
Comentário: László Nemes (1977) é um cineasta e roteirista húngaro. Assisti dele a obra-prima "O Filho de Saul" (2015), vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Desta vez vou conferir “O Órfão” (2025).
Bruno Ghetti da Folha SP publicou: “A paternidade é um tema de grande importância na obra do húngaro László Nemes. Em seu filme mais famoso, ‘O Filho de Saul’, de 2015, um judeu encontra o cadáver do seu rebento, morto pelos nazistas, e faz o possível para enterrá-lo dignamente. E em seu novo trabalho, ‘O Órfão’ (...) é uma criança que fica obcecada por descobrir o paradeiro do pai, que sumiu durante o Holocausto.
Mas o filme, exibido no festival de Veneza do ano passado, tem um aspecto bem mais pessoal - e que envolve paternidade para além dos fatos da trama. É que a história se inspira na infância do próprio pai do diretor, o também cineasta e dramaturgo András Jeles, que passou por uma situação muito semelhante à do protagonista.
‘Na verdade, foi a mãe dele quem me contou a maior parte do que está no filme. Meu pai até ajudou no roteiro, mas quem transmitia a história para mim, antigamente, era a minha avó’, disse Nemes, em Veneza. Alguns detalhes, porém, nem mesmo ela chegou a relatar, então o cineasta tomou certas liberdades, mas manteve o essencial de sua história familiar. ‘Com o filme, estou tentando compreender meu próprio ser, minha origem’.
A trama começa pouco após o fim da Segunda Guerra, quando o pequeno Andor reencontra sua mãe, judia que precisou se esconder em um vilarejo húngaro para escapar do Holocausto, enquanto o menino ficou em um orfanato. Dez anos mais tarde, mãe e filho levam uma vida mais estabelecida, embora sem luxos, em Budapeste. Mas Andor sofre com a falta de informações sobre o pai, que aparentemente teria morrido na guerra.
A situação se agrava quando reaparece o homem que escondeu a mãe de Andor durante o nazismo. Ele agora se envolve amorosamente com ela e quer assumir oficialmente a paternidade do garoto. Que, no entanto, recusa-o como pai.
Nemes diz haver um aspecto shakespeariano ali. ‘Acho que as grandes tramas humanas se baseiam em uma história arquetípica. ‘Hamlet’ é assim: tem o fantasma do pai, o rei usurpador e o príncipe sozinho. É uma narrativa edipiana. Acho que as histórias arquetípicas têm sua própria lógica e são, de certa forma, míticas’, diz o cineasta, mencionando que quanto mais se debruçava sobre a história de seu pai, mais detectava nela traços hamletianos.
A trama de ‘O Órfão’ se passa imediatamente após a Revolução Húngara de 1956, quando um levante popular tentou livrar o país da influência extrema soviética. Que foi prontamente massacrado, inclusive com aumento de militares russos na região.
Visto em 2026, quando a Rússia quer manter influência à força na Ucrânia, o ressurgimento desse episódio pode soar como uma referência ao autoritarismo de Vladimir Putin, mas o cineasta nega. ‘É natural surgirem essas comparações, mas não é algo que foi buscado’, diz.
‘O cinema não é uma ferramenta política. Não deveria ser. Talvez no subtexto, mas não no texto’, dispara o cineasta, de certo modo antecipando a polêmica fala do diretor alemão Wim Wenders no último Festival de Berlim, quando disse que artistas ‘têm que ficar fora da política’.
Nemes também vai na contramão de vários colegas em sua postura sobre os conflitos de Israel, dizendo em entrevistas que há antissemitismo espalhado pelo mundo ocidental. E, esteticamente, discorda de quem acha que o cinema deve evitar mostrar excesso de sofrimento humano, preferindo representações mais positivas sobre quem vivencia tragédias.
‘Mas o sofrimento é real e aconteceu a muitas pessoas’, diz Nemes. ‘Onde está a esperança em um filme como ‘Chinatown’ [de Roman Polanski, de 1974]? Você precisa ter esperança em ‘Chinatown’?
