6.9.26

“O Cativo” - Alejandro Amenábar (Espanha/Itália, 2025)

Sinopse:
 Argel, 1575. Miguel de Cervantes (Julio Peña), um soldado ferido de 28 anos da Marinha Espanhola, é feito prisioneiro por corsários otomanos. Sem saber que seu destino é a morte, Cervantes encontra refúgio na arte da ficção e da contação de histórias. Esperando que seu resgate seja pago, as incríveis e fascinantes narrativas do artista estabelecem a esperança dos companheiros de prisão e, eventualmente, atraem a atenção do misterioso e temido paxá Hassan (Alessandro Borghi).
Comentário: Alejandro Amenábar (1972) é um cineasta chileno-espanhol nascido em Santiago do Chile. Ele dirigiu diversos filmes, além de ter atuado na produção de roteiros ou como produtor e compositor de músicas. Vi dele a obra-prima "Os Outros" (2001), os bons "Preso na Escuridão" (1997) e "Mar Adentro" (2004) e os medianos "Regressão" (2015) e "Alexandria" (2009). Desta vez vou conferir “O Cativo” (2025).
Quem nunca ouviu falar em Miguel de Cervantes (1547-1616)? Ele nasceu na cidade de Alcalá de Henares, perto de Madrid e se tornou um importante escritor, dramaturgo e poeta espanhol, mundialmente famoso por ser o autor de “Dom Quixote” (1605), considerado um dos maiores romances da literatura ocidental. A vida real de Cervantes foi tão cheia de aventuras quanto às de seus próprios personagens. Em 1571, ele lutou na famosa Batalha de Lepanto. Ele foi gravemente ferido e perdeu o movimento da mão esquerda, ganhando o apelido de "o manco de Lepanto". Na viagem de volta para a Espanha, seu navio foi atacado por piratas e ele foi levado como prisioneiro para Argel onde passou cinco anos, até sua família conseguir pagar o resgate. Ele escreveu a primeira parte de Dom Quixote enquanto estava na prisão e com dificuldades financeiras. Além de “Dom Quixote”, Cervantes escreveu várias peças de teatro e uma famosa coletânea de contos chamada “Novelas Exemplares”. Ele faleceu em Madrid aos 68 anos.
Maria do Rosário Caetano do site Revista de Cinema publicou: “As liberdades tomadas por Alejandro Amenábar ao escrever o roteiro de ‘O Cativo’ são (...) ousadas. Ao optar pela construção de um drama histórico queer (ou ‘homoerótico’ em sua própria definição), o diretor do oscarizado ‘Mar Adentro’ soltou as asas da imaginação. Para ele, o soldado (e futuro escritor, cânone da língua castelhana) Miguel de Cervantes Saavedra viveu uma história de amor físico e intelectual com o paxá Hassan, governador de Argel, grande cidade situada na África árabe.
O que se sabe é que, por volta dos 28 anos, o militar, que defendia a Coroa espanhola, caiu prisioneiro de corsários berberiscos [piratas e marinheiros muçulmanos que operavam a partir do norte da África entre os séculos XI e XIX]. E foi levado, junto a outros detidos (incluindo religiosos), para Argel. Onde permaneceria preso por cinco anos (de 1575 a 1580).
A vivacidade e inteligência do prisioneiro - nos mostrará o filme - suplantariam suas imensas cicatrizes físicas (no ombro e numa mão avariada) provocadas pelas refregas da Batalha de Lepanto (no Porto Patras-Grécia). Até o tinham como manco (mas o Cervantes de Amenábar, interpretado por Julio Penã, é lindo de morrer, não manca e passa anos vestido com o mesmo e atraente conjuntinho preto).
Dono de imaginação fértil e protegido pelo Padre Antonio de Sosa (Miguel Rellán), também prisioneiro, o jovem vai ler muitos livros (inclusive o seminal ‘Lazarillo de Tormes’), inventar histórias que encantarão os encarcerados e até os carcereiros. E que seduzirão o paxá Hassan (Alessandro Borghi, de olhos mediterrâneos de tão azuis). Este, nascido em Veneza, criado em Bolonha, fluente em cinco línguas e convertido ao Islã, fora designado como o poderoso governador de Argel. E seria atendido, em suas horas de alcova, por vários mancebos”.
Esse romance citado por Caetano chamado “Lazarillo de Tormes” é considerado o primeiro romance picaresco da história e uma das obras mais importantes da literatura espanhola. Foi publicado em 1554 por um autor anônimo, inaugurando um estilo literário totalmente novo que influenciou grandes escritores, incluindo o próprio Miguel de Cervantes.
“A história oficial de Cervantes diz que ele era heterossexual, que viveu amores na Lusitânia e, na Espanha natal, casou-se com Catalina de Palácios Salazar. Amenábar sentiu-se à vontade para preencher as imensas lacunas existentes na vida do criador de ‘Novelas Exemplares’ e de ‘Dom Quixote’ (‘O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha’, cuja primeira parte foi publicada em 1605, e a segunda, ‘O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote de la Mancha’, em 1615).
