
Comentário: Jean Carlos Foss do site Tecmundo publicou: “'Túmulo dos Vagalumes’ (1988), dirigido por Isao Takahata, é uma das obras mais poderosas e emocionalmente devastadoras do Studio Ghibli. Ambientado no Japão durante a Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha a luta pela sobrevivência de dois irmãos, Seita e Setsuko, após o bombardeio de Kobe. Órfãos e sem recursos, eles enfrentam a dura realidade da guerra, com pouca ajuda da sociedade que também está devastada pelo conflito. (...)
‘Túmulo dos Vagalumes’ é um dos mais comoventes retratos da tragédia humana já feitos, e essa intensidade emocional tem suas raízes em uma história verdadeira, marcada por luto e culpa. A trama, que acompanha dois irmãos japoneses lutando para sobreviver durante a Segunda Guerra Mundial, foi baseada na experiência pessoal de Akiyuki Nosaka, autor do conto semi-autobiográfico que inspirou o filme. Nosaka viveu o pesadelo da guerra em primeira mão e usou sua escrita para processar a dor que o assombrava.
Nosaka nasceu em 1930, e sua vida mudou radicalmente com o bombardeio de Kobe em 1945, quando ele tinha apenas 14 anos. Durante esse ataque devastador, ele perdeu grande parte de sua família, incluindo sua irmã mais nova, Keiko, que tinha apenas dois anos. Sem recursos e enfrentando um país destruído, Nosaka se viu extremamente abatido. A perda de Keiko o marcou profundamente, e ele carregou uma imensa culpa por sua morte, sentindo que falhou em protegê-la. Essa culpa se tornou o núcleo emocional da história que viria a escrever anos depois.
Publicado em 1967, o conto ‘Túmulo dos Vagalumes’ foi a forma que Nosaka encontrou para processar o trauma de sua juventude. A história gira em torno de Seita e Setsuko, dois irmãos que, assim como ele e sua irmã, perdem os pais e são deixados à própria sorte em meio ao caos da guerra. A luta desesperada de Seita para cuidar de Setsuko espelha a própria experiência de Nosaka, refletindo a fome, a solidão e a dor de perder alguém tão próximo. Ele idealizou Seita como um irmão atencioso e dedicado, uma versão que ele desejava ter sido para sua própria irmã.
A relação entre os dois personagens principais é uma recriação dolorosa da tentativa fracassada de Nosaka de salvar Keiko. A morte de Setsuko no filme, assim como a de Keiko na vida real, não é causada diretamente pela violência da guerra, mas pela fome e negligência que acompanham os conflitos. Nosaka queria mostrar que a guerra destrói muito mais do que corpos em batalhas – ela aniquila as vidas daqueles que não estão no front, os civis que sofrem nas margens da destruição.
Nosaka, no entanto, resistiu por muitos anos a transformar sua história em um filme. Ele recebeu várias propostas de adaptações em live-action, mas acreditava que nenhuma delas seria capaz de capturar a profundidade emocional do conto. Ele achava que atores infantis modernos não conseguiriam expressar a realidade cruel que ele e sua irmã viveram, e que os horrores da guerra perderiam impacto se fossem representados de forma direta. Foi só quando o Studio Ghibli, e o diretor Isao Takahata, propuseram uma adaptação animada que Nosaka se convenceu. A animação permitiu que Takahata explorasse o lirismo da história de Nosaka, criando uma obra que combina a beleza visual com a crueza da narrativa. Takahata, que também experimentou a guerra durante sua infância, captou de maneira única a fragilidade das vidas de Seita e Setsuko, usando metáforas visuais, como os vagalumes, para simbolizar a brevidade da felicidade e da inocência durante tempos de desespero”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Antes da destruição da vida, Takahata nos mostra a destruição dos sentimentos, a destruição da empatia e da forma humana no tratamento entre as pessoas. A tristeza aumenta porque muitas dessas relações são pautadas exatamente pela falta, como na cena em que Seita tenta convencer um lavrador que não tem arroz nem para si próprio. Já a tia dele representa um outro tipo de pessoa nessa equação, aquelas endurecidas e ressecadas pela guerra, enxergando em cada um apenas um instrumento em favor do país e, se este alguém não puder ser um instrumento, então não merece nada. Como disse antes, as discussões trazidas pela obra tornam-se mais tocantes quando traçamos um paralelo delas com a realidade de milhares de pessoas, em todas as idades, que não apenas morrem pela ação direta do fogo das muitas guerras em andamento, mas também por todos os outros males que elas trazem consigo”.