Acho que o cinema tem o dever de contar histórias humanas que sejam arquetípicas. Não é político. É uma repetição das mesmas histórias, várias vezes. Fazer algo diferente disso não cumpre seu propósito principal’.
O húngaro diz acreditar que, nos últimos 20 anos, houve uma capitulação da arte em nome de certas demandas, ‘para agradar ao público e à mídia, para ganhar prêmios. De certa forma, os cineastas traíram um pouco a arte. Há uma pressão industrial, há uma autocensura, há essa digitalização que tem efeitos absolutamente terríveis, inclusive no processo criativo’.
Aliás, a liberdade para criar parece inegociável para o diretor, que, desde o êxito de ‘O Filho de Saul’, tem flertado com Hollywood, mas tentativas de controlá-lo artisticamente teriam impedido projetos. Mas Nemes já alça voos internacionais - no mês passado, lançou no Festival de Cannes ‘Moulin’, produzido na França, sobre um herói antifascista do país. E seu novo projeto será em língua inglesa, ‘Outer Dark’, estrelado por Jacob Elordi. Ao que parece, porém, deverá impor seus ímpetos artísticos.
‘O cinema mundial está cada vez mais parecido com um produto simplificado de um código hollywoodiano, feito sob medida para o que os executivos e jornalistas consideram bom para o mundo’, diz. ‘Há muito moralismo, um neopuritanismo. E acho que isso simplesmente mata a arte’."
O que disse a crítica 1: Neusa Barbosa do site Cineweb avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Certamente, pode-se ler a história desta pequena família como uma metáfora da Hungria. Mas o filme revela-se bem mais insatisfatório do que ‘O Filho de Saul’, embora o pequeno Borjtorján Barabas seja uma revelação como jovem talento”.
O que disse a crítica 2: Amanda Silva da Revista Bula avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “No fim, o órfão do título não é o menino sem pai. É o menino com pais demais: o morto idealizado, o vivo intolerável, o Estado que deseja educá-lo pela força e a própria História, essa mãe monstruosa que dá à luz filhos já endividados com crimes que não cometeram. Nemes não faz um filme confortável, tampouco inteiramente perfeito. Faz algo mais raro: um drama que entende que certas revelações não encerram a infância. Elas a profanam”.
O que eu achei: O filme começa em Budapeste, capital da Hungria, quatro anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Uma mãe judia vai até um orfanato buscar seu filho Andor, que ficou ali abrigado enquanto ela se escondia em um vilarejo húngaro no interior para escapar do Holocausto. Ela o leva para casa enquanto o menino pergunta se seu pai também irá ao encontro deles. Pula para 1957. Se em 1949 o país estava estruturando o regime comunista, em 1957 Budapeste vivia sob um clima pesado de terror, silenciamento e reconstrução forçada, decorrente do esmagamento da Revolução Húngara de 1956. Essa revolução foi uma revolta popular que pedia o fim da interferência soviética. Ela terminou com a URRS invadindo Budapeste com tanques, esmagando a revolta e deixando parte da capital em ruínas com milhares de mortos. Foi justamente em 1957 que o novo ditador instalado por Moscou, János Kádár, iniciou uma caçada implacável contra qualquer um que tivesse apoiado a revolução. Tribunais militares prenderam dezenas de milhares de pessoas, e centenas de líderes rebeldes e intelectuais foram executados. Os temidos conselhos operários foram oficialmente banidos ao longo daquele ano. Cerca de 200.000 húngaros fugiram do país para o Ocidente para escapar da morte ou da prisão. Isso representava uma perda massiva de jovens, cientistas, artistas e médicos, deixando Budapeste imersa em um luto coletivo, com famílias separadas por fronteiras rigidamente fechadas. A polícia secreta agia intensamente. Vizinhos espionavam vizinhos e expressar qualquer insatisfação contra o governo comunista ou contra a URRS resultava em desaparecimento ou prisão. No filme, esse salto para 1957 mostra Andor e sua mãe tentando