16.3.26

"Blue Moon: Música e Solidão" - Richard Linklater (EUA/Irlanda, 2025)

Sinopse:
Na noite de 31 de março de 1943, o lendário letrista Lorenz Hart (Ethan Hawke) enfrenta sua autoconfiança abalada no bar Sardi's, enquanto seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) comemora a noite de estreia de seu inovador musical "Oklahoma!".
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), os medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017) e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou conferir "Blue Moon: Música e Solidão" (2025).
Rodrigo Fonseca publicou no Correio da Manhã: "'Blue Moon' foi rodado em 15 dias, em estúdio, em Dublin, na Irlanda, por uma bagatela, e compensou o orçamento que consumiu para sair do papel com uma sucessão de vitórias, a começar pela indicação ao Urso de Ouro de 2025. Andrew Scott foi premiado na Berlinale (...) com o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante, por seu desempenho no painel histórico da Broadway. Recebeu mais 13 láureas e 68 indicações a troféus de peso, com destaque para o Oscar, [onde] concorre nas categorias de Melhor Ator (para Hawke) e Melhor Roteiro Original (Robert Kaplow). A nomeação em Hollywood deveria lhe abrir salas no Brasil, mas não foi capaz: o streaming foi seu destino. (...)
[No Longa] Linklater e Ethan revisitam a saga do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi's, durante a festa de abertura do novo espetáculo (o fenômeno "Oklahoma!") de seu ex-parceiro Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott. Na noite de 31 de março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos os seus demônios.
Em recente entrevista ao Correio da Manhã, Hawke explicou que 'o álcool, no caso de Lorenz, é apenas o sintoma de um problema profundo ligado ao senso de não pertencimento e a bebida só faz ampliar a sua solidão'. Linklater costuma falar dela com frequência. E o faz por meio do verbo, em narrativas palavrosas. Contam-se nos dedos as vozes autorais da realização capazes de pavimentar integralmente a sua narrativa na palavra, a extrair delas um grau (transcendente) de cinemática, como Linklater consegue. No documentário, ressaltava-se Eduardo Coutinho (1933-2014) por essa façanha (a expandir os limites do plano talking head) e, hoje, na ficção, encontra-se essa destreza na obra de comida e bebida perfumados a cigarros do sul-coreano Hong Sang-Soo (de 'A Mulher Que Fugiu').
Dínamo do modo de produção indie nos EUA, Linklater deu lá suas escapadelas mais cinemáticas, ou seja, fez filmes nos quais o movimento é mais abundante do que o falatório, vide 'Escola do Rock' (2004) ou o recente (e delicioso) 'Hit Man' (aqui chamado 'Assassino Por Acaso', de 2023).
No entanto, retorna ao esquema dos filmes concentrados em parlatórios (sempre num viés de tom confessional e existencialista) com recorrência. Construiu nessa vereda uma espécie de carta de intenções de uma estética investigativa dos desacertos e desatinos do querer e do viver, que se estendeu à animação com 'Waking Life' (2001), um poema em forma de rotoscopia. A forma como explora as fraturas expostas pela fala alcança um novo estágio (e um amadurecimento notável) em 'Blue Moon'. Leva Hawke aos píncaros da excelência consigo.
Passados 17 anos de 'Eu e Orson Welles' (2009), o diretor retorna ao universo do teatro, num namorico com as figuras exponenciais dessa expressão artística milenar, no intuito de entender a ciranda de vaidades e de decepções que circunda o glamour da Broadway. Assume, para isso, a data de estreia do espetáculo 'Oklahoma!', e parte das franjas desse abrir de cortinas para explorar as inquietações de Lorenz Hart. São dele baladas memoráveis como 'The Lady Is a Tramp'; 'Manhattan'; 'My Funny Valentine' e 'Bewitched, Bothered and Bewildered'.
