
Comentário: Luis Buñuel (1900-1983) foi um cineasta espanhol, naturalizado mexicano. Em 1920 ele fundou com alguns amigos o primeiro cineclube da Espanha; em 1922 ele publicou os seus primeiros textos literários e em 1924, após estudar Engenharia Agrônoma, Engenharia Industrial e Filosofia, ele formou o núcleo Geração 27 ao lado de Pepín Bello, Federico García Lorca e Salvador Dalí. Ele se envolveu com teatro, com crítica de cinema e entrou para o cinema. Assisti dele os bons "O Alucinado" (1953) e "Viridiana" (1961). Desta vez vou conferir “O Anjo Exterminador” (1962).
Imagine a seguinte situação: “uma festa de gala é oferecida na mansão de um rico casal. Os convidados e os anfitriões acabam de chegar de uma audição de Lucia de Lammermoor, de Donizetti. As horas passam, e quando os convidados preparam-se para despedir-se, algo estranho acontece: ninguém consegue transpor os umbrais da sala ou entrar na mansão - vê-se aqui uma alusão ao episódio do extermínio dos primogênitos do Egito, narrado nos capítulo 11 e 12 do livro de Êxodo, no Antigo Testamento. Os dias se passam com as pessoas trancadas na sala. Ninguém consegue manter uma aparência social aceitável por tanto tempo e então as máscaras pessoais caem. A desvirtude de Buñuel está instaurada”.
O que disse a crítica: Segundo Luis Santiago do Plano Crítico, “O tema religioso, ao contrário do que muita gente pensa, não é o motivo principal desta obra. A religião aqui é apenas mais uma obrigação social a ser cumprida pelos aristocratas e artistas. Na realidade, todos pretendem pavonear seus corpos e seu intelecto, exibir felicidade e saúde, fingir ser o que não são. Mas o sortilégio exterminador tem outros planos para esse jantar na Rua da Providência (um nome irônico para o que vemos acontecer com esses pobres coitados)”.
Para Diego Bauer do Cineset, “O universo visto no filme é apocalíptico, as situações são originadas por acontecimentos totalmente não naturalistas, nada se justifica de maneira plausível dentro daquela casa. Mas o comportamento humano é perfeitamente reconhecível e infelizmente apresenta uma coerência mórbida e violenta: uma vez que pessoas são colocadas em risco, seus instintos primitivos vêm à tona trazendo suas respostas mais individualistas, cruéis, hipócritas às situações que se apresentam. A educação na forma de falar, tratar, de ser gentil com o seu semelhante é colocada de lado num curtíssimo espaço de tempo, como se tudo isso fosse um fardo que, uma vez que as relações de aparência são deixadas de lado, é difícil de carregar, que só se carrega pelas convenções, e sem eles se é mais verdadeiro e direto ao ponto para ferir o outro”.
Danilo Fantinel do Papo de Cinema disse, “O texto afinado de Buñuel, simples e direto, compõe o perfil dos agentes da ação fílmica criada pelo artista, estimulando um ritmo narrativo bem alinhado a planos, cenas e sequências belamente compostos. À fotografia do filme é dada extrema atenção, algo nítido em movimentações de câmera como travellings que ressaltam um clima de mistério distante de suspenses tradicionais. Aqui as potencialidades, dúvidas, dubiedades e debilidades de mentes traumatizadas pelo convívio forçado e misterioso apontam raízes nos conteúdos tanto do inconsciente pessoal quanto coletivo - tão importantes para surrealistas como Buñuel e Salvador Dalí quanto para a psicologia analítica de Carl Gustav Jung”.
O que eu achei: Eu, que vi de Buñuel “O Alucinado” (1953) e “Viridiana” (1961), achei este o mais surreal dos três, já que ele conta com uma premissa inverossímil e com detalhes – uma mulher que carrega uma pata de galinha na bolsa, por exemplo – fora do habitual. Nada no filme é óbvio, tudo depende de uma interpretação. É um filme complexo que vale, no mínimo, pela curiosidade de conhecer um material considerado por muitos uma obra-prima. O filme concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1962. Até hoje ele se mantém atual e relevante. O tempo passa e a obra permanece.