O cineasta disse a jornais de seu país que se sentiria ‘um mojigato’ (um hipócrita, um falso moralista) se tivesse ocultado ‘o homoerotismo existente entre Cervantes e seu ‘captor’. Ou seja, o governador, que o mantinha prisioneiro.
‘O Cativo’ dura 134 minutos. No começo, nos deparamos com um drama histórico muito bem filmado, com ótimas locações (palácios e praças árabes, movimentados mercados populares), figurinos bem desenhados, cabelos e maquiagem que nos remetem, com certa liberdade, ao século XVI.
Das sete indicações ao Goya recebidas por ‘O Cativo’, duas são para atores (Miguel Rellán, um velho padre, o grande destaque do filme, e Julio Peña, o protagonista, como revelação), uma para direção de produção e as restantes para som, direção de arte, figurino e maquiagem e cabelos. Pelas categorias principais (melhor filme, direção, atores principais, roteiro, fotografia), o novo longa de Amenábar passou batido. E olha que o cineasta fez sua estreia no Goya, quase 30 anos atrás, já causando furor (melhor diretor estreante e melhor roteiro para ‘Tesis’). E chegaria ao cume da glória com ‘Mar Adentro’, laureado com 14 ‘cabeçudos’ (apelido do prêmio que homenageia Francisco de Goya y Lucientes).
Até aparecer, numa movimentada rua argelina, um homem abraçado a uma ‘odalisca’ (logo descobriremos tratar-se de acompanhante transexual), o roteiro de Amenábar parece interessado em retratar as experiências que fertilizarão o imaginário do futuro escritor. Veremos, inclusive, um homem muito magro montado num alazão branco, tendo ao lado um ajudante gordo e baixinho, enganchado em montaria parecida com um reles burrico. Protótipos, claro, do cavaleiro da triste figura, Dom Quixote de la Mancha, e seu escudeiro Sancho Pança. Depois, veremos no filme uma misteriosa barbearia, fachada de casa de libidinosos encontros. Aí, sim, teremos todos as pistas de que, sim, estamos diante de um drama histórico queer. (...)
‘O Cativo’ não deve colocar número significativo de novos troféus Goya nas estantes do mega apartamento de Amenábar, situado defronte ao Palácio Real, em Madri. A edição desse ano está com os sentidos tomados por [outros longas]. (...) Mas, para aqueles que quiserem conhecer o período mais obscuro da tumultuada existência do jovem Miguel de Cervantes, décadas antes dele tornar-se o grande nome da literatura em língua espanhola, ‘O Cativo’ há de ter seus méritos. Lembremos que o criador do fidalgo (depois cavaleiro andante) Dom Quixote abriu caminhos para a literatura anti-ilusionista de Fielding, Sterne, Machado de Assis e para o teatro de Brecht (vide ‘O Espetáculo Interrompido – Literatura e Cinema de Desmistificação’, de Robert Stam, Ed. Paz e Terra, 1981).
Amenábar fez questão de respeitar o idioma cervantino, o espanhol, que este ajudou a transformar no instrumento de comunicação do império cristão de Castela. E o colocou em diálogo com o árabe, a língua falada em Argel. E, à moda anti-ilusionista de seu ilustre conterrâneo, também fez um de seus personagens-cativos perguntar ao fabulador (alegria do cárcere com suas histórias lidas ou inventadas), como certo personagem se expressara em espanhol se era alheio ao idioma. Há pequenos detalhes, como este, no filme amenabariano, que podem encantar os admiradores de Miguel de Cervantes Saavedra”.
O que disse a crítica 1: Carlos Boyero, considerado um dos principais críticos da Espanha, não se entusiasmou com o novo filme de Amenábar. Para os espanhóis, que desde o ensino básico convivem com o cavaleiro da triste figura, ‘Dom Quixote de la Mancha’ é um livro fundador, formador. Para Boyero, ‘um tratado de humor, sabedoria, lucidez e alucinação’. Mas nada o atraiu na trama engendrada pelo badalado realizador nascido (por acaso) no Chile. Só o intérprete do Padre Antonio de Sosa, o veterano Miguel Rellán, o entusiasmou. O resto lhe pareceu ‘artificioso e inútil’”.
O que disse a crítica 2: Leonardo Campos do Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “Embora o renomado historiador José Manuel Lucía Megías tenha atuado como consultor histórico da obra, o filme opta por liberdades narrativas que divergem frontalmente das evidências acadêmicas defendidas pelo especialista. Para Megías, a representação de um Cervantes envolvido em atos homossexuais durante seu cativeiro em Argel não passa de um mito, fruto de um revisionismo transgressor surgido na década de 1980. Ele argumenta que um relacionamento entre Cervantes e paxá Hassan, dois adultos de idades quase idênticas, seria impensável no contexto islâmico da época, que admitia apenas relações hierárquicas entre homens mais velhos e jovens. Da mesma forma, o consultor refuta a trama que sugere um envolvimento de juventude entre o autor e seu mentor Juan López de Hoyos, classificando a ideia como uma invenção moderna de Fernando Arrabal. No entanto, equilibrando-se entre verdades históricas e licenças ficcionais, a produção sustenta atributos dramáticos louváveis em seu núcleo central, compensando o subdesenvolvimento de personagens secundários e certos conflitos menos envolventes”.
