Sinopse: Suécia, 1846. O Dr. Vogler (Max von Sydow) é hipnotista, mágico e líder do Vogler's Magnetic Health Theatre, uma trupe conhecida por suas habilidades sobrenaturais. Quando o espetáculo chega em Estocolmo, os principais habitantes da cidade pedem que sua trupe lhes forneça uma amostra de seu trabalho antes de permitir apresentações públicas. Os descrentes tentam expô-los como charlatães, mas Vogler e sua equipe se mostram espertos demais.
Comentário: Ingmar Bergman é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá à suas obras. Já assisti dele 23 filmes, mas sua produção engloba em torno de uns 60. Dentre os trabalhos já vistos estão as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966), "O Ovo da Serpente" (1977), "Sonata de Outono" (1978) e a minissérie “Fanny e Alexander” (1982). Desta vez vou conferir “O Rosto” (1958).
Nuno Galopim do site Máquina de Escrever publicou: “Refletindo as experiências de Ingmar Bergman como encenador, ‘O Rosto’ (1958) é uma metáfora da criação artística e de como tudo na vida se sustenta e mantém pela fé e pela ilusão. Um dos grandes filmes menos conhecidos do mestre sueco.
A verdade é triste. A verdade é um lago escuro e morto. A verdade corre o risco de não existir, e o universo de ser uma espécie de cebola cósmica que, em última instância, se descascada camada a camada, revelará a sua derradeira face, ou seja, o Nada. Por isso, porque tudo se sustenta pela crença e pela ilusão, podemos dizer que, de certo modo, todas as ideias são delirantes, na medida em que a realidade objetiva (a ‘coisa em si’ kantiana) não pode ser conhecida, está-nos vedada, apenas podendo dela termos representações mentais.
Mas a mente faz jus ao seu nome, isto é, mente-nos. No limite, e como advogam as filosofias hinduístas, a realidade é maya (ilusão), um manto de ilusões que cobre o ‘deserto do real’. Em traços gerais, é este o foco temático de ‘O Rosto’ (1958), de Ingmar Bergman, que, como o cineasta refere no livro autobiográfico ‘Images – My Life in Film’, reflete as suas experiências como encenador no Malmö City Theatre entre 1952 e 1959.
Se podemos encontrar neste filme alguma verdade, essa verdade remete precisamente para o universo artístico e para a natureza do artista. Através da história de uma trupe itinerante de artistas de números ‘esotéricos’ que é submetida a uma avaliação por parte de um pequeno colégio de autoridades da cidade sob acusação de charlatanismo, Bergman elabora uma metáfora sobre a natureza falsa e impostora da criação artística, em que o criador surge como uma espécie de embusteiro que cobre com sucessivas máscaras sedutoras e enganadoras a cruel e desoladora verdade do seu próprio rosto. Como se todos os homens fossem chamados a ser atores no teatro da existência humana, e como se ser e existir passasse sempre por uma mediação teatral da verdade, por uma tradução embelezada, civilizada e artificiosa de uma realidade que precisa de maquiagem e acabamentos para não surgir em toda a sua chocante e vulnerável nudez.
A grande questão que atravessa este filme - que na versão norte-americana conheceu o título ‘The Magician’ - é a da religião. Neste caso, a religião como véu protetor contra um universo ameaçador e sem uma entidade divina que confira um sentido maior à vida humana e, sobretudo, à morte.
Albert Vogler (Max von Sydow), o mágico que lidera a trupe, e cujos ‘inexplicáveis poderes’ são postos à prova diante dos seus céticos avaliadores, é um homem que perdeu a fé, mas que, apesar de morto de cansaço existencial, continua a repetir o seu número desprovido de sentido, qual padre que repetisse um ritual litúrgico cujo simbolismo se tivesse esvaziado. Perante o Dr. Vergerus (Gunnar Björnstrand), que, no seu materialismo científico, acredita que tudo é mensurável e explicável, e que declara que o seu único interesse seria dissecá-lo e compreender a fisiologia do prestidigitador, Vogler montará uma farsa que provará ter a capacidade de assombrar o cínico doutor.
