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3.11.26

“O Filho de Mil Homens” – Daniel Rezende (Brasil, 2025)

Sinopse:
Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um pescador solitário no auge de seus 40 anos que carrega dentro de si a tristeza de não ter sido pai. Na procura de um filho sem pai, Crisóstomo esbarra com Camilo (Miguel Martines), um garoto órfão de apenas 12 anos de idade. Logo, eles iniciam juntos a formação de uma família nada convencional já que, no povoado onde vivem, há também um jovem incompreendido (Johnny Massaro) e uma mulher fugindo da própria dor (Rebeca Jamir).
Comentário: Daniel Rezende (1975) é um roteirista, montador, produtor e diretor de cinema brasileiro. Como montador ele trabalhou em filmes importantes como “Cidade de Deus” (2002), “Diários de Motocicleta” (2005), “Dark Water” (2005), “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” (2006) e “Tropa de Elite” (2007). Sua estreia na direção se deu com “Blackout” (2008). Depois vieram “Bingo: O Rei das Manhãs” (2017), “Turma da Mônica – Laços” (2019), “Ninguém Tá Olhando” (2019), “Turma da Mônica: Lições” (2021) e a série de live-action “Turma da Mônica” (2022). Além dos longas, ele dirigiu filmes publicitários e videoclipes. “O Filho de Mil Homens” é o primeiro filme que vejo dele.
Daniel Brazil do site A Terra é Redonda publicou: “‘O Filho De Mil Homens’ é um dos mais queridos romances de Valter Hugo Mãe, escritor luso-angolano que tem grande afinidade com o Brasil. Sua prosa poética e envolvente conquistou leitores em vários países, e colocou seu nome entre os grandes autores humanistas de nossa língua.
Ao enfocar personagens disfuncionais numa pequena aldeia à beira-mar, o autor elaborou um pequeno tratado sobre a tolerância, a compaixão, a amizade e o amor, sem ocultar o pano de fundo do preconceito, do machismo e da hipocrisia que permeia aquele restrito grupo social.
Com o lançamento do filme, em outubro de 2025, dirigido pelo brasileiro Daniel Rezende, (...) a narrativa entrelaça a vida de um pescador solitário de quarenta anos que deseja ter um herdeiro, um menino filho de uma anã que teve relações com vários homens da aldeia, uma jovem que é desprezada por não ser mais virgem, e seu noivo, fruto de um casamento de conveniência que desmorona na incontornável opção sexual do rapaz.
O grande desafio foi traduzir a torrente verbal rica e poética do romance em imagens. Assumindo várias liberdades de adaptação, o filme valoriza os silêncios, e através de imagens deslumbrantes consegue o feito de sintetizar o romance sem grandes perdas.
Obviamente, somos privados das delícias narrativas da escrita de Valter Hugo Mãe, mas ganhamos em troca interpretações tocantes, cenografia e cenários de sonho, uma trilha sonora adequada e sem excessos, tudo coroado por uma direção segura. Em vez de falar de perdas, o mais adequado é falar de trocas. Trocas de significantes, não de significados. O filme não é fiel ao livro – e nem poderia ser!, mas ao espírito do livro.
Seres desajustados e rechaçados pela sociedade criam elos de afeto que os fortalecem e abrem uma possibilidade de felicidade. Em mãos menos habilidosas poderia soar como uma ode à pieguice, mas é aí que entra o talento narrativo, tanto do escritor quanto do diretor e roteirista do filme.
Em tempos de violência extrema em todas as formas de ficção, de crueza descritiva, de sexo exibicionista, de personagens cruéis, cínicos e desonestos, retomar o ‘tempo da delicadeza’ cantado por Chico Buarque é um ato de coragem. Daniel Rezende não tem pudor de lançar mão de imagens oníricas, criadas por computação gráfica, provando que esta pode ser utilizada de forma inteligente e não deslumbrada.
A pequena aldeia e seus personagens, recriada com perfeição de detalhes em Búzios e na Chapada Diamantina, recupera a universalidade da obra original, e vira cenário de sentimentos profundamente humanos que nosso acelerado e monetizado cotidiano urbanoide despreza com intensidade cada vez maior”.
