21.9.26

“Edvard Munch” - Peter Watkins (Suécia/Noruega, 1973)

Sinopse:
Cinebiografia do pintor expressionista norueguês Edvard Munch (Geir Westby), que viveu de 1863 a 1944. O filme se concentra nos anos de formação de Munch, tanto do homem quanto do artista. Acompanhamos seus problemas familiares, seu conturbado relacionamento com uma mulher casada (Gro Fraas), sua amizade com o dramaturgo August Strindberg (Alf-Kåre Strindberg) e a criação de suas principais telas, dentre elas “O Grito” (1893).
Comentário: Peter Watkins (1935-2025) foi um cineasta e roteirista inglês. Viveu na Suécia, Canadá e Lituânia. Pioneiro do docudrama, todos os seus filmes foram ou documentários ou dramas apresentados com técnicas de documentário, por vezes apresentando acontecimentos históricos e outros eventos possíveis no futuro imediato, como se repórteres e cineastas estivessem lá para entrevistar os participantes. “Edvard Munch” (1973) é o primeiro filme que vejo dele.
Jean-Luc Douin do Monde publicou na Folha de São Paulo: "Duramente criticada em seu lançamento em 1973, a biografia do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) feita por Peter Watkins foi relançada na França.
A obra foi considerada por Ingmar Bergman 'um trabalho de gênio'. Profundamente subjetivo (o cineasta coloca nele seu próprio 'grito'), o filme utiliza um método revolucionário: uma montagem alquímica mistura a elaboração de quadros, uma cronologia alterada por reminiscências obsessivas, o 'leitmotiv' [um leitmotiv é um tema, objeto ou frase recorrente que serve para construir os aspectos metafóricos e temáticos de uma obra] de uma memória assombrada por cenas-chaves e intervenções de personagens, que, como se estivessem sendo entrevistados, assumem juízos morais e estéticos.
O alcance dessas confissões-intervenções filmadas cara a cara incomoda o esquema pedagógico do projeto, já que Watkins quis que elas fossem relativamente sem controle, espaços de liberdade oferecidos aos atores não profissionais envolvidos na aventura.
Carregado de angústia, de cores espasmódicas, de ambiências crepusculares, de tensão sexual e de palidezes moribundas, 'Edvard Munch' explora o contexto ideológico (o trabalho infantil na indústria), médico-familiar (tuberculose hereditária, agonias sem fim, mulheres e crianças cuspindo sangue), artística (salões de café enfumaçados onde se reunia a boemia de Christiania, como o pintor Christian Krohg e o escritor 'sedicioso' Hans Jaeger).
Desenhando freneticamente, arranhando, entalhando a tela, incidindo a matéria com um nervosismo revelador da intensidade emocional, Munch encarna um homem refém do desejo e assombrado por dois fantasmas - a doença e o puritanismo.
Refaz ao infinito as hemorragias pulmonares dos parentes, o ambiente de fogo e enxofre que o cerca. Os anjos negros que o velaram no berço têm aqui a figura de um pai que lhe impõe o retorno para casa toda noite para a prece diária ou as máscaras de uma burguesia hipócrita que reprova seus companheiros e demoniza a libido.
Nessa segunda metade do século 19, a polícia controla a prostituição e as doenças venéreas, enquanto à margem dos salões que vivem de condenar as blasfêmias se reproduzem artistas que 'falam de Marx e de Darwin' e mulheres 'insubmissas', decididas a viver sua própria lei.
Munch, como seus amigos Jaeger, Ibsen ou Strindberg, é refém de um doloroso paradoxo. Ele faz parte desses homens decididos a denunciar a escravidão do casamento e a não mortificar seus instintos, mas que sofrem ao ver suas amantes se converterem ao amor livre e enxergam as mulheres liberadas como vampiras.
