
Comentário: Recentemente assisti um filme do István Szabó chamado “Atrás da Porta” (2012) que não era tão bom quanto outros filmes que vi do diretor, mas no qual a atriz principal, Helen Mirren, estava tão bem que parecia mais um filme da Helen Mirren do que do Szabó. Neste, ocorre a mesma coisa, é um filme menor do Luchino Visconti, mas a atriz Anna Magnani brilha tanto, que mais parece um filme dela. Tiago Mata Machado escreveu na Folha SP: Alida Valli, Maria Schell, Claudia Cardinale... “Visconti domava qualquer fera, mas Anna Magnani era, se me perdoam a expressão, a ‘megera indomável’. Criatura passional, insana, possessiva, Magnani fascinava e esgotava qualquer diretor. Se ‘Belíssima’ é o único filme de Visconti em que, como confessou o próprio, ele improvisou, é porque aqui o diretor não fez mais do que se render, como tantos outros, ao talento voraz de Magnani. O fato é que nenhum cineasta conseguiu fazer um filme com ela que não fosse um filme sobre ela. Magnani é muitas mulheres ao mesmo tempo, mas, justamente por ser assim múltipla, é que ela interpreta sempre a si mesma. A atriz já é ela própria uma (shakespeariana) personagem - por isso, como faria aliás Tennessee Williams em ‘Rose Tatoo’, é preciso escrever o texto especialmente para ela. Não se trata, com ela, de um filme de Visconti, de Rossellini (‘O Amor’), de Pasolini (‘Mama Roma’), mas de um filme de Magnani. Diante dela todos são edipianos, pois ela não representa, para todos, senão uma grande, uma inesgotável mãe romana”. E prossegue dizendo: “Homossexual, Visconti tinha em Magnani uma de suas duas divas (a outra era Callas). A atriz, confessava ele, lembrava-lhe da mãe possessiva e protetora de sua infância. Inspirando-se em mais um daqueles tantos argumentos criados por Cesare Zavattini, o grande manancial do neorrealismo, Visconti resolveu realizar com Magnani essa história de uma mãe romana suburbana que, aficionada por cinema, decide transformar a filha pequena numa estrela (um fato, aliás, recorrente na história do cinema). Magnani deitou e rolou. Em ‘Belíssima’, como sempre, ela exerce um monopólio absoluto: acrescenta ‘cacos’ ao texto, revira os cenários, chora e grita feito louca - como fazia nos bastidores, aliás, apaixonada que estava pelo eletricista da equipe. O filme é estridente, histérico, romano até o limite do insuportável. Luchino Visconti aproveita aqui para fazer uma crítica velada à indústria do cinema, criando, numa autoironia, o personagem de um playboy aproveitador da Cinecittá e colocando, sobre a participação do colega cineasta Alessandro Blasseti (que faz aqui o papel dele mesmo), o tema da ária do charlatão de uma ópera de Donizetti”.
O que eu achei: Dizem que a história foi inspirada na observação direta do Visconti vendo as mães trazerem suas filhas para testes de elenco. Não é o melhor filme do diretor, mas dá pra se divertir e dar umas boas risadas vendo o jeito italiano de ser. Uma boa pedida para nós que somos descendentes desse povo tão espalhafatoso, falante e alegre. Há muito de nossos antepassados ali.