5.11.22

“Kundun” - Martin Scorsese (EUA, 1997)

Sinopse:
 
Tibete, 1937. Um menino de 2 anos (Tenzin Yeshi Paichang), oriundo de uma modesta família, é oficialmente reconhecido como a 14ª reencarnação de Buda e, por consequência, será o novo Dalai-Lama. Educado para ser o chefe espiritual e político do Tibete, o Dalai-Lama, também conhecido como Kundun (Tulku Jamyang Kunga Tenzin, Gyurme Tethong e Tenzin Thuthob Tsarong), assiste impotente à selvagem invasão do seu país, em 1959, pelos exércitos de Mao Zedong. A religião é banida do Tibete e o Dalai-Lama decide ficar no país e resistir ao opressor. Porém, o massacre da população leva-o ao exílio na Índia.
Comentário: Martin Scorsese (1942) é um diretor de cinema norte-americano. Assisti dele diversos filmes, dentre eles a obra prima "Os Bons Companheiros" (1990), os ótimos “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980), “Cabo do Medo” (1991), “Gangues de Nova York” (2002), "Os Infiltrados" (2006) e "Ilha do Medo" (2009) e os documentários "No Direction Home: Bob Dylan" (2005) e "Rolling Stones - Shine a Light" (2007). Desta vez vou conferir “Kundun” (1997).
O filme começa com um preâmbulo contando que os filhos de Genghis Khan o chamavam pelo nome de Dalai Lama, que significa “Oceano de Sabedoria” e que, na Ásia, por mais de mil anos, tibetanos praticaram a não-violência sendo que o Dalai Lama é a manifestação humana do Buda da Compaixão. Daí ele nos diz que em 1933 o 13º Dalai Lama morreu e que, nesse momento começou a busca pelo 14º que durou 4 anos. É aí que o filme propriamente dito começa. 
Estamos em 1937 e um menino de 2 anos, oriundo de uma família modesta, é reconhecido como a nova reencarnação de Buda. Por conta disso, ele será educado para ser o chefe espiritual e político do Tibete. Também conhecido como Kundun, em 1959 ele vai assistir impotente à selvagem invasão do seu país pelo exército chinês de Mao Zedong. A religião é banida do Tibete e o Dalai-Lama decide, a princípio, ficar no país e resistir ao opressor. Porém, o massacre da população leva-o ao exílio na Índia onde está até hoje. 
O que disse a crítica 1: Segundo Fernando Campos do site Plano Crítico, “Kundun” frustra “ao percebermos que a película se trata mais de uma biografia sem nuances (...) do que uma reflexão sobre o budismo ou sobre sua figura. Mesmo que Scorsese seja responsável por alguns dos maiores estudos de personagem do cinema, o que vemos em ‘Kundun’ é uma trama pouco ousada e que parece muito mais interessada em homenagear seu protagonista do que explorar camadas dele. Como resultado, temos um longa pouco engajante que, em conjunto com a edição, cansa o espectador em diversos momentos da projeção”. 
O que disse a crítica 2: Rubens Ewald Filho disse que o filme "fez uma biografia ‘autorizada’ do Dalai Lama (que cooperou com as filmagens) sem paixão, sem garra, sem alma. Produzido pela Disney, o filme fez com que o estúdio comprasse uma briga feia com o governo chinês que se opôs à realização de um tributo a um líder deposto por eles (...). Impedido de usar locações autênticas, Scorsese teve que rodar o filme no Marrocos. (...) Mas ‘Kundun’ é um tiro n'água. (...) A fita trilha os mesmos caminhos já percorridos por Bertolucci (‘O Pequeno Buda’) e principalmente o francês Jean Jacques Annaud (‘Sete Anos no Tibet’), que contava praticamente a mesma história só que pelo ponto de vista de um alemão”. E completa dizendo: “É um roteiro muito fraco (...) que Scorsese tenta salvar pelo esplendor visual (a música de Philip Glass faz o possível para criar um certo clima). Mas o resultado é artificial, como se o diretor fizesse um filme de férias de encomenda, preocupado mais com o exotismo e o efeito fácil. Foi muito barulho por muito pouco”. 
O que eu achei: “Kundun” (1997) narra a trajetória do Dalai Lama, desde a infância até o exílio após a invasão chinesa do Tibete. É um projeto ambicioso, tanto pelo recorte histórico quanto pela dimensão espiritual que pretende alcançar. Tecnicamente, o filme é uma beleza. A produção é impecável, com figurinos riquíssimos, cenários cuidadosamente construídos e uma fotografia que valoriza cores e composições com grande apuro estético. Soma-se a isso a trilha sonora de Philip Glass, que cria uma atmosfera hipnótica e contemplativa, elevando ainda mais o nível formal da obra. No entanto, apesar de todo esse refinamento, o filme não decola. A narrativa, excessivamente reverente, acaba mantendo o espectador a certa distância emocional. A escolha por um tom quase meditativo, embora coerente com o tema, resulta em um ritmo arrastado e em uma falta de envolvimento dramático mais consistente. Outro ponto que contribui para essa sensação é a abordagem mais observacional do protagonista. O Dalai Lama surge como uma figura quase intocável, o que dificulta a criação de conflitos internos mais palpáveis. Assim, mesmo diante de eventos históricos relevantes, o impacto emocional acaba diluído. “Kundun” é, portanto, um filme que impressiona pela forma, mas que não encontra a mesma força no conteúdo narrativo. O resultado é bem mediano: uma obra visualmente deslumbrante e tecnicamente irrepreensível, mas que deixa a sensação de que poderia ter sido muito melhor.