
Comentário: Billy Wilder (1906-2002) foi um diretor de cinema, roteirista e produtor norte-americano. Sua carreira estendeu-se por mais de 50 anos em mais de 60 filmes, muitos bem recebidos tanto pelo público quanto pela crítica. Assisti dele os ótimos “Crepúsculo dos Deuses” (1950) e “Quanto Mais Quente Melhor” (1956). Desta vez vou conferir “Se Meu Apartamento Falasse” (1960).
Rubens Ewald Filho do site UOL Cinema publicou: “O filme foi premiado com os Oscars de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Direção de Arte e Montagem (Wilder e seu parceiro Diamond ganharam três prêmios cada, um recorde de estatuetas para a mesma pessoa). Lemmon na época descreveu a cena em que ele tenta reviver Shirley de seu coma como uma das mais difíceis que já tinha feito (em cima da cama há um quadro, ‘Ciganos Adormecidos’, de Roussseau, em cuja composição Wilder teria se inspirado).
Paul Douglas, que ia fazer o papel do chefe, morreu dois dias antes de começarem as filmagens, e o velho amigo MacMurray (que havia feito ‘Pacto de Sangue’ com Wilder) foi chamado. Shirley e Lemmon se reuniriam novamente com Wilder dois anos depois em ‘Irma La Douce’ (1963), mas sem o mesmo sucesso. Em 1968, o filme foi transformado em um show da Broadway, ‘Promises, Promises’, com canções de Burt Bacharach e Hal David, estrelado por Jerry Orbach e Jill O'Hara.
Billy Wilder nunca negou que era um cínico. Acontece que às vezes ele exagera, fica com a mão pesada demais (‘Beija-me Idiota’) ou é derrubado pelas ciladas da sátira (‘Cupido Não Tem Bandeira’). Mas às vezes deixa entrever, por trás das ironias, seu bom, velho e sentimental coração, o que deve explicar o sucesso deste filme, que foi seu último grande sucesso de público e crítica. Até os gênios envelhecem, e nunca mais a mistura deu tão certo. Talvez por que aqui Billy ainda estava deslumbrado com a descoberta dos inúmeros talentos de Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
Segundo o diretor, a origem da fita é remota, nasceu quando ele assistiu ao filme ‘Desencanto’ (Brief Encounter, 1946), em que se contava a história de um casal adúltero que pedia emprestado um apartamento de um amigo para poder ter uma relação sexual (não existiam motéis na época, nem no filme original nem neste).
Quando procurava um papel para Jack Lemmon veio essa ideia, que ele juntou com um escândalo em Hollywood, um marido ciumento que matou um agente que tinha um caso com a mulher dele, a atriz Joan Bennett. O que interessou Billy foi que, para os encontros sexuais, o casal utilizava o apartamento de um funcionário de baixo escalão da agência, um solteirão que trabalhava na correspondência.
Foi assim que tomou forma essa comédia-dramática, daquelas que fazem rir, mas também incomodam um pouco. Wilder considera este seu melhor filme, até por ter chegado ao público num momento ideal, quando se aceitava melhor a liberalização de costumes (embora insista que a fita demonstra também seu amor por Nova York, por pessoas que não chamam a atenção e que, de repente, se tornam heróis de uma hora para outra, incluindo vizinhos que se ajudam mesmo quando não se entendem).
Mas a maneira mais simples de entender o filme é como uma crítica ao capitalismo das empresas e empregados, em que, para se ter sucesso, é preciso ter cara de pau e nenhum escrúpulo. E por isso muita gente o considera imoral (ou simplesmente realista, ao menos até o fim, que já é mais discutível). Embora a história pudesse se passar em qualquer outra cidade do mundo, o filme é muito americano, muito de sua época, inteligente como só Wilder sabia fazer”.
O que disse a crítica 1: Hiago Leal do site Cinema com Rapadura avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “Se há uma coisa em comum entre os grandes cineastas, certamente é serem grandes fãs de cinema. O próprio Billy Wilder mesmo é um ótimo exemplo disso. O diretor tinha uma placa em sua mesa com as palavras ‘como Lubitsch faria isso?’, em referência ao diretor do clássico ‘Ladrão de Alcova’, Ernst Lubitsch. E em ‘Se Meu Apartamento Falasse’, ele usa o conceito de outro filme, ‘Desencanto’, de David Lean, para mostrar um novo ponto de vista que nenhuma obra havia abordado. Wilder criou, com este seu clássico de 1960, uma obra que fala também sobre as comemorações de fim de ano, e que ressoa todos os outros dias”.
O que disse a crítica 2: Roberto Honorato do site Plano Crítico também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: “Com ‘Se Meu Apartamento Falasse’, Wilder se tornou a primeira pessoa a receber os três prêmios principais da Academia (um de Melhor Filme, e os outros dois para Direção e Roteiro), e não me impressiona como o filme continua tão engraçado e envolvente. Com uma história tão divertida e elenco impecável, só um louco para não se apaixonar por essa comédia”.