sobreviver e conviver nessa cidade devastada, onde o trauma recente da guerra se somava ao novo trauma da ocupação militar soviética. Andor, agora com 12 anos, cresce imerso em um doloroso isolamento. Ele permanece inconformado com a falta de notícias do pai que, ao que tudo indica, foi assassinado em algum campo de concentração durante a guerra. Diante do silêncio sufocante da mãe e da rigidez do regime, o garoto passa a projetar no pai ausente a imagem mítica de um herói idealizado, apegando-se a conversas imaginárias como uma tábua de salvação. A coisa piora quando o homem que abrigou sua mãe no interior reaparece. Trata-se de um açougueiro truculento e pouco amoroso. Tendo perdido a esposa e o filho na guerra, ele agora almeja casar-se com a mulher que ele acolheu e assumir a paternidade de Andor. Vale salientar que esse homem afirma categoricamente ser o verdadeiro pai biológico do garoto e quer lhe dar seu sobrenome. Claro que Andor não acredita nele. Acreditar despedaçaria por completo o mito do herói de guerra que o garoto idolatrava. O filme é extremamente bem executado. A fotografia e a reconstituição de época são simplesmente fantásticas, sem contar o talento inegável do jovem ator Bojtorján Barabás, que interpreta Andor. O ponto fraco, contudo, é que a primeira metade inteira da produção é repleta de frases evasivas e enigmáticas. Embora a narrativa finalmente deslanche na segunda metade, você termina de ver sem ter a certeza de quem, afinal, era o verdadeiro pai daquela criança: o judeu desaparecido que foi casado com sua mãe ou o açougueiro que a abrigou? Essa questão só se tornou clara para mim ao descobrir, fora da tela, que o diretor concedeu entrevistas contando que roteiro foi baseado na vida real de seu próprio pai. A mãe de Andor no filme é totalmente baseada na figura de sua avó. Com isso, nesse aspecto de clareza narrativa, o filme deixou muito a desejar. Na minha opinião, ter deixado essa informação de quem era o verdadeiro pai mais clara teria feito toda a diferença. Poderia ter transformado o longa em outra obra-prima na filmografia de Nemes. Sem isso o que temos é um bom filme, divagante, mas ainda bom.
Bruno Ghetti da Folha SP publicou: “A paternidade é um tema de grande importância na obra do húngaro László Nemes. Em seu filme mais famoso, ‘O Filho de Saul’, de 2015, um judeu encontra o cadáver do seu rebento, morto pelos nazistas, e faz o possível para enterrá-lo dignamente. E em seu novo trabalho, ‘O Órfão’ (...) é uma criança que fica obcecada por descobrir o paradeiro do pai, que sumiu durante o Holocausto.
Mas o filme, exibido no festival de Veneza do ano passado, tem um aspecto bem mais pessoal - e que envolve paternidade para além dos fatos da trama. É que a história se inspira na infância do próprio pai do diretor, o também cineasta e dramaturgo András Jeles, que passou por uma situação muito semelhante à do protagonista.
‘Na verdade, foi a mãe dele quem me contou a maior parte do que está no filme. Meu pai até ajudou no roteiro, mas quem transmitia a história para mim, antigamente, era a minha avó’, disse Nemes, em Veneza. Alguns detalhes, porém, nem mesmo ela chegou a relatar, então o cineasta tomou certas liberdades, mas manteve o essencial de sua história familiar. ‘Com o filme, estou tentando compreender meu próprio ser, minha origem’.
A trama começa pouco após o fim da Segunda Guerra, quando o pequeno Andor reencontra sua mãe, judia que precisou se esconder em um vilarejo húngaro para escapar do Holocausto, enquanto o menino ficou em um orfanato. Dez anos mais tarde, mãe e filho levam uma vida mais estabelecida, embora sem luxos, em Budapeste. Mas Andor sofre com a falta de informações sobre o pai, que aparentemente teria morrido na guerra.
A situação se agrava quando reaparece o homem que escondeu a mãe de Andor durante o nazismo. Ele agora se envolve amorosamente com ela e quer assumir oficialmente a paternidade do garoto. Que, no entanto, recusa-o como pai.
