trabalhar em uma versão musical de um peça folclórica. Rodgers havia trazido o letrista Oscar Hammerstein II para o projeto devido à piora do estado mental de Hart, que admitiu que tinha dificuldade em escrever um musical para um ambiente rural como Oklahoma e abandonou o projeto. Ocorre que o musical "Oklahoma!" foi um enorme sucesso. O filme vai mostrar justamente uma versão imaginada da noite de 31 de março de 1943, na qual o lendário letrista (interpretado magistralmente por Ethan Hawke, indicado ao Oscar por sua atuação) se encontra dentro do bar Sardi's, esperando a chegada de seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) juntamente com seu novo parceiro Hammerstein (Simon Delaney) para comemorar a noite de estreia do inovador "Oklahoma!". Com um roteiro original inspirado nas cartas que o letrista escreveu para sua musa Elizabeth Weiland, o filme tem uma pegada teatral com poucas mudanças de cenários, poucos personagens e muitos monólogos. A câmera de Linklater trabalha com enquadramentos que transformam o ator Ethan Hawk, que na vida real tem 1,80m de altura, em um homem franzino e decadente com pouco mais de 1,50m. É nesse fatídico dia que Lorenz Hart vai constatar que sua saída da dupla foi a chave do sucesso para a carreira do parceiro decolar, num misto de autocomiseração, inveja, ciúme e desdém. Conta-se que eles ainda trabalharam juntos mais uma vez nesse ano, quando Rogers o chama para compor seis letras de músicas, mas no dia da estreia desse musical, Hart cai bêbado na rua e desaparece, tendo sido encontrado doente dois dias depois e levado ao Doctors Hospital onde morreu em poucos dias. Um filme triste, mas extremamente bem feito que resulta num brilhante estudo de personagem. Tive que procurar imagens do ator Ethan Hawke para me lembrar quem era, tamanha a transformação. O ator não ganhou o Oscar, mas era outro concorrente que se ganhasse, não teria sido uma injustiça. Excelente pedida.

21.7.23

“Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” – Richard Linklater (EUA, 2022)

Sinopse:
 
