16.8.26

"Belén: Uma História de Injustiça" – Dolores Fonzi (Argentina, 2025)

Sinopse:
A advogada Soledad Deza (Dolores Fonzi) assume o caso de uma jovem (Camila Plaate) injustamente condenada à prisão após ser acusada de realizar um aborto ilegal. Ambas as mulheres enfrentam um sistema judicial corrupto e uma sociedade que deseja vê-las fracassar. À medida que o caso de Belén ganha notoriedade, surge um movimento feminista que repercute por toda a Argentina.
Comentário: Dolores Fonzi (1978) é uma atriz, diretora e produtora argentina. Iniciou sua carreira ainda jovem, ganhando destaque na televisão com a série "Verano del '98" (1998). Ao longo dos anos, consolidou-se como uma das atrizes mais respeitadas do cinema latino-americano, em filmes como "A Aura" (2005) de Fabián Bielinsky e "Paulina" (2015) de Santiago Mitre - prêmio de Melhor Atriz em San Sebastián. Como diretora e roteirista, é conhecida por seu engajamento social e político. "Belén: Uma História de Injustiça" (2025) é o primeiro filme que vejo dela.
Rafaela Gomes do CinePOP nos conta que "Escolhido para representar a Argentina no Oscar 2026 e exibido na seleção oficial do Festival do Rio 2025, 'Belén' é o novo trabalho da cineasta e atriz Dolores Fonzi - uma complexa obra que faz uma difícil reflexão social a respeito de um dos assuntos mais controversos ao redor do mundo: o aborto.
Baseado no livro 'Somos Belén', de Ana Correa, o longa acompanha Julieta (Camila Plaate), uma jovem vítima de um aborto espontâneo que é falsamente acusada de interromper sua gestação de maneira ilegal. Com o apoio da advogada Soledad Deza (vivida por Fonzi), ela enfrentará os tribunais sociais a fim de provar sua inocência e quem sabe mudar o cenário argentino de forma permanente.
Ambientado em Tucumán, 'Belén' revisita um episódio real ocorrido em uma Argentina marcada por tensões morais e jurídicas. Com direção delicada e atuações potentes, o filme se propõe a discutir o que há de mais universal nas histórias de injustiça: o desejo humano por dignidade e empatia.
Em entrevista ao CinePOP, durante o Festival do Rio 2025, Fonzi recordou o que mais a impressionou ao conhecer o caso retratado no filme: 'O que me pareceu mais absurdo é como, em uma cidade pequena como Tucumán, ninguém soube que ela estava presa por dois anos e meio. Isso é o mais impressionante. As próprias advogadas que descobriram o caso diziam: ‘como é possível que não tenhamos sabido?’
A diretora reflete que o isolamento de Julieta simboliza um silêncio coletivo - e também a força contida na própria protagonista. 'Ela não queria que ninguém soubesse, e conseguiu isso. Quando quis que se soubesse, tudo veio à tona. Há algo poderoso nesse gesto: foi presa e desapareceu. E, de repente, reaparece e muda tudo'.
Depois de uma longa trajetória como atriz, Fonzi decidiu se aventurar para atrás das câmeras, em um processo de transição que ela considera ter sido natural, ainda que tenha sido marcado por diversos desafios e adequações. 'O mais difícil é confiar que vai dar certo. Na primeira vez, foi complicado entender como seria atuar e dirigir ao mesmo tempo, mas acabou sendo mais fácil do que eu imaginava. O segredo é se cercar de uma equipe talentosa, em quem você acredita e pode descansar. Dirigir é um ato de confiança coletiva'.
A cineasta conta que a ideia de adaptar o livro de Ana Correa surgiu após a experiência de seu primeiro longa como diretora: 'Quando o livro saiu, eu ainda não tinha dirigido. Só depois da minha primeira experiência na direção é que me propuseram fazer 'Belén'. Não era um projeto que eu imaginava dirigir, mas quando o convite chegou, me pareceu um presente'.
E diante de um assunto tão controverso, que fortalece ainda mais a polarização política e social ao redor do mundo, a diretora argentina tenta manter a esperança de um novo tempo onde a aceitação do outro seja superior às diferenças ideológicas. Demonstrando uma certa preocupação com o cenário atual, ela salienta sua fé profunda na arte como uma espécie de manifesto: 'É difícil acreditar que o mundo vai se unir, porque às vezes parece que há pessoas sem alma. Mas há outras com alma - e 'Belén' é um filme com alma. É sobre sentir, sobre se conectar com o humano. O que podemos fazer é resistir criando a partir do coração, da empatia e do amor. Essa é uma história que fala sobre união, sobre o poder do coletivo. Porque só quando as pessoas se unem é que algo realmente muda'.
