Sinopse: A trama traz a história do talentoso pianista Paul Orlac (Conrad Veidt), que está em uma viagem de turnê e ao voltar para casa, ao encontro de sua amada esposa, Yvonne (Alexandra Sorina), sofre um acidente de trem deixando suas mãos imprestáveis. Yvonne implora ao Dr. Serral (Hans Homma) que salve as mãos do marido ao invés de amputá-las, e o médico tem a macabra ideia de fazer um “transplante”, colocando no lugar das mãos inválidas do pianista as mãos de um terrível assassino chamado Vasseur, condenado à morte. Porém quando Orlac se recupera, ele percebe que tem algo errado com suas mãos e que um terrível instinto assassino começa a dominá-lo através dos novos membros adquiridos, como se tivessem vida e vontades próprias.
Comentário: Robert Wiene (1873-1938) nasceu na antiga Breslau (na época, parte da Alemanha, sendo hoje Wroclaw, na Polônia), filho do famoso ator de teatro Carl Wiene. Seu irmão mais novo, Conrad, também se tornou ator. Robert inicialmente estudou Direito na Universidade de Berlim, mas desde 1908, já estava envolvido em atividades artísticas como ator em pequenas participações no teatro. Sua primeira investida no cinema foi em 1912, com seu roteiro para "Die Waffen der Jugend". Sua memorável participação no cinema acontece como diretor de "O Gabinete do Dr. Caligari" (1919). Depois que Hitler tomou o poder na Alemanha, Robert Wiene deixou Berlim, primeiramente por Budapeste, onde dirigiu "One Night in Venice" (1934), posteriormente para Londres, e finalmente para Paris, onde tentou produzir com Jean Cocteau uma reprodução sonora de "O Gabinete". Wiene morreu em Paris dez dias antes do fim da produção de um filme de espiões, "Ultimatum", vítima de câncer. O filme foi terminado por seu amigo Robert Siodmak.
Em 2014 o SESC organizou uma mostra de cinema expressionista chamada "Sombras que Assombram" e publicou o seguinte texto - que contém spoilers - no catálogo da mostra: "Ao assistirmos a 'As mãos de Orlac' temos a prova de que Robert Wiene não foi um diretor de apenas uma obra, a icônica 'O Gabinete do Dr. Caligari', como muitos críticos defendem. O filme carrega uma força e uma beleza que não foram apagadas pelo tempo. Inseri-lo em uma mostra sobre o expressionismo alemão dos anos 1920 serve para fazer justiça tanto ao autor quanto à obra em si.
'As Mãos de Orlac' marca o reencontro da dupla Wiene/Veidt, diretor e ator de 'O Gabinete do Dr. Caligari'. Trata-se de um filme deslumbrante, em vários aspectos impregnado da estética expressionista. Wiene reafirma seu talento para o cinema fantástico, tomado pela inquietação e a assombração humana.
Um pianista apaixonado pela esposa perde as mãos em um acidente e aceita participar de uma experiência de transplante de mão, a fim de poder retomar sua bem-sucedida carreira como concertista. Tudo transcorre bem até que ele descobre que as mãos transplantadas eram de um assassino. O pianista fica então transtornado e passa a acreditar que está tendo os mesmos impulsos do antigo dono das mãos.
Quanto mais o personagem mergulha em dúvidas, mais o universo expressionista se manifesta, o uso de sombras e elementos obscuros ficam latentes na tessitura do filme. Apesar de resgatar o clima de terror de seu filme mais exemplar e conhecido, Wiene se inspira muito mais em 'Nosferatu', de F.W. Murnau, em especial na atmosfera gótica e na imagética predominantemente tomada pelas sombras.
O terror está presente mais no aspecto psicológico do personagem Orlac, portanto ele é de ordem mais subjetiva, centrado no caos em que se transforma sua mente. Desde que estava internado no hospital, ele tem visões do assassino, que surge envolto em nuvens, daí vem o assombro, o tormento psicológico do personagem, que em suas visões nebulosas acredita estar cometendo assassinatos apenas por ter adquirido as mãos de um assassino. A perturbação do personagem transforma-se no maior protagonista do filme, mas, assim como em Caligari, ocorre uma manipulação a ser descoberta no final.
As interpretações dos atores ainda sofrem forte influência do estilo expressionista de atuar. O exagero nas reações e nos gestos, como a cena em que a esposa fica sabendo sobre o acidente do marido. O movimento acentuado dos corpos também pode ser lembrado, já que eles verdadeiramente falam nas obras expressionistas, e Conrad Veidt é um dos grandes mestres nessa arte de representar com o corpo. Dentre diversas cenas, como não destacar a que ele acorda no hospital com um bilhete em seu colo denunciando que suas mãos eram de um assassino que fora executado. Veidt interpreta com reações no rosto e no corpo inteiro, em um movimento de separar/isolar suas mãos do restante de seu corpo. Só Veidt daria tamanha significação a essa cena. A partir desse momento, inicia-se a exasperação do personagem, perdido, enojado com suas mãos. Como tocar no corpo amado de sua esposa e nos teclados do piano com aquelas mãos maculadas pelo crime?
O que chama a atenção positivamente é o cuidado da produção. Logo no início do filme a sequência do acidente de trem é muito bem construída. Destaca-se o ritmo criado pela montagem, com muitos cortes, cenas rápidas, uma mise-en-scène com muitos figurantes, uma filmagem realizada em um misto de estúdio e locação, algumas inclusive à noite, ângulos surpreendentes, cenários com trens retorcidos muito bem realizados e fotografia impecável. Um desafio, sem dúvida, em 1924.
'As Mãos de Orlac' é um típico filme do terror fantástico, sustentado por uma história improvável e irreal, ainda influenciado por uma estética expressionista, assim como o é no desenvolvimento de temas e na construção de personagens atormentados psicologicamente, sujeitos às visões assombrosas. Antes de tudo, uma obra fluente, bem filmada, coerente com seu autor e com uma atuação preciosa de Conrad Veidt.
O que eu achei: Gostei mais de "O Gabinete do dr. Caligari" (1920), mas este também é um bom filme, baseado na obra do escritor francês Maurice Renard - que depois também seria adaptada no excelente "Dr. Gogol – O Médico Louco" -, o filme tem a atmosfera gótica e sombria que esperamos ver no expressionismo alemão. A história é tenebrosa. Incrível pensar que foi feita em 1924. Vale ver.
