
Comentário: Richard Linklater (1960) é um cineasta e escritor
norte-americano. Seu primeiro filme a alcançar o sucesso foi "Antes do
Amanhecer" (1995), que mais tarde virou uma trilogia junto com "Antes
do Anoitecer" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2023). Assisti
dele a obra-prima "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), os
medianos "O Homem Duplo" (2006) e "A Melhor Escolha" (2017)
e a animação “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” (2022). Desta vez vou
conferir "Blue Moon: Música e Solidão" (2025).
Rodrigo Fonseca publicou no Correio da Manhã: "'Blue
Moon' foi rodado em 15 dias, em estúdio, em Dublin, na Irlanda, por uma
bagatela, e compensou o orçamento que consumiu para sair do papel com uma
sucessão de vitórias, a começar pela indicação ao Urso de Ouro de 2025. Andrew
Scott foi premiado na Berlinale (...) com o Urso de Prata de Melhor Atuação
Coadjuvante, por seu desempenho no painel histórico da Broadway. Recebeu mais
13 láureas e 68 indicações a troféus de peso, com destaque para o Oscar, [onde]
concorre nas categorias de Melhor Ator (para Hawke) e Melhor Roteiro Original
(Robert Kaplow). A nomeação em Hollywood deveria lhe abrir salas no Brasil, mas
não foi capaz: o streaming foi seu destino. (...)
[No Longa] Linklater e Ethan revisitam a saga do letrista
Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua
vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de
alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi's, durante a festa de abertura
do novo espetáculo (o fenômeno "Oklahoma!") de seu ex-parceiro
Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott. Na noite de 31 de
março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos
os seus demônios.
Em recente entrevista ao Correio da Manhã, Hawke explicou
que 'o álcool, no caso de Lorenz, é apenas o sintoma de um problema profundo
ligado ao senso de não pertencimento e a bebida só faz ampliar a sua solidão'.
Linklater costuma falar dela com frequência. E o faz por meio do verbo, em
narrativas palavrosas. Contam-se nos dedos as vozes autorais da realização
capazes de pavimentar integralmente a sua narrativa na palavra, a extrair delas
um grau (transcendente) de cinemática, como Linklater consegue. No documentário,
ressaltava-se Eduardo Coutinho (1933-2014) por essa façanha (a expandir os
limites do plano talking head) e, hoje, na ficção, encontra-se essa destreza na
obra de comida e bebida perfumados a cigarros do sul-coreano Hong Sang-Soo (de 'A
Mulher Que Fugiu').
Dínamo do modo de produção indie nos EUA, Linklater deu lá
suas escapadelas mais cinemáticas, ou seja, fez filmes nos quais o movimento é
mais abundante do que o falatório, vide 'Escola do Rock' (2004) ou o recente (e
delicioso) 'Hit Man' (aqui chamado 'Assassino Por Acaso', de 2023).
No entanto, retorna ao esquema dos filmes concentrados em
parlatórios (sempre num viés de tom confessional e existencialista) com
recorrência. Construiu nessa vereda uma espécie de carta de intenções de uma
estética investigativa dos desacertos e desatinos do querer e do viver, que se
estendeu à animação com 'Waking Life' (2001), um poema em forma de rotoscopia.
A forma como explora as fraturas expostas pela fala alcança um novo estágio (e
um amadurecimento notável) em 'Blue Moon'. Leva Hawke aos píncaros da
excelência consigo.
Passados 17 anos de 'Eu e Orson Welles' (2009), o diretor
retorna ao universo do teatro, num namorico com as figuras exponenciais dessa
expressão artística milenar, no intuito de entender a ciranda de vaidades e de
decepções que circunda o glamour da Broadway. Assume, para isso, a data de estreia
do espetáculo 'Oklahoma!', e parte das franjas desse abrir de cortinas para
explorar as inquietações de Lorenz Hart. São dele baladas memoráveis como 'The
Lady Is a Tramp'; 'Manhattan'; 'My Funny Valentine' e 'Bewitched, Bothered and
Bewildered'.
Apesar de retratá-lo na sua fase crepuscular, Linklater
jamais se afoga na amargura, embora ela esteja lá, no ciúme e no inconformismo
que Lorenz (chamado por amigos e amantes de Larry) sente do projeto teatral da
dupla Rodgers e Hammerstein, que reestrutura o entretenimento americano. Parece
não haver lugar para ele no que se funda na primeira metade da década de 1940,
numa indústria embalada pelas suas canções de amor. Por isso, ele bebe. A certa
medida, ao fitar um drink, diz: 'Como pode tanto prazer caber em algo tão
pequeno'. A mesma dinâmica se aplicaria por nós, cinéfilos, a uma joiazinha
como 'Blue Moon', que merece uma chance em tela grande".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou
seja, ótimo. Disse: "É possível que 'Blue Moon' soe, de fato, um
tanto maçante no segundo terço, quando algum momento de solidão ou recolhimento
de Hart seria benéfico, para equilibrar a metralhadora verbal do personagem.
