26.9.26

“Seymor Hersh: Em Busca da Verdade” - Laura Poitras e Mark Obenhaus (EUA, 2025)

Sinopse:
Ele dedicou a carreira a descobrir as verdades que os poderosos queriam esconder. De My Lai a Abu Ghraib, conheça melhor o trabalho do jornalista Seymour Hersh.
Comentário: Trata-se de um documentário sobre Seymour Hersh (1937), um renomado jornalista investigativo norte-americano que ganhou um prêmio Pulitzer em 1970 pela reportagem em My Lai (Vietnã). Dentre suas principais coberturas estão o massacre de My Lai (1969/1970); o escândalo de Watergate (1972-1974) e a prisão de Abu Ghraib (2004), dentre outros.
Eduardo Graça do O Globo publicou: “Quando Seymour Hersh revelou o massacre cometido, em 1968, por soldados americanos em My Lai contra civis vietnamitas, inclusive bebês, o jornalista foi acusado de atentar contra o interesse nacional. Penou para publicar a reportagem. Os horrores lhe renderam muitas noites sem dormir e um Pulitzer.
Em 2004, denunciou torturas e abusos sofridos por prisioneiros em Abu Ghraib após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. As Forças Armadas chiaram novamente. De seus pares, recebeu o epíteto de ‘aquele que faz o poder tremer’.
Teimosamente na ativa aos 88 anos, ele é a razão de ser de ‘Seymour Hersh: Em Busca da Verdade’, documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus, [que foi] pré-indicado ao Oscar (...).
Lá se vão duas décadas desde que Poitras, após devorar os textos de Hersh na New Yorker sobre a Guerra ao Terror do governo George W. Bush, quis cooptá-lo para o filme. Perfilá-lo, defendia, seria ideal para escancarar o ciclo de abuso de poder em Washington desde os anos 1960. À época, o jornalista justificou sua negativa com a necessidade de proteger suas fontes.
Há três anos, a morte de informantes, a insistência de Poitras e os filmes por ela dirigidos no período garantiram sua bênção ao projeto. ‘Em Busca da Verdade’ foi finalizado com Donald Trump de volta à Casa Branca, quando a reflexão sobre o precário estado da democracia americana, a propagação de fake news e o cerco de Washington a uma imprensa em crise está na pauta do dia.
‘Hoje são mais nítidas as consequências da impunidade dos crimes cometidos pelos governantes. Desgraçadamente, a escala do que eu queria mostrar aumentou. Por outro lado, o posicionamento do filme se fortaleceu’, afirmou a diretora ao GLOBO, por videochamada.
Quando abordou Hersh em 2005, Poitras, então com 41 anos, acabara de dirigir seu primeiro longa, ‘My Country, My Country’, passado no Iraque ocupado. Uma década depois receberia o Oscar por ‘Cidadãoquatro’, a partir das revelações de Edward Snowden sobre programas secretos de vigilância da Agência de Segurança Nacional dos EUA. Depois mergulhou no WikiLeaks e em Julian Assange para seu ‘Risk’. E no ano passado recebeu o Leão de Ouro em Veneza por ‘Toda Beleza e Carnificina’, sobre o ativismo político da fotógrafa americana Nan Goldin.
Hersh viu os filmes. E tomou nota dos riscos envolvidos no trabalho de uma das fundadoras da plataforma Intercept, da qual depois se desligaria.
‘A obra do Sy [como é conhecido pelos amigos] é tão impressionante que não cogito me colocar no patamar dele. Identifico, sim, paralelos, no interesse por narrativas não-oficiais, no questionamento dos limites do poder. E sei que o respeito mútuo pesou para ele finalmente me dizer sim’, afirmou Poitras.
‘Em Busca da Verdade’ persegue a trajetória de Hersh com o objetivo de reforçar a importância, para a saúde das democracias, de se detectar e enfrentar o câncer da impunidade. Ao GLOBO, Poitras comparou como as instituições, nas duas maiores democracias das Américas, têm lidado com a doença. Classificou como ‘bom sinal’ o julgamento e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que, até o momento, ‘arca com as consequências de seus atos’: ‘Isso jamais aconteceu nos EUA, e não só com Trump. [O vice-presidente] Dick Cheney normalizou a tortura e não morreu na prisão. [O presidente] Richard Nixon renunciou e foi perdoado’. Por outro lado, o assassinato de mais de uma centena de pessoas na operação policial no Rio mês passado atesta que ações de acobertamento ainda alimentam o ciclo de impunidade aí.
