20.9.21

“Segredos e Mentiras” - Mike Leigh (Reino Unido/França, 1996)

Sinopse:
 
Hortense Cumberbatch (Marianne Jean-Baptiste) é uma mulher negra que foi abandonada quando criança, sendo adotada por uma família. Quando sua mãe adotiva morre, ela decide partir em busca de sua mãe biológica (Brenda Blethyn). Só que sua mãe é branca e a teve quando era uma adolescente, algo que sua atual família não sabe.
Comentário: Segundo Luiz Carlos Oliveira Jr. do site Contracampo, "Segredos e Mentiras" tem "como ferramentas essenciais a tentativa de compreensão, ao invés de julgamento raso, e a demonstração de ternura pelos personagens (talvez não mais que obrigação, em se tratando de um cinema com pretensões humanistas). Nada de exposições caricaturais. Cynthia, por exemplo, personagem de Brenda Blethyn (em atuação brilhante) que a todos chama sweetheart e que chora por qualquer motivo, nunca surge como alvo de crítica depreciativa. Sua fragilidade não é ridicularizável, sua carência não lhe tira o direito à ternura do cineasta - e do espectador, por tabela". Trata-se de um "filme que deflagra um vetor subterrâneo, quase imperceptível enquanto força atuante, que cresce no silêncio e na carência de seus personagens: a passividade que se encarrega do fluxo de vida na grande cidade. Mike Leigh filma pessoas que a princípio não falam o que devia ser falado (será necessária uma 'terapia de grupo' espontânea ao final do filme), que não se olham nos olhos (como no inesquecível plano-sequência na lanchonete onde mãe e filha conversam pela primeira vez, lado a lado, mas sem cruzar o olhar), que encaram os problemas somente de soslaio: essa passividade tem um poder de destruição incalculável, e nisso nada há de passivo. A catarse do final, numa festa de aniversário (sequência da qual 'Festa de Família', o dogma #1 de Thomas Vinterberg, seria uma espécie de versão hardcore), mostra uma inusitada e reveladora manobra dramática, num equilíbrio que evita simultaneamente o constrangimento coletivo e a pieguice". Excelente. Do mesmo diretor de outros dois filmes que gosto muito: "O Segredo de Vera Drake" (2004) e "Mr. Turner" (2014).
O que eu achei: Mike Leigh constrói em "Segredos e Mentiras" um retrato humano de rara sensibilidade, explorando as tensões e afetos que atravessam a vida familiar. O filme parte de uma premissa simples — a busca de Hortense, uma jovem negra, por sua mãe biológica, que descobre ser Cynthia, uma mulher branca, de classe trabalhadora — mas expande esse ponto de partida em uma reflexão profunda sobre identidade, pertencimento e os silêncios que moldam as relações. O que mais impressiona é o modo como Leigh trabalha os contrastes sociais e raciais sem cair no didatismo. O encontro entre Hortense e Cynthia, inicialmente marcado pelo choque e pela estranheza, revela-se progressivamente uma experiência transformadora, capaz de reordenar não apenas as duas personagens, mas toda a dinâmica da família. O roteiro, embora fruto do método colaborativo do diretor com os atores, mantém um equilíbrio admirável entre espontaneidade e estrutura dramática. A direção de atores é um dos grandes trunfos do filme. Brenda Blethyn, como Cynthia, entrega uma performance visceral, carregada de fragilidade e intensidade emocional, enquanto Marianne Jean-Baptiste traz a Hortense uma presença serena, que contrasta e, ao mesmo tempo, acolhe o turbilhão da mãe recém-encontrada. Timothy Spall, no papel de Maurice, o irmão fotógrafo, também merece destaque: sua tentativa de conciliar os mundos em conflito revela a dor de quem observa a desintegração dos vínculos, mas ainda aposta na possibilidade de reconciliação. O clímax, durante o almoço de família, é um exemplo magistral de como Leigh transforma a vida cotidiana em drama universal. Ali, os segredos vêm à tona em um misto de tensão, dor e catarse, mas sem perder a autenticidade das pequenas falas truncadas, dos silêncios incômodos e dos olhares que dizem mais que palavras. Gostar de "Segredos e Mentiras" é reconhecer o poder de um cinema que não se apoia em grandes espetáculos, mas na força da experiência humana. É um filme que emociona justamente por expor as fragilidades de pessoas comuns, tratando-as com dignidade e empatia. Ao final, fica a sensação de que a verdade, mesmo dolorosa, pode ser libertadora - e que a intimidade, quando construída sobre honestidade, é o que dá sentido às relações. Uma obra delicada, honesta e profundamente comovente - não é exagero dizer que se trata de um dos pontos altos da filmografia de Mike Leigh.