2.10.26

“Blossons Shangai” - Wong Kar-Wai (China, 2023-2024)

Sinopse:
A série acompanha a ascensão meteórica e as provações de Ah Bao (Hu Ge), um jovem ambicioso que se transforma em um dos empresários mais bem-sucedidos de Xangai durante o boom econômico dos anos 1990. Guiado pelo mentor tio Ye (You Benchang), o protagonista navega pelo perigoso e glamouroso mundo dos negócios, acumulando uma imensa fortuna através do mercado de ações e do comércio nacional e internacional.
Comentário: Trata-se de um seriado composto por uma única temporada e subdividido em 30 episódios, criado a partir da adaptação do romance “Blossoms” de Jin Yucheng, vencedor do Prêmio de Literatura Mao Dun em 2015.
A palavra “Blossoms” (que significa "Flores" ou "Desabrochar" em inglês) carrega um significado simbólico no contexto do seriado. A série se passa no início dos anos 1990, época em que a China passava por intensas reformas econômicas. O termo simboliza o florescimento financeiro, cultural e social de Xangai. A cidade surge como um terreno fértil, cheio de oportunidades, onde novos ricos, mercados de ações e comércios vibrantes brotam da noite para o dia.
O diretor Wong Kar-Wai declarou que considera “Blossoms Shanghai” a terceira e última parte de sua "Trilogia de Xangai". Segundo ele, o seriado encerra uma narrativa temática que começou no cinema com os aclamados filmes “Amor à Flor da Pele” (2000) e “2046” (2004).
Em “Amor à Flor da Pele” (2000), estamos em Hong Kong no começo da década de 1960. A secretária Su Li-zhen (Maggie Cheung Man-yuk), casada, aluga um quarto numa pensão. O quarto ao lado, que também está vago, é alugado pelo também casado senhor Chow (Tony Leung), editor-chefe de um jornal local. Tanto a secretária quanto o editor chefe são de Xangai. Essa pensão onde eles vão morar é de propriedade da Sra. Suen, outra xangainesa. Todo aquele microcosmo de fofocas, jogos de mahjong e jantares reproduz os costumes de Xangai em Hong Kong. Com isso, o dialeto de Xangai ecoa na ambientação local. Há também, em comum, o lirismo romântico pautado por desencontros amorosos, melancolia, oportunidades perdidas e a inevitável passagem do tempo - marcas registradas de “Amor à Flor da Pele” – e que podem ser vistas nas relações do protagonista Ah Bao com as mulheres que cruzam o seu caminho.
Com relação à “2046” (2004), o protagonista desse longa é o criador do mundo de "Blossoms Shangai". Na trama desse filme estamos entre os anos de 1966 e 1969. Acompanhamos justamente o editor-chefe do filme anterior: o jornalista e escritor Chow Mo-wan (Tony Leung) em um estado de decadência. A maior parte da história de “2046” também se passa em Hong Kong e Singapura. O escritor faz parte exatamente daquela comunidade de imigrantes xangaineses que se mudaram para Hong Kong nos anos 1940 e 1950. Para escapar de sua realidade dolorosa ele começa a escrever um livro de ficção científica ambientado em um trem que viaja para o ano 2046. O diretor Wong Kar-Wai declarou que, estruturalmente, enxerga “Blossoms” como se fosse o romance que Chow Mo-wan estava escrevendo. A série dá vida àquela Xangai mítica, hiperestilizada e cheia de segredos que o escritor tentava criar em sua mente.
A ligação desses dois filmes com o seriado é que, embora nesses dois filmes anteriores as histórias se passem na Hong Kong dos anos 1960, a comunidade retratada é composta majoritariamente por imigrantes que fugiram de Xangai, com os personagens principais mantendo os hábitos, os figurinos elegantes e o dialeto de sua terra natal. Já “Blossoms Shanghai” foca na geração que nasceu, cresceu e permaneceu na cidade, mostrando o que aconteceu no território que Chow e Su deixaram para trás. Além disso, a série herda a mesma assinatura visual consagrada do diretor nos cinemas: iluminação neon suntuosa, uso dramático de sombras, câmera lenta e foco na culinária e na moda da época.