O que disse a crítica 2: Sérgio Alpendre da Folha SP também gostou. Disse tratar-se do “primeiro filme de Isao Takahata pela recém-criada companhia sediada na região metropolitana de Tóquio. Pode-se dizer que realizou uma das pérolas que justificam a fama do estúdio. (...) O que mais impressiona não é a beleza da história, um elogio ao humanismo e um grito antibélico. É o bom gosto de todos os enquadramentos, do uso das cores, dos tempos de corte nas cenas mais sentimentais, até mesmo do uso de uma música que, como sempre na tradição melodramática japonesa, fica muito perto do limite que separa a beleza do exagero”. A produção “faz com que a velha discussão sobre a animação ser ou não cinema, ou mesmo uma forma de arte, seja supérflua”.
O que eu achei: Se eu tivesse que eleger a animação mais triste da face da Terra, mesmo sem ter visto todas, com certeza seria “Túmulo dos Vagalumes” (1988). A trama acompanha os irmãos Seita (14 anos) e Setsuko (4 anos) tentando sobreviver no Japão durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial, em 1945. O filme retrata com dolorosa fidelidade o colapso do país: cidades devastadas por bombardeios aéreos americanos - como o ataque incendiário a Kobe, que desencadeia a história - a fome generalizada e a escassez absoluta de recursos que castigavam a população civil. O que torna tudo ainda mais devastador é saber que a obra é a adaptação de um conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka, que tinha a mesma idade de Seita quando vivenciou o bombardeio de Kobe. Uma breve pesquisa me mostrou que, além do conto de Nosaka, uma fotografia também serviu de inspiração para o filme. Trata-se de uma imagem dilacerante de autoria do fotógrafo Joe O'Donnell, tirada em Nagasaki em 1945, que mostra um menino de dez anos, descalço e com o rosto rígido, carregando o cadáver do irmãozinho nas costas à espera da cremação. É daquelas fotos que nos faz pensar cadê aquele meteoro que eliminou os dinossauros da Terra. Na história, o pai dos protagonistas está servindo na marinha e a mãe morre tragicamente em um ataque. Desamparados, o jovem Seita assume a imensa responsabilidade de proteger sua irmãzinha. Após uma convivência difícil e hostil na casa de uma tia, o orgulho e o desespero levam os dois a se isolarem em um abrigo abandonado na floresta, onde travam uma batalha comovente e solitária pela sobrevivência. É um dos raros filmes do Estúdio Ghibli que foge àquele espírito de sonho e fantasia para focar no mundo real. A força dessa história na cultura japonesa é tamanha que, além do famoso anime, ela ganhou duas outras adaptações com atores reais nos anos 2000 - um filme para a TV em 2005 e outro para o cinema em 2008 -, que exploraram o drama sob novas perspectivas. Para assistir você precisa estar emocionalmente preparado devido ao sofrimento psicológico que ele provoca. Nos faz parar para pensar quantas crianças estão passando por isso hoje nos diversos países em guerra ou mesmo em países sem guerra mas devastados pela violência e pela fome. É um filme importante, necessário, mas difícil de ver e impossível de rever. A classificação etária é de 12 anos, mas eu só mostraria para alguém de 15 ou mais. Veja preparado.
Nosaka nasceu em 1930, e sua vida mudou radicalmente com o bombardeio de Kobe em 1945, quando ele tinha apenas 14 anos. Durante esse ataque devastador, ele perdeu grande parte de sua família, incluindo sua irmã mais nova, Keiko, que tinha apenas dois anos. Sem recursos e enfrentando um país destruído, Nosaka se viu extremamente abatido. A perda de Keiko o marcou profundamente, e ele carregou uma imensa culpa por sua morte, sentindo que falhou em protegê-la. Essa culpa se tornou o núcleo emocional da história que viria a escrever anos depois.
Publicado em 1967, o conto ‘Túmulo dos Vagalumes’ foi a forma que Nosaka encontrou para processar o trauma de sua juventude. A história gira em torno de Seita e Setsuko, dois irmãos que, assim como ele e sua irmã, perdem os pais e são deixados à própria sorte em meio ao caos da guerra. A luta desesperada de Seita para cuidar de Setsuko espelha a própria experiência de Nosaka, refletindo a fome, a solidão e a dor de perder alguém tão próximo. Ele idealizou Seita como um irmão atencioso e dedicado, uma versão que ele desejava ter sido para sua própria irmã.
A relação entre os dois personagens principais é uma recriação dolorosa da tentativa fracassada de Nosaka de salvar Keiko. A morte de Setsuko no filme, assim como a de Keiko na vida real, não é causada diretamente pela violência da guerra, mas pela fome e negligência que acompanham os conflitos. Nosaka queria mostrar que a guerra destrói muito mais do que corpos em batalhas – ela aniquila as vidas daqueles que não estão no front, os civis que sofrem nas margens da destruição.