E ainda que 'Belén' seja um complexo relato sobre a autonomia corporal da mulher, o longa busca cruzar os questionamentos a que se propõe, a fim de transcender a densa e exaustiva conversa sobre o aborto. Ao afirmar que sua obra é de fato sobre a essência do que é ser humano perante questões tão difíceis, Fonzi lembra a si mesma e a audiência sobre o poder de contar histórias que sejam relacionáveis e que nos permitam enxergar o outro para além de suas convicções – ainda que sejam divergentes ou contraditórias. 'Acho que a força do filme vai além do tema. É sobre empatia, sobre se unir, sobre não ficar indiferente. É sobre o que acontece quando alguém escolhe não olhar para o lado', concluiu".
Além de ser o representante da Argentina no Oscar, o filme foi indicado à Melhor Filme no Internacional Critics Choice.
O que disse a crítica 1: Cath Clarke do site The Guardian avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "O filme é essencialmente um drama jurídico: sólido, em sua maior parte divertido e ocasionalmente emocionante. Acompanha [a advogada] Deza e sua equipe passo a passo enquanto lutam contra o sistema para que Belén consiga o recurso. Conforme o caso se desenrola, ele toma conta dos momentos de vigília de Deza, causando ondas de ressentimento em sua família. É um lembrete das expectativas em relação ao trabalho e à vida pessoal para as mulheres – não importa o quão importante seja seu trabalho, perder o recital de violino do seu filho não será perdoado. O filme termina em um clímax emocionante (...).
O que disse a crítica 2: Paula Vázquez Prieto do site La Nation avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "'Belén' tem senso de humor, estabelece com segurança o desenvolvimento de sua narrativa, evita simplificações maniqueístas ao apresentar contradições - a forma como as ameaças contra [a advogada] Deza aparecem é o melhor exemplo dessa escolha - e se torna entusiasmada - talvez até um pouco demais - no final, com uma epopeia que, em retrospectiva, se revela fundamental para conquistas posteriores".
O que eu achei: Me surpreendeu positivamente o filme "Belén: Uma História de Injustiça" (2025), o longa argentino que foi enviado para concorrer ao Oscar em 2025. Trata-se de uma adaptação do livro “Somos Belén” (2019), escrito pela jornalista, advogada e ativista argentina Ana Correa, que conta um caso real que teve forte repercussão internacional: a dramática jornada jurídica de uma jovem de 27 anos da província de Tucumán presa injustamente em 2014 após sofrer um aborto espontâneo em um hospital público e ser falsamente acusada de infanticídio. O pseudônimo Belén - dado à personagem Julieta - é um codinome usado como proteção jurídica. Julieta também não é o seu nome real. Proteger sua identidade foi fundamental para preservar sua integridade física contra perseguições e linchamentos públicos de grupos conservadores. Até hoje, o público geral não sabe o nome verdadeiro da mulher por trás do caso. Nessa época – 2014 – a presidente da Argentina era Cristina Kirchner, cuja posição oficial sobre o aborto era de estrita oposição e resistência à descriminalização. O fato é que Belén não foi julgada adequadamente. Quando ela deu entrada no hospital ela estava grávida de poucos dias e ela mesma nem sabia disso. A busca pelo atendimento de emergência se deu por conta de cólicas abdominais intensas e dores de estômago. Ao chegar no hospital e ir ao banheiro foi que ela percebeu que estava sangrando e a equipe médica a informou que ela estava sofrendo um aborto. Algum funcionário acreditou que ela havia provocado esse aborto e chamou a polícia. Com isso Belén foi pega de surpresa duas vezes: por descobrir que estava grávida e abortando e por ser presa injustamente. Belén amargou 29 meses de cela. Se não fosse a advogada Soledad Deza assumir o caso, talvez ela estivesse presa até hoje. A luta pela libertação de Belén mobilizou coletivos feministas, organizações de direitos humanos e a Anistia Internacional. A tal "Onda Verde" tornou-se um marco e um símbolo na discussão sobre os direitos reprodutivos na América Latina, abrindo caminho para, em 2020, a Argentina – presidida por Alberto Fernández com a Cristina Kirchner de vice - legalizar o aborto. Conta-se que Cristina Kirchner consolidou sua nova posição alinhada ao projeto do governo de Alberto Fernández, liderando pessoalmente a longa e tensa sessão de debates no Senado. Atualmente, sob o mandato do presidente Javier Milei, a lei do aborto legal continua em vigor no país, mas o acesso real ao procedimento vem enfrentando severas restrições práticas. Quem se interessa por dramas de tribunal e ativismo político com certeza vai gostar. A história é comovente, é tratada com sensibilidade e possui atuações magníficas na dupla principal. Vale ver.