9.1.23

“O Anjo Exterminador” - Luis Buñuel (México, 1962)

Sinopse:
 
Um casal da elite da sociedade aristocrata - Edumundo Nobile (Enrique Rambal) e Lucia de Nobile (Lucy Gallardo) - convida um grupo de amigos para um jantar em sua luxuosa mansão. Mas, depois do evento, eles descobrem que estão presos em uma sala. Não há nada físico, como grades, que os prendam ali mas, ao mesmo tempo, ninguém consegue sair ou entrar daquele local: algo os faz reféns. Enquanto os dias passam, todas as máscaras e convenções sociais vão desaparecendo, dando lugar aos instintos mais primitivos de cada um.
Comentário: Luis Buñuel (1900-1983) foi um cineasta espanhol, naturalizado mexicano. Em 1920 ele fundou com alguns amigos o primeiro cineclube da Espanha; em 1922 ele publicou os seus primeiros textos literários e em 1924, após estudar Engenharia Agrônoma, Engenharia Industrial e Filosofia, ele formou o núcleo Geração 27 ao lado de Pepín Bello, Federico García Lorca e Salvador Dalí. Ele se envolveu com teatro, com crítica de cinema e entrou para o cinema. Assisti dele os bons "O Alucinado" (1953) e "Viridiana" (1961). Desta vez vou conferir “O Anjo Exterminador” (1962).
Imagine a seguinte situação: “uma festa de gala é oferecida na mansão de um rico casal. Os convidados e os anfitriões acabam de chegar de uma audição de Lucia de Lammermoor, de Donizetti. As horas passam, e quando os convidados preparam-se para despedir-se, algo estranho acontece: ninguém consegue transpor os umbrais da sala ou entrar na mansão - vê-se aqui uma alusão ao episódio do extermínio dos primogênitos do Egito, narrado nos capítulo 11 e 12 do livro de Êxodo, no Antigo Testamento. Os dias se passam com as pessoas trancadas na sala. Ninguém consegue manter uma aparência social aceitável por tanto tempo e então as máscaras pessoais caem. A desvirtude de Buñuel está instaurada”. 
O que disse a crítica: Segundo Luis Santiago do Plano Crítico, “O tema religioso, ao contrário do que muita gente pensa, não é o motivo principal desta obra. A religião aqui é apenas mais uma obrigação social a ser cumprida pelos aristocratas e artistas. Na realidade, todos pretendem pavonear seus corpos e seu intelecto, exibir felicidade e saúde, fingir ser o que não são. Mas o sortilégio exterminador tem outros planos para esse jantar na Rua da Providência (um nome irônico para o que vemos acontecer com esses pobres coitados)”. 
Para Diego Bauer do Cineset, “O universo visto no filme é apocalíptico, as situações são originadas por acontecimentos totalmente não naturalistas, nada se justifica de maneira plausível dentro daquela casa. Mas o comportamento humano é perfeitamente reconhecível e infelizmente apresenta uma coerência mórbida e violenta: uma vez que pessoas são colocadas em risco, seus instintos primitivos vêm à tona trazendo suas respostas mais individualistas, cruéis, hipócritas às situações que se apresentam. A educação na forma de falar, tratar, de ser gentil com o seu semelhante é colocada de lado num curtíssimo espaço de tempo, como se tudo isso fosse um fardo que, uma vez que as relações de aparência são deixadas de lado, é difícil de carregar, que só se carrega pelas convenções, e sem eles se é mais verdadeiro e direto ao ponto para ferir o outro”. 
Danilo Fantinel do Papo de Cinema disse, “O texto afinado de Buñuel, simples e direto, compõe o perfil dos agentes da ação fílmica criada pelo artista, estimulando um ritmo narrativo bem alinhado a planos, cenas e sequências belamente compostos. À fotografia do filme é dada extrema atenção, algo nítido em movimentações de câmera como travellings que ressaltam um clima de mistério distante de suspenses tradicionais. Aqui as potencialidades, dúvidas, dubiedades e debilidades de mentes traumatizadas pelo convívio forçado e misterioso apontam raízes nos conteúdos tanto do inconsciente pessoal quanto coletivo - tão importantes para surrealistas como Buñuel e Salvador Dalí quanto para a psicologia analítica de Carl Gustav Jung”. 
O que eu achei: Eu, que vi de Buñuel “O Alucinado” (1953) e “Viridiana” (1961), achei este o mais surreal dos três, já que ele conta com uma premissa inverossímil e com detalhes – uma mulher que carrega uma pata de galinha na bolsa, por exemplo – fora do habitual. Nada no filme é óbvio, tudo depende de uma interpretação. É um filme complexo que vale, no mínimo, pela curiosidade de conhecer um material considerado por muitos uma obra-prima. O filme concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1962. Até hoje ele se mantém atual e relevante. O tempo passa e a obra permanece.