Bergman institui-se assim como o mágico que cria um espetáculo entusiasmante e assombrante mas que é de alto a baixo uma mentira, um truque, um jogo de espelhos (‘smoke and mirrors’). Uma metáfora perfeita de como tudo na vida, começando pela própria ficção, se sustenta e mantém pela fé e pela ilusão.
‘O Rosto’ ganhou o Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes de 1959”.
O que disse a crítica 1: Tim Brayton do site Alternate Ending avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “’O Rosto’ conseguiu demonstrar que podemos saber que algo é falso e ainda assim nos comover, mesmo que queiramos fingir o contrário (o que o filme incentiva com sua cena final tremendamente falsa, na qual tudo termina de forma feliz e perfeita demais, embora a irônica tomada final - ou, mais especificamente, a irônica mixagem de som que a acompanha - deixe claro que o filme não acredita nisso mais do que nós). A arte de Vogler é significativa porque as pessoas querem acreditar em magia; a arte de Bergman é significativa porque as pessoas querem acreditar na transcendência estética”.
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “Mesmo ambientada no século XIX, a película brinca com ‘medos anacrônicos’ e superstições que não pertencem àquele tempo, mas que dão conta de uma tradição oral, fortemente mantida por saltimbancos e artistas em cidades pequenas. As vozes, conselhos e relatos do que viram ‘no mundo’ têm um grande peso para os locais e, mais uma vez, o tema do filme se escancara. São expostas as máscaras e a mágica da arte, mistas de herança cultural e pitadas de ciência popular, aqui demonstrada no nome da Companhia (Teatro de Saúde Magnética de Vogler) e pelos frascos contendo líquidos milagrosos para ressaltar a libido e curar doenças. No meio de tanto engano, promessas e representações, o rosto de Vogler não se esconde mais. E sua máscara cai, sua voz é ouvida e o patetismo das situações de bastidores (como discussão entre casal, humilhação e necessidade financeira) se exibe”.
O que eu achei: “O Rosto” (1958) é um filme menos conhecido do cineasta Ingmar Bergman. A história se passa na Suécia do século XIX, quando um enigmático mágico itinerante chamado Dr. Albert Vogler (Max von Sydow) chega a Estocolmo com sua trupe para se apresentar. As autoridades e médicos da cidade exigem que ele realize uma demonstração antes do show público, pois o consideram um charlatão. Inicia-se então um jogo psicológico onde os céticos tentam desmascarar os truques sobrenaturais do mágico, enquanto ele e sua equipe provam ser mais inteligentes e manipuladores do que o esperado. É através do personagem Albert Vogler que Bergman projeta suas próprias angústias como diretor e criador. O filme mostra a profissão ‘artista’ como uma espécie de ‘farsante que diz a verdade’, alguém que depende da cumplicidade do público com a ilusão para que a sua arte ou magia ganhe vida. O cerne do conflito dramático se dá no eterno conflito humano entre o desejo pelo inexplicável e a necessidade médico-científica de categorizar o mundo. Lançado logo após obras fortemente metafísicas como “O Sétimo Selo” (1957) e “Morangos Silvestres” (1957), “O Rosto” aborda a fé de forma mais irônica, mas não menos profunda. O silêncio autoimposto do personagem Vogler que finge ser mudo no início da trama evoca o silêncio de Deus - um tema recorrente na filmografia de Bergman -, testando os limites da crença daqueles que o cercam. Apesar de não alcançar o patamar de perfeição de outros trabalhos mais conhecidos do diretor, este também merece ser visto, pois faz uma mistura interessante entre a comédia satírica (especialmente no núcleo dos criados e nas poções de amor vendidas pela trupe) e o suspense/terror gótico (com forte uso de sombras, passagens secretas e uma famosa sequência de clímax psicológico que flerta diretamente com o cinema de horror). Foi lançado no Brasil com o título “O Rosto”, mas pode ser encontrado também como “O Mágico” ou pelo título original “Ansiktet”. No elenco, além do Max von Sydow, temos Ingrid Thulin, Erland Josephson, Bibi Andersson e outros atores recorrentes em longas do diretor. Boa pedida.