Nos EUA, não foram poucos os críticos que, ao elogiarem ‘Em Busca da Verdade’, questionaram se os feitos de Hersh seriam possíveis hoje, em um cenário de mídia fragmentado e com o ciclo ininterrupto de notícias. Poitras crê que documentaristas vêm suprindo lacunas deixadas pelo jornalismo profissional. ‘Destaco o trabalho de Petra Costa, que, com ‘Democracia em Vertigem’ e ‘Apocalipse nos Trópicos’ [também pré-indicado ao Oscar] trata do tema com maestria, a partir da realidade brasileira. Ela é genial’, disse ao GLOBO.
Um dos trunfos de ‘Em Busca da Verdade’ é o uso cirúrgico das imagens de arquivo. Hersh ofereceu, pela primeira vez, e com enorme relutância, acesso ilimitado a seu robusto e caótico baú, das notas do fim dos anos 1960 às conversas com fontes de Gaza nos últimos dois anos. Imagens, rascunhos, documentos e áudios do Vietnã, da queda de Nixon, do golpe no Chile, e de investigações pela CIA ilustram a enormidade do trabalho.
Hersh conta no filme como ter deixado seu número de telefone em entrevista a uma rádio o levou à fonte que lhe forneceu as imagens de Abu Ghraib. A maneira como a mulher encontrou as fotos é outra pequena joia do documentário. O filme também apresenta novas informações sobre a saída do repórter do New York Times, em 1979, quando investigava o crescente poder das corporações e teria esbarrado em interesses não só dos donos do jornal, mas do comando do jornalismo. Após passar pela New Yorker e colaborar com a London Review of Books, ele hoje publica no Substack, na página ‘É pior do que você pensa’, com mais de 200 mil assinantes.
Um dos momentos mais saborosos do documentário se dá na reprodução da conversa de Nixon com seu secretário de Estado, Henry Kissinger, quando classificam Hersh de ‘aquele filho da puta, que sempre está certo’. Mas o filme prova que não era sempre o caso. O repórter também errou. Em um dos equívocos mais célebres, Hersh reconhece ter questionado a denúncia de opositores do regime de Bashar al-Assad de que ele ordenara, como depois comprovado, uso de gás tóxico contra a população. Sua fonte, com quem falava amiúde, era o próprio ditador. ‘No início, Sy ficou reticente em tratar do tema. Mas depois entendeu que só buscávamos algo especialmente caro a ele, a precisão’, disse o codiretor Mark Obenhaus.
O que disse a crítica 1: Ramsés Albertoni do site Observatório da Imprensa avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “O legado de Hersh não é apenas as histórias que ele contou, embora essas histórias tenham mudado a História. Seu legado é a demonstração de que jornalismo de verdade, aquele que importa, aquele que faz diferença, é incompatível com tranquilidade, com segurança, com aceitação. É um trabalho de resistência, de teimosia, de recusa em aceitar as histórias que nos contam. E enquanto houver pessoas dispostas a fazer esse trabalho, sabendo dos riscos, aceitando as consequências, ainda há esperança de que a verdade, eventualmente, prevaleça sobre as mentiras oficiais. Contudo, o documentário termina com o aviso implícito de que essas pessoas estão desaparecendo. E quando a última delas se for, quando ninguém mais estiver disposto a pagar o preço da verdade, não seremos capazes de reconhecer as mentiras que nos governam. Porque ninguém estará lá para contá-las”.
O que disse a crítica 2: Caio Coletti do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “O grande trunfo de ‘Em Busca da Verdade’ é compilar as contranarrativas ouvidas e relatadas por Hersh durante sua carreira, e entender o papel que elas desempenharam no correr da história dos EUA - um país patologicamente indisposto a confrontar a sua própria cultura de violência, a sua tendência a desumanizar o outro, a corrupção absoluta do seu poder absoluto (ou, ao menos, percebidamente absoluto) na política global. Num mundo em que é muito mais fácil aceitar as histórias que nos contam, é preciso gente que não se contente e conte outras. Muito frequentemente, de fato, é um caso de vida ou morte”.