O que eu achei: “Se Meu Apartamento Falasse” (1960) trata dos temas de infidelidade e chantagem corporativa, assuntos que hoje não são mais nenhuma novidade, mas que na Hollywood da década de 1960 desafiavam o moralismo da sociedade americana. O filme é sensacional, tão bom ou até melhor do que outros que vi do diretor como “Crepúsculo dos Deuses” (1950) e “Quanto Mais Quente Melhor” (1956). Na trama, um funcionário ambicioso de uma empresa de seguros (Jack Lemmon) descobre um jeito de agradar seus superiores: ceder seu apartamento para os encontros amorosos de seus chefes. A tática inicialmente dá certo, até a tão sonhada promoção ele consegue, mas tudo vira um problema quando ele se apaixona pela amante de um de seus chefes (Shirley MacLaine). Muitos críticos o consideram uma obra-prima por alcançar um equilíbrio perfeito entre divertir o público e dissecar o lado sombrio do ‘sonho americano’. Dentre suas grandes qualidades está o roteiro que é uma aula de estrutura cinematográfica. Ele transita entre a comédia romântica leve e o drama melancólico - incluindo uma tentativa de suicídio - sem perder o tom. Os diálogos são rápidos, cheios de duplos sentidos e frases marcantes. Ele retrata a solidão urbana, mostrando a modernidade de Nova York não como um lugar glamouroso, mas como um espaço de isolamento. O mar de mesas idênticas na empresa de seguros ilustra o esmagamento do indivíduo pela máquina corporativa. O apartamento de Baxter é o reflexo disso: um espaço íntimo invadido pelo desejo alheio. Outro ponto de destaque são os protagonistas: C.C. Baxter (Jack Lemmon) não é um herói corajoso, mas um homem comum que cede à corrupção moral (emprestar o apartamento para os chefes traírem as esposas e para subir na carreira) enquanto Fran Kubelik (Shirley MacLaine) é a amante de um homem casado, uma personagem que o cinema tradicional costumava punir ou demonizar, mas que aqui ganha a total empatia do público por sua vulnerabilidade. O diretor usou lentes anamórficas (Panavision) de forma inovadora para a comédia. Em vez de focar apenas nos rostos, ele usava a profundidade de campo. A escala gigantesca do escritório - obtida com truques de perspectiva, usando mesas menores e até atores mirins ao fundo - acentuava a insignificância de Baxter na empresa. Quem conhece o cinema de Billy Wilder sabe de seu olhar cínico sobre a natureza humana. Porém, neste filme, o cinismo é temperado por uma profunda ternura pelos dois protagonistas. Eles são duas peças descartáveis no jogo dos poderosos e encontram dignidade um no outro. Imperdível.
Rubens Ewald Filho do site UOL Cinema publicou: “O filme foi premiado com os Oscars de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Direção de Arte e Montagem (Wilder e seu parceiro Diamond ganharam três prêmios cada, um recorde de estatuetas para a mesma pessoa). Lemmon na época descreveu a cena em que ele tenta reviver Shirley de seu coma como uma das mais difíceis que já tinha feito (em cima da cama há um quadro, ‘Ciganos Adormecidos’, de Roussseau, em cuja composição Wilder teria se inspirado).
Paul Douglas, que ia fazer o papel do chefe, morreu dois dias antes de começarem as filmagens, e o velho amigo MacMurray (que havia feito ‘Pacto de Sangue’ com Wilder) foi chamado. Shirley e Lemmon se reuniriam novamente com Wilder dois anos depois em ‘Irma La Douce’ (1963), mas sem o mesmo sucesso. Em 1968, o filme foi transformado em um show da Broadway, ‘Promises, Promises’, com canções de Burt Bacharach e Hal David, estrelado por Jerry Orbach e Jill O'Hara.
Billy Wilder nunca negou que era um cínico. Acontece que às vezes ele exagera, fica com a mão pesada demais (‘Beija-me Idiota’) ou é derrubado pelas ciladas da sátira (‘Cupido Não Tem Bandeira’). Mas às vezes deixa entrever, por trás das ironias, seu bom, velho e sentimental coração, o que deve explicar o sucesso deste filme, que foi seu último grande sucesso de público e crítica. Até os gênios envelhecem, e nunca mais a mistura deu tão certo. Talvez por que aqui Billy ainda estava deslumbrado com a descoberta dos inúmeros talentos de Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
Segundo o diretor, a origem da fita é remota, nasceu quando ele assistiu ao filme ‘Desencanto’ (Brief Encounter, 1946), em que se contava a história de um casal adúltero que pedia emprestado um apartamento de um amigo para poder ter uma relação sexual (não existiam motéis na época, nem no filme original nem neste).
Quando procurava um papel para Jack Lemmon veio essa ideia, que ele juntou com um escândalo em Hollywood, um marido ciumento que matou um agente que tinha um caso com a mulher dele, a atriz Joan Bennett. O que interessou Billy foi que, para os encontros sexuais, o casal utilizava o apartamento de um funcionário de baixo escalão da agência, um solteirão que trabalhava na correspondência.
