Sinopse: Francis (Friedrich Feher) e o amigo Alan (Hans Heinrich von Twardowski) visitam o gabinete do Doutor Caligari (Werner Krauss), onde conhecem Cesare (Conrad Veidt), um homem sonâmbulo que diz a Alan que ele morrerá. Assim acontece e Alan amanhece morto no dia seguinte, o que faz com que Francis suspeite de Cesare. Francis então, com a ajuda da polícia, começa a espionar o que o sonâmbulo faz. Para descobrir todos os mistérios, Francis acredita só haver uma solução: adentrar no misterioso gabinete do Doutor Caligari.
Comentário: Robert Wiene (1873-1938) nasceu na antiga Breslau (na época, parte da Alemanha, sendo hoje Wroclaw, na Polônia), filho do famoso ator de teatro Carl Wiene. Seu irmão mais novo, Conrad, também se tornou ator. Robert inicialmente estudou Direito na Universidade de Berlim, mas desde 1908, já estava envolvido em atividades artísticas como ator em pequenas participações no teatro. Sua primeira investida no cinema foi em 1912, com seu roteiro para "Die Waffen der Jugend". Sua memorável participação no cinema acontece como diretor de "O Gabinete do Dr. Caligari" (1919). Depois que Hitler tomou o poder na Alemanha, Robert Wiene deixou Berlim, primeiramente por Budapeste, onde dirigiu "One Night in Venice" (1934), posteriormente para Londres, e finalmente para Paris, onde tentou produzir com Jean Cocteau uma reprodução sonora de "O Gabinete". Wiene morreu em Paris dez dias antes do fim da produção de um filme de espiões, "Ultimatum", vítima de câncer. O filme foi terminado por seu amigo Robert Siodmak. Assisti dele o bom "As Mãos de Orlac" (1924).
Em 2014 o SESC organizou uma mostra de cinema expressionista chamada "Sombras que Assombram" e publicou o seguinte texto - que contém spoilers - no catálogo da mostra: "Analisado em uma perspectiva histórica, o filme é um dos mais significativos, não só no campo do cinema como no da cultura. Hoje, sem dúvida, trata-se de uma referência estética para vários artistas das mais variadas linguagens. Antes de tudo, 'Caligari' é desbravador, considerado um marco do expressionismo no cinema, criador de um estilo calcado sobretudo em seu poder imagético, mas não só. Sua força também impregna tematicamente, abre uma janela sem igual para a aventura do fantástico no cinema. Enfim, depois de 'Caligari', o cinema nunca mais foi o mesmo.
De um ponto de vista mais abrangente, 'Caligari' representa o próprio cinema, seja pelo uso da hipnose, seja por assumir sua inevitável artificialidade por meio de cenários falsos que denunciam a 'mágica' cinematográfica e seus truques ilusionistas. Em razão dessas concepções, o filme sublima-se, nasce então o caligarismo, o estilo visual que expõe ao mundo distorções advindo de um extravasamento emocional. Como bem define Massaud Moisés, o expressionismo filosoficamente 'propõe colocar de novo o homem no centro do mundo, não o indivíduo em particular, mas o Homem como espécie'! Essa capacidade de abordar a natureza humana traduz o alcance de Caligari como obra universal para além de sua época. Mesmo passados quase cem anos, o filme continua inspirando gerações (e pensar que quando realizado o cinema não tinha sequer 25 anos de existência). Surpreendentemente, apesar da exuberância de 'Caligari' e de sua influência inconteste, que paira para além dos anos 1920, até hoje há dúvidas se Robert Wiene é realmente o criador da obra. Muitos boatos foram criados em torno desse filme, inclusive que a estética expressionista dos cenários não foi pensada por ele. Um dos roteiristas chegou a se pronunciar como o autor responsável pela concepção imagética do filme. Somente quando se pôde ter acesso ao roteiro ficou comprovado que não havia indicações quanto a como seriam os cenários.
O filme encaixa-se no contexto histórico conturbado da Alemanha do pós-guerra, o da República de Weimar, mas está imerso também em um passado mais distante ao resgatar a melancolia gótica e o romantismo de outros séculos. 'Caligari' evoca o irracionalismo, uma crítica ao método cientificista e anuncia, como uma sombra, um porvir de pesadelo a entravar o espírito alemão.
