27.8.26

“Narcos” – Carlo Bernard, Chris Brancato & Doug Miro (EUA/Colômbia, 2015-2017)

Sinopse:
Conta a história dos cartéis de Medellín e Cali, incluindo a ascensão e a queda de Pablo Escobar (Wagner Moura) e os impérios do narcotráfico que marcaram a história da Colômbia.
Comentário: Trata-se de uma série em 3 temporadas com 10 episódios cada uma, que mostra a ascensão e a queda do tráfico de cocaína na Colômbia.
Começa mostrando a produção de cocaína nos laboratórios do Chile, sob o comando de um químico conhecido como "Barata", que teve que deixar seu país às pressas para não ser executado pela polícia do ditador Augusto Pinochet que havia assumido o poder no Chile e iniciado uma forte repressão aos traficantes locais. Barata foge então para a Colômbia, onde propõe uma parceria de negócios a Pablo Escobar, que até então era apenas um golpista e contrabandista de mercadorias comum na cidade de Medellín. Ele vendia diplomas escolares e bilhetes de loteria falsos, cobrava dívidas, roubava lápides de mármore de túmulos, roubava carros para desmanche e contrabandeava cigarros, bebidas e eletrodomésticos. Foi com o contrabando que ele aprendeu a subornar caminhoneiros e policiais para mandar maconha para outros locais.
No seriado, foi a chegada de Barata que o levou a traficar cocaína. Pablo imediatamente percebeu o potencial financeiro da droga e abandonou os demais delitos que davam pouco lucro, fundando uma espécie de ‘cooperativa’ cujo objetivo era unir forças com outros criminosos e clãs familiares independentes.
É dessa reunião que surge o famoso Cartel de Medellín, que contava com membros como os Irmãos Ochoa (Jorge Luis, Juan David e Fabio), Gonzalo Rodríguez Gacha (El Mexicano), Carlos Lehder (que comprou uma ilha inteira nas Bahamas apenas para reabastecer os aviões lotados de cocaína que iam para a Flórida) e Gustavo Gaviria (primo-irmão de Pablo Escobar). Pablo Escobar era o líder principal da organização.
O seriado também mostra a atuação dos agentes americanos, especialmente de Steve Murphy e Javier Peña. Eles trabalham na DEA (Drug Enforcement Administration, que significa Lei de Execução de Drogas) e viajam para a Colômbia porque era de lá que saíam toneladas de cocaína diretamente para o solo americano, transformando o narcotráfico em um problema de segurança nacional naquele país.
O fio condutor das duas primeiras temporadas é o embate direto entre os agentes da DEA e o Cartel de Medellín, enquanto a terceira temporada – com o Cartel de Medellín já encerrado - passa a focar na caçada ao Cartel de Cali, também situado na Colômbia, na cidade de Santiago de Cali.
Renato Hermsdorff do site Adoro Cinema publicou uma lista com 10 coisas que você precisa saber sobre a badalada produção:
- Narcos é uma série “americana”: não se engane, mesmo com produção executiva de José Padilha, que dirige os dois primeiros episódios, o showrunner Chris Brancato é o criador da série, ao lado de Adam Fierro. “Narcos” é uma produção internacional para o mercado mundial da Netflix. E o inglês é a língua dominante. Cerca de 60% da série é falada no idioma de Shakespeare, enquanto os demais 40% são interpretados na língua de Gabriel García Márquez. E nada de Machado de Assis.
- Wagner Moura não é o protagonista: embora Pablo Escobar seja a figura central para entender o surgimento e o boom do narcotráfico, a série é contada do ponto de vista de um agente da DEA (Drug Enforcement Administration), o BOPE dos EUA a instituição norte-americana responsável pelo combate às drogas – a mesma de Hank Schrader (Dean Norris), de “Breaking Bad”. Esse é o papel de Boyd Holbrook, como Steve Murphy, policial que existiu “de verdade”. É ele o verdadeiro protagonista de “Narcos”.
- A série não poupa críticas ao governo dos Estados Unidos: contemplando um período que vai do fim dos anos 1970 até os 1980, “Narcos” não poupa críticas à política externa norte-americana em relação à América Latina, sobretudo aos governos Richard Nixon (1969-1974) e Ronald Reagan (1981 a 1989). Eles pouco se importaram com a chegada do pó nos Estados Unidos, nem mesmo quando uma onda de violência se alastrou pelas cidades estadunidenses. Para os políticos, o comunismo era uma ameaça muito mais “perigosa” – o que, inclusive, levou os EUA a apoiar ditaduras de direita por aqui. Somente quando se deram conta do volume da evasão de dólares (a voz do dinheiro) do país para a Colômbia é que resolveram intervir. E “Narcos” não perdoa.
- O papel de André Mattos é pequeno: além de Padilha, Moura – e do diretor de fotografia Lula Carvalho, que coordena uma equipe técnica de brasileiros –, André Mattos, o polêmico apresentador de TV de “Tropa de Elite 2” também está no elenco de “Narcos”. Ele vive Jorge, um dos irmãos Ochoa, que integraram o Cartel de Medellín. Apesar de relativamente importante para a trama, o personagem pouco aparece – e fala menos ainda.
- Dois episódios são dirigidos por Fernando Coimbra: além de Padilha, Moura, Lula e equipe, há outra prata da casa envolvida no projeto de Narcos. Fernando Coimbra, do excelente “O Lobo Atrás da Porta”, dirige dois episódios da série, o sétimo e o oitavo – por sinal, dois dos melhores da temporada.
