7.11.21

“Isso Não É Um Enterro, É Uma Ressurreição” - Lemohang Jeremiah Mosee (Lesoto/África do Sul/Itália/EUA, 2019)

Sinopse:
 
Nas montanhas do Lesoto, uma viúva de 80 anos (Mary Twala) resolve seus assuntos terrenos, toma providências para seu enterro e se prepara para morrer. Mas quando sua aldeia é ameaçada de reassentamento forçado devido à construção de um reservatório, ela encontra uma nova vontade de viver e acende um espírito coletivo de desafio em sua comunidade. Ela não tem mais nada pelo que viver e, em certo sentido, isso lhe dá verdadeiro poder.
Comentário: Que filme incrível este que se passa no Lesoto, um país pequeno, localizado no sul da África e sem saída para o mar. Segundo Luciano Ribeiro Pires, o país "é um enclave, totalmente cercado pela África do Sul. Bem montanhoso, tem mais de 80% do território acima dos 1,8 mil metros de altitude e é o único país do mundo com toda a área acima dos 1 mil metros. Praticamente a população inteira (99%) é da mesma etnia, os basotho. A língua falada entre os lesotianos é o sesotho". E é em sesotho que o filme é gravado, contando com diversos atores não profissionais regionais. No papel central da idosa viúva que não tem mais porquê viver - mas que encontrará uma razão na vida para lutar - está a rainha do cinema da África, Mary Twala Mhlongo, falecida em 2020. O filme é lento, requer uma certa disposição do espectador, mas vai tratar de um assunto real que é o projeto de construção de uma barragem que tem por objetivo fornecer água à África do Sul. Entretanto isso acabaria afetando cerca de 35 comunidades que ali vivem e que precisariam ser consultadas e indenizadas pois todos vão perder suas casas e meios de subsistência. Bastou uma rápida pesquisa na internet para descobrir que as obras da estrada que levam até a futura barragem já começaram e que muitas pessoas já estão sendo removidas do local recebendo como indenização pouco mais de 1 dólar americano - isso mesmo 1 dólar, um valor que mal daria para comprar um pãozinho, mas que as autoridades acharam suficiente para uma família se mudar e recomeçar sua vida. O diretor Lemohang Jeremiah Mosee é nascido em Lesoto e conhece muito bem o assunto do qual está tratando. Para completar, a fotografia de Pierre de Villiers é de tirar o fôlego. Cada frame é emoldurado com exatidão e o colorido em tons quentes nos hipnotiza do começo ao fim. Não poderia deixar de mencionar também a trilha sonora composta pelo japonês Yu Miyashita, extremamente adequada. É basicamente um filme de arte que poderia estar sendo exibido dentro de uma galeria, categoria obra-prima para mim. O filme foi exibido na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e venceu o Prêmio Especial do Júri da seção World Cinema Dramatic do Festival de Sundance.