O que disse a crítica 1: Robledo Milani do Papo de Cinema avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “O uso de figuras interessantes, como a matriarca supersticiosa (Grace Passô, deslocada), a médica compreensiva (Tuna Dwek, que segue à espera de um papel consistente) ou a mãe oprimida pelos preconceitos dos vizinhos (Inez Viana, resignada a apenas reproduzir um tipo), indicam o quanto deveriam ser ricas na literatura, mas tropeçam numa transposição imagética que não lhes oferece condições suficientes para irem além da caricatura. Com questões temporais nem sempre bem ordenadas e uma presença crucial mal elaborada – o homem mais literato, casado com a mulher mais progressiva, é também o mais homofóbico? – prejudicam a fruição de uma obra que alega promover famílias alternativas, a superação de traumas e o encontro no outro como caminho para uma cura pessoal. ‘O Filho de Mil Homens’ investe em imagens que encantam aos olhos, mas falta sentimento que as envolva”.
O que disse a crítica 2: Ismael Vilela do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “A adaptação de Daniel Rezende funciona porque entende que a beleza não está na ausência de defeitos, mas na harmonia criada entre peças quebradas. Ao remover a dependência das reviravoltas literárias, o diretor expõe o esqueleto emocional da história, entregando um filme que é completo tal qual o livro, mas que caminha com as próprias pernas. É uma obra sobre o coletivo, sobre como o peso das peças micro só é verdadeiramente compreendido e validado quando se olha para o todo. O filme vem para isso: para provar que a imperfeição compartilhada é a forma mais pura de perfeição humana. Daniel Rezende assina uma obra que, embora se utilize de seguranças estéticas, arrisca-se no terreno mais perigoso de todos: o da sinceridade emocional absoluta”.
O que eu achei: Estava reticente em assistir ao longa brasileiro “O Filho de Mil Homens” (2025) com Rodrigo Santoro no papel principal. O filme é uma adaptação do livro homônimo do escritor português Valter Hugo Mãe lançado em 2011. Eu não conheço o livro, mas sei que a escrita de Hugo Mãe é marcada por um lirismo profundo, uma sensibilidade quase poética na prosa e uma capacidade única de transformar dores e existências marginalizadas em pura beleza. Sabendo do tom tão singular e humanista de sua literatura, o medo de que uma transposição para as telas perdesse essa essência abstrata era inevitável. No romance, a história se passa em uma pequena vila portuguesa à beira-mar, nos anos 1950, e acompanha Crisóstomo, um pescador solitário que, ao completar quarenta anos, decide tecer seu próprio destino. Em Camilo, um jovem órfão, ele encontra o filho pelo qual sempre ansiou. Em Isaura, rejeitada por não ser virgem, descobre a chance de transcender e ser mais do que completo. Com personagens tão excêntricos quanto humanos, o escritor constrói uma ode à singularidade e à força do amor incondicional. A história apaixonada de Crisóstomo é um convite para abraçar a estranheza que nos torna únicos e celebrar a capacidade do amor de preencher nossos vazios mais profundos. Foi surpreendente ver que, na tela, essa essência da mensagem não se perdeu. Valendo-se de recursos digitais para representar o realismo mágico do livro e aproveitando ao máximo a beleza das paisagens de Búzios (RJ) e da Chapada Diamantina (BA) através da fotografia primorosa de Azul Serra, o filme flutua na frente dos nossos olhos. A pegada contemplativa e os longos silêncios podem desagradar a alguns, mas se ele se demora um pouco além da conta na primeira metade com as histórias dos personagens sendo contadas isoladamente, na segunda ele deslancha com o cruzamento dessas histórias. Ao final, a obra nos convence de que há muito mais sabedoria naquilo que ouvimos do sussurro das conchas do mar do que no barulho das certezas e dos julgamentos das pessoas. Terminei de ver achando que "O Filho de Mil Homens" é um tributo à ternura e à aceitação. Em um mundo frequentemente endurecido por preconceitos, o longa nos lembra que as famílias mais verdadeiras são aquelas que escolhemos e costuramos através do afeto, desafiando convenções e celebrando as nossas imperfeições. É um manifesto poético sobre o direito de amar, de ser acolhido e de reconstruir a própria existência a partir do abraço do outro. Veja sem pressa.