18.10.26

“Song Sung Blue – Um Sonho a Dois” - Craig Brewer (EUA, 2025)

Sinopse:
Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) são dois artistas covers com azar na vida. Após dar muito sangue, suor e lágrimas para o cenário musical amador de Wisconsin (EUA), eles se conectam para formar um duo chamado Lightning & Thunder que ganharia fama moderada na região por seu show-tributo a Neil Diamond.
Comentário: Craig Brewer (1971) é um diretor, produtor e roteirista de cinema americano. São dele o premiado “Ritmo de Um Sonho” (2005), além do remake de “Footloose - Ritmo Contagiante” (2011) e “Meu Nome É Dolemite” (2019). “Song Sung Blue – Um Sonho a Dois” (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
Márcio Sallem do site Cinema com Crítica publicou: “Uma parte do público está (com razão) intolerante ou reticente a biografias de artistas musicais. Mas e quando esta biografia for de artistas cover ou intérpretes? Antes de se casarem, Mike e Claire Sardina, batizados Lightning e Thunder, formaram uma banda tributo a Neil Diamond e alcançaram um moderado sucesso na cidade de Milwaukee, ao ponto de serem convidados por Eddie Vedder para abrir o show do Pearl Jam. Esta trajetória é o tema de ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois’, uma biografia de altos e baixos, não muito diferente do que foi a vida profissional e pessoal do casal e de sua família.
Com a direção e o roteiro de Craig Brewer, a narrativa esboça alguns comentários sobre a cultura da representação, ou interpretação. Mais do que apenas artista cover, Mike tentou dar a sua leitura para Neil Diamond, interpretá-lo, e foi este toque ou olhar que o tornou bem-sucedido. Não é somente cantar, vestir-se ou comportar-se da mesma forma, não é uma mimetização, mas é a interpretação de um indivíduo a partir da subjetividade e sensibilidade de um outro indivíduo. Um processo análogo ao de Hugh Jackman e Kate Hudson ao darem a vida às versões cinematográficas de Mike e Claire. Eles podem tomar emprestado suas roupas, seus cabelos, seus impulsos e desejos, mas isto é reinterpretado pelo que Hugh e Kate trazem dentro deles. A intensidade do ator australiano, a sensibilidade e doçura da atriz estadunidense, ambos representam artistas que representaram outros artistas, e esta boneca russa é um agrado inesperado de uma narrativa que, no resto do tempo, está contente em atingir as metas esperadas de um Oscar bait [ou ‘isca para o Oscar’, uma produção feita de propósito para conseguir indicações ou prêmios da Academia de Hollywood].
Mike é um alcoólatra em recuperação há 20 anos, uma informação dada logo no início e que desperta, no espectador experiente, a expectativa de que Mike terá uma recaída em um momento catártico. Fora isso, Mike é negligente com as dores agudas no peito e bastante sugestivas de um problema cardíaco grave, uma arma de Chekov engatilhada e apenas esperando para disparar. São pistas plantadas cedo e condizentes com o tipo de história melodramática que está sendo costurada. Uma em que a alegria, a vitória e o sonho são acompanhados e temperados com a sombra de personagens quebrados, ao menos traumatizados o suficiente para que a luz no fim do túnel não seja tomada pelo que não é. Porque, além das pistas plantadas no roteiro, a imprevisibilidade joga o seu jogo, igual a um raio que atinge, às vezes duas vezes o mesmo lugar. O imprevisível é o convite inesperado, é o carro desgovernado, o que transforma a vida das pessoas, para o bem ou para o mal.
O que não é imprevisível é a batalha diária da classe média e trabalhadora para manter a cabeça acima da água. A narrativa costura a trajetória artística de Mike e Claire com a sua vida suburbana, as contas atrasadas, os reparos e remendos necessários para que o carro velho continue funcionando (pois não dá para substitui-lo). Na narrativa, a arte é trabalho, é um meio de subsistência familiar, apesar do desejo de Mike em entreter e dos holofotes que acompanham as apresentações. Mike e Claire não procuram a fama na música, mas uma maneira de ter uma vida estável, compartilhar o sonho americano e construir um jardim florido fazendo aquilo que amam. Todos temos este sonho, uma razão que explica a aceitação do público desta história de azarões, especialmente por ser estrelada por intérpretes carismáticos, povoada por personagens não antagonistas e que partilham esforços para que Mike e Claire deem certo, e cujos obstáculos são só decorrentes de ‘a vida acontecendo’.
Por essas razões, ‘Song Sung Blue’ atinge no alvo o espectador, também por elas, erram o alvo da crítica. Não que crítica e espectador sejam tão distintos assim, mas é que onde um encontra emoção, o outro encontra manipulação. Emoção pela manipulação, e não pelo desenrolar dos eventos. A estrada acidentada que os personagens atravessam é a estrada da vida, disto não há dúvida, mas as curvas estão artificialmente posicionadas pela narrativa a fim de provocar e explorar a emoção em vez de deixá-la acontecer. No momento em que Mike e Claire estão no auge, logo veio a voz atrás da minha cabeça, ‘É agora que as coisas começam a sair dos trilhos’. Dito e feito. Quando Claire reergue-se após um acidente, só veio a memória das pistas plantadas no início e de quando, e não se, a narrativa ia utilizá-las. A história de Mike e Claire pode ter acontecido assim, só que a opção de contá-la deste modo, de sublinhar o que é sublinhado, é da direção. Aí é onde está a manipulação.