O que eu achei: O trailer de “O Cativo” (2025) já indicava o que viria pela frente: a biografia mega interessante do escritor Miguel de Cervantes dentro de um filme que fica aquém do esperado. Miguel de Cervantes (1547-1616) teve uma vida rica em experiências. Ele foi soldado, lutando, em 1571, na famosa Batalha de Lepanto contra o Império Otomano. Mesmo queimando de febre no dia do combate, conta-se que ele se recusou a ficar na cama e pediu para lutar. Ele levou três tiros: dois no peito e um no braço esquerdo, perdendo os movimentos desse braço para sempre. Por causa disso, ficou conhecido na história como ‘o maneta de Lepanto’. A forma como ele foi parar em Argel - cenário do filme - tem uma ironia trágica. Em 1575, o navio em que ele voltava para a Espanha foi atacado por piratas berberes. Com ele, Cervantes carregava cartas de recomendação de grandes líderes militares e do próprio irmão do rei, elogiando sua bravura em combate. Os piratas acharam que ele era um nobre importantíssimo e fixaram um valor de resgate absurdamente alto. Por conta disso, sua família, que era muito pobre, demorou cinco anos para conseguir juntar o dinheiro, ou seja, a carta de recomendação só o atrapalhou. É nesse período dos cinco anos de cativeiro em Argel que o filme se debruça. Ele liderou e organizou quatro tentativas de fuga mirabolantes (envolvendo cavar túneis e tentar fugir por mar). Todas falharam porque ele foi traído. O mais impressionante é que, toda vez que o plano era descoberto, ele assumia toda a culpa sozinho para proteger os outros prisioneiros. O governante de Argel ficava tão impressionado com a sua coragem e integridade que, em vez de executá-lo, apenas aumentava a sua vigilância. O cativeiro em Argel, que durou de 1575 a 1580, foi justamente o divisor de águas onde a sua genialidade como contador de histórias floresceu. Historicamente conta-se que ele escrevia alguns poemas religiosos e cartas, mas a sua principal ferramenta de sobrevivência e sanidade era a oralidade. Ele inventava e narrava crônicas para distrair, confortar e dar esperança aos outros presos diante dos horrores diários da escravidão. O filme explora exatamente essa transição poética: como aquele jovem soldado ferido encontrou nas palavras o seu verdadeiro refúgio e o seu maior poder, chamando inclusive a atenção de seu captor, o paxá Hasssan, governador de Argel, um homossexual que mantinha mancebos a seu serviço. No filme, ele desenvolve um envolvimento romântico com o próprio Cervantes. Contudo, essa dinâmica está longe de ser um fato consensual. Na história oficial, embora o diretor se baseie em acusações ambíguas feitas por inimigos de Cervantes na época (sim, ser homossexual nesse período era uma vergonha), especialistas apontam que um romance nesses moldes não seria tolerado naquele contexto histórico. Trata-se, na verdade, de uma ousada licença poética de Amenábar para tentar justificar, através de uma conexão íntima e emocional, o motivo pelo qual o escritor foi poupado da execução tantas vezes. Uma história interessante como essa tinha tudo pra gerar um ótimo filme, porém não é bem isso que ocorre. O filme sofre imensamente com problemas de ritmo e de montagem. Com mais de 2hs de duração, o longa se estende de forma desnecessária, arrastando sequências que poderiam ser resolvidas com muito mais agilidade e dinamismo. Além disso, Amenábar peca pela inconsistência de tom. Em vários momentos, o roteiro flerta com o drama histórico cru e violento da escravidão, mas logo em seguida muda bruscamente para alívios cômicos bobos que quebram completamente a imersão e a urgência do perigo. A sensação é a de assistir a uma colcha de retalhos: sobram subtramas e personagens secundários esquecíveis, mas falta foco na evolução psicológica do próprio Cervantes. Ao final, "O Cativo" desperdiça o imenso potencial de uma das biografias mais fascinantes da literatura mundial. Embora traga uma reconstituição de época caprichada e acerte ao mostrar a arte como um mecanismo de sobrevivência no cárcere, o longa se perde em suas próprias ambições, entregando um entretenimento morno que serve como uma introdução curiosa à juventude de Miguel de Cervantes, mas que passa longe de fazer justiça à grandiosidade do homem que, anos mais tarde, redefiniria a literatura com “Dom Quixote”. Vale ver, mas não espere nenhuma obra-prima. Bom, no máximo.