13.9.26

“Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” - Mary Bronstein (EUA, 2025)

Sinopse:
Com a vida desmoronando ao seu redor, a psicóloga Linda (Rose Byrne) tenta lidar com a misteriosa doença de sua filha (Delaney Quinn), seu marido ausente (Christian Slater), uma pessoa desaparecida (Danielle Macdonald) e um relacionamento cada vez mais hostil com seu terapeuta (Conan O'Brien).
Comentário: Mary Bronstein (1979) é uma atriz e cineasta americana. Seu primeiro longa como diretora foi “Levedura” (2008). O segundo, “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” (2025), veio 17 anos depois é o primeiro filme que vejo dela.
A própria diretora Mary Bronstein publicou no Los Angeles Time: “‘O trabalhador pode se sindicalizar, entrar em greve; as mães são separadas umas das outras em casa, ligadas aos seus filhos por laços de compaixão; nossas greves selvagens muitas vezes assumiram a forma de colapso físico ou mental’, escreveu Adrienne Rich em ‘Of Woman Born’.
Quatro décadas depois, comecei a escrever “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”. Suas palavras ressoam em mim porque experimentei o terror existencial de amar minha filha tão intensamente, de cuidar dela com tanta intensidade, que a única maneira de sustentar isso em meio à sua crise de saúde foi me separar de mim mesma e experimentar o horror de desaparecer. Ninguém tinha a obrigação de cuidar de mim. Ninguém se preocupava em como eu poderia manter um senso de identidade diante da situação crítica de uma criança doente. Claro que não. Eu era a Mãe. Mas eu não precisava existir como uma pessoa independente para cumprir a tarefa que me foi atribuída quando minha filha deixou meu corpo sete anos antes? De que outra forma poderíamos sobreviver?
Será que o cinema conta - e, portanto, valida - histórias de mães lidando com esse dilema tão complexo? O imperativo existencial de se conhecer como um indivíduo separado, com desejos, necessidades e limites, colidindo com as necessidades persistentemente abrangentes de outra pessoa, uma pessoa que começou este mundo como parte do seu próprio corpo e alma? Não até que me sentei para escrever o roteiro que me daria um espaço para expressar o tabu, o proibido, o absurdo e os sentimentos aterrorizantes que eu sabia que não estava sozinha. Não até que eu dei vida a este filme.
Primeiro, precisei desempoeirar e reivindicar o título de Artista que havia enterrado sob a frustração e o ressentimento, e colocá-lo em destaque ao lado do de Mãe. Enquanto escrevia o roteiro, vi minha filha se recuperar, mas minha mãe morrer. Mostrei o roteiro a todos e a reação foi unânime: ‘Este é o melhor roteiro que já li’, e mesmo assim ninguém o financiava. Em vez disso, ouvia: ‘Talvez se você pegasse mais leve nisso... Talvez se ela não fosse bem assim... Se ela tivesse um caso amoroso... Você vai ter que cortar essa cena... Precisamos ver a criança! Ninguém usa efeitos práticos assim... Ninguém vai gostar dessa mulher... Você já pensou em como torná-la mais simpática? Essa subtrama tem potencial comercial, você já considerou transformá-la em um mistério sobre uma mulher desaparecida? Que tal tornar tudo... mais fácil?’ Não. Não. Não.
Leitor, ouvi muitos ‘nãos’. Eu disse muitos ‘nãos’. Não parei. Eu precisava fazer este filme. Não era desejado. Era necessário.
Se eu não fizesse este filme, um vazio violento, construído a partir de um trauma complexo, ficaria preso dentro de mim. Eu precisava que as pessoas experimentassem esse sentimento. Eu sabia que as pessoas se veriam pela primeira vez neste filme. Eu sabia que meu sentimento tão específico também era, de alguma forma, universal. Eu confiava no material, em mim mesma, na minha visão. Finalmente, alguém disse ‘Sim’. Mas eu só tinha metade do dinheiro necessário. Continuei até conseguir a outra metade. Me deram 25 dias. Usei meu cachê de diretora para comprar mais dois. Não haveria tempo no set para um único erro ou muitas tomadas. Então, criei um sistema pelo qual eu não poderia falhar.