Fãs do compositor talvez não apreciem este olhar voltado à decadência, com
pouca ênfase no trabalho do artista durante décadas. Focar-se no protagonista
no instante exato em que decai, pessoal e artisticamente, talvez soe delicado
para alguém de tamanho reconhecimento no meio, até então. Mesmo assim,
Linklater evita o caráter laudatório e excessivamente linear dos biopics,
propondo fragmentos de uma personalidade complexa, que nunca tenta explicar,
nem resumir. O diretor respeita as contradições de Hart - e aí, possivelmente,
reside o seu principal trunfo".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4,5
estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "Em 'Blue Moon', não temos
apenas as fragilidades de Lorenz Hart reveladas. O filme destaca, é verdade, o
seu ponto de vista para as coisas, mas é possível perceber o quanto os outros
profissionais em torno dele possuem inseguranças, dúvidas, ansiedade e uma
melancolia que muito tem a ver com o momento que vivem (a Segunda Guerra
Mundial) e que, talvez por fuga ou por mentirem para si mesmos, tentam deixar
de lado e destacar apenas o 'aqui e agora', a beleza de uma letra, de um
acorde, de um artigo, de uma fotografia, de um enredo… tudo misturado às mais
diversas emoções humanas. Nós saímos de 'Blue Moon' com uma sensação
esquisita de 'completude incompleta'. Por um lado, temos a saciedade de bons
diálogos de um olhar até mesmo invasivo para Lorenz Hart. Por outro, a fome de
mais elementos para além de seu núcleo, de seu olhar viciado e lamentador. Não
diria, porém, que é uma armadilha inevitável do filme. É somente parte de nossa
curiosidade, nascida da altíssima qualidade com que o diretor projetou a sombra
de um artista que tanta beleza trouxe para o mundo, mas que não conseguiu
utilizá-la para iluminar o seu próprio caminho".
O que eu achei: Que retrato delicado este sobre compositor americano Lorenz
Hart (1895-1943). Foi fazendo par com Richard Rodgers (responsável pelas
melodias) por mais de 20 anos, que ele escreveu a letra de 26 musicais da
Broadway, incluindo sucessos como “Blue Moon”, “The Lady Is a Tramp”, “Manhattan”,
“Bewitched, Bothered and Bewildered” e “My Funny Valentine”. Hart nasceu no Harlem, na cidade de Nova Iorque, e
é o mais velho de dois filhos. Seus pais eram imigrantes judeus de origem
alemã. Do lado materno, Hart era sobrinho-neto do poeta alemão Heinrich
Heine. Seu irmão, Teddy Hart, também se dedicou ao teatro e se tornou um astro
da comédia musical. Ele chegou a estudar jornalismo, trabalhou para os
irmãos Shubert traduzindo canções de peças alemãs para o inglês, quando em
1919, um amigo o apresentou a Richard Rodgers e os dois se juntaram para
compor músicas para uma série de produções teatrais. Eles ganharam
muito dinheiro. Em 1938 Lorenz Hart começa a sofrer com o alcoolismo. Mesmo
assim, eles continuaram trabalhando juntos até meados de 1942. Em julho de 1942, o New York Times noticiou que Richard
Rodgers, Lorenz Hart e Oscar Hammerstein II começariam a trabalhar em uma
versão musical de um peça folclórica. Rodgers havia trazido o
letrista Oscar Hammerstein II para o projeto devido à piora do estado
mental de Hart, que admitiu que tinha dificuldade em escrever um musical para
um ambiente rural como Oklahoma e abandonou o projeto. Ocorre que o musical "Oklahoma!"
foi um enorme sucesso. O filme vai mostrar justamente uma versão imaginada da
noite de 31 de março de 1943, na qual o lendário letrista (interpretado
magistralmente por Ethan Hawke, indicado ao Oscar por sua atuação) se encontra
dentro do bar Sardi's, esperando a chegada de seu ex-colaborador Richard
Rodgers (Andrew Scott) juntamente com seu novo parceiro Hammerstein (Simon
Delaney) para comemorar a noite de estreia do inovador
"Oklahoma!". Com um roteiro original inspirado nas cartas que o letrista escreveu para sua musa
Elizabeth Weiland, o filme tem uma pegada teatral com poucas mudanças de
cenários, poucos personagens e muitos monólogos. A câmera de Linklater trabalha
com enquadramentos que transformam o ator Ethan Hawk, que na vida real tem
1,80m de altura, em um homem franzino e decadente com pouco mais de 1,50m. É nesse fatídico dia que Lorenz Hart vai constatar que sua
saída da dupla foi a chave do sucesso para a carreira do parceiro decolar, num
misto de autocomiseração, inveja, ciúme e desdém. Conta-se que eles ainda trabalharam juntos mais uma vez nesse ano, quando
Rogers o chama para compor seis letras de músicas, mas no dia
da estreia desse musical, Hart cai bêbado na rua e desaparece, tendo sido encontrado doente
dois dias depois e levado ao Doctors Hospital onde morreu em poucos dias. Um filme triste, mas extremamente bem feito que resulta num brilhante
estudo de personagem. Tive que procurar imagens do ator Ethan Hawke para me
lembrar quem era, tamanha a transformação. O ator não ganhou o Oscar, mas era
outro concorrente que se ganhasse, não teria sido uma injustiça. Excelente pedida.