8.9.26

“Vitória” - Andrucha Waddington & Breno Silveira (Brasil, 2025)

Sinopse:
Vitória (Fernanda Montenegro) é uma senhora solitária que, aflita com a violência que passa a tomar conta da sua vizinhança, começa a filmar da janela de seu apartamento. A idosa registra a movimentação de traficantes de drogas da região durante meses, com a intenção de cooperar com o trabalho da polícia. A atitude consegue chamar a atenção de um jornalista (Alan Rocha), que faz amizade com Vitória e tenta ajudá-la nessa missão.
Comentário: Andrucha Waddington (1970) é um diretor, produtor e roteirista brasileiro. Casado com a atriz Fernanda Torres, ele é um dos sócios da Conspiração Filmes, junto com o cunhado, o diretor Cláudio Torres. Waddington dirigiu “Eu Tu Eles” (2000), filme que fez parte da Seleção Oficial do Festival de Cannes e “Casa de Areia” (2005), seleção oficial dos festivais de Berlim e Toronto e vencedor do prêmio NHK de Melhor Roteiro em Sundance. De 2017 até 2022, dirigiu a série “Sob Pressão” (TV Globo). “Vitória” (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
Breno Silveira (1964–2022) foi um roteirista, fotógrafo, produtor e diretor de cinema e televisão brasileiro. Importante nome da retomada do cinema brasileiro. Suas produções lhe renderam diversos prêmios e indicações, incluindo três Grandes Otelo, dois Prêmio Arte Qualidade, um Prêmio Guarani, dentre outros. Ele morreu aos 58 anos, vítima de um infarto fulminante, durante as filmagens do filme "Vitória", que ocorriam na cidade de Vicência, em Pernambuco.
Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone publicou: “A trama gira em torno de Nina (Fernanda Montenegro), uma mulher idosa que vive sozinha em um apartamento e se sente angustiada com a crescente violência em seu bairro. Em meio a conflitos com os vizinhos, ela começa a filmar a movimentação de traficantes de drogas da sua janela, na esperança de colaborar com a polícia. Após meses registrando as atividades suspeitas e flagrando crimes, sua iniciativa atrai a atenção de um jornalista, que se aproxima de Nina e ajuda na investigação.
Inspirado no livro ‘Dona Vitória da Paz’ [publicado em 2006 pelo jornalista Fábio Gusmão], a trama gira em torno da Dona Nina, que denunciou um esquema de tráfico de drogas na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, a partir de filmagens feitas da janela de sua casa.
Dona Vitória, nome pelo qual ficou conhecida, se tornou uma heroína após uma reportagem sobre seus atos ganhar as páginas do jornal Extra em 2005. Suas denúncias foram tão importantes que foi preciso que ela entrasse para o Programa de Proteção à Testemunha.
As filmagens feitas por Dona Nina levaram trinta pessoas presas, entre elas traficantes e policiais que recebiam propina. Por esse motivo, sua identidade permaneceu em segredo durante os últimos anos de sua vida. No entanto, Joana Zeferino da Paz teve seu verdadeiro nome revelado após a sua morte aos 97 anos em fevereiro de 2023, em Salvador, no Estado da Bahia.
No filme, Fernanda Montenegro interpreta uma mulher que, na vida real, era negra. O que causou polêmica. No entanto, Joana Zeferino da Paz, figura que inspirou a história, queria que a veterana a interpretasse nos cinemas. Assim que a primeira imagem oficial do filme foi divulgada, algumas pessoas foram às redes sociais questionar a escolha de uma atriz branca para interpretar uma pessoa que era negra. O mesmo aconteceu quando o filme chegou aos cinemas brasileiros.
Os questionamentos, no entanto, precisam levar em conta que a identidade e a etnia de Joana da Paz só ficaram conhecidas publicamente após o seu falecimento, em 2023 e, portanto, após a concepção e o desenvolvimento do projeto. Fábio Gusmão, repórter responsável em contar a história, declarou em entrevista para o Splash que era um desejo da própria Joana ter Fernanda Montenegro no papel. ‘Ela dizia: ‘imagina se a Fernanda Montenegro fizer o meu papel, acho ela extraordinária! Merecia ter ganho o Oscar’. Ela lembrava de ‘Central do Brasil’ e repetia sobre isso, porque ficava muito eufórica’. Ele lembra que Joana da Paz sempre o questionava sobre quem seria atriz escolhida. Quando a confirmação veio, ele conta que ela ficou bastante feliz. Joana Zeferino da Paz, a verdadeira Dona Vitória, faleceu em 22 de fevereiro de 2023, aos 97 anos, após sofrer um AVC (acidente vascular cerebral)”.
Além de contar com Fernanda Montenegro, o elenco é formado também por Linn da Quebrada, Alan Rocha, Sacha Bali, Felipe Paulino, Thelmo Fernandes, Laila Garin, Sílvio Guindane e Jennifer Dias.