Os ensaios começaram um ano antes das filmagens, com atores que me surpreenderam com a confiança que depositaram na minha visão. No meio disso tudo, meu pai faleceu. De repente, eu era uma filha órfã. Então, embarquei na maior empreitada do filme: criar a personagem Linda com Rose Byrne. Isso aconteceu na mesa da minha cozinha, meses antes da inauguração do nosso escritório de produção. Através do nosso trabalho em particular, ela deu vida a Linda, da página para o corpo, tornando-a um avatar emocional para os meus medos mais profundos e fantasias mais sombrias. O trabalho com o meu diretor de fotografia, Christopher Messina, na linguagem visual, iluminação e aspectos técnicos do filme, durou mais de um ano antes das filmagens. Não havia dias suficientes. Assim, os elementos surrealistas e experimentais do filme foram filmados na pós-produção, apenas eu, o meu diretor de fotografia e muitas idas à loja de artesanato.
A árdua jornada para levar ‘Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria’ da ideia à tela é um exemplo do que uma cineasta faz quando precisa fazer um filme. Ela encontra um jeito. Ela rouba tempo. Ela transfere seu entusiasmo e visão integralmente para os outros artistas de quem depende. Ela chora em segredo e demonstra uma confiança inabalável em público. É o mesmo que uma mãe faz, mesmo à beira de um colapso nervoso: ela não pode entrar em greve. Ela tem um colapso mental e, então, consegue terminar o trabalho”.
O que disse a crítica 1: Caio Coletti do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “‘Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria’ não é exatamente um prato cheio para quem gosta do seu cinema com um adicional de otimismo - mas, ao menos, a sua crueldade tem propósito. Em seu segundo longa-metragem (...), Mary Bronstein pinta um retrato impiedoso do isolamento e da volatilidade do ser mãe, das pressões sociais que, por sua vez, criam ansiedades e medos inverbalizáveis. Pior: quando eles finalmente escapam, porque precisam escapar, pela boca amarga de quem está os reprimindo, esses medos são seguidos por olhares de desaprovação, movimentos de desvencilhamento, e, portanto, ainda mais isolamento. É um ciclo vicioso que vai girando e girando na direção de um desastre anunciado, mas nem por isso menos trágico”.
O que disse a crítica 2: O Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “De certo modo, o projeto estabelece uma bela dupla com ‘A Substância’, enquanto retratos das pressões insanas atribuídas às mulheres, até que sejam aniquiladas em corpo e mente. Serão reduzidas a uma gosma, no caso do terror de Coralie Fargeat, e a uma presença ausente, esvaziada de sentidos, no filme de Mary Bronstein. Sem surpresa, as obras mais potentes acerca da condição feminina surgem das novas diretoras, enfim ganhando acesso à câmera e aos meios de criação, para contarem suas histórias originais. Este projeto pode representar uma experiência dura, incômoda, e consciente de sê-lo. Entretanto, poucos dramas representam de maneira tão incisiva a psique de uma pessoa esgotada”.