Foi assim que tomou forma essa comédia-dramática, daquelas que fazem rir, mas também incomodam um pouco. Wilder considera este seu melhor filme, até por ter chegado ao público num momento ideal, quando se aceitava melhor a liberalização de costumes (embora insista que a fita demonstra também seu amor por Nova York, por pessoas que não chamam a atenção e que, de repente, se tornam heróis de uma hora para outra, incluindo vizinhos que se ajudam mesmo quando não se entendem).
Mas a maneira mais simples de entender o filme é como uma crítica ao capitalismo das empresas e empregados, em que, para se ter sucesso, é preciso ter cara de pau e nenhum escrúpulo. E por isso muita gente o considera imoral (ou simplesmente realista, ao menos até o fim, que já é mais discutível). Embora a história pudesse se passar em qualquer outra cidade do mundo, o filme é muito americano, muito de sua época, inteligente como só Wilder sabia fazer”.
O que disse a crítica 1: Hiago Leal do site Cinema com Rapadura avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “Se há uma coisa em comum entre os grandes cineastas, certamente é serem grandes fãs de cinema. O próprio Billy Wilder mesmo é um ótimo exemplo disso. O diretor tinha uma placa em sua mesa com as palavras ‘como Lubitsch faria isso?’, em referência ao diretor do clássico ‘Ladrão de Alcova’, Ernst Lubitsch. E em ‘Se Meu Apartamento Falasse’, ele usa o conceito de outro filme, ‘Desencanto’, de David Lean, para mostrar um novo ponto de vista que nenhuma obra havia abordado. Wilder criou, com este seu clássico de 1960, uma obra que fala também sobre as comemorações de fim de ano, e que ressoa todos os outros dias”.
O que disse a crítica 2: Roberto Honorato do site Plano Crítico também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: “Com ‘Se Meu Apartamento Falasse’, Wilder se tornou a primeira pessoa a receber os três prêmios principais da Academia (um de Melhor Filme, e os outros dois para Direção e Roteiro), e não me impressiona como o filme continua tão engraçado e envolvente. Com uma história tão divertida e elenco impecável, só um louco para não se apaixonar por essa comédia”.
O que eu achei: “Se Meu Apartamento Falasse” (1960) trata dos temas de infidelidade e chantagem corporativa, assuntos que hoje não são mais nenhuma novidade, mas que na Hollywood da década de 1960 desafiavam o moralismo da sociedade americana. O filme é sensacional, tão bom ou até melhor do que outros que vi do diretor como “Crepúsculo dos Deuses” (1950) e “Quanto Mais Quente Melhor” (1956). Na trama, um funcionário ambicioso de uma empresa de seguros (Jack Lemmon) descobre um jeito de agradar seus superiores: ceder seu apartamento para os encontros amorosos de seus chefes. A tática inicialmente dá certo, até a tão sonhada promoção ele consegue, mas tudo vira um problema quando ele se apaixona pela amante de um de seus chefes (Shirley MacLaine). Muitos críticos o consideram uma obra-prima por alcançar um equilíbrio perfeito entre divertir o público e dissecar o lado sombrio do ‘sonho americano’. Dentre suas grandes qualidades está o roteiro que é uma aula de estrutura cinematográfica. Ele transita entre a comédia romântica leve e o drama melancólico - incluindo uma tentativa de suicídio - sem perder o tom. Os diálogos são rápidos, cheios de duplos sentidos e frases marcantes. Ele retrata a solidão urbana, mostrando a modernidade de Nova York não como um lugar glamouroso, mas como um espaço de isolamento. O mar de mesas idênticas na empresa de seguros ilustra o esmagamento do indivíduo pela máquina corporativa. O apartamento de Baxter é o reflexo disso: um espaço íntimo invadido pelo desejo alheio. Outro ponto de destaque são os protagonistas: C.C. Baxter (Jack Lemmon) não é um herói corajoso, mas um homem comum que cede à corrupção moral (emprestar o apartamento para os chefes traírem as esposas e para subir na carreira) enquanto Fran Kubelik (Shirley MacLaine) é a amante de um homem casado, uma personagem que o cinema tradicional costumava punir ou demonizar, mas que aqui ganha a total empatia do público por sua vulnerabilidade. O diretor usou lentes anamórficas (Panavision) de forma inovadora para a comédia. Em vez de focar apenas nos rostos, ele usava a profundidade de campo. A escala gigantesca do escritório - obtida com truques de perspectiva, usando mesas menores e até atores mirins ao fundo - acentuava a insignificância de Baxter na empresa. Quem conhece o cinema de Billy Wilder sabe de seu olhar cínico sobre a natureza humana. Porém, neste filme, o cinismo é temperado por uma profunda ternura pelos dois protagonistas. Eles são duas peças descartáveis no jogo dos poderosos e encontram dignidade um no outro. Imperdível.