27.9.26

“Palestina 36” - Annemarie Jacir (Território Palestino Ocupado/Reino Unido/Catar/França/EUA/Dinamarca/Jordânia/Emirados Árabes Unidos/Arábia Saudita/Itália/Turquia/Suécia/Austrália/Noruega, 2025)

Sinopse:
Em 1936, enquanto as aldeias palestinas se revoltam contra o domínio colonial britânico, Yusuf (Karim Daoud Anaya) viaja entre Jerusalém e sua casa rural, em meio à escalada de agitação e um momento decisivo para o Império Britânico.
Comentário: Annemarie Jacir (1974) é uma escritora e cineasta palestina. Ela pertence a uma nova geração de cineastas locais que conquistam o público ocidental com filmes impactantes. Dentre suas produções consagradas estão “O Sal Deste Mar” (2008), que recebeu duas indicações no prestigioso Festival de Cannes, e “Quando Vi Você” (2012), vencedor de um prêmio no Festival Internacional de Cinema de Berlim. O drama histórico “Palestina 36” (2025) é o primeiro longa que vejo dela.
Se você pretende assistir ao filme Palestina 36, é importante entender o contexto da trama antes. Não se trata de um documentário, mas sim de um drama histórico épico baseado em fatos reais ocorridos na Palestina em 1936. Vale a pena esclarecer alguns pontos:
1. Em 1936, a Palestina já estava ocupada pelos ingleses?
Sim. Desde o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando o Império Otomano desmoronou, a Sociedade das Nações (que seria a avó da ONU) entregou a região para o controle da Grã-Bretanha. Isso ficou formalmente conhecido como o Mandato Britânico da Palestina. Em 1936, os ingleses já mandavam e desmandavam ali havia quase duas décadas.
2. O que aconteceu em 1936?
Aconteceu o que os historiadores chamam de Grande Revolta Árabe (ou Grande Revolta Palestina), que durou de 1936 a 1939. Foi o maior, mais longo e mais expressivo movimento dos palestinos para tentar expulsar os colonizadores ingleses. Para você entender o tamanho da insatisfação local que gerou essa explosão, imagine duas grandes pressões acumuladas:
- O Domínio Britânico: os palestinos queriam sua independência e viam a Grã-Bretanha confiscando terras e cobrando impostos abusivos.
- A Imigração em Massa: paralelamente, milhares de judeus fugiam desesperadamente do antissemitismo e do crescimento do fascismo e nazismo na Europa. Os britânicos facilitavam a entrada dessa imigração judaica e a venda de terras para o movimento sionista, gerando o temor generalizado nos camponeses árabes locais de que eles seriam gradualmente expulsos de suas próprias terras.
3. O que seria exatamente esse movimento sionista?
O movimento sionista (ou simplesmente sionismo) é, em sua definição essencial, o nacionalismo judaico. Trata-se de um movimento político e ideológico surgido no final do século XIX na Europa que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e a criação e manutenção de um Estado nacional próprio na região histórica do antigo Reino de Israel (também conhecida como Palestina).
O termo deriva de Sião, o nome de uma colina em Jerusalém que se tornou, ao longo dos séculos de dispersão (diáspora), um símbolo da pátria bíblica e do desejo de retorno dos judeus à terra de seus ancestrais.
Sua origem se deu por conta do crescimento do antissemitismo. O movimento ganhou força na Europa Central e Oriental diante de uma forte onda de perseguição e discriminação contra comunidades judaicas. Intelectuais judeus concluíram que a única forma de garantir a segurança e a sobrevivência do seu povo seria possuindo um Estado soberano.
O jornalista austro-húngaro Theodor Herzl é considerado o pai do sionismo político. Ele organizou o Primeiro Congresso Sionista Mundial em 1897, na Basileia (Suíça), estruturando o movimento institucionalmente.
4. Como se deu essa Grande Revolta Árabe ou Grande Revolta Palestina?
A revolta começou em abril de 1936 de forma impressionante: com uma greve geral de seis meses. O comércio fechou, o transporte parou e a população se recusou a pagar impostos para o governo britânico. Como os ingleses não cederam, o movimento escalou a partir de 1937 para uma guerrilha nas montanhas e vilarejos rurais. Grupos de camponeses sabotavam linhas de trem, cortavam cabos de comunicação e emboscavam tropas britânicas para tentar inviabilizar a ocupação.