O que eu achei: Interessante como o fato de termos cada vez mais mulheres cineastas faz com que o tema ‘ser mãe não é fácil’ surja à tela com mais frequência e de forma não romantizada. Fazem parte desse universo longas como "Precisamos Falar Sobre Kevin" (2011) e "Morra, Amor" (2025) da Lynne Ramsay, “Canina” (2024) da Marielle Heller ou mesmo "A Garota Canhota" (2025) da Shih-Ching Tsou. Essa desconstrução do mito da ‘mãe perfeita’ também é o tema de “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” (2025), o novo longa de Mary Bronstein. Na trama, Linda (Rose Byrne) é uma psicóloga que atende no Centro de Artes Psicológicas em Montauk enquanto tenta lidar com a misteriosa doença de sua filha que precisa se alimentar por um tubo, um marido que trabalha como capitão de navio e fica mais ausente do que presente, um relacionamento pouco empático com seu terapeuta, uma paciente que desaparece largando seu filho bebê na sala de atendimento e um teto desabando em sua residência. É a fórmula perfeita para alguém enlouquecer, especialmente se, assim como Linda, essa mãe não tiver uma rede de apoio. A própria diretora Mary Bronstein passou por um período extremamente doloroso e traumático que serviu de base direta para o roteiro. Anos atrás, a filha dela, na época com cerca de 7 anos de idade, adoeceu gravemente com uma condição rara. Na época, Bronstein precisou enfrentar essa crise de forma muito isolada pois seu marido viajava constantemente a trabalho. Ela chegou a se mudar às pressas de Nova York para San Diego em busca do único tratamento viável para a filha. Esse esgotamento físico e psicológico, somado à sensação de estar perdendo o controle da própria sanidade mental, foi o combustível para a criação do roteiro. Embora o filme não seja estritamente autobiográfico em seus fatos, Bronstein faz questão de ressaltar que ele é ‘emocionalmente verdadeiro’. Escrever o roteiro foi, para ela, uma forma de canalizar o trauma, a culpa e a fúria acumulada que o isolamento do cuidado materno gera. Como o primeiro filme de Bronstein foi feito em 2008 e só agora, em 2025, ela conseguiu lançar o segundo, fiquei me perguntando se esse hiato de 17 anos se deu pela maternidade e descobri que, de fato, a maternidade foi parte do problema. Em 2008, quando ela estreou seu primeiro longa, “Levedura” (uma comédia ácida que codirigiu e estrelou ao lado de Greta Gerwig), ela foi recebida com muita agressividade, especialmente por jovens cineastas homens. O filme trazia um retrato cru e nada idealizado da amizade feminina. Desanimada com um ambiente independente que parecia não querer ou não entender sua voz, Bronstein decidiu simplesmente se afastar do cinema. Durante esse período longe da direção, ela foi fazer outras coisas: obteve um mestrado em psicologia, gerenciou uma pré-escola subterrânea no Brooklyn e sobre escreveu teoria feminista para livros acadêmicos. Essa transição acadêmica explica perfeitamente porque ela domina tão bem o vocabulário clínico e a ambientação do consultório da Linda no novo filme. Foi na sequência que veio a maternidade. Sua filha nasceu e, anos mais tarde, adoeceu gravemente. O estopim para a escrita de "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" aconteceu quando ela se viu ilhada por oito meses em um quarto de motel barato em San Diego, cuidando da menina e lidando com um terror existencial profundo. Foi trancada no banheiro daquele motel que ela voltou a escrever. O resultado é um filme de ritmo frenético, claustrofóbico e urgente. É classificado por especialistas como ‘uma comédia ácida de terror psicológico’, o que significa que o medo gerado – sim, levei vários sustos durante a projeção - não vem de monstros ou fantasmas, mas sim do pânico realista do esgotamento humano, ao mesmo tempo em que você ri de nervoso das situações absurdas que vão se acumulando. É bastante positivo o surgimento de uma safra de filmes que não tenta vilanizar as mães, mas sim validar suas dores e o esgotamento físico e psicológico diante de uma estrutura social que exige tudo das mulheres sem lhes oferecer nada. É o cinema deixando de lado a ‘maternidade por obrigação’ e permitindo que essas personagens sangrem, gritem e desabem na tela. Atenção ao ator que interpreta o terapeuta. Ele é Conan O'Brien, o famoso apresentador de late-night norte-americano e humorista que acumula um longo histórico de farpas públicas com Donald Trump. Vale ver.