O que eu achei: O primeiro episódio é daqueles que mal dá tempo de digerir tudo o que é despejado em cima do espectador, não só em termos de apresentação de personagens como de acontecimentos. Para piorar as coisas, ele intercala presente e passado, dificultando ainda mais a compreensão do que está sendo apresentado. Mas o que posso dizer é que se você superar o desafio do primeiro episódio e seguir em frente o ritmo frenético diminui tornando todo o restante do seriado mais fácil de acompanhar. Essa enxurrada de informações e o ritmo inicial me pareceram intencionais para retratar o "boom" do hipercapitalismo chinês das décadas de 1980-1990. Esse contexto vai nos mostrar como um jovem operário comum e ambicioso chamado Ah Bao fez para se tornar um poderoso magnata dos negócios em Xangai, nesse período de grandes oportunidades. Nesse primeiro episódio, vamos ser apresentados ao seu tio Ye, um veterano do mercado financeiro, um homem vivido e que aceita ser seu mentor nesse objetivo do sobrinho de mudar de vida, aproveitando as oportunidades que a cidade passa a oferecer com a modernização econômica da China. É sob a tutela cirúrgica do tio que Ah Bao aprende a entender o mercado de ações e o comércio exterior. Ele faz uma imensa fortuna na recém-aberta Bolsa de Valores de Xangai. Vamos conhecer também duas mulheres que orbitam Bao. Uma se chama Ling Zi, ela é a dona do restaurante Noites de Tóquio e sócia de Bao. A outra é a senhorita Wang, uma funcionária enérgica e barulhenta da empresa estatal de Importação e Exportação. Ela é o braço direito de Bao na burocracia governamental, ajudando a aprovar suas grandes transações comerciais. Em termos de cenário, quase tudo se passa na Rua Huanghe, centro de Xangai. Uma rua que existe no mundo real e que, nos anos 1990, contava com mais de 100 restaurantes e era famosa por seus letreiros em neon gigantescos, atraindo novos ricos, empresários e muita ostentação. É nessa rua que vamos conhecer uma terceira personagem feminina importante na vida de Bao: a senhorita Li Li, que chega a Xangai oriunda da cidade de Shenzhen e abre um restaurante luxuoso chamado Grand Lisboa. Daí pra frente - além da relação complexa entre Bao, seu tio e essas três mulheres - a narrativa mergulha na frenética guerra de ações da Bolsa de Valores, no comércio exterior e na feroz rivalidade corporativa entre os donos dos restaurantes da Rua Huanghe. A fotografia hiper primorosa que logo de cara nos é apresentada é o ponto forte do seriado. Não tem um episódio que não chame a atenção pelo capricho nesse quesito. Outro ponto interessante é o tom propositadamente melodramático, exagerado e meio brega observado nos personagens e na trilha sonora que, ao invés de soar repulsivo, atrai como uma marca artística para retratar as pessoas que enriqueciam rápido e queriam ostentar, usando ternos italianos caríssimos, joias chamativas, jantando em restaurantes chiques e fazendo caras e bocas. A atuação ‘canastrona’ e cheia de charme do ator Hu Ge (que vive o Sr. Bao) traduz perfeitamente a vaidade e a autoconfiança excessiva daquela geração que achava que podia conquistar o mundo. Tudo na série é ‘a mais’: as luzes, os olhares em câmera lenta, as risadas e as reações dos personagens. O resultado é tipo um novelão. A pegada cafona assumida pelo diretor deixa os episódios divertidos de assistir. Tudo para retratar a energia mítica e quase teatral de uma Xangai que não existe mais. Se eu gostei? Não diria que foi meu seriado favorito, mas terminei de ver entendendo perfeitamente o que aconteceu com a China nas décadas de 1980-1990. É tipo uma aula de história no formato de uma novela das nove. Então vale ver.