Apesar de retratá-lo na sua fase crepuscular, Linklater jamais se afoga na amargura, embora ela esteja lá, no ciúme e no inconformismo que Lorenz (chamado por amigos e amantes de Larry) sente do projeto teatral da dupla Rodgers e Hammerstein, que reestrutura o entretenimento americano. Parece não haver lugar para ele no que se funda na primeira metade da década de 1940, numa indústria embalada pelas suas canções de amor. Por isso, ele bebe. A certa medida, ao fitar um drink, diz: 'Como pode tanto prazer caber em algo tão pequeno'. A mesma dinâmica se aplicaria por nós, cinéfilos, a uma joiazinha como 'Blue Moon', que merece uma chance em tela grande".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "É possível que 'Blue Moon' soe, de fato, um tanto maçante no segundo terço, quando algum momento de solidão ou recolhimento de Hart seria benéfico, para equilibrar a metralhadora verbal do personagem. Fãs do compositor talvez não apreciem este olhar voltado à decadência, com pouca ênfase no trabalho do artista durante décadas. Focar-se no protagonista no instante exato em que decai, pessoal e artisticamente, talvez soe delicado para alguém de tamanho reconhecimento no meio, até então. Mesmo assim, Linklater evita o caráter laudatório e excessivamente linear dos biopics, propondo fragmentos de uma personalidade complexa, que nunca tenta explicar, nem resumir. O diretor respeita as contradições de Hart - e aí, possivelmente, reside o seu principal trunfo".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "Em 'Blue Moon', não temos apenas as fragilidades de Lorenz Hart reveladas. O filme destaca, é verdade, o seu ponto de vista para as coisas, mas é possível perceber o quanto os outros profissionais em torno dele possuem inseguranças, dúvidas, ansiedade e uma melancolia que muito tem a ver com o momento que vivem (a Segunda Guerra Mundial) e que, talvez por fuga ou por mentirem para si mesmos, tentam deixar de lado e destacar apenas o 'aqui e agora', a beleza de uma letra, de um acorde, de um artigo, de uma fotografia, de um enredo… tudo misturado às mais diversas emoções humanas. Nós saímos de 'Blue Moon' com uma sensação esquisita de 'completude incompleta'. Por um lado, temos a saciedade de bons diálogos de um olhar até mesmo invasivo para Lorenz Hart. Por outro, a fome de mais elementos para além de seu núcleo, de seu olhar viciado e lamentador. Não diria, porém, que é uma armadilha inevitável do filme. É somente parte de nossa curiosidade, nascida da altíssima qualidade com que o diretor projetou a sombra de um artista que tanta beleza trouxe para o mundo, mas que não conseguiu utilizá-la para iluminar o seu próprio caminho".
O que eu achei: Que retrato delicado este sobre compositor americano Lorenz Hart (1895-1943). Foi fazendo par com Richard Rodgers (responsável pelas melodias) por mais de 20 anos, que ele escreveu a letra de 26 musicais da Broadway, incluindo sucessos como “Blue Moon”, “The Lady Is a Tramp”, “Manhattan”, “Bewitched, Bothered and Bewildered” e “My Funny Valentine”. Hart nasceu no Harlem, na cidade de Nova Iorque, e é o mais velho de dois filhos. Seus pais eram imigrantes judeus de origem alemã. Do lado materno, Hart era sobrinho-neto do poeta alemão Heinrich Heine. Seu irmão, Teddy Hart, também se dedicou ao teatro e se tornou um astro da comédia musical. Ele chegou a estudar jornalismo, trabalhou para os irmãos Shubert traduzindo canções de peças alemãs para o inglês, quando em 1919, um amigo o apresentou a Richard Rodgers e os dois se juntaram para compor músicas para uma série de produções teatrais. Eles ganharam muito dinheiro. Em 1938 Lorenz Hart começa a sofrer com o alcoolismo. Mesmo assim, eles continuaram trabalhando juntos até meados de 1942. Em julho de 1942, o New York Times noticiou que Richard Rodgers, Lorenz Hart e Oscar Hammerstein II começariam a trabalhar em uma versão musical de um peça folclórica. Rodgers havia trazido o letrista Oscar Hammerstein II para o projeto devido à piora do estado mental de Hart, que admitiu que tinha dificuldade em escrever um musical para um ambiente rural como Oklahoma e abandonou o projeto. Ocorre que o musical "Oklahoma!" foi um enorme sucesso. O filme vai mostrar justamente uma versão imaginada da noite de 31 de março de 1943, na qual o lendário letrista (interpretado magistralmente por Ethan Hawke, indicado ao Oscar por sua atuação) se encontra dentro do bar Sardi's, esperando a chegada de seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) juntamente com seu novo parceiro Hammerstein (Simon Delaney) para comemorar a noite de estreia do inovador "Oklahoma!". Com um roteiro original inspirado nas cartas que o letrista escreveu para sua musa Elizabeth Weiland, o filme tem uma pegada teatral com poucas mudanças de cenários, poucos personagens e muitos monólogos. A câmera de Linklater trabalha com enquadramentos que transformam o ator Ethan Hawk, que na vida real tem 1,80m de altura, em um homem franzino e decadente com pouco mais de 1,50m. É nesse fatídico dia que Lorenz Hart vai constatar que sua saída da dupla foi a chave do sucesso para a carreira do parceiro decolar, num misto de autocomiseração, inveja, ciúme e desdém. Conta-se que eles ainda trabalharam juntos mais uma vez nesse ano, quando Rogers o chama para compor seis letras de músicas, mas no dia da estreia desse musical, Hart cai bêbado na rua e desaparece, tendo sido encontrado doente dois dias depois e levado ao Doctors Hospital onde morreu em poucos dias. Um filme triste, mas extremamente bem feito que resulta num brilhante estudo de personagem. Tive que procurar imagens do ator Ethan Hawke para me lembrar quem era, tamanha a transformação. O ator não ganhou o Oscar, mas era outro concorrente que se ganhasse, não teria sido uma injustiça. Excelente pedida.