19.10.26

“A Fraternidade é Vermelha” - Krzysztof Kieslowski (França/Suíça/Polônia, 1994)

Sinopse:
A jovem modelo Valentine (Irène Jacob) atropela um cachorro e quando procura o dono do animal conhece um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant) que passa a maior parte de seu tempo ouvindo as conversas telefônicas de seus vizinhos. A partir desse encontro, os dois formam uma estranha amizade.
Comentário: Krzysztof Kieslowski (1941-1996) é um cineasta polonês de quem já assisti aos ótimos “Decálogo” (1989) - composto por 10 filmes inspirados pelos 10 Mandamentos - e “Trilogia das Cores” (1993-1994) - composta pelos filmes “A Liberdade é Azul”, “A Fraternidade é Vermelha” e “A Igualdade é Branca”, além do bom “Sorte Cega” (1981) e do curioso “Calma” (1976). Desta vez vou rever “A Fraternidade é Vermelha” (1994).
Leonardo Campos do site Plano Crítico publicou: “Um filme sobre a velhice e a juventude. Uma produção que arremata o processo de reconstrução de significados para os ideais iluministas que soavam (e soam) na contemporaneidade como distantes e evasivos. O projeto ainda está presente, por sinal, muito bem arquitetado: com o bicentenário da Revolução Francesa, o mundo estava diante de uma Europa que desejava o rompimento com as barreiras nacionais.
Neste desfecho, Valentine (Irène Jacob) dirige o seu carro ao voltar de uma atividade para casa, mas por conta do destino, atropela a cadela de alguém em seu caminho. Diante do animal ferido, encontra uma coleira com o endereço e segue até o local. Ao chegar, descobre um homem amargo que a recepciona muito mal. Ele é um juiz aposentado que termina a sua existência terrena espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. O motivo desse homem misterioso é tomar posse das intimidades alheias, para acompanhar passo a passo o desenrolar dos seus respectivos destinos. Há, todavia, em Valentine, o paradoxo comum na trilogia em questão: inicialmente aterrorizada e com postura de condenação, passa a se envolver com aquela situação considerada abusiva e errônea, atos que vão de encontro aos seus ideais.
No que tange aos aspectos narrativos, este é o capítulo da trilogia com maior profundidade de campo, principalmente nas cenas mais contemplativas e filosóficas. A cor vermelha tonaliza semáforos, faróis, bolas de boliche, cerejas, dentre outras coisas. É uma cor bem representativa, pois nos remete ao sangue das relações humanas, da circulação que envolve os encontros e desencontros dos personagens de toda a trilogia. Na seara da direção de arte e do design de produção, temos várias referências significativas, sendo uma delas a foto de Franz Kafka que aparece no estúdio de fotografia. Coincidência ou não nos remete ao Processo, um dos monumentos da literatura moderna. Cabe ressaltar o trabalho de som: entre arroubos de silêncio e composições discretas para ilustrar algumas cenas, a música do filme comove e serve como elemento coesivo para as emoções dos personagens em cena.
‘A Fraternidade é Vermelha’ marca o fim de uma brilhante jornada. Com esse filme, Kieslowiski disse ter alcançado o que queria como cineasta e ser humano. Notadamente o seu filme favorito da trilogia, é onde encerra e relaciona as narrativas anteriores, numa espécie de metáfora avassaladora: no final, somos informados pela televisão que um acidente de balsa dizimou quase toda a tripulação e passageiros, restando apenas alguns poucos sobrevivente, dentre eles, Julie (Juliette Binoche, de A Liberdade é Azul), Dominique e Karol Karol (Julie Delpy e ator, respectivamente, de A Igualdade é Branca) e Valentine, protagonista do filme em questão.
Por estarmos diante de uma trilogia com abordagens geopolíticas, não há como negar a força metafórica deste naufrágio, pois o acidente representa os representantes das microscópicas ações dentre de um feixe macro de relações dentre do continente europeu numa era de indecisões e incertezas. Uma situação que representa um roteiro apurado e preocupado em dar verossimilhança ao que se representa e ressignifica, tendo em vista a abordagem do primeiro texto, mais explícita no que diz respeito aos ideais iluministas reapresentados na contemporaneidade, sem as afetividades e excessos idealistas da antiga história. Ao escrever estas reflexões, encontrei-me diante do solilóquio eterno herói da dúvida e da postergação: Hamlet. Ser ou não ser? Seria o naufrágio uma interpretação para os europeus unidos apenas pela tragédia? Não há nada verbal que comprove, mas podemos inferir, haja vista que estamos diante de um continente sempre envolvido em guerras internas.
O diretor morreu um ano depois do lançamento. Ainda jovem, nos idos dos 50 e tantos anos de idade, foi vítima de um colapso cardíaco, oriundo da vida ativa e frenética que levava, acompanhada, como disse Julie Delpy, ‘por noites montando o primeiro filme e o dia filmando outro, tendo o cigarro como escapismo para o estresse da vida tão badalada’.