Nosaka, no entanto, resistiu por muitos anos a transformar sua história em um filme. Ele recebeu várias propostas de adaptações em live-action, mas acreditava que nenhuma delas seria capaz de capturar a profundidade emocional do conto. Ele achava que atores infantis modernos não conseguiriam expressar a realidade cruel que ele e sua irmã viveram, e que os horrores da guerra perderiam impacto se fossem representados de forma direta. Foi só quando o Studio Ghibli, e o diretor Isao Takahata, propuseram uma adaptação animada que Nosaka se convenceu. A animação permitiu que Takahata explorasse o lirismo da história de Nosaka, criando uma obra que combina a beleza visual com a crueza da narrativa. Takahata, que também experimentou a guerra durante sua infância, captou de maneira única a fragilidade das vidas de Seita e Setsuko, usando metáforas visuais, como os vagalumes, para simbolizar a brevidade da felicidade e da inocência durante tempos de desespero”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Antes da destruição da vida, Takahata nos mostra a destruição dos sentimentos, a destruição da empatia e da forma humana no tratamento entre as pessoas. A tristeza aumenta porque muitas dessas relações são pautadas exatamente pela falta, como na cena em que Seita tenta convencer um lavrador que não tem arroz nem para si próprio. Já a tia dele representa um outro tipo de pessoa nessa equação, aquelas endurecidas e ressecadas pela guerra, enxergando em cada um apenas um instrumento em favor do país e, se este alguém não puder ser um instrumento, então não merece nada. Como disse antes, as discussões trazidas pela obra tornam-se mais tocantes quando traçamos um paralelo delas com a realidade de milhares de pessoas, em todas as idades, que não apenas morrem pela ação direta do fogo das muitas guerras em andamento, mas também por todos os outros males que elas trazem consigo”.
O que disse a crítica 2: Sérgio Alpendre da Folha SP também gostou. Disse tratar-se do “primeiro filme de Isao Takahata pela recém-criada companhia sediada na região metropolitana de Tóquio. Pode-se dizer que realizou uma das pérolas que justificam a fama do estúdio. (...) O que mais impressiona não é a beleza da história, um elogio ao humanismo e um grito antibélico. É o bom gosto de todos os enquadramentos, do uso das cores, dos tempos de corte nas cenas mais sentimentais, até mesmo do uso de uma música que, como sempre na tradição melodramática japonesa, fica muito perto do limite que separa a beleza do exagero”. A produção “faz com que a velha discussão sobre a animação ser ou não cinema, ou mesmo uma forma de arte, seja supérflua”.
O que eu achei: Se eu tivesse que eleger a animação mais triste da face da Terra, mesmo sem ter visto todas, com certeza seria “Túmulo dos Vagalumes” (1988). A trama acompanha os irmãos Seita (14 anos) e Setsuko (4 anos) tentando sobreviver no Japão durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial, em 1945. O filme retrata com dolorosa fidelidade o colapso do país: cidades devastadas por bombardeios aéreos americanos - como o ataque incendiário a Kobe, que desencadeia a história - a fome generalizada e a escassez absoluta de recursos que castigavam a população civil. O que torna tudo ainda mais devastador é saber que a obra é a adaptação de um conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka, que tinha a mesma idade de Seita quando vivenciou o bombardeio de Kobe. Uma breve pesquisa me mostrou que, além do conto de Nosaka, uma fotografia também serviu de inspiração para o filme. Trata-se de uma imagem dilacerante de autoria do fotógrafo Joe O'Donnell, tirada em Nagasaki em 1945, que mostra um menino de dez anos, descalço e com o rosto rígido, carregando o cadáver do irmãozinho nas costas à espera da cremação. É daquelas fotos que nos faz pensar cadê aquele meteoro que eliminou os dinossauros da Terra. Na história, o pai dos protagonistas está servindo na marinha e a mãe morre tragicamente em um ataque. Desamparados, o jovem Seita assume a imensa responsabilidade de proteger sua irmãzinha. Após uma convivência difícil e hostil na casa de uma tia, o orgulho e o desespero levam os dois a se isolarem em um abrigo abandonado na floresta, onde travam uma batalha comovente e solitária pela sobrevivência. É um dos raros filmes do Estúdio Ghibli que foge àquele espírito de sonho e fantasia para focar no mundo real. A força dessa história na cultura japonesa é tamanha que, além do famoso anime, ela ganhou duas outras adaptações com atores reais nos anos 2000 - um filme para a TV em 2005 e outro para o cinema em 2008 -, que exploraram o drama sob novas perspectivas. Para assistir você precisa estar emocionalmente preparado devido ao sofrimento psicológico que ele provoca. Nos faz parar para pensar quantas crianças estão passando por isso hoje nos diversos países em guerra ou mesmo em países sem guerra mas devastados pela violência e pela fome. É um filme importante, necessário, mas difícil de ver e impossível de rever. A classificação etária é de 12 anos, mas eu só mostraria para alguém de 15 ou mais. Veja preparado.