O que disse a crítica 1: Jorge Mourinha do site Público PT avaliou com 1 estrela, ou seja, ruim. Disse: “’Vitória’ tem Fernanda Montenegro, mas não tem mais nada. Fernanda Montenegro é Fernanda Montenegro, mas Andrucha Waddington não é Walter Salles, e ‘Vitória’ não passa de um ‘filme Netflix’ com a espessura de uma telenovela”.
O que disse a crítica 2: Robledo Milani do site Papo de Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: “Qualquer país que se dê ao luxo de produzir cinema estrelado por uma atriz nonagenária em pleno domínio do seu ofício e em grande lançamento comercial deveria privilegiar esse feito como um acontecimento ímpar. O Brasil – e o brasileiro – deveria assistir à ‘Vitória’ quase como no cumprimento de um dever cívico, prestigiando uma de suas maiores atrizes em um exercício que muito lhe exigiu, resultando em uma entrega à altura do compromisso. A câmera de Waddington se mostra embevecida por sua protagonista, e é ela quem comanda mais de 90% das cenas. Porém, ao mesmo tempo que por um lado há esse chamado, também se faz preciso uma ciência a respeito dos deslizes narrativos cometidos, das fragilidades de composição – os diálogos por demais expositivos, as facilidades estruturais, a falta de um clímax envolvente, as resoluções por demais simplistas – e também do uso de recursos que, se por um lado se mostram afeitos a um discurso urgente, por outro devem se mostrar esvaziados com o passar do tempo. Eis, enfim, um conto-denúncia, para o aqui e agora. Tanto Fernanda Montenegro, quanto a própria Vitória, mereciam mais”.
O que disse a crítica 3: Martinho Neto do site Cinema com Rapadura avaliou com 4,25 estrelas, algo entre ótimo e excelente. Disse: “Mais do que um filme sobre crime e justiça, ‘Vitória’ se destaca como um retrato sensível da velhice, da resiliência e do que significa lutar para permanecer em um lugar que se transforma sem pedir permissão a quem estava lá há muito tempo. Fernanda Montenegro conduz essa narrativa com a força de uma atriz que, assim como sua personagem, compreende profundamente o peso da história que carrega”.
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro de não ficção "Dona Vitória Joana da Paz", escrito pelo jornalista brasileiro Fábio Gusmão, que conta a história real de Joana Zeferino da Paz, conhecida pelo pseudônimo de Dona Vitória. Aos 80 anos, da janela de seu apartamento em Copacabana, no RJ, ela usou uma filmadora para registrar secretamente a rotina de traficantes e a corrupção policial na Ladeira dos Tabajaras. Fábio Gusmão foi o repórter do jornal Extra que recebeu as fitas e revelou o caso em 2005. Ele reuniu os bastidores das investigações e a rotina da idosa, que precisou viver sob o programa de proteção à testemunha. O filme foi protagonizado por Fernanda Montenegro, misturando elementos de drama policial com foco na coragem da personagem. Do alto dos seus 92 anos – idade que a atriz tinha quando o filme foi rodado – ela dá super conta do recado, transmitindo toda a vulnerabilidade, o medo, a solidão e a determinação da personagem. Se por um lado a escolha da atriz veterana foi acertada, por outro essa escolha gerou debates sobre representatividade racial. Como a verdadeira dona Vitória era negra, por que não escalar uma atriz com essa etnia? Pelo que foi divulgado, quando o projeto do filme começou, a verdadeira Joana vivia sob o programa de proteção à testemunha. Com isso, sua real identidade, história e traços físicos eram mantidos sob total sigilo de Estado para garantir sua segurança. A equipe criou a personagem sem se basear na aparência real de Joana. A única pessoa de fora do governo que mantinha contato direto com ela era o jornalista que escreveu o livro. O sigilo absoluto existia para a equipe de produção do filme (diretores, roteiristas e atores) e para o público geral, mas não para o repórter que descobriu a história. Foi ele que serviu de ponte na assinatura de contrato para feitura do filme, mas ele não podia divulgar documentos, fotos ou sua localização física. A única coisa que Gusmão declarou é que ela era muito fã de televisão e que chegou a dizer ao jornalista que seu sonho era ser interpretada por Fernanda Montenegro, a quem considerava uma atriz extraordinária. Como Joana veio a falecer em 2023, sua identidade pôde ser finalmente divulgada. O filme já havia sido rodado, mas ainda foi possível acrescentar - durante a fase de edição e finalização - uma imagem real dela no encerramento da obra, servindo como uma homenagem póstuma à verdadeira heroína da história. Ao seu lado, na foto, está Fábio Gusmão. O resultado é bem interessante. Com essa atriz estupenda na tela, você terá a oportunidade de conhecer essa história insólita de uma mulher que não cruzou os braços, expondo de forma sensível o etarismo - através do descaso com que a sociedade e o Estado tratam os idosos – e a conivência da corrupção das autoridades de segurança a que estamos sujeitos. Com certeza, é um filme que vale a pena ser visto.