5.10.26

"Rio, Zona Norte" - Nelson Pereira dos Santos (Brasil, 1957)

Sinopse:
O humilde sambista Espírito da Luz (Grande Otelo) é um homem desiludido em virtude das tantas tragédias pessoais. Um dia, ele cai de um trem lotado da Central do Brasil e fratura o crânio. Enquanto agoniza, ele relembra os últimos meses de sua vida, a luta para ter seus sambas gravados e interpretados por grandes artistas e as trapaças do falso parceiro Maurício (Jece Valadão). No hospital, ele recebe a visita do músico Moacir (Paulo Goulart), grande admirador de suas composições.
Comentário: Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) foi um diretor, produtor e roteirista brasileiro, considerado um dos fundadores do movimento Cinema Novo. Sua produção atravessa um período de 60 anos na história do Brasil, com obras como “Rio, 40 Graus” (1955) e “Memórias do Cárcere” (1984) dentre outras. Assisti dele os bons “Vidas Secas” (1963) e “O Amuleto de Ogum” (1974). Desta vez vou conferir "Rio, Zona Norte" (1957).
Luís Alberto Rocha Melo do site Contracampo nos conta que "Quando foi lançado em 1957, 'Rio, Zona Norte' experimentou fracasso de público e de crítica. Os críticos que o condenaram - entre eles, Alex Viany e Paulo Emílio Salles Gomes - apontaram uma espécie de involução no estilo do jovem cineasta que iniciara a carreira de forma impactante e polêmica com 'Rio, 40 Graus' (1955).
A novidade apresentada pelo filme de estreia, consubstanciada numa abordagem direta e realista, ainda que irregular, da ambiência popular e na busca por um cinema feito nas ruas e nas favelas, no qual o personagem central era a própria cidade do Rio de Janeiro, dava lugar, em ‘Rio, Zona Norte’, ao recorte melodramático no tratamento da intriga, aos recursos de roteiro e montagem típicos do cinema convencional hollywoodiano (como o uso do flashback) e a um desequilíbrio na condução da mise-en-scène, ora pendendo para um realismo difuso, ora lançando mão de recursos expressionistas.
Os famosos pressupostos neorrealistas, sempre proclamados a propósito de 'Rio 40 Graus', não encontravam em 'Rio, Zona Norte' uma tradução à altura. O segundo longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos decepcionou os que enxergaram em 'Rio, 40 Graus' o início de um cinema realista brasileiro talvez comparável à escola neorrealista italiana.
O processo de revalorização de 'Rio, Zona Norte' se dá com a produção crítica/ensaística do cinema novo, já nos anos 1960, notadamente a partir das análises de Glauber Rocha reunidas e publicadas em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (1963). Anos mais tarde, o filme será francamente elogiado num artigo escrito por David E. Neves e publicado no número 28 da revista Filme Cultura, em fevereiro de 1978, no qual o crítico e cineasta define 'Rio, Zona Norte' como 'um dos filmes mais inspirados' de Nelson Pereira dos Santos. Buscando valorizar os diversos recursos de mise-en-scène, Glauber comparará Nelson Pereira a Luchino Visconti; David Neves, por sua vez, destacará a estrutura do roteiro (escrito por NPS), louvada justamente por fazer uso expressivo de recursos como o flashback. Um 'filme menor' acaba por se tornar, anos mais tarde, uma 'obra-prima'. (...)
Visto hoje, 'Rio, Zona Norte' assume um outro valor, diferente de quase todas as preocupações não só dos críticos que o rejeitaram em 1957, mas também dos que o revalorizaram nos anos 1960 e 1970. Não é mais o caso de situá-lo entre os filmes 'maiores' ou 'menores' de um cineasta consagrado como Nelson Pereira dos Santos. Diante de 'Rio, Zona Norte', estamos conscientes de que se trata de um filme que adquiriu importância histórica indiscutível. Não nos incomodamos com o fato de que seu realizador introduz, contraditoriamente, uma estrutura em flashback no interior de uma narrativa que se pretendia neorrealista, justamente porque tais questões - fidelidade ou não aos conceitos teóricos do neorrealismo - não são vivenciadas de forma acalorada e imediata pelo espectador de hoje. O que antes era visto como oscilação de estilo do jovem cineasta é hoje nosso ponto maior de interesse. Acompanhar tal oscilação é algo muito mais revelador do que cobrar e vigiar uma virtual coerência e fidelidade a sabe-se lá que escola ou proposta teórica.
'Rio, Zona Norte' é, portanto, um filme protegido pelo tempo. Aquilo que entre nós é extremamente difícil do ponto de vista material - preservar um filme brasileiro da ação predatória dos anos - é sempre possível no âmbito dos discursos ideológicos que são a base da historiografia do cinema brasileiro. Nesse segundo aspecto, 'Rio, Zona Norte' teve o tempo como aliado".
Na trama, a montagem de crédito de abertura apresenta a descoberta de um corpo nas trilhas do trem, enquanto uma trilha sonora de Hollywood toca distraidamente. O homem ferido é Espírito da Luz Soares (literalmente "Espírito da Luz", interpretado pelo Grande Otelo), um compositor cujos sambas unem e elevam o povo brasileiro marginalizado no meio dele em sua luta.
