21.6.22

“Gente no Domingo” - Robert Siodmak & Edgar G. Ulmer (Alemanha, 1930)

Sinopse:
 
Este semi-documentário do cinema mudo mostra uma Alemanha dos anos 20 bem diferente dos terrores nazistas, repleta de beleza e paz retratadas pela vida cotidiana de pessoas comuns.
Comentário: “Gente no Domingo” é uma criação coletiva dos diretores Robert Siodmak com Edgar G. Ulmer, mas participaram também o irmão do Robert, Curt Siodmak, Billy Wilder e Fred Zinnemann. Para Billy Wilder este filme configura sua estreia no cinema. Ele é um dos roteiristas. Segundo o site espanhol El Gabinete Del Doctor Mabuse, “A premissa do filme é muito interessante e, de certa forma, antecipou o estilo neorrealista que a Europa, sobretudo a Itália, viria explorar no final dos anos 40 e 50. Os protagonistas encarnam quatro atores não profissionais (...) e o filme foi encenado principalmente nas ruas de Berlim. O argumento é quase um passeio turístico, uma ‘desculpa’ para refletir a classe trabalhadora de Berlim desfrutando das atividades de lazer num domingo qualquer. Os personagens principais são dois homens que saíram com duas meninas para passar o domingo juntos: um deles é casado, mas não parece se dar bem com sua esposa, que deixou em casa dormindo; o outro, inicialmente tenta seduzir a garota que ele conheceu no dia anterior, mas quando ela o rejeita, ele dá a vez para o amigo que veio simplesmente como um companheiro. Obviamente, no final do encontro tudo será esquecido por ambos. Embora os quatro protagonistas não sejam atores profissionais, eles exercem seus papéis com muita facilidade e credibilidade. Isso porque, os personagens são exibidos como um reflexo de suas próprias vidas reais e, portanto, não envolve tanto esforço para fazer um bom trabalho. Os diretores do filme buscam recriar um ambiente a ponto de esquecer, por vezes, os atores, para transformar brevemente num documentário sobre Berlim, na Alemanha antes do desastre que estava prestes a ocorrer. Se tivermos isso em mente, é estranho ver hoje, as perspectivas de rostos tão inocentes e felizes diante de acontecimentos históricos que certamente todos eles desconheciam que estavam prestes a chegar. Por outro lado, ao contrário do grande documentário sobre a capital alemã, o magnífico ‘Berlim, Sinfonia da Metrópole’ (1927), ‘Gente no Domingo’ tem um estilo ousado e inovador, mais estilizado e clássico, e mais poético. Abundam cenas idílicas, cheias de parques e praias, crianças nuas brincando inocentemente, e há muitos closes que mostram o interesse dos criadores em retratar esses alemães operários e humildes, nos oferecendo diversos close-ups de rostos desconhecidos (como as pequenas e ao mesmo tempo grandes cenas de rostos de pessoas que vemos ao logo do filme). Neste contexto, o argumento associado com os quatro protagonistas é mais do que as cenas que o documentário nos dá, mas as muitas sutilezas que perpassam o filme. A diferença de outros filmes alemães do período é que este é mais realista que impressionista, fundamentado numa estética, embora documental, mas enfatizada também num enredo minimalista. 'Gente no Domingo' é também um dos últimos grandes filmes mudos da época alemã. Quando filmado, novas formas já tinham entrado no mercado alemão mudando completamente a estética e o estilo (...). É também um dos últimos grandes filmes a serem produzidos antes que a indústria cinematográfica alemã caísse na mão dos nazistas e perdesse muitas de suas figuras principais, que imigravam para escapar da repressão do Estado Nazifascista. Depois disso, os cineastas mais importantes da Alemanha fugiram progressivamente para a França e os Estados Unidos. Mas o realismo e a beleza de ‘Gente no Domingo’ são um testemunho de uma Alemanha que poderia ter sido pacificada e que, no entanto, estava prestes a sofrer um dos piores períodos de sua história”.