Sinopse: Uma ex-prostituta chamada Sada Abe (Eiko Matsuda) se envolve em um caso de amor obsessivo com Kichizô Ishida (Tatsuya Fuji), o senhorio da propriedade onde ela trabalha como criada. O que começa como uma diversão inconsequente, transforma-se em uma paixão que ultrapassa limites.
Comentário: Trata-se do filme número 89 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Oshima já era um veterano quando realizou, em 1976, este polêmico drama de alta carga erótica. O diretor, que estreou em 1959 no conjunto de jovens cineastas talentosos que constituiu o que se tornou conhecido como Nouvelle Vague japonesa, acumula 46 títulos em sua filmografia. Mas foi a repercussão de ‘O Império dos Sentidos’ que tornou seu nome mais conhecido nos países ocidentais. Na esteira de ‘O Último Tango em Paris’, feito por Bertolucci em 1972, Oshima narra os encontros sexuais de um casal, que evolui do prazer a jogos de poder e dominação que culminam em tragédia. Amor e destruição caminham acoplados até um ápice em que a comunhão entre os dois e o sentimento que os aproxima não se distingue da necessidade de um ser destruído pelo outro. Sexo e morte, desejo e aniquilamento atravessam cada cena, numa espécie de ritual sobre os mecanismos da perversão em que a questão moral é abolida para que o espectador seja exposto a forças que não constam em seus hábitos visuais. A exposição crua de cenas explícitas de sexo levou o filme a ser considerado obsceno em vários países, mas também atraiu um público que correu aos cinemas para ver situações eróticas até então limitadas ao mercado da pornografia. A entrega ao sexo como única forma de prazer também pode ser lida como o símbolo do final de uma época, os anos 1960, em que os ideais utópicos estavam sendo ultrapassados e já não restavam muitas crenças na política e na sociedade. Oshima fez um filme não só polêmico, mas premonitório”.
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de ver todos os filmes listados pela Revista Bravo! em 2007 como ‘essenciais’, desta vez assisti a “O Império dos Sentidos” (1976). Eu já havia visto a obra no cinema na época de seu lançamento no Brasil, mas não sabia que o enredo é baseado em um caso real ocorrido no Japão nos anos 1930, época em que o país vivia uma onda de forte militarismo e imperialismo. O que se sabe é que a verdadeira Sada Abe (interpretada por Eiko Matsuda) era uma ex-gueixa e prostituta que começou a trabalhar como garçonete em um restaurante em Tóquio. Lá, ela conheceu o dono do estabelecimento, Kichizō Ishida (interpretado por Tatsuya Fuji), que era casado. Os dois iniciaram um caso amoroso que rapidamente se transformou em uma obsessão mútua. Isolados, eles passavam dias praticando jogos sexuais extremos, que evoluíram para a asfixia erótica. Durante um desses episódios, enquanto Kichi, como ela o chamava, dormia exausto, Sada o estrangulou com a faixa de um quimono. Em seguida, usou uma faca de cozinha para castrá-lo. Antes de deixar o local do crime, Sada escreveu mensagens de amor no corpo do amante usando seu próprio sangue e passou os três dias seguintes vagando por Tóquio. Ela carregava os genitais decepados dentro de suas vestes, tratando-os como ‘relíquias sagradas’. Quando a polícia finalmente a encontrou, ela não resistiu à prisão e confessou ter agido puramente por amor e pelo desejo de posse absoluta. Surpreendentemente, a opinião pública e até mesmo os juízes demonstraram certa simpatia pelo seu ‘crime de amor’. Sada foi condenada a apenas 6 anos de prisão, cumprindo 5. Após ser libertada, escreveu uma autobiografia, trabalhou brevemente no teatro interpretando a si mesma e desapareceu por completo na década de 1970, tornando-se uma figura mítica na cultura pop japonesa. Essa história veio à tona em maio de 1936, transformando-se na principal notícia dos jornais e ofuscando as tensas manchetes políticas da época. Existem pelo menos 6 filmes diretamente baseados nessa história. O de Nagisa Oshima é o mais célebre deles. O diretor queria fazer uma obra que quebrasse as barreiras do convencional. Ele queria que o longa contivesse sexo real e não simulado entre os atores principais, algo estritamente proibido pelas leis de obscenidade do Código Penal Japonês, que até hoje restringe a exibição de genitais. Para conseguir finalizar e lançar a obra sem ser preso ou ter o material apreendido, Oshima bolou um plano: registrou oficialmente o filme como uma coprodução franco-japonesa. As cenas explícitas foram filmadas em Kyoto, mas os rolos de filme foram enviados para Paris para serem revelados e editados. Quando ficou pronto, o longa passou a ser considerado, legalmente, um filme francês. Ao ser exibido no Festival de Cannes de 1976, o longa foi um sucesso estrondoso de crítica, gerando debates acalorados sobre as fronteiras entre a pornografia e a arte de vanguarda. No Japão, o governo não pôde confiscar a película porque ela pertencia a uma produtora francesa; no entanto, Oshima foi processado criminalmente por obscenidade após publicar o roteiro e fotos da produção em um livro em território japonês. O julgamento arrastou-se por quatro anos, mas o diretor acabou absolvido. Já o filme original e sem cortes continua banido de exibições públicas no Japão até os dias de hoje, sendo veiculado apenas com tarjas de censura ou desfoque digital. Quanto ao elenco contratado, a jovem Eiko Matsuda era uma atriz quase desconhecida quando aceitou o papel. Antes de viver Sada, ela havia trabalhado em papéis menores em filmes independentes de baixo orçamento, produções eróticas e trabalhos como modelo fotográfica. Já Tatsuya Fuji era um ator veterano razoavelmente conhecido, que vinha trabalhando há anos em filmes de ação policial, produções de gangues juvenis e dramas eróticos, sendo um rosto mais familiar. Quanto ao filme, a obra prova que o ato sexual cru podia ser usado não apenas no circuito marginal da pornografia de baixo orçamento, mas também como ferramenta narrativa de altíssima qualidade técnica, com fotografia sofisticada, enquadramentos rigorosos e atuações dramáticas intensas. Essa fusão brutal de erotismo e pulsão de morte influenciou dezenas de cineastas modernos. É um longa que, se você deixar o moralismo de lado, vale muito a pena ver. Ele foi, de fato, essencial para a história do cinema.