5. E qual foi o desfecho dessa revolta?
Os ingleses reagiram com uma violência colonial esmagadora. Mandaram um volume imenso de soldados, instituíram a lei marcial, prenderam lideranças e começaram a demolir casas e punir vilarejos inteiros que ajudavam os rebeldes. A revolta acabou derrotada em 1939, deixando a sociedade palestina muito fragilizada politicamente e militarmente, o que abriu caminho direto para a partilha da região anos mais tarde.
6. O que esperar do filme?
O filme vai tentar retratar esse evento. O coração do filme são os aldeões palestinos, em especial Yusuf e sua família. Na cidade o filme foca em duas famílias: a família de Amir e a de Khuloud, dois intelectuais urbanos em Jerusalém e moradores da vila rural de Al Basma. As duas famílias estão ligadas por Yusuf. Espere ver um retrato forte e sem filtros sobre como o colonialismo britânico sufocou essa revolta e como os eventos de 1936 criaram as bases de tudo o que acontece no território até os dias de hoje.
7. Há no filme personagens que interpretam pessoas reais?
- Os personagens palestinos são todos fictícios e vêm de lugares diferentes.
- Khuloud, a jornalista, interpretada por Yasmine Al Massri é uma mistura de jornalista da alta sociedade com uma socialite que vivia em Jerusalém na época e era muito conhecida por suas festas com os britânicos. A elite palestina se misturava bastante com os britânicos. E as mulheres que eram jornalistas na época e fundavam gráficas escreviam sob pseudônimos masculinos para serem levadas a sério, mas também porque esses lugares tinham governos coloniais e escrever sob um pseudônimo quando se fazia uma crítica era, na verdade, uma forma de proteção.
- Wingate, um oficial britânico e sionista cristão interpretado por Robert Aramayo, foi um homem realmente violento e desequilibrado. Ele era muito mais insano do que o filme mostra. Ele foi dispensado do Exército Britânico e da Palestina. Estava fora do sistema, fazendo as coisas do jeito dele no campo de batalha.
- Thomas Hopkins, o secretário do alto comissário, é baseado em uma pessoa real que realmente se demitiu e se tornou marxista. Ele foi para lá pensando que havia boas intenções, que estavam fazendo algo pela população nativa e que seria útil, mas aos poucos, em seus diários, ele percebe que é um projeto fracassado com uma agenda oculta, e que não quer fazer parte disso. Ele acaba se demitindo e se tornando um marxista e ativista anticolonial pelo resto da vida. No filme ele é Hopkins, interpretado por Billy Howle, mas seu nome verdadeiro era Hodgkin.
- O vencedor do Oscar Jeremy Irons interpreta Sir Arthur Grenfell Wauchope, o alto comissário britânico para o Mandato Britânico da Palestina.
- Liam Cunningham interpreta Charles Tegart, o especialista em contrainsurgência da vida real que explica ao alto comissário e a outros oficiais britânicos a necessidade de táticas antiterroristas extremamente brutais para suprimir a Revolta Árabe. Charles era irlandês. Ele foi o primeiro a idealizar o conceito de um muro, não os israelenses - eles fizeram isso depois. Tudo o que os britânicos fizeram, os israelenses simplesmente copiaram o projeto.
8. Onde foram feitas as filmagens?
O longa foi filmado na Jordânia, Palestina, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Jaffa e Belém. A diretora declara que ele foi feito em condições extremamente difíceis e que tiveram que interromper as filmagens quatro vezes. O que deveria durar três meses acabou se tornando quase dois anos de luta para concluir o filme, pois ele foi rodado durante o genocídio.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Através desta obra, os palestinos ganham um mito, uma pedra simbólica, em detrimento de uma proposta de debate qualificado - até porque a direção nos diz exatamente o que pensar e sentir; qual lado defender, e quem temer. Não resta muito à participação do espectador: somos passivamente colocados na posição de alunos silenciosos, destinados a nos calar e aprender. Caso chegue, de fato, a um público amplo, este projeto tão megalomaníaco quanto idealista pode vir a conquistar alguns adeptos e conscientizar certas mentes mal-informadas. Quem sabe, ele funcione enquanto primeiro passo para obras menos desengonçadas, que, sobretudo, coloquem o povo palestino enquanto público-alvo de sua própria história”.