O enredo de 'O gabinete do Dr. Caligari' fascina por trazer elementos fantásticos. O filme inicia com a narração de um jovem sobre um estranho acontecimento ocorrido em sua pequena cidade natal envolvendo um médico (Caligari) que manipula as ações de um sonâmbulo (Cesare). O jovem conta que Caligari se inspira em uma narrativa sueca, na qual um homem com este mesmo nome domina a mente de um sonâmbulo. O médico que trabalhava em um manicômio fica transtornado quando surge um sonâmbulo como paciente e resolve dar vazão a seu furor cientificista, testando se um sonâmbulo pode realmente ser manipulado a ponto de cometer atos atrozes, inclusive assassinato, tal como lera na história sueca. O médico e o sonâmbulo se instalam em uma feira de atrações em uma pequena cidade alemã e instauram o pânico entre seus habitantes. Depois de alguns assassinatos, chega-se à conclusão de que Cesare matava e aterrorizava, mas era regido pela mente do médico Caligari. Wiene nos surpreende com a informação de que o jovem narrador sofre de distúrbios mentais e que o Caligari de sua história é seu médico no hospício.
Ao final, o filme sugere duas perguntas: será que apenas a mente embaçada de um louco é capaz traduzir nossa existência no mundo terrível em que vivemos? Seremos sistematicamente condenados à manipulação superior, e que pouco seríamos além de sonâmbulos a vagar, longe de sermos indivíduos autônomos?
O filme encaixa-se no contexto histórico conturbado da Alemanha do pós-guerra, o da República de Weimar, mas está imerso também em um passado mais distante ao resgatar a melancolia gótica e o romantismo de outros séculos. 'Caligari' evoca o irracionalismo, uma crítica ao método cientificista e anuncia, como uma sombra, um porvir de pesadelo a entravar o espírito alemão.
O enredo de 'O gabinete do Dr. Caligari' fascina por trazer elementos fantásticos. O filme inicia com a narração de um jovem sobre um estranho acontecimento ocorrido em sua pequena cidade natal envolvendo um médico (Caligari) que manipula as ações de um sonâmbulo (Cesare). O jovem conta que Caligari se inspira em uma narrativa sueca, na qual um homem com este mesmo nome domina a mente de um sonâmbulo. O médico que trabalhava em um manicômio fica transtornado quando surge um sonâmbulo como paciente e resolve dar vazão a seu furor cientificista, testando se um sonâmbulo pode realmente ser manipulado a ponto de cometer atos atrozes, inclusive assassinato, tal como lera na história sueca. O médico e o sonâmbulo se instalam em uma feira de atrações em uma pequena cidade alemã e instauram o pânico entre seus habitantes. Depois de alguns assassinatos, chega-se à conclusão de que Cesare matava e aterrorizava, mas era regido pela mente do médico Caligari. Wiene nos surpreende com a informação de que o jovem narrador sofre de distúrbios mentais e que o Caligari de sua história é seu médico no hospício.
Ao final, o filme sugere duas perguntas: será que apenas a mente embaçada de um louco é capaz traduzir nossa existência no mundo terrível em que vivemos? Seremos sistematicamente condenados à manipulação superior, e que pouco seríamos além de sonâmbulos a vagar, longe de sermos indivíduos autônomos?
O que eu achei: Eu me surpreendi demais com esse filme. Já assisti algumas vezes e cada vez que eu vejo eu descubro novas coisas e fico pensando na genialidade desses diretores do inicio da história do cinema, com tão poucos recursos e pouca experiência, fazendo um trabalho desse naipe. Os cenários distorcidos nos mostram como um esquizofrênico vê o mundo e a manipulação que o médico faz com seu paciente inocente e suscetível nos lembra que o mundo é um lugar cruel de se viver, onde somos manipulados por aqueles que deveriam zelar por nós, pessoas aparentemente sãs porém muito mais loucas que nós, nos fazendo cometer um assassinato no lugar delas. Aqui ele fala de poder, não só de uma Alemanha dos anos 1920 mas do mundo atual e seus mandantes, com suas guerras e manipulações políticas. Os verdadeiros loucos estão no comando enquanto os honestos estão enclausurados em seus manicômios. Uma complexidade narrativa repleta de detalhes e referências, com uma história dentro da outra, que só um gênio poderia criar. Não há o que dizer sobre os cenários extremamente bem construídos, mostrando um mundo fantasmagórico e artificial, cheio de sombras. Como li por aí, é a metáfora de uma sociedade produtora de sonâmbulos, uma crítica sobre a relação entre autoridade e loucura, duas coisas que parecem andar de mãos dadas desde sempre até os dias atuais. Um filme obrigatório. Uma obra-prima arrebatadora. Imperdível.