Com base na vida do compositor Zé Keti - que aparece no filme como cantor popular Alaor - a história do Espírito se desenvolve através de flashbacks que transbordam luxuosamente com canções, mas também expõem as múltiplas divisões dentro dos estratos sociais do Rio. Uma vítima de homens de negócios exploradores que sugam sua vida e sua música, Espírito testemunha que cada um de seus sonhos precipitou para uma tragédia implacável.
Segundo Melo, "em 'Rio, 40 Graus' Nelson Pereira ambicionava fazer um painel da realidade carioca. Nos letreiros de apresentação, ouve-se a música de Zé Keti que diz 'Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor'. Em 'Rio, Zona Norte' Nelson procura ocupar-se apenas com o dono dessa voz - e com os sanguessugas que estão ao seu redor. Por ter sido sincero em sua abordagem, Nelson Pereira realizou um filme um tanto sombrio, o que não deixava de ser fruto de certa maturidade: olhar para um só personagem havia se revelado, enfim, uma tarefa muito mais complexa e necessária do que dar conta de toda uma cidade".
Em 2015, a produção foi uma das selecionadas pela ABRACCINE para a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
O que disse a crítica 1: Leonardo Campos do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: " Engraçado que toda a acusação de involução de estilo mudou com as opiniões de Glauber Rocha em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, publicado em 1963, juntamente com um artigo que David Neves veiculou numa revista numa época próxima, tendo comparado os maneirismos de filmagem do cineasta na condução da história ao italiano Luchino Visconti. Por ter emulado alguns elementos da Atlântida no que tange aos eixos sociais como discussão, sem deixar de buscar uma relação popular com o circuito comercial, tais como as narrativas musicais de nosso cinema, 'Rio, Zona Norte' pagou um preço caro na época, mas nada melhor que o tempo para comprovar a sua condição de obra-prima".
O que disse a crítica 2: Amaury Filho do Cineset avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Rio, Zona Norte' é uma obra atemporal, que fala de arte, exclusão e resistência. É um retrato de um Brasil que insiste em cantar, mesmo quando tudo ao redor parece emudecer".
O que eu achei: Se olharmos a filmografia de Nelson Pereira dos Santos, seu primeiro filme foi “Juventude” (1949), um média-metragem realizado em 16mm em parceria com Mendel Charatz que acabou se tornando uma mídia perdida. Na sequência ele fez “Rio, 40 Graus” (1955), seu primeiro longa, considerado um marco do cinema moderno no Brasil e precursor do Cinema Novo. "Rio, Zona Norte" (1957) veio logo depois. Utilizando uma estrutura dramática calcada no melodrama, a trama acompanha a agonia do sambista Espírito da Luz (interpretado por Grande Otelo). Após sofrer um acidente de trem, ele cai na linha férrea do subúrbio, fratura o crânio e, enquanto agoniza nos trilhos aguardando socorro, relembra sua vida, rememorando os fatos que o impediram de viver de sua própria criação artística. Esse roteiro foi livremente inspirado na vida, nos percalços e nas vivências do sambista Zé Kéti (1921-1999). O diretor Nelson Pereira dos Santos era muito amigo do compositor; eles já haviam trabalhado juntos em “Rio, 40 Graus” e a ideia de transformar a dura realidade dos sambistas de morro no tema central de um filme já vinha germinando em sua cabeça. Além de servir de inspiração, o sambista foi o responsável por compor as belas e melancólicas canções que estruturam a narrativa e que aparecem no enredo como sendo de autoria do personagem Espírito da Luz. Zé Kéti também faz uma ponta no longa, interpretando Alaor. O drama do protagonista - que é analfabeto, tem suas músicas roubadas, enfrenta contratos escusos e é explorado por atravessadores - refletia exatamente as barreiras sociais e financeiras reais que Zé Kéti e vários outros compositores periféricos enfrentavam para sobreviver da própria arte na década de 1950. Interessante saber que, na época do lançamento, o filme não foi tão bem recebido. Críticos influentes da época esperavam que Nelson aprofundasse o olhar puramente documental e coletivo do neorrealismo italiano introduzido no filme anterior. Em vez disso, viram em "Rio, Zona Norte" uma ‘involução’ artística, criticando-o por mergulhar no formato do melodrama. Houve também um incômodo com o racismo e a desigualdade mostrados na trama. Felizmente, nos anos 1960, Glauber Rocha declarou que o filme era uma verdadeira certidão de nascimento de um cinema autenticamente brasileiro. Ele argumentou que a crítica dos anos 50 foi míope e que a obra não era uma ‘involução’, mas sim uma evolução política consciente do diretor. Com o tempo, o filme deixou de ser julgado pelo que ‘deveria ter sido’ e passou a ser celebrado pelo que realmente era: uma obra híbrida inovadora que unia a crueza documental das ruas com a potência do drama individual. Atenção para a participação da cantora Ângela Maria, que interpreta a si mesma. Nascida em maio de 1929, a Rainha do Rádio tinha 28 anos na época. Essa escalação foi um golpe de mestre de Nelson Pereira dos Santos: Ângela estava no auge absoluto da carreira e vendia milhões de discos. Sua interação genuína com um personagem fictício deu uma enorme sensação de realismo à história. Boa pedida.