A favor de ‘Song Sung Blue’, o talento de Hugh Jackman e Kate Hudson de acertar notas dramáticas e musicais com a mesma facilidade, e da competente Ella Anderson, que é capaz de conferir vulnerabilidade e tridimensionalidade para além de sua esquemática personagem (a filha mais velha de Claire, que paulatinamente recebe Mike na família). Também é bom escutar Neil Diamond para além de ‘Sweet Caroline’, e perceber como os álbuns do músico dialogam com a trajetória não só de Mike e Claire, mas também de quem se frustra com os sonhos não realizados e, mesmo assim, não para de sonhar. O que sobra a músicos operários iguais a este, igual a qualquer trabalhador, é o sonho e o dia de amanhã”.
O que disse a crítica 1: Mattheus Goto da Veja SP avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “O cinema está saturado de biografias musicais, mas ‘Song Sung Blue’ é um pouco diferente. O longa de Craig Brewer não é sobre aquela clássica jornada de superação de um ídolo da música, com sexo, drogas e rock and roll, mas sim sobre dores e problemas de heróis da vida real, afinal é inspirado em uma história verídica”. Porém, “o filme exala americanismos, com o tema e a abordagem”.
O que disse a crítica 2: Hiccaro Rodrigues do site Estação Nerd avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “A montagem dá um ritmo de vídeo clipe ao que vemos e os 133 minutos de duração passam voando, para quem assistiu o documentário no qual o filme se baseia verá que determinados detalhes foram alterados e omitidos, mas nenhum deles prejudica o desenvolvimento da trama. Pelo contrário, são remoções cirúrgicas e que não deixam questões em aberto. ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois’ é um filme surpreendentemente arrebatador e inegavelmente divertido. Uma história que vai conquistar não só os fãs de Neil Diamond, como também quem não conhece as canções do músico e a banda”.
O que eu achei: Estamos acostumados a ver o cinema reverenciar os deuses da música em cinebiografias grandiosas, por isso, “Song Sung Blue - Um Sonho a Dois” (2025) surpreende. Em vez de focar nos dilemas de um ícone global, o diretor Craig Brewer decide mirar os holofotes na base da pirâmide artística: a jornada real de Mike (1951-2006) e Claire Sardina (1961), uma dupla cover do cantor e compositor norte-americano Neil Diamond (1941). Essa escolha não apenas oxigena o gênero, mas humaniza o conceito de sucesso ao celebrar aqueles que vivem à sombra da fama alheia, mas com uma paixão que é inteiramente deles. O filme é uma adaptação de um documentário chamado “Song Sung Blue”, dirigido por Greg Kohs, do ano de 2008. Descobrir que os altos e baixos de Mike e Claire não foram inventados por roteiristas de Los Angeles, mas sim baseados em fatos verídicos, dá um peso dramático extra à produção. O trabalho de Brewer funciona como uma respeitosa homenagem a esse material de origem, traduzindo o carisma da dupla para a linguagem do cinema, especialmente do melodrama musical, já que a vida desses dois não foi nada fácil. Longe do glamour dos tapetes vermelhos, o cenário da narrativa é uma Milwaukee operária do início dos anos 1990, onde Mike - um mecânico e veterano do Vietnã - e Claire - uma cabeleireira com dois filhos para sustentar - lutam contra a escassez financeira. Batizando a dupla como 'Lightning & Thunder', eles passam a cruzar o circuito de feiras e pequenos bares locais, transformando a melancolia de suas vidas privadas numa catarse coletiva através dos hinos de Neil Diamond. Essa rotina de sobrevivência e pequenas glórias regionais é marcada por um contraste constante: enquanto lidam com as agruras da pobreza de uma classe trabalhadora esquecida e com um certo azar que parece insistir em acompanhá-los, eles experimentam um gostinho inusitado do estrelato de verdade quando Eddie Vedder, líder da banda Pearl Jam, convida a dupla suburbana para subir ao palco principal do festival Summerfest, em 1995. Nos papéis principais, a responsabilidade de dar vida ao casal fica por conta de Hugh Jackman e Kate Hudson. Para quem se propõe a dar uma olhada no documentário original, o trabalho de composição da dupla salta aos olhos por caminhos bem distintos. A atuação de Jackman como Mike 'Lightning' é cirúrgica, assemelhando-se de forma muito fiel ao homem real em seus trejeitos, melancolia e presença de palco. Por outro lado, a interpretação de Hudson como Claire 'Thunder' toma mais liberdades criativas, entregando uma persona com uma aparência e energia que se afastam bastante da Claire original. Ainda assim, esse papel rendeu a Hudson uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. O resultado foi melhor do que eu esperava. Talvez a temática inusitada tenha me pegado de surpresa, já que é raro ver o cinema comercial se dedicar à personagens às margens da indústria da música. Além disso, as canções icônicas de Neil Diamond - como 'Sweet Caroline' e a própria ‘Song Sung Blue’ - ajudam a ditar o ritmo da narrativa, funcionando como uma trilha sonora nostálgica e como um motor emocional que conecta o espectador à resiliência da dupla. É um filme que, contra todas as probabilidades, encontra a sua grandeza na simplicidade dos seus heróis da vida real. Vale ver nem que seja apenas para conhecer esse nicho de mercado tão peculiar.