Um homem relembra o mágico ano de 1969 em Houston, quando tinha apenas 10 anos. Ele se recorda de sua infância alegre com seus amigos e família, de radicais mudanças políticas e até da fantástica viagem à Lua.
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Before Sunrise" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Before Sunset" (2004) e "Before Midnight" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014) e os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017). Desta vez vou conferir a animação de ficção científica “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022).
O filme se passa durante o pouso da Apollo 11 na lua em 1969 e vai explorar as fantasias das crianças na Terra sobre o evento. Kevin Rick do site Plano Crítico nos conta tratar-se de “mais um fruto cinematográfico da recente onda de filmes semiautobiográficos de cineastas, com grande foco no período, contexto histórico, espaço geográfico e modo de vida que os idealizadores cresceram, vide ‘Roma’, ‘Belfast’, ‘A Mão de Deus’ e (...) ‘The Fabelmans’, de Steven Spielberg. Independente da abordagem formal e narrativa de seus respectivos diretores, obras assim carregam em comum um olhar extremamente pessoal do artista”. Assim como em “Boyhood” a história se passa em Houston, no Texas, nos anos 60. Stan é um aluno da quarta série que é puxado para uma missão ultrassecreta da NASA, na qual o jovem de 10 anos e meio é recrutado por dois agentes do governo para se tornar um astronauta, indo à Lua antes da Apollo 11. “O tom absurdo é apenas a camada superficial de uma história que gradualmente se torna um retrato da vida americana no final dos anos 1960, com pequenas inserções políticas e uma visão ampla do fascínio (e críticas) à corrida espacial, mas especialmente uma história sobre o crescimento de Stan ao redor da cultura pop e a explosão de popularidade de shows de televisão; jogos com familiares e amigos; rotina escolar e doméstica; inovações tecnológicas; e dinâmicas sociais de uma criança neste período, que gostava de jogar fliperama e ler revistas da MAD. Tanto a distribuição do roteiro quanto a ótima montagem fazem um vai-e-vem singelo sobre experiências e percepções que moldaram Stan, e consequentemente Linklater no artista e na pessoa que é hoje”. A animação é feita com a técnica da rotoscopia, similar àquela já utilizada pelo diretor em “Waking Life” (2001) e “O Homem Duplo” (2008). A técnica implica em desenhar em cima de cenas gravadas por atores. A narração em off é do ator Jack Black.
O que disse a crítica 1: Rick achou o filme mediano. Escreveu: “’Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial’ é um filme honesto. Dá para sentir isso assistindo. Mas eu diria que em sua sinceridade, o cineasta não é necessariamente natural, criando uma obra mais verbal do que orgânica. Uma execução mais informacional do que cinematográfica, o que detrai bastante da nossa conexão emocional com a história de Stan e seu pequeno milagre espacial”. O resultado, segundo ele, é “esteticamente encantador, mas essencialmente vazio e esquecível”. 
O que disse a crítica 2: Marcos Faria do site Cineset também achou razoável. Disse: “’Apollo 10 e Meio’ não consegue conciliar muito bem suas duas faces: tudo que envolve a missão de Stan simplesmente não se mostra tão interessante quanto o registro da época (...). As imagens midiáticas que o filme resgata, filtradas pela animação, dialogam com a ludicidade de Stan em sua viagem à lua. A questão é que os segmentos sobre a missão simplesmente não se mostram tão interessantes de assistir: o espanto da imagem de uma criança pilotando uma espaçonave logo se esvai e, enquanto isso, não conseguimos deixar de pensar: ‘ok, já entendi o ponto, agora me tire do espaço e me leve de volta às texturas sessentistas de Houston’”.
O que disse a crítica 3: Caio Coletti do site Omelete gostou. Segundo ele o filme não chega ao nível de “Boyhood”. “É um Linklater menor, em todos os sentidos, mas ainda é um Linklater - e é sempre uma experiência transportadora assisti-lo”.
O que disse a crítica 4: Fábio Rossini do site Cinema com Rapadura também gostou. Para ele: “’Apollo 10 e Meio’ enfatiza a nostalgia por muito tempo, até mais do que devia. Mas não deixa de ser um tipo de documento histórico sobre como a corrida espacial influenciou a vida daquelas pessoas, mudou o cotidiano dos adultos com propagandas de progresso, e mudou a vida das crianças com novas brincadeiras, como escorregadores em formato de foguete. Grandes feitos da humanidade só nos ajudam a exaltar a pureza da vida cotidiana”.
O que eu achei: A história é bem nostálgica e vai pegar de cheio quem, assim como eu, for contemporâneo do diretor - eu nasci em 1960 e vi que ele também - então essa criança que tinha 9 anos em 1969 poderia ser eu. Me vi nos jogos, nas brincadeiras, nos programas de tv da época, nas roupas, na música, nos costumes… até uma rápida entrevista com a Janis Joplin é mostrada passando na tv. Lembro especialmente daquela madrugada em 1969 que insisti com meu pai em passar a madrugada na sala pra ver o Neil Armstrong pisar na lua, assim como a família do jovem Stan faz. Por ser um recorte de época bem específico, tenho dúvidas se pessoas mais jovens vão gostar tanto quanto eu. Atenção à maravilhosa trilha sonora com músicas de Donavan, Jeff Back, Credence, 5th Dimension, Johnny Cash, Pink Floyd e outros. Bem bacana.