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de ver todos os filmes listados pela Revista Bravo! em 2007 como ‘essenciais’, desta vez assisti a “O Império dos Sentidos” (1976). Eu já havia visto a obra no cinema na época de seu lançamento no Brasil, mas não sabia que o enredo é baseado em um caso real ocorrido no Japão nos anos 1930, época em que o país vivia uma onda de forte militarismo e imperialismo. O que se sabe é que a verdadeira Sada Abe (interpretada por Eiko Matsuda) era uma ex-gueixa e prostituta que começou a trabalhar como garçonete em um restaurante em Tóquio. Lá, ela conheceu o dono do estabelecimento, Kichizō Ishida (interpretado por Tatsuya Fuji), que era casado. Os dois iniciaram um caso amoroso que rapidamente se transformou em uma obsessão mútua. Isolados, eles passavam dias praticando jogos sexuais extremos, que evoluíram para a asfixia erótica. Durante um desses episódios, enquanto Kichi, como ela o chamava, dormia exausto, Sada o estrangulou com a faixa de um quimono. Em seguida, usou uma faca de cozinha para castrá-lo. Antes de deixar o local do crime, Sada escreveu mensagens de amor no corpo do amante usando seu próprio sangue e passou os três dias seguintes vagando por Tóquio. Ela carregava os genitais decepados dentro de suas vestes, tratando-os como ‘relíquias sagradas’. Quando a polícia finalmente a encontrou, ela não resistiu à prisão e confessou ter agido puramente por amor e pelo desejo de posse absoluta. Surpreendentemente, a opinião pública e até mesmo os juízes demonstraram certa simpatia pelo seu ‘crime de amor’. Sada foi condenada a apenas 6 anos de prisão, cumprindo 5. Após ser libertada, escreveu uma autobiografia, trabalhou brevemente no teatro interpretando a si mesma e desapareceu por completo na década de 1970, tornando-se uma figura mítica na cultura pop japonesa. Essa história veio à tona em maio de 1936, transformando-se na principal notícia dos jornais e ofuscando as tensas manchetes políticas da época. Existem pelo menos 6 filmes diretamente baseados nessa história. O de Nagisa Oshima é o mais célebre deles. O diretor queria fazer uma obra que quebrasse as barreiras do convencional. Ele queria que o longa contivesse sexo real e não simulado entre os atores principais, algo estritamente proibido pelas leis de obscenidade do Código Penal Japonês, que até hoje restringe a exibição de genitais. Para conseguir finalizar e lançar a obra sem ser preso ou ter o material apreendido, Oshima bolou um plano: registrou oficialmente o filme como uma coprodução franco-japonesa. As cenas explícitas foram filmadas em Kyoto, mas os rolos de filme foram enviados para Paris para serem revelados e editados. Quando ficou pronto, o longa passou a ser considerado, legalmente, um filme francês. Ao ser exibido no Festival de Cannes de 1976, o longa foi um sucesso estrondoso de crítica, gerando debates acalorados sobre as fronteiras entre a pornografia e a arte de vanguarda. No Japão, o governo não pôde confiscar a película porque ela pertencia a uma produtora francesa; no entanto, Oshima foi processado criminalmente por obscenidade após publicar o roteiro e fotos da produção em um livro em território japonês. O julgamento arrastou-se por quatro anos, mas o diretor acabou absolvido. Já o filme original e sem cortes continua banido de exibições públicas no Japão até os dias de hoje, sendo veiculado apenas com tarjas de censura ou desfoque digital. Quanto ao elenco contratado, a jovem Eiko Matsuda era uma atriz quase desconhecida quando aceitou o papel. Antes de viver Sada, ela havia trabalhado em papéis menores em filmes independentes de baixo orçamento, produções eróticas e trabalhos como modelo fotográfica. Já Tatsuya Fuji era um ator veterano razoavelmente conhecido, que vinha trabalhando há anos em filmes de ação policial, produções de gangues juvenis e dramas eróticos, sendo um rosto mais familiar. Quanto ao filme, a obra prova que o ato sexual cru podia ser usado não apenas no circuito marginal da pornografia de baixo orçamento, mas também como ferramenta narrativa de altíssima qualidade técnica, com fotografia sofisticada, enquadramentos rigorosos e atuações dramáticas intensas. Essa fusão brutal de erotismo e pulsão de morte influenciou dezenas de cineastas modernos. É um longa que, se você deixar o moralismo de lado, vale muito a pena ver. Ele foi, de fato, essencial para a história do cinema.