O filme é ritmado por esse triplo pesadelo: tosses de sangue sobre travesseiros brancos, ecos recorrentes de choros e gemidos do artista; a eterna visão dessa senhora Heiberg, uma mulher casada de quem ele deseja a pele macia, mas que se entrega a outro homem e que ele passa a perseguir e a ameaçar ('Você acabará feia e deformada, e eu rirei disso!').
Expressão íntima da melancolia, de uma angústia que colore céus e nuvens de vermelho-sangue, a pintura de Munch é divagação de um frustrado, tensão psíquica e sexual, exacerbação de uma 'alma ferida' por pulsões não satisfeitas e apaixonada por madonas com rostos cadavéricos.
Esse é o segredo de seu imaginário, em que seres apaixonados de rostos disformes se devoram e uma sexualidade voraz frequentemente termina no túmulo. Daí vem o equívoco, denunciado por Kokoschka: 'O espírito de Munch lhe permite diagnosticar um terror justamente onde se acreditava estar o progresso social'.
Aí mora o sublime horror de Munch, marca de uma subversão carnal e de um imaginário cósmico. Corpos condenados ao grito infinito no torpor das noites por essa maldição que ainda faz sentido: 'O ciúme não vem do medo de perder, mas do de partilhar'".
O que disse a crítica 1: Maria do Rosário Caetano da Revista de Cinema gostou muito. Disse: "O lançamento no mercado brasileiro do DVD da série que o britânico Peter Watkins dedicou ao pintor Edvard Munch (1863-1944), autor do seminal 'O Grito', constitui fato notável. A Versátil, com este ousado lançamento (mais de 300 minutos de duração), apresenta aos que se interessam por pintura e pelo cinema documental, filme único, obrigatório. Realizado em 1973, ' Edvard Munch' é velho conhecido da cinefilia europeia. O passar do tempo fez dele objeto de culto, festejado em sólido verbete no 'Dictionaire de la Pensée du Cinéma', organizado por De Baecque & Chevalier. (...) E por que ' Edvard Munch' é tão importante? Porque constitui um dos pontos altos da filmografia do octogenário Witkins, um dos renovadores da docficção ou etnoficção. Ou, ainda, docudrama, apesar do desgaste deste termo".
O que disse a crítica 2: J. Hoberman da Artforum escreveu: "É um ensaio com atores que possui a forma e os recursos de um documentário: discurso direto, narração em contraponto, enquadramento casual, zooms estilo vérité. Com mais de três horas de duração, o filme é densamente editado e em grande parte acronológico. As cenas dramáticas são fragmentadas - frequentemente uma sucessão de closes - mas não indiretas. De forma alguma esotérico e sempre consciente da questão de classe, Watkins se esforça para estabelecer a infância miserável e marcada pela morte do artista norueguês, o meio social em que nasceu e o círculo boêmio ao qual gravitou - com atenção especial às questões de liberdade sexual. Utilizando os diários de Munch para estabelecer um monólogo interior, Watkins salta para frente e para trás no tempo, com os flashbacks proliferando freneticamente à medida que seu filme se aproxima do fim. (...) Não há como confundir 'Edvard Munch' com outra coisa senão um filme. Poderíamos chamar a montagem de Watkins de livre associação, se não fosse tão musical. Ela se preocupa tanto com a repetição e a variação quanto o próprio Munch - e é tão complexa à sua maneira quanto 'A Criança Doente' [título dado a seis pinturas e a diversas litografias, gravuras a ponta-seca e a água-forte do pintor norueguês feitas entre 1885 e 1926]".