O que disse a crítica 2: Peter Bradshaw do site The Guardian também avaliou com 3 estrelas. Escreveu: “Este é um filme comovente, embora com um ritmo um tanto lento e, por vezes, com uma abordagem didática. (...) Há um vasto elenco de personagens, com o conteúdo emotivo do filme cuidadosamente distribuído entre todos eles, embora o cerne da história seja Yusuf (Karim Daoud Anaya), um rapaz do interior que consegue um emprego em Jerusalém com um editor de jornal cosmopolita e de centro-liberal, que não se opõe a fazer concessões ao sionismo. Yusuf não é particularmente político, mas acaba sendo radicalizado pela brutalidade britânica. Nenhum desses personagens se entrega completamente à paixão, mas todos são retratados de forma convincente, e o filme serve como um lembrete veemente do que não se ensina nas escolas britânicas”.
O que eu achei: Escolhido oficialmente para representar a Palestina no Oscar de Melhor Filme Internacional, “Palestina 36” (2025) é um resgate poético e urgente das origens de um conflito que ecoa até os dias atuais. O longa se debruça sobre a Grande Revolta Árabe ocorrida de 1936-1939 contra o domínio colonial britânico, um período pouquíssimo explorado pelo cinema ocidental. A trama acompanha Yusuf, um jovem palestino dividido entre o cotidiano pacato da aldeia rural onde reside e a efervescência política de Jerusalém onde trabalha. O roteiro costura o grande evento histórico - o aumento das tensões com o Mandato Britânico e a chegada massiva de refugiados judeus que fugiam do nazismo e do fascismo europeu - com as pequenas histórias individuais. A narrativa opta por centralizar o foco na engrenagem colonial britânica, mantendo a comunidade de colonos judeus em segundo plano, vislumbrada de forma mais distante. O mais interessante da obra está em como ela reivindica o peso histórico dessa revolta. A insurreição popular anticolonial - iniciada por uma greve geral massiva de seis meses - é retratada em sua raiz camponesa e trabalhadora. A diretora faz questão de ilustrar as engrenagens da dominação britânica: os altos impostos sobre a agricultura, o confisco de propriedades e as leis marciais brutais. Ao focar na violência esmagadora usada pelo Império Britânico para sufocar o levante, o filme traça uma linha histórica direta, mostrando como as estruturas de repressão impostas naquela década desmantelaram a sociedade palestina, deixando-a fragmentada, sem liderança centralizada e militarmente indefesa. Um cenário de vulnerabilidade cujos reflexos podem ser notados até os dias de hoje. Visualmente, o filme é muito bem feito. A cinematografia de Hélène Louvart captura com precisão o contraste entre a beleza natural da terra e a violência da opressão colonial, enquanto a trilha sonora de Ben Frost constrói uma atmosfera de tensão crescente. O elenco, encabeçado por rostos conhecidos do cinema como Jeremy Irons e Robert Aramayo, entrega o peso emocional que a história exige. Claro que o filme despertou debates acalorados na crítica internacional. Setores mais conservadores, como o periódico Engelsberg Ideas, acusaram o longa-metragem de promover uma revisão histórica parcial e romantizada ao pintar a sociedade palestina da época como uma frente artificialmente unificada contra o colonialismo. Críticos apontam que o roteiro suaviza as violentas fraturas internas entre clãs rivais - como os Husaynis e os Nashashibis - e os choques culturais entre camponeses e as elites urbanas. Da mesma forma, a caracterização de figuras militares britânicas, como o capitão Wingate, é criticada por deslizar para uma vilanização caricata. De qualquer forma, creio que um filme é sempre uma representação. Tem sempre um ponto de vista e me parece válido, eventualmente, darmos voz para uma opinião palestina e feminina. Com isso, apesar das controvérsias, é uma boa porta de entrada para se entender um pouco mais daquela realidade.