Nemes diz haver um aspecto shakespeariano ali. ‘Acho que as grandes tramas humanas se baseiam em uma história arquetípica. ‘Hamlet’ é assim: tem o fantasma do pai, o rei usurpador e o príncipe sozinho. É uma narrativa edipiana. Acho que as histórias arquetípicas têm sua própria lógica e são, de certa forma, míticas’, diz o cineasta, mencionando que quanto mais se debruçava sobre a história de seu pai, mais detectava nela traços hamletianos.
A trama de ‘O Órfão’ se passa imediatamente após a Revolução Húngara de 1956, quando um levante popular tentou livrar o país da influência extrema soviética. Que foi prontamente massacrado, inclusive com aumento de militares russos na região.
Visto em 2026, quando a Rússia quer manter influência à força na Ucrânia, o ressurgimento desse episódio pode soar como uma referência ao autoritarismo de Vladimir Putin, mas o cineasta nega. ‘É natural surgirem essas comparações, mas não é algo que foi buscado’, diz.
‘O cinema não é uma ferramenta política. Não deveria ser. Talvez no subtexto, mas não no texto’, dispara o cineasta, de certo modo antecipando a polêmica fala do diretor alemão Wim Wenders no último Festival de Berlim, quando disse que artistas ‘têm que ficar fora da política’.
Nemes também vai na contramão de vários colegas em sua postura sobre os conflitos de Israel, dizendo em entrevistas que há antissemitismo espalhado pelo mundo ocidental. E, esteticamente, discorda de quem acha que o cinema deve evitar mostrar excesso de sofrimento humano, preferindo representações mais positivas sobre quem vivencia tragédias.
‘Mas o sofrimento é real e aconteceu a muitas pessoas’, diz Nemes. ‘Onde está a esperança em um filme como ‘Chinatown’ [de Roman Polanski, de 1974]? Você precisa ter esperança em ‘Chinatown’?
Acho que o cinema tem o dever de contar histórias humanas que sejam arquetípicas. Não é político. É uma repetição das mesmas histórias, várias vezes. Fazer algo diferente disso não cumpre seu propósito principal’.
O húngaro diz acreditar que, nos últimos 20 anos, houve uma capitulação da arte em nome de certas demandas, ‘para agradar ao público e à mídia, para ganhar prêmios. De certa forma, os cineastas traíram um pouco a arte. Há uma pressão industrial, há uma autocensura, há essa digitalização que tem efeitos absolutamente terríveis, inclusive no processo criativo’.
Aliás, a liberdade para criar parece inegociável para o diretor, que, desde o êxito de ‘O Filho de Saul’, tem flertado com Hollywood, mas tentativas de controlá-lo artisticamente teriam impedido projetos. Mas Nemes já alça voos internacionais - no mês passado, lançou no Festival de Cannes ‘Moulin’, produzido na França, sobre um herói antifascista do país. E seu novo projeto será em língua inglesa, ‘Outer Dark’, estrelado por Jacob Elordi. Ao que parece, porém, deverá impor seus ímpetos artísticos.
‘O cinema mundial está cada vez mais parecido com um produto simplificado de um código hollywoodiano, feito sob medida para o que os executivos e jornalistas consideram bom para o mundo’, diz. ‘Há muito moralismo, um neopuritanismo. E acho que isso simplesmente mata a arte’."
O que disse a crítica 1: Neusa Barbosa do site Cineweb avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Certamente, pode-se ler a história desta pequena família como uma metáfora da Hungria. Mas o filme revela-se bem mais insatisfatório do que ‘O Filho de Saul’, embora o pequeno Borjtorján Barabas seja uma revelação como jovem talento”.
O que disse a crítica 2: Amanda Silva da Revista Bula avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “No fim, o órfão do título não é o menino sem pai. É o menino com pais demais: o morto idealizado, o vivo intolerável, o Estado que deseja educá-lo pela força e a própria História, essa mãe monstruosa que dá à luz filhos já endividados com crimes que não cometeram. Nemes não faz um filme confortável, tampouco inteiramente perfeito. Faz algo mais raro: um drama que entende que certas revelações não encerram a infância. Elas a profanam”.