27.6.19

"O Homem Duplo" - Richard Linklater (EUA, 2006)

Sinopse: Num futuro próximo, a guerra do governo norte-americano contra as drogas se juntou à guerra ao terror. Numa sociedade cada vez mais policiada, foi desenvolvido um novo sistema de disfarce, sob o qual trabalha o policial Bob Arctor (Keanu Reeves). Enquanto investiga seus amigos mais próximos, ele acaba recebendo ordens para investigar sua própria vida e embarca num estranho pesadelo, no qual identidade e lealdade não parecem mais ter um sentido claro.
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Before Sunrise" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Before Sunset" (2004) e "Before Midnight" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014) e o mediano "A Melhor Escolha" (2017). Desta vez vou conferir "O Homem Duplo" (2006).
Neste "O Homem Duplo", Linklater opta por adaptar um romance de Philip K. Dick (1928-1982) - o mesmo autor de "Blade Runner - O Caçador de Andróides", "O Pagamento" e "Minority Report". Como técnica ele opta pela chamada Waking Life: a rotoscopia digital, animação que "pinta" os atores e cenários reais, incluindo novas cores e texturas na película, o que auxilia nos efeitos psicodélicos ligados à droga de que trata o filme. Mas, a meu ver, é só. O filme é muito confuso, deixa pontas soltas, te dá a sensação de que quem está drogado é você que não consegue acompanhar a trama. Será que isso foi intencional? Não sei.

11.3.19

"A Melhor Escolha" - Richard Linklater (EUA, 2017)

Sinopse: Anos depois de terem levado Meadows (Steve Carell) para a prisão, os marinheiros Buddusky (Bryan Cranston) e Mulhall (Laurence Fishburne) recebem uma ligação do velho amigo pedindo que ambos o ajudem a trazer para casa o corpo do filho que foi morto na Guerra do Iraque.
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Before Sunrise" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Before Sunset" (2004) e "Before Midnight" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014). Desta vez vou conferir "A Melhor Escolha" (2017).
Segundo Rodrigo Torres do site Adoro Cinema, "é uma espécie de continuação de 'A Última Missão', clássico de 1974 dirigido pelo subestimado Hal Ashby. A sequência é virtual porque Sal (Bryan Cranston), Richard (Laurence Fishburne) e Larry (Steve Carell) não são os mesmos personagens vividos, respectivamente, por Jack Nicholson (Buddusky), Otis Young (Mulhall) e Randy Quaid (Meadows). Também diferente é o delito cometido no passado. Para acentuar a gravidade desse crime, Linklater comete um súbito equívoco. De modo banal, Richard indaga Sal sobre algo que ambos sabem ('O que nós fizemos?'), tornando o diálogo estranhamente inverossímil e superficial, haja vista os esforços de Fishburne e Cranston em tornar plausível uma pergunta que tem como único intuito esclarecer para o público o que acontecera com o trio. Curiosamente, a resposta é fragmentada e revela pouco mais do que já se sabia, o que não só acentua sua inutilidade, como a falta de costume de Linklater em construir falas expositivas." O filme é mediano, muito nacionalista para o meu gosto.

19.8.15

"Boyhood - Da Infância à Juventude" - Richard Linklater (EUA, 2014)

Sinopse: O filme conta a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) que tenta criar seu filho Mason (Ellar Coltrane). A narrativa percorre a vida do menino durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo.
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Before Sunrise" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Before Sunset" (2004) e "Before Midnight" (2023). "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014) é o primeiro filme que vejo dele.
Segundo Lucas Salgado do site Adoro Cinema: "12 anos. Foi o tempo que Richard Linklater passou rodando, em segredo, 'Boyhood - Da Infância à Juventude'. Todo ano, ele reunia a equipe por alguns dias e filmava algumas cenas. O processo começou em 2002, com o filme ficando pronto em 2014. Só isso já seria o bastante para despertar a curiosidade do público, mas o longa é mais do que um projeto interessante, é algo único do ponto de vista cinematográfico. (...) É incrível a coragem de investir em atores mirins sem a certeza de que 12 anos depois eles continuariam interessantes, mas o diretor foi recompensado, pois é justamente isso que acontece. (...) Trata-se de um filme sobre a beleza do ordinário, nada é extraordinário (salvo o resultado final da obra). Temos um menino comum em situações comuns cercado por gente comum." Vale ver o menino Ellar Coltrane crescer bem diante dos seus olhos. Obra-prima devido o processo.