29.1.18

"Meu Amigo Hindu" - Hector Babenco (Brasil, 2015)

Sinopse: O cineasta Diego (Willem Dafoe) sofre de um câncer terminal. Se interna em um hospital e, após a alta passa a ir lá apenas para manutenção do tratamento e acaba por dividir esses atendimentos com um menino hindu (Rio Adlakha), com quem faz amizade. As chances de Diego sobreviver são mínimas, mas, caso ele vença a doença, terá um desafio: reaprender a viver.
Comentário: Hector Babenco (1946-2016) é um cineasta argentino naturalizado brasileiro de ascendência judaico-ucraniana. Ele dirigiu filmes importantes como “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003), dentre outros. "Meu Amigo Hindu" (2015) é o primeiro filme que vejo dele.
O filme retrata Diego (Willem Dafoe), um diretor de cinema com câncer avançado que viaja para os Estados Unidos para um transplante de medula e faz amizade com um garoto indiano na ala oncológica. 
Trata-se de um drama de ficção fortemente baseado nas memórias do próprio diretor. Babenco filmou a obra como um acerto de contas com a própria mortalidade e uma declaração de amor ao cinema, declarando que o filme era seu único pedido à morte para poder realizar mais uma obra antes do fim, já que o cineasta enfrentou um grave câncer linfático na década de 1990 e precisou passar por um transplante de medula óssea, vindo falecer em 2016. Ele, de fato, dividia a sala de quimioterapia com um garoto estrangeiro. O longa funcionou como o testamento artístico e pessoal do cineasta, que dizia ser esse o filme que a morte lhe permitiu fazer.
O elenco mistura grandes astros de Hollywood com nomes consagrados do cinema e da TV no Brasil. O filme foi rodado em inglês para facilitar a distribuição internacional e a atuação do protagonista. Willem Dafoe interpreta Diego, o alter ego de Hector Babenco. O ator aceitou o papel por ser amigo de longa data do diretor e entregou uma atuação intensa sobre a dor e a sobrevivência. No núcleo brasileiro estão Maria Fernanda Cândido que vive Lívia, a esposa de Diego, inspirada em parte na última companheira de Babenco, a atriz Bárbara Paz. Bárbara Paz interpreta Guerra, uma atriz que se envolve com Diego após sua recuperação; Selton Mello faz uma participação especial e lúdica como o "Homem Comum", que personifica a própria Morte e joga xadrez com o protagonista; Reynaldo Gianecchini interpreta o médico de Diego no Brasil, responsável por cuidar do cineasta antes de sua viagem e Dalton Vigh vive o irmão do protagonista, trazendo o peso dos conflitos familiares durante a doença. Rio Adlakha é o ator mirim indiano que interpreta o "menino Hindu" do título, dividindo as cenas mais emocionantes do hospital com Willem Dafoe.
O que eu achei: O longa tem pós e contras. Um dos pontos altos é a atuação do Willem Dafoe, que entrega aqui uma atuação magnética, crua, carregando o filme nas costas, fazendo o espectador sentir a dor física do personagem. As cenas hospitalares são tocantes por conta dos momentos lúdicos de Diego com o menino hindu e o jogo de xadrez com a Morte. Outro pró é a coragem temática: a honestidade de Babenco ao se retratar como um homem difícil, egoísta e arrogante e não como uma vítima. Isso dá muita força ao roteiro. Por outro lado, ver atores brasileiros consagrados atuando em inglês gera diálogos engessados, sotaques artificiais e uma perda nítida de espontaneidade. Além disso, o filme muda drasticamente na segunda metade. A primeira parte - a luta contra o câncer - é tensa e focada; a segunda parte - a vida após a cura - perde o ritmo e vira uma crônica de relacionamentos amorosos um pouco dispersa. Por ser um filme-testamento, Babenco quis colocar todas as suas memórias na tela, o que deixou o terço final longo e cansativo. Colocando tudo na balança, o filme resulta bom. Não é a última bolacha do pacote, nem muito menos desprezível.