- O tema da abertura também é de um brasileiro: não está satisfeito com a participação brasileira? Pois além de Padilha, Moura, Lula e equipe, Mattos e Coimbra, a música tema da abertura de Narcos é “Tuyo”, cantada por Rodrigo Amarante (ex-Los Hermanos), portanto, outro brasileiro.
- Tem (futura) bondgirl em papel importante: é Stephanie Sigman, de 28 anos. A atriz mexicana de “Miss Bala”, em “Narcos”, vive a jornalista Valeria Velez. E, em breve, será vista como uma bondgirl nos cinemas, com a estreia de “007 Contra Spectre”. Corre a boca pequena (a.k.a. o vazamento de informações da Sony por hackers que ficou conhecido como Sony leaks) que a escalação se deu como exigência do governo mexicano, que investiu uma grana na nova aventura de James Bond.
- Personagem central teve nome modificado: e esse personagem é exatamente Valeria Velez (Stephanie). Valeria não existiu, mas foi inspirada em uma outra jornalista, famosíssima na Colômbia, chamada Virginia Vallejo. Virginia foi amante de Pablo e teve papel de destaque na ascensão do traficante. Ela, inclusive, chegou a escrever uma autobiografia, chamada “Amando a Pablo, odiando a Escobar” – e Penélope Cruz deve interpretá-la em mais uma cinebiografia que está sendo preparada sobre o criminoso. Segundo Wagner Moura, “ela talvez tenha sido a única mulher mais inteligente do que Pablo”. Muito provavelmente (a informação não é confirmada), os produtores decidiram mudar o nome da personagem por questões jurídicas. A jornalista está com 65 anos e hoje vive em Miami.
- O ator que interpreta o braço direito de Pablo Escobar perdeu um tio em um atentado aéreo provocado pelo criminoso: aqui temos um cruzamento entre realidade e ficção. Pablo Escobar não tinha freio moral quando assunto era parar seus inimigos. Em 1989, na tentativa de assassinar César Gaviria, então candidato à presidência da Colômbia, ele explodiu um avião em pleno voo, matando 110 pessoas. Entre essas, estava um tio do ator colombiano Juan Pablo Raba. E não é que Raba está no elenco de “Narcos”? Pior: como Gustavo Gaviria (o sobrenome é coincidência), primo e braço direito do chefão do tráfico.
A série deixa um gancho para uma continuação que de fato ocorreu: chama-se “Narcos: México” (2018) e é dos mesmos diretores.
O que eu achei: Comecei a assistir a série achando que tudo o que eu iria ver nos episódios seria a história real dos cartéis de Medellín e de Cali e que eu saberia exatamente como foi a atuação de Pablo Escobar na Colômbia, mas logo no primeiro episódio já aparece a informação de que a série é baseada em fatos reais, mas que, no entanto, certos personagens, nomes, empresas, incidentes, locais e eventos foram dramatizados ou alterados para fins dramáticos e que qualquer semelhança com pessoas (vivas ou mortas) ou eventos reais é puramente coincidência. Claro que, num primeiro momento, dá pra entender que esse texto protege os produtores e a Netflix contra processos por difamação ou uso indevido de imagem de pessoas reais envolvidas no narcotráfico, mas a série - apesar de usar nomes reais como o de Pablo Escobar e inserir imagens de arquivo de jornais de verdade da época - inventa fatos, personagens e diálogos que nunca existiram na história real, alterando a linha do tempo e condensando múltiplos personagens reais em um só. Com isso, estima-se que 40% seja ficção e 60% não-ficção. Então não é viável encarar o seriado como uma aula de história. Mesmo assim, é uma excelente porta de entrada para despertar a curiosidade sobre a história da América Latina nas décadas de 70 a 90. Dentre as qualidades da série podemos citar Wagner Moura no papel de Pablo Escobar. Apesar da produção ser americana-colombiana, a contratação dele foi uma escolha pessoal do diretor José Padilha, que estava envolvido no projeto e já havia trabalhado com ele anteriormente. Claro que essa escolha causou grande controvérsia na época, já que Escobar é um dos maiores símbolos da história da Colômbia e um ator brasileiro é que iria representá-lo. O cara teve que engordar 20kg para atingir o porte físico pesado e estufado que o traficante tinha, especialmente em sua fase final de vida. Como o ator tem uma estrutura física naturalmente magra, ele revelou em entrevistas que o processo foi uma verdadeira forçação de barra com o próprio corpo, trazendo consequências para sua saúde, como o aumento drástico nas taxas de colesterol. Outro problema que o ator enfrentou é que ele não falava uma única palavra de espanhol quando foi escalado. Para conseguir dar conta do recado, Moura viajou por conta própria para Medellín cinco meses antes do início das gravações. Ele se matriculou em um curso de idiomas e passou a ler jornais colombianos e biografias todos os dias, além de morar no próprio bairro que Pablo Escobar construiu - o Barrio Pablo Escobar - convivendo com os locais para pegar o sotaque específico da região. Além disso, os episódios são muito bem produzidos: as locações são reais, evitando cenários de estúdio; a reconstituição de época é impecável, com figurino, carros, arquitetura e cortes de cabelo que transportam o espectador com precisão para os anos em questão e a fotografia e a direção de arte são primorosas, com cenas de perseguição, tiroteios e invasões tensas dirigidas com padrão cinematográfico. Com isso, se você encarar como uma boa série policial de TV, você sairá satisfeito. Depois, se tiver curiosidade, basta dar um Google nas verdades e mentiras da série: a coisa mais fácil é achar textos e vídeos esclarecendo esses pontos. Foi uma das melhores séries que já assisti.