O que eu achei: "Edvard Munch" (1974) foi uma minissérie produzida para a TV e depois transformada num longa com 3h30 de duração. O diretor, Peter Watkins, foi um cara que revolucionou o cinema ao fundir a linguagem do documentário televisivo com a encenação da ficção, tornando-se o pioneiro do chamado docudrama. Em uma época em que o cinema histórico era dominado por dramas românticos e lineares, foi ele quem quebrou a chamada ‘quarta parede’ e utilizou técnicas de jornalismo para retratar o passado e o presente. O objetivo desse trabalho é contar a história do pintor Edvard Munch (1863-1944), famoso pelo quadro “O Grito”. A base para o trabalho não foi nenhuma biografia escrita por terceiros, mas sim os diários do próprio artista que somam mais de 13.000 páginas, revelando que ele era tão obsessivo com as palavras quanto era com os pincéis. Watkins filmou uma parte desse diário. O recorte começa em 1880 – quando ele tinha 17 anos e resolveu se tornar pintor – até 1908, quando ele estava com 45 anos e teve um colapso nervoso. Como Watkins raramente trabalhava com astros de cinema, quem assume o papel principal é Geir Westby, um ator não profissional em sua estreia nas telas. Em vez de utilizar estúdio, Watkins utiliza uma câmera de 16mm na mão que parece perseguir os personagens, como se uma equipe de reportagem tivesse viajado no tempo para registrar a efervescência da antiga Christiania (atual Oslo), onde ele cresceu, e os tormentos do pintor. Outro recurso curioso é fazer com que os personagens olhassem diretamente para a lente da câmera, interagindo com quem está assistindo, bem ao estilo do seriado “The Office”. Há também uma narração feita pelo próprio Watkins, que transmite dados históricos, estatísticas de saúde da época e trechos dos diários de forma sóbria e factual, contrastando fortemente com a montagem febril, não linear e com o design de som imersivo que reflete o estado mental do artista. Quase todas as falas reflexivas sobre os sentimentos de Munch, seus traumas de infância (como a morte da mãe e da irmã) e suas obsessões amorosas dolorosas foram retiradas palavra por palavra de seus diários. Apesar da genialidade do diretor nessa abordagem altamente inventiva, o resultado é cansativo. Talvez se a obra fosse consumida no formato de minissérie a experiência fosse menos exaustiva, mas, como longa-metragem, as 3h30 de duração custam a passar. O ritmo arrastado, a lentidão e o excesso de flashbacks repetitivos cobram um preço alto do espectador. Foi um desafio de resistência chegar até o final. Outro problema diz respeito ao recorte feito por Watkins que se foca basicamente no mito do artista maldito. O longa aborda o período mais difícil de sua vida, marcado pela miséria familiar, pelo alcoolismo e pela rejeição violenta da crítica conservadora de Christiania. Watkins foca nos escândalos, como a famosa exposição de Berlim em 1892 que foi fechada pela Associação de Artistas local após uma votação interna por considerá-la ultrajante. O diretor usa isso para pintar Munch como um eterno injustiçado pelo sistema e pela burguesia. Ao focar no diário, o filme prioriza a dor e o sofrimento que são a gênese do Expressionismo. Aparentemente, mostrar Munch colhendo os frutos do sucesso quebraria o clima de opressão que o diretor queria construir. Com isso fica de fora o sucesso estrondoso que Munch fez a partir de 1908. Não é mostrado que, após sofrer o colapso nervoso e se internar em uma clínica na Dinamarca para tratar o alcoolismo, Munch retorna à Noruega transformado. O filme até menciona que, a partir daí, sua arte mudou: ele passou a pintar paisagens solares, trabalhadores e cores vibrantes. Mas não é mencionado em nenhum momento que em 1909, o governo norueguês o convidou para pintar os gigantescos murais da Universidade de Oslo, que foi sua consagração nacional, fazendo dele um herói da pátria. Também é omitido que aos 53 anos, Munch já era um homem próspero e internacionalmente aclamado. Ele comprou uma imensa propriedade em Ekely, onde ele construiu vários estúdios ao ar livre e de inverno, vivendo como um proprietário de terras rico. Então o filme até vale pelo aprendizado sobre a mente de Munch e por mostrar parte de sua revolução estética, mas exige uma paciência que nem todo mundo está disposto a ter para, ao final, não sabermos tudo sobre ele.