O que eu achei: O filme começa em Budapeste, capital da Hungria, quatro anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Uma mãe judia vai até um orfanato buscar seu filho Andor, que ficou ali abrigado enquanto ela se escondia em um vilarejo húngaro no interior para escapar do Holocausto. Ela o leva para casa enquanto o menino pergunta se seu pai também irá ao encontro deles. Pula para 1957. Se em 1949 o país estava estruturando o regime comunista, em 1957 Budapeste vivia sob um clima pesado de terror, silenciamento e reconstrução forçada, decorrente do esmagamento da Revolução Húngara de 1956. Essa revolução foi uma revolta popular que pedia o fim da interferência soviética. Ela terminou com a URRS invadindo Budapeste com tanques, esmagando a revolta e deixando parte da capital em ruínas com milhares de mortos. Foi justamente em 1957 que o novo ditador instalado por Moscou, János Kádár, iniciou uma caçada implacável contra qualquer um que tivesse apoiado a revolução. Tribunais militares prenderam dezenas de milhares de pessoas, e centenas de líderes rebeldes e intelectuais foram executados. Os temidos conselhos operários foram oficialmente banidos ao longo daquele ano. Cerca de 200.000 húngaros fugiram do país para o Ocidente para escapar da morte ou da prisão. Isso representava uma perda massiva de jovens, cientistas, artistas e médicos, deixando Budapeste imersa em um luto coletivo, com famílias separadas por fronteiras rigidamente fechadas. A polícia secreta agia intensamente. Vizinhos espionavam vizinhos e expressar qualquer insatisfação contra o governo comunista ou contra a URRS resultava em desaparecimento ou prisão. No filme, esse salto para 1957 mostra Andor e sua mãe tentando sobreviver e conviver nessa cidade devastada, onde o trauma recente da guerra se somava ao novo trauma da ocupação militar soviética. Andor, agora com 12 anos, cresce imerso em um doloroso isolamento. Ele permanece inconformado com a falta de notícias do pai que, ao que tudo indica, foi assassinado em algum campo de concentração durante a guerra. Diante do silêncio sufocante da mãe e da rigidez do regime, o garoto passa a projetar no pai ausente a imagem mítica de um herói idealizado, apegando-se a conversas imaginárias como uma tábua de salvação. A coisa piora quando o homem que abrigou sua mãe no interior reaparece. Trata-se de um açougueiro truculento e pouco amoroso. Tendo perdido a esposa e o filho na guerra, ele agora almeja casar-se com a mulher que ele acolheu e assumir a paternidade de Andor. Vale salientar que esse homem afirma categoricamente ser o verdadeiro pai biológico do garoto e quer lhe dar seu sobrenome. Claro que Andor não acredita nele. Acreditar despedaçaria por completo o mito do herói de guerra que o garoto idolatrava. O filme é extremamente bem executado. A fotografia e a reconstituição de época são simplesmente fantásticas, sem contar o talento inegável do jovem ator Bojtorján Barabás, que interpreta Andor. O ponto fraco, contudo, é que a primeira metade inteira da produção é repleta de frases evasivas e enigmáticas. Embora a narrativa finalmente deslanche na segunda metade, você termina de ver sem ter a certeza de quem, afinal, era o verdadeiro pai daquela criança: o judeu desaparecido que foi casado com sua mãe ou o açougueiro que a abrigou? Essa questão só se tornou clara para mim ao descobrir, fora da tela, que o diretor concedeu entrevistas contando que roteiro foi baseado na vida real de seu próprio pai. A mãe de Andor no filme é totalmente baseada na figura de sua avó. Com isso, nesse aspecto de clareza narrativa, o filme deixou muito a desejar. Na minha opinião, ter deixado essa informação de quem era o verdadeiro pai mais clara teria feito toda a diferença. Poderia ter transformado o longa em outra obra-prima na filmografia de Nemes. Sem isso o que temos é um bom filme, divagante, mas ainda bom.