
Comentário: Martin Scorsese (1942) é um diretor de cinema norte-americano. Assisti dele diversos filmes, dentre eles a obra prima "Os Bons Companheiros" (1990), os ótimos “Taxi Driver” (1976), "Os Infiltrados" (2006) e "Ilha do Medo" (2009) e os documentários "No Direction Home: Bob Dylan" (2005) e "Rolling Stones - Shine a Light" (2007). Desta vez vou conferir “Gangues de Nova York” (2002).
Segundo o site Estilo Gangster, “lá nos anos de 1800, os Estados Unidos sofreram gravemente com a incidência de violência que assolava o país por conta das gangues que foram se formando. (...) Esses grupos comandavam a prostituição, assaltos e até assassinatos”.
O site enumera as 7 gangues mais antigas de Nova York como sendo os Forty Thieves, os Bowery Boys, os Dead Rabbits, os Daybreak Boys, os Whyos, a Five Points Gang e a Eastman Gang.
Eu, que achava que isso era coisa do passado, numa rápida pesquisa encontrei na Vice uma entrevista de 2015 com um especialista no assunto - Ron "Cook" Barrett - contando que elas continuam existindo. Ele diz: "As maiores gangues em NY (...) vêm do Departamento de Correções (DOC) do Estado e passam para as ruas. Tradicionalmente, desde 1993, os Bloods têm sido a maior força em Rikers Island e em muitas outras instalações correcionais do Estado. Grupos como Mac Ballers, G. Shine, Brims e Gorilla Brims estão constantemente lutando pelo controle das instalações. Eles superam muitos rivais em número. Temos Crips, Latin Kings, Trinitarios, Gangster Disciplines, MS-13 e outros em atividade.
Mesmo nacionalidades estão representadas dentro da cultura das gangues (...). Na Califórnia, por exemplo, por causa da população mexicana, a Máfia Mexicana (Sureños, Nuestra Familia) são os grupos de maior poder. Com a população hispânica crescendo em Nova York, esses grupos começam a se tornar mais visíveis no Estado. O maior grupo étnico na área vai ditar o tipo de gangue que você verá".
O filme do Scorsese surgiu após ele ler o livro “As Gangues de Nova York - Uma História Informal do Submundo”, escrito em 1928 por Herbert Asbury. A história se inicia mostrando o assassinato do corajoso pastor Vallon (Liam Neeson), líder da gangue Dead Rabbits (formada por imigrantes irlandeses e católicos), por William Cutting (Daniel Day-Lewis), líder dos Americanos Nativistas (um grupo de protestantes americanos por nascimento, excluindo-se, como já era de se esperar, os americanos de fato - indígenas, negros e alguns ingleses que não haviam ascendido socialmente durante o processo de imigração e colonização inglesa).
A história se passa entre os anos 1830 e 1863. Começa com o filho do pastor (Leonardo DiCaprio) presenciando, ainda criança, a morte de seu pai e seu retorno à cidade, 16 anos depois, para vingar essa morte.
Segundo Marcelo Hessel do site Omelete, “Scorsese levou trinta anos para realizar o (...) projeto. Em 1970, início de carreira, o diretor leu o livro (...) e se apaixonou pelo relato. Tentou filmá-lo em 1978, com Robert DeNiro no papel principal e com a participação do The Clash, mas os custos forçaram um adiamento. No fim das contas, Scorsese levou 25 anos para completar o roteiro, tempo em que buscou material e depoimentos históricos. E, finalmente, [realizou] a sua versão da história (...), a reconstituição de um tempo em que leis eram atropeladas, vidas valiam pouco e a Máfia italiana sequer tinha atravessado o Atlântico. (...) Dificuldades na ambiciosa realização não faltaram. Sem qualquer vestígio, no centro cosmopolita, da paisagem desoladora que NY representava no século XIX, Scorsese recorreu ao lendário estúdio da Cinecittà italiana, em Roma, para montar a sua própria cidade-cenário”.
“Gangues de Nova York” ganhou o Globo de Ouro de Melhor Direção e Daniel Day-Lewis, muito merecidamente, foi premiado Melhor Ator pelo British Academy of Film and Television Arts (BAFTA). O longa também recebeu dez indicações ao Oscar, entre elas, a de Melhor Filme.
“Gangues de Nova York” ganhou o Globo de Ouro de Melhor Direção e Daniel Day-Lewis, muito merecidamente, foi premiado Melhor Ator pelo British Academy of Film and Television Arts (BAFTA). O longa também recebeu dez indicações ao Oscar, entre elas, a de Melhor Filme.
O que eu achei: O longa revisita as origens violentas da cidade para construir um épico denso, brutal e visualmente impressionante. Ambientado na segunda metade do século XIX, o filme mergulha nos conflitos entre gangues rivais em uma Nova York ainda em formação, marcada por tensões étnicas, políticas e sociais. O resultado são 166 minutos de filme conduzidos com o cuidado de execução característico de Scorsese, exibindo sem pudor a brutalidade daquele universo. Há muita violência, sangue e confrontos físicos intensos. É preciso estar preparado para esse retrato cru, que não romantiza o passado, mas o expõe em sua face mais selvagem. No centro da narrativa está Amsterdam Vallon, vivido por Leonardo DiCaprio, que retorna ao bairro de Five Points em busca de vingança contra Bill “The Butcher”, personagem icônico interpretado por Daniel Day-Lewis. Day-Lewis domina o filme com uma atuação magnética, criando um antagonista ao mesmo tempo carismático e aterrador, cuja presença eleva cada cena em que aparece. Scorsese constrói um mundo rico em detalhes, com direção de arte e figurinos impressionantes que recriam uma Nova York caótica e pulsante. É uma história de vingança, mas o filme se expande para refletir sobre identidade, pertencimento e o nascimento de uma nação marcada pela violência e pela disputa de poder. Se por vezes a narrativa parece se alongar além do necessário, isso não diminui o impacto da obra. “Gangues de Nova York” (2002) é um filme excelente justamente por sua ambição e pela forma como transforma um período histórico em espetáculo cinematográfico visceral e envolvente. Uma experiência intensa. Se jogue.