Nuno Galopim do site Máquina de Escrever publicou: “Refletindo as experiências de Ingmar Bergman como encenador, ‘O Rosto’ (1958) é uma metáfora da criação artística e de como tudo na vida se sustenta e mantém pela fé e pela ilusão. Um dos grandes filmes menos conhecidos do mestre sueco.
A verdade é triste. A verdade é um lago escuro e morto. A verdade corre o risco de não existir, e o universo de ser uma espécie de cebola cósmica que, em última instância, se descascada camada a camada, revelará a sua derradeira face, ou seja, o Nada. Por isso, porque tudo se sustenta pela crença e pela ilusão, podemos dizer que, de certo modo, todas as ideias são delirantes, na medida em que a realidade objetiva (a ‘coisa em si’ kantiana) não pode ser conhecida, está-nos vedada, apenas podendo dela termos representações mentais.
Mas a mente faz jus ao seu nome, isto é, mente-nos. No limite, e como advogam as filosofias hinduístas, a realidade é maya (ilusão), um manto de ilusões que cobre o ‘deserto do real’. Em traços gerais, é este o foco temático de ‘O Rosto’ (1958), de Ingmar Bergman, que, como o cineasta refere no livro autobiográfico ‘Images – My Life in Film’, reflete as suas experiências como encenador no Malmö City Theatre entre 1952 e 1959.
Se podemos encontrar neste filme alguma verdade, essa verdade remete precisamente para o universo artístico e para a natureza do artista. Através da história de uma trupe itinerante de artistas de números ‘esotéricos’ que é submetida a uma avaliação por parte de um pequeno colégio de autoridades da cidade sob acusação de charlatanismo, Bergman elabora uma metáfora sobre a natureza falsa e impostora da criação artística, em que o criador surge como uma espécie de embusteiro que cobre com sucessivas máscaras sedutoras e enganadoras a cruel e desoladora verdade do seu próprio rosto. Como se todos os homens fossem chamados a ser atores no teatro da existência humana, e como se ser e existir passasse sempre por uma mediação teatral da verdade, por uma tradução embelezada, civilizada e artificiosa de uma realidade que precisa de maquiagem e acabamentos para não surgir em toda a sua chocante e vulnerável nudez.
A grande questão que atravessa este filme - que na versão norte-americana conheceu o título ‘The Magician’ - é a da religião. Neste caso, a religião como véu protetor contra um universo ameaçador e sem uma entidade divina que confira um sentido maior à vida humana e, sobretudo, à morte.
Albert Vogler (Max von Sydow), o mágico que lidera a trupe, e cujos ‘inexplicáveis poderes’ são postos à prova diante dos seus céticos avaliadores, é um homem que perdeu a fé, mas que, apesar de morto de cansaço existencial, continua a repetir o seu número desprovido de sentido, qual padre que repetisse um ritual litúrgico cujo simbolismo se tivesse esvaziado. Perante o Dr. Vergerus (Gunnar Björnstrand), que, no seu materialismo científico, acredita que tudo é mensurável e explicável, e que declara que o seu único interesse seria dissecá-lo e compreender a fisiologia do prestidigitador, Vogler montará uma farsa que provará ter a capacidade de assombrar o cínico doutor.
Bergman institui-se assim como o mágico que cria um espetáculo entusiasmante e assombrante mas que é de alto a baixo uma mentira, um truque, um jogo de espelhos (‘smoke and mirrors’). Uma metáfora perfeita de como tudo na vida, começando pela própria ficção, se sustenta e mantém pela fé e pela ilusão.
