
Sinopse: O documentário retrata a história do amor entre Leonard Cohen e sua musa norueguesa, Marianne Ihlen, mostrando o relacionamento do casal, desde os primeiros dias na Grécia até Leonard se transformar em um músico de sucesso.
Comentário: O documentário retrata a intensa e duradoura relação amorosa entre o cantor Leonard Cohen e sua musa norueguesa Marianne Ihlen.
Leonard Coen (1934–2016) foi um renomado cantor, compositor, poeta e escritor canadense, conhecido por sua voz grave e canções melancólicas como "Hallelujah" e "Bird on the Wire".
Marianne Ihlen (1935–2016) foi uma mulher norueguesa que morou na ilha grega de Hydra nos anos 1960 e se tornou a principal inspiração romântica de Leonard, especialmente para a famosa música "So Long, Marianne".
O diretor do documentário é Nick Broomfield, que conheceu Marianne quando era jovem na ilha de Hydra, na Grécia. Hydra era, na década de 1960, um refúgio barato e isolado para escritores, pintores e músicos do mundo todo. A ilha não tinha carros, eletricidade ou água encanada regular. A vida era simples, as pessoas usavam burros para transporte e passavam os dias sob o sol, nadando no Mar Egeu e bebendo nas tavernas locais.
A comunidade artística que acabou se formando lá era uma espécie de colônia internacional de expatriados. O ponto de encontro central era a taverna de Katsikas, onde os artistas se reuniam para beber retsina (vinho grego), discutir literatura e cantar.
Marianne já morava na ilha com seu filho pequeno após ser abandonada pelo escritor norueguês Axel Jensen. Leonard chegou a Hydra em 1960, pálido e cansado do inverno de Londres. Ele a viu em uma mercearia e a convidou para se sentar com ele e seus amigos. Pouco tempo depois, Leonard usou uma herança de sua avó para comprar uma casa no local. Era de pedra branca, tinha três andares, sem luz ou água, mas com um terraço com vista para o mar. Foi ali que ele e Marianne viveram os momentos mais intensos de sua relação.
Leonard passava as manhãs movido a anfetaminas, escrevendo em sua máquina de datilografar. Enquanto isso, Marianne cuidava da casa e de seu filho pequeno (do casamento anterior), garantindo que Leonard tivesse um ambiente tranquilo para criar. Ela costumava trazer gardênias e lanches para a mesa dele enquanto ele trabalhava.
Embora as anfetaminas (Mandrax) fossem usadas por Leonard para aguentar jornadas exaustivas de até 20 horas diárias digitando sob o sol escaldante da Grécia, nas horas vagas o consumo do casal e dos amigos incluía um "coquetel" variado formado por LSD, haxixe e maconha e álcool.
Foi em Hydra que Leonard escreveu os romances "A Brincadeira Favorita" (1963) e "Belos Perdedores" (1966). As frustrações com as baixas vendas dos livros e o isolamento na ilha o levaram a começar a compor músicas no violão. A famosa canção "Bird on the Wire" (Pássaro no Fio) nasceu em Hydra. O título surgiu quando a eletricidade finalmente chegou ao local e Leonard viu fios telefônicos sendo instalados do lado de fora de sua janela, onde os pássaros costumavam pousar.
Leonard Cohen foi embora de Hydra em meados de 1966 por uma combinação de crise financeira, ambição profissional e desgaste emocional. Embora amasse a ilha, a dinâmica daquele paraíso começou a sufocá-lo. Ele precisava achar outra forma de ganhar dinheiro e viu no mercado musical dos EUA uma saída viável. Ele estava com 32 anos. Naquela época, o epicentro desse movimento artístico mundial era o bairro de Greenwich Village, em Nova York. Para dar uma chance real à sua nova carreira, ele precisava estar onde a indústria musical fervilhava.
Com a mudança, a relação com Marianne começou a enfrentar crises frequentes devido à distância e à infidelidade constante de Leonard Cohen. Embora o casal tentasse manter um relacionamento aberto - algo comum na comunidade liberal de Hydra -, a distância e o comportamento de Leonard após alcançar o estrelato tornaram a situação insustentável para Marianne. Conta-se que o namoro tenha começado a ruir no final dos anos 1960, mas o ponto final definitivo da relação amorosa aconteceu em 1972 quando uma outra companheira de Leonard, Suzanne Elrod (com quem ele teve dois filhos), apareceu na casa de Hydra e confrontou Marianne, o que a fez decidir deixar a ilha e voltar de vez para a Noruega.