Antes de concluir o curso de Cinema na Academia Cinematográfica de Lodz, dirigiu curtas que denunciavam questões sociais na Polônia, e, como não seria diferente para um diretor visionário e crítico, encontrou problemas com a censura. Realizou, em 1976, os filmes ‘A Cicatriz’ e ‘A Profana’, sendo o segundo uma observação sobre o ofício de cineasta. Nos anos 1980, em específico, 1987, filmou para a televisão o seu famoso ‘Decálogo’, produções com uma média de 60 minutos de duração, focadas nos 10 mandamentos bíblicos. Para o formato longa-metragem, adaptou ‘Não Matarás’ e ‘Não Amarás’, clássicos absolutos para o campo da crítica compromissada e dos cinéfilos. Antes de estrear a Trilogia das Cores, lançou-se no cinema francês com ‘A Dupla Vida de Veronique’, drama que nos revelou a carismática e brilhante Irène Jacob.
'A Fraternidade é Vermelha' esteve nas premiações mais badaladas da indústria. O filme concorreu ao Globo de Ouro de Melhor filme, ao Oscar de Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia. Em Cannes, disputou a Palma de Ouro, mas perdeu para ‘Pulp Fiction’, de Quentin Tarantino. Ao longo dos seus 99 minutos de duração, espera-se que o espectador consiga identificar os elos entre as três narrativas, independentes por um lado, mas parte de um mesmo contexto, visto sob o viés do bloco que forma a trilogia, filmes imperdíveis e didáticas aulas de cinema para os interessados em compreender mais sobre a linguagem cinematográfica”.
O que disse a crítica 1: Waldemar Dalenogare avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “O último filme da carreira de Krzysztof Kieslowski talvez seja seu mais impactante. Não é o mais bonito esteticamente e nem tem a melhor história, mas o cuidado com o roteiro e a preocupação em fechar uma trilogia costurando todas as pontas é algo notável. (...) Poucos diretores encerram sua carreira com chave de ouro. Obrigado por nos presentear com esta obra prima, grande Kieslowski”.
O que disse a crítica 2: Roberto Siqueira do site Cinema e Debate avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Com sensibilidade e competência, Kieslowski fecha sua trilogia neste ‘A Fraternidade é Vermelha’, questionando os valores da revolução francesa e mostrando que os seres humanos são imperfeitos, mas é justamente nesta imperfeição que está a graça de todos nós, seres capazes de amar e odiar, chorar e sorrir, se alegrar e sofrer. Isto nada mais é do que viver”.
O que eu achei: “A Fraternidade é Vermelha” (1994) do diretor Krzysztof Kieslowski amarra a Trilogia das Cores mostrando que, apesar do isolamento, vidas estão conectadas por coincidências e empatia. Na trama, a modelo Valentine (Irène Jacob) atropela um cachorro e quando vê em sua coleira o endereço do dono, ela leva o animal ferido até lá. O cara é um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant), mais velho do que ela, que passa a maior parte de seu tempo ouvindo as conversas telefônicas de seus vizinhos a partir de um sistema de grampo que ele mesmo criou. A partir desse encontro, os dois formam uma estranha amizade. Se nos dois filmes anteriores há o egoísmo e a frieza, no Vermelho há a fraternidade representada pelo calor humano, o amor, a compaixão e a conexão real entre as almas. Ser fraterno significa agir com a consideração que se espera entre irmãos. É nesse sentido que o juiz aposentado aceita o afeto descompromissado da jovem modelo Valentine, superando seu cinismo e restabelecendo sua fé na humanidade. A jornada fecha um ciclo de perdão e aceitação. Pude notar que nos três longas há uma cena recorrente: uma idosa vista na rua tentando colocar uma garrafa numa máquina de reciclagem. Valentine vê a cena e imediatamente se levanta para ajudar a idosa a colocar a garrafa no contêiner. Essa atitude resume o conceito de fraternidade. É o único momento da trilogia em que o ciclo de indiferença, mostrado nos filmes anteriores nos quais a idosa não recebe ajuda, é quebrado. Outro destaque fica para a cena final que conecta definitivamente os três longas. A balsa na qual Valentine pretende atravessar o Canal da Mancha rumo à Inglaterra sofre um acidente. Quase toda a tripulação e passageiros morrem, restando apenas alguns poucos sobreviventes. É nesse momento que vamos nos deparar com todos os personagens principais da trilogia: Julie (Juliette Binoche, de “A Liberdade é Azul”), Dominique e Karol Karol (Julie Delpy e Zbigniew Zamachowski, de “A Igualdade é Branca”) e Valentine, protagonista do filme em questão. É através de um noticiário na TV que vemos esses personagens sendo resgatados, simbolizando uma união invisível entre as pessoas. Ao encerrar a jornada, Kieslowski não apenas conclui sua trilogia de forma magistral, mas transforma os conceitos políticos da Revolução Francesa em sentimentos profundamente humanos, consolidando o trabalho como uma obra de arte obrigatória, capaz de nos fazer olhar para o próximo com mais atenção, tolerância e, acima de tudo, esperança.