‘O Rosto’ ganhou o Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes de 1959”.
O que disse a crítica 1: Tim Brayton do site Alternate Ending avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “’O Rosto’ conseguiu demonstrar que podemos saber que algo é falso e ainda assim nos comover, mesmo que queiramos fingir o contrário (o que o filme incentiva com sua cena final tremendamente falsa, na qual tudo termina de forma feliz e perfeita demais, embora a irônica tomada final - ou, mais especificamente, a irônica mixagem de som que a acompanha - deixe claro que o filme não acredita nisso mais do que nós). A arte de Vogler é significativa porque as pessoas querem acreditar em magia; a arte de Bergman é significativa porque as pessoas querem acreditar na transcendência estética”.
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “Mesmo ambientada no século XIX, a película brinca com ‘medos anacrônicos’ e superstições que não pertencem àquele tempo, mas que dão conta de uma tradição oral, fortemente mantida por saltimbancos e artistas em cidades pequenas. As vozes, conselhos e relatos do que viram ‘no mundo’ têm um grande peso para os locais e, mais uma vez, o tema do filme se escancara. São expostas as máscaras e a mágica da arte, mistas de herança cultural e pitadas de ciência popular, aqui demonstrada no nome da Companhia (Teatro de Saúde Magnética de Vogler) e pelos frascos contendo líquidos milagrosos para ressaltar a libido e curar doenças. No meio de tanto engano, promessas e representações, o rosto de Vogler não se esconde mais. E sua máscara cai, sua voz é ouvida e o patetismo das situações de bastidores (como discussão entre casal, humilhação e necessidade financeira) se exibe”.
O que eu achei: “O Rosto” (1958) é um filme menos conhecido do cineasta Ingmar Bergman. A história se passa na Suécia do século XIX, quando um enigmático mágico itinerante chamado Dr. Albert Vogler (Max von Sydow) chega a Estocolmo com sua trupe para se apresentar. As autoridades e médicos da cidade exigem que ele realize uma demonstração antes do show público, pois o consideram um charlatão. Inicia-se então um jogo psicológico onde os céticos tentam desmascarar os truques sobrenaturais do mágico, enquanto ele e sua equipe provam ser mais inteligentes e manipuladores do que o esperado. É através do personagem Albert Vogler que Bergman projeta suas próprias angústias como diretor e criador. O filme mostra a profissão ‘artista’ como uma espécie de ‘farsante que diz a verdade’, alguém que depende da cumplicidade do público com a ilusão para que a sua arte ou magia ganhe vida. O cerne do conflito dramático se dá no eterno conflito humano entre o desejo pelo inexplicável e a necessidade médico-científica de categorizar o mundo. Lançado logo após obras fortemente metafísicas como “O Sétimo Selo” (1957) e “Morangos Silvestres” (1957), “O Rosto” aborda a fé de forma mais irônica, mas não menos profunda. O silêncio autoimposto do personagem Vogler que finge ser mudo no início da trama evoca o silêncio de Deus - um tema recorrente na filmografia de Bergman -, testando os limites da crença daqueles que o cercam. Apesar de não alcançar o patamar de perfeição de outros trabalhos mais conhecidos do diretor, este também merece ser visto, pois faz uma mistura interessante entre a comédia satírica (especialmente no núcleo dos criados e nas poções de amor vendidas pela trupe) e o suspense/terror gótico (com forte uso de sombras, passagens secretas e uma famosa sequência de clímax psicológico que flerta diretamente com o cinema de horror). Foi lançado no Brasil com o título “O Rosto”, mas pode ser encontrado também como “O Mágico” ou pelo título original “Ansiktet”. No elenco, além do Max von Sydow, temos Ingrid Thulin, Erland Josephson, Bibi Andersson e outros atores recorrentes em longas do diretor. Boa pedida.