Ao retornar para seu país natal, Marianne reconstruiu completamente sua vida, casando-se em 1979 com Jan Stang, um engenheiro norueguês, e assumindo o papel de madrasta dos três filhos dele. Marianne adotou seu sobrenome, trabalhou no departamento de recursos humanos de uma empresa de plataformas de petróleo, dedicou-se à pintura e ao budismo tibetano.
No final de julho de 2016 ela descobriu que tinha leucemia. Desde o momento em que recebeu o diagnóstico médico até o dia de seu falecimento em Oslo, passaram-se poucas semanas. Por ser um quadro incurável e de rápida evolução, Marianne escreveu uma carta de despedida à Leonard. É o conteúdo dessa famosa carta que encerra o documentário. Ela foi enviada para Leonard Cohen em julho de 2016, enquanto Marianne estava internada. O cineasta norueguês Jan Christian Mollestad, amigo próximo de Marianne, entrou em contato com Leonard para enviar a carta e avisar que ela tinha apenas alguns dias de vida. Apenas duas horas depois, Leonard respondeu com um e-mail poético e profundamente tocante que Mollestad leu para para Marianne enquanto ela ainda estava totalmente consciente, um dia antes de entrar em coma e falecer, em 28 de julho de 2016, aos 81 anos.
Assim como Marianne, Leonard também vinha lutando contra uma leucemia e sofria de dores severas causadas por fraturas por compressão na coluna, o que tornava o ato de se sentar ou ficar em pé um enorme sacrifício. Ele passou a maior parte desse período em sua casa em Los Angeles, sob cuidados médicos e cercado por seus filhos, Adam e Lorca, vindo a falecer 3 meses depois de Marianne, aos 82 anos.
O que eu achei: O filme explora como Leonard Coen e Marianne se conheceram em Hydra, uma ilha que funcionava como uma comunidade de artistas na Grécia, a vida boêmia que compartilharam, o impacto do sucesso musical de Leonard e os caminhos diferentes que tomaram mais tarde na vida. O longa também aborda os últimos dias de ambos, que faleceram com poucos meses de diferença em 2016, incluindo a famosa carta de despedida que Marianne enviou a Leonard pouco antes de morrer. O tom é de muita delicadeza, toda a história prende a atenção até por mostrar vidas muito diferentes de qualquer padrão de 'normalidade' que possamos conhecer. Apesar de todo esse clima de liberdade e boemia retratado em Hydra, o documentário também nos lembra como nem sempre viver em comunidades como essa eram sinônimo de um final feliz. Essa dualidade fica evidente na história contada em paralelo sobre o pequeno Axel Joachim Jensen Jr., filho do primeiro casamento de Marianne com o escritor norueguês Axel Jensen. Como o pai biológico o abandonou logo após seu nascimento, Leonard assumiu a figura paterna desde muito cedo. Ele cuidou da criança desde os primeiros meses de vida, dava banho, alimentava e passeava com o menino pela ilha. Quando Marianne e Axel viajaram para a Noruega, Leonard sentiu tanta falta deles que chegou a enviar um telegrama dizendo: "Tenho casa. Tudo o que preciso é da minha mulher e do filho dela". Então seu carinho por ele parece inegável. Apesar disso, esse estilo de vida cobrou um preço alto. O ambiente repleto de efervescência, festas e uso livre de drogas causou uma severa falta de estrutura emocional na criação do menino. Ao completar 19 anos, Axel desenvolveu sérios problemas psiquiátricos. Ele passou grande parte de sua vida adulta entrando e saindo de instituições de saúde mental na Noruega. O impacto dessa infância caótica gerou tanta repercussão que chegaram a fazer um documentário específico sobre ele chamado "Little Axel" (2022), um média-metragem de 53m que apresenta relatos de que seu pai biológico - que via o menino eventualmente - chegou a introduzi-lo ao LSD quando ele ainda tinha 15 anos. O rapaz veio a falecer em abril de 2026, aos 66 anos de idade, por insuficiência renal em um hospital de Oslo, na Noruega. Entre os fios telefônicos de Hydra que inspiraram canções e as cartas de adeus que fecharam ciclos, o filme costura o belo e o trágico com extrema sensibilidade, finalizando como um retrato comovente de uma época e de como o amor pode ser duradouro e inspirador, mesmo quando moldado por escolhas imperfeitas e vidas que desafiaram qualquer padrão pré-estabelecido. Excelente.