Sinopse: Numa sociedade do futuro todos os materiais de leitura são banidos e o trabalho dos bombeiros é o de manter as fogueiras a 451 graus Fahrenheit: a temperatura que o papel queima. Um bombeiro (Oskar Werner) começa a repensar sua função ao conhecer uma jovem encantadora (Julie Christie) que adora livros.
Comentário: François Truffaut (1932-1984) foi um cineasta francês, um dos fundadores do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague que marcou uma ruptura com os padrões tradicionais do cinema industrial e introduziu inovações narrativas, estéticas e conceituais. Assisti dele o ótimo "A História de Adele H." (1975) e o bom "A Noiva Estava de Preto" (1968). Desta vez vou conferir "Fahrenheit 451" (1966).
Trata-se da adaptação do livro de Ray Bradbury sobre um futuro em que ler é considerado nocivo à saúde e à sociedade como um todo. O longa é o quinto longa-metragem de François Truffaut, marcando sua única produção falada em inglês e seu único trabalho dentro do gênero da ficção científica distópica.A narrativa se passa em uma sociedade totalitária futurista onde a leitura e a posse de livros são estritamente proibidas por lei. O Estado considera a literatura um fator de infelicidade, desigualdade e desordem social, pois estimula o pensamento crítico e sentimentos complexos.
Nesta realidade, a função dos bombeiros foi completamente invertida. Em vez de apagar incêndios, sua missão é localizar acervos clandestinos e queimá-los em praça pública. O título do filme refere-se à temperatura em graus Fahrenheit (aproximadamente 233°C) na qual o papel impresso entra em combustão espontânea.
O personagem Guy Montag é um bombeiro exemplar e alienado que cumpre suas tarefas sem questionar. Sua vida sofre uma virada quando ele conhece Clarisse, uma vizinha jovem e curiosa que o faz questionar o propósito de seu trabalho e o conteúdo das obras que destrói.
Montag passa a esconder livros resgatados dos incêndios e começa a lê-los em segredo, desencadeando uma espiral de rebeldia contra o sistema, sua esposa conformista (Linda) e seus superiores.
Para reforçar visualmente a opressão de um mundo sem leitura, Truffaut eliminou todos os letreiros escritos dos créditos iniciais. Os nomes da equipe e do elenco são inteiramente narrados por uma voz por áudio.
A atriz Julie Christie interpreta duas personagens opostas na vida de Montag: Linda, a esposa alienada e viciada em telas de televisão interativas, e Clarisse, a mulher livre que o desperta para a leitura.
No clímax da história, Montag descobre uma comunidade clandestina à margem da sociedade formada por pessoas que memorizam obras literárias inteiras palavra por palavra para preservar o conhecimento humano após a destruição física dos volumes.
O que eu achei: O filme é poético, profundo e de uma plasticidade incrível que traduz perfeitamente o charme e a estética dos anos 60. François Truffaut constrói uma atmosfera única já na abertura, ao eliminar todos os letreiros e narrar os créditos em áudio para destacar um mundo sem palavras impressas. A trilha sonora marcante é de Bernard Herrmann (compositor favorito de Alfred Hitchcock), e a direção de fotografia soberba é assinada por Nicolas Roeg, que valoriza o duelo interpretativo de Julie Christie em papel duplo. A imagem final da comunidade dos "Homens-Livro" caminhando sob a neve para preservar a literatura é inesquecível. Imperdível.