O que eu achei: Assistir a esse documentário me fez lembrar diretamente do longa “Todos os Homens do Presidente” (1976), dirigido por Alan J. Pakula, que mostrava o trabalho dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein investigando e revelando o caso Watergate, um dos maiores escândalos políticos da história dos EUA, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon em 1974. Eles trabalhavam como repórteres no jornal The Washington Post quando desmascararam uma rede de espionagem, sabotagem política e suborno operada diretamente de dentro da Casa Branca. Seymour Hersh (1937) é outro desses jornalistas abnegados. Ele também chegou a investigar o caso Watergate e a lista de furos jornalísticos atribuídos a ele é imensa. O filme mostra as investigações mais importantes e de maior impacto de sua carreira. Uma delas foi sobre o massacre de My Lai (1969), ocasião em que Hersh descobriu e expôs o assassinato em massa de mais de 500 civis inocentes (incluindo mulheres, crianças e idosos) na aldeia sul-vietnamita por tropas do Exército dos EUA. O caso havia sido completamente acobertado pelas forças armadas, mas foi a público, chocou a opinião pública, virou o principal combustível para os protestos antiguerra nos EUA e rendeu a Hersh o Prêmio Pulitzer de 1970. Outro caso descoberto por ele foi a Operação CHAOS (1974). Hersh revelou que a CIA estava operando um gigantesco e ilegal programa secreto de espionagem dentro do próprio território americano. O alvo eram milhares de cidadãos americanos envolvidos nos movimentos civis e contra a Guerra do Vietnã. O impacto dessa revelação foi que o Congresso americano acabou criando a histórica Comissão Church, que resultou na criação de leis rígidas de fiscalização para a CIA e o FBI. Ele também investigou a intervenção dos EUA no Golpe do Chile (1974), descobrindo o envolvimento direto do governo Nixon e de Henry Kissinger no financiamento oculto e no apoio logístico para desestabilizar o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, abrindo caminho para a ditadura militar de Augusto Pinochet. Embora o discurso público dos EUA fosse o de combate ao comunismo no contexto da Guerra Fria, o estopim prático para a agressiva intervenção foi o interesse deles nas minas de cobre chilenas. Qualquer semelhança com as atuais eleições no Brasil e o interesse em nossos minerais críticos e terras raras não são mera coincidência. Outra investigação que o documentário mostra foi a que ele fez sobre as torturas na prisão de Abu Ghraib (2004). Hersh obteve relatórios militares internos e fotos chocantes que comprovaram que soldados americanos praticavam tortura sistemática, abusos sexuais e humilhações sádicas contra prisioneiros iraquianos na base militar de Abu Ghraib, destruindo a narrativa humanitária da ocupação dos EUA no Iraque. Em 2023, ele ainda investigou de forma independente a sabotagem dos gasodutos Nord Stream. Hersh publicou em seu Substack uma extensa reportagem alegando que o governo de Joe Biden, operando através da CIA e em colaboração com a Marinha da Noruega, planejou e executou as explosões que destruíram os gasodutos submarinos Nord Stream 1 e 2 no Mar Báltico. Embora a Casa Branca tenha negado veementemente a acusação e a reportagem tenha atraído forte controvérsia por se basear em uma única fonte anônima, a revelação chocou o cenário geopolítico no contexto da Guerra na Ucrânia. O título original do documentário - “Cover-Up” (Acobertamento) - é perfeito, pois define exatamente o papel do jornalismo investigativo: expor aquilo que os governos tentam esconder a sete chaves sob a justificativa de segurança nacional. Seu trabalho tornou-se algo em extinção. O cara correu risco de vida; o governo dos EUA frequentemente usava a máquina de comunicação pública para desqualificá-lo, chamando-o de louco, mentiroso ou traidor da pátria. Sustentar essa pressão e continuar batendo na porta de fontes sabendo que o Estado quer destruir sua carreira exige uma coragem rara. Atualmente, com as redações com menos orçamento para investigações longas e o perigo real enfrentado por jornalistas no mundo inteiro, a figura do repórter individual faz muita falta. Ainda existem alguns desses lobos solitários por aí, mas essa figura tem sido substituída cada vez mais por redes que reúnem grupos de jornalistas, dando a eles um amparo institucional e tecnológico coletivo que jornalistas solitários não têm como acessar. É um documentário essencial, que vale a pena cada minuto.